Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Um degrau para a verdadeira luz

"   É essa doutrina que oferecemos aos pesquisadores de todas as ordens e todas as classes. Ela já tem sido divulgada em numerosos volumes. Acreditamos nosso dever resumi-la nestas páginas, sob uma forma diferente, na intenção daqueles que estão cansados de viver como cegos, ignorando-se a si mesmos, daqueles que não se satisfazem mais com as obras de uma civilização material e inteiramente superficial, mas que aspiram a uma ordem de coisas mais elevada. É sobretudo para vós, filhos e filhas do povo, para quem a jornada é áspera, a existência difícil, para quem o céu é mais negro, mais frio o vento da adversidade; é para vós que este livro foi escrito. Não vos trará ele toda a ciência – que o cérebro humano não poderia conter –, porém será mais um degrau para a verdadeira luz. Provando-vos que a vida não é uma ironia da sorte nem o resultado de um acaso estúpido, mas a consequência de uma lei justa e equitativa, abrindo-vos as perspectivas radiosas do futuro, ele fornecerá um alvo mais nobre às vossas acções, fará luzir um raio de esperança na noite de vossas incertezas, aliviará o fardo de vossas provações e ensinar-vos-á a não mais tremer diante da morte. Abri-o confiantemente; lede-o com atenção, porque emana de um homem que, acima de tudo, quer o vosso bem.
   Entre vós, muitos talvez rejeitem nossas conclusões: um pequeno número somente as aceitará. Que importa! Não vamos em busca de êxitos. Um único móbil inspira-nos: o respeito, o amor à verdade. Uma só ambição anima-nos: quereríamos, quando nosso gasto invólucro voltasse à terra, que o Espírito imortal pudesse dizer a si mesmo: minha passagem pelo mundo não terá sido estéril se contribuí para mitigar uma só dor, para esclarecer uma só inteligência em busca da verdade, para reconfortar uma só alma vacilante e contristada."

LÉON DENIS in Depois da Morte, Introdução (5 de 5)
(imagem: detalhe Salvador Dali, 1950_05)

A solução do grande problema

"   No momento mesmo em que o materialismo atingia o seu apogeu, e por toda parte espalhava a idéia do nada, surge uma crença nova apoiada em factos. Ela oferece ao pensamento um refúgio onde se encontra, afinal, o conhecimento das leis eternas de progresso e de justiça. Um florescimento de idéias que se acreditava mortas, mas que dormitavam apenas, produz-se e anuncia uma renovação intelectual e moral. Doutrinas, que foram a alma das civilizações passadas, reaparecem sob mais desenvolvida forma, e numerosos fenómenos, por muito tempo desdenhados, mas cuja importância enfim é pressentida por certos sábios, vêm oferecer-lhe uma base de demonstração e de certeza. As práticas do magnetismo, do hipnotismo, da sugestão e, mais ainda, os estudos de Crookes, Russel Wallace, Paul Gibier, etc., sobre as forças psíquicas, fornecem novos dados para a solução do grande problema. Abrem-se abismos, formas de existência revelam-se em centros onde não mais se cuidava de observá-los. E, dessas pesquisas, desses estudos, dessas descobertas, nascem uma concepção do mundo e da vida, um conhecimento de leis superiores, uma afirmação da ordem e da justiça universais, apropriados a despertar no coração do homem, com uma fé mais firme e mais esclarecida no futuro, um sentimento profundo dos seus deveres, um afecto real por seus semelhantes, capazes de transformarem a face das sociedades."

LÉON DENIS in Depois da Morte, Introdução (4 de 5)

Excessos de revoltas

"   A morte é o ponto de interrogação ante nós incessantemente colocado, o primeiro tema a que se ligam questões sem-número, cujo exame faz a preocupação, o desespero dos séculos, a razão de ser de imensa cópia de sistemas filosóficos. Apesar desses esforços do pensamento, a obscuridade tem pesado sobre nós. A nossa época se agita nas trevas e no vácuo, e procura, sem achar, um remédio a seus males. Imensos são os progressos materiais, mas no seio das riquezas acumuladas, pode-se ainda morrer de privações e de miséria. O homem não é mais feliz nem melhor. No meio dos seus rudes labores, nenhum ideal elevado, nenhuma noção clara do destino o sustém; daí seus desfalecimentos morais, excessos de revoltas. Extinguiu-se a fé do passado; o cepticismo e o materialismo substituíram-na e, ao sopro destes, o fogo das paixões, dos apetites, dos desejos, tem-se ateado. Convulsões sociais ameaçam-nos.
   Às vezes, atormentado pelo espectáculo do mundo e pelas incertezas do futuro, o homem levanta os olhos para o céu, e pergunta-lhe a verdade. Interroga silenciosamente a Natureza e o seu próprio espírito. Pede à Ciência os seus segredos, à Religião os seus entusiasmos. Mas, a Natureza parece-lhe muda, e as respostas dos sábios e dos sacerdotes não satisfazem à sua razão nem ao seu coração. Entretanto, existe uma solução para esses problemas, solução melhor, mais racional e mais consoladora que todas as oferecidas pelas doutrinas e filosofias do dia; tal solução repousa sobre as bases mais sólidas que conceber se possa: o testemunho dos sentidos e a experiência da razão."

LÉON DENIS in Depois da Morte, Introdução (3 de 5)

Flores brilhantes

"   Em sua carreira, para onde vai, pois, o homem? Para o nada ou para uma luz desconhecida? A Natureza risonha, eterna, moldura as tristes ruínas dos impérios, com os seus esplendores. Nela nada morre, senão para renascer. Leis profundas, uma ordem imutável, presidem às suas evoluções. Só o homem, com suas obras, terá por destino o nada, o olvido? A impressão produzida pelo espectáculo das cidades mortas, ainda a encontrei mais pungente diante dos frios despojos dos entes que me são caros, daqueles que partilharam a minha vida.
   – Um desses a quem amais vai morrer. Inclinado para ele, com o coração opresso, vedes estender-se lentamente, sobre suas feições, a sombra da morte. O foco interior nada mais dá que pálidos e trémulos lampejos; ei-lo que se enfraquece ainda, depois se extingue. E agora, tudo o que nesse ser atestava a vida, esses olhos que brilhavam, essa boca que proferia sons, esses membros que se agitavam, tudo está velado, silencioso, inerte. Nesse leito fúnebre mais não fui que um cadáver! Qual o homem que a si mesmo não pediu a explicação desse mistério, e que, durante a vigília lúgubre, nesse silenciar solene com a morte, deixou de reflectir no que o espera a si próprio? A todos interessa esse problema, porque todos estamos sujeitos à lei.
   Convém saber se tudo acaba nessa hora, se mais não é a morte que triste repouso no aniquilamento, ou, ao contrário, o ingresso em outra esfera de sensações.
   Mas, de todos os lados levantam-se problemas. Por toda parte, no vasto teatro do mundo, dizem certos pensadores, reina como soberano o sofrimento; por toda parte, o aguilhão da necessidade e da dor estimula esse galope desenfreado, esse bailado terrível da vida e da morte. De toda parte levanta-se o grito angustioso do ser que se precipita no caminho do desconhecido. Para esse, a existência só parece um perpétuo combate: a glória, a riqueza, a beleza, o talento – realezas de um dia! A morte passa, ceifando essas flores brilhantes, para só deixar hastes fanadas."

LÉON DENIS in Depois da Morte, Introdução (2 de 5)

Pedras amontoadas

"   Vi, deitadas em suas mortalhas de pedra ou de areia, as cidades famosas da antiguidade: Cartago, em brancos promontórios, as cidades gregas da Sicília, os arrabaldes de Roma, com os aquedutos partidos e os túmulos abertos, as necrópoles que dormem um sono de vinte séculos, debaixo das cinzas do Vesúvio. Vi os últimos vestígios das cidades longínquas, outrora formigueiros humanos, hoje ruínas desertas, que o sol do Oriente calcina com suas carícias ardentes.
   Evoquei as multidões que se agitaram e viveram nesses lugares: vi-as desfilar, diante do meu pensamento, com as paixões que as consumiram, com seus ódios, seus amores e suas ambições desvanecidas, com seus triunfos e reveses – fumaças dissipadas pelo sopro dos tempos. Vi os soberanos, chefes de impérios, tiranos ou heróis, cujos nomes foram celebrados pelos fastos da História, mas que o futuro esquecerá.
   Passavam como sombras efémeras, como espectros truanescos que a glória embriaga uma hora, e que o túmulo chama, recebe e devora. E disse comigo mesmo: Eis em que se transformam os grandes povos, as capitais gigantes – algumas pedras amontoadas, colinas silenciosas, sepulturas sombreadas por mirrados vegetais, em cujos ramos o vento da noite murmura suas queixas. A História registou as vicissitudes de sua existência, suas grandezas passageiras, sua queda final, porém tudo a terra sepultou. Quantos outros cujos nomes mesmos são desconhecidos; quantas civilizações, raças, cidades grandiosas, jazem para sempre sob o lençol profundo das águas, na superfície dos continentes submersos!
   E perguntei a mim mesmo: por que essas gerações a se sucederem como camadas de areia que, acarretadas incessantemente pelas ondas, vão cobrir outras camadas que as precederam? Por que esses trabalhos, essas lutas, esses sofrimentos, se tudo deve terminar no sepulcro? Os séculos, esses minutos da eternidade, viram passar nações e reinos, e nada ficou de pé. A esfinge tudo devorou!"

LÉON DENIS in Depois da Morte, Introdução (1 de 5)

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Indicação fraterna

“Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu…”
– Pedro.
(I Pedro, 4:10.)

Este o caminho para o necessário burilamento: trabalhar, aprender, sofrer, dar presença e colaboração na Causa do Bem.
O amor encerra em si as leis do Universo e tudo o que fizeres contra o amor é algo que criamos contra nós mesmos. Aceita, desse modo, no sacrifício a mais alta norma de acção.
Não fujas dos encargos que a Sabedoria da Vida te entregou. Acima de tudo, promove-te, servindo mais.
O suor do trabalho confere experiência.
A lágrima de aflição acende a luz espiritual.
Quando a dor te visite, reflecte-lhe a mensagem.
Não fosse a prova e ninguém conseguia entesourar compreensão e discernimento.
Nos dias de desacerto, ainda quando te reconheças na sombra do fracasso, levanta-te, reinicia a tarefa e completa, de novo, a bênção do Sol, na convicção de que o erro superado nos ensina indulgência, amolecendo-nos o coração, a fim de que venhamos a entender e desculpar as faltas possíveis dos semelhantes. Mesmo nas crises que te estrangulam a sensibilidade, sê fiel ao ideal de servir e não esmoreças.
Não esperes por descanso externo, quando não tiveres a paz dentro de ti.
Haja o que houver, não te interrompas, na tarefa em execução, para ouvir sarcasmo ou censura. Oferece o melhor de ti aos que te compartilham a estrada, e, conserva a consciência tranquila, trabalha sempre, lembrando, a cada momento, que, assim como o fruto fala da árvore, o serviço é a testemunha do servidor.

ESPÍRITO EMMANUEL, Ceifa de Luz – Indicação fraterna, psicografia de FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER
(imagem: Salvador Dali, 1945_01)

sábado, 23 de julho de 2011

Até à libertação da Servidão dos Renascimentos~


   “Segundo a opinião dos teósofos, o regresso da alma à carne efectua-se a cada mil e quinhentos anos.  Esta teoria não é confirmada nem pelos factos nem pelo testemunho dos Espíritos. Estes, interrogados em grande número, em meios muito diversos, responderam que a reencarnação é muito mais rápida; as almas ávidas de progresso demoram-se pouco no espaço. Pedem o regresso à vida deste mundo para conquistar novos títulos, novos méritos. Possuímos sobre as existências anteriores de certa pessoa indicações recolhidas, em pontos muito afastados uns dos outros, da boca de médiuns que nunca se conheceram, indicações perfeitamente concordes entre si e com as intuições do interessado. Demonstram que apenas vinte, trinta anos, quando muito, separaram as suas vidas terrestres. Não há, quanto a isso, regra exacta. As encarnações aproximam-se ou se distanciam segundo o estado das almas, seu desejo de trabalho e adiantamento e as ocasiões favoráveis que se lhes oferecem; nos casos de morte precoce, são quase imediatas.

   Sabemos que o corpo fluídico materializa-se ou purifica-se conforme a natureza dos pensamentos e das acções do Espírito. As almas viciosas atraem a si, por suas tendências, fluidos impuros, que lhes tornam mais espesso o invólucro e lhes diminuem as radiações. À morte, não podem elevar-se acima das nossas regiões e ficam confinadas na atmosfera ou misturadas com os humanos; se persistem no mal, a atracção planetária torna-se tão poderosa que lhes precipita a reencarnação.

   Quanto mais material e grosseiro é o Espírito, tanto mais influência tem sobre ele a lei de gravidade; com os Espíritos puros, cujo perispírito radioso vibra a todas as sensações do infinito e que acham nas regiões etéreas meios apropriados à sua natureza e ao seu estado de progressão, produz-se o fenómeno inverso. Chegados a um grau superior, esses Espíritos prolongam cada vez mais a sua estada no espaço; as vidas planetárias tornam-se para eles a excepção e a vida livre a regra, até que a soma das perfeições realizadas os liberte para sempre da servidão dos renascimentos.”

LÉON DENIS, O Problema do ser, do destino e da dor, Segunda Parte/O Problema do Destino, XIII – As vidas sucessivas. A reencarnação e suas Leis (7 de 7)
(imagem: pintura de Salvador Dali, 1943_01)

A vida do espaço é a forma necessária e simétrica da vida terrestre

“Em cada regresso ao espaço procede-se ao balanço dos lucros e perdas; avaliam-se e firmam-se os progressos. O ser examina-se e julga-se; perscruta minuciosamente a sua história recente, em si mesmo escrita; passa em revista os frutos de experiência e sabedoria que a sua última vida lhe proporcionou, para mais profundamente assinalar-lhes a substância.
A vida do espaço é, para o Espírito que evoluiu, o período de exame, de recolhimento, em que as faculdades, depois de se terem gasto no exterior, reflectem-se, aplicam-se ao estudo íntimo, ao interrogatório da consciência, ao inventário rigoroso da beleza ou fealdade que há na alma. A vida do espaço é a forma necessária e simétrica da vida terrestre, vida de equilíbrio, em que as forças se reconstituem, em que as energias se retemperam, em que os entusiasmos se reanimam, em que o ser se prepara para as futuras tarefas; é o descanso depois do trabalho, a bonança depois da tormenta, a concentração tranquila e serena depois da expansão activa ou do conflito ardente.”

LÉON DENIS, O Problema do ser, do destino e da dor, Segunda Parte/O Problema do Destino, XIII – As vidas sucessivas. A reencarnação e suas Leis (6 de 7)

O nosso futuro está em nossas mãos

Entretanto, não será sem custo que ela se levantará; a ascensão não prosseguirá sem dificuldades. As faltas e os erros cometidos repercutem como causas de obstrução nas vias futuras e o esforço terá de ser tanto mais enérgico e prolongado quanto mais pesadas forem as responsabilidades, quanto mais extenso tiver sido o período de resistência e obstinação no mal. Na escabrosa e íngreme subida, o passado dominará por muito tempo o presente e o seu peso fará vergar mais de uma vez os ombros do caminhante; mas, do Alto, mãos piedosas estender-se-ão para ele e ajudá-lo-ão a transpor as passagens mais escarpadas. “Há mais alegria no Céu por um pecador que se arrepende do que por cem justos que perseveram.”
O nosso futuro está em nossas mãos e as nossas facilidades para o bem aumentam na razão directa dos nossos esforços para o praticarmos. Toda vida nobre e pura, toda missão superior é o resultado de um passado imenso de lutas, de derrotas sofridas, de vitórias ganhas contra nós mesmos; é o remate de trabalhos longos e pacientes, a acumulação de frutos de ciência e caridade colhidos, um por um, no decurso das idades. Cada faculdade brilhante, cada virtude sólida reclamou existências multíplices de trabalho obscuro, de combates violentos entre o espírito e a carne, a paixão e o dever. Para chegar ao talento, ao gênio, o pensamento teve de amadurecer lentamente através dos séculos. O campo da inteligência, penosamente desbravado, a princípio apenas deu escassas colheitas; depois, pouco a pouco, vieram as searas cada vez mais ricas e abundantes.

LÉON DENIS, O Problema do ser, do destino e da dor, Segunda Parte/O Problema do Destino, XIII – As vidas sucessivas. A reencarnação e suas Leis (5 de 7)

A Alma, senhora do seu destino

“Senhora do seu destino, a alma tem de sujeitar-se ao estado de coisas que preparou, que escolheu. Todavia, depois de haver feito de sua consciência um antro tenebroso, um covil do mal, terá de transformá-lo em templo de luz. As faltas acumuladas farão nascer sofrimentos mais vivos; suceder-se-ão mais penosas, mais dolorosas as encarnações; o círculo de ferro apertar-se-á até que a alma, triturada pela engrenagem das causas e dos efeitos que houver criado, compreenderá a necessidade de reagir contra suas tendências, de vencer suas ruins paixões e de mudar de caminho. Desde esse momento, por pouco que o arrependimento a sensibilize, sentirá nascer em si forças, impulsões novas que a levarão para meios mais adequados à sua obra de reparação, de renovação, e passo a passo irá fazendo progressos. Raios e eflúvios penetrarão na alma arrependida e enternecida, aspirações desconhecidas, necessidades de acção útil e de dedicação hão de despertar nela. A lei de atracção, que a impelia para as últimas camadas sociais, reverterá em seu benefício e tornar-se-á o instrumento da sua regeneração.”

LÉON DENIS, O Problema do ser, do destino e da dor, Segunda Parte/O Problema do Destino, XIII – As vidas sucessivas. A reencarnação e suas Leis (4 de 7)

A atracção da Alma para genitores semelhantes

“Temíveis são certas atracções para as almas que procuram as condições de um renascimento, por exemplo, as famílias de alcoólicos, de devassos, de dementes. Como conciliar a noção de justiça com a encarnação dos seres em tais meios? Não há aí, em jogo, razões psíquicas profundas e latentes e não são as causa físicas apenas uma aparência? Vimos que a lei de afinidade aproxima os seres similares. Um passado de culpas arrasta a alma atrasada para grupos que apresentam analogias com o seu próprio estado fluídico e mental, estado que ela criou com os seus pensamentos e acções.
Não há, nesses problemas, nenhum lugar para a arbitrariedade ou para o acaso. É o mau uso prolongado de seu livre-arbítrio, a procura constante de resultados egoístas ou maléficos que atrai a alma para genitores semelhantes a si. Eles fornecer-lhe-ão materiais em harmonia com o seu organismo fluídico, impregnados das mesmas tendências grosseiras, próprios para a manifestação dos mesmos apetites, dos mesmos desejos. Abrir-se-á nova existência, novo degrau de queda para o vício e para a criminalidade. E a descida para o abismo.”

LÉON DENIS, O Problema do ser, do destino e da dor, Segunda Parte/O Problema do Destino, XIII – As vidas sucessivas. A reencarnação e suas Leis (3 de 7)

O papel da mulher

“Objectar-nos-ão talvez que seria iníquo coagir metade dos Espíritos a evoluírem num sexo mais fraco e bastas vezes oprimido, humilhado, sacrificado por uma organização social ainda bárbara. Podemos responder que esse estado de coisas tende a desaparecer, de dia para dia, para dar lugar a maior soma de equidade. É pelo aperfeiçoamento moral e social e pela sólida educação da mulher que a humanidade se há de levantar.
Quanto às dores do passado, sabemos que não ficam perdidas. O Espírito que sofreu iniquidades sociais, colhe, por força da lei de equilíbrio e compensação, o resultado das provações por que passou. O Espírito feminino, dizem-nos os Guias, ascende com voo mais rápido para a perfeição.
O papel da mulher é imenso na vida dos povos. Irmã, esposa ou mãe, é a grande consoladora e a carinhosa conselheira. Pelo filho é seu o porvir e prepara o homem futuro. Por isso, as sociedades que a deprimem, deprimem-se a si mesmas. A mulher respeitada, honrada, de entendimento esclarecido é que faz a família forte e a sociedade grande, moral, unida!”

LÉON DENIS, O Problema do ser, do destino e da dor, Segunda Parte/O Problema do Destino, XIII – As vidas sucessivas. A reencarnação e suas Leis (2 de 7)

Almas gémeas

“Muitas almas, criadas aos pares, são destinadas a evoluírem juntas, unidas para sempre na alegria como na dor. Deram-lhes o nome de almas irmãs; o seu número é mais considerável do que geralmente se crê; realizam a forma mais completa, mais perfeita da vida e do sentimento e dão às outras almas o exemplo de um amor fiel, inalterável, profundo; podem ser reconhecidas por esse característico. Que seria de sua afeição, de suas relações, de seu destino, se a mudança de sexo fosse uma necessidade, uma lei? Entendemos antes que, pelo próprio facto da ascensão geral, os caracteres nobres e as altas virtudes multiplicar-se-ão nos dois sexos ao mesmo tempo; finalmente, nenhuma qualidade ficará sendo apanágio de um só dos sexos, mas atributo dos dois.
A mudança de sexo poderia ser considerada como um acto imposto pela lei de justiça e reparação num único caso, o qual se dá quando maus-tratos ou graves danos, infligidos a pessoas de um sexo, atraem para este mesmo sexo os Espíritos responsáveis, para assim sofrerem, por sua vez, os efeitos das causas a que deram origem; mas, a pena de talião não rege, como mais adiante veremos, de maneira absoluta, o mundo das almas; existem mil formas de se fazer a reparação e de se eliminarem as causas do mal. A cadeia omnipotente das causas e dos efeitos desenrola-se em mil anéis diversos.”

LÉON DENIS, O Problema do ser, do destino e da dor, Segunda Parte/O Problema do Destino, XIII – As vidas sucessivas. A reencarnação e suas Leis (1 de 7)

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Na gleba do mundo

“Mas o que foi semeado em boa terra é o que ouve a palavra e a compreende. Este frutifica e produz a cem, a sessenta e a trinta por um.” – Jesus
(Mateus, 13:23.)

- Efectivamente, a vida é comparável ao trato do solo que nos é concedido cultivar.
Ergue-te, cada dia, e ampara o teu campo de serviço, a fim de que esse mesmo campo de serviço te possa auxiliar.
A sementeira é a empreitada, o dever a cumprir, o compromisso de que te incumbes. O terreno é o próximo que te propicia a colheita.
Lavrar o talhão é dar de nós sem pensar em nós.
Basta que plantes o bem para que o bem te responda.
Para isso, no entanto, é imperioso agir e perseverar no trabalho.
Nunca esmorecer.
Qual ocorre na lavoura comum, é preciso contar com o aguaceiro e a canícula, o granizo e o vento, a praga e o detrito.
Não valem reclamações. Remove a dificuldade e prossegue firme.
Acima de tudo, importa o rendimento da produção para o benefício de todos.
- Se alguém te despreza, desdoirando a suposta singeleza que te coube, esquece a incompreensão alheia e continua plantando para a abastança geral.
- Muita gente não se recorda de que o pão alvo sobe à mesa à custa do suor de quantos mergulham as mãos no barro da gleba, a fim de que a semente possa frutificar.
- Quando essa ou aquela pessoa te requisite o descanso, sem que a tua consciência acuse fadiga, não acredites nessa ilusão.
A ferrugem do ócio consome o arado muito mais que a movimentação no serviço.
- Trabalha e confia, na certeza de que o Senhor da Obra te observa e segue vigilante.
Não duvides, nem temas.
Dá o melhor de ti mesmo à Seara da Vida, e o Divino Lavrador, sem que percebas, pendurará nas frontes do teu ideal a floração da esperança e a messe do triunfo.

ESPÍRITO EMMANUEL, Ceifa de Luz – Na gleba do mundo, psicografia de FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER
(imagem: Uvas sobre a mesa, pintura de Eduardo Arguelles)

quinta-feira, 14 de julho de 2011

A Alma acto e potência

“Os exemplos históricos de homens enérgicos, dotados de grande força de vontade, de fortes expressões de carácter, de perseverança e de virtudes, desmentiram essas últimas objecções do materialismo contemporâneo e mostraram que as faculdades intelectuais e morais nada têm a ver com a Química, e que o espírito reside num mundo distinto do material, superior às vicissitudes e movimentos transitórios do mundo físico.
Nossa alma não permitiu que a dignidade humana, a liberdade, os sagrados princípios do belo, do bom, do verdadeiro, fossem envolvidos no caos da hipótese materialista.
Esta declaração dos direitos da alma tem por epígrafe a proposição do doutor angélico: a alma conforma o corpo e nele se contém em acto e em potência.
As três grandes divisões que vimos de resumir tiveram por complemento natural as nossas considerações sobre a destinação dos seres e das coisas. Comentamos o erro e o ridículo dos que tudo ligam ao homem, bem como o seu oposto, que nega a existência de um plano na Natureza. As leis organizadoras da vida, a maravilhosa construção dos órgãos e dos sentidos, nos revelam uma causa inteligente na instalação da vida planetária. A hipótese da formação dos seres vivos sob a acção de uma força universal instintiva, e da transformação das espécies, longe de anularem a idéia do Criador, deixaram intactas a sua omnipotência e sabedoria.”

CAMILLE FLAMMARION, Deus na Natureza, Tomo V – DEUS, (7 de 7)
(imagem: Ascensão de Cristo, Salvador Dali)

A Vontade e a Individualidade

Depois, a personalidade humana veio afirmar-se no seu valor. Temos visto que existimos, realmente, que não somos apenas a qualidade variável da substância cerebral.
A alma afirmou sua unidade e personalidade. A contradição entre essa unidade e a multiplicidade dos movimentos cerebrais, sobretudo entre a identidade permanente da alma e a troca incessante das partes constitutivas do cérebro, reduziu a hipótese materialista a extrema penúria. Em vão tentaram detê-la. Temos analisado a nulidade de suas explicações, à face dos grandes feitos afirmativos de uma consciência em nós.
Por fim, para aniquilar até os fundamentos a singular e triste pretensão de ser o homem governado pela matéria, discutimos, socorrendo-nos de factos e exemplos, se poderia admitir-se não fossem a vontade e a individualidade mais que ilusão, e que a consciência e o julgamento dependessem da alimentação.”

CAMILLE FLAMMARION, Deus na Natureza, Tomo V – DEUS, (6 de 7)

A Alma é a causa eficiente…

“Esse estudo geral da vida terrestre tem por epígrafe a proposição fundamental da obra de Arístoto: A alma é a causa eficiente e o princípio organizador dos corpos vivos.
Mas, é sobretudo no próprio homem que temos reconhecido mais evidente e inatacável soberania da força. Nosso exame do cérebro revelou, desde logo, a ilusão dos metafísicos que desdenham o laboratório e a dissecação, pretendendo limitar a Natureza a uma simples definição. Esse exame serviu para estabelecer as relações do cérebro com o pensamento, e mostrou que a sua composição, forma, volume e peso, estão longe de ser estranhos à alma. A acção do espírito sobre o cérebro ressaltou, íntegra, da fisiologia para afirmar-se no seu real valor. As hipóteses que resultaram na conceituação do pensamento como secreção de substância cerebral, ou como dinamismo nervoso, só conseguiram notabilizar-se pela sua inanidade. A presença da alma evidenciou-se até nos fenómenos de loucura. O génio apareceu-nos como a faculdade máxima de pensar.”

CAMILLE FLAMMARION, Deus na Natureza, Tomo V – DEUS, (5 de 7)

A Força Directiva

“O quadro das últimas conquistas da Química orgânica continuou afirmando a força, qual a estabelecera a Fisiologia.
Remontando, então, para além da vida actual, para a origem dos seres, a causa espiritualista revelou num crescendo a sua necessidade e veridicidade. Comparamos com a nova a velha hipótese materialista e achamos que não são mais que uma e única hipótese, aliás, insuficientes.
A mesma perquirição nos levou ao problema, não resolvido, das gerações espontâneas. O ponto essencial da questão está no havermos constatado que, mesmo na hipótese da organização autónoma da matéria, a teologia natural não é atingida e a força directiva continua a impor-se como absolutamente necessária. Vimos, ao demais, que não são os mestres que opõem teorias contrárias à admissão de um Deus, e sim os discípulos inexperientes, de vez que a lei tanto impera na transformação e progressão das espécies, como na sua criação separada. E quanto ao homem em si mesmo, vemos que o seu posto característico na criação afirma-se, menos pelos índices anatómicos que por seu valor intelectual, tendo-se em vista a sua racionalidade e os progressos que é capaz de realizar.”

CAMILLE FLAMMARION, Deus na Natureza, Tomo V – DEUS, (4 de 7)

Uma força central

“O estabelecimento da verdadeira teoria das relações entre a força e a matéria tem, por epígrafe, a velha divisa dos Pitagóricos – Os números regem o mundo.
Penetrando, então, nos domínios da vida, a primeira perspectiva que nos dominou foi a da unidade que abrange todos os seres. Sua substância pareceu-nos, muita vez, não lhes pertencer como propriamente deles e transitar, constante, de uns a outros, sendo o ar o veículo da organização vital do planeta. Os processos de respiração e alimentação nos demonstraram a solidariedade existente entre os animais e as plantas. O corpo humano apresenta-se-nos em transformação constante. O grande fenómeno da circulação da matéria estabeleceu que a existência de uma força central, constituindo a vida em cada ser, faz-se absolutamente necessária para explicar a permanência do organismo, o equilíbrio das funções vitais, a própria existência, enfim. Essa força orgânica só é transmissível pela geração.”

CAMILLE FLAMMARION, Deus na Natureza, Tomo V – DEUS, (3 de 7)

Inteligência desconhecida…

“Nosso exame do papel da força, na Natureza começou pela perspectiva das grandezas celestes. Vimos que na imensidade do Espaço os mundos obedecem a uma lei matemática e que é à execução dessa lei que devemos a harmonia dos movimentos celestes, a fecundidade dos astros, a manutenção dos seres em cada mundo, a vida e a beleza do Universo, em suma. A matéria inerte não se nos figurou capaz de compreender e aplicar o cálculo infinitesimal, e então concluímos que a ordem numérica da organização astronómica é devida a um Espírito, indubitavelmente superior ao dos astrónomos que descobriram a fórmula dessas leis. As contraditas que nos opõem refutam-se de si mesmas, por suas respectivas puerilidades.
O exame das leis que presidem às combinações químicas, do papel da álgebra e da geometria no microcosmo, das forças que regem os fenómenos do mundo inorgânico e ordenam as viagens atómicas, das harmonias reveladas nas vibrações luminosas, como nas cónicas, e do primeiro surto da força orgânica no reino vegetal, nos demonstrou que na Terra, como no céu, uma inteligência desconhecida tudo ordena e se traduz em beleza e grandeza máximas.”

CAMILLE FLAMMARION, Deus na Natureza, Tomo V – DEUS, (2 de 7)

Força ou Matéria!?

“Acercando-nos do fim deste livro, detenhamo-nos um instante por bem nos compenetrar das verdades adquiridas em nossa argumentação, guardando a legítima impressão deste arrazoado científico. Vigoram hoje no mundo dois grandes erros, tão vivazes e profundos como nos tempos mais obscuros da História, isto é, nas épocas recuadas em que a inteligência humana ainda não podia formular nenhuma concepção exacta da Natureza.
Esses dois erros, por nós combatidos paralelamente, são: de um lado o ateísmo, que nega a existência do espírito; e do outro a superstição religiosa, que concebeu um “Deusinho” semelhante a ela e fez do Universo uma lanterna mágica, para uso e gozo da Humanidade.
Como esses dois erros igualmente funestos – posto que à primeira vista pareçam inócuos e seja o segundo essencialmente orgulhoso – procuram agora apoiar-se em princípios sólidos da Ciência contemporânea, impusemo-nos o dever de mostrar que eles não podem reivindicar tais princípios em seu favor; que jazem fatalmente isolados da ciência positiva e desarticulam-se ao primeiro embate, qual castelo de cartas, enquanto – idéia central – continua em linha recta o espiritualismo científico.
Resumamos nossa argumentação. Constatamos, de começo, locando o problema, que o essencial consiste em distinguir força e matéria, e examinar se é a matéria que rege a força ou, ao invés, se é esta que governa aquela. As afirmativas materialistas, decalcadas na primeira das premissas, pareceram-nos desde logo puramente arbitrárias, como simples petições de princípios, fáceis de desmascarar.”

CAMILLE FLAMMARION, Deus na Natureza, Tomo V – DEUS, (1 de 7)

domingo, 3 de julho de 2011

A senda estreita

Porfiai por entrar pela porta estreita…” – Jesus
(Lucas, 13:24.)

- Não te aconselhes com a facilidade humana para a solução dos problemas que te inquietam a alma.
Realização pede trabalho.
Vitória exige luta.
- Muitos jornadeiam no mundo na larga avenida dos prazeres efémeros e esbarram no cipoal do tédio ou da intemperança, quando não sucumbem sob as farpas do crime.
- Muitos preferem a estrada agradável dos caprichos pessoais atendidos e caem, desavisados, nos fojos de tenebrosos enganos, quando não se despenham nos precipícios de tardio arrependimento.
- Seja qual for a experiência em que te situas, na Terra, lembra-te de que ninguém recebe um berço entre os homens para acomodar-se com a inércia, no desprezo deliberado às leis que regem a vida.
- Nosso dever é a nossa escola.
Por isso mesmo, a senda estreita a que se refere Jesus é a fidelidade que nos cabe manter limpa e constante, no culto às obrigações assumidas diante do Bem Eterno.
Para sustentá-la, é imprescindível sacrificar no santuário do coração tudo aquilo que constitua bagagem de sombra no campo de nossas aspirações e desejos.
Adaptarmo-nos à disciplina do próprio espírito na garantia da felicidade geral é estabelecer em nós próprios o caminho para o Céu que almejamos.
- Não te detenhas no círculo das vantagens que se apagam em fulguração passageira, de vez que a ociosidade compra, em desfavor de si mesma, as chagas da penúria e as trevas da ignorância.
- Porfia na renúncia que eleva e edifica, enobrece e ilumina.
- Não desdenhes a provação e o trabalho, a abnegação e o suor.
- E, em todas as circunstâncias, recorda sempre que a “porta larga” é a paixão desregrada do “eu” e a “porta estreita” é sempre o amor intraduzível e incomensurável de Deus.

ESPÍRITO EMMANUEL, Ceifa de Luz – A senda estreita, psicografia de FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER
(imagem: La Danaíde - 1889, estátua de Auguste Rodin)

sábado, 2 de julho de 2011

A Ciência do Futuro

“Estudando os altos fenómenos do Espiritismo, fácil se nos tornará demonstrar que o organismo fluídico contém todas as leis organogénicas segundo as quais o corpo se forma. Aqui, o Espiritismo faz surgir uma idéia nova, explicando como a forma típica do indivíduo pode manter-se durante a vida toda, sem embargo da renovação incessante de todas as partes do corpo. Simultaneamente, do ponto de vista psíquico, fácil se torna compreender onde e como se conservam as nossas aquisições intelectuais. Firmamos alhures [i] como concebemos o papel que o perispírito desempenha durante a encarnação; bastar-nos-á dizer agora que, graças à descoberta desse corpo fluídico, podemos explicar, cientificamente, de que maneira a alma conserva a sua identidade na imortalidade.
Possam estes primeiros esboços de uma fisiologia psicológica transcendental incitar os sábios a perscrutar tão maravilhoso domínio! Se os nossos trabalhos derem em resultado trazer para as nossas fileiras alguns espíritos independentes, não teremos perdido o nosso tempo; mas, qualquer que seja o resultado dos nossos esforços, estamos seguros de que vem próxima a época em que a ciência oficial, levada aos seus últimos redutos, se verá obrigada a ocupar-se com o assunto que faz objecto das nossas pesquisas. Nesse dia, o Espiritismo aparecerá qual realmente é: a Ciência do Futuro.”


[i]      Gabriel Delanne, A Evolução Anímica.

GABRIEL DELANNE, A Alma é Imortal, Introdução – Demonstração experimental da imortalidade (6 de 6)
(imagem: Salvador Dali, 1951_02)

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Fenómenos produzidos pela alma de um vivo

“Os pesquisadores não se limitaram, porém, à observação pura e simples de tais fenómenos, senão que também chegaram a reproduzi-los experimentalmente. Verificaremos, com o Sr. De Rochas, que a exteriorização da motricidade constitui, de certa forma, o esboço do que se produz completamente durante o desdobramento do ser humano. Chegaremos, afinal, à demonstração física da distinção existente entre a alma e o corpo: fotografando a alma de um vivo, fora dos limites do seu organismo material.
Para todo pesquisador imparcial, esse formidável conjunto de documentos estabelece solidamente a existência do perispírito. A isso, contudo, não deve limitar-se a nossa aspiração. Temos que perquirir de que matéria é formado esse corpo. Quanto a isso, todavia, estamos reduzidos a hipóteses; veremos, porém, estudando as circunstâncias que acompanham as aparições dos vivos e dos mortos, ser possível encontrarem-se, nas últimas descobertas científicas sobre a matéria radiante e os raios, preciosas analogias que nos permitirão compreender o estado dessa substância imponderável e invisível. Esperamos mostrar que nada se opõe, cientificamente, à concepção de semelhante invólucro da alma. Desde então, esse estudo entra no quadro das ciências ordinárias e não pode merecer a censura de se achar eivado de sobrenatural ou de maravilhoso.
Apoiar-nos-emos longamente na identidade dos fenómenos produzidos pela alma de um vivo, saída momentaneamente do seu corpo, e os que se observam operados pelos Espíritos. Veremos que eles se assemelham de tal sorte, que impossível se torna diferençá-los, a não ser por seus caracteres psíquicos. Logo, e é esse um dos pontos mais importantes, há continuidade real, absoluta, nas manifestações do Espírito, encarnado ou não, em um corpo terrestre. Inútil, portanto, atribuir os factos espíritas a seres fictícios, a demônios, a elementais, cascas astrais, egrégoros, etc. Forçoso será reconhecer que os produzem as almas que viveram na Terra.”

GABRIEL DELANNE, Alma é Imortal, Introdução – Demonstração experimental da imortalidade (5 de 6)

Desdobramento do ser humano

“Os magnetizadores já haviam chegado, por outros métodos, ao mesmo resultado. Pela correspondência que permutaram Billot e Deleuze, bem como pelas pesquisas de Cahagnet, veremos que a alma, após a morte, conserva uma forma corporal que a identifica. Os médiuns, isto é, as pessoas que gozam – no estado normal – da faculdade de ver os Espíritos, confirmam, em absoluto, o testemunho dos sonâmbulos.
Essas narrativas, entretanto, constituem uma série de documentos de grande valor, mas ainda não nos dão uma prova material. Mostraremos, por isso, que os espíritas fizeram todos os esforços por oferecer a prova inatacável e que o conseguiram. As fotografias de Espíritos desencarnados, as impressões por estes deixadas em substâncias moles ou friáveis, as moldagens de formas perispirituais são outras tantas provas autênticas, absolutas, irrecusáveis da existência da alma unida ao perispírito e tão grande é hoje o número dessas provas, que impossível se tornou a dúvida.
Mas, se verdadeiramente a alma possui um envoltório, há de ser possível comprovar-se-lhe a realidade durante a vida terrena. É, com efeito, o que se dá. Abriram-nos o caminho os fenómenos de desdobramento do ser humano, denominados por vezes de bicorporeidade. Sabe-se em que eles consistem. Estando, por exemplo, em Paris um indivíduo, pode a sua imagem, o seu duplo mostrar-se noutra cidade, de maneira a ser ele reconhecido. Há, no actual momento, mais de dois mil factos, bem verificados, de aparições de vivos. Veremos, no correr do nosso estudo, que não são alucinatórias essas visões e por que caracteres especiais podemos certificar-nos da objectividade de algumas de tão curiosas manifestações psíquicas.”

GABRIEL DELANNE, A Alma é Imortal, Introdução – Demonstração experimental da imortalidade (4 de 6)

Natureza do princípio pensante

“O nosso objectivo neste volume é apresentar algumas das provas que já se possuem da existência de tal envoltório, a que foi dado o nome de perispírito (de peri, em torno, e spiritus, espírito).
Para essa demonstração, recorreremos não só aos espíritas propriamente ditos, mas também aos magnetizadores espiritualistas e aos sábios independentes que hão começado a explorar este domínio novo. Ao mesmo tempo, facultado nos será comprovar que a corporeidade da alma não é uma idéia nova, que teve numerosos partidários, desde que a humanidade entrou a preocupar-se com a natureza do princípio pensante.
Veremos, primeiro, que a antiguidade, quase toda ela, mais ou menos admitiu essa doutrina; eram, porém, vagos e incompletos os conhecimentos de então sobre o corpo etéreo. Depois, à medida que se foi cavando o fosso entre a alma e o corpo, que as duas substâncias mais e mais se diferençavam, uma imensidade de teorias procuraram explicar a acção recíproca que elas entre si exercem. Surgiram as almas mortais de Platão, as almas animais e vegetativas de Aristóteles, o ochema e o eidolon dos gregos, o nephesh dos hebreus, o baí dos egípcios, o corpo espiritual de São Paulo, os espíritos animais de Descartes, o mediador plástico de Cudworth, o organismo subtil de Leibnitz, ou a sua harmonia preestabelecida; o influxo físico de Euler, o arqueu de Van Helmont, o corpo aromal de Fourier, as idéias-força de Fouillée, etc. Todas essas hipóteses, que por alguns de seus lados roçam a realidade, carecem do cunho de certeza que o Espiritismo apresenta, porque não imagina, demonstra.
O espírito humano, pelo só esforço de suas especulações, jamais pode estar certo de haver chegado até aí. É-lhe necessário o auxílio da ciência, isto é, da observação e da experiência, para estabelecer as bases da sua certeza. Não é, pois, guiados por idéias preconcebidas que os espíritas proclamam a existência do perispírito: é, pura e simplesmente, porque essa existência resulta, para eles, da observação.”

GABRIEL DELANNE, A Alma é Imortal, Introdução – Demonstração experimental da imortalidade (3 de 6)

Individualização da Alma

“Evolveram, com o correr das idades, as concepções sobre a natureza da alma, desde a mais grosseira materialidade, até a espiritualidade absoluta. Os trabalhos dos filósofos, tanto quanto os ensinos religiosos, nos habituaram a considerar a alma como pura essência, como uma chama imaterial. Tão diferentes formas de ver prendem-se à maneira pela qual se encara a alma. Se estudada objectivamente, fora do organismo humano, durante as aparições, ela às vezes se afigura tão material, quanto o corpo físico. Se observada em si mesma, parece que o pensamento é a sua característica única. Todas as observações da primeira categoria foram atiradas ao rol das superstições populares e prevaleceu a idéia de uma alma sem corpo. Nessas condições, impossível se tornava compreender por que processo podia essa entidade actuar sobre a matéria do corpo ou dele receber as impressões. Como se havia de imaginar que uma substância sem extensão e, conseguintemente, fora da extensão, pudesse actuar sobre a extensão, isto é, sobre corpos materiais?
Ao mesmo tempo em que nos ensinam a espiritualidade da alma, ensinam-nos a sua imortalidade. Como explicar, porém, que essa alma conserve suas lembranças? Neste mundo, temos um corpo definido pela sua forma de envoltório físico, um cérebro que se afigura o arquivo da nossa vida mental; mas, quando esse corpo morre, quando esse substrato físico é destruído, que sucede às lembranças da nossa existência actual? Onde se localizarão as aquisições da nossa actividade física, sem as quais não há possibilidade de vida intelectual? Estará a alma destinada a fundir-se na erraticidade, a se apagar no Grande Todo, perdendo a sua personalidade?
São rigorosas estas consequências, porquanto a alma não poderia subsistir sem uma forma que a individualizasse. No oceano, uma gota d’água não se pode distinguir das que a cercam, não se diferencia das outras partes do líquido, a não ser que se ache contida nalguma coisa que a delimite, ou que, isolada, tome a forma esférica, sem o que ela se perde na massa e já não tem existência distinta.
O Espiritismo nos leva a comprovar que a alma é sempre inseparável de uma certa substancialidade material, porém com uma modalidade especial, extremamente rarefeita, cujo estado físico procuraremos definir. Essa matéria possui formas variáveis, segundo o grau de evolução do espírito e conforme ele esteja na Terra ou no espaço. O caso mais geral é o da alma conservar temporariamente, após a morte, o tipo que tinha o corpo físico aqui na Terra. Esse ser invisível e imponderável pode, às vezes, em circunstâncias determinadas, assumir um caráter de objectividade, bastante para afectar os sentidos e impressionar a chapa fotográfica, deixando assim traços duráveis da sua acção, o que põe fora de causa toda tentativa de explicação desse fenómeno mediante a ilusão ou a alucinação.”

GABRIEL DELANNE, A Alma é Imortal, Introdução – Demonstração experimental da imortalidade (2 de 6)

Natureza da Alma

“O Espiritismo projecta luz nova sobre o problema da natureza da alma. Fazendo que a experimentação interviesse na filosofia, isto é, numa ciência que, como instrumento de pesquisa, apenas empregava o senso íntimo, ele possibilitou que o Espírito seja visto de maneira efectiva e que todos se certifiquem de que até então o mesmo Espírito estivera muito mal conhecido.
O estudo do eu, isto é, do funcionamento da sensibilidade, da inteligência e da vontade, faz que se perceba a actividade da alma, no momento em que essa actividade se exerce, porém nada nos diz sobre o lugar onde se passam tais fenómenos, que não parecem guardar entre si outra relação, afora a da continuidade. Entretanto, os recentes progressos da psicologia fisiológica demonstraram que íntima dependência existe entre a vida psíquica e as condições orgânicas de suas manifestações. A todo estado da alma corresponde uma modificação molecular da substância cerebral e reciprocamente. Mas, param aí as observações e a ciência se revela incapaz de explicar por que a matéria que substitui a que é destruída pela usura vital conserva as impressões anteriores do espírito.
A ciência espírita se apresenta, justo, para preencher essa lacuna, provando que a alma não é uma entidade ideal, uma substância imaterial sem extensão e sim que é provida de um corpo subtil, onde se registam os fenômenos da vida mental e a que foi dado o nome de perispírito. Assim como, no homem vivo, importa distinguir do espírito a matéria que o incorpora, também não se deve confundir o perispírito com a alma. O eu pensante é inteiramente distinto do seu envoltório e não se poderia identificar com este, do mesmo modo que a veste não se identifica com o corpo físico. Todavia, entre o espírito e o perispírito existem as mais estreitas conexões, porquanto são inseparáveis um do outro, como mais tarde o veremos.
Quererá isto dizer que encontramos a verdadeira natureza da alma? Não, visto que esta se mantém inacessível, tanto quanto, aliás, a essência da matéria. Vemos, no entanto, descoberta uma condição, uma maneira de ser do espírito, que explica grande cópia de fenómenos, até então insolúveis.”

GABRIEL DELANNE, A Alma é Imortal, Introdução – Demonstração experimental da imortalidade (1 de 6)

Robespierre (III)

“Algumas lições e novos conhecimentos se podem tirar desta passagem extraordinária. O corpo humano aleijado, deformado, que olhamos sempre com compaixão quando vemos algum infeliz na rua, é também uma “fortaleza”. É o abrigo que protege o espírito culpado que, na espiritualidade, não teria onde se esconder, e que viveria perseguido pelas hordas de entidades enfurecidas, suas vítimas de outras eras, que tornariam a sua existência insuportável. Deus, na Sua misericórdia, concede-lhe, apesar de tudo, uma fortaleza e refúgio.
Mas apesar de perseguido e a sofrer, vimos que nem isso aplacava a sua fúria, porque à menor oportunidade que tinha, procurava a mãe e enlouqueci-a. Isto mostra a dureza dos nossos corações, a incompreensão e a maldade que perduram através dos milénios. Ninguém se reforma de um dia para o outro. É necessário que o espírito renasça milhares de vezes até que se redima e encontre a luz para sempre.
Três ou quatro anos depois, soubemos que o pequeno Emmanuel desencarnara, tal como previra o Grande Emmanuel.
Naquele ambiente do grupo Luiz Gonzaga, de Pedro Leopoldo, recebera amor carinho, e os seus perseguidores, sob as vibrações espirituais, encontraram o esclarecimento e a paz, a fim de voltarem, através da reencarnação, às lutas da Terra.”

CHICO XAVIER PÁGINAS DE UMA VIDA, Robespierre (3 de 3), 2ª PARTE – CONVERSAS MANTIDAS POR R. A. RANIERI COM CHICO XAVIER
(imagem: Salvador Dali, 1974_02)

Robespierre (II)

“Chico olhou-nos profundamente e esclareceu:
- Pois é, Ranieri, o nosso amigo Emmanuel foi outrora, em França, Robespierre. Governou o povo Francês durante a época do Terror e conquistou uma legião de inimigos. Como prova, renasceu assim aleijado e, por estas condições, torturado. E com ele dá-se um facto interessante: quando dorme e o seu espírito desprendido sai do corpo, aqueles a quem mandou matar durante a Revolução avançam para ele, desesperados, e atacam-no. Aflito, aterrado, volta ao corpo físico, onde se oculta, e acorda deste lado aos gritos.
Este corpo está deformado desta maneira e, ainda assim, é uma fortaleza e um refúgio. Ao princípio, eram centenas. Mas com o correr dos anos, têm sido esclarecidos pelo espírito Emmanuel e por outros amigos espirituais. Agora, já restam poucos. Quando esses inimigos não o atacam, vai procurar a mãe e obsidia-a. Então, ela fica louca. Já esteve internada por causa disso. Quando se afasta dela, a pobrezinha fica boa, volta ao normal. Diz o nosso Emmanuel que “quando essas últimas entidades inimigas forem doutrinadas”, ele irá desencarnar.
Fitámos, estarrecidos, aquela criatura indefesa que ali estava. O poderoso tirano que mandara milhares de pessoas para a guilhotina, jazia agora, depois de quase dois séculos, num leito de doente, sob a luva do desespero e da dor.
Diante dos nossos olhos, momentâneamente postos no passado, desfilaram as multidões que o seguiram e os amigos que ele mandara matar. “Quem com ferro mata, com ferro morre” dissera o Mestre. “Não sairá de lá enquanto não pagar o último centavo.”
Na beleza do seu gesto, na bondade luminosa da sua alma, Chico ajudava aquela criatura a sair das trevas para a luz. Por que lhe teriam dado também o nome de Emmanuel? E por que é que Chico e o orgulhoso senador romano, na estela do tempo, ali estavam, de mãos estendidas, amparando-o no sofrimento e na recuperação? Quem teriam sido eles na França daquela época? Ou quando se teriam encontrado noutras civilizações?
O nosso pensamento, como um fantástico corcel, galopava nas nuvens da nossa memória.
Chico afagou mansamente a cabeça da criança, que se aquietou, silenciosa, como a ave implume sob as asas da mãe.”

CHICO XAVIER PÁGINAS DE UMA VIDA, Robespierre (2 de 3), 2ª PARTE – CONVERSAS MANTIDAS POR R. A. RANIERI COM CHICO XAVIER

Robespierre (I)

“Lembramo-nos com saudade do grupo de trabalho espiritual, em Pedro Leopoldo, onde Chico iniciou as suas actividades. Casa pobre, simples, cheia de espiritualidade, cor-de-rosa desbotada, junto à residência do grande amigo.
Numa das primeiras vezes que o visitámos, com aquele encantamento que nos acompanhará por toda a vida, ouvimos o choro de uma criança. Não era a primeira vez que ouvíamos este choro aflitivo, angustiado, triste.
Chico percebeu-nos a preocupação e disse com muita delicadeza:
- É um menino de quem eu trato. Tem nove anos, mas está numa caminha, entrevado. Querem vê-lo? Chama-se Emmanuel.
Seguindo-lhe o gesto, acompanhámo-lo.
A caminha do menino estava ao lado da porta que separava os dois quartos, ali mesmo ao pé do Centro. Tudo de tijolos, na simplicidade da pobreza franciscana.
- A mãe é doente e não pode tratar do menino, acrescentou Chico. Coube-me a tarefa de alimentá-lo e mantê-lo.
Aproximámo-nos. Na pequena cama, esperava-nos um verdadeiro monstro. O coitadinho era aleijado e não era maior do que uma criança de dois anos. Braços e pernas retorcidos e uma fisionomia angustiada.
A nossa mente galopou pelo espaço, o coração confrangeu-se-nos no peito, e num relâmpago pensámos: como pode o Chico – cheio de problemas da Doutrina para resolver, a trabalhar na repartição em que é funcionário, e a orientar milhares de pessoas que o procuram diariamente – tratar ainda deste infeliz? Sentimos que se desenrolava ali um grande drama.”

CHICO XAVIER PÁGINAS DE UMA VIDA, Robespierre (1 de 3), 2ª PARTE – CONVERSAS MANTIDAS POR R. A. RANIERI COM CHICO XAVIER