Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

O sentido da vida ~

O Materialismo e o Idealismo

Falemos da possibilidade que o Espiritismo abre, ao mundo de hoje, para a solução de velhas rixas filosóficas que pareciam para sempre insolúveis. A natureza de síntese dos conhecimentos humanos, de que se reveste a doutrina, dá-lhe inesperada capacidade nesse terreno. E assim como a velha questão do corpo e espírito encontra a equação imediata nos postulados espíritas, assim também a luta aparente entre o materialismo e o idealismo, no campo da filosofia, nos revela a sua face de simples equívoco.

De um lado alegam os materialistas que não podem tomar conhecimento do Espiritismo, por ser ele uma doutrina idealista, que joga com improbabilidades. Fugindo ao terreno material, entra o Espiritismo pelos caminhos nebulosos da suposição ou das deduções empíricas, sem base experimental e racional. De outro lado, porém, são os idealistas que acusam o Espiritismo de procurar reduzir coisas do espírito a soluções materiais. Quando falamos da possibilidade de comunicação dos espíritos, os idealistas censuram o nosso materialismo, no trato das coisas espirituais. Ao mesmo tempo – e pelo mesmo motivo – os materialistas nos rotulam de metafísicos, de pescadores de coisas impossíveis.

Diante da celeuma que de um campo e do outro se levanta, perguntaremos: onde ficará o Espiritismo? É verdade que Kardec anotou, no subtítulo de O Livro dos Espíritos, a filiação da doutrina à filosofia espiritualista. Mas não estaremos hoje diante de um facto novo, que nos mostra, na prática a impropriedade desse divisionismo no campo filosófico? A velha disputa que nos vem, como sempre, da velha Grécia, envolvendo Demócrito e Platão, para as figuras de Hegel e Fauerbach, afinal superadas, nas suas contradições, pelo trabalho de Marx e Engels, criadores do materialismo dialéctico, não estaria resolvida com o aparecimento do Espiritismo?

É claro que materialistas e espiritualistas, marxistas, existencialistas e outros, em quantas centenas de variantes se dividem as novas teorias filosóficas, ao longo daquelas duas correntes, considerarão utópica, senão mesmo absurda, a questão que levantamos aqui. Mas todos aqueles que quiserem deixar de lado, por um momento, a bagagem dos seus preconceitos, para olhar as coisas com os próprios olhos, verão que a aceitação dos princípios espíritas liberta o homem das contradições do materialismo e do espiritualismo. Estamos, aliás, diante do conhecido processo de síntese, decorrente do choque das contradições.

Espiritismo não se prende ao terreno exclusivamente idealista, porque não é subjectivo. As suas afirmações decorrem da experiência e não da simples suposição ou dedução. Kardec afirma que o Espiritismo é ciência de observação, e como tal tem de realizar o seu desenvolvimentoNão nos oferece a doutrina uma interpretação idealista, mas um conhecimento objectivo e real dos factos e das coisas. A existência do espírito não nos é apresentada como abstracção, de verificação impossível, mas como realidade que pode ser objectivamente comprovada. E mais do que isso, como parte integrante da própria natureza objectiva. Os casos, por exemplo, de obsessão colocam o problema no terreno da própria patologia médica, incluindo os espíritos entre os factores de anomalias físicas, ao lado dos micróbios e de outros agentes provocadores de doenças e lesões orgânicas.

Por outro lado, diante de todas essas características materialistas, o Espiritismo não se prende aos factos do mundo físico, reconhecendo a existência de um plano hiper-físico na natureza, e de fenómenos com ele relacionados. Prega também a independência do espírito e a sua sobrevivência à morte do corpo somático. Isso basta para identificá-lo com as correntes idealistas.

Essas aparentes contradições do Espiritismo revelam a sua natureza sintética e a sua extraordinária capacidade de solucionar os velhos e intrincados problemas da filosofia tradicional. Na realidade, o Espiritismo não é idealista nem materialista, mas simplesmente realista. Ele observa e interpreta a natureza de um ponto de vista diverso dos daquelas duas correntes, tendo uma visão panorâmica da vida e do mundo nas suas múltiplas manifestações espirituais e materiais. Na trama complexa da vida, o Espiritismo não escolheu um determinado ramo para pousar. E com isso, de uma vez por todas, ele conseguiu solucionar o velho impasse, mostrando que tanto Platão como Demócrito estavam com a razão, e Marx e Engels, ao procurar a síntese entre Hegel e Fauerbach, cometeram o erro filosófico de optar por uma das duas tendências.

Para o Espiritismo, o mundo é uma realidade ao mesmo tempo física e espiritual, objectiva e subjectiva. Não se pode tomar a vida e o mundo por um único dos seus aspectos, sob pena de mutilação e de conflito. O exaustivo conflito entre o materialismo e o idealismo ficou, assim, solucionado e o Espiritismo demonstrou que ele não passava de um dos muitos equívocos em que os homens se têm perdido, nas suas exigências intelectualistas, ao longo dos séculos e das civilizações.

/…


José Herculano Pires, O Sentido da Vida, Materialismo e Idealismo, 7º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Platão e Aristóteles, pormenor d'A escola de Atenas de Rafael Sanzio, 1509)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

| o grande enigma ~

a ideia de Deus | e a experimentação psíquica ~

Até aqui, no nosso estudo da questão de Deus, mantivemo-nos no terreno dos princípios. Nesse domínio, a ideia de Deus nos aparece qual chave da abóbada da doutrina espiritualista. Vejamos agora se não tem a mesma importância no domínio dos factos, na ordem experimental. (i)

À primeira vista, pode parecer estranho ouvir dizer que a ideia de Deus representa um papel importante no estudo experimental, na observação dos factos espíritas.

Notemos primeiramente que há tendência, por parte de certos grupos, para dar ao Espiritismo carácter sobremaneira experimental, para fazer-se exclusivamente o estudo dos fenómenos, desprezando-se o que tem cunho filosófico, tendência para rejeitar tudo o que possa recordar, por pouco que seja, as doutrinas do passado, para, em suma, limitar tudo ao terreno científico. Nesses meios, procura afastar-se a crença e a afirmação de Deus, por supérfluas, ou, pelo menos, por serem de demonstração impossível. Pensa-se, assim, atrair os homens de ciência, os positivistas, os livres-pensadores, todos aqueles que sentem uma espécie de aversão pelo sentimento religioso, por tudo o que tem certa aparência mística ou doutrinal.

Por outro lado, desejar-se-ia fazer do Espiritismo um ensino filosófico e moral, baseado nos factos, ensino susceptível de substituir as velhas doutrinas, os sistemas caducos, e satisfazer o grande número de Almas que buscam, antes de tudo, consolação para as suas dores; uma filosofia simples, popular, que lhes dê tréguas às tristezas da vida.

De um lado e de outro, há multidões a contentar; muito mais, até, de um lado que do outro, porque a multidão daqueles que lutam e sofrem excede em muito a dos homens de estudo.

A sustentar essas duas teses vemos, de uma parte e de outra, homens sinceros e convencidos, a cujas qualidades nos congratulamos de render homenagem.

Por quem optar? Em que sentido convirá orientar-se o Espiritismo para assegurar a sua evolução?

O resultado das nossas pesquisas e das nossas observações leva-nos a reconhecer que a grandeza do Espiritismo, a influência que adquire sobre as massas, provém, principalmente, da sua doutrina; os factos são os fundamentos em que o edifício se apoia. Certamente! As fundações representam papel essencial em todo o edifício, mas não é nas fundações, isto é, nas estruturas subterrâneas, que o pensamento e a consciência podem encontrar abrigo.

Aos nossos olhos, a missão real do Espiritismo não é somente esclarecer as inteligências por um conhecimento mais preciso e mais completo das leis físicas do mundo; tal consiste, principalmente, em desenvolver a vida moral nos homens, a vida moral que o materialismo e o sensualismo têm amesquinhado tanto. Levantar os caracteres e fortificar as consciências, tal é o papel do Espiritismo. Sob este ponto de vista, pode ser remédio eficaz para os males que assediam a sociedade contemporânea, remédio a esse acréscimo inaudito do egoísmo e das paixões, que nos arrastam ao abismo. Julgamos dever exprimir aqui a nossa inteira convicção: não é fazendo do Espiritismo somente uma ciência positiva, experimental; não é eliminando nele o que há de elevado, o que atrai o pensamento acima dos horizontes estreitos, isto é, a ideia de Deus, o uso da prece, que se facilitará a sua missão; ao contrário, concorrer-se-ia para torná-lo estéril, sem acção sobre o progresso das massas.

Certamente! Ninguém mais do que nós admira as conquistas da Ciência; sempre tivemos prazer de render justiça aos esforços corajosos dos sábios que fizeram recuar a cada dia os limites do desconhecido.

Mas a Ciência não é tudo. Sem dúvida ela tem contribuído para esclarecer a Humanidade; entretanto, tem-se mostrado sempre impotente para torná-la mais feliz e melhor.

A grandeza do espírito humano não consiste somente no conhecimento; está também no ideal elevado. Não foi a Ciência, e sim o sentimento, a fé e o entusiasmo que fizeram Jeanne d'Arc e todas as grandes epopeias da História.

Os enviados do Alto, os grandes predestinados, os videntes e os profetas não escolheram por móbil a ciência: escolheram a crença.

Eles vieram para mostrar o caminho que conduz a Deus.

Que é feito da ciência do passado? As vagas do esquecimento a submergiram, tal qual submergirão a ciência dos nossos dias. Quais serão os métodos e as teorias contemporâneas em vinte séculos? Em compensação, os nomes dos grandes missionários têm sobrevivido através dos tempos. O que sobrevive a tudo, no desastre das civilizações, é o que eleva a alma humana acima de si mesma, para um fim sublime, para Deus!

Há outra coisa mais. Mesmo limitando-nos ao terreno do estudo experimental, há uma consideração capital em que devemos inspirar-nos. É a natureza das relações que existem entre os homens e o mundo dos Espíritos; é o estudo das condições a preencher para tirar dessas relações os melhores efeitos.

Logo que chegamos aos ditos fenómenos, ficamos impressionados pela composição desse mundo invisível que nos cerca, pelo carácter das multidões de Espíritos que nos rodeiam e que procuram sem cessar pôr-se em relação com os homens. Em torno do nosso atrasado planeta flutua uma vida poderosa, invisível, onde dominam os Espíritos levianos e zombeteiros, com os quais se misturam Espíritos perversos e malfazejos. Aí há muitos apaixonados, cheios de vícios, criminosos. Deixaram a Terra com a alma repleta de ódio, com o pensamento saturado de vingança: esperam na sombra o momento propício para satisfazer os seus rancores, as suas fúrias, à custa dos experimentadores imprudentes e imprevidentes que, sem precaução, sem reserva, abrem de par em par as vias que fazem comunicar o nosso mundo com o dos Espíritos.

É desse meio que nos vêm as mistificações sem-número, os embustes audaciosos, as manobras bem conhecidas dos Espíritos experimentados, manobras pérfidas, que, em certos casos, conduzem os médiuns à obsessão, à possessão, à perda das suas mais belas faculdades, a tal ponto que certos críticos, fazendo a enumeração das vítimas desses factos, contando todos os abusos que decorrem de uma prática imprevista e frívola do Espiritismo, têm perguntado se não seria ele uma fonte de perigos, de misérias, uma nova causa de decadência para a Humanidade. (ii)

Felizmente, ao lado do mal está o remédio. Para nos livrar das influências más existe um recurso supremo. Possuímos um meio poderoso para afastar os Espíritos do abismo e para fazer do Espiritismo um elemento de regeneração, um sustentáculo, um confortante. Esse recurso, esse preservativo é a prece, é o pensamento dirigido para Deus! O pensamento de Deus é qual uma luz que dissipa a sombra e afasta os Espíritos das trevas; é uma arma que dispersa os Espíritos malfazejos e nos preserva dos seus embustes. A prece, quando é ardente, improvisada – e não recitação monótona –, tem um poder dinâmico e magnético considerável; (iii) ela atrai os Espíritos elevados e assegura-nos a sua protecção. Graças a eles podemos sempre comunicar com aqueles que nos amaram na Terra, aqueles que foram a carne da nossa carne, o sangue do nosso sangue e que, da sombra do Espaço, nos estendem os braços.

Temos verificado, muitas vezes, na nossa carreira de experimentadores: quando, numa reunião espírita, todos os pensamentos e vontades se unem num transporte poderoso, numa convicção profunda; quando sobem para Deus pela prece, jamais falha o socorro. Todas essas vontades reunidas constituem um feixe de forças, a arma segura contra o mal. Ao apelo que se eleva para o céu, há sempre algum Espírito de escol que responde. Esse Espírito protector, a convite do Alto, vem dirigir os nossos trabalhos, afastar dali os Espíritos inferiores, deixando somente intervir aqueles cujas manifestações são úteis para eles próprios ou para os encarnados.

Há aí um princípio infalível. Com o pensamento purificado e a elevação para Deus, o Espiritismo experimental pode ser uma luz, uma força moral, uma fonte de consolações. Sem esses requisitos ele poderá ser a incerteza, a porta aberta a todas as armadilhas do Invisível; uma entrada franca a todas as influências, a todos os sopros do abismo, a esses sopros de ódio, a essas tempestades do mal que passam sobre a Humanidade, à semelhança de trombas, e a cobrem de desordem e de ruínas.

Sim, é bom, é necessário abrir veredas para a comunicação com o mundo dos Espíritos; mas, antes de tudo, deve evitar-se que essas veredas sirvam aos nossos inimigos, para nos invadirem. Lembremo-nos de que há nos mundos invisíveis muitos elementos impuros. Dar-lhes entrada, seria derramar sobre a Terra males inúmeros; seria entregar aos Espíritos perversos uma verdadeira multidão de almas fracas e desarmadas.

Para entrar em relação com as Potências superiores, com os Espíritos esclarecidos, é preciso a vontade e a fé, o desinteresse absoluto e a elevação dos pensamentos. Fora destas condições, o experimentador seria o joguete dos Espíritos levianos.

“O que se assemelha se ajusta”, diz o provérbio. Com efeito, a lei das afinidades rege tanto o mundo das Almas quanto o dos corpos.

Há, pois, tanto sob o ponto de vista teórico quanto do prático e, ainda, sob o ponto de vista do progresso do Espiritismo, a necessidade de se desenvolver o senso moral, de nos ligarmos às crenças fortes e aos princípios superiores, de não abusar das evocações, de não entrar em comunicação com os Espíritos senão em condições de recolhimento e de paz moral.

Espiritismo foi dado ao homem como meio de se esclarecer, de se melhorar, de adquirir qualidades indispensáveis à sua evolução. Se se destruíssem nas Almas ou somente se desprezassem a ideia de Deus e as aspirações elevadas, o Espiritismo poderia tornar-se coisa perigosa. Eis a razão pela qual não hesitamos em dizer que entregarmo-nos às práticas espíritas sem purificar os nossos pensamentos, sem os fortificar pela prece e pela fé, seria executar obra funesta, cuja responsabilidade poderia cair pesadamente sobre os seus autores.

Chegamos agora a um ponto particularmente delicado da questão. Atribui-se muitas vezes aos espíritas o não viverem sempre de acordo com os seus princípios; fazendo-se observar que entre eles o sensualismo, os apetites materiais e o amor ao lucro ocupam lugar muitas vezes considerável. Acusam-nos, principalmente, de divisões intestinas, rivalidades de grupos e de pessoas, que são grandes obstáculos à organização das forças espíritas e à sua marcha para diante.

Não nos interessa insistir sobre essas proposições; não queremos pronunciar aqui nenhum juízo desfavorável para quem quer que seja. Permita-se-nos somente fazer notar que não será reduzindo o Espiritismo ao papel de simples ciência de observação, que se conseguirá iludir, atenuar essas fraquezas. Ao contrário, não faremos mais que as agravar. O Espiritismo exclusivamente experimental já não terá autoridade, nem força moral necessárias para ligar as Almas. Alguns supõem ver no afastamento da ideia de Deus uma aproveitável medida ao Espiritismo. Por nossa parte, diremos que é a insuficiência actual desta noção e, ao mesmo tempo, a insuficiência dos nobres sentimentos e das altas aspirações, que produzem a falta de coesão e criam as dificuldades da organização no Espiritismo.

Desde que a ideia de Deus se enfraquece numa Alma, a noção do eu, isto é, da personalidade, aumenta logo; e aumenta ao ponto de se tornar tirânica e absorvente. Uma dessas noções não cresce e se fortifica senão em detrimento da outra. Quem não adora a Deus, adora-se a si mesmo, disse um pensador.

O que é bom para os meios de experimentação espírita, é bom para a sociedade inteira. A ideia de Deus – nós o demonstramos – liga-se estreitamente à ideia de Lei, e assim à de dever e de sacrifício. A ideia de Deus liga-se a todas as noções indispensáveis à ordem, à harmonia, à elevação dos seres e das sociedades. Eis por que, logo que a ideia de Deus se enfraquece, todas essas noções se debilitam; desaparecem, pouco a pouco, para dar lugar ao personalismo, à presunção, ao ódio por toda a autoridade, por toda a direcção, por toda a lei superior. E é assim que, pouco a pouco, grau a grau, se chega a esse estado social que se traduz por uma divisa célebre, que ouvimos ecoar por toda a parte: Nem Deus, nem Senhor!

Tem-se de tal modo abusado da ideia de Deus, através dos séculos; tem-se torturado, imolado, em seu nome, tantas vítimas inocentes; em nome de Deus tem-se de tal modo regado o mundo de sangue humano, que o homem moderno se desviou Dele. Tememos muito que a responsabilidade desse estado de coisas recaia sobre aqueles que fizeram, do Deus de bondade e de eterna misericórdia, um Deus de vingança e de terror. Mas, não nos compete estabelecer responsabilidades. O nosso fim é, antes, procurar um terreno de conciliação e de aproximação, em que todos os bons Espíritos se possam reunir.

Seja como for, os homens modernos, na grande maioria, já não querem suportar acima deles nem Deus, nem lei, nem constrangimento; já não querem compreender que a liberdade, sem a sabedoria e sem a razão, é impraticável. A liberdade, sem a virtude, leva à licença, e a licença conduz à corrupção, ao rebaixamento dos caracteres e das consciências, numa palavra, à anarquia. Será somente quando tivermos atravessado novas e mais rudes provas que consentiremos em reflectir. Então, a verdade se fará luz e a grande palavra de Voltaire se verificará aos nossos olhos: “O ateísmo e o fanatismo são os dois pólos de um mundo de confusão e de horror!” (A História de Jeni.).

É verdade que muito se fala de altruísmo, nova denominação do amor da Humanidade, e se pretende que esse sentimento deve bastar. Mas, como se fará do amor da Humanidade uma coisa vivida, realizada, quando não chegamos, não direi a amar-nos, mas somente a suportar-nos uns aos outros? Para se agruparem os sentimentos e as aspirações, é necessário um ideal poderoso. Pois bem! Esse ideal não o encontrareis no ser humano, finito, limitado; não o encontrareis nas coisas deste mundo, todas efémeras, transitórias. Ele não existe senão no Ser infinito, eterno. Somente Ele é bastante vasto para recolher, absorver todos os transportes, todas as forças, todas as aspirações da alma humana, para reconhecê-los e fecundá-los. Esse ideal é Deus!

Mas que é o ideal? É a perfeição. Deus, sendo a perfeição realizada, é ao mesmo tempo o ideal objectivo, o ideal vivo!

/…
(i) Vide as minhas obras precedentes: Cristianismo e Espiritismo, No Invisível e, ainda, Espíritos e Médiuns – tratado de Espiritismo experimental.
(ii) Vide J. Maxwell, Fenómenos Psíquicos, páginas 232 a 235; Léon Denis, No Invisível, cap. XXII. Vide também Relatório de Congresso Espírita de Bruxelas, 1910, págs. 112, 124.
(iii) Obtemos a prova objectiva desse facto por meio das Chapas fotográficas. No estado de prece, pelo contacto dos dedos, conseguimos impregnar as chapas de radiações muito mais activas, de eflúvios mais intensos do que no estado normal.


Léon Denis, O Grande Enigma, Primeira parte / Deus e o Universo, VII A ideia de Deus e a experimentação psíquica, 18º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: As majestosas e violentas palavras dos poemas, pintura em acrílico de Costa Brites)

sábado, 10 de dezembro de 2016

Victor Hugo e o invisível ~


~ fisionomia espiritual de Victor Hugo ~

Victor Hugo via nas crianças seres que falavam com o invisível, mas também descobria nelas gigantes que regressavam de misteriosas distâncias. Para o poeta, as crianças eram seres não estranhos à terra. Ele as considerava viajantes, que regressavam ao mundo depois de uma prolongada ausência.

Opôs-se enfaticamente à pena de morte. (i) Lutou contra ela como poeta e como legislador. Por isso, pôs na boca de um pontífice estas palavras: "Com que direito despojais a alma da casca do corpo, para apresentá-la na sua espantosa nudez perante a eternidade?" "Sabei, humanos, que morrer é nascer noutro lugar".

poeta respeitava até a vida de um insecto. Para os grandes espíritos a vida espiritual não tem tamanho. Não esqueçamos que o mais pequeno pode conter a partícula do génio. Sentia-se criatura do Universo, pois percebia em cada astro o rumor de uma origem e a futura morada que o ser poderia habitar. O seu espírito era de uma ressonância cósmica e foi isso que o afastou do niilismo materialista.

Num dos seus livros, escreveu: "A produção das almas é o segredo do abismo". Mas este segredo foi-se-lhe revelando com a sabedoria das mesas girantes que conheceu no seu desterro na ilha de JerseySupôs, assim, que cada homem é o resultado de infinitas existências vividas pelo ser e que Deus só será uma afirmação da justiça pela lei espiritual da reencarnação.

Para a sua concepção filosófica e religiosa, existe no homem uma sede divina e é ela que provoca o problema da persistência do eu, o que o fez dizer: "Toda a síntese de Deus que existe no mundo condensa-se num único grito para afirmar a existência da alma". A existência de Deus e da alma complementam-se no pensamento do poeta.

Por quê alguns críticos desejam desvincular Victor Hugo dos temas do espírito? Sem dúvida, essa situação se desmorona por falta de base quando ele mesmo diz: "Vêm-se as grandes almas como se vêm as grandes montanhas; logo, existem". Victor Hugo não foi grande só pelas suas concepções literárias, mas, também porque acreditou no sentido profundo destas três palavras: Deus, Alma e Reencarnação.

Acontecia de Victor Hugo entrar em estado de meditação por longo tempo. Era assim que penetrava no invisível e o seu génio se impregnava de novidades transcendentais, que logo se traduziam por maravilhosos poemas. Toda a poesia de Victor Hugo é uma entrada no mundo profundo da metafísica e da religião.

O enigma mais apaixonante para ele era a natureza do génio. Fez indagações filosóficas para conhecê-la, mas foi pela poesia que ele a contestou com maior acerto: "Deus, ao criar Homero, criou o infinito". E concluiu: "O génio é inexorável: tem a sua lei e cumpre-a''. De facto, o génio é uma consequência do destino e uma aproximação a Deus.

Os poemas de Victor Hugo eram líricos, históricos e religiosos. Constituíam verdadeiras manifestações de sabedoria, pondo de lado a técnica para ficar no esotérico. O que saia da sua inspiração eram revelações procedentes das mais profundas raízes do ser. Disse ele: "Na minha profundidade misteriosa tudo vibra". Mas, qual era essa " misteriosa profundidade" de que falava? Atrevemo-nos a dizer que era o abismo vivo e aceso do mais profundo do ser, cujo devir espiritual é uma consequência de sua incessante reencarnação.

Os poemas de Victor Hugo têm ligação com os profetas maiores da Bíblia. Houve quem dissesse que a causa disso era o facto de ele ter sido a reencarnação de Isaíasmas nós acreditamos que ele foi realmente inspirado pelo mundo invisível.

poeta, segundo dizia António Machado, é um espírito que tende para o mistério. Outros opinam que é apenas um ser humano e natural e o que escreve se deve às suas predisposições cerebrais. Sem dúvida, na personalidade de Victor Hugo existiram rasgos que desfazem essa apreciação. Sem colocá-lo no plano sobrenatural, acreditamos que o poeta possui uma sensibilidade que não é consequência do seu sistema nervoso, nem do peso e volume de seus lóbulos cerebrais. Cremos que no poeta existe uma condição supra-sensível mediúnica, que lhe permite captar a alma oculta dos seres e das coisas a beleza poética não é mais que uma profundidade existencial próxima do místico e do religioso. Assim é que tanto a inspiração como a revelação, o poético, o místico e o mediúnico outra coisa não são que situações determinadas pela natureza supra-sensível que possui o poeta. Sobre essa concepção têm falado amplamente Bremond e Jacques Maritain.

Na América, eminentes poetas têm-se relacionado com o poético supranormal. Recordemos Walt WhitmanRubén DaríoLeopoldo LugonesAmado NervoRicardo RojasArturo CapdevilaJuana de Ibarbouru, etc. Todos eles se sentiram ligados ao invisível, ao numinoso, supranormal. Foram poetas-médiuns que captaram as essências poéticas tanto do mundo visível quanto do invisível. Tinham o mesmo ser e o mesmo tom poético de Victor Hugo. Eis como a poesia eleva as almas à região dos iguais.

Não olhemos o poeta como um ser fisiológico, posto que no meramente orgânico não podem manifestar-se os conteúdos da Divina Comédia, de Dante; do Canto a Mim Mesmo, de Walt Whitman; do Martín Fierro, de José Hernández; do Tabaré, de Juan Zorrilla de San Martin. O poeta demonstra que a alma pode ter aquilo que se chama "emancipação" e captar assim as essências vivas da beleza e da verdade. Se o poeta fosse nada mais que carne e osso, como se explicaria a grandeza oceânica de um Pablo Neruda que, não obstante a sua adesão ao materialismo histórico, se sentia a si mesmo como um espírito reencarnado?

A existência do poeta é uma prova da natureza espiritual do homem e do seu existir infinito. Victor Hugo orava nas suas solidões, razão porque escreveu muitas páginas depois de ter meditado na existência de Deus.

Quando escreveu Os trabalhadores do mar, manifestou as suas profundidades oceânicas tanto no poético como no religioso. O mar no seu ser profundo bramava furiosamente. As rochas de seu ser eram açoitadas pelo mar Divino do Universo; por isso, esse abismo aquático foi para ele o melhor símbolo para compreender a sua própria alma. Quando se diz Hugo poeta, diz-se mar rebentando sobre as costas da eternidade. Diz-se que escutava as vozes do oceano para perceber nelas a noção de que a morte não poderá aniquilar o génio nem o mais minúsculo ser da criação.

Há quem diga que acreditar em Deus e na Alma é um inconveniente ao trabalho em favor de um mundo novo. Que Deus e Alma são dois anestésicos para adormecer as forças revolucionárias do homem. Acreditamos que Victor Hugo foi um exemplo contrário e perfeito dessa apreciação sustentada pelos teóricos sociais do mundo moderno. Consideramos que a verdadeira revolução se dará através das novas ideias sobre Deus e a Alma. Sem elas tudo estará morto e vazio, já que a verdadeira prostração das forças revolucionárias se origina da falta de sentido espiritual que se quer ver em tudo o que existe. Pois, se lutar por um mundo novo tem como prémio a morte e o nada, o homem só deveria dedicar-se a desfrutar dos prazeres materiais, já que o seu porvir será um tenebroso e infinito não-ser. Victor Hugo acreditava em Deus e na Alma e era um poeta revolucionário tanto na ordem social quanto na espiritual.

O autor de Os Miseráveis escrevia vertiginosamente, sem se incomodar com o estilo. Era uma fonte incontida; os seus escritos brotavam do seu ser, das suas essências mais profundas, das suas raízes poéticas fundidas no invisível. Foi um paradigma do poeta-médium, mas, não obstante, a grandeza de suas criações não era resultante apenas da intervenção de seres desencarnados. Não se esqueça que ele era o médium do mar, do vento, das tempestades, do abismo, do bosque, da montanha. Era o médium de toda a criação: do pássaro, do cão, do boi, da ovelha, da árvore, da erva, da água, da rocha, dos astros, das estrelas. Era, pois, o médium de tudo o que existe; por isso, escreveu como poeta-médium, já que o fundamental para ele é que o espírito falava e não apenas a parte visível da realidade.

A religião do poeta baseava-se na do Ser encarnado e desencarnado. Uma igreja invisível era para ele o sustentáculo do verdadeiro acto religioso. Sentia-se unido a Deus, mas nem por isso era o servidor ou partidário de uma cultura anacrónica e retardatária. Como poeta, penetrou no mistério da morte, mas nem por isso deixou de aprofundar-se no vasto campo das contradições humanas. Colocar em ordem as páginas vertiginosamente escritas foi coisa muito complicada para Victor Hugo. Apesar de ter os pés na terra, escrevia com o estremecimento de um Leviatã espiritual. O mundo invisível concentrava-se sobre ele como vento poderoso, que movia a sua pena incontidamente. Não é em vão que nas palavras de Jesus o espírito é o vento que "sopra onde quer". León Felipe, o poeta espanhol que acreditava na reencarnação das almas, teve no vento o seu daimon poético. Esta força da natureza foi sempre um médium entre a matéria e o espírito. O vento do espírito roçou a fronte de Victor Hugo, fazendo dele o poeta-médium das coisas visíveis e invisíveis.

/…
(i) "Está pois a pena de morte abolida nesse nobre Portugal, pequeno povo que tem uma grande história. (…) Felicito a vossa nação. Portugal dá o exemplo à Europa. Desfrutai de antemão essa imensa glória. A Europa imitará Portugal. Morte à morte! Guerra à guerra! Viva a vida! Ódio ao ódio. A liberdade é uma cidade imensa da qual todos somos concidadãos" Victor Hugo, 1876, a propósito da abolição da pena de morte em Portugal (o primeiro país europeu a fazê-lo). Nota desta publicação.


Humberto Mariotti, Victor Hugo Espírita, Fisionomia espiritual de Victor Hugo, 15º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Criança com uma boneca, pintura de Anne-Louis GIRODET-TRIOSON)

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O Génio Céltico e o Mundo Invisível ~


Capítulo VIII

Palingenesia: preexistências e vidas sucessivas. A lei das reencarnações
(V)

   A lei das reencarnações – esse retorno das almas sobre a Terra – suscita objecções às quais é necessário responder, medos que é preciso dissipar. Entre aqueles que interrogam, uns temem já não reencontrar, no além, os seres que eles amaram aqui na Terra. Pergunta-se se, em virtude dessa lei, nós seremos separados dos membros actuais das nossas famílias e obrigados a prosseguir isoladamente, a nossa lenta e penosa evolução. Outros estão apavorados pela perspectiva de retomar a tarefa terrestre, após uma vida laboriosa semeada de provas e de males. Apressemo-nos em tranquilizá-los.

   A reencarnação é rápida e, a estada do espírito no espaço é de curta duração somente no caso de crianças mortas com pouca idade. Tendo malogrado a sua tentativa para reaparecer no cenário terrestre, quase sempre por causas fisiológicas devidas à mãe, essa tentativa será renovada desde que condições favoráveis se apresentem no mesmo meio. Caso contrário, o espírito se reencarnará nas proximidades desse meio, isto é, entre parentes ou amigos, de maneira a permanecer em relação com aqueles que ele tinha escolhido, em virtude de uma atracção resultante de ligações anteriores, de forças afectivas que constituem uma certa afinidade fluídica.

  Os espíritos formam famílias numerosas cujos membros continuam através das suas múltiplas reencarnações. Enquanto que uns prosseguem sobre o plano material a sua educação e a sua evolução, outros ficam no Espaço para os proteger, na medida dos seus meios, sustentando-os, inspirando-os, esperando-os, a fim de os receber no término da vida terrestre. Mais tarde, esses aqui renascerão para a vida humana e, por sua vez, de protectores se tornarão protegidos. A duração da estada no Espaço é muito variável e, conforme o grau de evolução, pode durar muitos séculos ou somente algumas dezenas de anos, para os espíritos ambiciosos de progresso.

   Há sempre correlação entre a vida terrestre e a do Espaço. A família visível está sempre ligada à família invisível, mesmo sem o saber. Os afectos, os sentimentos provenientes dos laços estabelecidos no curso das vidas sucessivas, transmitem-se de um plano para o outro com maior intensidade quanto mais subtil for o estado vibratório dos seres que compõem essas famílias.

   A união perfeita que reina em certas famílias, explica-se pelas numerosas vidas comuns. Os seus membros foram reaproximados por uma atracção espiritual, uma adaptação do pensamento idêntico, de gostos e de aspirações da mesma ordem, e isso em graus diversos.

   É fácil reconhecer, numa família, aquele que nela se encarna excepcionalmente e pela primeira vez, seja para ali se aperfeiçoar intelectual e moralmente, em contacto com seres mais evoluídos, seja, ao contrário, para servir de exemplo, de modelo, de treinador de espíritos atrasados e, ao mesmo tempo, para ajudá-los a suportar as provas que o destino lhes reserva, o que torna essa missão uma tarefa meritória. Em certos casos o contraste é tão notável entre os caracteres, a maneira de pensar e de agir é tão surpreendente que as pessoas não iniciadas chegam a proferir este julgamento: “Aquele não é da família, poder-se-ia crer que ele foi trocado ao nascer!”

   Desde a vida no espaço, entre certos espíritos, são assumidos os compromissos de reencarnarem nos mesmos ambientes e aí prosseguir uma evolução comum. Outras almas evoluídas aceitam a função penosa de descer a lares materiais para neles dissipar, através das suas irradiações, os elementos grosseiros que dominam tais ambientes, e este acto de abnegação será para elas um outro motivo de progresso.

   Algumas pessoas interrogam-nos sobre a diferença de raças e as suas relações com a evolução. Os espíritos dizem, sobre esse assunto, que cada região do globo atrai do Espaço os fluidos em harmonia com os eflúvios que se desprendem do solo. Daí resulta que os espíritos que renascem nessas regiões terão gostos e aspirações diferentes. Por exemplo, os africanos receberão os fluidos próprios para desenvolver a sua vitalidade física, porque o seu espírito tem necessidade de se sentir num envoltório sólido.

   Entre os orientais, os japoneses, por exemplo, a evolução terrestre é mais completa, os corpos são pequenos, a sensibilidade desenvolvida, a percepção do além mais nítida. O misticismo está presente. O perispírito do japonês, de uma grande subtileza, vibrará mais fortemente do que o do senegalês.

   Entre os ocidentais, em geral, a evolução não tem sido uniforme. Ela variou conforme os países. Os montanheses e os marítimos, sob formas mais rudes, guardaram um certo fundo de idealismo ou um espírito religioso. Aí estão dois tipos humanos cujas aspirações se relacionam mais directamente com o mundo superior, porque eles se comungam com a Natureza.

   Não é de espantar se um espírito, na sua curta evolução, experimente, às vezes, a necessidade de mudar de meio para adquirir qualidades ou conhecimentos que ainda lhe faltam. Mas esses mesmos seres, voltando ao espaço, ali logo encontram os elementos espirituais de que se haviam afastado por certo tempo e dos quais tinham guardado lembranças. Já, no sono, o ser encarnado se aproxima dos seus amigos do Espaço e revê, em alguns instantes, a sua vida passada, mas, ao despertar, essa impressão se apaga, porque ela poderia perturbar e diminuir o seu livre-arbítrio.

   Se ele se afasta, por um certo tempo, da sua família terrestre, não abandona nunca a sua família espiritual e, quando a família humana evolui e atinge um plano fluídico superior, a acção inversa se produzirá, e será ela que, por sua vez, atrairá no espaço o espírito menos avançado. A lei da evolução do ser através das suas vidas renascentes é admirável, mas a inteligência humana não pode entrever senão um seu pálido reflexo.

   Os ensinamentos contidos nestas páginas não são obra da imaginação. Eles emanam de mensagens espirituais obtidas por todos os processos mediúnicos e recolhidos em todos os países. Até aqui, não tínhamos, sobre as condições da vida do Além, a não ser hipóteses humanas, sejam filosóficas ou religiosas. Hoje, os que vivem essa vida a descrevem para nós e falam sobre as leis da reencarnação. Com efeito, o que são certas excepções assinaladas entre os anglo-saxões, e cujo número diminui cada dia na presença da enorme quantidade de documentos, de testemunhos concordantes recolhidos desde a América do sul até às Índias e ao Japão?

   Já não é como no passado, um pensador isolado, ou mesmo um grupo de pensadores, que vem mostrar à humanidade a rota que ele julga verdadeira; é um mundo invisível, inteiro, que se abala, e se esforça para tirar o pensamento humano das suas rotinas, dos seus erros, e lhe revela, como no tempo dos druidas, a lei divina da evolução. São os próprios parentes e amigos mortos que nos expõem a sua situação, boa ou má, e a consequência dos seus actos no decorrer de palestras ricas de provas de identidade.

   Possuo sete grandes volumes de comunicações, recebidas no grupo que por longo tempo dirigi, que respondem a todas as questões que a inquietude humana apresenta à sabedoria dos invisíveis.

   Os espíritos guias instruíam-nos por meio de médiuns diversos que, de uma maneira geral, não se conheciam entre si, e sobretudo através de mulheres pouco letradas, cheias de preconceitos católicos e pouco inclinadas à doutrina das encarnações. Acontece que, todos aqueles que consultaram esses arquivos ficaram surpreendidos com a beleza do estilo, bem como com a profundidade das ideias emitidas.

   Talvez essas mensagens sejam um dia publicadas. Então, ver-se-á que, nas minhas obras, não sou inspirado somente por mim, mas sobretudo por aqueles do outro lado da vida. Reconhecer-se-á, pela variedade das formas, uma grande unidade de princípios e uma perfeita analogia com os ensinamentos obtidos dos espíritos guias, através de todos os meios, e onde Allan Kardec se inspirou para delinear as grandes regras da sua doutrina.

   Após a guerra (1ª Guerra Mundial, 1914-1918), os nossos instrutores continuaram a manifestar-se através de médiuns diferentes. Por meio de entidades diversas, a personalidade de cada um deles se afirmou pelo seu próprio carácter, por uma originalidade talhada, numa palavra, de maneira a evitar todas as possibilidades de simulação. Pode seguir-se, anualmente, na Revue Spirite, a quintessência dos ensinos que nos foram dados sobre assuntos sempre substanciais e elevados.

   Depois, aquando do congresso (Espírita) de 1925, foi o grande iniciador (Allan Kardec) que nos veio certificar do seu concurso e esclarecer-nos com os seus conselhos. Hoje ainda é ele, Allan Kardec, que nos anima a publicar este estudo sobre a reencarnação.

   Até aqui não insistimos muito sobre o principal argumento que se evoca contra a doutrina das preexistências, isto é, o esquecimento das vidas anteriores. Esse argumento foi refutado, detalhadamente, em quase todas as obras que escrevemos. (*) Esse esquecimento, já vimos, não é tão genérico como se pretende, e se a maioria dos homens se dedicasse a um estudo atento da sua própria psicologia, eles encontrariam, facilmente, os vestígios das suas vidas passadas.

   Assim, como demonstra o Sr. Bergson, no seu belo livro A Evolução Criadora, este argumento não é concludente. A partir da vida actual, e sobretudo no estado sonambúlico, oposto ao estado normal, produzem-se eclipses de memória que tornam compreensível o desaparecimento das lembranças longínquas. Todos os espíritos sabem que esse esquecimento do nosso passado é temporário e acidental.

   Mesmo que o espírito seja pouco evoluído, a lembrança integral se reconstituirá no além, até mesmo no decorrer da presente existência, durante o sono.

   No estado de desprendimento (i), ele poderá retomar o encadeamento das causas e dos efeitos que formam a trama do seu destino. É somente no período da luta material que a lembrança se apaga, precisamente para nos deixar a plenitude do nosso livre-arbítrio, indispensável para ultrapassar as dificuldades, as provas terrestres, e delas recolher todos os frutos.

   Em suma, o esquecimento das vidas passadas deve ser considerado como um benefício para a maioria das almas humanas num ponto não muito elevado da sua evolução. A lembrança seria, frequentemente, inseparável de revelações humilhantes e de pesares dolorosos como queimaduras. Em vez de se hipnotizar para um passado mau, é para o futuro que convém fixar o objectivo dos nossos esforços e os impulsos das nossas faculdades.

   O provérbio não diz que ao colocar as mãos na charrua não se deve olhar para trás? Com efeito, para traçar bem direito o sulco, isto é, para afrontar e prosseguir no combate da vida com alguma vantagem, não é preciso ser obsecado pelo cortejo de más lembranças.

   É somente mais tarde, na vida do espaço, e sobretudo nos planos superiores da evolução, que a alma humana, libertando-se do jugo da carne e livre do pesado capuz da matéria que limita as suas percepções, pode abranger sem desfalecimento, sem vertigens, o vasto panorama de suas vidas planetárias. Então, ela adquiriu a maturidade necessária para discernir, por sua razão e por seu saber, o vínculo que as religa todas, os resultados recolhidos, e tirar os ensinamentos que eles comportam. É o que diz a Tríade 19:

19 – Há três necessidades antes de se chegar à plenitude da ciência: atravessar o “Abred”, atravessar o “Gwynfyd” e lembrar-se de toda a coisa até no “Annoufn”.

   Tal é o julgamento particular, o inventário da nossa alma evoluída, que no início das suas existências passa em revista a longa sequência das suas etapas através dos mundos. Com a sua sensibilidade aumentada, a sua experiência, a sua sabedoria, a sua razão engrandecida, ela julga do alto todas as coisas. E nas suas lembranças, conforme a sua natureza, ela encontra as causas da alegria ou do sofrimento. A sua consciência purificada perscruta os menores sinais da sua memória profunda. Tornada o árbitro infalível, ela pronuncia sem apelo, aprova ou condena, e às vezes, a título de reparação e sob a inspiração divina, ela decide e impõe os renascimentos nos mundos da matéria e da dor. É o que atesta a Tríade 18:

18 – Há três calamidades primitivas do “Abred”: a necessidade, o esquecimento e a morte.

   Terminado este capítulo, insistiremos ainda sobre a importância do movimento espiritualista actual, que, na realidade, é o despertar das tradições da nossa raça céltica. Para tornar plena, inteira e fecunda a sua vida, todo o homem deve compreender-lhe o seu sentido profundo e discernir-lhe o seu objectivo, porque, seja por reflexão, seja por uma espécie de instinto, a ideia que dela se faz é a que domina toda a sua vida, inspira os seus actos e os orienta na direcção de objectivos ou inferiores ou elevados.

   Resulta que desta noção essencial deveria participar toda a educação humana ministrada, mas nem a escola, nem a Igreja nos dão, sobre este assunto capital, informações claras e precisas. Daí, em grande parte, a perturbação moral e a confusão de ideias que reinam na nossa sociedade.

   Se nós conhecêssemos toda a regra soberana dos seres e das coisas, a lei e a consequência dos actos e a sua repercussão sobre o destino; se nós soubéssemos que se colhe sempre o que se semeou, as reformas sociais seriam mais fáceis e a face do mundo seria rapidamente transformada. Mas a maioria dos homens, absorvidos por tarefas, por preocupações materiais, privados dos lazeres necessários para cultivar a sua inteligência e o seu coração, percorrem a vida como se passassem por vã neblina. A morte não é para os seus olhos mais do que um espantalho, do qual eles afastam, com pavor, o pensamento importuno. É assim que, quando vêm os dias de provas, se o vento sopra com a tempestade, eles se encontram logo desamparados.

   É isso o que acontece na actualidade. Para tirar o homem das pesadas influências que o oprimem, seriam precisos eventos importantes, crises dolorosas que, mostrando-lhe o carácter precário, instável da vida na Terra, deviam abater o seu orgulho, obrigá-lo a afastar para longe as suas atenções e a fixar mais alto os seus objectivos. Seria lucrativo para a humanidade, se os tempos de prova, que a nossa civilização atravessa actualmente, esclarecessem as suas taras e os seus vícios e lhes ensinassem a curá-los.

   Não é uma coincidência notável que, ao mesmo tempo que as crenças religiosas se apagam cada vez mais, em que o materialismo espalha perante nós os seus efeitos destruidores, uma revelação do Alto se difunde pelo globo por milhares de vozes, oferecendo uma doutrina, um ensino racional e consolador para todos os interessados de boa-fé?

   O Espiritismo é o maior e mais solene movimento do pensamento que se produziu desde o aparecimento do Cristianismo. Não somente pelo conjunto dos seus fenómenos, ele nos traz a prova da sobrevivência, mas, sob o ponto de vista filosófico, as suas consequências são mais grandiosas. Com ele, o horizonte se aclara, o objectivo da vida torna-se preciso, a concepção do Universo e das suas leis aumentam, o pessimismo sombrio se esvaece para dar lugar à confiança, à fé em destinos melhores.

   O Espiritismo pode então revolucionar todos os domínios do pensamento e do conhecimento. Em lugar de ambientes estreitos onde se encontravam confinados, ele abre grandes portas para o desconhecido e para o inexplorado. Pelo estudo do ser no seu “eu” profundo, neste mundo fechado onde se acumulam tantas impressões e lembranças, o Espiritismo cria uma Psicologia nova, muito maior e mais variada do que a Psicologia clássica.

   Até aqui, nós somente conhecemos a parte mais grosseira, a mais superficial do nosso ser. O Espiritismo no-lo mostra como um reservatório de forças escondidas, de faculdades em estado germinativo, que cada um de nós é chamado a valorizar, a desenvolver através dos tempos. Pelos métodos hipnóticos ou magnéticos (itornar-se-á possível chegar até às origens do ser, reconstituindo o encadeamento das existências e das lembranças, a série de causas e efeitos que são como a trama de nossa própria história. Aprenderemos que o próprio ser cria a sua personalidade e a sua consciência no decorrer de uma evolução que o conduz, vida após vida, na direcção de planos melhores. E assim se afirma a nossa liberdade que se engrandece com a nossa elevação e fixa as causas determinantes do nosso destino, feliz ou infeliz, conforme os nossos merecimentos. Desde então, já não são esses debates estéreis a que assistimos há muito tempo e que provêm da insuficiência de pontos de vista e do campo muito limitado das nossas observações, nesta vida passageira e sobre este mundo miserável, parcela ínfima do Todo-poderoso.

   Por outras palavras, o ser nos aparece sob aspectos mais nobres e mais belos, levando consigo todo o segredo da sua grandeza futura e da sua potência radiante. Com a cultura dessa ciência, dia virá em que todo o homem poderá ler claramente, em si mesmo, a regra soberana da sua vida e do seu futuro. E daí decorrerão as grandes consequências sociais. A noção dos deveres e das responsabilidades se tornará mais precisa. Em lugar das dúvidas, de incertezas e do pessimismo actuais, a esperança se originará do conhecimento da nossa natureza imperecível e dos nossos destinos infinitos.

   Pode, então, dizer-se que a obra do Espiritismo é dupla: no plano terrestre ela tende a reunir e a fundir num sistema grandioso todas as formas, até ao momento discordantes e frequentemente contraditórias, do pensamento e da ciência. Num plano mais amplo, ele une o visível ao invisível, essas duas formas da vida que, na realidade, se penetram e se completam desde o princípio das coisas. Com esse objectivo ele demonstra que o nosso mundo e o Além não são separados, mas estão um no outro, constituindo assim um todo harmónico.

/…
(*) Depois da Morte, Cristianismo e Espiritismo e O Problema do Ser e do Destino.


LÉON DENIS, O Génio Céltico e o Mundo Invisível, Segunda Parte – Capítulo VIII Palingenesia (i): preexistências e vidas sucessivas. A lei das reencarnações (5 de 5) 28º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: A Apoteose dos heróis franceses que morreram pelo seu país durante a guerra da Liberdade, pintura de Anne-Louis Girodet-Trioson)

sábado, 12 de novembro de 2016

~~~Párias em Redenção~~~


SUBJUGAÇÃO IMPIEDOSA E NEFASTA ~
(III)

  Logo que lhe foi possível, Carlo solicitou e conseguiu entrevistar-se com Girólamo.

  Accionado pelo estranho ódio que o corroía como vérmina, o ginete interrogou:

  – Com vossa vénia, Senhor Conde, desejo saber qual a vossa resposta à proposição que vos fiz em Siena. Como não ignorais, pertenço à plebe e sou pobre.

  O enfermo, sem dissimular a aversão que nutria pelo chantagista, fitou-o longamente, como a espreitar os mais secretos ardis e pensamentos de que ele fosse capaz, demorando-se em silêncio. Após largo período, em que os dois se defrontavam, medindo reciprocamente a extensão da torpeza que a ambos possuía, contestou com enfado:

  – Gostaria que me refrescasses a memória com a tua estória caluniosa e sórdida.

  Expressou-se com alta dose de calculado desprezo e acrimónia, objectivando escarnecer o desafecto ao máximo.

  Orgulhoso e vão, o florentino ambicioso contestou:

  – Disse-vos que sou testemunha, de vista, do crime que praticaste na colina de San Miniato contra uma jovem de nome Assunta.

  A segurança do comensal dos Castaldi e a informação nominal sobre a jovem assassinada colheram o Conde de surpresa, impedindo-o de disfarçar o choque. Recompondo-se, porém, respondeu:

  – A quem te referes?

  – À mulher que, segundo penso, participou dos crimes deste solar e teve os lábios selados para toda a Eternidade… (Sorriu expressivamente).

  Girólamo ergueu-se de um salto e avançou contra o adversário. Este, porém, gritou:

  – Pensei, também, na alternativa da agressão e vos aviso: seria a última vez que atingiríeis alguém. Não vos perdoo a bofetada e pagareis alto preço pelo meu silêncio. Não vos atrevais por segunda vez, ou ambos partiremos para os Infernos, daqui mesmo. Eu advirto.

  O agressor parou vis-à-vis junto a Carlo. Bufava, e o ódio fazia-o estremecer. O olhar desvairado despedia chispas.

  – Que desejas, miserável? – inquiriu.

  – Participar do vosso dolce far niente. A verdade custa caro e o silêncio sobre ela muito mais.

  – Eu te matarei, canalha. Será mais um, apenas…

  – Talvez. A vida para mim nada vale, mas para vós, a vossa vida regalada deve valer muito. E é isso que eu desejo.

  Estrugiu uma gargalhada de contentamento ante o pavor do senense, impossibilitado de qualquer atitude.

  Acontece que, não obstante a grotesca personalidade que possuía, Carlo era também um sensitivo, que facilmente se sintonizava com o duque di Bicci, desde a noite em que na Piazza de San Domenico cogitara do desforço contra o insensato inimigo. Fortemente inspirado, chegara à conclusão de toda a trama que Girólamo urdira e consumara.

  Enquanto isto, Girólamo pensava como libertar-se do usurpador. Teria que correr o risco: matá-lo ou perder-se. À ideia que lampejou fulminante no cérebro doente, acalmou-se, conciliador, aquiescendo:

  – Se necessitas de dinheiro, posso ajudar-te. Quanto às tuas acusações perniciosas, procurarei esquecê-las. Não me esquecerei, porém, de ti, prometo-te!

  – Estou avisado, meu amo, – retrucou com mal disfarçado sarcasmo.

  Arrancando pequena algibeira de veludo que trazia pendente do cinto, atirou-a ao ávido chantagista, que anuiu, sorrindo:

  – Grazie, signore, grazie!

  Recuou em atitude servil e desapareceu além da porta, pelo longo corredor.

  Girólamo, com o espírito aguçado pelo ódio, pôs-se a escoucear e gritou pelo pajem, que acudiu, aflito:

  – Vinho, rápido! Quero vinho:

  Da ira, passou à gargalhada trovejante. Chamados apressadamente pelo pajem, os familiares subiram à peça do Conde e o encontraram totalmente louco. O médico e mais alguns lacaios seguraram-no, resolvendo atá-lo a fortes amarras, para impedi-lo de praticar qualquer desmando.

  Beatriz, ante o impacto do choque, foi vencida por um desmaio e o pânico se estabeleceu entre os servos e auxiliares da casa.

  A custo, o médico conseguiu fazer recuperar a consciência à jovem senhora que, sentindo dores violentas na região do baixo-ventre, narrou ao esculápio o que vinha sentindo nos últimos tempos, e este não teve dúvidas em atestar que a Senhora Condessa estava em gestação, devendo ser mãe em breves meses. Necessitava acalmar-se para não perder o filho. Conquanto a grande dor, a perspectiva da maternidade inundou-a de júbilos e anteviu o momento de dizê-lo ao esposo, que desvairava na alcova contígua…

  O Conde Girólamo Cherubini di Bicci ia ser pai!

  Após a excitação na qual as forças vingadoras exploravam o alimento, este caiu em grande lassidão, adormecendo em agitado torpor.

  Só no dia imediato o paciente despertou. Alheio a tudo, parecia desconhecer o próprio lar. A esposa e os familiares cercaram-no de carinho e dedicação, conseguindo, só a muito custo, fazê-lo recobrar a lucidez.

  Depois da refeição matinal, quando parecia mais refeito, a esposa acercou-se carinhosa e anunciou:

  – Girólamo, a felicidade entra em nossa casa: serás pai, muito em breve, graças a Deus!

  Ele ergueu o sobrolho, sem compreender exactamente, ainda amolentado, distante. Não se pôde furtar ao enlevo da ternura com que a futura mamãe o envolveu.

  Reanimado com a energia balsâmica que dela se desprendia, invisível e revigorante, o revel readquiriu toda a lucidez, e, nublando os olhos, respondeu, comovido pela primeira vez:

  – Eu te agradeço, mas, é tarde, muito tarde para mim!...

  Choro convulsivo irrompeu-lhe do peito opresso e, em desconcertante atitude, como quem deseja amor e paz, afagou o rosto esfogueado da consorte e o osculou jovialmente…

  O médico e os familiares de Beatriz insistiram para que Girólamo aceitasse o alvitre de afastar-se dali, passando a temporada Outono-Inverno em Siena, facultando o nascimento do filhinho no palácio dos sogros.

  Submetida a melhor exame, Beatriz teve a confirmação da maternidade que a fazia progenitora de um novo clã.

  Foram baldos os esforços gerais para que ele aquiescesse em viajar. Embora um tanto alheado às coisas que aconteciam no lar, Girólamo não voltou a experimentar novo acesso de violência, nos dias imediatos.

  Uma semana transcorrida sem qualquer incidente fez que o esculápio chegasse à falsa conclusão de que o desequilíbrio resultava, ainda, das consequências da febre palustre de que fora ele vítima, voltando, desse modo, os hóspedes aos seus respectivos lares, imediatamente, tranquilizados pelo médico.

  Beatriz, apesar da enfermidade do esposo, que demorava longas horas perdido em meditações, mudo, sentia incontido júbilo, acompanhando o desenvolvimento do feto na intimidade uterina.

  A Providência Divina recambiava ao corpo um dos que foram despojados da carne e dos seus haveres pelo homicida, fazendo com que viesse recebê-los das mesmas mãos que os tomaram arbitrariamente. O pequeno Carlo, que a criminalidade de Girólamo assassinara fazia oito anos, retornava ao lar, na qualidade de seu filho primogénito…

/…


VICTOR HUGO, Espírito “PÁRIAS EM REDENÇÃO” – LIVRO PRIMEIRO, 9 SUBJUGAÇÃO IMPIEDOSA E NEFASTA (3 de 3) 31º fragmento da obra. Texto mediúnico, ditado a DIVALDO PEREIRA FRANCO.
(imagem de contextualização: L’âme de la forêt | 1898, tempera e folha de ouro sobre painel de Edgard Maxence)

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

o grande desconhecido ~


VI - Relações Familiais no Espiritismo |

As relações familiais (i) dos povos primitivos começavam com ampla liberalidade, como já vimos, nas fases infantis. O instinto de imitação das crianças respondia pelo aprendizado espontâneo do comportamento dos adultos. A criança era encarada como um estrangeiro amigo e tratada com respeito e observação… Só na puberdade iria integrar-se no sistema tribal e começar a envolver-se com os ritos e as tradições tribais. Daí por diante a sua liberdade estava condicionada pela cultura da nação, pelas suas tradições, a sua moral e as suas crenças. As pesquisas antropológicas revelaram assim que:

a) os filhos não eram considerados como produzidos pelos pais e herdeiros consanguíneos naturais da raça, mas como criaturas adventícias ou familiares que nela se encarnavam, portanto preexistentes ao nascimento. Essa intuição da preexistência do ser e da reencarnação era inata e generalizada nos povos primitivos, com algumas variantes na sua manifestação nos diferentes povos. Isso comprova a afirmação de Kardec de que as marcas do Espiritismo são encontradas em todas as fases da evolução humana. As manifestações do espírito dos mortos, as práticas mágicas e as evocações completam esse quadro.

b) a prática da couvade (do francês: couvade) que consiste na dieta do pai e não da mãe após o parto, revela a origem natural da autoridade do pai na estrutura da família; mostra que a supremacia do pai não provém apenas da sua maior potencialidade física, mas também e principalmente do facto de ser ele o fecundador e portanto o criador;

c) A mãe não precisa de dieta, não fecunda, é fecundada; a sua relação com o filho é a de serva; incumbida de recebê-lo à porta da vida, criá-lo, zelar por ele, de maneira que o mito da Terra-Mãe, sob o poder fecundante do Sol-Pai; complete nela a sua função protectora.

É desse mito remoto que, nascido do chão, da carne e do sangue, no relacionamento inconsciente da Natureza com o Homem, que vem a estrutura dinâmica da Família, ao mesmo tempo coercitiva e protectora. As leis da tribo ou da horda centralizam-se nela e ajustam-se como a casca ao tronco da Árvore. Mais tarde essa imagem define-se culturalmente na figura da árvore genealógica. Na couvade o pai faz a dieta porque, como criador, o filho está ligado a ele organicamente, de maneira tão íntima, que os seus movimentos no andar, no correr, no saltar, em todas as actividades físicas, prejudicará o recém-nascido. A superstição ingénua, que muitos atribuíram à preguiça do índio, tem motivos profundos na alma primitiva, em que as ligações da magia simpática representam a estrutura mágica do Universo. É o principio espírita da unidade do Universo, onde as coisas e os seres procedem uns dos outros, numa continuidade absoluta. A prática da couvade precedeu de muitos milénios, a mentalidade do homem primitivo, à estruturação matemática do Universo por Pitágoras e à concepção unitária e panteísta de Espinoza.

Das percepções instintivas dos primatas às intuições supersticiosas dos povos selvagens passamos às elaborações mentais das civilizações agrárias e pastoris e destas às formulações de normas, leis e códigos das civilizações teocráticas. Na Idade Média as linhagens de tipo davídico formam os conjuntos de famílias rigidamente estruturadas, que no Renascimento e no Mundo Moderno se prolongam e dispersam em ramificações sofisticadas. O padrão familial consolida-se, mas a evolução cultural e o desenvolvimento industrial, juntamente com o aumento populacional, ameaçam esse mosaico de leis divinas e humanas que não pode resistir às violentas modificações das estruturas sociais. A integridade da família afrouxa, a sua rigidez de princípios amolece ante as novas exigências do mundo novo. Preconceitos milenares são esfarelados, teorias revolucionárias provocam terremotos demolidores. Na Era Tecnológica em que nos encontramos a subversão das estruturas antigas chega ao extremo. Profetas alucinados pregam a destruição pura e simples da família e a volta do homem a uma liberdade primitiva que nunca existiu. Os freios de aço da moral burguesa não podem mais conter o ímpeto da carne, dessa frágil carne humana mais forte que a pedra e o aço. Rompem-se os tabus sexuais e a liberdade, essa deusa de barrete frígio dos ideólogos franceses, reverte-se em libertinagem. Não há mais freios, nem divinos nem humanos, que possam conter a fúria dos impulsos desencadeados. Os faunos recalcados do puritanismo vitoriano esfregam as mãos e arregalam os olhos concupiscentes ante o alvorecer da irresponsabilidade.

É nesse momento que o conceito espírita de família se impõe como única solução para os problemas actuais. As três formas familiais que estudamos no capítulo anterior mostram a insanidade de se encarar a família como simples organização material destinada a acomodar os homens nas estruturas sociais passageiras. Há na família, como no homem, uma finalidade superior a atingir. O elemento que determina a organização familial não é o simples interesse material. A linhagem não é determinada pela tradição ou pelos títulos nobiliárquicos, mas pelo desenvolvimento moral e espiritual das linhas sucessórias. O sangue, por si só, não cria distinções na espécie humana. O único valor verdadeiro do homem, e por isso imperecível, pertence à sua natureza intrínseca, à sua subjectividade existencial. A força aglutinadora, que mantém a estabilidade da família e a projecta no futuro, é a afectividade, o que vale dizer: o Amor. A tónica emocional e magnética que atrai para a família criaturas desviadas ou afastadas é a afinidade de grau evolutivo, de posição conceptual, de aprimoramento ético e estético. Nada disso é objectivo ou material. A família apresenta-se, portanto, na concepção espíritacomo um centro dinâmico de forças espirituais produzido pela evolução terrena e destinado a formar, nas conjugações familiais, a Nova Humanidade Terrena.

O problema das relações familiais, na concepção espíritaescapa ao rígido esquema autoritário elaborado nas civilizações agrárias e pastoris, com base nos mitos telúricos. Essa rigidez foi quebrada no mundo moderno, mas ainda subsiste em vastas camadas e em populações inteiras. A estúpida e ridícula tragédia burguesa do marido traído que mata a esposa infiel ou o amante para defender a sua honra pessoal, tornando-se um honrado e truculento assassino, vigora ainda com força quase total nas nações civilizadas. Isso porque o homem, o criador -- segundo a concepção da couvade, tem direitos absolutos sobre a mulher que fecundou; matá-la, como faziam os romanos com os instrumentos vocais, ou seja, os escravos humanos. A mentalidade prepotente dos escravocratas domina até agora a maioria dos homens, que se julgam viris por assassinarem mulheres indefesas e mais fracas que eles, substituindo os chifres simbólicos pela prova concreta e real de sua covardia. A diferença injusta e criminosa dos direitos entre homem e mulher, que levou Jesus a livrar a mulher adúltera da lapidação brutal em praça pública, responde por esses costumes bárbaros através dos milénios. No Espiritismo a atitude de Jesus é referendada pelo princípio que estabelece a igualdade de direitos entre o homem e a mulher, com diversificação de funções. Porque a diversificação corresponde às exigências de complementação recíproca das actividades masculinas e femininas na família e na sociedade. Não há razão para que a mulher sofra perda de direitos humanos na posição de companheira do homem, da qual é mãe, esposa e filha.

Em face desse princípio a liberdade humana é a mesma para o homem e a mulher no processo existencial, no qual existem como metades biológicas, necessária e reciprocamente complementares, tanto no plano vital e psíquico, quanto em todas as actividades. Reconhecida a igualdade de direitos, não apenas no plano legal, mas principalmente no plano conceptual, a sanção da consciência afasta da família o autoritarismo gerador de conflitos e estabelece o clima de respeito e amor que gera o entendimento. Jesus não vacilou em reconhecer como públicos os direitos romanos, determinados pela aliança dos grandes de Israel com os conquistadores. Não lhe interessava a política mundana, mas quando os donos da casa abrem as portas ao inimigo e se banqueteiam com ele, há direitos de um lado e do outro. Para Jesus os direitos não eram uma questão de poder, mas de justiça. No caso familial cada membro tem o seu direito e este deve ser reconhecido pelos demais. Por isso aprovou o divórcio de Moisés nos casos de traições conjugais, mas advertiu que isso acontecia pela dureza dos corações. E lembrou que no princípio não era assim, porque então prevalecia o amor.

A família não se constitui ao acaso. Toda a reunião de criaturas numa instituição social decorre de compromissos de reajuste e reequilíbrio de situações anteriores. Por isso, as chamadas famílias consanguíneas se desfazem facilmente com a morte, mas para renascerem mais tarde em novas situações reparadoras. Na proporção em que o homem toma consciência desse aspecto do problema, as dificuldades familiais tornam-se mais suportáveis.

No seu crisol as almas se depuram e se preparam para reencontros mais felizes no futuro. Mas erram os que pretendem manter à força a unidade familial, sob a pressão de ameaças divinas ou leis humanas iníquas. Os reajustes só se efectivam em condições propícias e por livre decisão dos implicados. Sem o respeito pela liberdade de opção os sacrifícios forçados geram novos desequilíbrios.

O segredo do êxito no desenvolvimento familial depende da capacidade de amar e compreender dos seus membros. Cada membro da família tem de compreender as condições temperamentais dos outros e sentir que pode amá-los apesar dos seus erros e imperfeições. Nesse caso a família perdura e atinge os seus objectivos. Os problemas sexuais geram situações aparentemente insolúveis no quadro familial. Mas se colocarmos o amor ao próximo acima das condenações impiedosas, compreendendo que cada qual sente as exigências do sexo de acordo com a sua condição própria, passando pelas provas de que necessita, poderemos transformar situações desastrosas em oportunidades de orientação.

Espiritismo oferece-nos um conceito do bem e do mal que, apesar de muito simples e claro, ainda não foi bem compreendido até agora pela maioria dos espíritas. Deus é o Bem e está presente em tudo. O Mal é tudo o que se opõe a Deus. Dessa maneira, a dialéctica do Bem e do Mal define-se como Evolução. Toda a realidade que conhecemos e podemos conhecer nos revela a incessante passagem das coisas e dos seres de uma condição caótica, imprecisa, confusa, estática, morta, para condições de ordem, organização, definição, dinamismo e vida. A morte e a destruição, como a dor, o desespero, a loucura, nada mais são do que fases de transição de um estagio para outro. São os túneis da evolução. A morte enquanto morte é o mal, mas quando se reacende em vida na ressurreição é o Bem, e sempre um bem maior do que o anterior. Nada morre, nada se destrói, tudo evolui. Sem o erro não há acerto. Sem a derrota não há vitória, para nos devolver alegremente à rota certa. Progredimos no Mal em direcção ao Bem. Erros, quedas, crimes, sofrimentos são passos no caminho do Bem, que nos levam a Deus. Nada e ninguém pode permanecer no Mal, porque os males do Mal impulsionam tudo e todos na direcção do Bem. O Não-Ser é o projecto do Ser, como a flor é o projecto do fruto.

Se compreendermos bem esse princípio avançaremos mais depressa, estimulados pela fé em Deus, que é a certeza do Bem que nos espera, que é a herança de todos, na qual todos se encontrarão.

Essa não é uma visão mística ou optimista de uma realidade trágica, mas a visão realista do Real que todos podem comprovar na simples observação de si mesmos do mundo exterior. As Ciências, na sua objectividade neutra, comprovam cada vez mais essa realidade. O teólogo Kierkegaard chegou à conclusão de que o pecado é o caminho da redenção, fundando sem querer a Filosofia Existencial, ao mesmo tempo em que Kardec fundava sem intenção a Ciência do Espírito. A compreensão profunda deste problema leva-nos a amar com mais razão os familiares transviados, procurando auxiliá-los na dura caminhada dos seus males ao invés de condená-los e expulsá-los como perdidos.

Mas nem por isso devemos aprovar o Mal, caindo no extremo contrário dos que o condenaram com violência e aterrorizaram as almas frágeis com ameaças desesperantes. Certos adeptos de mente estreita chegaram a negar a existência do Mal — neste mundo de provas e expiações em que ele ainda predomina — oferecendo óculos angélicos a criaturas ingénuas. Negar o Mal num plano inferior é convencer os maus de que eles são bons e entregar-lhes nas garras os bons desprevenidos. Todos somos bons em potencial, trazemos em nós a potencialidade do Bem, mas enquanto não transformarmos a nossa bondade em acto continuamos a ser maus. Disfarçar essa realidade inegável e patente é estimular os maus a continuarem no Mal e a colherem mais facilmente os ingénuos (nem bons nem maus) nas malhas de sua hipocrisia. O realismo espírita exige dos adeptos a vigilância critica que Jesus recomendou aos discípulos, quando os enviou aos lobos, e à oração que os resguardaria das ciladas dos sofistas. Jesus rompeu a tradição profética de Israel, delirante e apocalíptica, instalando em seu lugar a didáctica racional e realista que Kardec desenvolveria de maneira intensiva no Século XIX, combatendo por sua vez os delírios paranóicos de uma teologia Cristã decalcada no Fabulário mitológico e nos resíduos da metafísica rabínica. O Espiritismo é realista, apoia-se no real comprovado por experiências científicas. Jesus e Kardec provaram o que ensinaram. Expressões e frases evangélicas que destoam dessa orientação metódica foram atribuídas a Jesus pelos redactores dos textos, homens impregnados pela cultura judaica e mitológica em que foram criados e formados. Kardec realizou a depuração desses textos, sob orientação constante dos Espíritos superiores, que demonstraram essa superioridade através da coerência das suas manifestações rigorosamente racionais e comprovadas experimentalmente. Por isso Richet afirmou — ele que temia, como cientista eminente, os enganos da mística —, que Kardec jamais expusera um princípio sem o haver comprovado.

As partes mitológicas dos Evangelhos, hoje bem identificadas pelos pesquisadores universitários, comprovando a depuração kardeciana, e todo o Apocalipse, atribuído a João — livro judaico, pertencente à conhecida fase apocalíptica da Israel antiga e não à era apostólica — provam de maneira irrefutável as influências místicas e mitológicas na redacção dos textos evangélicos. O Apóstolo Paulo foi o primeiro a perceber e declarar que a Bíblia Judaica estava perempta e substituída pelo Evangelho. Claro que o valor histórico da Bíblia e o valor literário dos seus livros poéticos e proféticos perduram no plano cultural, mas o Velho Testamento é uma obra do passado longínquo e só o Novo Testamento contém a orientação moral e espiritual que os espíritas devem seguir. As relações familiais no Espiritismo só podem seguir a orientação evangélica, pois só ela atende às exigências racionais do presente e do futuro da Humanidade actual, na preparação dos novos tempos. As famílias espíritas assim estruturadas não se abalam com as mudanças naturalmente ocorridas na nossa civilização nesta fase de transição.

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José Herculano Pires, Curso Dinâmico de Espiritismo, VI – Relações Familiais no Espiritismo, 7º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Somos as aves de fogo por sobre os campos celestes, pintura em acrílico de Costa Brites)