Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Dedicatória







Dedicatória

"Aos nobres e grandes espíritos que me revelaram o mistério augusto do destino, a lei do progresso na imortalidade, cujos ensinos consolidaram em mim o sentimento da justiça, o amor da sabedoria, o culto do dever, cujas vozes dissiparam as minhas dúvidas, apaziguaram as minhas inquietações; às almas generosas que me sustentaram na luta, consolaram na prova e elevaram meu pensamento até às alturas luminosas em que se assenta a Verdade, eu dedico estas páginas."
Léon Denis

LÉON DENIS, Depois da Morte, Dedicatória.
(imagem: All Saints' Day, pintura de William-Adolphe Bouguereau)

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Estudo da alma pelo magnetismo – modernamente hipnotismo


Capítulo II

Estudo da alma pelo magnetismo

   Acabamos de ver, no capítulo precedente, que a idéia de uma certa corporeidade, inseparável da alma, constituiu crença quase geral da antiguidade e a de uma multidão de pensadores até à nossa época.  É evidente que essa concepção resulta da dificuldade que experimentamos em imaginar uma entidade puramente espiritual. Os nossos sentidos só nos dão a conhecer a matéria e mister se torna nos utilizemos a vista interior, para sentirmos que há em nós algo mais do que esse princípio. O pensamento, por si só, nos faz admitir, dada a sua carência de caracteres físicos, a existência de alguma coisa que difere do que cai sob a apreciação dos sentidos.
   Mas, a idéia de um corpo fluídico também resulta das aparições. É manifesto que, quando se vê a alma de uma pessoa morta, forçoso é se lhe reconheça uma certa objectividade, sem o que ela se conservaria invisível. Ora, esse fenómeno se há produzido em todos os tempos e nas histórias religiosas e profanas formigam exemplos dessas manifestações do além.
   Não ignoramos que a crítica contemporânea fez tábua rasa desses factos, atribuindo-os em bloco a ilusões, a alucinações, ou à credulidade supersticiosa dos nossos avós. Strauss, Taine, Littré, Renan, etc., sistematicamente passam em silêncio todos os casos que poderíamos reivindicar. Semelhante processo não se justifica, porquanto, nos dias actuais, dados nos é comprovar as mesmas aparições e por métodos que permitem submetê-las a uma fiscalização severa. Assim sendo, assiste-nos o direito de concordar em que esses sábios se enganaram e que merecem atenção as narrativas de antanho.
   Aliás, é facto positivo que não são novos os fenómenos do Espiritismo. Produziu-se em todos os tempos. Sempre houve casas mal-assombradas e aparições.  Concebe-se, pois, que a idéia de que a alma não é puramente imaterial haja podido manter-se, a despeito do ensino em contrário das filosofias e das religiões.
   Era, porém, muito vaga, muito indeterminada a noção de um envoltório da alma. Esse corpo fluídico formar-se-ia subitamente, no instante da morte terrena? Seria para sempre, ou por tempo determinado, que a alma se revestia dessa substância subtil? Ou, então, essa aparência vaporosa seria devida apenas a uma acção momentânea, transitória, da alma sobre a atmosfera, acção destinada a cessar com a causa que a produzira? Eram questões essas que permaneceriam insolúveis, enquanto não se pudessem observar à vontade as aparições.

A vidente de Prévorst

   O magnetismo foi o primeiro a fornecer meio de penetrar-se no domínio inacessível do amanhã da morte. O sonambulismo, descoberto por de Puységur, constituiu o instrumento de investigação do mundo novo que se apresentava. Submetidos a esse estado nervoso, puderam os sonâmbulos pôr-se em comunicação com as almas desencarnadas e descrevê-las minuciosamente, de modo a deixar convencidos os assistentes de que, na realidade, conversavam com os Espíritos.
   O Dr. Kerner, tão reputado pelo seu saber, quanto pela sua perfeita honestidade, escreveu a biografia da Sra. Hauffe, mais conhecida sob a designação de A vidente de Prévorst.  Não precisava ela adormecer, para ver os Espíritos. Sua natureza delicada e refinada pela enfermidade lhe facultava perceber formas que se conservavam invisíveis às outras pessoas presentes. Teve a sua primeira visão na cozinha do castelo de Lowenstein. Era um fantasma de mulher, que ela tornou a ver alguns anos depois.
   Dizia, porém só quando a interrogavam com insistência, nunca espontaneamente, ter sempre junto de si, como o tiveram Sócrates, Platão e outros, um anjo ou daimon, que a advertia dos perigos a serem evitados não só por ela, como também por outras pessoas. Era o Espírito de sua avó, a Sra. Schmidt Gall. Apresentava-se revestida, como, aliás, todos os Espíritos femininos que lhe apareciam, de uma túnica branca com cinto e um grande véu igualmente branco.
   Declarava que, após a morte, a alma conserva um espírito nérvico, que é a sua forma. Era esse envoltório que ela possuía a faculdade de ver, sem estar adormecida e muito melhor à claridade do Sol ou da Lua, do que na obscuridade.
   “As almas, dizia, não produzem sombra. Têm forma acinzentada. Suas vestes são as que usavam na Terra, mas também acinzentadas, quais elas próprias. As melhores trazem apenas grandes túnicas brancas e parecem voejar, enquanto que as más caminham penosamente. São brilhantes os seus olhos. Elas podem, além de falar, produzir sons, tais como suspiros, ruge-ruge de seda ou papel, pancadas nas paredes e nos móveis, ruídos de areia, de seixos, ou de sapatos a roçar o solo. São também capazes de mover os mais pesados objectos e de abrir e fechar as portas.”
   Eram objectivas essas visões? Quer dizer: verificavam-se algures, que não no cérebro da Sra. Hauffe? O Dr. Kerner procedeu a muitas investigações para se certificar da realidade desses Espíritos, que só a vidente percebia.
“Em Oberstenfald, uma dessas almas, a do conde Weiler, que assassinara seu irmão, apresentou-se à Sra. Hauffe, até sete vezes. Somente ela a viu; mas, vários parentes seus ouviram uma explosão, viram ladrilhos, móveis e candelabros se deslocarem, sem que pessoa alguma os tocasse, sempre que o fantasma vinha.
   Outra alma de assassino, vestindo um hábito de frade, perseguiu a vidente, durante todo um ano, a lhe pedir, tal qual o fizera o conde Weiler, preces e lições de catecismo. Essa alma abria e fechava violentamente as portas, removia de um lugar para outro a louça, derribava pilhas de lenha, dava fortes pancadas nas paredes e parecia brincar de mudar, a todo momento, de lugar. Vinte pessoas respeitáveis a ouviram, ora dentro de casa, ora na rua, e atestariam o facto, se fosse preciso.
   Um fantasma de mulher, trazendo nos braços uma criança, se mostrou muitas vezes à Sra. Hauffe. Como isso se desse com mais frequência na cozinha, fez que levantassem uma laje e a uma grande profundidade foi achado o cadáver de uma criança.
   Em Weinsperg, a alma de um guarda-livros, que cometera algumas infidelidades durante a vida, lhe apareceu, de sobrecasaca preta surrada, pedindo dissesse à sua viúva que não ocultasse mais os livros em que se encontravam suas escriturações falsas e indicou os lugares onde eles estavam, para que os entregasse à justiça. Ela atendeu ao pedido e com o auxílio daqueles livros foram reparadas algumas fraudes do morto.
Em Lenach, foi a alma de um burgomestre chamado Bellon, morto em 1740 com a idade de 79 anos, quem se lhe apresentou a pedir conselhos para escapar à perseguição de dois órfãos. Ela lhe deu os conselhos solicitados e, ao cabo de seis meses, a alma não mais voltou.
   Essa morte está mencionada nos registos da paróquia de Lenach, com uma nota assinalando que o burgomestre causara dano a muitas crianças das quais era tutor.”
   Acrescenta o Doutor Kerner que poderia citar uma vintena de aparições, cuja autenticidade foi depois verificada. Estando perfeitamente reconhecida a honradez desse doutor e achando-se quase sempre de cama a Sra. Hauffe, sem poder locomover-se e cercada de membros de sua família, nenhum embuste fora possível. São, pois, reais os factos e, se bem hajam ocorrido muito antes que se falasse de Espiritismo, guardam as maiores analogias com os que presentemente se observam.


GABRIEL DELANNE, A Alma é Imortal, Primeira parte – A observação, Capítulo II ESTUDO DA ALMA PELO MAGNETISMO, fragmento.

sábado, 22 de outubro de 2011

Deus e o mar...


   – A Natureza estava atenta ao derradeiro adeus, que o príncipe da luz enviava ao mundo, antes que descesse do seu trono para sumir-se no horizonte líquido. Calma e concentrada, ela assistia à prece universal dos seres, pois que eles a fazem – a santa prece do reconhecimento – ao receberem os últimos olhares do Sol. E todos, desde a flébil e solitária medusa e a estrela-do-mar policroma, até os gafanhotos saltitantes e os alcíones de neve; todos lhe agradecem piedosamente. Era, então, um como incenso a subir das vagas e dos montes, parecendo que os ruídos temperados da plaga, a brisa que soprava do continente, a atmosfera embalsamada, a luz palescente na serenidade do céu azul, o refrigério crepuscular e tudo o mais vinha, naquele sítio, consciência de vida, comungando contrita e amorosamente da adoração universal.

   Mentalmente, nesse holocausto da Terra, eu sentia as recíprocas atracções dos mundos; não apenas as que alternativamente afastam e aproximam nosso orbe do foco solar, como as de todos os astros que gravitam na imensidão dos céus.

   Acima de minha cabeça desdobravam-se as sublimes harmonias e as gigantescas translacções dos corpos celestes! A Terra era qual átomo flutuante no infinito! Deste átomo, porém, a todos os sóis do espaço, àqueles cuja luz leva milhões de anos para chegar até nós, aos que jazem desconhecidos para além da nossa visibilidade, eu sentia um laço invisível abrangendo, num só halo vivificante, todos os universos e todas as almas.

   E a prece celestial, grandiosa, imensurável, tinha a sua repercussão, a sua estrofe, a sua representação visível naquela vida terrena que palpitava em torno de mim, no rugido do mar, no perfume das selvas, no canto das aves, na melodia confusa dos insectos, no conjunto emocionante do cenário e, sobretudo, na luminosa tonalidade daquele extraordinário crepúsculo!

   Fitava-o embevecido, sim... mas sentia-me tão pequeno no meio de tantas graças e grandezas, que acabei por entristecer-me. Senti como que esvanecer-se a minha personalidade diante da imensidade da Natureza.

   Não me tardou a impressão de já não poder falar, nem pensar.

   – O vasto mar fugia para o infinito. – Eu não mais existia, meus olhos se velavam... E, como as faces se me inundavam de pranto, sem que me pudesse explicar porque chorava, ajoelhei-me e, prosternado ante o céu, confundi minha fronte com as ervas... – o mar fugia sempre e os seres continuavam em prece.


CAMILLE FLAMMARION, Deus na Natureza, Tomo V – DEUS (3 de 4 fragmento)
(imagem: pintura de Hans Zatzka)

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A vontade de Deus


   Temos constan-
temente debaixo dos olhos um exemplo que nos pode dar uma ideia da maneira como a vontade de Deus se pode exercer sobre as partes mais íntimas de todos os seres e, consequentemente, como as impressões mais subtis da nossa alma chegam até ele. Foi retirado duma instrução dada por um Espírito a este respeito.

   «O homem é um pequeno mundo cujo dirigente é o Espírito e o corpo o principio dirigido. Neste Universo, o corpo representará uma criação em que o espírito será Deus (percebereis que não se pode tratar aqui mais que de uma analogia e não de uma identidade). Os membros deste corpo, os diferentes órgãos que o compõem, os seus músculos, os seus nervos, as suas articulações são outras tantas individualidades materiais, se assim podemos dizer, localizadas num sítio especial do corpo; apesar de o número das suas partes constituintes, de natureza tão variada e tão diferente, ser considerável, não oferece no entanto dúvidas a ninguém que não pode produzir movimentos, que uma qualquer impressão não pode dar-se num sítio particular sem que o Espírito tenha disso consciência. Há sensações diversas em vários sítios simultaneamente? O Espírito sente-as todas, percebe-as, analisa-as, atribui a cada uma a sua causa e o seu lugar de acção por intermédio do fluido do perespírito.

   »Um fenómeno análogo dá-se entre a Criação e Deus. Deus está em todo o lado na natureza, tal como o Espírito está em todo o corpo; todos os elementos da Criação estão em contacto constante com ele, tal como todas as células do corpo humano estão em contacto imediato com o ser espiritual; não há portanto razão nenhuma para que os fenómenos da mesma ordem não se produzam da mesma maneira, num e noutro caso.

   »Um membro agita-se: o Espírito sente; uma criatura pensa: Deus sabe-o. Todos os membros estão em movimento, os diferentes órgãos são postos em movimento: o Espírito sente cada manifestação, distingue-a e localiza-a. As diferentes criações agitam-se, pensam, agem de forma diversa e Deus sabe tudo o que se passa, atribuindo a cada uma o que lhe é particular.

   »Podemos deduzir daqui igualmente a solidariedade da matéria e da inteligência, a solidariedade entre os seres de um mundo e, enfim, entre as criações e o Criador.»

Quinemant, Sociedade Espírita de Paris, 1867


ALLAN KARDEC in A GÉNESE, Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo – Capítulo II, DEUS, A Providência 26 e 27.
(imagem: Winding the Skein – 1878, pintura de Frederic Leighton)

sábado, 15 de outubro de 2011

O antigo Egipto


IV - A Civilização Egípcia

Os egípcios

    Dentre os Espíritos degredados na Terra, os que constituíram a civilização egípcia foram os que mais se destacavam na prática do Bem e no culto da Verdade.

   Aliás, importa considerar que eram eles os que menos débitos possuíam perante o tribunal da Justiça Divina. Em razão dos seus elevados patrimónios morais, guardaram no íntimo uma lembrança mais viva das experiências de sua pátria distante.

   Um único desejo os animava, que era trabalhar devotadamente para regressar, um dia, aos seus penates resplandecentes.

   Uma saudade torturante do céu foi a base de todas as suas organizações religiosas.

   Em nenhuma civilização da Terra o culto da morte foi tão altamente desenvolvido. Em todos os corações morava a ansiedade de voltar ao orbe distante, ao qual se sentiam presos pelos mais santos afectos. Foi por esse motivo que, representando uma das mais belas e adiantadas civilizações de todos os tempos, as expressões do antigo Egipto desapareceram do plano tangível do planeta. Depois de perpetuarem nas Pirâmides os seus avançados conhecimentos, todos os espíritos daquela região africana regressaram à pátria sideral.

A ciência secreta

   Em virtude das circunstâncias mencionadas, os egípcios traziam consigo uma ciência que a evolução da época não comportava.

   Aqueles grandes mestres da antiguidade foram, então, compelidos a recolher o acervo de suas tradições e de suas lembranças no ambiente reservado dos tempos, mediante os mais terríveis compromissos dos iniciados nos seus mistérios. Os conhecimentos profundos ficaram circunscritos ao círculo dos mais graduados sacerdotes da época, observando-se o máximo cuidado no problema da iniciação.

   A própria Grécia, que aí buscou a alma de suas concepções cheias de poesia e de beleza, através da iniciativa dos seus filhos mais eminentes, no passado longínquo, não recebeu toda a verdade das ciências misteriosas. Tanto é assim, que as iniciações no Egipto se revestiam de experiências terríveis para o candidato à ciência da vida e da morte – factos esses que, entre os gregos, eram motivo de festas inesquecíveis.

   Os sábios egípcios conheciam perfeitamente a inoportunidade das grandes revelações espirituais naquela fase do progresso terrestre; chegando de um mundo de cujas lutas, na oficina do aperfeiçoamento, haviam guardado as mais vivas recordações, os sacerdotes mais eminentes conheciam o roteiro que a humanidade terrestre teria de realizar. Aí residiam os mistérios iniciáticos e a essencial importância que lhes era atribuída no ambiente dos sábios daquele tempo.

O politeísmo simbólico

   Nos círculos esotéricos, onde pontificava a palavra esclarecida dos grandes mestres de então, sabia-se da existência do Deus único e absoluto, Pai de todas as criaturas e Providência de todos os seres, mas os sacerdotes conheciam, igualmente, a função dos Espíritos prepostos de Jesus, na execução de todas as leis físicas e sociais da existência planetária, em virtude das suas experiências pregressas.

   Desse ambiente reservado de ensinamentos ocultos, partiu, então a ideia politeísta dos numerosos deuses, que seriam os senhores da Terra e do Céu, do Homem e da Natureza.

   As massas requeriam esse politeísmo simbólico, nas grandes festividades exteriores da religião.

   Já os sacerdotes da época conheciam essa fraqueza das almas jovens, de todos os tempos, satisfazendo-as com as expressões exotéricas de suas lições sublimadas.

   Dessa ideia de homenagear as forças invisíveis que controlam os fenómenos naturais, classificando-as para o espírito das massas, na categoria dos deuses, é que nasceu a mitologia da Grécia, ao perfume das árvores e ao som das flautas dos pastores, em contacto permanente com a Natureza.

O culto da morte e a metempsicose

   Um dos traços essenciais desse grande povo foi a preocupação insistente e constante com a morte. A sua vida era apenas um esforço para bem morrer. Seus papiros e frescos estão cheios dos consoladores mistérios do além-túmulo.

   Era natural. O grande povo dos faraós guardava a reminiscência do seu doloroso degredo na face obscura do mundo terreno. E tanto lhe doía semelhante humilhação, que na lembrança do pretérito, criou a teoria da metempsicose era o fruto da sua amarga impressão, a respeito do exílio penoso que lhe fora infligido no ambiente terrestre.

   Inventou-se, desse modo, uma série de rituais e cerimónias para solenizar o regresso dos seus irmãos à pátria espiritual.

   Os mistérios de Ísis e Osíris mais não eram que símbolos das forças espirituais que presidem aos fenómenos da morte.

/…

ESPÍRITO EMMANUEL, A Caminho da Luz, IV - A Civilização Egípcia, (fragmento 1 de 2) texto mediúnico ditado em 1938 a FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER
(imagem: Ísis com os atributos de Hathor – pintura mural)

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Victor Hugo...


"Está pois a pena de morte abolida nesse nobre Portugal, pequeno povo que tem uma grande história. (…)
Felicito a vossa nação.
Portugal dá o exemplo à Europa.
Desfrutai de antemão essa imensa glória.
A Europa imitará Portugal.
Morte à morte!
Guerra à guerra!
Viva a vida!
Ódio ao ódio.
A liberdade é uma cidade imensa da qual todos somos concidadãos"

Victor Hugo

- Victor Hugo, 1876, a propósito da abolição da pena de morte em Portugal (o primeiro país europeu a fazê-lo).
(imagem: Young Girl with a Doll, pintura de Anne-Louis GIRODET-TRIOSON 1767-1824)

domingo, 9 de outubro de 2011

~~~Párias em Redenção~~~


2. ALUCINAÇÃO E CRIME

   O ofício fúnebre, terminado o longo velório, tem início na manhã cinzenta, quebrada por violentas descargas da tempestade que estruge, intérmina. Plangem sinos de finados e, por momentos, as atenções se concentram na

figura do Bispo, paramentado, que dá início ao réquiem. Diante do altar improvisado, a figura do Crucificado, em prata e ouro, imóvel, pregada em madeira preciosa da região, brilha ante o fulgor dos círios acesos em abundância. O coro, vindo especialmente da Catedral de Siena, entoa um cantochão. Incenso, mirra e nardo embalsamam o ambiente, de modo tocante.

   Em meio às exéquias, o Bispo pronuncia o sermão laudatório da personalidade do extinto, lamentando não lhe ter podido aplicar a extrema-unção, no termo da jornada carnal. Exora, todavia, socorro ao Senhor da Vida e da Morte, enquanto lhe encomenda o corpo, seguindo os tradicionais rituais da Igreja Romana. O sacrifício da missa de corpo presente prossegue. As vozes se alteiam ou murmuram, cantando. Soluços discretos irrompem dos sentimentos do povo humilde das redondezas, que ali se aglutina para render as últimas homenagens ao seu benfeitor. Nuvens de fumo se levantam, perfumadas, agitadas por turíbulos prateados e com brasas vivas.

   A pequena distância, oculta discretamente e enlutada, Lúcia, de joelhos, soluça, dominada por fortes emoções. Repassam pelo seu pensamento todos os lances da sua vida no palácio que a acolheu. Seus pais entregaram-na pequena à família da Senhora duquesa, a fim de que fosse preparada para dama de companhia. Ali recebera todo o carinho, cultivara os dotes do sentimento e suas mãos se exercitaram na arte dos bordados e tecelagens, em que se fizera mestra. Os gobelins por ela tecidos ao lado da Senhora Ângela enriqueciam diversas peças do imponente lar.

   À lembrança da benfeitora, porém, teve a impressão de que se lhe dilatavam as pupilas e estranhos sentimentos lhe assomaram ao espírito inquieto. Latejaram-lhe as artérias nas têmporas, suor glacial inundou-a e frequente tremor se lhe apossou das carnes. Teve a sensação de que ia morrer. Um vágado inesperado fê-la cair sobre as lajes de pedra. Servidores apressados conduziram-na, inconsciente, ao quarto de dormir, colocando-a sobre o leito fofo e macio. Odores fortes foram aplicados às narinas; resinas perfumadas foram friccionadas nos pulsos e na testa… Ofegante, de peito descompassado, continuou vencida pelos choques nervosos que a sacudiam. Chamado o médico, este aplicou, a muito custo, a ingestão de medicamento calmante, solicitando a todos que a deixassem assistida apenas por uma das suas amigas-camareiras, de modo a que pudesse repousar…

   Entrementes, ao experimentar a cabeça atordoada, e quando perdia o equilíbrio das próprias forças, sentiu-se flutuar no ar, fora do corpo, divagando, numa visão entre névoas claras, a veneranda figura da duquesa, que lhe alongava as mãos generosas, albergando-a no seio maternal. A forma diáfana recordava as telas clássicas da pintura renascentista, em que matronas em luz faziam evocar a Senhora de Nazaré, Mãe do Sublime Crucificado. As lágrimas brotaram-lhe abundantes e, vencida pela felicidade do reencontro inesperado, naquela esfera desconhecida, teve a impressão de que se libertara do pesado fardo da carne, demandando às gloriosas regiões celestes. Desejou falar, dizer todas as inquietudes e os anseios que lhe rebentavam no coração sensível, a saudade imensa e destruidora, os últimos acontecimentos e os presságios que a martirizavam… Não pôde fazê-lo. A expressão de quase angelitude da senhora terminou por apaziguar-lhe as tempestades interiores. O sorriso triste que lhe ornava a face e a inefável luz que se derramava de toda ela, envolta em auréola resplendente, tocaram o espírito da servidora fiel.

   – Confia, minha filha, – murmurou a visão espiritual, quase sorridente – e não desfaleças! Levanta o espírito abatido e ergue-te acima das vicissitudes do caminho. Lutar é sofrer, e ninguém conseguirá felicidade sem o largo património das lágrimas e renúncias…

   “Todos nascemos e morremos para renascer, rectificando numa existência as imperfeições noutra contraídas. O curso incessante das vidas forma o rio da santificação que desagua no oceano da Eternidade.

   “Pesados cúmulos se associam hoje sobre o tecto do nosso lar, exigindo-nos inomináveis agonias e demorados sofrimentos. É, todavia, necessário que nos submetamos aos desígnios divinos. Nenhum de nós está esquecido das Leis Excelsas. Embora nos encontremos aparentemente abandonados, fracos de forças, desempenhando árduas tarefas que nos exigem imensa colheita de dor, Espíritos angelicais e benfeitores, em nome do Soberano Pai, nos acompanham e ajudam. Não te desesperes nem te desgovernes emocionalmente.

   “Velhas dívidas do passado remoto, que recuam ao século XIII, nos atam indelevelmente uns aos outros, exigindo regaste. Não nos reencontramos por caprichos do Destino. O Destino, conforme todos apregoam, não existe. Ele seria a negação de Deus, das leis de mérito e débito. O que consideramos Destino é o resultado de muitas actividades que culminam num momento, para nós inesperado, mas que, para os arquitectos da Vida, está adredemente programado. Amores, adversários, felicidade e desdita são peças da rede da vida imperecível, atando e desatando suas teias incessantemente, até ao instante da libertação definitiva de todo o sofrer. E o repetir de amargas experiências são oportunidades de que desfrutamos para nos alçarmos às regiões da ventura, que não se podem definir nem descrever por enquanto, por limitação da linguagem humana e por impossibilidades de entendimento da humana capacidade.

   “Ainda não tive a ventura de acolher nos meus braços saudosos o companheiro, por enquanto em processo de libertação. Amarrado a injustificável angústia, que a nossa separação física momentaneamente causou, ele vinculou-se fortemente ao corpo transitório, esquecendo-se das paisagens fulgurantes da Imortalidade, de que nos falam as valiosas lições do Evangelho e que a Religião, embora velando-as com imagens pesadas e pouco reais, nos apresenta, indicando rumos.

   “A morte, por isso mesmo, não é o fim. E a vida, que dela se desenlaça, não migra para os ajustes imediatos sob a assistência severa do Senhor, que nos recebe para punir ou premiar. Cada um morre como viveu e viverá conforme foi recebido pela morte. Imprescindível, pois, viver de modo a poder enfrentar a vida que a todos nos aguarda, quando a cortina de sombras se levanta, deixando aparecer a madrugada da Imortalidade.”

   Uma pausa refrescante silenciou a mensageira espiritual.

   Lúcia, deslumbrada, continuou de olhar cintlilante, fixo na face de luz e ouro da Senhora di Bicci di M. O orvalho das lágrimas nos seus olhos pareciam brilhantes finos, engastados nos cílios negros e longos. Após o silêncio expressivo, o semblante da Senhora duquesa nublou-se rapidamente, e ela falou, como se antecipasse no tempo e no espaço os acontecimentos de dor e luto que logo mais adviriam, convocando a moça ao testemunho...
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VICTOR HUGO, Espírito “PÁRIAS EM REDENÇÃO ” – LIVRO PRIMEIRO, 2. ALUCINAÇÃO E CRIME (fragmento 1 de 4). Texto mediúnico ditado a DIVALDO PEREIRA FRANCO
(imagem: L’âme de la forêt _1898, pintura de Edgar Maxence) 

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Incitações…


I - As Religiões, A Doutrina Secreta
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   Pergunta-se algumas vezes se a religião é necessária. A religião (do latim religare, ligar, unir), bem compreendida, deveria ser um laço que prendesse os homens entre si, unindo-os por um mesmo pensamento ao princípio superior das coisas. Há na alma um sentimento natural que a arrasta para um ideal de perfeição em que se identificam o Bem e a Justiça. Este sentimento, o mais nobre que poderemos experimentar, se fosse esclarecido pela Ciência, fortificado pela razão, apoiado na liberdade de consciência, viria a ser o móbil de grandes e generosas acções; mas, manchado, falseado, materializado, tornou-se, muitas vezes, pelas inquietações da teocracia, um instrumento de dominação egoística.

   A religião é necessária e indestrutível porque se baseia na própria natureza do ser humano, do qual ela resume e exprime as aspirações elevadas. É, igualmente, a expressão das leis eternas e, sob este ponto de vista, tende a confundir-se com a filosofia, fazendo com que esta passe do domínio da teoria ao da execução, tornando-se vivaz e activa.

   Mas, para exercer uma influência salutar, para voltar a ser um incitante de progresso e elevação, a religião deve despojar-se dos disfarces com que se revestiu através dos séculos. Não são os seus elementos primordiais que devem desaparecer, mas, sim, as formas exteriores, os mitos obscuros, o culto, as cerimónias. Cumpre evitar confundir coisas tão dessemelhantes. A verdadeira religião é um sentimento; é no coração humano, e não nas formas ou manifestações exteriores, que está o melhor templo do Eterno. A verdadeira religião não poderia ser encerrada dentro de regras e ritos acanhados; não necessita de sacerdotes nem de fórmulas nem de imagens.

   Pouco se inquieta com simulacros e modos de adorar; só julga os dogmas por sua influência sobre o aperfeiçoamento das sociedades. Abraça todos os cultos, todos os sacerdócios, eleva-se bastante e diz-lhes: A Verdade ainda está muito acima!

   Entretanto, deve compreender-se que nem todos os homens se encontram em vias de atingir esses píncaros intelectuais. Eis por que a tolerância e a benevolência são coisas que se impõem. Se, por um lado, o dever nos convida a desprender os bons espíritos dos aspectos vulgares da religião, por outro, é preciso nos abstermos de lançar a pedra às almas sofredoras, lacrimosas, incapazes de assimilar noções abstractas, mas que encontram arrimo e conforto na sua cândida fé.

   Verifica-se, porém, que, de dia para dia, diminui o número dos crentes sinceros. A ideia de Deus, outrora simples e grande nas almas, foi desnaturada pelo temor do inferno e perdeu o seu poder. Na impossibilidade de se elevarem até ao absoluto, certos homens acreditaram ser necessário adaptar à sua forma e medida tudo o que queriam conceber. Foi assim que rebaixaram Deus ao nível deles próprios, atribuindo-lhe as suas paixões e fraquezas, amesquinhando a Natureza e o Universo, e, sob o prisma da ignorância, decompondo em cores diversas os argênteos raios da verdade. As claras noções da religião natural foram obscurecidas ao seu belo prazer. A ficção e a fantasia engendraram o erro e este, preso ao dogma, ergueu-se como um obstáculo no meio do caminho. A luz ficou velada para aqueles que se acreditavam os seus depositários e as trevas, com que pretendiam envolver os outros, fizeram-se em si próprios e ao seu redor. Os dogmas perverteram o critério religioso, e o interesse de casta falseou o senso moral. Daí um acervo de superstições, de abusos e práticas idólatras, cujo espectáculo lançou tantos homens na negação.

   A reacção, porém, anuncia-se. As religiões, imobilizadas nos seus dogmas como as múmias nas suas faixas, agora agonizam, abafadas nos seus invólucros materiais, enquanto tudo caminha e evolve em torno delas. Perderam quase toda a influência sobre os costumes, sobre a vida social, e estão destinadas a perecer. Mas, como todas as coisas, as religiões só morrem para renascer. A ideia que os homens fazem da Verdade modifica-se e dilata com o decorrer dos tempos. Eis por que as religiões, manifestações temporárias, vistas parciais da eterna Verdade, tendem a transformar-se desde que já tenham cumprido a sua tarefa, e não mais correspondam aos progressos e às necessidades da Humanidade. À medida que esta caminha, são precisas novas concepções, um ideal mais elevado, e isso só poderá ser encontrado nas descobertas da Ciência, nas intuições crescentes do pensamento.

   Chegamos a uma época da História em que as religiões encanecidas aluem-se pelas suas bases, época em que se prepara uma renovação filosófica e social. O progresso material e intelectual desafia o progresso moral. Na profundeza das almas agita-se um mundo de aspirações, que faz esforços por tomar forma e aparecer à vida. O sentimento e a razão, essas duas grandes forças imperecíveis como o Espírito humano, de que são atributos, forças hostis até hoje e que perturbavam a sociedade com os seus conflitos, semeando por toda a parte a discórdia, a confusão e o ódio, tendem, finalmente, a se conciliarem. A religião deve perder o seu carácter dogmático e sacerdotal para tornar-se científica; a ciência libertar-se-à dos baixios materialistas para esclarecer-se com um raio divino. Surgirá uma doutrina, idealista nas suas tendências, positiva e experimental no seu método, apoiada sobre factos inegáveis. Sistemas opostos na aparência, filosofias contraditórias e inimigas, o Espiritismo e o Naturalismo, entre outras, acharão, afinal, um terreno de reconciliação. Síntese poderosa, ela abraçará e ligará todas as concepções variadas do mundo e da vida, raios dispersos, faces variadas da Verdade.

   Será a ressurreição, sob forma mais ampla e a todos acessível, dessa doutrina que o passado conheceu, será o aparecimento da religião natural que renascerá simples, sem cultos nem altares. Cada pai será sacerdote na sua família, ensinará e dará o exemplo. A religião passará para os actos, para o desejo ardente do bem; o holocausto será o sacrifício das nossas paixões, o aperfeiçoamento do Espírito humano. Tal é a doutrina superior, definitiva, universal, no seio da qual serão absorvidas, como os rios pelo oceano, todas as religiões passageiras, contraditórias, causas frequentes de dissidência e dilaceração para a Humanidade.


LÉON DENIS, Depois da Morte, Primeira Parte / Crenças e Negações (2 de 2), fragmento.
(imagem de contextualizaçaõ: Invocation, pintura de Lord Frederic Leighton 1830-1896)