Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

sexta-feira, 22 de março de 2013

~~~Párias em Redenção~~~


OBSESSÃO VINGADORA E PERTINAZ ~

   O homem é os seus actos. A soma das acções de cada ser constitui o carácter, qualidade inalienável do indivíduo. Legatário doa próprios feitos, o espírito evolui mediante as actividades empreendidas, ressarcindo em cada avatar os compromissos negativos granjeados na vida passada, sob os estímulos das realizações enobrecidas de que se tenha feito autor. Todos conduzimos a soma das nossas qualidades, que formam o património que nos capacita a avançar ou estagnar, aprendendo, porém, sempre e incessantemente, de modo a crescer na direcção da Vida. O destino, portanto, estamos a tracejá-lo cada momento, mediante as atitudes assumidas em cada etapa vencida, em cada jornada a vencer. Fiamos e desfiamos a rede do provir, estabelecendo as medidas necessárias à felicidade ou à desdita de que somos responsáveis, autores do nosso sofrer ou alegria. A esse emaranhado, que faculta a ascese ao planalto da alegria ou a descida ao vale dos sofrimentos, denominados carma, ou “lei de causa e efeito”, perante cujas directrizes nos fazemos joguetes dos próprios desejos. Deus, a Suprema Governação do Universo, estabeleceu leis de perfeita e soberana harmonia, que o homem não pode desconsiderar levianamente. Toda a acção que lhe é dada. Cada vez que desrespeitamos, por preguiça ou rebeldia, o Estatuto Sagrado da Vida sofremos, naturalmente, a desarmonia de que nos fizemos promotores. É Justiça e é também Amor. A todos são concedidos os tesouros do discernimento, e a responsabilidade é valorizada, tendo-se em vista o grau de entendimento de cada criatura. Mais lucidez, maior soma de responsabilidade. Por isso, o Senhor Jesus foi categórico: “Mais se dará àquele que mais haja dado.” Ante a grandiosidade da vida, que nos escapa no actual estado de inteligência, todos somos iguais, crescendo pelo próprio esforço, a ingentes conquistas, sob a excelsa misericórdia do Nosso Pai. Assim, o amor é a fonte inexaurível, à disposição de quantos desejam felicidade e paz. O ódio, do mesmo modo, é reacção do primitivismo animal, instinto em trânsito para a inteligência, que ainda não pôde superar as expressões dos começos passados. Portanto, o homem é o que pensa, o que faz e deseja.

   Ninguém consegue evadir-se do país da consciência. Ali não há portas escancaradas para a fuga permanente. A lucidez obliterada pelo ópio da ilusão, ou anestesiada pelo tóxico do prazer, um dia se aclara, desperta para o óbvio da realidade, e o indivíduo acorda para as amargas meditações em torno do já feito, do deixado de fazer e do que poderia ter sido realizado. Mágico desenhador, quando a razão desperta, apresenta nas telas da mente o painel vivido das acções, e como num cinemascópio tridimensional movimentam-se todas as acções, em carácter duplo: como fizemos e como poderíamos ou deveríamos ter produzido. O que decorre desse encontro consigo mesmo, para o espírito que se redescobre em falta, constitui o travo ácido do arrependimento, que, alongado, é inoperante e negativo, e do remorso, que, demorado, é verdugo implacável, mas que não resolve a palpitante questão. Somente a consciencialização da responsabilidade e do legítimo desejo de reparar, empenhando todo o esforço, sob o preço da renúncia e da abnegação, constitui amenidade na canícula da dor superlativa que domina o ultrajante, ora ultrajado pelo despautério em que se comprazia. O gozo furtivo e a glória indébita, a ambição desmesurada e a sovinice soez, a inveja criminosa e a prepotência venal, a incúria de qualquer matiz e a traição sob qualquer ângulo, o orgulho vão e a soberba nula, a luxúria absurda e o despotismo de toda espécie, a indiferença à dor e o egoísmo nos seus disfarces, por mais se encontrem velados na astúcia ou na habilidade da dissimulação, diluem-se ante a luz da consciência desperta, produzindo alucinação nos seus famanazes, que padecem, então, séculos a fio nos sorvedores da reparação, ou nas situações estanque da autopunição em que se depuram, para reencetar o caminho, atravancado de escolhos que constituem barreiras a superar e testes para avaliar o esforço despendido na recomposição das leis divinas antes desrespeitadas. “A cada um segundo as suas obras” – afirmou Jesus, reflectindo a Justiça e o Amor de Deus.

   Na aferição dos valores, a renúncia ante o gozo não fruído, a abnegação face ao sofrimento, tendo em vista a felicidade de outrem, o sacrifício ignorado, praticado na intimidade do silêncio, com o objectivo de ajudar o próximo, o perdão indistinto, a bondade generosa e ampla, o amor dilatado até mesmo aos inimigos, as lâmpadas acesas da caridade, toda expressão de virtude incendeia o céu interior do homem e fá-lo dulcificado pela paz, multiplicando nele as bênçãos do júbilo, que pode continuar a esparzir como semente de felicidade pela senda por onde segue. Por isso, o Mestre Divino acentuou que são bem-aventurados os padecentes, os sacrificados, os pacíficos, os que amam, deles sendo o Reino dos Céus, desde a Terra, na qual estabelecem as balizas da superior construção.

   Em sentido oposto, todo o homem que ludibria equivoca-se em si mesmo. Aquele que consuma um crime infelicita-se. Quem proscreve o dever, prescreve a aflição para o provir. Ninguém há, portanto, que atravesse a evolução sem a experiência conseguida a pesado tributo de amor, para poupar-se ao afligente joeirar na dor, a perene mestra e sábia amiga dos corruptos e corruptores, defraudadores todos eles das leis soberanas. O carma, pois, é a verdade estabelecendo os critérios, os arbítrios do futuro, emboscada em nossa consciência vigilante que, a seu turno, é “Deus connosco”.

   O ar fresco da noite, penetrando em lufadas pelas janelas da carruagem, conseguiu acalmar Girólamo, que parecia angustiado e exaltado simultaneamente. Estacando o carro antes da Porta Ovile, saltou ainda esfogueado e, com Francesco, se adentrou pela estalagem regurgitante, sorvendo amplo caneco de fino chianti, que fazia famosa a bisca. Transcorridos alguns minutos, e estimulado pelo suave licor, cuja dosagem de álcool lhe penetrava o sangue, convidado pelo amigo, ambos saíram na direcção do Palácio T., para a ceia e posterior surtida pelas casas de prazer espalhadas pela cidade libertina.

   Os tocheiros ardentes e as lâmpadas de óleo crepitantes ofereciam à residência de Francesco aspecto festivo. A movimentação de servos activos e a agradável música que chegava da Via del Moro produziam nos moços, excitados pelo vapor alcoólico, estranhas satisfações. O repasto, servido no pátio interno da mansão, próximo a caprichoso repuxo de água cristalina, cantarolante, foi acompanhado de finos vinhos e de alacridade. A anfitriã, igualmente acostumada às explosões dos sentidos, apesar da sua juventude, proporcionava a Girólamo antevisões de facilidades que lhe seriam ofericidas ali, sem a necessidade da evasão para os centros embriagantes das profissionais do comércio dos desejos.

   - Música! Desejo música! – gritou Francesco, açulado pelos licores.

   Rubro e entusiasmado, avançou na direcção da esposa e, arrebatando-a com ruído, ensaiou passos de dança ligeira, entre palmas e gritos dos servos e do hóspede, arriando, por fim, exausto, sobre a cadeira de alto espaldar, acolchoada e bordada de gobelinos, à guisa de trono, reservada ao dono da casa.

   Girólamo, conhecedor que se fizera da alma humana pervertida, antegozou a embriaguez do amigo, imaginando apropriar-se da sua invigilante esposa, logo os bons fados lho permitissem. Sabendo que melhor e mais eficiente técnica de conquista é fazer-se distante, ignorando a oferta e espicaçando, habilmente, o desejo naquele que se permitiu arrastar pela viciação, o moço pretextou visita a amigos, dispensando Francesco, que se apresentava incapaz de acompanhá-lo, e, com estudada cortesia, demandou a via pública. Teria tempo de cuidar da reprochável mulher, em momento próprio, sem qualquer perigo para a sua condição de hóspede e amigo.

   Toda a cidade vivia, naquele Agosto, o entusiasmo e agitação próprios dos dias que precedem as festas do “Palio”. Hóspedes chegavam das cercanias, das cidades mais distantes, e as casas de estalagem, alberghi, pensões encontravam-se abarrotadas. Os trajes coloridos inundavam as ruas e os lampiões, presos às paredes ou pendurados sob os arcos das estreitas alamedas e becos, ofereciam claridade avermelhada, contrastando com o luar sonhador e argênteo que a tudo inundava.

   De taberna em taberna, usufruindo até ao cansaço os prazeres imediatos. Girólamo parecia esquecido dos acontecimentos do dia que ainda não findara.

   Em um único período diurno, a vida lhe facultara muito conhecer. Desabituado, porém, às cogitações menos vulgares, não se apercebia de que, estando à borda do abismo, aqueles eram os seus minutos finantes de loucura inconsciente. Afogava-se, pois, mais e mais, na taça da volúpia: se buscando viver, ou tentando finar-se, nem ele mesmo poderia saber. Certo é que, após os voluteios noctivos, refugiava-se em afamado bordel, em que a inconsciência o dominara horas sem-termo, até ao despertar no dia imediato, sol alto, dorido, cansado, em desassossego. Informando-se do tempo transcorrido, procurou recobrar o ânimo e saiu precipite, na direcção do lar que o hospedava, procurando justificar a falta em que incorrera, granjeando o perdão dos anfitriões, sem dúvida igualmente dissolutos.

   Aqueles dias eram dias de festa e em tais comenos se perdoavam todos os deslizes morais, sob uma tolerância de falsa compreensão das fraquezas que os nobres se podiam permitir, em detrimento das classes desfavorecidas pela cornucópia da fortuna e pela condição do berço.

   Depois de refrescar-se confortavelmente e narrar a Francesco a odisseia dos gozos exaustivos da véspera, aceitou o repasto frugal e procurou o leito para recobrar energias vitais, a fim de desperdiçá-las logo mais em nova diferente dissipação.

   Eram vésperas da grande festa. A Praça do Campo, também chamada Conchiglia, estava ricamente decorada. O Palácio Público exibia já as bandeiras representativas dos diversos bairros que disputariam o palio. Coberturas foram distendidas sobre os balcões que circundavam o largo e as cores da cidade, em guarnições e arazzi bem cuidados, de tecidos valiosos, se encontravam desfraldadas, dando movimento e vida ao local das disputas. Colchões foram espalhados pela periferia circular do Campo, para forrar as paredes dos edifícios, impedindo-se quedas de consequências lutuosas. No centro do picadeiro se aglutinaria o povo e, em volta, na pista aladeirada, a grande Mossa daria começo à parte mais importante dos jogos. Na Torre do Mangia tremulava, desde cedo, a bandeira da cidade, em vermelho vivo, com a loba simbólica. E, contrastando com toda a luz e cor, as lajes do campo, divididas em nove sectores, como evocando o Governo dos Nove, sobressaiam entre as listas longitudinais de pedra branca.

   A cidade estava esplendente e as ansiedades espocavam nos peitos intumescidos de júbilo.
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VICTOR HUGO, Espírito “PÁRIAS EM REDENÇÃO” – LIVRO PRIMEIRO, 7. OBSESSÃO VINGADORA E PERTINAZ 1 de 4, 22º fragmento da obra. Texto mediúnico ditado a DIVALDO PEREIRA FRANCO.
(imagem: L’âme de la forêt _1898, tempera e folha de ouro sobre painel de Edgar Maxence)

quarta-feira, 13 de março de 2013

O Espiritismo na Arte ~


Parte IV

(A oratória e o gesto; A inspiração dos grandes oradores)

|Abril de 1922|

Na oratória, o movimento do pensamento é representado não apenas pela palavra, mas também pelo gesto que sobre ele chama a atenção e acentua seus efeitos. Nisso, mais que em qualquer outra matéria, uma justa medida se impõe porque tanto o excesso como a ausência de mímica devem ser igualmente evitados com cuidado.

A maior parte dos grandes oradores recebe a inspiração do invisível. Essa inspiração chega até eles em ondas rápidas e faz surgir as expressões, as formas, as imagens que provocam o entusiasmo das multidões. Em certos momentos, eles se sentem como se fossem erguidos da Terra e levados por uma corrente irresistível. No transcorrer da minha carreira de conferencista, experimentei muitas vezes a sensação de uma poderosa ajuda oculta, e eu conhecia a sua causa. O Espírito Jerónimo de Praga, meu protector, meu guia, sempre me assistiu na minha tarefa de divulgador. Às vezes, no momento de aparecer diante de um numeroso público, com frequência indiferente ou mesmo hostil, e de tomar a palavra, eu era vítima de um mal físico, de uma violenta enxaqueca que paralisava meu pensamento e minha acção. Mas então, respondendo ao meu ardente apelo, à minha prece, o espírito do meu guia intervinha. Por uma enérgica magnetização, ele restabelecia o equilíbrio orgânico e devolvia minha lucidez, meus meios de agir. Outras vezes, após debates contraditórios que duravam várias horas, após lutas oratórias com contraditores obstinados, materialistas ou religiosos, apesar do meu esgotamento, eu ainda encontrava inflexões, entonações vibrantes que pasmavam e abalavam o auditório.

Um dia, tive a compreensão desse fenómeno ao vê-lo acontecer sob os meus olhos. Encontrava-me em Aix-les-Bains, na igreja paroquial, no decorrer de uma solenidade religiosa em homenagem a Joana d’Arc. Na presença do Cardeal Dubillard e de uma multidão compacta, um jovem padre subiu ao púlpito para pronunciar o panegírico (*) da heroína. Minha médium, a senhora Forget, que estava sentada ao meu lado, disse-me de repente: “Vejo o Espírito Jerónimo, ele está de pé no púlpito, atrás do padre.” Fiquei atento ao que ia se passar. O jovem padre começa com um tom calmo; suas frases harmoniosas se desenrolavam com método, depois, pouco a pouco, o tom se eleva, a voz torna-se vibrante e, por fim, inflexões poderosas, que eu reconhecia, fizeram ressoar as abóbadas do edifício. Eu tinha um exemplo do que se produzira comigo em muitos casos.

Essa inspirada eloquência eu a encontrei em certos médiuns, bastante raros na verdade. Há os que incorporam, em uma mesma sessão, vários espíritos dos quais as palavras revelam personalidades muito diferentes, de grande originalidade e que é impossível serem confundidas entre elas ou com a do médium.

O médium mais notável que encontrei, no decorrer de minhas viagens, foi a filha de um professor do liceu de Marselha. Quando em estado de transe, ela servia de voz não somente a oradores do espaço, mas também a outras entidades extraordinárias, por exemplo a célebre Sra. Geoffrin, que por sua delicadeza de espírito, sua amabilidade e o encanto penetrante de suas maneiras, por sua linguagem um pouco antiquada, não deixava, temos que convir, margens para a simulação.

É assim que as influências do alto se fazem sentir de mil maneiras, e que mais e mais se confirma a prova da sobrevivência da alma e da solidariedade que liga o mundo dos vivos ao mundo dos mortos.
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(*) Panegírico: discurso público de louvor, de elogio a alguém. (N.T., segundo o D.K.L.)


LÉON DENIS, O Espiritismo na Arte, Parte IV – A oratória e o gesto; A inspiração dos grandes oradores, 16º fragmento da obra.
(imagem: Mona Lisa 1503-1507 – Louvre, pintura de Leonardo da Vinci)

quinta-feira, 7 de março de 2013

Da sombra do dogma à luz da razão ~


NATUREZA DA REVELAÇÃO ESPÍRITA (II)

   No sentido particular da fé religiosa, a revelação aplica-se mais espe-cialmente às coisas espirituais que o homem não pode saber só por si, que não pode descobrir através dos sentidos e cujo conhecimento lhe é dado por Deus ou pelos seus mensageiros, quer através da palavra directa, quer pela inspiração. Neste caso, a revelação é sempre feita a homens privilegiados, designados com o nome de profetas ou messias, isto é, enviados, missionários, que têm como missão transmiti-la aos homens. Considerada sob este ponto de vista, a revelação implica uma passividade absoluta; aceitamo-la sem controlo, sem exame, sem discussão.

   Todas as religiões têm os seus reveladores e, apesar de todos terem estado longe de conhecer toda a verdade, tinham a sua razão de ser providencial; porque estavam de acorde com o tempo e com o meio onde viviam, com a sabedoria particular dos povos a quem falavam e aos quais eram relativamente superiores. Apesar dos erros das suas doutrinas, não deixaram por isso de agitar os espíritos e, assim, espalharam os germes do progresso, que mais tarde se iriam desenvolver ou que um dia se irão desenvolver ao sol do Cristianismo. É por tanto injustamente que se lança sobre eles um anátema em nome da ortodoxia, pois virá o dia em que todas estas crenças, tão diversas na sua forma mas que na realidade da alma, se fundirão numa grande e vasta unidade, assim que a razão tenha vencido os preconceitos.

   Infelizmente, as religiões têm sempre sido instrumentos de domínio; o papel de profeta tentou as ambições secundárias e vimos surgir uma multidão de pretensos relevadores ou messias que, a coberto do prestígio deste nome, exploram a credulidade em benefício do seu orgulho, da sua cupidez ou da sua preguiça, achando mais cómodo viver à custa dos que enganavam. A religião cristã não esteve a coberto destes parasitas. A este respeito chamamos seriamente a atenção para o Capítulo XXI de O Evangelho Segundo o Espiritismo: «Haverá falsos Cristos e falsos profetas».

   Há revelações directas de Deus para os homens? Trata-se de uma questão que não nos atreveríamos a resolver nem afirmativa nem negativamente de uma maneira absoluta. A tarefa não é de forma nenhuma radicalmente impossível, mas nada nos dá disso uma prova certa. O que não oferece dúvidas é que os Espíritos mais próximos de Deus pela perfeição se impregnam do Seu pensamento e podem transmiti-lo. Quanto aos reveladores encarnados, consoante a ordem hierárquica a que pertencem e o grau do seu conhecimento pessoal, podem ir buscar as suas instruções aos seus conhecimentos pessoais ou recebê-las de Espíritos mais elevados, até mesmo mensagens directas de Deus. Estes, falando em nome de Deus, podem ter sido às vezes tomados pelo próprio Deus.

   Este tipo de comunicações nada tem de estranho para quem conhece os fenómenos espíritas e a forma como se estabelecem os contactos entre os encarnados e os não encarnados. As instruções podem ser transmitidas por diversos meios: por inspiração pura e simples, por audição da palavra, pela observação dos Espíritos instrutores em visões e aparições, quer em sonhos quer em estado de vigília, tal como se encontram vários exemplos na Bíblia, no Evangelho e nos livros sagrados de todos os povos. É portanto rigorosamente exacto dizer-se que a maior parte dos reveladores são médiuns inspirados, auditivos ou videntes, de onde não se pode concluir que todos os médiuns são reveladores e, ainda menos, que são os intermediários directos da Divindade ou dos seus mensageiros.

   Só os Espíritos puros recebem a palavra de Deus com a missão de a transmitirem; mas sabemos agora que os Espíritos estão longe de serem todos perfeitos e que há os que se revestem de falsas aparências; foi o que levou São João a dizer: «Nós somos de Deus; aquele que conhece a Deus ouve-nos; aquele que não é de Deus não nos ouve. Nisto conhecemos nós o espírito da verdade e o espírito do erro.» (1.ª Epistola de S. João, 4:6.)

   Pode, portanto, haver revelações sérias e verdadeiras, assim como as existem apócrifas e mentirosas. O carácter essencial da revelação divina é o da verdade eterna. Qualquer revelação manchada de erros ou sujeita a mudança não pode emanar de Deus. É assim que a lei do Decálogo conserva todo o carácter da sua origem, enquanto as outras leis moseístas, essencialmente transitórias, muitas vezes em contradição com a lei do Sinai, são obra pessoal e política do legislador hebreu. Suavizando-se os costumes do povo, estas leis caíram em desuso enquanto o Decálogo se manteve de pé como farol da humanidade. Cristo fez dele a base do seu edifício, ao mesmo tempo que abolia as outras leis. Se fossem obra de Deus, teria evitado tocar-lhes. Cristo e Moisés são os dois grandes reveladores que mudaram a face do mundo e nisso reside a prova da sua missão divina. Uma obra puramente humana não teria um tal poder.

   Uma revelação importante está a acontecer no tempo actual: é a que nos mostra a possibilidade de comunicarmos com os entes do mundo espiritual. Este conhecimento não é novo, sem dúvida, mas tinha ficado até aos nossos dias numa espécie de estado de letra morta, quer dizer, sem benefício para a humanidade. A ignorância das leis que regem estas relações tinha-o abafado sob a superstição: o homem era incapaz de retirar daí qualquer dedução salutar; estava reservado para a nossa época libertá-lo dos seus acessórios ridículos, compreender-lhe o alcance e dele soltar a luz que deve iluminar o caminho do futuro.
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" Na senda e no espírito de Pedro A. Barboza de La Torre em seu livro, De la sombra Del dogma a la luz de la razón.


ALLAN KARDEC, A GÉNESE – Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo, Capítulo I NATUREZA DA REVELAÇÃO ESPÍRITA números de 7 a 11, 4º fragmento da obra. Tradução portuguesa de Maria Manuel Tinoco, Editores Livros de Vida.
(imagem: Diógenes e os pássaros de pedra, pintura em acrílico de Costa Brites)

sexta-feira, 1 de março de 2013

Inquietações Primaveris ~


Inquietações Primaveris

A adolescência é a fase mais difícil e perigosa da vida, mas também a mais bela. Tudo é esperança e sonho, mesmo para os espíritos mais práticos. Mas existem as adolescências desastradas, carregadas de provas esmagadoras. É nessa fase – entre os 13 e 14 anos até aos 18 ou 20 –, que o jovem toma consciência de suas novas responsabilidades, em sua nova residência na Terra, para lembrarmos o título de um dos mais belos livros de poemas de Pablo Neruda. Nesse período as lições e os exemplos da infância amadurecem lentamente e precisam, mais do que nunca, ser acrescidos de novos e vigorosos estímulos. Porque, nessa primavera da vida avivam-se o perfume das flores, o cheiro estonteante do pólen e as condições de vagas lembranças do passado. O adolescente sente-se atraído por sectores diversos de actividades e arrastado para comportamentos anteriores quase sempre perigosos. Ele se mostra rebelde, insatisfeito, opõe-se aos pais e pretende corrigi-los. Torna-se crítico, irónico, não raro zombeteiro, pretensioso, acreditando saber mais do que os outros, especialmente do que os mais velhos. É o momento da reelaboração da experiência das gerações anteriores, bem acentuado na obra de Dewey. Ele tem razão e sabe que a tem, mas não sabe como definir, expor e orientar o seu pensamento ainda informe e já ansioso por externar-se e impor-se ao mundo. Não se pode contrariá-lo frontalmente nem aprová-lo sem restrições. Qualquer dessas atitudes poderá mesmo exasperá-lo. Deve-se tratá-lo com cuidado, evitando excessos, e dar-lhe exemplos positivos sem alarde, sem propaganda. Ele, só ele é quem deve perceber o que se faz de bom ou de mau em seu redor. Estímulos bons e tentações perigosas perturbam a sua alegria, pequenas decepções lhe parecem definitivas. É nessa fase que se pode perceber, mais ou menos, quais os tipos de experiências por que ele passou na última encarnação. Essa percepção oferece indicações importantes para a orientação do processo educativo, desde que consideradas com cautela e confrontadas com outras manifestações que as corroborem. De qualquer maneira, não se deve dar ciência dessas observações ao jovem. Elas servem apenas para os pais e os familiares integrados no trabalho de orientação. Comunicações de entidades sérias e suficientemente conhecidas poderão também auxiliar.

Nas famílias espíritas, bem integradas na Doutrina, o processo se torna mais facilmente realizável. Nas famílias católicas e protestantes, ou integradas em seitas anti-reencarnacionistas, as dificuldades são maiores, mas não insuperáveis. A leitura e o estudo das obras de Kardec ajudarão muito o desenvolvimento do processo educativo, desde que o adolescente se mostre interessado pelo conhecimento do problema. Forçá-lo a isso seria contraproducente. Tudo o que representar ou parecer imposição será fatalmente rejeitado. A leitura referida poderá ser sugerida por outro adolescente, sem que se deixe transparecer o dedo de um adulto por trás da tentativa.

De maneira geral, a observação da vocação e das tendências do adolescente são importantes. Mas o mais importante será sempre o exemplo dos mais velhos, na família e na escola, pois o instinto de imitação da criança subsiste no adolescente e se prolonga, geralmente, na maturidade, diluído mas constante, o que podemos verificar facilmente no meio social comum. Os tempos actuais não são favoráveis a bons exemplos, mas há sempre bons livros a se presentear a um adolescente no seu aniversário, sem se deixar perceber qualquer intenção orientadora. Os livros que tratam de problemas espirituais e morais devem ser de autores arejados, que encarem o mundo e a vida de maneira objectiva, sem cair no sermonário ou no misticismo piegas. Ou tratamos com os jovens numa linguagem clara, directa e positiva ou não seremos ouvidos. As novas gerações são vanguardistas de um novo mundo e não querem compromissos com o mundo de mentiras e hipocrisias em que vivemos até agora.

Não se pense, porém, que todos os adolescentes são difíceis. No seu excelente estudo A Crise da Adolescência, Maurice Debusse tem muito para nos ensinar.

As inquietações primaveris da adolescência reflectem amarguras e alegrias de outras encarnações. As amarguras correspondem a fracassos dolorosos de uma vida passada, que tanto pode ser a última como também uma encarnação anterior, até mesmo longínqua. As alegrias reflectem acontecimentos felizes, que por isso carregam também as sombras da saudade, gerando no adolescente estranhas e profundas nostalgias. Não se trata propriamente de lembranças ou recordações, mas apenas de um eco soturno que parece ressoar nas profundezas de uma gruta. O adolescente sofre essas repercussões sem identificá-las, sem saber de onde chegam à sua acústica interior esses ruídos semelhantes ao das vagas numa praia deserta. Anseios indefinidos brotam do seu coração, tentando arrastá-lo para distâncias desconhecidas, mundos perdidos no tempo, criaturas amadas mas desconhecidas que o chamam e anseiam por encontrá-lo. Os sonhos o embalam às vezes, ao dormir, em situações que o confundem, pois as imagens de outros tempos e as do presente se embaralham no processo onírico, não lhe permitindo a identificação de lugares, edifícios, cidades em que ele parece ter vivido. Os terrores nocturnos o assaltam com visões que muitas vezes nada têm de trágico ou perigoso, mas que não obstante o despertam apavorado e trémulo. Atrevido e audacioso à luz do dia, disposto a enfrentar o mundo dos velhos e transformá-lo heroicamente num mundo melhor, mostra-se infantil e frágil nesses momentos de ressonância imprecisa do passado. Às vezes um pequeno incidente do presente, uma troca de palavras ásperas com alguém, uma jovem que o encarou distraidamente na rua e depois lhe virou abruptamente o rosto, é suficiente para levá-lo a fugir para o seu quarto, fechando-se à chave para chorar angustiado sem saber por que motivo chora. A crise da adolescência não é fatal, obrigatória, pelo menos nessa intensidade. Varia enormemente nos graus de sua manifestação e em alguns adolescentes parece nunca se manifestar. Na verdade, manifesta-se atenuada, traduzindo-se em caprichos estranhos, numa espécie de esquizofrenia incipiente, que logra os psicólogos e psiquiatras. São as variações de temperamento, de situações vividas, de sensibilidade mais ou menos aguçada, de maior ou menor integração do espírito na nova encarnação, que determinam essa variedade. A ressonância existe sempre, mas nem sempre desencadeia a crise. Os temperamentos estéticos, sonhadores, são os mais afectados. Os espíritos práticos apegam-se mais facilmente à nova realidade e a ressonância se produz neles de maneira esmaecida, sem afectar o seu comportamento.

Há criaturas que desde a infância começam a sentir os sintomas da crise. Certos adolescentes passam pelo período da crise como abobados, em estado de permanente distracção. Rejeitam o mundo e o meio em que vivem e desejam morrer. Acham que jamais se integrarão a realidade presente. Realidade que vai aos poucos se impondo a essas criaturas que acabam por se adaptarem a ela. A vida tem as suas leis e sabe domar a rebeldia humana. Algumas dessas almas rebeladas acomodam-se ao mundo, mas nunca o aceitam de bom grado. Parecem exiladas em nosso planeta. O período mais difícil que atravessam é o da adolescência, rejeitando companhias, fugindo às reuniões festivas, entregues a uma espécie de desânimo permanente.

Na pesquisa espírita verifica-se, na maioria desses casos, a presença de entidades inconformadas que aumentam a inquietação desses espíritos saudosistas. Nas reuniões mediúnicas e através de passes encontram geralmente a solução dessa nostalgia aparentemente sem motivo.

O mundo actual pressiona de maneira arrasadora essas almas sensíveis, que muitas vezes estão passando pelos resgates de privilégios que usaram e abusaram aqui mesmo, na Terra. As mudanças de posição social, a troca de um meio refinado pelas situações inferiores, no processo reencarnatório, causa os desajustes naturais de todas as mudanças. Mas cada alma já vem preparada espiritualmente para superar essas dificuldades dos períodos de adaptação.

Na Educação para a Morte esses casos são naturalmente prevenidos através dos esclarecimentos da finalidade da existência. Ensinando-se e provando-se, com os dados científicos hoje amplamente conseguidos, que a evolução é lei geral do Universo e que a evolução humana se desenvolve em etapas sucessivas que nos levam sempre a situações melhores, as inquietações da adolescência são compensadas pela esperança e até mesmo a certeza de um futuro melhor. O desespero e o desânimo são sempre produzidos pela ausência da esperança. Em geral essa ausência decorre de informações negativas sobre o destino humano. As informações positivas e desinteressadas, fornecidas por cientistas que buscam a verdade e não a ilusão mística das religiões, sempre interessadas no proselitismo de que vivem, são mais facilmente aceitas e compreendidas. A desmoralização natural das religiões da morte abriu as portas do mundo às concepções negativas do materialismo e do ateísmo. Por isso o mundo se tornou mais árido e insuportável, uma espécie de prisão espacial em que a espécie humana está condenada a uma vida de réprobos sem perspectiva. E de tal forma essa prisão asfixiou a Terra que os próprios cientistas, adversos à questão espiritual, se incumbiram de derrubar a Ditadura da Física, como assinalou Rhine. O cálculo de probabilidades substituiu a rigidez das operações exactas e invariáveis da concepção mecanicista. Introduzido o espírito nas equações físicas, a liberdade se impôs nas avaliações da mecânica e da dinâmica da Natureza. Em vão surgiu a revolta filosófica do Estruturalismo de Strauss, que não passou de sonho de uma noite de verão para os anti-evolucionistas apegados ao bolor rançoso do Fixismo dogmático. As perspectivas actuais, não obstante as loucuras do momento, são de esperança para a Terra e o Homem. Bastaria esse facto para alentar os corações inquietos e as mentes perturbadas. O princípio da Ordem Universal perdeu a sua rigidez estática e o fluir da vida revelou a sua fluidez na surpreendente flexibilidade das estruturas vivas.

Não há mais lugar para os adeptos da nadificação em nossa cultura. O Universo revelou-se energético de força, espírito e matéria. Não se pode mais falar, como no tempo de Bukner, apenas em força e matéria. Voltamos ao pensamento grego de Talles de Mileto, o vidente que dizia: “O Mundo é pleno de deuses.” Na época, os deuses eram os espíritos que o povoavam e, por sua natureza específica, pairavam acima da natureza humana comum. Todos os sofismas da Mística milenar e todas as dúvidas do Cepticismo antigo e moderno morreram nas explosões atómicas de Hiroshima e Nagasaki. Nada se perde, nada se acaba, tudo se integra, desintegra e reintegra nas incessantes metamorfoses do Cosmos. Inadmissível o conceito vazio do Nada, esse buraco no absurdo. O Nada não existe em parte alguma e a vida não é chama que apague ao sopro de deuses ou demónios. As sondagens astronáuticas provaram o princípio kardeciano da relação criadora e dialéctica entre força e matéria. Ninguém, nenhuma coisa ou objecto, nenhum ser se frustra em parte alguma, simplesmente porque as coordenadas do tempo e do espaço repousam na duração, esse conceito moderno e dinâmico que substituiu o conceito estático de eternidade.

A natureza ôntica revela a essência do ser como síntese consciencial da dialéctica espírito e matéria. Como Geley demonstrou, a realidade una e densa é um fluxo energético ininterrupto que vai do inconsciente ao consciente. Léon Denis, que Conan Doyle chamou de O Druída de Lorena, ofereceu-nos a síntese poética e racional (Razão e Poesia – confirmando o hilosoismo grego) nesta visão espantosa da realidade universal: “A alma dorme na pedra, sonha no vegetal, agita-se no animal e acorda no homem.” A consciência é potência no mineral, desenvolvimento progressivo no vegetal, onde a sensibilidade aflora, transição vital no animal, que desenvolve a motilidade, e acto no homem, a caminho inevitável e irreversível da transcendência na existência. Deus, a Consciência Absoluta, não é o Primeiro motor Imóvel de Aristóteles, mas a Consciência Funcional do Cosmos. Como na definição da Educação por Hubert, Deus é a Consciência Plena que eleva e atrai sem cessar as consciências embrionárias para integrá-las em sua plenitude Divina.
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José Herculano Pires – Educação para a Morte, Inquietações Primaveris, 12º fragmento da obra.
(imagem: O caranguejo, pintura de William-Adolphe Bouguereau)