Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

sábado, 22 de outubro de 2016

Deus na Natureza ~

A Força e a Matéria II – A Terra (II)

  Assim como os sons derivam do número de vibrações sonoras, assim as cores derivam das vibrações luminosas. O colorido de uma paisagem vale por uma espécie de música. A verdura dos prados é formada pelo número, qual o tema de uma melodia; a rosa que se desbotou é o centro de uma esfera de vibrações luminosas, constituindo o matiz aparente, e o rouxinol que trina em carícias, projecta no ar as vibrações sonoras características do seu tónus. Todo o movimento é número, e todo o número é harmonia.

  Não há dúvida de que existe, nesse estado de coisas, uma parte reservada às leis fisiológicas da nossa organização. Os sons audíveis começam nas vibrações lentas e acabam nas agudas, que o ouvido pode captar, quais sejam de 16 a 36.850 por segundo (i).

  As cores visíveis começam nas vibrações lentas e extinguem-se com as mais rápidas que a nossa retina possa apreender, ou seja, de 458 triliões por segundo, a 727 triliões por segundo (ii).

  Mas, não haveria como daí concluir que haja nisso apenas uma relação fortuita entre a nossa organização e os movimentos exteriores.

  Sons e cores estendem-se abaixo e acima dos limites da nossa organização, igualmente subordinados a regras numéricas. Há sons que o ouvido humano não pode captar, assim como há cores que nos escapam à retina. E no próprio limite das nossas percepções a relação entre estas e os nossos sentidos procede, ao menos na nossa opinião, do facto de não ter sido a construção do nosso organismo alheio ao número – o elo universal.

  Também a forma, nas suas dissimulações mais ondeantes, pertence ao número, pois toda a figura é determinada pelo algarismo.

  O sentido inato da estética que nos inspira busca as formas mais puras. O círculo nos encanta com a sua curva graciosa.

  A Geometria, nas nossas construções, não desgarra por veredas arbitrárias. A Arquitectura apoia-se, conforme as suas aplicações, sobre a forma estética do nosso pensamento, ainda que por vezes suceda (como na nossa época por exemplo) não ter estilo algum.

  Até nas figuras simbólicas das tradições religiosas desejamos simetria, simulando-a às vezes em aparente desordem. Ao contemplar um emaranhado de coisas, a vista logo se nos fatiga, ao passo que se embevece e repousa ao fixar as danças de movimentos melodiosos. Característica peculiar do reino mineral, a simetria torna-se menos severa ao graduar-se nos reinos orgânicos.

  Os vegetais modelam-se pelo seu tipo ideal, mas deixam uma certa latitude às forças que os modificam, e assim é que crescem em duas direcções opostas; as folhas sucedem-se no seu ciclo, em torno da haste, em número característico; as suas flores não escapam à ordem numérica. Número e forma são a base da classificação vegetal. Os animais, com o manifestarem o tipo de cada espécie, dão à simetria o seu papel e o próprio homem é uma unidade composta por duas metades simetricamente ligadas.

  Acima de todas essas formas particulares, soberana manifesta-se-nos a unidade de plano.

  Nas espécies mais diferentes encontram-se analogias significativas. Nada menos parecido com a mão humana do que a pata do cavalo e, no entanto, se dissecardes a pata, lá encontrareis um rudimento de mão com os dedos inscritos.

  Assim a ordem, a mesma ordem numérica, impera na Terra como nos céus. Não vamos pensar que as harmonias naturais, despercebidas ao homem, hajam de ser ruídos informes e constituam excepção. O vento que suspira entre os cedros e os pinheiros; o lamento das vagas na praia arenosa; o zumbido do insecto no âmbito dos bosques; todos os indefiníveis sons que animam a Natureza são vibrações sonoras, pertinentes ao reinado do número.

  O facto na aparência mais insignificante, tanto quanto o de maior vulto, resulta de leis determinadas. Com que direito, pois, ousam declarar os negadores do espírito a materialidade absoluta do Universo? Que pode a matéria só por si? Que será um átomo de oxigénio ou de carbono considerado à revelia de toda e qualquer lei? Em que caos mergulhará a Natureza se aniquilardes a força que a mantém? Imaginemos por um momento que o número deixa de existir, e esta conjectura, só por si, aniquila, todas as harmonias que acabamos de explanar. Ora, perguntamos: pode a faculdade matemática pertencer à matéria? Se assim, julgá-lo, resta dizer-nos que matéria será essa: oxigénio, azoto, carbono, ferro, alumínio. Evidentemente não, pois a lei supera todos esses corpos e é precisamente ela – a lei – que os combina, casa, dissocia, separa, visto que os governa. Que vos resta, então? Pertencerão à matéria o som, a luz, o magnetismo? Mas a experiência vos demonstra o contrário. Nisso, tendes outras tantas modalidades de movimento. Quem determina um dado movimento ao som e outro à luz? Quem regula essas forças? Aparentemente, serão elas mesmas, ou uma força superior que as abranja a todas. A matéria não é, em todos os seus movimentos, senão o objecto passivo.

  Inegável, portanto, que na Natureza inorgânica a matéria é escrava e a força é soberana.

  Contudo, é precisamente o que põem em dúvida os nossos campeões do materialismo. Já tivemos o ensejo de apreciar o valor dos seus argumentos no que diz à Natureza inorgânica. Edifiquemo-nos agora, sem demora, com a maneira por que explicam a Natureza orgânica.

  Quando queimamos cautelosamente uma planta, não raro obtemos o resíduo de um esqueleto silicoso correspondente à forma primitiva da haste. É a substância que a constituía, proveniente da substância do solo. A planta integral, encerra a mais, certos corpos determinados pela sua natureza: assim, por exemplo, o trigo contém o glúten azotado; a videira, cal; a batata, potássio; o chá, magnésio; o tabaco, salitre, etc. A cada planta convém uns tantos elementos minerais e a própria planta é que os sabe escolher. O agricultor inteligente adapta a sua lavoura à natureza do terreno e escolhe os adubos de acordo com as safras que colima. No conhecimento das necessidades de cada espécie está o segredo das searas e dos alqueires. Diante disto, os teóricos de que nos ocupamos só se explicam pela metade. A raiz absorve – dizem – de acordo com as leis fixas de afinidade, os elementos que lhe jazem em volta. E, como se temessem não ser bem compreendido o papel tão judiciosamente atribuído à tal afinidade electiva, acrescentam (ver Moleschott) que a planta fabrica por si mesma a massa principal do seu volume. Haverá, quem, depois de uma tal declaração, ainda se negue a outorgar à força o ascendente directivo que lhe cabe? Pois há, visto que tudo isso é dito atributivamente à matéria. A evaporação que faculta às raízes a absorção dos elementos da terra vegetal, dizem, e a afinidade dos líquidos através das paredes celulares que os separam, tais as faculdades mestras da matéria, que engendram o crescimento. Eis uma pobre raiz que vegeta no cimo do rochedo: necessita de sombra, de silêncio, de uma certa alimentação de que a separam seixos e calhaus... Examinem-se-lhe os vagos, mas, enérgicos desejos: ela procura, coleia, recua, contorna pedras, desce, sobe, lança-se ávida a qualquer ponto que um quê de instintivo a faz adivinhar, recai por vezes desfalecida, mas logo se reanima de novos ímpetos, derruba todos os obstáculos e chega, enfim, à Canaã prometida. Desde então aí se fixa, implanta-se e afirma os seus direitos de conquista. A árvore mofina que delirava outrora em calafrios de consumpção, retoma prestes o vigor natural, bracejando pelo solo os seus ramos luxuriantes. Ousar-se-á admitir aqui, mais formalmente ainda do que na cristalização mineral, a inexistência de um princípio inteligente, de uma força orgânica peculiar?

  Por nós, confessamo-lo sem reservas: na manifestação dessas tendências instintivas saudamos o ser virtual, a força intrínseca do vegetal, que constrange a matéria a obedecer-lhe.

  Parece-nos que sois consequentes atribuindo à matéria essa afinidade electiva (como se a matéria discernisse!), quando nós a inferimos no ser vegetal, que, aflorado nas condições mais díspares, sabe adivinhar por toda a parte os elementos necessários à existência da sua espécie.

  Ó pretensos sábios, que acreditais fabricar ciência arrastando a inteligência em campo raso de despautérios, deixai que vos acuse e lastime não terdes sabido ver, nem sentir, os cenários da Natureza! O aspecto admirável de uns tantos sítios, nos quais a graça e a beleza se conjugam sob todos os prismas; a movimentação da vida, na viridência constante de prados e florestas; a irisação da luz-clara, marchetada de flocos de ouro; o perfil silencioso das árvores; o espelho translúcido dos lagos que reflectem o Sol; o calor primaveril que aquece a atmosfera; a senda das selvas e o perfume das flores: todas as maravilhas, ternuras, carícias da Natureza ficaram estranhas à vossa inércia. As contemplações desta natureza terrestre oferecem, contudo, grande encanto e acarretam, por vezes, revelações inesperadas.

  Lembro-me e confesso, ainda que possas rir da minha sensibilidade – lembro-me, repito, de haver passado horas deliciosas, admirando solitariamente umas quantas paisagens. Não há que categorizar aqui as impressões de que falo, pois quem tenha olhos de ver encontrá-las-á por toda a parte. O Sol, não posto ainda, mas nublado, iluminava as alturas, colorindo de matizes delicadíssimos e esquisitos as nuvens mais altas, cúmulus louros a vogarem lentos, acima dos círrus argenteos. Um vento suave e insensível à superfície do solo balouçava aqueles grupos polícromos, nos quais os tons de feérica paleta, do áureo ao róseo, se harmonizavam no contraste, quais acordes de um coro celestial. A meus pés fremia a onda translúcida do lago imenso, a sumir-se no horizonte longínquo. Profundo silêncio amortalhava a cena. À beira d'água, não longe, alguns capões de árvores e de arbustos reflectiam-se no espelho móvel, com proporções gigantescas. A massa equórea reflectia simultaneamente a terra e o céu, opondo às luzes de cima as sombras de baixo. Quadro digno dos grandes paisagistas, que costumamos admirar nas telas de um Claude Lorrain e de um Poussin, mas cuja simplicidade inimitável transcende a todo o poder imaginativo! Às vezes, o silêncio ambiente era quebrado pelo cincerro dos rebanhos distantes, tangidos ao pastoreio, quando não pelas copias de alados cantores. Diante desse conjunto de tanta beleza, embora velada, de tanta vivacidade, apesar de aparentemente morto, de tal eloquência no meio do silêncio, havia um esplendor tamanho e tão imperioso, que eu me senti penetrado da vida universal, difusa no mesmo ar que respirava por todos os poros. Ela dizia-me que as árvores vivem, que as plantas respiram e sonham! Dizia-me que no ar e na luz, em que a supomos inanimada, ela se eleva e se engrandece para a fase indecisa das primeiras manifestações do ser. Eu bem via, com os olhos do químico, a sucessibilidade rápida e incessante dos átomos constituintes do corpo, desde a erva tenra até à nuvem. Sabia que um dinamismo grandioso e incoercível lhe põe em circulação o turbilhonar das moléculas simples, alternativamente combinadas na sucessão dos corpos.

  Contudo, no âmago desse movimento, pressentia a força que o acarreta; no fundo dessas aparências admirava a lei directriz das coisas criadas. Dominado pelo mesmo poder dessas leis, que irradiam a beleza no espaço com a mesma facilidade com que o lavrador semeia em campo fértil, profundamente emocionado nessa comunhão passageira do meu eu com a vida inconsciente da Natureza, senti-me como que transportado a uma espécie de êxtase, enquanto as imagens aéreas daquele céu magnífico se me reflectiam na alma, qual se o fizessem na face espelhada de um lago tranquilo.

  É nesses instantes de contemplação, fugazes e indescritíveis, que a ideia estética de Deus me surge mais luminosa e mormente me avassala. São estas revelações, que não posso exprimir e nem a mim próprio definir, quando me ocorrem. Sinto-me subjugado pela necessidade de reconhecer uma causa para essa beleza, uma causa que não posso nomear e que, não obstante, me surge com as características da própria beleza, da bondade, da ternura, do amor e assim também com as do poder, da magnitude e da dominação. Já não é, então, pela inteligência, mas pelo coração que me compenetro da existência de Deus. Deverei confessar que me sinto às vezes surpreso e acabrunhado por uma emoção profunda? Não, por isso que, na opinião dos contraditores, todo o sinal de emoção só tem origem na centralidade variável do coração anatómico, ou na secreção da glândula lacrimal, mais ou menos sensível por temperamento e que, portanto, todas as maravilhas aqui expendidas não passam de cego resultado, baldo de senso, das combinações materiais engendradas pela química e pela física orgânicas!

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(i) Segundo Deprez. As experiências de Savart limitam os sons graves a 8 vibrações duplas por segundo, e a 24000 os agudos.
(ii) Tomamos aqui por limites o número de ondulações do infravermelho ao ultravioleta. Além deste, o nosso globo visual não pode perceber a luz, que sem embargo, ainda existe.


Camille Flammarion, Deus na Natureza – Primeira Parte, A Força e a Matéria II – A Terra 2 de 3, 15º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Jungle Tales_1895, pintura de James Jebusa Shannon)