Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

sábado, 27 de junho de 2015

~~~Párias em Redenção~~~


A ESTRANHA PERSONAGEM QUE SURGE DO PASSADO (III)

  Electrificado pelo impacto da descoberta e encorajado pela inspiração perniciosa, Carlo retomou ao casino e fitou o homem semi-embriagado, que o humilhara. De temperamento venal e orgulhoso, ele também não admitia competidor. Olhou-o de vários ângulos e quanto mais o observava, com severidade, mais se lhe acentuava a certeza sobre a procedência das suspeitas. No íntimo conturbado e na mente exacerbada, agora, pela dupla força da raiva pessoal e do ódio que lhe era transmitido, ocorreu-lhe – por transmissão mental – vender o silêncio, apavorando o criminoso, táctica eficaz para vingar-se demoradamente, e – quem sabe? – denunciá-lo depois. A denúncia, é claro – reflectia –, não surtiria o efeito desejado. Quem iria acreditar num cavalariço, ante a palavra do jovem Conde e do respectivo sogro? Dar-se-ia até que ele seria chibateado em público e atirado a um cárcere, até à morte. O melhor e mais eficiente método seria inquietar-lhe a consciência – se é que a tinha –, obrigando-o a denunciar-se, ele próprio, mediante o conciliábulo da chantage.

  Doía-lhe o corpo pela ansiedade e tremiam-lhe os músculos.

  Acercou-se exultante e disse, sem maiores delongas:

  – Com vossa permissão, Senhor Conde. Necessito falar-vos.

  – A mim? – interrogou Girólamo. – Conseguiste mais dinheiro ou desejas pedi-lo a mim?

  Algumas mulheres de aparência grotesca, na pintura e nos trajes, vários homens de vida duvidosa que se encontravam em torno do dissipador gargalharam, zombeteiros.

  Dominando a impetuosidade e fazendo-se humilde, submisso, o florentino tornou:

  – Perdão, senhor! Trata-se de assunto grave, se me permitis.

  – Dize, homem. Que acanhamento é esse, após o prejuízo?

  Novas gargalhadas em troça espocaram. Girólamo realizava-se, ferindo e macerando o opositor vencido.

  – Com vossa aquiescência, senhor, trata-se de problema da vossa família…

  – Que tem minha família…

  Girólamo saltou e mesmo ubriaco (i) aproximou-se do parlamentário e perguntou:

  – Vens do Palácio Castaldi?

  – É mais grave, senhor. Diz respeito à vossa vida, vossa paz.

  – Saiamos, então, daqui, – acudiu o quase borracho.

  Alguns vadios do casino, que cobiçavam a presa, a meio caminho da bebedeira total, para roubar-lhe as moedas, explodiram em exclamações de aborrecimento e enfado.

  Os dois homens saíram à rua. Logo à porta, o senense inquiriu molesto:

  – De que perigo se trata? Avia-te, ordeno!

  – Calma, senhor. Não nos devem ouvir pessoas levianas.

  – Que aparência de mistério é essa?

  – Trata-se realmente de um mistério.

  Avançaram alguns passos e, na semi-obscuridade da viela, entre as pilastras de pedra de cantaria, sob os arcos superiores, onde os vultos pareciam mais estranhos, Carlo arengou:

  – Necessito de vossa ajuda. Somente uma questão de tal monta me obrigaria…

  – Qual é o mistério que me envolve? – vociferou Girólamo.

  Sentindo-se detentor de poderosa arma, Carlo reflectiu sobre o velho provérbio: “Chi va piano, va sano. Chi va sano va lontano.” (ii) Logo explicou:

  – Trata-se de uma ocorrência que vos envolve. – Fez uma pausa, para atingir melhores e seguros resultados.

  Girólamo, enfadado, empurrou o contendor e pôs-se a caminho, de volta ao casino, protestando:

  – Cavalariço imundo, incomodar-me!... Atrevido…

  – Lembrai-vos de um domingo de primavera nas colinas de San Miniato, em Florença, senhor? – gritou-lhe. (Era sua grande cartada: vida ou desgraça. A sorte estava lançada, pensou com sofreguidão.) – Eu estava lá…

  Girólamo estancou o passo. Cambaleou. Um fogo de febre subiu-lhe À cabeça, os ouvidos zumbiram, como se as veias se agitassem, quase a estourar. Rodopiou sobre os calcanhares e volveu. Apesar de quase vencido pela bebida, crispou as mãos e avançou na direcção do ginete dos Castaldi, segurando-o pelas vestes com vigor e, face a face, ardendo de ira, com os dentes travados em rito de ódio, indagou, com a voz subitamente enrouquecida:

  – Não ouvi bem, miserável, canalha. Repeti! Fala! Que desejas, verme asqueroso?...

  – Acalmai-vos, senhor. (Carlo estava convicto de que atingia o objectivo. Vingar-se-ia, agora, em longo curso de desforra.)

  Tentando oferecer naturalidade à voz, falou com fingida humildade:

  – Desejava que o Senhor Conde soubesse… Gostaria de ser-vos útil… As circunstâncias da fortuna me colocaram em San Miniato, naquele dia…

  Os olhos de Girólamo fuzilavam. Mesmo na sombra, Carlo, igualmente robusto, viu o folgor estranho daqueles olhos e sentiu as mãos de ferro, agora em torno do seu pescoço, enquanto a voz rouquenha gritava:

  – Que viste, bandido? Abre-te, antes que eu mesmo te esgane!

  Tentando desvencilhar-se daquelas mãos de aço, crispadas, Carlo retrucou, atordoado:

  – Eu estava em San Miniato quando…

  – Quando?!...

  – Quando o Senhor Conde matou aquela mulher… Eu vi. (E ante o espanto de Girólamo, colhido pela surpresa do inesperado, que afrouxou um pouco a constrição, Carlo, de um golpe, desarmou o desafecto.)

  Aparentando desconhecer a que se referia o florentino, o senense acercou-se e, fulminante, esbordoou-o com violência.

  – Se fosses um homem da nobreza – aduziu com desprezo –, eu te convidava a um duelo. Mas, um réptil dessa classe eu entrego às autoridades…

  Sobrepondo a arrogância à razão, ensaiou alguns passos na direcção do casino, esfogueado, em convulsão. O inesperado colhia-o em circunstância jamais desejada, cravando-lhe a lança de incomparável choque e dor. Não conseguia raciocinar com o necessário acerto. A violência da emoção superou o desalinho das forças pelo álcool, e, como suasse em bagas, passou a eliminar o tóxico. Parou a meio passo. Voltou-se e enfrentou o olhar do inimigo, imóvel, lábios contraídos, desafiador.

  – Serei eu, Senhor Conde – revidou Carlo –, quem irá procurar as autoridades para narrar o vosso hediondo segredo. É certo que não sou nobre, mas posso sê-lo como vós o sois, lavando a condição plebeia no sangue das vítimas, como o fizestes com a vossa ganância. Não vos temo! Somos do mesmo estofo, cavaliere. (E gargalhou com mofa.)

  – Matar-te-ei, miserável! (Girólamo avançou, estertorando.)

  – Parai ou matar-vos-ei eu. (O lépido moço recuou num salto felino, colocando-se à distância do agressor.) Não me interessa a vossa vida…

  – E que desejas, cão?

  – Vender-vos o meu silêncio.

  – A calúnia só merece chibata e cárcere.

  – Veremos como a cidade reagirá ao saber a notícia e relacioná-la com as tragédias do Solar di Bicci…As circunstâncias da morte dos vossos parentes… (Sardónico e igualmente impiedoso, continuou a gargalhar.)

  No mesmo momento em que se sentia desvairar, Girólamo ouviu a gargalhada de Assunta e distinguiu a voz do duque invectivar: “Assassino! Pagarás agora, assassino!”

  O infeliz mancebo, por sua vez, trovejou expressões de louco e sem qualquer lucidez invadiu o casino, transtornado, perseguido pelas Erínias  (iii). Palavras desconexas saíam-lhe dos lábios intumescidos. Segurando a cabeça com as duas mãos, correu de um lado para o outro, perdido no mundo das sombras, nas quais perpetrara os crimes, e ululava. Nos ouvidos superaguçados, continuava ouvindo as acusações do tio e as imprecações de Assunta. Gritos e doestos sórdidos espocavam-lhe no cérebro e ele, açoitado pelo desespero, arrancou em direcção a uma parede e arrojou-se de encontro a ela.

  O pavor tomou conta do recinto. Dois dos seus muitos companheiros de orgias, surpreendidos pelo nefasto acontecimento, levantaram-se de repente e seguraram-no a contorcer-se no solo, a gemer, a sangrar, olhar perdido, músculos e carnes trémulos: era um trapo, sacudido violentamente pela tempestade da insânia íntima.

  O cavaliere Conde Dom Girólamo Cherubini di Bicci experimentava a segunda crise de loucura.

  Através dos olhos sem luminosidade, ele via, além da realidade objectiva, o duque de pé, à sua frente, dedo em riste, empunhando longa chibata, com a qual o surrava desapiedadamente e, ao lado, Assunta, louca, megera nauseante, bailava e cachinava impudente, vingadora. Sofrendo o cilício que o tio lhe infligia, sentiu-se arrancado ao corpo, à força, e foi obrigado a enfrentar as circunstâncias em que se arrojara voluntariamente. O corpo, exânime, tombou quase sem vida.

  Recostaram-no em um leito, no andar superior do cassino-bordel, e alguém foi providenciar uma carruagem, para conduzi-lo ao lar dos sogros. A villa dos Castaldi estava em silêncio. Ante a gritaria dos que se encontravam fora, o guarda da entrada acordou e, cientificado do que acontecera, Dom Lorenzo e a senhora, tomados de inquietação, recolheram o genro ainda ensanguentado, promovendo meios de atendê-lo e diminuir os danos daquele insucesso, constatando que na agitação em que se debatia o genro este deveria estar bêbado, não dando maior importância ao incidente.

  Dois lacaios foram designados a acompanhar a noite do mancebo, que continuou estremunhado, estertorado.

Carlo, o zagal florentino, quando viu o furor que se apossara do antagonista, fruiu a vã satisfação da vitória, comprovando, simultaneamente, que aquele homem não passava de um louco assassino. Agora, tinha certeza da legitimidade da sua observação e não o perderia de vista. Era-lhe uma presa fácil, que poderia modificar o seu destino. Propor-lhe-ia mudança de vida… Fá-lo-ia, sim.

  “Agora, vamos ao prazer interrompido.” – planeou.

  Abandonando a rua deserta, demandou outros sítios.

  A cidade acordou pachorrentamente, vagarosamente, exausta, no dia seguinte. O lixo abundava e as ruas estavam imundas…

Girólamo despertou febril, sem recobrar a lucidez, alquebrado, expressão de demente, olhar parado, fácies desconcertante. Às vezes, ria sem motivo ou se deixava vencer por crises nervosas que o sacudiam violentamente.

  Dom Lorenzo despachou um moço de recados à herdade Bicci, encarregue de trazer a Condessa Beatriz. A jovem senhora, notificada da enfermidade do esposo, acudiu aflita a socorrê-lo. No palácio paterno.

  A notícia chegou igualmente ao Palácio T., provocando em Francesco e Lucrécia sincera preocupação.

  Por intermédio dos lacaios, Carlo manteve-se informado do que acontecia na intimidade do palácio, gozando interiormente a desforra e aguardando acontecimentos novos. Tinha a certeza de que os bons génios, que lhe auguraram o destino futuro, premeditaram tais cometimentos para ensejar-lhe fortuna e regalias, Girólamo possuía mais do que podia dissipar e não lhe custava muito repartir com o comparsa, elegendo-o amigo e preferido da sua casa. Reservou o tempo, esperando.

  Logo chamado, o esculápio examinou detidamente o enfermo e, como este se encontrasse vitimado por febre e constantes delírios, nos quais o corpo em desequilíbrio sofria as vicissitudes do espírito aturdido, a sofrer o império do desconforto que proporcionava a si mesmo, foi taxativo: maremma toscana! Recomendou repouso excessivo e silêncio, prescrevendo clisteres e outras mezinhas. Comprometeu-se a retornar com assiduidade, acompanhando a marcha da enfermidade do paciente.

  Sentindo o êxito do programa em plena execução, o desencarnado duque di Bicci, no fragor da loucura de que também se via possuído, experimentou júbilo, o júbilo que, à semelhança de ácido, queima e requeima os que o conduzem. Considerava a partida ganha: Girólamo, à semelhança de Assunta, estava em suas mãos. Na ferocidade do ódio em que se consumia, não desejava que o desditoso jovem morresse de imediato. Comprazer-se-ia em vê-lo sofrer lentamente, como a cobrar a asfixia que padeceram seus filhinhos e Lúcia nas mãos ímpias do assassino. Assim, reflexionando, a entidade folgou a constrição psíquica e a influenciação exercida sobre a vítima, a qual, vendo-se parcialmente livre dos fluidos danosos, recobrou alento, recuperando o controlo sobre os órgãos dos sentidos físicos, a consciência, as lembranças…

  Passaram pela sua mente os últimos acontecimentos, em esfera penumbrosa de sonho pernicioso. Recordava-se da agressão espiritual sofrida, sem a compreender, todavia, evocou as ameaças e revelações de Carlo. A simples lembrança do móvel das dores que experimentava fê-lo desesperar. Possuidor de um carácter venal, tentou recompor-se para cuidar do desafecto, na ocasião oportuna.

  As melhoras do enfermo, repentinas, foram saudadas festivamente com êxito do médico.

  Uma semana depois, ainda convalescente, Girólamo, acompanhado pelo carinho da esposa, retorna ao solar altaneiro, nas colinas do pequeno ducado…

/…
(i) Ubriaco: bêbado.
(ii) “Quem vai devagar vai seguro. Quem vai seguro vai longe.”
(iii) As Erínias ou Eumênides eram deusas gregas a que os romanos chamavam Fúrias. Eram filhas da Terra, que viviam no Tártaro, com a missão de punir os crimes dos homens. Faziam-se representar com os cabelos entrelaçados de serpentes, tendo um punhal numa mão e um facho aceso noutra. Tinham como nomes: Tisífone, Alecto e Megera. Pertencem à Mitologia.



VICTOR HUGO, Espírito “PÁRIAS EM REDENÇÃO” – LIVRO PRIMEIRO, 8. A ESTRANHA PERSONAGEM QUE SURGE DO PASSADO (3 de 3) 28º fragmento da obra. Texto mediúnico, ditado a DIVALDO PEREIRA FRANCO.
(imagem de contextualização: L’âme de la forêt | 1898, tempera e folha de ouro sobre painel de Edgard Maxence)

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Nas garras do pensamento crítico ~


Por uma consciência humanista ~

             Se a experiência nos mostra que a formação de uma “consciência proletária” é praticamente inviável, pois, entre outros motivos, a própria revolução proletária vem sendo impulsionada e dirigida por forças estranhas ao proletariado; não somente desde os seus pródromos, mas ainda, hoje, e cada vez mais; se nos mostra que a “filosofia do proletariado” não consegue atraí-lo e empolgá-lo mais do que a demagogia fascista ou o diversionismo democrático dos países capitalistas mais altamente industrializados; revela-se-nos ainda que a vitória das chamadas “minorias conscientes” cria novos e violentos antagonismos internacionais, cada vez mais agressivos, é evidente que só nos resta procurar uma saída humana, e não proletária nem burguesa, para essa terrível situação. A saída não será a da submissão, a do pescoço entregue mansamente à canga, mas não será também a da violência e a da força.

   Se Marx reconhece no proletariado o potencial revolucionário, que a sua filosofia devia armar da necessária orientação para a luta, e se essa orientação só seria possível através da criação da “consciência de classe”, não teremos, nesse mesmo facto, o exemplo e a indicação do que nos cabe fazer? As massas que hoje se deparam à nossa frente, exploradas e sofredoras, não são apenas o proletariado, mas essa multidão heterogénea, que se chama povo, humanidade, e que as classes dividem de maneira formal, mas não substancial. Ao mesmo tempo, a situação das classes dominantes é de angústia e desespero, pesando sobre elas as consequências morais inevitáveis do usufruto indevido e da exploração dos semelhantes. O capital, o dinheiro, o poder, as comodidades, não bastam para salvá-las e, pelo contrário, cada vez mais as precipitam no pântano da corrupção moral e social.

   Diante disso, cabe-nos repetir o gesto de Marxoferecendo agora uma filosofia, não a esta ou àquela classe, mas a toda a humanidade, para armá-la da orientação necessária, através da criação de uma “consciência humanista”. Entreguemos essa filosofia de libertação, essa arma de defesa moral, esse instrumento de luta social, ao homem de todas as latitudes e de todas as classes, e trabalhemos pela criação da “consciência humanista” nos indivíduos em particular e no meio social em geral.

   Elevar a Terra na escala dos mundos!
   Não nos iludamos, porém, quanto aos métodos de acção que devemos empregar. Simples evangelização ou catequização, nos moldes religiosos, não darão resultados, porque nos amarram, pelo contrário, às antiquadas formas sectárias, que proliferam por toda parte e criam divisionismos estéreis e perigosos. O Espiritismo tem de descobrir a sua própria maneira de agir, tem de forjar as suas próprias armas, inteiramente novas, tão diferentes das usadas pelo processo do religiosismo clássico quanto pelo materialismo-dialéctico. Talvez nesta altura nos pudessem servir de “pontos-de referência” algumas longínquas tentativas históricas, como a de comunidade apostólica, de que nos dá notícia O Livro de Actos, ou ainda as recentes colónias de produção do Estado de Israel. O certo, porém, é que precisamos estabelecer os fundamentos sólidos e definidos do Espiritismo Dialéctico, aplicando-o, no plano sociológico ou histórico, rumo à sociedade futura.

   Ele mostrará, com base na experiência secular e no estudo objectivo da natureza humana, do homem psicológico, que não se pode construir um mundo social harmónico através da violência social, mas tão-somente do desenvolvimento do espírito colectivista de cooperação. E que a sociedade, como o homem – sem cairmos rigidamente no organicismo spenceriano –, tem as suas fases evolutivas bem definidas, que não poderemos deixar de considerar, pois Engels já nos ensinou que não desprezaríamos impunemente a dialéctica.

   Assim, se aquilo que o homem só podia resolver pelo emprego da força bruta, no seu estado primitivo, consegue fazê-lo pelo raciocínio e pela técnica, no estado de civilização, também a humanidade, superada a fase primitiva da sua elaboração social, pode caminhar, sem o uso da violência brutal e instintiva, para a revolução colectivista. Isso não quer dizer que a luta não se processe, que tenha sido interrompida no seu organismo, e que tenhamos de esperar o advento espontâneo da nova forma social, mas apenas que a luta se desenvolve de maneira diversa, em plano mais alto, como bem o definiu Ubaldi.

   Aproveitemos, pois, a oportunidade que Humberto Mariotti nos oferece, com a sua “interpretação espiritual da dialéctica”, para meditarmos sobre esses assuntos e buscarmos a forma que nos falta de oferecer ao mundo a solução espiritual do problema social. De fazermos, enfim, que o Espiritismo cumpra a sua missão histórica, vencendo a crise que o reduz, no momento, a uma luz bruxuleante no meio de densas trevas, a uma espécie de simples refúgio individual para as decepções e para as aflições humanas. Pois o seu destino, como assinalou sir Oliver Lodge, não é apenas o de consolar corações desalentados, mas o de rasgar para o mundo as perspectivas de uma nova era. Se a fé dogmática determinou o fanatismo religioso da Idade Média, com as suas fogueiras sinistras, a fé raciocinada criará o positivismo religioso do terceiro milénio, com as piras da fraternidade acesas em todos os quadrantes do planeta. Porque, como já o dissera Kardec, a tarefa do Espiritismo é a de elevar a Terra na escala dos mundos, transferindo-a da categoria expiatória para a de Mundo Regenerador.

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José Herculano Pires, Espiritismo Dialéctico  Por uma consciência humanista – Elevar a Terra na escala dos mundos, 15º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Vi o caçador levantar o arco-íris, pintura em acrílico de Costa Brites)