Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

domingo, 13 de outubro de 2019

~~~Párias em Redenção~~~


~~ O JULGAMENTO SOB O AÇODAR* DA CONSCIÊNCIA
(I)

No ergástulo nefário onde se contorcia na abjecção do odioso crime, o suicida acompanhava toda a extensão do atentado praticado contra o corpo que lhe deveria servir de barco para atravessar o mar das vicissitudes, na busca do porto seguro do progresso.

Emparedado no estreito jazigo em que se via obrigado a permanecer, não poderia sopesar qual o infortúnio maior a que estava submetido: se o pútrido exalar da carne em demorada decomposição, se as sensações que lhe penetravam oriundas da invasão dos vermes a desagregarem as moléculas, se a asfixia do laço poderoso que continuava constringindo-lhe as carnes e impossibilitando a circulação, causando sensações impossíveis de descrever, se toda a cabeça, sempre prestes a explodir, se o deslocamento da medula… ou as angústias morais decorrentes da zombaria das turbas e turbas que, sucessivamente, se acercavam do sombrio local para chasquearem, atirando-se em incessantes alcateias sobre as últimas exteriorizações fluídicas, agora pardo-escuras nauseantes e viscosas, ou se, finalmente, o medo do que o aguardava…

Os usurpadores da sua vitalidade pareciam obedecer a diferentes classes: a princípio, eram determinados sugadores que, após algum tempo, debandaram em alacridade, embriagados, e, assim, em continuação, as faces das sórdidas entidades chegavam a aparências grosseiras, incomparáveis, mesmo, às mais exageradas fantasias monstruosas, culminando pela apresentação dos últimos visitantes, que haviam perdido totalmente a forma humana e se rastejavam dolorosamente, coleantes… Eram mil mortes e mil renascimentos na sepultura húmida e fria. Não havia espaço mental para o raciocínio nem e a reflexão, porque tudo prosseguia no mesmo ritmo de alucinação e desdita, como razão humana alguma, enquanto na carne, poderia entender.

Transcorrida uma eternidade, naquele sem-fim onde os dias e as noites não se sucediam, demorando-se apenas uma longa e tenebrosa treva, Girólamo viu, estarrecido, chegar um estranho grupo, trazido por Dom Giovanni.

– Eis aí – disse o antigo duque – o nefasto criminoso, cujas aberrações eu denunciei às Autoridades.

O aspecto feroz dos estranhos e as suas roupagens levaram a mente do amargurado suicida à lembrança das óleo-gravuras católicas, não tendo dúvida em reconhecer naqueles seres os sequazes do Demónio. (i)

Um deles aproximou-se, examinou detidamente os despojos consumidos na sua quase totalidade e, após demorada quanto complexa operação, desligou os últimos liames perispituais do desencarnado libertando-o das vísceras e dos ossos remanescentes.

Um outro pegou uma corda e atou as mãos do infeliz, segurando a outra extremidade de modo a retê-lo preso.

– Saiamos daqui, – disse o que parecia o chefe e, de todos os mais hediondo.

A imensa fraqueza não permitia ao desditoso manter-se sobre as pernas, que se negavam ao movimento. Todo ele era um trapo em convulsão, cuja aparência humana estava reduzida a destroços vergonhosos.

Incapaz de reagir, deixou-se arrastar pela indiferença dos algozes, que agora o defendiam dos bandos de vagabundos que antes o exploravam. Rumando por caminhos sombrios, em que emanações sulfúricas, desagradáveis, se faziam cada vez mais fortes, foi conduzido a um profundo vale, sofrendo as pedras e a lama da vereda.

Na paisagem morta e gelada podia ver, entre as nuvens-chumbo, as encostas de penedias altas que formavam intransponível muralha naquele país donde ninguém podia escapar, senão à tutela da Divina Misericórdia.

O pavor em crescendo, na mente em frangalhos, fê-lo perder a noção de tudo.

Quando despertou, estava numa prisão muito semelhante às da Terra, com a única diferença da aparência sórdida e da podridão reinante. Ao lado, outro infeliz algemado mergulhara totalmente na demência, repetindo sem cessar a mesma sílaba, fazendo recordar o célebre Tan, do antigo Asilo de Bicêtre. (ii)

As dificuldades respiratórias, a sensação no peito e na cabeça eram, no superlativo das dores, os destaques mais afligentes.

Impossibilitado de falar e gritar, como se assim procedendo lhe diminuísse o desespero, o sentenciado àquela impérvia situação se pôs a ulular em grunhidos animais que lhe escapavam dos refolhos da alma, agitando o tórax comprimido e favorecendo-se, ao menos, com a satisfação de exteriorizar todo o horror que o dominava.

Enquanto assim procedia, outros seres, possivelmente na mesma situação, soltaram bramidos e gritos, lancinantes apelos espocaram de todos os lados.

Simultaneamente, ladridos de cães, misturados a vozes que bradavam silêncio, faziam-se acompanhar do som da chibata descarregada no dorso dos prisioneiros da misérrima prisão desconhecida.

O choro convulso tomou conta das celas e a algazarra, eram as exclamações de horror e desesperança dos presidiários.

Com o tempo, o antigo jovem senense passou a experimentar as necessidades fisiológicas e, reduzido à condição animal, adicionou a fome e a sede ao tormento que não cessava…

Por fim, abriram a porta da cela e dois guardas arrancaram-no impiedosamente, açoitando-o, lhe impuseram o rastejar macabro até ao imenso salão, que parecia situado abaixo da superfície ou numa profunda furna. Tochas resinosas ardiam e a fumaça asfixiava.

O absurdo julgamento teve início.

O suicida, quase nas raias da loucura plena e total, foi arrojado a um assento brutesco e, sem a possibilidade de entender quanto se desenrolava ao seu redor e sobre o seu espírito, passou a ouvir, com inaudito esforço, as acusações terrificantes.

Muitos eram os julgados do dia. Na sua vez, um ser infernal, de aparência chocante, arengou algumas palavras em latim, como se houvera pertencido a alguma organização religiosa da Terra, depois do que foram chamadas as testemunhas de acusação.

O primeiro a apresentar-se foi Dom Giovanni, que se transfigurara em horrendo como impiedoso algoz.

– Eu acuso Girólamo dos crimes…

E passou a citar, minuciosamente, todas as maquinações que culminaram nas contínuas tragédias perpetradas pelo acusado. Referiu-se às constantes interferências da duquesa, que, inclusive, lhe suplicara, a ele, ora acusador, abandonasse os seus intentos de vingança; que retornara também, do Além-túmulo, para impedir que o bandido continuasse a dar curso à longa loucura de destrui vidas, inutilmente. Nada o detinha; nem as incursões que ele próprio, senhor da herdade di Bicci, fizera, utilizando-se de um sensitivo grego para lhe falar… Sustentou que já não o deixou desde aquele momento, sitiando-lhe a mente nefária e insinuando que ele deveria pagar através da loucura e do suicídio os crimes cometidos, a fim de surpreendê-lo com as armas da justiça que naquela casa se ofereciam aos lesados, para punir os que os exploravam. Agora, solicitava permissão para apropriar-se do seu sicário e nele aplicar os correctivos que merecia, aplacando a sede que o devorava no ódio irrefreável.

/…

(i) Obviamente, não se trata dos satanases ou diabos da Mitologia religiosa, que seriam aqueles anjos caídos e perdidos por toda a Eternidade. Acontece que os Espíritos maus assumem tal aparência, contando apavorar os que lhes caem nas mãos, sitiando-os com maior impiedade, por encontrar-lhes o campo mental explorado pela ignorância e pela astúcia religiosa que lhes inculcou as falsas ideias de um inferno impossível. O fenómeno da ideoplastia na mente em desregramento ajuda a feição e a aparente realidade de tais seres.
(ii) Paciente estudado pelo Dr. Paulo Broca, fundador da Escola de Antropologia, que foi pesquisado vivo e depois teve estudado o seu cérebro morto, identificando nele a “terceira circunvolução frontal esquerda” como o centro da fala, também chamado de “centro de Broca”.


VICTOR HUGO, Espírito “PÁRIAS EM REDENÇÃO” – LIVRO SEGUNDO, 2. O JULGAMENTO SOB O AÇODAR DA CONSCIÊNCIA (1 de 3), 37º fragmento desta obra. Texto mediúnico, ditado a DIVALDO PEREIRA FRANCO.
(imagem de contextualização: L’âme de la forêt | 1898, tempera e folha de ouro sobre painel de Edgard Maxence)

terça-feira, 24 de setembro de 2019

o sentido da vida ~


Espiritismo e Cristianismo

Partimos do sentido religioso do Espiritismo, do seu aspecto de consolação e orientação para a vida terrena. Analisamos a sua posição em face de problemas fundamentais da religião, como a existência de Deus, que o Espiritismo coloca em termos racionais e quase objectivos, e entramos no terreno da interpretação filosófica e da comprovação científica dos fenómenos que provam a sobrevivência da alma. Discutimos com os teólogos, os filósofos e os cientistas, mostramos a incoerência da posição actual da ciência em face dos seus próprios princípios e o caminho único que lhe cabe tomar, para a verdadeira solução do problema espírita. Analisamos ainda a posição filosófica da Doutrina dos Espíritos, a conclusão a que os seus postulados nos levam no terreno complexo da sociologia política e alvitramos uma solução para o trabalho social e político dos espíritas, no mundo de desvalorizações em que estamos a viver. Resta-nos agora, antes das conclusões práticas e de tentarmos uma súmula do Espiritismo em rápidos traços, focalizar alguns pontos de exegese teológica, pontos esses que têm servido de arma para o desvio, do caminho espírita, de muitas almas sensíveis e impressionáveis, facilmente confundidas pelos sofismas clericais do catolicismo e do protestantismo.

Não esmiuçaremos o problema histórico das acusações de satanismo, formuladas pelos clérigos de várias igrejas cristãs, porque como vimos, esse problema se resolve à luz dos textos sagrados, ao mesmo tempo em que, hoje em dia, está perdendo sentido nos próprios meios clericais. Mas há outras acusações que devem ser estudadas. Entre elas, sobressai, a nosso ver, a que nega ao Espiritismo a natureza de terceira e última revelação cristã, elo final do conjunto bíblico, obra do Espírito de Verdade, do Paracleto, do consolador prometido por Cristo.

Desde as suas primeiras manifestações, os espíritos incumbidos de transmitir a Allan Kardec os princípios fundamentais da nova doutrina fizeram sentir a estreita relação existente entre a mesma e o Cristianismo. O Espírito de Verdade foi o seu guia, e já em O Livro dos Espíritos, pedra fundamental da doutrina, vemos como se entranham Espiritismo e o Cristianismo, de tal maneira, que separá-los seria produzir uma dupla mutilação.

Há alguns espíritas que dizem o contrário, e sabemos que mesmo entre nós, no Brasil, houve, desde os primórdios da preparação do Espiritismo, elementos que se diziam “Espíritas puros”, ou seja, simplesmente espíritas, firmados nos princípios de O Livro dos Espíritos, sem nenhuma ligação com o Cristianismo. Se, entretanto, nos dermos ao trabalho de ler aquele livro, veremos que essa atitude não passa de um dos muitos equívocos a que tão facilmente se entregam os intelectuais, mormente em face de doutrinas novas. O espírita não cristão pode basear-se em tudo, menos no O Livro dos Espíritos, que é um texto cristão, prosseguindo naturalmente de O Novo Testamento, como este o é do Verbo.

Nos Estados Unidos e em alguns países da América Central firmou-se há tempos um movimento de características regionalistas, que pretendia apresentar o Espiritismo como doutrina americana, surgida e propagada na América. Rejeitava-se assim a codificação kardeciana, para tomar como base alguns estudos esparsos elaborados na América. O Espiritismo teria nascido, não em Paris, com o lançamento, a 18 de Abril de 1857, de O Livro dos Espíritos, mas em Hydesville, nos Estados Unidos, a 31 de Março de 1948, com o aparecimento dos fenómenos históricos da casa da família Fox. Chegou mesmo a fixar-se, no local onde existiu a cabana das famosas irmãs Fox, um obelisco com os dizeres Aqui nasceu o Neo-Espiritualismo.

A verdade dos factos mostra-nos, porém, o contrário. Fenómenos espíritas ocorreram em todos os tempos, e os verificados com as irmãs Fox não foram nem os primeiros nem os últimos. Nem mesmo na época, tiveram eles qualquer primazia. Basta lembrar os trabalhos magníficos de Jonathan Koons e a sua câmara-espírita, lá mesmo, nos Estados Unidos, e o estupendo florescimento de mediunidades na Europa, com a multiplicação de médiuns e fenómenos por todo o velho continente, para compreendermos que os factos da família Fox atingiram a proeminência em virtude de circunstâncias particulares, que os destacaram face à opinião pública americana e os projectaram mais tarde na mundial. Constituíram, sem dúvida, um dos meios utilizados pelo Espírito de Verdade, para a mais rápida propagação dos princípios espíritas e o início da nova era na Terra. Mas somente em França, com Allan Kardec, e através de O Livro dos Espíritos, o Espiritismo tomou corpo, se firmou como doutrina filosófica, de bases científicas e de consequências religiosas, de natureza essencialmente cristã.

Afirmam os livros da codificação kardeciana, afirmaram-no os espíritos que presidiram ao trabalho de Kardec, que o Espiritismo é obra do Espírito de Verdade, incumbido de preparar na Terra o advento do Reino de Deus, ou seja, de um mundo melhor e mais puro, de justiça e verdade prevalecendo sobre a injustiça e a mentira hoje dominantes. Os teólogos das várias igrejas cristãs não aceitam essa afirmativa, negando ao Espiritismo a natureza de prosseguimento do trabalho de Cristo entre os homens. Para isso alegam várias razões, entre as quais a mais forte é a de que o consolador, também chamado Espírito Santo e incluído na Santíssima Trindade como terceira pessoa, já teria vindo, depois do sacrifício de Jesus, no Dia de Pentecostes, em Jerusalém.

Para bem esclarecermos este assunto, devemos analisar a própria natureza do consolador anunciado por Jesus, segundo os textos evangélicos. Diz o capítulo 14 do Evangelho segundo João:

“Se me amais, guardai os meus mandamentos, e eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Consolador, para que fique eternamente convosco, o Espírito de Verdade, a quem o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece. Mas vós o conhecereis, porque ele ficará convosco e estará em vós. Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós.”

Logo mais, no versículo 26 do mesmo capítulo:

“Mas o consolador, que é o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo o que eu vos tenho dito.”

No capítulo 16 encontramos estes versículos:

“Mas eu vos digo a verdade; a vós, convém-vos que eu vá, porque, se eu não for, não virá a vós o Consolador, mas, se eu for, enviar-vo-lo-ei. E ele, quando vier, arguirá o mundo do pecado, e da justiça e do juízo. Sim, do pecado, porque não crêem em mim. E da justiça, porque eu vou para o Pai, e não me vereis mais. Do juízo, enfim, porque o príncipe deste mundo já está julgado. Eu tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas vós não as podeis suportar agora. Quando vier, porém, aquele Espírito de Verdade, ele vos ensinará todas as verdades, porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e anunciar-vos-á as coisas que estão para vir. Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu, e vo-lo-á anunciar. Todas quantas coisas tem o Pai, são minhas. Por isso é que eu vos disse que ele há de receber do que é meu, e vo-lo anunciará.”

Estas são as palavras de João registando a promessa do Consolador, na tradução de Padre Figueiredo.

Como vemos, o Espírito de Verdade é um enviado de Deus, a pedido de Cristo, para dar prosseguimento à obra deste na Terra. A sua natureza é espiritual e a sua função pode ser assim dividida:

 a) permanecer com os homens, estando mesmo nos homens, integrado na própria existência humana;
 b) ensinar aos homens todas as coisas, relembrando-lhes os ensinamentos de Cristo;
 c) arguir o mundo do pecado, da justiça e do juízo;
 d) receber a revelação das verdades divinas e proporcioná-las ao homem.

Ouçamos agora o próprio Kardec, em A Génese, sobre a vinda do Consolador no Dia de Pentecostes:

“O Espírito Santo não realizou, no Pentecostes, o que Jesus anunciara a respeito do Consolador, o Espírito de Verdade. Do contrário, os apóstolos teriam elucidado, em sua vida, tudo quanto ficou obscuro no Evangelho até hoje, e cuja interpretação contraditória deu lugar às numerosas seitas que dividiram o Cristianismo desde os primeiros séculos, em lutas sem tréguas, por questões de exegese, de interpretação, lutas que chegaram a produzir grandes morticínios. Se na época em que Jesus falava os homens não se encontravam em estado de compreender as coisas que ficaram por dizer, não seria em algumas semanas que eles poderiam adquirir as luzes necessárias. Para a compreensão de certas partes do Evangelho, com excepção dos preceitos de moral, eram precisos conhecimentos que só o progresso das ciências nos daria, e que só poderiam ser obra do tempo e de muitas gerações. Se, pois, o novo Messias viesse pouco tempo depois de Cristoteria encontrado o terreno nas mesmas condições, e não faria mais do que Ele fez. Ora, desde Cristo até aos nossos dias, não se produziu nenhuma grande revelação, que completasse o sentido do Evangelho e elucidasse os pontos obscuros, como indício certo de que o enviado ainda não apareceu.”

Mais adiante, no mesmo primeiro capítulo de A Génese, completa Kardec o seu pensamento, com as seguintes palavras:

O Espiritismo, longe de negar ou destruir o Evangelho, vem, pelo contrário, confirmar, explicar e desenvolver, pelas novas leis da natureza, que revela, tudo quanto Cristo disse e realizou. Elucida os pontos obscuros do ensino cristão, de tal sorte, que aqueles para quem eram ininteligíveis certas partes do Evangelho, ou pareciam inadmissíveis, elas se tornam compreensíveis, e eles as admitem, sem dificuldade, graças ao auxílio desta doutrina. Vêem melhor ao seu alcance e podem distinguir entre a realidade e a alegoria. Cristo lhes parece maior: Ele já não é simplesmente um filósofo, mas um Messias divino.”

A seguir, encontramos:

“Se se considerar, por outro lado, o poder moralizador do Espiritismo, pela finalidade que assinala a todas as acções da vida, pelas consequências do bem e do mal que ele torna palpáveis, a força moral, a coragem, as consolações que ele dá nas aflições, por uma inalterável confiança no porvir, pelo pensamento de ter cada um junto de si os seres a quem amou, a certeza de os rever, a possibilidade de confabular com eles, a certeza, enfim, de que tudo quanto se fez, tudo quanto se adquiriu em inteligência, em sabedoria, em moralidade, até à última hora da vida, não fica perdido; pois tudo aproveita o adiantamento do espírito, reconhece-se que o Espiritismo realiza todas as promessas de Cristo a respeito do Consolador anunciado. Ora, como é o Espírito de Verdade que preside ao grande movimento da regeneração, a promessa da sua vinda se encontra assim cumprida, porque, de facto, é ele o verdadeiro Consolador.

Vemos, diante de todos esses argumentos, que a alegação de que o Consolador teria vindo no Dia do Pentecostes não tem razão de ser, não encontra base nenhuma no próprio texto evangélico. É, pelo contrário, uma verdadeira negação do Consolador. Nenhuma das tarefas assinaladas por Cristo ao Espírito de Verdade são cumpridas no Pentecostes. O que se verificou naquele dia foi apenas o auxílio do Alto aos apóstolos espavoridos, a fim de alentar-lhes a fé e predispô-los à grande luta da pregação da Boa-Nova. A vinda do Espírito de Verdade, para ficar com os homens, se daria mais tarde, quando os tempos decorridos houvessem permitido o amadurecimento necessário do pensamento humano, sem o qual nenhuma revelação de verdades novas, o ensinamento de todas as coisas, não seria possível. E por que relembrar os ensinamentos de Cristo, naquela hora, em que eles ainda ecoavam no espírito dos apóstolos? Só mais tarde, depois das deturpações teológicas, que fatalmente ocorreriam, como ocorreram, seria possível o restabelecimento anunciado por Cristo, e que hoje de facto se verifica, através do Espiritismo.

Ouçamos ainda as palavras de Kardec, desta vez no capítulo sexto de O Evangelho segundo o Espiritismo:

“O Espiritismo vem no tempo determinado, cumprir a promessa do Cristo. O Espírito de Verdade preside ao seu advento, chama os homens à observância da lei e ensina todas as coisas, fazendo compreender aquilo que Jesus só disse em parábolas. Vemos assim respondidos os itens que estabelecemos acima, tratando das funções do Consolador. Resta-nos dizer que, graças aos princípios do Espiritismo, o Espírito de Verdade pode, realmente, não apenas permanecer entre os homens, mas integrar-se na carne, no pensamento, no espírito, na vida dos homens, como norma de conduta para todos os que o recebem e compreendem, como directriz permanente dos seus pensamentos e acções.”

Quanto ao item “c” da divisão que estabelecemos, e em que incluímos as palavras do Evangelho “arguir o mundo do pecado, da justiça e do juízo”ele envolve, segundo pensamos, a acção social do Espiritismo, como reformador do mundo, como iniciador da sociologia, segundo disse Emmanuel. Essa tarefa será cumprida pelo Espiritismo, também a seu tempo, como vimos no capítulo anterior. Mesmo porque, como diz o Eclesiastes, Deus fez tempo para tudo, e cada coisa há de chegar a seu tempo, nem antes, nem depois.

Verificado assim que o Espiritismo é de facto o Consolador prometido por Cristo, não nos devemos perturbar com a oposição dos clérigos, sejam eles católicos ou protestantes. A história nos revela que a igreja constituída, baseada em cânones definitivos, estratificada nos seus princípios, ossificada nos seus dogmas de fé e materializada no interesse profissional dos seus sacerdotes, não é a primeira vez que se recusa a aceitar o cumprimento das profecias em que assentou os seus próprios alicerces. É o texto sagrado mesmo, são as passagens evangélicas, que nos falam da maneira pela qual a igreja judaica, cega no seu orgulho, não aceitou na vinda do Cristo o cumprimento da anunciação do Messias.

O mesmo que a igreja da época fez com relação a Cristo a igreja de hoje faz, no tocante ao Espiritismo. Aliás, as semelhanças históricas são muito profundas. Os judeus se consideravam sentados na cadeira de Moisés, e do alto dessa cátedra anatematizaram o Messias. Os cristãos de hoje se julgam sentados na cadeira de Pedro, de cima da qual dardejam os raios da sua maldição sobre o Consolador prometido. Mas da mesma maneira pela qual Cristo respondeu aos seus acusadores, através das suas obras, o Espiritismo responde aos seus detractores, mostrando-lhes os frutos da sua propagação na Terra, frutos de cura e de consolação para todos os deserdados e infelizes, ricos ou pobres, onde quer que se encontrem e a ele se dirijam.

Seria fastidioso enumerarmos outras várias objecções teológicas levantadas contra o Espiritismo. A teologia é terreno fértil em afirmações e contestações de toda a espécie. Nunca, talvez, a imaginação humana tenha encontrado campo mais vasto, em que melhor se pudesse sentir, para o livre exercício de seu poder de auto-contradição. Um rápido olhar para a história escolástica da Idade Média nos dará a medida dos exageros e dos absurdos a que o pensamento teológico conseguiu chegar, muitos dos quais ainda continuam sustentados, em pleno século vinte.

Contra a lei da reencarnação, afirmam os teólogos que o Evangelho não a menciona, muito embora a natureza explícita das referências de Jesus ao renascimento de Elias na pessoa de João Baptista, o precursor. Quando citamos o diálogo de Jesus e Nicodemos, uma das mais belas passagens evangélicas referentes à reencarnação, os teólogos procuram escapar pela tangente do renascimento do espírito, esquecidos de que o texto fala em renascer da água e do espírito, e de que o elemento água representava, para os antigos, a própria matéria. Quando negamos a existência de penas eternas, por contrariarem o princípio da mais elementar justiça humana, quanto mais a de Deus, alguns nos respondem, franzindo o cenho, como se nos olhassem do próprio íntimo das verdades supremas, que não somos capazes de medir a justiça de Deus, que não podemos avaliar o seu significado e que ela será para sempre um terreno misterioso, vedado à razão e à lógica frágil dos homens. Se evocamos o verdadeiro sentido da palavra grega eon, traduzida por eterno, ou se lembramos o uso das metáforas em larga escala, o costume da linguagem figurada, em todo o Oriente, mormente no passado, eles se fecham em copas, respondendo somente que a eternidade das penas é o princípio indiscutível da igreja. Evidentemente não se pode nem se deve discutir com homens que assim pensam, negando o mais poderoso atributo da própria natureza pensante da espécie humana.

Um ponto, entretanto, que tem sido motivo de grande celeuma, principalmente nos meios protestantes, é o da proibição da evocação de espíritos por Moisés. O próprio Kardec já tratou do assunto, a seu tempo, fazendo notar a incoerência daqueles que desejam impor um versículo isolado do texto como lei de alcance geral. No seu livro De cá e de lá, o confrade Romeu do Amaral Camargo, que foi presbítero evangélico, tece considerações interessantes a respeito, fazendo ver que os livros citados para essa condenação do Espiritismo, o Levítico e o Deuteronómio, contêm numerosas outras condenações e prescreve numerosos castigos já há muito relegados ao esquecimento, por judeus e cristãos. Lá, entretanto, no meio de toda uma montanha de velharias abandonadas – as leis civis da época, estabelecidas por Moisés –, vão os inimigos do Espiritismo buscar um versículo que condena a evocação dos mortos, para então afirmarem, radiantes, que a nossa doutrina é contrária ao texto bíblico.

Lembra o confrade Amaral Camargo que, contra a ordem de Moisés, segundo vemos em I Reis, capítulo 28, o rei Saul foi consultar o espírito de Samuel, através da pitonisa de Endor. Para os protestantes, apegados ao texto, lembraremos ainda que a Bíblia não endossa a teoria da manifestação de Satanás em lugar dos espíritos. Pelo contrário, o texto diz claramente que quem se manifestou foi o espírito de Samuel. A Bíblia confirma, pois, de maneira mais plena, a realidade das comunicações espíritas.

Kardec diz, a propósito, no livro O Céu e o Inferno, capítulo XI:

“A proibição de Moisés era assaz justa, porque a evocação dos mortos não se originava nos sentimentos de respeito, afeição ou piedade para com eles, sendo antes um recurso para adivinhações, tal como os augúrios e presságios explorados pelo charlatanismo e pela superstição. Essas práticas, ao que parece, também eram objecto de negócio, e Moisés, por mais que fizesse, não conseguiu desentranhá-las dos costumes populares.”

E acrescenta:

“Se Moisés proibiu evocar os mortos, é que estes podiam vir, pois, do contrário, inútil fora a proibição. Ora, se os mortos podiam vir naquele tempo, também o podem hoje, e se são espíritos de mortos os que vêm, não são exclusivamente demónios. Ao demais, Moisés, de modo algum, fala nesses últimos.”

As proibições de Moisés se referem à evocação de espíritos para finalidades condenáveis. Consultem-se os textos bíblicos, com olhos de ver, com isenção de ânimo, e compreender-se-á facilmente que nenhuma ligação há entre eles e o Espiritismo. Além disso, o episódio relatado no capítulo 11, versículos 26 a 29, do livro de Números, contradiz flagrantemente a afirmativa de condenação da mediunidade e da comunicação dos espíritos. Vemos ali dois médiuns, que não entretinham comércio com os espíritos, para fins adivinhatórios ou de lucros, Eldad e Medad, subitamente tomados pelo espírito, no campo. Um jovem, que presenciava a cena, corre apressado e comunica o facto a Josué, ministro de Moisés, que pede a este a proibição da comunicação. Moisés, entretanto, responde:

“Que zelos são esses que mostras por mim? Quem me dera que todo o povo profetizasse e que o Senhor lhe desse o seu espírito.”

O confrade Amaral Camargo conclui que Moisés suspirava pelo mediunismo generalizado. Ele queria o cumprimento da profecia de Daniel, no tocante ao derramamento do espírito do Senhor sobre toda a carne, ao advento, enfim, do Espírito de Verdade. E Kardec já declarava, no livro O Céu e o Inferno, há tantas dezenas de anos:

“Se os que clamam injustamente contra os espíritas se aprofundassem mais no sentido das palavras bíblicas, reconheceriam que nada existe de análogo entre os princípios do Espiritismo e o que se passava entre os hebreus. A verdade é que o Espiritismo condena tudo aquilo que motivou a condenação de Moisés. Mas os seus adversários, no afã de encontrar argumentos para rebater as novas ideias, nem se apercebem de que tais argumentos são negativos, por serem absolutamente falsos.”

/…


José Herculano Pires, O Sentido da Vida / Espiritismo e Cristianismo, 13º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Platão e Aristóteles, pormenor d'A escola de Atenas de Rafael Sanzio, 1509)

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

O Homem e a Sociedade

A Investigação Ontológica na Parapsicologia

(1) É Acessível o Ontológico ao Parapsicológico?

Se a parapsicologia se nos apresenta como uma nova problemática do Ser, não há dúvida de que a sua missão científica, se assim podemos dizer, se defrontará com zonas do conhecimento que se encontram em plena crise.

A actualidade, propícia à investigação ontológica, oferece à parapsicologia excelente ocasião para assinalar as formas reais do conhecer, muitas das quais ainda não são percebidas pela sensibilidade normal do indivíduo. A simples possibilidade de um acesso ontológico à parapsicologia implica a urgência de um que-fazer filosófico apoiado numa sensibilidade incomumSe é possível um conhecer extrassensorial, mesmo no seu aspecto mais limitado, o ontológico poderá ser alcançado (e essa é a nova esperança) por vias de facto que eliminem todo o obstáculo ao psicológico incomum.

A relação entre objecto e sujeito, parapsicologicamente considerada, implica a possibilidade de uma criptestesia, que permitirá a captação de valores gnosiológicos provenientes de zonas profundas do homem e do Universo. Se pudéssemos penetrar ontologicamente as camadas do parapsicológico, o ser humano, com pleno direito, poderia aspirar a um futuro que signifique o de uma verdadeira realidade metafísica.

Os actos psíquicos e os momentos extrassensoriais da parapsicologia são, por si mesmos, valores espirituais, nos quais se oculta a face de um poderoso númerocapaz de vencer a relatividade do mundo circundante, através de um novo Eu do indivíduo. Como de outras vezes, o campo do saber está a ser solicitado a ampliar-se, mas, desta vez, apoiado no númeno (*) parapsicológico. É evidente que a busca metapsíquica se aproxima, podemos dizer, de um verdadeiro desejo de encontrar para o indivíduo uma significação espiritual transcendente. Desta vez, se o factor ontológico for secundado pelo factor parapsicológico, o conhecimento está perante a possibilidade de se beneficiar grandemente. Seria deplorável se a parapsicologia se desviasse do seu campo extrassensorial, por falta de inquietude filosófica; mas a filosofia deveria amparar a parapsicologia, para que o seu real objectivo não se convertesse num intranscendente parapsicologismo.


(2) O Espiritual Como Objecto da Parapsicologia

O parapsicológico experimental já percorreu uma trajectória suficiente para advertir, à crítica filosófica, que o extrassensorial não é somente de origem natural e fisiológica, ou ainda biológica, mas que nele se apresenta, superando o fenómeno, um novo ser espiritual, a indicar-nos que o espírito, no imanente como no transcendente é, o objecto obrigatório da parapsicologia. Se um exagerado naturalismo absorvesse a sua essência psíquica, o númeno parapsicológico ficaria postergado por muito tempo.

A excessiva naturalidade, que se pretende ver nos factos psíquicos, faz o filósofo vacilar em decidir-se a interpretá-los. Por isso já se disse e, com razão, que a demasiada naturalidade de um ramo da ciência diminui as suas perspectivas metafísicas. Um naturalismo superlativo poderia desvirtuar essa intencionalidade tão promissora, que se revela na parapsicologia. Se a técnica metapsíquica se mecanizar demasiado, teremos apenas uma máquina fenoménica. Entretanto, o que agora se denomina crise do homem exige penetração da investigação ontológica nas camadas inabituais da parapsicologia. A interpretação espiritual dos seus fenómenos poderia significar uma nova colocação do sentido metafísico do Ser e, ao mesmo tempo a fundamentação de um esquema religioso digno do grau evolutivo atingido pela cultura dos tempos actuais. (**)

Se é certo que a parapsicologia não poderá deter-se numa dada interpretação do homem e da existência, isso não impede que a investigação ontológica, baseada no realismo extrassensorial, a que Eugéne Osty chamou deconhecimento supranormal, busque um tipo espiritual do Ser, baseando-se no número parapsicológico.

A antiga psicologia baseava-se num trabalho estéril, acabando por se perder num campo de imaterialidade psicofísica irreal. Para o psicólogo comum, toda a extrassensorialidade humana é uma ilusão. Continuando apoiado nos obsoletos sistemas psicofisiológicos, apavora-se com a possibilidade de um indivíduo metapsíquico. Daí o acesso do espiritual ao parapsicológico não só representar um triunfo da nova psicologia, mas também um novo sentido para o Ser, na futura investigação ontológica.

/…
(*) Númeno é a essência do fenómeno, a coisa-em-si, enquanto o fenómeno é a manifestação do númeno. (Nota de José Herculano Pires).
(**) “A religião  diz o professor – J. B. Rhine – é, sem dúvida, a área de interesse mais imediato para a parapsicologia. Definida como a investigação das funções não-físicas da natureza e dos princípios que a governam, a parapsicologia teria que reivindicar muitos dos problemas fundamentais da religião, assim como a patologia está necessariamente interessada nos problemas da medicina.” (Revista de Parapsicologia, n° 2 – Buenos Aires, 19,55).



Humberto Mariotti (i)O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização, Do Materialismo Histórico a uma Dialéctica do Espírito, 1ª PARTE, O NÚMENO ESPIRITUAL NOS FENÓMENOS SOCIAIS, Capítulo I, A INVESTIGAÇÃO ONTOLÓGICA NA PARAPSICOLOGIA, 1º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Alrededores de la ciudad paranóico-crítica: tarde al borde de la historia europea (detalhe) | 1936, Salvador Dali).

sábado, 27 de julho de 2019

Deus na Natureza ~

A Vida ~ Circulação da Matéria ~
(V)

   “As ciências – diz o autor de Força e Matéria – perseguiram e demonstraram a acção dessas forças no organismo das plantas e dos animais e, às vezes, até nas combinações mais subtis. No presente, é geralmente constatado que a Fisiologia, ou seja a ciência da vida, já não pode prescindir da Física e da Química e que nenhum processo fisiológico se opera à revelia das forças físico-químicas.”

  “A Química – diz a seu turno Miahle – tem, incontestavelmente, parte na criação, no crescimento, na existência de todos os seres vivos, seja como causa ou como efeito. As funções da respiração, da digestão, da assimilação e da secreção não se realizam senão por meio da Química. Só ela nos pode desvendar os segredos das importantíssimas funções orgânicas.”

  O hidrogénio, o oxigénio, o carbono, o azoto, declaram-no enfaticamente os materialistas, entram nas mais diversas condições na combinação dos corpos e se agregam, se separam, actuam obedientes às mesmas leis que os regem fora desses corpos. Os próprios corpos compostos podem apresentar os mesmos caracteres. A água, a mais volumosa substância de todos os seres orgânicos, sem a qual não haveria vida animal nem vegetal, penetra, amolece, dissolve, adere, cai, segundo as leis da gravidade e, evapora-se, precipita-se, forma-se dentro, como fora dos organismos. As substâncias inorgânicas, os sais calcários que a água contém no estado de composição, ela os deposita nos ossos dos animais ou nos vasos das plantas, onde essas substâncias afectam a mesma solidez que no domínio inorgânico. O oxigénio da atmosfera, que, nos pulmões, entra em contacto com o sangue venoso, de cor negra, comunica-lhe a cor vermelha, que o sangue adquire quando agitado num vaso em contacto com o ar. O carbono existente no sangue sofre, com esse contacto, os mesmos efeitos da combustão operada em toda a parte, transformando-se em ácido carbónico. Pode razoavelmente comparar-se o estômago a uma retorta na qual as substâncias, postas em contacto, se decompõem, se combinam, etc., segundo as leis gerais de afinidade química. Um tóxico, entrado no estômago, pode ser neutralizado pelos mesmos processos exteriormente utilizados. A substância morbífica porventura lá fixada se neutraliza, se destrói, mediante remédios químicos, como se este processo se operasse num frasco qualquer, que não no interior de um organismo. A digestão é um acto de pura química. Longe poderíamos prosseguir no assunto. A observação – diz Miahle – nos ensina que todas as funções orgânicas se operam mediante processos químicos e que um ser vivo pode comparar-se a um laboratório de química, em que se processam os actos da vida no seu conjunto. Menos evidentes não são os processos mecânicos determinados pelos organismos vivos. A circulação do sangue realiza-se pelo mais perfeito mecanismo imaginável. O seu aparelho produtor assemelha-se, perfeitamente, aos engendrados pelas mãos humanas. O coração tem válvulas e êmbolos, tal como as máquinas a vapor, cujo funcionamento produz ruídos distintos. Entrando nos pulmões, o ar fricciona as paredes dos brônquios e engendra o sopro respiratório. Inspiração e expiração são resultantes de forças puramente físicas. O fluxo ascensional do sangue, das extremidades inferiores do corpo para o coração, contrário às leis de gravidade, não pode verificar-se senão por um aparelho puramente mecânico. É também por um processo mecânico que o tubo intestinal, graças a um movimento peristáltico, expele os excrementos de alto a baixo e, ainda, por processo mecânico se verificam os movimentos musculares de homens e animais.

  A estrutura do olho radica nas mesmas leis da câmara-escura e, as ondulações do som transmitem-se aos ouvidos como a qualquer outra cavidade. “A Fisiologia tem, pois, absoluta razão – concluem Büchner e Schaller – propondo-se provar, hoje, que já não existe a essencial diferença entre o mundo orgânico e o inorgânico.”

  Não há diferença entre o orgânico e o inorgânico! Mas, convenhamos em que não pode haver no mundo uma proposição mais falsa.

  As reacções operadas nos corpos vivos estão longe de se identificar com as que se operam com os mesmos líquidos numa retorta.

  As forças organizadoras, como as denomina Bichat, esquivam-se ao cálculo, actuam de modo irregular e variável. Ao contrário, as forças físico-químicas obedecem a leis regulares e constantes.

  O autor de um aparte recente, intitulado – A Ciência dos Ateus, evidencia muito bem esta verdade com os seguintes exemplos: “Injectai nas veias do animal os elementos constitutivos do sangue, com excepção do que lhe produz a síntese, que não se encontra à vossa disposição e, em vez de prolongares a vida do animal tê-lo-eis simplesmente matado. Também o sangue que fique algum tempo fora das veias, se for novamente injectado pelo orifício que o extravasou, pode ocasionar os mais sérios distúrbios. Introduzi no estômago do cadáver substâncias alimentares e vereis que ao contacto dos tecidos elas se putrefarão, elas que, no animal vivo, se transformariam em sangue para lhe manter a vida. Pergunta-se, então, aos químicos, como actuam no organismo o ópio, a quinina, a noz-vómica, o enxofre, o iodeto de potássio, etc. Qual a acção química da nicotina, do ácido prússico, de todos os venenos vegetais que não deixam vestígios? Como age o curare no tétano?

  “Porque a ipeca no estômago faz se contraiam desde logo os músculos inspiradores, etc.? “Acção de presença”, dizem os físicos e repetem os químicos, acreditando, os sisudos doutores, ter cabalmente respondido!”

  Atentatório da verdade é a pretensão de explicar pela Física e pela Química os fenómenos fisiológicos, afirmando a identidade das reacções intra e extra-orgânicas. A Física e a Química se conjugam, porque as mesmas leis presidem à sua fenomenologia; mas um imenso intervalo as separa da ciência biológica, porque existe enorme diferença entre as suas leis e as leis da vida.

  Dizer que a Fisiologia é a física animal é dar uma definição tão inexacta como se disséssemos que a Astronomia é a física dos astros. A esse conceito de Bichat o Dr. Cerise adita: “os fenómenos vitais são complexos e as forças físicas neles cooperando, incontestavelmente, mas em proporções difíceis de medir, os submetem ao império de uma força superior, que os rege em função das suas finalidades”.

  Da mesma opinião os anatomistas Piorry, Malgalgue, Poggiale, Bouillaud: “Acima de todas as ciências – diz este – como acima de todas as leis, a vida domina, modifica, neutraliza, diminui ou aumenta a intensidade das forças físico-químicas”.

  O nosso Dumas, químico eminente, diz algures: “Longe de amesquinhar a importância dos factos, aos quais obedece a matéria morta, a noção da vida se eleva e ressalta do conhecimento íntimo dessas leis; e a convicção da sua essência misteriosa e divina se engrandece à custa de sérios estudos da Química orgânica.”

  As operações químicas, susceptíveis de se realizarem no nosso organismo, não se devem confundir com as inerentes à fisiologia do nosso ser, eis o que é preciso assentar desde logo. Sob o primeiro ponto de vista, a identidade das forças que concorrem para formar substâncias orgânicas e inorgânicas é um facto indubitável, averiguado. Conformando-se às leis naturais, o químico compõe uma série de combinações também encontradas em corpos orgânicos e, mais fecundo que a própria Natureza, pode, a seu arbítrio, operar outras combinações inexistentes nos organismos terrestres, assim transportando, talvez, a sua ciência ao domínio de outros mundos.

  Sabe ele que a fermentação é um processo geral de intervenção que determina, não apenas os fenómenos da morte e da decomposição, mas também os do nascimento e de todas as funções vitais, a partir do grão de trigo que germina e do vinho que ferve, até à levedura do pão e da cerveja, e aos fenómenos de nutrição e digestão. A Química orgânica tem as mesmas bases da Química mineral. Ninguém melhor que o Sr. Berthelot expõe essas conquistas da ciência dos corpos, assim como ninguém lhes traça os limites perante o problema do nosso ser. Ouçamo-lo portanto:

   “Tudo havia concorrido (*) para que a maioria dos espíritos encarasse como intransponível a barreira entre as duas químicas. Para explicar a nossa impotência, inferiam uma razão especiosa da intervenção da força vital, apta, até então, a só compor substâncias orgânicas. Era, diziam, uma força misteriosa, a determinar exclusivamente os fenómenos químicos observados nos seres, agindo em virtude de leis essencialmente distintas das que regulam os movimentos da matéria puramente móvel e a quiescente. Tal a explicação com que se pretendia justificar a imperfeição da Química orgânica, declarando-a, por assim dizer, irremediável. Assim proclamando a nossa absoluta impotência para produzir matérias orgânicas, duas coisas se confundiam: a formação de substâncias químicas, cujo agregado constitui os seres organizados e, a formação dos próprios órgãos. Este último problema não pertence aos domínios da Química. Jamais o químico pretenderá fabricar no seu laboratório uma folha, um fruto, um músculo, um órgão. São estas questões que afectam a Fisiologia e a esta é que compete discutir-lhes as premissas, desvendar as leis que regem os seres vivos na íntegra, pois que à revelia dessa integridade nenhum órgão teria razão de existir e nem o meio necessário à sua formação.

 “Entretanto, o que à Química não é dado fazer no plano orgânico, pode empreender no fabrico de substâncias contidas nos seres vivos.

  “Se a própria estrutura de vegetais e animais lhe escapa às aplicações, não lhe anula a pretensão de conseguir os princípios imediatos, isto é, os materiais químicos que constituem os órgãos, independentemente da estrutura especial das fibras e células que esses materiais afectam, nos animais e nos vegetais. Esta mesma formação e a explicação das metamorfoses ponderáveis, que a matéria experimenta nos seres vivos, constituem campo assaz vasto e belo para que a síntese química o reivindique inteiramente.”

  Esta declaração, na qual os adversários pretendem ver a vitória definitiva do materialismo, sugere-nos acreditar em dois pontos fundamentais:

  1º - que a formação das substâncias orgânicas pode ser devida às mesmas leis que regulam o mundo inorgânico e

  2º - que a própria formação dos órgãos deriva de uma força estranha aos domínios da Química.

  Quanto ao primeiro ponto, triunfa o espiritualismo, qual o vimos, uma vez que as forças que regem o mundo inanimado revelam a existência de um arquitecto inteligente. E quanto ao segundo, o triunfo é ainda mais brilhante, já que a Química orgânica capitula diante do ser vital. Tal como judiciosamente adverte o Sr. Langel, essa química estuda e compõe, somente, os materiais da vida, sem se preocupar com o ser vivo em si mesmo. Esboça, por assim dizer, as tintas do quadro, tornando-se necessário que uma outra mão aplique essas tintas, e crie a obra em que elas se fundem em perfeita unidade.

  Quando a Química deixou adivinhar no ser humano um alambique no qual o ácido procura a base, as moléculas se agrupam de acordo com as leis de que falámos na primeira parte; quando fizeram ver que o animal vivo não passa de um vaso de reacções e que as forças físicas e químicas nele se entregam a perpétuo combate em campo fechado; quando mostraram que os fenómenos da fecundação, da nutrição e da própria morte mais não são que fermentações ordinárias, já se não sabe mais onde residem essas forças misteriosas que denominamos vidainstinto e consciência, quando se trata de criaturas humanas. Não tardaremos a entrar no âmago desta grave questão. Por enquanto, confessamos com o Sr. Langel (**) que “a Ciência pode arrastar-nos à dúvida, a negações espantosas, tendo ela mesma os seus mistérios insondáveis às vistas humanas. Também ela se contenta com palavras, sempre que não pode penetrar mesmo a essência dos fenómenos. Não nos fala a Química, constantemente, de afinidade? E não temos aí uma força hipotética, uma entidade tão pouco tangível quanto a vida, ou quanto a alma?

  A Química recambia para a Fisiologia a ideia da alma e recusa-se a tratar do assunto, mas, perguntamos, a ideia em torno da qual se desdobra a Química tem algo de mais real? Essa ideia é, muitas vezes, inapreensível, não só na essência mas como nos efeitos. Pode-se, por exemplo, meditar um instante nas leis conhecidas como leis de Berthelot, sem compreender que se está face a um mistério impenetrável? No simples fenómeno de uma combinação, no arrastamento que precipita, dois átomos que se procuram e se reúnem, escapando aos compostos que os aprisionavam, não há o suficiente para nos confundir a inteligência? Quanto mais estudamos as ciências na sua metafísica, mais nos podemos convencer que esta nada tem de inconciliável com a mais idealista filosofia: as ciências analisam as relações, aferem medidas, descobrem as leis que regulam o mundo fenomenal; mas não há fenómeno algum, por insignificante que seja, que não as coloque face a duas ideias, sobre as quais o método experimental carece de eficiência, a saber:

  1º - a essência da substância modificada pelos fenómenos, e

  2º - a força que provoca essas modificações.

  Só conhecemos e vemos, por fora, as aparências; a verdadeira realidade, a realidade substancial, a causa, nos escapa. Digno é de uma alta filosofia considerar todas as forças particulares, cujas manifestações são analisadas pelas diversas ciências, como oriundas de uma força primária, eterna, necessária, fonte de todo o movimento e centro de toda a acção. Ao nos colocarmos neste ponto de vista, os fenómenos e os próprios seres não são mais que formas mutáveis de uma ideia divina”.

Pode a unidade a que tende a Química fazer-nos pressupor que o mundo animado e o inanimado sejam regidos por leis idênticas? Deveremos lisonjear-nos com a ideia de poder um dia, não apenas refazer artificialmente todas as matérias orgânicas, mas reproduzir “ad libitum” as condições em que hajam de aflorar a vida vegetal ou animal? Não, certamente. Tais pretensões seriam ilusórias. Não dispomos da vida. Fisiologia e Química são domínios que se extremam e se distinguem, como se não distinguiam há um século a Química orgânica e a mineral.

  Em parte alguma, a planta mais rudimentar, o animal mais ínfimo da escala zoológica, nasceram do concurso das afinidades químicas. Por maiores progressos que faça a Química orgânica, ela será sempre detida pela impossibilidade de originar a força vital, de que não dispõe.

  Não, senhores, nem que pese à vossa atitude afirmativa e audaciosa, vós não podeis criar a vida, nem sabeis, sequer, o que seja a vida e, sois constrangidos a confessar a vossa ignorância, ao mesmo tempo em que ofereceis as provas da vossa impotência.

  É que em vão replicais com fogos-de-artifício e suposições gratuitas:

 “Para sustentar uma força vital original – dizeis – invoca-se amiúde a nossa impossibilidade de criar plantas e animais; e não obstante, se pudéssemos assenhorear a luz, o calor, a pressão atmosférica, tanto quanto as relações de peso da matéria, não somente ficaríamos aptos a recompor corpos orgânicos, como capacitados a preencher as condições que engendram o nascimento desses corpos.”

  A seguir, acrescentais, sem perceber que as vossas próprias palavras reforçam a nossa causa:

  “Desde que os elementos ditos carbono, hidrogénio, oxigénio, azoto, se encontram organizados, as formas fixas daí resultantes têm o poder de conservar-se no seu estado e, tal como no-lo ensina a experiência até hoje adquirida, elas persistem através de centenas e milhares de anos. Por meio de sementes, de brotos e de ovos, essas formas reaparecem numa sucessão determinada.”

  Por outras palavras, duas proposições se evidenciam: a primeira é que não poderíamos engendrar a vida senão como legado potencial da Natureza e a segunda é que a vida se mantém, persistente e transmissível, graças a uma virtude que lhe é própria.

  Tal é, verdadeiramente, a questão e, de duas uma: ou o homem é, ou não é (nem será) capaz de originar a vida.

  Neste último caso, as pretensões materialistas estão irremissivelmente condenadas e, no primeiro, por si mesmas se condenam, da seguinte forma:

  Laborando na organização da vida, sois forçados a vos submeter às leis ordenadas e as aplicar passivamente, sem as contrariar de qualquer forma. Então, já não seríamos nós a originar a vida e sim as leis eternas, das quais nos arvoraríamos, por um instante, em simples mandatários.

  Já vos ouço bradar – sofisma! – e declarar que procuramos escapar pela tangente. Mas... perdão, senhores, notem em primeiro lugar que se alguém se esquiva num processo, esse alguém só pode ser o acusado e considerai, depois, que, assim razoando, não ficamos à superfície e penetramos o âmago da questão. Reflecti por um momento: bem sabeis que neste mundo nada criamos e apenas aplicamos leis predominantes.

  Criais, porventura, o oxigénio quando, pelo calor, decompondes o bióxido de manganês e as bolhas afloram no tubo de fuga? Não; apenas roubais ou – se preferis – pedis ao bióxido de manganês, o terço de oxigénio nele contido. Criareis o azoto retirando oxigénio do ar atmosférico? O próprio nome do processo está a indicar que ele consiste numa subtracção. Criais a água quando, reunindo no eudiómetro o hidrogénio ao oxigénio, lhe fazeis a síntese? Ou isso não passa de mera combinação? Com a decomposição do carbonato de cal, pelo ácido clorídrico, criareis o carbono? E os ácidos oxálico, acético, lático, tartárico, tânico, quando os extraís dos materiais vegetais ou animais, mediante agentes oxidantes, acaso os tendes criado? Não, mil vezes não. Se nos servimos, por vezes, do vocábulo – criar, é por abuso de linguagem. Ora, ainda mesmo que conseguísseis fazer um pedaço de carne, nem por isso o teríeis criado e sim, apenas, reunido os elementos que constituem a carne, segundo as leis inexoráveis, assinadas à organização da Natureza. E dado que os pósteros possam ver um dia surgir do fundo de suas retortas um ser vivo, ainda assim, de antemão lhes dizemos que muito se iludiriam se concluíssem pela inexistência das leis divinas, pois não haveria de ser à revelia delas que houvessem de consumar essa obra-prima da indústria humana.

  Enfim, dado que os precedentes raciocínios não serem suficientes para caracterizar a vossa erronia, consentimos, no fim desta exposição sobre a circulação da matéria, em admitir que a Natureza emprega, para construir seres vivos, os mesmos processos do homem, isto é: – trata simplesmente pela química as matérias inorgânicas. Ora, ainda nesta hipótese, não haveria como negardes a necessidade, para o construtor, de saber o que pretende fazer, ou de operar com um plano determinado. Pois uma natureza inteligente, ou o ministro de uma inteligência, substitui o químico. A obra do génio consiste, precisamente, em fazer derivar de um pequeno número de princípios, facilmente formuláveis, as mais engenhosas aplicações, os inventos mais extraordinários.

  Esse génio, do qual as mais portentosas inteligências humanas não representam senão partículas infinitesimais, reduziu à extrema simplicidade, à maior simplicidade possível, todas as operações da Natureza. A divina inteligência apresenta-se-nos como a consciência de uma lei única, abrangendo o todo universal e, cujas aplicações indefinidas engendram uma multidão de fenómenos que se aglutinam por analogia, regidos pelas mesmas leis secundárias, decorrentes da lei primordial. De certo, o químico ainda não substitui a vida, nem sabe formar o embrião em que o gérmen representa um papel tão maravilhoso. Nos seus actos, contudo, ele se esforça por substituir a Natureza. E como? – pela inteligência. Um elemento existe, absolutamente indispensável: a inteligência.

  Soberana, ela se impõe ao raciocínio de quantos estudam a Natureza. E torna-se visível nessas regras que podem ser previamente determinadas, calculadas, combinadas, uma vez que guardam entre si um encadeamento admirável e são imutáveis em condições idênticas, porque receberam a inflexibilidade da infinita sabedoria.

  Está, portanto, demonstrado, à saciedade, que a circulação da matéria não se efectua senão sob a direcção de uma força inteligente.

  Mas, seja qual for o rumo que trilhemos, no desvio em que nos propusermos acompanhar-vos, voltamos sempre, a despeito de tudo, à formação da Natureza, à causa causal de quanto existe e, aqui o campo se torna mais vasto ainda. Os processos humanos já não embaraçam as vistas. No extremo de todas as avenidas, chegamos ao ponto capital e trata-se, agora, de examinar mesmo a origem da vida na Terra. Estarão os seres vivos prisioneiros na superfície do globo? Teriam aí surgido em seis dias, ao toque da varinha de um mágico? Despertaram de súbito do seio das florestas, da margem dos rios, nos vales adormecidos?

  Que mão teria conduzido o primeiro homem do céu aos bosques do Éden? Que mão pudera abrir-se no ar e soltar a chusma canora de lindas plumagens? Seriam as forças físico-químicas, que, num espasmo fecundo, teriam dado nascimento aos habitantes de mares e continentes? Nós não encontramos seres que não tenham nascido de um casal, ou cujo nascimento não se ligue às leis estabelecidas para a reprodução. Como teriam surgido na Terra as espécies vegetais e animais? Eis a questão que actualmente nos interessa. Depois de observarmos a plateia e os comentários dos espectadores, levantemos o pano que oculta o verdadeiro cenário e apreciemos a peça. A Natureza é sempre o maquinista invisível. Tentemos surpreendê-la, na esperança de que não seja suficientemente hábil ao ponto de se subtrair à nossa perquirição.

/...

(*) Chimie Organique Fondée sur la Synthèse.
(**) Science et Philosophie.


Camille Flammarion, Deus na Natureza, Segunda Parte – A Vida 1, Circulação da Matéria (5 de 5), 21º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Jungle Tales_1895, pintura de James Jebusa Shannon)

domingo, 14 de julho de 2019

o grande desconhecido ~

~ função do egoísmo no desenvolvimento humano ~

Tudo tem a sua utilidade na Natureza. O Universo é teleológico (i), finalista, busca sempre em tudo uma finalidade. Os filósofos anti-finalistas apoiam as suas teorias no erro humano, de todos os tempos, que interpreta a Natureza como criada especialmente para o homem. Esse erro surgiu nas selvas, permaneceu nas civilizações primitivas e projectou-se nas civilizações posteriores. Os próprios deuses e demónios de toda a Antiguidade foram postos ao serviço do homem, que embora os reverenciando, pretendiam utilizá-los como seus auxiliares. O Universo tem, naturalmente, uma finalidade única e superior, em que todas as finalidades se conjugam num resultado único. Mas esse resultado escapa às nossas possibilidades de pesquisa, de compreensão e mesmo de imaginação. A mais inútil das coisas e os mais prejudiciais dos seres são necessários. E o ser necessário é o ser indispensável, é pertencer a um elo da cadeia inimaginável que Kardec (i) nos apresenta nesta frase tantas vezes repetida n’O Livro dos EspíritosTudo se encadeia no Universo.

Os problemas ecológicos da actualidade, surgidos com o desenvolvimento tecnológico, deram ênfase à importância da Ecologia, ciência das relações entre o sujeito e o meio e mesmo entre o objecto e o meio. O meio físico em que vivemos, com os seus elementos naturais configurando determinada situação mesológica (i) humana, é formado por uma infinidade de substituições necessárias à vida vegetal e animal. A ignorância do homem a este respeito, tentando aniquilar elementos nocivos ao meio, provoca o desencadeamento de desequilíbrios perigosos e até mesmo fatais. Minerais, vegetais e animais considerados perniciosos, quando retirados do meio, revelam a sua função necessária e têm de ser repostos ou substituídos por outros que os compensem. Esse delicado equilíbrio das mínimas coisas apresenta-se também nas coisas máximas, como no jogo de forças que sustentam o equilíbrio planetário e o próprio equilíbrio das galáxias no espaço sideral. O mesmo acontece na nossa estrutura corporal, com os seus vários aspectos físicos, psíquicos e espirituais. Por isso o Espiritismo (i) é contrário a todas as práticas de mortificação, extinção, asfixia ou desenvolvimento de funções, instintos, percepções e poderes inferiores ou superiores na criatura humana. Estas devem ser respeitadas na sua integridade, com os seus defeitos, deformações, deficiências e assim por diante, cabendo-nos apenas o direito, que é também um dever, de auxiliar as criaturas no seu processo natural de aperfeiçoamento e reajustamento, nos rumos naturais da transcendência. Nem mesmo a mediunidade (i) deve ser desenvolvida por supostas técnicas provindas de tradições místicas ou da invenção de pretensos mestres espirituais. O Espiritismo opõe-se a todas essas tentativas imaginosas, que podem levar, como tem levado, muitas pessoas a desequilíbrios graves.

O egoísmo, a vaidade, o orgulho, a pretensão, a ambição representam elementos negativos da constituição do ser humano, que devem ser eliminados. Mas essa eliminação não se dá pelos métodos antigos das corporações religiosas, até hoje empregados, apesar dos terríveis malefícios causados. Kardec e os Espíritos Superiores, nas suas comunicações, consideraram o egoísmo como a verdadeira praga que impediu o desenvolvimento real do Cristianismo na Terra. Mas jamais aconselharam métodos artificiais para os combater. As penitências, os cilícios, o isolamento, as auto-flagelações de toda a espécie tornaram mais negra a Idade Média e ainda hoje se escondem nas furnas da ignorância religiosa que só serviram para desequilibrar milhões de criaturas que constituem o triste e pesado legado da Antiguidade para o nosso tempo. São Tomás de Aquino (i) advertiu: “Mães, os vossos filhos são cavalos” e, a educação das crianças transformou-se em domesticação, processo esmagador da sensibilidade infantil e das esperanças da adolescência. Gerações recalcadas saíram das estrebarias escolares em que os mestres domavam crianças e jovens à pancada e com castigos brutais, para moldá-los segundo os modelos estabelecidos para a formação de multidões padronizadas. Todos nós carregamos ainda hoje as marcas profundas e dolorosas, deformantes, do relacionamento humano na Terra. Com a caridade os homens vão aprendendo a sair do egoísmo para o altruísmo, a não pensar apenas nos seus problemas particulares, a não dividir o seu tempo e bem-estar apenas com os familiares, mas levar um pouco de si mesmos e dos seus recursos para a família maior que sofre lá fora. É essa a finalidade do princípio cristão da caridade no Espiritismo. Por isso a caridade espírita não pode cercar-se de barreiras e dificuldades, de exigências e desconfianças. Deve ser ampla e generosa, acessível a todos, evitando constranger ou humilhar os que a recebem. O ego é como uma flor que primeiro se fecha no botão para depois desabrochar na corola e por fim doar-se nos frutos.

Tentemos visualizar o processo de formação do ego (i), para compreendermos a função do egoísmo. A dialéctica espírita ensina-nos que o espírito (não individualizado, mas como elemento espiritual catalisador, capaz de atrair e aglutinar a matéria esparsa no espaço) liga-se à matéria para lhe dar forma, estrutura. Podemos seguir esse processo no caso humano, em que o ego aparece como um pivô da personalidade em formação, desde a infância. A criança é egocêntrica, é um pivô em torno do qual giram as atenções e as afeições da família. Ela se torna, naturalmente, no centro do mundo. Porque esse é o meio de consolidação da sua individualidade. Tudo quanto ela atrai e absorve do ambiente, do exemplo familial, das relações progressivas na escola e nos brinquedos, é automaticamente centralizado no ego, que é o seu ponto interior de segurança perante a dispersividade do mundo. O botão fechado centraliza as suas energias, preparando o momento de abrir-se na corola colorida e perfumada. Essa é a primeira função do ego e, essa função não é egoísta, mas centralizadora por necessidade de estruturação interna. Quando essa estruturação se define como tal, a criança abre-se timidamente para oferecer ao mundo a sua contribuição inicial de beleza e ternura. É um novo ser que surge no mundo, vestido com a roupagem da inocência, como diz Kardec (i) e, ao mesmo tempo trazendo a incógnita de um passado que se revelava pouco a pouco no esquema de um destino com ideias e hábitos negativos que nos foram impostos à força de milénios de brutalidade civilizadora. Por isso no nosso tempo, em que tomamos consciência do absurdo desse massacre universal realizado em nome de Deus, se mostra dominado por inquietações e desesperos, revolta e loucura, psicopatias e obsessões que levam a espécie humana a todos os desvarios e ao suicídio individual e colectivo. Temos de examinar essa situação à luz do Evangelho desfigurado e mal interpretado, muitas vezes contraditado frontalmente pelas teologias do absurdo. E temos de confrontar esse mundo-hospício, em que a loucura mansa dos clérigos e dos fascinados pela mentira consciente ou inconsciente é a mais perigosa de todas, gerando a hipocrisia das vozes impostadas (i) e do comportamento social simulado. A simulação na luta pela vida, estudada por Giuseppe Ingegnieri (i) num livro assustador, é o sintoma mais evidente das condições patológicas do homem actual, que se tornou num ego atrofiado, por isso mesmo vazio e faminto, que tudo quer exclusivamente para si mesmo. E isso a tal ponto que a palavra caridade, definida pelo Apóstolo Paulo (i) numa síntese insuperável e adoptada por Kardec como o fundamento da evolução humana, se transformou na linguagem actual como sinónima de hipocrisia. No próprio meio espírita encontramos os desavisados que condenam essa palavra, sem lhe aprofundarem o sentido. E há-os que pretendem disciplinar a caridade, fiscalizar o seu aproveitamento pelos beneficiados e obrigá-los a determinadas exigências para socorrê-los. Há também os que alegam a inutilidade dessa forma de ajuda. Esses não pensam no bem que uma palavra amiga e confortadora, uma visita de solidariedade, um socorro de emergência a quem está desprovido de roupas para enfrentar o inverno ou do remédio para uma chaga, podem representar. A caridade espírita não é esmola, é doação de amor, solidariedade humana que vale não só pelo amparo material, mas acima de tudo pelo conforto da relação humana. A sua prática não tem por finalidade sanar os males sociais com remendos eventuais, mas mudar as formas egoístas da relação humana na Terra, ampliando-a e aprofundando-a nas dimensões superiores do altruísmo. Nesse estranho panorama de castas privilegiadas, o povo necessitado e as multidões miseráveis, o Espiritismo considera a mecânica da caridade como o instrumento ideal para abrir corações, despertar consciências e alentar esperanças. As ideologias políticas apresentam fórmulas de efeitos superficiais e na reforma muitas vezes penosa de estruturas, mas o Espiritismo restabelece a técnica simples do Cristo (i), que toca o íntimo das criaturas para atingir as causas profundas dos desajustes. Em cada reencarnação (i) o ser repete ao mesmo tempo a filogénese (i) material e a espiritual do homem, no desenvolvimento do embrião e na abertura progressiva do egoísmo ao meio social. Vejamos os vectores desse processo duplo nas linhas da transcendência:

a) Na magia do amor, reminiscência das atracções misteriosas da selva, o par humano liga-se sob a impulsão dos instintos reprodutores e os genes se fundem no ventre materno produzindo o embrião, síntese das formas animais superadas pela espécie. A recapitulação genésica (i) reintegra o espírito na linha filogenética (i) e restabelece o pivô do ego no seu poder centralizador. Na gestação, o paralelismo psicofísico reordena as forças da evolução nos rumos da ascensão. A forma humana resulta das formas anteriores na sublimação do caos instintivo e da sua hereditariedade psicobiológica. O espírito ligado ao caos exerce as funções discriminadoras na conformação do novo ser, disciplinando as energias conscienciais que marcam as conquistas do passado e as auto-punições de erros e crimes anteriores. A Providência Divina envolve o novo ser na sua bênção com aparência da inocência, que lhe permitirá atrair a afeição dos familiares no restabelecimento de afectividades perturbadas ou o aprofundamento das afeições sobreviventes. O novo cérebro está virgem como a tabula rasa dos empiristas ingleses, pronto a gravar um novo rol de lembranças na nova memória em organização. No arquivo do inconsciente (nessa consciência subliminar de Myers (i)) as heranças válidas permanecem ocultas, mas prontas a emergir na consciência de relação pelo mecanismo de associação de ideias e sentimentos.

b) Vencida a etapa uterina e a primeira infância, o ser mostra-se pronto a enfrentar as vicissitudes de uma nova existência. Recobrou a sua vida terrena nas entranhas da mãe, sob as influências psicofisiológicas do organismo gerador do seu novo corpo. Revela anomalias ou perfeição física e mental, segundo o seu passado. É de novo o centro do mundo e traz em si mesmo os factores do seu desenvolvimento e amadurecimento. No lar esses factores se manifestam desde logo, mas vão sofrer as influências modificadoras da família e da escola, para o seu ajuste necessário às novas condições de vida. O instinto de imitação lhe favorece a adaptação ao novo mundo. O ego centralizado volta a abrir-se nessas relações primárias, através do desenvolvimento da afectividade em termos electivos. As suas preferências são ainda impulsivas, provocadas por factores ambientais e circunstanciais, mas pouco a pouco define-se a linha preferencial da razão em desenvolvimento, revelando as afinidades ocultas. O ser põe o pé na realidade e manifesta as suas tendências vocacionais. É o momento de reintegração nos esquemas frustrados do passado ou de renovação do esquema em face de novas exigências da nova realidade.

c) A crise da adolescência vai revelar em breve a sua posição ôntica (i) precisa ou indecisa do novo serherdeiro de si mesmo e das contribuições paternas e maternas, familiais e sociais, excitados pelo meio cultural e reorientadas pela influência espiritual das entidades espirituais que o protegem e assistem constantemente. Está completa a tarefa da ressurreição na carne. Daí por diante, o novo destino do ser na transcendência dependerá de sua própria consciência. Ele está preparado e aparelhado para enfrentar os problemas da juventude e as suas graves opções, da madureza e os seus desafios, da velhice e a recapitulação de toda a odisseia existencial que deve tê-lo elevado acima do passado no processo irreversível da transcendência. O egoísmo do adulto será a marca de um distúrbio psíquico: o infantilismo. O altruísmo (i) será o troféu conquistado de sua vitória na escalada evolutiva.

O seu regresso à vida espiritual o colocará face à sua verdadeira situação. Será certamente um vitorioso em muitos aspectos de sua personalidade, mas o fracasso na transcendência do egoísmo lhe mostrará que todas as conquistas secundárias não podem compensá-lo. Terá de voltar à existência terrena em reencarnações (i) de abnegação forçada, não compulsórias, mas de sua própria escolha, para conseguir a superação difícil do apego a si mesmo. Por sua própria natureza do elemento centralizador da estrutura ôntica (i), responsável pela sua unidade, o ego é a grande barreira contra a qual se quebram os impulsos da transcendência. O seu solipsismo (i) tautológico (itransforma-o numa viragem do espírito, imantando-o (i) a si mesmo. A parábola do jovem rico, no Evangelho, dá-nos o mais claro exemplo do apego ao mundo gerado pelo egoísmo nos Espíritos que se deixam fascinar pelas ilusões materiais. O ego gera as falsas ideias de superestimação individual, de segregação do indivíduo e a sua grei, considerando os demais como estranhos e impuros. Age como um centro hipnótico absorvente, impedindo o ser de abrir-se no altruísmo, fechando-lhe o entendimento para tudo o que não se refira aos seus interesses individuais. A vaidade, a arrogância, a prepotência, a insolência, a brutalidade formam-se no cortejo de estupidez das pessoas egoístas e dos Espíritos egoístas.

Por isso, o Espiritismo proclama a caridade como a virtude libertadora, fora da qual não há salvação para o homem do mundo. A mecânica da caridade pode ser desencadeada, no homem do mundo, por situações aflitivas; de saúde ou de problemas familiais ou financeiros, levando-o a dar, não raro por vaidade, a primeira moeda a um mendigo. Essa doação insignificante abre uma pequena brecha no egoísmo. A seguir virão outras doações mais generosas, até que a fortaleza do ego se abale e o ser orgulhoso possa perceber a sua própria imagem reflectida no espelho doloroso de um rosto de pedinte esfomeado. O Espiritismo nos ensina a dar, além da moeda, o nosso amor a toda a Humanidade, sem discriminações raciais, religiosas, políticas ou de qualquer espécie. A estrutura social da civilização perfeita não surgirá das mãos dos opressores que tudo prometem, mas das mãos humildes da viúva que depositou a sua pequenina moeda e única no cofre em que os ricos despejaram tesouros para comprar o Céu.

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José Herculano Pires, Curso Dinâmico de Espiritismo, XIII – Função do Egoísmo no Desenvolvimento Humano, 13º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Somos as aves de fogo por sobre os campos celestes, pintura em acrílico de Costa Brites)