Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

sábado, 27 de julho de 2019

Deus na Natureza ~

A Vida ~ Circulação da Matéria ~
(V)

   “As ciências – diz o autor de Força e Matéria – perseguiram e demonstraram a acção dessas forças no organismo das plantas e dos animais e, às vezes, até nas combinações mais subtis. No presente, é geralmente constatado que a Fisiologia, ou seja a ciência da vida, já não pode prescindir da Física e da Química e que nenhum processo fisiológico se opera à revelia das forças físico-químicas.”

  “A Química – diz a seu turno Miahle – tem, incontestavelmente, parte na criação, no crescimento, na existência de todos os seres vivos, seja como causa ou como efeito. As funções da respiração, da digestão, da assimilação e da secreção não se realizam senão por meio da Química. Só ela nos pode desvendar os segredos das importantíssimas funções orgânicas.”

  O hidrogénio, o oxigénio, o carbono, o azoto, declaram-no enfaticamente os materialistas, entram nas mais diversas condições na combinação dos corpos e se agregam, se separam, actuam obedientes às mesmas leis que os regem fora desses corpos. Os próprios corpos compostos podem apresentar os mesmos caracteres. A água, a mais volumosa substância de todos os seres orgânicos, sem a qual não haveria vida animal nem vegetal, penetra, amolece, dissolve, adere, cai, segundo as leis da gravidade e, evapora-se, precipita-se, forma-se dentro, como fora dos organismos. As substâncias inorgânicas, os sais calcários que a água contém no estado de composição, ela os deposita nos ossos dos animais ou nos vasos das plantas, onde essas substâncias afectam a mesma solidez que no domínio inorgânico. O oxigénio da atmosfera, que, nos pulmões, entra em contacto com o sangue venoso, de cor negra, comunica-lhe a cor vermelha, que o sangue adquire quando agitado num vaso em contacto com o ar. O carbono existente no sangue sofre, com esse contacto, os mesmos efeitos da combustão operada em toda a parte, transformando-se em ácido carbónico. Pode razoavelmente comparar-se o estômago a uma retorta na qual as substâncias, postas em contacto, se decompõem, se combinam, etc., segundo as leis gerais de afinidade química. Um tóxico, entrado no estômago, pode ser neutralizado pelos mesmos processos exteriormente utilizados. A substância morbífica porventura lá fixada se neutraliza, se destrói, mediante remédios químicos, como se este processo se operasse num frasco qualquer, que não no interior de um organismo. A digestão é um acto de pura química. Longe poderíamos prosseguir no assunto. A observação – diz Miahle – nos ensina que todas as funções orgânicas se operam mediante processos químicos e que um ser vivo pode comparar-se a um laboratório de química, em que se processam os actos da vida no seu conjunto. Menos evidentes não são os processos mecânicos determinados pelos organismos vivos. A circulação do sangue realiza-se pelo mais perfeito mecanismo imaginável. O seu aparelho produtor assemelha-se, perfeitamente, aos engendrados pelas mãos humanas. O coração tem válvulas e êmbolos, tal como as máquinas a vapor, cujo funcionamento produz ruídos distintos. Entrando nos pulmões, o ar fricciona as paredes dos brônquios e engendra o sopro respiratório. Inspiração e expiração são resultantes de forças puramente físicas. O fluxo ascensional do sangue, das extremidades inferiores do corpo para o coração, contrário às leis de gravidade, não pode verificar-se senão por um aparelho puramente mecânico. É também por um processo mecânico que o tubo intestinal, graças a um movimento peristáltico, expele os excrementos de alto a baixo e, ainda, por processo mecânico se verificam os movimentos musculares de homens e animais.

  A estrutura do olho radica nas mesmas leis da câmara-escura e, as ondulações do som transmitem-se aos ouvidos como a qualquer outra cavidade. “A Fisiologia tem, pois, absoluta razão – concluem Büchner e Schaller – propondo-se provar, hoje, que já não existe a essencial diferença entre o mundo orgânico e o inorgânico.”

  Não há diferença entre o orgânico e o inorgânico! Mas, convenhamos em que não pode haver no mundo uma proposição mais falsa.

  As reacções operadas nos corpos vivos estão longe de se identificar com as que se operam com os mesmos líquidos numa retorta.

  As forças organizadoras, como as denomina Bichat, esquivam-se ao cálculo, actuam de modo irregular e variável. Ao contrário, as forças físico-químicas obedecem a leis regulares e constantes.

  O autor de um aparte recente, intitulado – A Ciência dos Ateus, evidencia muito bem esta verdade com os seguintes exemplos: “Injectai nas veias do animal os elementos constitutivos do sangue, com excepção do que lhe produz a síntese, que não se encontra à vossa disposição e, em vez de prolongares a vida do animal tê-lo-eis simplesmente matado. Também o sangue que fique algum tempo fora das veias, se for novamente injectado pelo orifício que o extravasou, pode ocasionar os mais sérios distúrbios. Introduzi no estômago do cadáver substâncias alimentares e vereis que ao contacto dos tecidos elas se putrefarão, elas que, no animal vivo, se transformariam em sangue para lhe manter a vida. Pergunta-se, então, aos químicos, como actuam no organismo o ópio, a quinina, a noz-vómica, o enxofre, o iodeto de potássio, etc. Qual a acção química da nicotina, do ácido prússico, de todos os venenos vegetais que não deixam vestígios? Como age o curare no tétano?

  “Porque a ipeca no estômago faz se contraiam desde logo os músculos inspiradores, etc.? “Acção de presença”, dizem os físicos e repetem os químicos, acreditando, os sisudos doutores, ter cabalmente respondido!”

  Atentatório da verdade é a pretensão de explicar pela Física e pela Química os fenómenos fisiológicos, afirmando a identidade das reacções intra e extra-orgânicas. A Física e a Química se conjugam, porque as mesmas leis presidem à sua fenomenologia; mas um imenso intervalo as separa da ciência biológica, porque existe enorme diferença entre as suas leis e as leis da vida.

  Dizer que a Fisiologia é a física animal é dar uma definição tão inexacta como se disséssemos que a Astronomia é a física dos astros. A esse conceito de Bichat o Dr. Cerise adita: “os fenómenos vitais são complexos e as forças físicas neles cooperando, incontestavelmente, mas em proporções difíceis de medir, os submetem ao império de uma força superior, que os rege em função das suas finalidades”.

  Da mesma opinião os anatomistas Piorry, Malgalgue, Poggiale, Bouillaud: “Acima de todas as ciências – diz este – como acima de todas as leis, a vida domina, modifica, neutraliza, diminui ou aumenta a intensidade das forças físico-químicas”.

  O nosso Dumas, químico eminente, diz algures: “Longe de amesquinhar a importância dos factos, aos quais obedece a matéria morta, a noção da vida se eleva e ressalta do conhecimento íntimo dessas leis; e a convicção da sua essência misteriosa e divina se engrandece à custa de sérios estudos da Química orgânica.”

  As operações químicas, susceptíveis de se realizarem no nosso organismo, não se devem confundir com as inerentes à fisiologia do nosso ser, eis o que é preciso assentar desde logo. Sob o primeiro ponto de vista, a identidade das forças que concorrem para formar substâncias orgânicas e inorgânicas é um facto indubitável, averiguado. Conformando-se às leis naturais, o químico compõe uma série de combinações também encontradas em corpos orgânicos e, mais fecundo que a própria Natureza, pode, a seu arbítrio, operar outras combinações inexistentes nos organismos terrestres, assim transportando, talvez, a sua ciência ao domínio de outros mundos.

  Sabe ele que a fermentação é um processo geral de intervenção que determina, não apenas os fenómenos da morte e da decomposição, mas também os do nascimento e de todas as funções vitais, a partir do grão de trigo que germina e do vinho que ferve, até à levedura do pão e da cerveja, e aos fenómenos de nutrição e digestão. A Química orgânica tem as mesmas bases da Química mineral. Ninguém melhor que o Sr. Berthelot expõe essas conquistas da ciência dos corpos, assim como ninguém lhes traça os limites perante o problema do nosso ser. Ouçamo-lo portanto:

   “Tudo havia concorrido (*) para que a maioria dos espíritos encarasse como intransponível a barreira entre as duas químicas. Para explicar a nossa impotência, inferiam uma razão especiosa da intervenção da força vital, apta, até então, a só compor substâncias orgânicas. Era, diziam, uma força misteriosa, a determinar exclusivamente os fenómenos químicos observados nos seres, agindo em virtude de leis essencialmente distintas das que regulam os movimentos da matéria puramente móvel e a quiescente. Tal a explicação com que se pretendia justificar a imperfeição da Química orgânica, declarando-a, por assim dizer, irremediável. Assim proclamando a nossa absoluta impotência para produzir matérias orgânicas, duas coisas se confundiam: a formação de substâncias químicas, cujo agregado constitui os seres organizados e, a formação dos próprios órgãos. Este último problema não pertence aos domínios da Química. Jamais o químico pretenderá fabricar no seu laboratório uma folha, um fruto, um músculo, um órgão. São estas questões que afectam a Fisiologia e a esta é que compete discutir-lhes as premissas, desvendar as leis que regem os seres vivos na íntegra, pois que à revelia dessa integridade nenhum órgão teria razão de existir e nem o meio necessário à sua formação.

 “Entretanto, o que à Química não é dado fazer no plano orgânico, pode empreender no fabrico de substâncias contidas nos seres vivos.

  “Se a própria estrutura de vegetais e animais lhe escapa às aplicações, não lhe anula a pretensão de conseguir os princípios imediatos, isto é, os materiais químicos que constituem os órgãos, independentemente da estrutura especial das fibras e células que esses materiais afectam, nos animais e nos vegetais. Esta mesma formação e a explicação das metamorfoses ponderáveis, que a matéria experimenta nos seres vivos, constituem campo assaz vasto e belo para que a síntese química o reivindique inteiramente.”

  Esta declaração, na qual os adversários pretendem ver a vitória definitiva do materialismo, sugere-nos acreditar em dois pontos fundamentais:

  1º - que a formação das substâncias orgânicas pode ser devida às mesmas leis que regulam o mundo inorgânico e

  2º - que a própria formação dos órgãos deriva de uma força estranha aos domínios da Química.

  Quanto ao primeiro ponto, triunfa o espiritualismo, qual o vimos, uma vez que as forças que regem o mundo inanimado revelam a existência de um arquitecto inteligente. E quanto ao segundo, o triunfo é ainda mais brilhante, já que a Química orgânica capitula diante do ser vital. Tal como judiciosamente adverte o Sr. Langel, essa química estuda e compõe, somente, os materiais da vida, sem se preocupar com o ser vivo em si mesmo. Esboça, por assim dizer, as tintas do quadro, tornando-se necessário que uma outra mão aplique essas tintas, e crie a obra em que elas se fundem em perfeita unidade.

  Quando a Química deixou adivinhar no ser humano um alambique no qual o ácido procura a base, as moléculas se agrupam de acordo com as leis de que falámos na primeira parte; quando fizeram ver que o animal vivo não passa de um vaso de reacções e que as forças físicas e químicas nele se entregam a perpétuo combate em campo fechado; quando mostraram que os fenómenos da fecundação, da nutrição e da própria morte mais não são que fermentações ordinárias, já se não sabe mais onde residem essas forças misteriosas que denominamos vidainstinto e consciência, quando se trata de criaturas humanas. Não tardaremos a entrar no âmago desta grave questão. Por enquanto, confessamos com o Sr. Langel (**) que “a Ciência pode arrastar-nos à dúvida, a negações espantosas, tendo ela mesma os seus mistérios insondáveis às vistas humanas. Também ela se contenta com palavras, sempre que não pode penetrar mesmo a essência dos fenómenos. Não nos fala a Química, constantemente, de afinidade? E não temos aí uma força hipotética, uma entidade tão pouco tangível quanto a vida, ou quanto a alma?

  A Química recambia para a Fisiologia a ideia da alma e recusa-se a tratar do assunto, mas, perguntamos, a ideia em torno da qual se desdobra a Química tem algo de mais real? Essa ideia é, muitas vezes, inapreensível, não só na essência mas como nos efeitos. Pode-se, por exemplo, meditar um instante nas leis conhecidas como leis de Berthelot, sem compreender que se está face a um mistério impenetrável? No simples fenómeno de uma combinação, no arrastamento que precipita, dois átomos que se procuram e se reúnem, escapando aos compostos que os aprisionavam, não há o suficiente para nos confundir a inteligência? Quanto mais estudamos as ciências na sua metafísica, mais nos podemos convencer que esta nada tem de inconciliável com a mais idealista filosofia: as ciências analisam as relações, aferem medidas, descobrem as leis que regulam o mundo fenomenal; mas não há fenómeno algum, por insignificante que seja, que não as coloque face a duas ideias, sobre as quais o método experimental carece de eficiência, a saber:

  1º - a essência da substância modificada pelos fenómenos, e

  2º - a força que provoca essas modificações.

  Só conhecemos e vemos, por fora, as aparências; a verdadeira realidade, a realidade substancial, a causa, nos escapa. Digno é de uma alta filosofia considerar todas as forças particulares, cujas manifestações são analisadas pelas diversas ciências, como oriundas de uma força primária, eterna, necessária, fonte de todo o movimento e centro de toda a acção. Ao nos colocarmos neste ponto de vista, os fenómenos e os próprios seres não são mais que formas mutáveis de uma ideia divina”.

Pode a unidade a que tende a Química fazer-nos pressupor que o mundo animado e o inanimado sejam regidos por leis idênticas? Deveremos lisonjear-nos com a ideia de poder um dia, não apenas refazer artificialmente todas as matérias orgânicas, mas reproduzir “ad libitum” as condições em que hajam de aflorar a vida vegetal ou animal? Não, certamente. Tais pretensões seriam ilusórias. Não dispomos da vida. Fisiologia e Química são domínios que se extremam e se distinguem, como se não distinguiam há um século a Química orgânica e a mineral.

  Em parte alguma, a planta mais rudimentar, o animal mais ínfimo da escala zoológica, nasceram do concurso das afinidades químicas. Por maiores progressos que faça a Química orgânica, ela será sempre detida pela impossibilidade de originar a força vital, de que não dispõe.

  Não, senhores, nem que pese à vossa atitude afirmativa e audaciosa, vós não podeis criar a vida, nem sabeis, sequer, o que seja a vida e, sois constrangidos a confessar a vossa ignorância, ao mesmo tempo em que ofereceis as provas da vossa impotência.

  É que em vão replicais com fogos-de-artifício e suposições gratuitas:

 “Para sustentar uma força vital original – dizeis – invoca-se amiúde a nossa impossibilidade de criar plantas e animais; e não obstante, se pudéssemos assenhorear a luz, o calor, a pressão atmosférica, tanto quanto as relações de peso da matéria, não somente ficaríamos aptos a recompor corpos orgânicos, como capacitados a preencher as condições que engendram o nascimento desses corpos.”

  A seguir, acrescentais, sem perceber que as vossas próprias palavras reforçam a nossa causa:

  “Desde que os elementos ditos carbono, hidrogénio, oxigénio, azoto, se encontram organizados, as formas fixas daí resultantes têm o poder de conservar-se no seu estado e, tal como no-lo ensina a experiência até hoje adquirida, elas persistem através de centenas e milhares de anos. Por meio de sementes, de brotos e de ovos, essas formas reaparecem numa sucessão determinada.”

  Por outras palavras, duas proposições se evidenciam: a primeira é que não poderíamos engendrar a vida senão como legado potencial da Natureza e a segunda é que a vida se mantém, persistente e transmissível, graças a uma virtude que lhe é própria.

  Tal é, verdadeiramente, a questão e, de duas uma: ou o homem é, ou não é (nem será) capaz de originar a vida.

  Neste último caso, as pretensões materialistas estão irremissivelmente condenadas e, no primeiro, por si mesmas se condenam, da seguinte forma:

  Laborando na organização da vida, sois forçados a vos submeter às leis ordenadas e as aplicar passivamente, sem as contrariar de qualquer forma. Então, já não seríamos nós a originar a vida e sim as leis eternas, das quais nos arvoraríamos, por um instante, em simples mandatários.

  Já vos ouço bradar – sofisma! – e declarar que procuramos escapar pela tangente. Mas... perdão, senhores, notem em primeiro lugar que se alguém se esquiva num processo, esse alguém só pode ser o acusado e considerai, depois, que, assim razoando, não ficamos à superfície e penetramos o âmago da questão. Reflecti por um momento: bem sabeis que neste mundo nada criamos e apenas aplicamos leis predominantes.

  Criais, porventura, o oxigénio quando, pelo calor, decompondes o bióxido de manganês e as bolhas afloram no tubo de fuga? Não; apenas roubais ou – se preferis – pedis ao bióxido de manganês, o terço de oxigénio nele contido. Criareis o azoto retirando oxigénio do ar atmosférico? O próprio nome do processo está a indicar que ele consiste numa subtracção. Criais a água quando, reunindo no eudiómetro o hidrogénio ao oxigénio, lhe fazeis a síntese? Ou isso não passa de mera combinação? Com a decomposição do carbonato de cal, pelo ácido clorídrico, criareis o carbono? E os ácidos oxálico, acético, lático, tartárico, tânico, quando os extraís dos materiais vegetais ou animais, mediante agentes oxidantes, acaso os tendes criado? Não, mil vezes não. Se nos servimos, por vezes, do vocábulo – criar, é por abuso de linguagem. Ora, ainda mesmo que conseguísseis fazer um pedaço de carne, nem por isso o teríeis criado e sim, apenas, reunido os elementos que constituem a carne, segundo as leis inexoráveis, assinadas à organização da Natureza. E dado que os pósteros possam ver um dia surgir do fundo de suas retortas um ser vivo, ainda assim, de antemão lhes dizemos que muito se iludiriam se concluíssem pela inexistência das leis divinas, pois não haveria de ser à revelia delas que houvessem de consumar essa obra-prima da indústria humana.

  Enfim, dado que os precedentes raciocínios não serem suficientes para caracterizar a vossa erronia, consentimos, no fim desta exposição sobre a circulação da matéria, em admitir que a Natureza emprega, para construir seres vivos, os mesmos processos do homem, isto é: – trata simplesmente pela química as matérias inorgânicas. Ora, ainda nesta hipótese, não haveria como negardes a necessidade, para o construtor, de saber o que pretende fazer, ou de operar com um plano determinado. Pois uma natureza inteligente, ou o ministro de uma inteligência, substitui o químico. A obra do génio consiste, precisamente, em fazer derivar de um pequeno número de princípios, facilmente formuláveis, as mais engenhosas aplicações, os inventos mais extraordinários.

  Esse génio, do qual as mais portentosas inteligências humanas não representam senão partículas infinitesimais, reduziu à extrema simplicidade, à maior simplicidade possível, todas as operações da Natureza. A divina inteligência apresenta-se-nos como a consciência de uma lei única, abrangendo o todo universal e, cujas aplicações indefinidas engendram uma multidão de fenómenos que se aglutinam por analogia, regidos pelas mesmas leis secundárias, decorrentes da lei primordial. De certo, o químico ainda não substitui a vida, nem sabe formar o embrião em que o gérmen representa um papel tão maravilhoso. Nos seus actos, contudo, ele se esforça por substituir a Natureza. E como? – pela inteligência. Um elemento existe, absolutamente indispensável: a inteligência.

  Soberana, ela se impõe ao raciocínio de quantos estudam a Natureza. E torna-se visível nessas regras que podem ser previamente determinadas, calculadas, combinadas, uma vez que guardam entre si um encadeamento admirável e são imutáveis em condições idênticas, porque receberam a inflexibilidade da infinita sabedoria.

  Está, portanto, demonstrado, à saciedade, que a circulação da matéria não se efectua senão sob a direcção de uma força inteligente.

  Mas, seja qual for o rumo que trilhemos, no desvio em que nos propusermos acompanhar-vos, voltamos sempre, a despeito de tudo, à formação da Natureza, à causa causal de quanto existe e, aqui o campo se torna mais vasto ainda. Os processos humanos já não embaraçam as vistas. No extremo de todas as avenidas, chegamos ao ponto capital e trata-se, agora, de examinar mesmo a origem da vida na Terra. Estarão os seres vivos prisioneiros na superfície do globo? Teriam aí surgido em seis dias, ao toque da varinha de um mágico? Despertaram de súbito do seio das florestas, da margem dos rios, nos vales adormecidos?

  Que mão teria conduzido o primeiro homem do céu aos bosques do Éden? Que mão pudera abrir-se no ar e soltar a chusma canora de lindas plumagens? Seriam as forças físico-químicas, que, num espasmo fecundo, teriam dado nascimento aos habitantes de mares e continentes? Nós não encontramos seres que não tenham nascido de um casal, ou cujo nascimento não se ligue às leis estabelecidas para a reprodução. Como teriam surgido na Terra as espécies vegetais e animais? Eis a questão que actualmente nos interessa. Depois de observarmos a plateia e os comentários dos espectadores, levantemos o pano que oculta o verdadeiro cenário e apreciemos a peça. A Natureza é sempre o maquinista invisível. Tentemos surpreendê-la, na esperança de que não seja suficientemente hábil ao ponto de se subtrair à nossa perquirição.

/...

(*) Chimie Organique Fondée sur la Synthèse.
(**) Science et Philosophie.


Camille Flammarion, Deus na Natureza, Segunda Parte – A Vida 1, Circulação da Matéria (5 de 5), 21º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Jungle Tales_1895, pintura de James Jebusa Shannon)

domingo, 14 de julho de 2019

o grande desconhecido ~

~ função do egoísmo no desenvolvimento humano ~

Tudo tem a sua utilidade na Natureza. O Universo é teleológico (i), finalista, busca sempre em tudo uma finalidade. Os filósofos anti-finalistas apoiam as suas teorias no erro humano, de todos os tempos, que interpreta a Natureza como criada especialmente para o homem. Esse erro surgiu nas selvas, permaneceu nas civilizações primitivas e projectou-se nas civilizações posteriores. Os próprios deuses e demónios de toda a Antiguidade foram postos ao serviço do homem, que embora os reverenciando, pretendiam utilizá-los como seus auxiliares. O Universo tem, naturalmente, uma finalidade única e superior, em que todas as finalidades se conjugam num resultado único. Mas esse resultado escapa às nossas possibilidades de pesquisa, de compreensão e mesmo de imaginação. A mais inútil das coisas e os mais prejudiciais dos seres são necessários. E o ser necessário é o ser indispensável, é pertencer a um elo da cadeia inimaginável que Kardec (i) nos apresenta nesta frase tantas vezes repetida n’O Livro dos EspíritosTudo se encadeia no Universo.

Os problemas ecológicos da actualidade, surgidos com o desenvolvimento tecnológico, deram ênfase à importância da Ecologia, ciência das relações entre o sujeito e o meio e mesmo entre o objecto e o meio. O meio físico em que vivemos, com os seus elementos naturais configurando determinada situação mesológica (i) humana, é formado por uma infinidade de substituições necessárias à vida vegetal e animal. A ignorância do homem a este respeito, tentando aniquilar elementos nocivos ao meio, provoca o desencadeamento de desequilíbrios perigosos e até mesmo fatais. Minerais, vegetais e animais considerados perniciosos, quando retirados do meio, revelam a sua função necessária e têm de ser repostos ou substituídos por outros que os compensem. Esse delicado equilíbrio das mínimas coisas apresenta-se também nas coisas máximas, como no jogo de forças que sustentam o equilíbrio planetário e o próprio equilíbrio das galáxias no espaço sideral. O mesmo acontece na nossa estrutura corporal, com os seus vários aspectos físicos, psíquicos e espirituais. Por isso o Espiritismo (i) é contrário a todas as práticas de mortificação, extinção, asfixia ou desenvolvimento de funções, instintos, percepções e poderes inferiores ou superiores na criatura humana. Estas devem ser respeitadas na sua integridade, com os seus defeitos, deformações, deficiências e assim por diante, cabendo-nos apenas o direito, que é também um dever, de auxiliar as criaturas no seu processo natural de aperfeiçoamento e reajustamento, nos rumos naturais da transcendência. Nem mesmo a mediunidade (i) deve ser desenvolvida por supostas técnicas provindas de tradições místicas ou da invenção de pretensos mestres espirituais. O Espiritismo opõe-se a todas essas tentativas imaginosas, que podem levar, como tem levado, muitas pessoas a desequilíbrios graves.

O egoísmo, a vaidade, o orgulho, a pretensão, a ambição representam elementos negativos da constituição do ser humano, que devem ser eliminados. Mas essa eliminação não se dá pelos métodos antigos das corporações religiosas, até hoje empregados, apesar dos terríveis malefícios causados. Kardec e os Espíritos Superiores, nas suas comunicações, consideraram o egoísmo como a verdadeira praga que impediu o desenvolvimento real do Cristianismo na Terra. Mas jamais aconselharam métodos artificiais para os combater. As penitências, os cilícios, o isolamento, as auto-flagelações de toda a espécie tornaram mais negra a Idade Média e ainda hoje se escondem nas furnas da ignorância religiosa que só serviram para desequilibrar milhões de criaturas que constituem o triste e pesado legado da Antiguidade para o nosso tempo. São Tomás de Aquino (i) advertiu: “Mães, os vossos filhos são cavalos” e, a educação das crianças transformou-se em domesticação, processo esmagador da sensibilidade infantil e das esperanças da adolescência. Gerações recalcadas saíram das estrebarias escolares em que os mestres domavam crianças e jovens à pancada e com castigos brutais, para moldá-los segundo os modelos estabelecidos para a formação de multidões padronizadas. Todos nós carregamos ainda hoje as marcas profundas e dolorosas, deformantes, do relacionamento humano na Terra. Com a caridade os homens vão aprendendo a sair do egoísmo para o altruísmo, a não pensar apenas nos seus problemas particulares, a não dividir o seu tempo e bem-estar apenas com os familiares, mas levar um pouco de si mesmos e dos seus recursos para a família maior que sofre lá fora. É essa a finalidade do princípio cristão da caridade no Espiritismo. Por isso a caridade espírita não pode cercar-se de barreiras e dificuldades, de exigências e desconfianças. Deve ser ampla e generosa, acessível a todos, evitando constranger ou humilhar os que a recebem. O ego é como uma flor que primeiro se fecha no botão para depois desabrochar na corola e por fim doar-se nos frutos.

Tentemos visualizar o processo de formação do ego (i), para compreendermos a função do egoísmo. A dialéctica espírita ensina-nos que o espírito (não individualizado, mas como elemento espiritual catalisador, capaz de atrair e aglutinar a matéria esparsa no espaço) liga-se à matéria para lhe dar forma, estrutura. Podemos seguir esse processo no caso humano, em que o ego aparece como um pivô da personalidade em formação, desde a infância. A criança é egocêntrica, é um pivô em torno do qual giram as atenções e as afeições da família. Ela se torna, naturalmente, no centro do mundo. Porque esse é o meio de consolidação da sua individualidade. Tudo quanto ela atrai e absorve do ambiente, do exemplo familial, das relações progressivas na escola e nos brinquedos, é automaticamente centralizado no ego, que é o seu ponto interior de segurança perante a dispersividade do mundo. O botão fechado centraliza as suas energias, preparando o momento de abrir-se na corola colorida e perfumada. Essa é a primeira função do ego e, essa função não é egoísta, mas centralizadora por necessidade de estruturação interna. Quando essa estruturação se define como tal, a criança abre-se timidamente para oferecer ao mundo a sua contribuição inicial de beleza e ternura. É um novo ser que surge no mundo, vestido com a roupagem da inocência, como diz Kardec (i) e, ao mesmo tempo trazendo a incógnita de um passado que se revelava pouco a pouco no esquema de um destino com ideias e hábitos negativos que nos foram impostos à força de milénios de brutalidade civilizadora. Por isso no nosso tempo, em que tomamos consciência do absurdo desse massacre universal realizado em nome de Deus, se mostra dominado por inquietações e desesperos, revolta e loucura, psicopatias e obsessões que levam a espécie humana a todos os desvarios e ao suicídio individual e colectivo. Temos de examinar essa situação à luz do Evangelho desfigurado e mal interpretado, muitas vezes contraditado frontalmente pelas teologias do absurdo. E temos de confrontar esse mundo-hospício, em que a loucura mansa dos clérigos e dos fascinados pela mentira consciente ou inconsciente é a mais perigosa de todas, gerando a hipocrisia das vozes impostadas (i) e do comportamento social simulado. A simulação na luta pela vida, estudada por Giuseppe Ingegnieri (i) num livro assustador, é o sintoma mais evidente das condições patológicas do homem actual, que se tornou num ego atrofiado, por isso mesmo vazio e faminto, que tudo quer exclusivamente para si mesmo. E isso a tal ponto que a palavra caridade, definida pelo Apóstolo Paulo (i) numa síntese insuperável e adoptada por Kardec como o fundamento da evolução humana, se transformou na linguagem actual como sinónima de hipocrisia. No próprio meio espírita encontramos os desavisados que condenam essa palavra, sem lhe aprofundarem o sentido. E há-os que pretendem disciplinar a caridade, fiscalizar o seu aproveitamento pelos beneficiados e obrigá-los a determinadas exigências para socorrê-los. Há também os que alegam a inutilidade dessa forma de ajuda. Esses não pensam no bem que uma palavra amiga e confortadora, uma visita de solidariedade, um socorro de emergência a quem está desprovido de roupas para enfrentar o inverno ou do remédio para uma chaga, podem representar. A caridade espírita não é esmola, é doação de amor, solidariedade humana que vale não só pelo amparo material, mas acima de tudo pelo conforto da relação humana. A sua prática não tem por finalidade sanar os males sociais com remendos eventuais, mas mudar as formas egoístas da relação humana na Terra, ampliando-a e aprofundando-a nas dimensões superiores do altruísmo. Nesse estranho panorama de castas privilegiadas, o povo necessitado e as multidões miseráveis, o Espiritismo considera a mecânica da caridade como o instrumento ideal para abrir corações, despertar consciências e alentar esperanças. As ideologias políticas apresentam fórmulas de efeitos superficiais e na reforma muitas vezes penosa de estruturas, mas o Espiritismo restabelece a técnica simples do Cristo (i), que toca o íntimo das criaturas para atingir as causas profundas dos desajustes. Em cada reencarnação (i) o ser repete ao mesmo tempo a filogénese (i) material e a espiritual do homem, no desenvolvimento do embrião e na abertura progressiva do egoísmo ao meio social. Vejamos os vectores desse processo duplo nas linhas da transcendência:

a) Na magia do amor, reminiscência das atracções misteriosas da selva, o par humano liga-se sob a impulsão dos instintos reprodutores e os genes se fundem no ventre materno produzindo o embrião, síntese das formas animais superadas pela espécie. A recapitulação genésica (i) reintegra o espírito na linha filogenética (i) e restabelece o pivô do ego no seu poder centralizador. Na gestação, o paralelismo psicofísico reordena as forças da evolução nos rumos da ascensão. A forma humana resulta das formas anteriores na sublimação do caos instintivo e da sua hereditariedade psicobiológica. O espírito ligado ao caos exerce as funções discriminadoras na conformação do novo ser, disciplinando as energias conscienciais que marcam as conquistas do passado e as auto-punições de erros e crimes anteriores. A Providência Divina envolve o novo ser na sua bênção com aparência da inocência, que lhe permitirá atrair a afeição dos familiares no restabelecimento de afectividades perturbadas ou o aprofundamento das afeições sobreviventes. O novo cérebro está virgem como a tabula rasa dos empiristas ingleses, pronto a gravar um novo rol de lembranças na nova memória em organização. No arquivo do inconsciente (nessa consciência subliminar de Myers (i)) as heranças válidas permanecem ocultas, mas prontas a emergir na consciência de relação pelo mecanismo de associação de ideias e sentimentos.

b) Vencida a etapa uterina e a primeira infância, o ser mostra-se pronto a enfrentar as vicissitudes de uma nova existência. Recobrou a sua vida terrena nas entranhas da mãe, sob as influências psicofisiológicas do organismo gerador do seu novo corpo. Revela anomalias ou perfeição física e mental, segundo o seu passado. É de novo o centro do mundo e traz em si mesmo os factores do seu desenvolvimento e amadurecimento. No lar esses factores se manifestam desde logo, mas vão sofrer as influências modificadoras da família e da escola, para o seu ajuste necessário às novas condições de vida. O instinto de imitação lhe favorece a adaptação ao novo mundo. O ego centralizado volta a abrir-se nessas relações primárias, através do desenvolvimento da afectividade em termos electivos. As suas preferências são ainda impulsivas, provocadas por factores ambientais e circunstanciais, mas pouco a pouco define-se a linha preferencial da razão em desenvolvimento, revelando as afinidades ocultas. O ser põe o pé na realidade e manifesta as suas tendências vocacionais. É o momento de reintegração nos esquemas frustrados do passado ou de renovação do esquema em face de novas exigências da nova realidade.

c) A crise da adolescência vai revelar em breve a sua posição ôntica (i) precisa ou indecisa do novo serherdeiro de si mesmo e das contribuições paternas e maternas, familiais e sociais, excitados pelo meio cultural e reorientadas pela influência espiritual das entidades espirituais que o protegem e assistem constantemente. Está completa a tarefa da ressurreição na carne. Daí por diante, o novo destino do ser na transcendência dependerá de sua própria consciência. Ele está preparado e aparelhado para enfrentar os problemas da juventude e as suas graves opções, da madureza e os seus desafios, da velhice e a recapitulação de toda a odisseia existencial que deve tê-lo elevado acima do passado no processo irreversível da transcendência. O egoísmo do adulto será a marca de um distúrbio psíquico: o infantilismo. O altruísmo (i) será o troféu conquistado de sua vitória na escalada evolutiva.

O seu regresso à vida espiritual o colocará face à sua verdadeira situação. Será certamente um vitorioso em muitos aspectos de sua personalidade, mas o fracasso na transcendência do egoísmo lhe mostrará que todas as conquistas secundárias não podem compensá-lo. Terá de voltar à existência terrena em reencarnações (i) de abnegação forçada, não compulsórias, mas de sua própria escolha, para conseguir a superação difícil do apego a si mesmo. Por sua própria natureza do elemento centralizador da estrutura ôntica (i), responsável pela sua unidade, o ego é a grande barreira contra a qual se quebram os impulsos da transcendência. O seu solipsismo (i) tautológico (itransforma-o numa viragem do espírito, imantando-o (i) a si mesmo. A parábola do jovem rico, no Evangelho, dá-nos o mais claro exemplo do apego ao mundo gerado pelo egoísmo nos Espíritos que se deixam fascinar pelas ilusões materiais. O ego gera as falsas ideias de superestimação individual, de segregação do indivíduo e a sua grei, considerando os demais como estranhos e impuros. Age como um centro hipnótico absorvente, impedindo o ser de abrir-se no altruísmo, fechando-lhe o entendimento para tudo o que não se refira aos seus interesses individuais. A vaidade, a arrogância, a prepotência, a insolência, a brutalidade formam-se no cortejo de estupidez das pessoas egoístas e dos Espíritos egoístas.

Por isso, o Espiritismo proclama a caridade como a virtude libertadora, fora da qual não há salvação para o homem do mundo. A mecânica da caridade pode ser desencadeada, no homem do mundo, por situações aflitivas; de saúde ou de problemas familiais ou financeiros, levando-o a dar, não raro por vaidade, a primeira moeda a um mendigo. Essa doação insignificante abre uma pequena brecha no egoísmo. A seguir virão outras doações mais generosas, até que a fortaleza do ego se abale e o ser orgulhoso possa perceber a sua própria imagem reflectida no espelho doloroso de um rosto de pedinte esfomeado. O Espiritismo nos ensina a dar, além da moeda, o nosso amor a toda a Humanidade, sem discriminações raciais, religiosas, políticas ou de qualquer espécie. A estrutura social da civilização perfeita não surgirá das mãos dos opressores que tudo prometem, mas das mãos humildes da viúva que depositou a sua pequenina moeda e única no cofre em que os ricos despejaram tesouros para comprar o Céu.

/…


José Herculano Pires, Curso Dinâmico de Espiritismo, XIII – Função do Egoísmo no Desenvolvimento Humano, 13º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Somos as aves de fogo por sobre os campos celestes, pintura em acrílico de Costa Brites)

segunda-feira, 24 de junho de 2019

agonia das religiões ~


O Corpo-Bioplásmico

Quando falei pela primeira vez do corpo-bioplásmico na televisão, uma cidadã estrangeira telefonou para o estúdio / Canal 13 (São Paulo) para me fazer uma advertência. Entendia que a descoberta desse corpo do homem, dos animais e das plantas, feita por físicos e biólogos soviéticos, não passava de uma nova armadilha dos materialistas russos na luta contra a religião, com objectivos certamente políticos. Dizia que conhecera de perto a manha dos soviéticos, sofrera na pele a sua crueldade e não queria ver-me enganado por eles, servindo como inocente útil para propagar as suas mentiras no Brasil. Respondi-lhe tentando explicar que se tratava de um problema científico e não político, que por sinal nos chegava através de informações universitárias procedentes dos Estados Unidos. Procurei mostrar-lhe que uma manobra dessa espécie seria hoje impossível, diante da dinâmica actual da comunicação e da possibilidade de comprovações ou desmentidos dos meios universitários de todo o mundo. Nada disso convenceu a senhora, que insistiu de maneira angustiosa na sua advertência. Depois dela, vários outros telespectadores, na maioria, estrangeiros, me telefonaram e procuraram pessoalmente, para me fazer advertências semelhantes. Isso equivale a uma demonstração da falência cultural do nosso tempo. Não obstante todo o nosso avanço científico e tecnológico, a praga da mentira na religião, na política, na administração e em todos os sectores de actividade públicas leva as pessoas a duvidarem de tudo, a verem por toda a parte o perigo de manobras com intenções ocultas.

No programa de televisão que deu origem a este livro, no mesmo Canal 13, a apresentadora Xênia insistiu na necessidade de sermos francos ao tratar dos assuntos em pauta. Chegou mesmo a declarar que alguém ali devia ter a coragem de dizer a verdade sobre o motivo da crise religiosa dos nossos dias. Segundo pensava, essa crise decorria simplesmente da mentira, como explicou num programa posterior. Na verdade, a mentira é um dos motivos da crise, mas não o motivo base. Se eu pensasse assim, não teria nenhuma motivação para contornar a situação. É que as mentiras pregadas pelas religiões nem sempre são mentiras, mas, enganos decorrentes de falta de compreensão dos problemas essenciais do homem. Seria levar muito longe a desconfiança na natureza humana, acreditar que pessoas crentes em Deus organizassem as religiões com a finalidade de iludir o povo. Mas essa é também uma prova do clima de desconfiança da nossa época. Encontramos nas religiões muitas pessoas cultas, inteligentes, honestas, que acreditam piamente nas coisas mais absurdas por aceitarem a infalibilidade dos dogmas e das interpretações escriturísticas.

O problema da descoberta do corpo-bioplásmico situa-se de tal maneira no quadro dos avanços actuais da Ciência, representando mesmo uma consequência lógica desses progressos, que não deveria suscitar dúvidas a ninguém medianamente informado. A descoberta da antimatéria, as pesquisas parapsicológicas, o desenvolvimento da medicina psicossomática, as sondagens cósmicas da astronáutica e outras prodigiosas conquistas do nosso tempo conduziam naturalmente o homem à descoberta da sua própria natureza. Imagine-se um mundo em que a Ciência houvesse provado a indestrutibilidade de todas as coisas mas continuasse a aceitar o dogma materialista da destruição total e absoluta do homem pela morte. Imagine-se a cultura aberta desse mundo endossando o pessimismo doentio de Sartre que prega a nadificação do homem, a sua frustração total na morte e considera a doutrina da evolução, do pensamento de Heidegger, como uma queda no misticismo vulgar. O espectáculo do pensamento sartreano, tão rico em intuições filosóficas e tão decepcionante na sua conclusão ontológica, esse espectáculo desnorteante da cultura contemporânea, seria uma gota d’água, perante esse possível absurdo de âmbito universal.

O equívoco marxista do materialismo já foi ultrapassado pelo desenvolvimento científico e filosófico do nosso tempo. Já não há lugar, na cultura actual, para os dogmas religiosos e os dogmas materialistas. Entre os cientistas soviéticos é evidente a existência de muitos dissidentes do oficialismo tipo século XIX. O interesse actual da URSS pelas pesquisas parapsicológicas é um indício claro, indício que a China Vermelha se incumbe de confirmar, ao reagir violentamente contra ele. Todos sabemos que o Prof. Raikov (Wladimir) e outros pesquisadores soviéticos, na Universidade de Moscovo e em muitas outras da URSS, se entregam à pesquisa científica da reencarnação, embora disfarçando-a em anomalia mental que tem de ser esclarecida no campo psiquiátrico. A verdade revela-se em toda a parte e, mais hoje, mais amanhã, tornar-se-há evidente.

As câmaras kirlian, de fotografias sobre campos imantados de alta frequência eléctrica, foram descobertas por acaso pelo casal Kirlian e, os cientistas soviéticos mais astutos logo lhes perceberam o alcance. Adaptando-as a poderosos microscópios electrónicos, conseguiram descobrir, no interior dos corpos vivos; vegetais, animais, homens, uma estrutura de plasma físico, constituída de partículas atómicas, que se apresentava como um corpo básico e sustentador da vida e das actividades vitais e psíquicas do corpo material. A importância desta descoberta é de tal dimensão que não poderia ser negligenciada, pois representa uma verdadeira revolução copérnica na Física, na Biologia e na Antropologia, para só citarmos três campos fundamentais. Mas é bom lembrar, de passagem, o que ela representará para a Psicologia, a Medicina, a Psiquiatria e a Psicoterapia em geral. Basta dizer que os soviéticos já descobriram que o corpo-bioplásmico fornece elementos para a verificação do estado geral de saúde do corpo físico, permitindo também a prevenção de doenças e dos distúrbios, nos seres vivos, de qualquer natureza. Por outro lado, as pesquisas realizadas nos Estados Unidos, confirmam a descoberta soviética.

Desde o século passado, vários cientistas se empenharam na descoberta de meios, para provar a existência, no homem, do chamado corpo espiritual ou duplo-etéreo. Em 1943, Raoul Montandon, publicou, na Suíça, um curioso livro intitulado De la Bête à l'Homme (Do Animal ao Homem) relatando pesquisas psicológicas que mostram semelhanças significativas entre o reino animal e o hominal e pesquisas científicas que provavam a existência nos animais de um corpo energético. Essas pesquisas são relatadas no capítulo intitulado Sobrevivência Animal. Várias fotografias batidas com filmes sensíveis à luz infravermelha, de grupos de gafanhotos e insectos mortos com éter, revelavam ao lado dos animais mortos, uma sombra semelhante ao corpo morto, enquanto, ao lado dos que não haviam morrido, mas estavam em estado letárgico, não aparecia a mesma sombra. No capítulo das fotografias psíquicas, batidas ocasionalmente ou em sessões mediúnicas experimentais, os anais espíritas apresentam um volume impressionante de casos significativos, cercados de todos os recursos de garantia da autenticidade do fenómeno.

No caso actual das pesquisas soviéticas, com aparelhagem técnica de precisão, a demonstração da existência desse corpo extrafísico (para usarmos a expressão parapsicológica actual) foi decisiva. Os soviéticos, operando em comissão científica oficial, na Universidade de Alma-Ata, no Casaquestão, fizeram experiências com moribundos e conseguiram verificar a retirada total do corpo-bioplásmico dos mortos, cujos corpos materiais só então se cadaverizavam. Não tendo sido possível fotografar esse corpo depois do seu desprendimento do cadáver, empregaram a técnica de pesquisa por meio de detectores de pulsações biológicas e verificaram, surpreendidos, que as pulsações captadas indicavam a presença do corpo-bioplásmico no ambiente.

Bastam estes dados sumários ao objecto deste livro. Dados mais completos e minuciosos já foram divulgados entre nós com a edição da tradução do livro de Sheila Ostrander e Lynn Schroeder, pesquisadoras norte-americanas que entrevistaram os cientistas soviéticos na URSS, e cujo trabalho foi editado pela imprensa da Universidade de Prentice Hall (USA) e posteriormente pela editora Bantam Books, de Nova Iorque. A descoberta do corpo-bioplásmico constitui uma confirmação científica, proveniente do campo materialista, da teoria do perispírito. Segundo o Espiritismo, o perispírito é o corpo espiritual de que tratou o Apóstolo Paulo na I Epistola aos Corintos. A sua função é servir ao espírito como instrumento para a sua manifestação nos planos materiais. É através dele que o espírito se liga à matéria no processo da encarnação. Durante a Vida terrena ele é o agente das actividades orgânicas. Mantém a vida do corpo e serve de campo padronizador durante o desenvolvimento deste, a partir da fecundação, regendo a formação do embrião. Na morte, o perispírito desliga-se progressivamente do corpo material, que só se cadaveriza com o seu desligamento total. Na maioria das pessoas o perispírito, após a morte, permanece nas proximidades do cadáver por tempo mais ou menos longo, em virtude da atracção que os despojos exercem ainda sobre o espírito. (*) Esse corpo é considerado na doutrina espírita como semi-material, constituído de energias materiais e espirituais em integração. É o corpo da ressurreição, conforme já afirmava o Apóstolo Paulo.

Todas essas características do perispírito são confirmadas pelas observações dos cientistas soviéticos, que consideraram esse corpo como material, constituído por um plasma físico formado de partículas atómicas. Mas um facto intrigante aparece nas pesquisas soviéticas: esse corpo só pode ser visto e fotografado enquanto está ligado ao corpo material. Uma vez desprendido, já não está ao alcance das câmaras kirlian. Somente os detectores de pulsações biológicas podem constatar a sua presença no ambiente. As câmaras kirlian, coma já vimos, só podem agir sabre campos materiais imantados por correntes eléctricas de alta frequência. Desligado do corpo material, o corpo-bioplásmico ou perispírito, não oferece condições para isso. Parece-me evidente o motivo por que ele, então se torna inacessível. Já não está revestido de um campo material, embora contenha na sua própria estrutura, energias materiais. O próprio nome científico dado a esse corpo-bioplásmico, mostra a sua função vital e a sua natureza plásmica. Esse problema entretanto, não é somente físico. Na proporção em que o espírito, liberto da matéria, se vai integrando no mundo espiritual, o seu perispírito se vai libertando dos elementos materiais.

A descoberta deste corpo pelos materialistas, representa a maior vitória do Espiritismo e ao mesmo tempo a conquista mais importante da nossa era científica, pois com ela, a Ciência terrena, dá o primeiro passo para a sua fusão futura com a Ciência espiritual. Este é o sinal mais significativo de que estamos entrando na Era do Espírito. Oliver Lodge referiu-se ao túnel mediúnico, uma via de ligação do mundo material com o mundo espiritual, acentuando que esse túnel vem sendo cavado dos dois lados, pelos homens e pelos espíritos. Quando os trabalhadores daqui e do além se encontrarem, o túnel estará aberto e a comunicação entre os dois planos se tornará tão fácil como as comunicações entre as várias regiões da Terra. Até agora somente os espíritas trabalhavam do lado de cá. De agora por diante, os cientistas também darão a sua cota parte a esse serviço.

A descoberta do corpo-bioplásmico e os estudos sobre as suas funções e a sua estrutura vêm também contribuir para que os enganos das religiões cristãs sejam corrigidos. Pouco a pouco a verdade se impõe e a mentira vai sendo afastada. A Religião, que constitui, como a Filosofia e a Ciência, uma das grandes províncias do Conhecimento, está prestes a retomar o seu lugar no plano cultural. Mas para isso as religiões sectárias deverão seguir aquela advertência de Jesus: perder a sua vida individual para fundir-se na vida colectiva, num processo livre de religiosidade universal que nos dará a Religião em Espírito e Verdade. Foi essa a profecia de Jesus à mulher samaritana.

Não há nenhuma outra saída para a crise religiosa do nosso tempo. As teologias artificiais, como a da Morte de Deus, são ensaios de voo cego num céu vazio, nublado pela dúvida. A realidade é só uma. A confirmação positiva da existência do espírito, através da Ciência em desenvolvimento acelerado, porá um ponto final nas especulações religiosas. E não há nenhuma outra plataforma, na Terra, para a execução dessa reintegração da Religião no campo cultural, além da obra de Kardec. Os homens do futuro, ficarão estarrecidos, ao verem que tivemos todos os dados nas mãos para fazer essa integração no nosso tempo e não conseguimos fazê-la. Perguntarão a si mesmos o que nos faltou e talvez alguém lhes diga: a humildade.
/…

(*) Será, no contexto, a "Cremação" um bem?!... ver também: Nota desta publicação.


José Herculano Pires, Agonia das Religiões / Capítulo 8 – O Corpo-Bioplásmico, 9º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Paraíso Perdido, estudo do Anjo, lápis e giz de Alexandre Cabanel).

domingo, 9 de junho de 2019

~ em torno do mestre


O Pai e o filho ~

"Sede perfeitos como vosso Pai celestial."
(Mateus, 5:48.)

Pai – Que queres filho? Procuras-me com tanta insistência.

Filho – Quero riquezas, meu Pai. Desejo possuir largos cabedais, muitas fazendas, ouro e prata. Aspiro a ser um Creso (i).

Pai – Dar-te-ei o que pretendes, filho; porém, previno-te de que de novo me boscarás, porque não te sentirás satisfeito.

Pai – Aqui estou, filho, que desejas de mim, uma vez que me buscas com tanto interesse?

Filho – Quero saúde, força, vigor físico, resistência. Invejo os Hércules, os Ursos (i), os Titãs.

Pai – Terás o que solicitas de mim, filho. Não obstante advirto-te: de novo me procurarás, porque não te sentirás satisfeito.

Pai – Eis-me aqui, filho. Porque estás assim aflito e me chamas com tamanha impaciência?

Filho – Pai, tenho sede de domínio, de poder, de autoridade. O meu desejo é governar, é conquistar reinos, dominar nações, imperando discricionariamente sobre os povos e raças. Tenho por modelos – Napoleão e Júlio César.

Pai – Será deferida a tua petição, filho. Contudo, permite que te observe: de novo me demandarás, porque não te sentirás satisfeito.

Pai – Porque bates assim sofregamente nos tabernáculos (i) eternos? Sossega, acalma-te e fala.

Filho – Pai, sou ávido de glórias; a fama me fascina, a notoriedade me arrebata. Nenhuma alegria terei, enquanto não lograr este meu intento. Quero perceber sobre a minha fronte a coroa de louros que ostentaram os sábios, os grandes poetas, os escritores célebres. Anseio ser CamõesCíceroHipócrates.

Pai – Serás atendido, alcançando o que tanto ambicionas. Todavia, aviso-te de que de novo voltarás à minha procura, por isso que não te sentirás satisfeito.

Pai – Aqui estou, filho, pede o que desejas, dize o que pretendes de mim.

Filho, finalmente – Pai, quero amar e ser amado. Sinto incontido anseio de expandir o meu coração. Vejo-me constrangido numa atmosfera asfixiante. O meu sonho é amar amplamente, incomensuravelmente. O meu maior desejo é sentir palpitar em mim a vida de todos os seres. Quero o amor sem restrições, ilimitado, infinito. Quero amar com toda a capacidade de meu coração, assim como os pulmões sadios respiram na floresta, nos montes, nos campos e nos bosques!

– O meu ideal, Pai, é o Filho de Maria, o Profeta de Nazaré, aquele que morreu na cruz pelo amor da Humanidade.

Pai – Sê bendito, meu filho. Terás aquilo a que tão sabiamente aspiras. Não me procurarás mais, porque sentirás em ti a plenitude da vida: de ora em diante serás uno comigo.


O Mestre e o discípulo ~

Discípulo – Senhor, sinto-me desalentado diante das iniquidades do século. Parece que nunca os homens se mostraram tão avessos à razão e ao sentimento, como nestes tempos.

Mestre – Desalentado? Porquê? Duvidas, por acaso, da segurança do Universo? Desalento é fraqueza, é falta de fé.

Discípulo – Quero ter fé, Senhor, mas vejo a cada passo surgirem tais impedimentos e tais embaraços à vinda do reino de Deus, que o desânimo me invade a alma.

Mestre – És mais carnal que espiritual. A precipitação é peculiar ao homem. Quando se estabelece o domínio do Espírito, o coração se acalma, serenam as paixões e a fé, existe, não vacila mais. A pressa é, não só inimiga da perfeição, como também da razão. Os atrabiliários insofridos nunca arrazoam com acerto. O reino de Deus há de vir e está a vir a cada momento, para aqueles que o querem e o sabem querer. A vontade de Deus há de ser feita na Terra, como já o é nos céus. Espera e confia, vigia e ora. Não deves medir o curso das ideias como medes o curso da tua existência: esta se escoa através de alguns dias fugazes, enquanto que aquelas se agitam no transcorrer dos séculos e dos milénios.

Discípulo – Bem sei, Senhor, que deve ser como dizes. Eu supunha, no entanto, que a obra da evolução caminhasse sem intermitências; por isso queria vê-la em marcha ascensional, triunfando dos óbices e tropeços com que os homens, na sua ignorância e maldade, costumam juncar-lhe o caminho. Esta vitória do mal sobre o bem, da opressão sobre a liberdade me amargura e angustia. Tal vitória é certamente efémera; contudo, é um entrave à evolução, é uma pedra de tropeço que, não se sabe por quanto tempo, conservará o carro do progresso entravado.

Mestre – Enganas-te. A evolução é uma lei imutável. Não há forças, não há potências conjugadas capazes de a impedir, nem mesmo de embaraçar-lhe a acção e a eficiência. Nem um só momento a obra da evolução sofreu interrupções na eternidade do tempo e no infinito do espaço.

Discípulo – Como explicas, então, Senhor, a iniquidade, a tirania, a mentira e a corrupção, que ora imperam na sociedade terrena? O mundo estará evoluindo sob o influxo de tais elementos?

Mestre – Erras nos teus juízos, pelos motivos já expostos. Ignoras que é precisamente sofrendo iniquidades e suportando opressão que o homem vai compreender o valor da justiça e da liberdade? Não sabes que só a experiência convence os Espíritos rebeldes? Não vês como os doentes amam a saúde, como os oprimidos sonham com a liberdade e os perseguidos suspiram pela justiça? Julgas que esta geração adúltera e incrédula se converta apenas com os testemunhos do céu e com as palavras de amor expressas no Evangelho do reino? Supões que todos se amoldam à graça sem o aguilhão da lei? Em mundos como este, é preciso privar os seus habitantes de certos bens, para que se inteirem do valor e importância desses mesmos bens. Suportando injustiças e afrontas, vendo os seus direitos postergados pelo despotismo, os homens aprenderão a venerar a justiça, subordinando-lhe os interesses temporais e tornando-se capazes de renúncias e de sacrifícios em prol do seu advento.

Discípulo – Começo a ver luz onde tudo se me afigurava escuro. Todavia, Senhor, seja-me permitido ainda algumas perguntas.

Mestre – Pede e receberás; bate e se te abrirá, busca e encontrarás.

Discípulo – De tal modo, a obra da redenção jamais se interrompe e, mesmo através de todas as anomalias, ela se realiza fatalmente?

Mestre – De certo: se assim não fora, a Suprema Vontade não se cumpriria e Deus deixaria de ser Deus. A evolução, no que respeita ao Espírito, opera-se pela educação dos seus poderes e faculdades latentes. Ora, todas as vicissitudes, todas as lutas, todos os sofrimentos, em suma, contribuem para incentivar o desenvolvimento das possibilidades anímicas. Assim, pois, quer o Espírito goze os salutares efeitos da prática do bem e da conduta recta; quer suporte as amargas consequências do mal cometido, da negligência no cumprimento do dever, da corrupção a que se entregue, ele estará a educar-se e, portanto, evolvendo. Pelo amor e pela dor, sob a doçura da graça, ou sob a inflexibilidade da lei – caminhará, sempre, em demanda dos altos destinos que lhe estão reservados.

Discípulo – Falas na santa obra da educação. Feriste, Senhor, o alvo, o eixo em torno do qual giram as minhas lucubrações mais acuradas. Compreendo muito bem a importância da educação. Vejo claramente que só a religião da educação, tal como ensinaste e exemplificaste, pode salvar a Humanidade. Mas, como vingará esta fé, se os dirigentes, os dominadores de consciências, aqueles, enfim, que têm ascendência sobre o povo são os primeiros a deseducá-lo, a corrompê-lo, premiando os caracteres fracos e venais que se sujeitam aos seus caprichos e perseguindo os poucos que, capazes de sofrer pela justiça e pela verdade, pelo direito e pela liberdade, resistem ao despotismo do século? Tal processo de corrupção não invalidará, pelo menos por tempo indeterminado, a eficiência da educação?

Mestre – Nada há encoberto que não seja descoberto, nem algo oculto que se não venha a saber. Falas em processo de corrupção que poderá deseducar o povo. Ignoras, então, que o Espírito educado jamais se deseduca? A lei é avançar e não retroagir. Os que se submetem às influências dos maus e dos prevaricadores, deixando-se corromper por falaciosas promessas, são Espíritos fracos, egoístas e amigos da ociosidade, da vida cómoda e fácil. São os tais que entram pela porta larga e transitam pela estrada espaçosa e ampla que conduz à perdição. É possível que tais indivíduos se abastardem ao extremo, levados pelos corruptores de consciências; mas, o dia do despertar há de chegar. Tanto maior será a reacção quanto mais o Espírito se tenha degradado. E, às vezes, é o único meio de corrigir os cínicos, os hipócritas e os indolentes.

Discípulo – E os empreiteiros da corrupção, até quando continuarão entregues a tão abjecta tarefa?

Mestre – Eles são instrumentos inconscientes de punição. Os homens castigam-se mutuamente. São semelhantes aos seixos que rolam no fundo dos rios, arrastados pela corrente das águas. No começo, eram ásperos e arestosos, mas, à força de se entrechocarem e se friccionarem, acabam alisando-se, tornando-se polidos e brunidos, como trabalhados por mão de artista. Cumpre notar ainda que a cada um será dado segundo as suas obras. O déspota de hoje será a vítima de amanhã – pois quem com ferro fere com ferro será ferido.

Discípulo – Estás com a razão, Senhor. És, de facto, o caminho, a verdade e a vida. És a luz do mundo.

Mestre – Lembra-te do que eu disse: Vós sois o sal da Terra e a luz do mundo. Não se acende uma candeia para colocá-la debaixo dos móveis, mas no velador, para que a todos ilumine. Portanto, não basta que me consideres luz, é preciso que te tornes luz.

Discípulo – Cada vez mais me arrebatas com a tua luz, aclarando os problemas da vida, tornando acessíveis a todas as inteligências os mais complexos problemas sociais.

Mestre – Confessas que tens entendido o que eu disse? Bem-aventurado serás, se puseres em prática os meus ensinamentos. Não te esqueças: se os praticares. Trata, pois, de descobrir o reino de Deus em ti mesmo, no teu coração; depois, procura implantá-lo no teu lar; depois, na tua rua; depois, no mundo. Não tenhas pressa. Confia e espera, vigia e ora. Não penses em fazer o mais, antes de fazer o menos. No Universo, tudo é ordem e harmonia.

/...

" Aos que comigo crêem e sentem as revelações do Céu, comprazendo-se na sua doce e encantadora magia, dedico esta obra. "
                                                                                Pedro de Camargo “Vinícius”


Pedro de Camargo “Vinícius” (i)Em torno do MestrePrimeira Parte / Seixos e Gravetos; O Pai e o filho / O Mestre e o discípulo, 6º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Jesus em casa de Marta e Maria, óleo sobre tela (1654-1655), de Johannes Vermeer)

domingo, 12 de maio de 2019

Hippolyte Léon Denisard Rivail

Revue Spirite |

Notas Bibliográficas

A RAZÃO DO ESPIRITISMO (*)

POR MICHEL BONNAMY

Juiz de instrução; membro dos congressos científicos de França; antigo membro do conselho geral de Tarn-et-Garonne.

Quando apareceu o romance Mirette, os Espíritos disseram estas palavras notáveis na Sociedade de Paris:

“O ano de 1866 apresenta a filosofia nova sob todas as formas; mas ainda é a haste verde que contém a espiga de trigo e, para a mostrar, espera que o calor da primavera a tenha amadurecido e feito desabrochar. 1866 preparou, 1867 amadurecerá e realizará. O ano vai abrir sob os auspícios de "Mirette" e não se esvairá sem ver aparecerem novas publicações do mesmo género e mais sérias ainda, no sentido em que o romance há de tornar-se filosofia e a filosofia se fará história.” (Revista de Fevereiro de 1867).

Anteriormente eles já haviam dito que se preparavam diversas obras sérias sobre a filosofia do Espiritismo, nas quais o nome da doutrina não seria timidamente dissimulado, mas confessado e proclamado em voz alta por homens cujo nome e posição social dariam peso à sua opinião e; acrescentáram que o primeiro apareceria provavelmente no fim do presente ano.

A obra que anunciamos realiza completamente esta previsão. É a primeira publicação deste género na qual a questão é encarada em todas as suas partes e em toda a sua grandeza. Pode, pois, dizer-se que inaugura uma das fases da existência do Espiritismo. O que a caracteriza é que não é uma adesão banal aos princípios da doutrina, uma simples profissão de fé, mas uma demonstração rigorosa, onde os próprios adeptos encontrarão novas ideias. Lendo esta argumentação cerrada, levada, a bem dizer, até a minúcia e, por um encadeamento lógico das ideias, perguntar-se-á, certamente, por que singular extensão do vocábulo se poderia aplicar ao autor o epíteto de louco. Se é um louco que assim discute, poder-se-á dizer que às vezes os loucos tapam a boca de gente que se diz sensata. É uma defesa exemplar, onde se reconhece o advogado que quer reduzir a réplica aos seus últimos limites; mas aí se reconhece, também, aquele que estudou a causa seriamente e a perscrutou nos seus mais minuciosos detalhes. O autor não se limita a emitir a sua opinião: ele a motiva e dá a razão de ser de cada coisa. É por isso que, com toda a justiça, intitulou o seu livro de A Razão do Espiritismo.

Ao publicar esta obra, sem esconder a sua personalidade nem com o mais pequeno véu, o autor prova que tem a verdadeira coragem da sua opinião e, o exemplo que dá é um título ao reconhecimento de todos os espíritas. O ponto de vista em que se colocou é principalmente o das consequências filosóficas, morais e religiosas, as que constituem o objectivo essencial do Espiritismo e dele faz uma obra humanitária.

Aliás, eis como ele se expressa no prefácio.

“Está nas vicissitudes das coisas humanas, ou, melhor dizendo, parece fatalmente reservado a toda a ideia nova ser mal acolhida no seu aparecimento. Como, a maior parte das vezes, tem por missão derrubar ideias que a precederam, encontra muito grande resistência da parte do entendimento humano.

“O homem que viveu com preconceitos não acolhe senão com desconfiança a recém-chegada, que tende a modificar, a destruir mesmo combinações e ideias fixas no seu espírito, a forçá-lo, numa palavra, a meter mãos à obra, para correr atrás da verdade. Aliás, sente-se humilhado no seu orgulho, por ter vivido no erro.

“A repulsa que inspira a ideia nova é muito mais acentuada ainda quando traz consigo obrigações, deveres; quando impõe uma linha de conduta mais severa.

“Ela encontra enfim ataques sistemáticos, ardentes, obstinados, quando ameaça posições conquistadas e, sobretudo quando se defronta com o fanatismo ou com opiniões profundamente arraigadas na tradição dos séculos.

“As doutrinas novas, pois, têm sempre numerosos detractores; muitas vezes elas têm mesmo que sofrer perseguição, o que levou Fontenelle a dizer: ‘Que se tivesse todas as verdades na mão, teria o cuidado de não a abrir.’

“Tais eram o desfavor e os perigos que esperavam o Espiritismo aquando do seu aparecimento no mundo das ideias. Os insultos, a zombaria, a calúnia não lhe foram poupados e; talvez, também venha o dia da perseguição. Os adeptos do Espiritismo foram tratados por iluminados, alucinados, patetas e loucos e, a essa enxurrada de epítetos que, todavia, pareciam contradizer-se e excluir-se, acrescentaram os de impostores, charlatães e, finalmente, de partidários de Satã.

“A qualificação de louco é a que parece mais especialmente reservada a todo o promotor ou propagador de ideias novas. É assim que trataram de louco o primeiro que se atreveu a dizer que a Terra girava em volta do Sol.

“Também era louco o célebre navegador que descobriu um novo mundo. Ainda era louco, para o areópago (i) da Ciência, o que descobriu a força do vapor. E a douta assembleia acolheu, com sorriso desdenhoso, a sábia dissertação de Franklin sobre as propriedades da electricidade e a teoria do pára-raios.

“Ele também, o divino regenerador da Humanidade, o reformador autorizado da lei de Moisés, não foi tratado de louco? Não expiou por um suplício ignominioso a propagação dos benefícios da moral divina na Terra?

Galileu não expiou como herético, num sequestro cruel e em amargas perseguições morais, a glória de ter sido o primeiro a ter a iniciativa do sistema planetário cujas leis Newton haveria de promulgar?

“São João Baptista (i), o precursor do Cristo, também tinha sido sacrificado à vingança dos culpados, cujos crimes condenara.

“Os apóstolos, depositários dos ensinamentos do divino Messias, tiveram que selar com sangue a santidade de sua missão. E a religião reformada por sua vez não foi perseguida e, depois dos massacres de São Bartolomeu, não teve que sofrer as dragonadas?

"Enfim, remontando até ao ostracismo inspirado por outras paixões, vemos Aristides exilado e Sócrates condenado a beber cicuta.

“Sem dúvida, graças aos costumes suaves que caracterizam o nosso século, sob o império das nossas instituições e das luzes que põem um freio à intolerância fanática; as fogueiras já não se erguerão para purificar com as suas chamas as doutrinas espíritas, cuja paternidade pretendem fazer remontar a Satã. Mas elas também devem esperar um levante dos mais hostis e o ataque de ardentes adversários.

“Entretanto, este estado militante não poderia debilitar a coragem dos que estão animados de uma convicção profunda, dos que têm a certeza de ter nas mãos uma dessas verdades fecundas, que constituem, nos seus desdobramentos, um grande benefício para a Humanidade.

“Mas, seja como for o antagonismo das ideias ou das doutrinas que o Espiritismo suscitar; sejam quais forem os perigos que devam abrir-se debaixo dos pés dos adeptos, o espírita não poderia deixar esta luz debaixo do alqueire e recusar-se a dar-lhe todo o brilho que ela comporta, o apoio das suas convicções e o testemunho sincero de sua consciência.

“O Espiritismo, revelando ao homem a economia da sua organização, iniciando-o no conhecimento dos seus destinos, abre um campo imenso às suas meditações. Assim o filósofo espírita, chamado a levar as suas investigações a esses novos e esplêndidos horizontes só tem por limites o infinito. Assiste, de certo modo, ao conselho supremo do Criador. Mas o entusiasmo é o escolho que deve evitar, sobretudo quando lança as suas vistas sobre o homem, tornado tão grande e que, no entanto, por orgulho se faz tão pequeno. Não é senão quando esclarecido pelas luzes de uma prudente razão e, tomando por guia a fria e severa lógica, que deve dirigir as suas peregrinações no domínio da ciência divina, cujo véu foi erguido pelos Espíritos.

“Este livro é o resultado dos nossos próprios estudos e das nossas meditações sobre este assunto que, desde o início, nos pareceu de importância capital e ter consequências da mais alta gravidade. Reconhecemos que estas ideias têm raízes profundas e nelas entrevimos a aurora de uma nova era para a sociedade. A rapidez com que se propagam é um indício de sua próxima admissão no número das crenças aceites. Na razão da sua importância, não nos contentámos com afirmações e argumentos da doutrina; não só nos assegurámos da realidade dos factos, mas perscrutámos com minuciosa atenção os princípios deles decorrentes; buscámos a sua razão com fria imparcialidade, sem negligenciar o estudo não menos consciencioso das objecções que os antagonistas opõem; como um juiz que escuta as duas partes contrárias, pesámos maduramente os prós e os contras. Só depois de haver adquirido a convicção de que as alegações contrárias nada destroem; que a doutrina repousa sobre bases sérias, numa lógica rigorosa e, não em devaneios quiméricos; que contém o gérmen de uma renovação salutar do estado social, minado secretamente pela incredulidade; que é, enfim, uma poderosa barreira contra a invasão do materialismo e da desmoralização é, que julgámos dever dar a nossa apreciação pessoal e, as deduções que tirámos de um estudo atento.

“Assim, tendo encontrado uma razão de ser nos princípios desta nova ciência, que tem lugar reservado entre os conhecimentos humanos, intitulámos o nosso livro A Razão do Espiritismo. Este título é justificado pelo ponto de vista sob o qual encaramos o assunto e, os que nos lerem reconhecerão sem dificuldade que este trabalho não é produto de um entusiasmo leviano, mas de um exame maduro e friamente reflexivo.

“Estamos convictos de que, quem quer que, sem partido preconcebido de oposição sistemática, fizer, como nós fizemos, um estudo consciencioso da Doutrina Espírita, a considerará como uma das coisas que interessam no mais alto grau ao futuro da Humanidade.

“Dando a nossa adesão a esta doutrina, usamos do direito de liberdade de consciência, que a ninguém pode ser contestado, seja qual for a sua crença. Com mais forte razão esta liberdade deve ser respeitada, quando tem por objectivo princípios da mais alta moralidade, que conduzem os homens à prática dos ensinamentos do Cristo e, por isso mesmo, são a salvaguarda da ordem social.

“O escritor que consagra a sua pena a traçar as impressões que tais ensinamentos deixaram no santuário da sua consciência, deve guardar-se bem de confundir as elucubrações brotadas no seu horizonte terrestre com os raios luminosos partidos do céu. Se ele se limitar aos pontos obscuros ou ocultos às suas explicações, pontos que ainda não lhe é dado conhecer é, que, aos olhos da sabedoria divina, ficam reservados para um grau superior na escala ascendente de sua depuração progressiva e de sua perfectibilidade.

“Todavia, apressemo-nos a dizê-lo, todo o homem convicto e consciencioso, consagrando as suas meditações à difusão de uma verdade fecunda para a felicidade da Humanidade, mergulha a sua pena na atmosfera celeste, onde o nosso globo está imerso e, recebe incontestavelmente a centelha da inspiração.”

A indicação do título dos capítulos dará a conhecer o quadro abarcado pelo autor.

1. Definição do Espiritismo. – 2. Princípio do bem e do mal. – 3. União da alma com o corpo. – 4. Reencarnação. – 5. Frenologia. (i) – 6. Pecado original. – 7. O inferno. – 8. Missão do Cristo. – 9. O purgatório. – 10. O céu. – 11. Pluralidade dos globos habitados. – 12. – A caridade. – 13. – Deveres do homem. – 14. Perispírito. (i) – 15. Necessidade da revelação. – 16. Oportunidade da revelação. – 17. Os anjos e os demónios. – 18. Os tempos preditos. – 19. A prece. – 20. A fé. – 21. Resposta aos insultadores. – 22. Resposta aos incrédulos, ateus ou materialistas. – 23. Apelo ao clero.

Lamentamos que a falta de espaço não nos permita reproduzir tantas passagens quanto desejaríamos. Limitar-nos-emos a algumas citações.

Cap. III, pág. 41. – “A utilidade recíproca e indispensável da alma e do corpo para a sua cooperação respectiva constitui, pois, a razão de ser de sua união. Ela constitui, a mais, para o Espírito, as condições militantes na via do progresso, onde é chamado a conquistar a sua personalidade intelectual e moral.

“Como é que esses dois princípios realizam normalmente, no homem, o fim de sua destinação? Quando o Espírito é fiel às suas aspirações divinas, restringe os instintos animais e sensuais do corpo e os reduz à sua acção providencial na obra do Criador; desenvolve-se, cresce. É a perfeição da obra que se realiza. Chega à felicidade, cujo último termo é inerente ao grau supremo da perfectibilidade.

“Se, ao contrário, abdicando da soberania que é chamado a exercer no corpo, cede ao arrastamento dos sentidos e, se aceita as suas condições de prazeres terrestres como único objectivo de suas aspirações, falseia a razão de ser de sua existência e, longe de realizar os seus destinos, fica estacionário; ligado a esta vida terrestre que, entretanto, não deveria ter sido para ele senão uma condição acessória, pois não poderia ser o seu fim, o Espírito, de chefe que era, torna-se subordinado; como insensato, aceita a felicidade terrena que os sentidos lhe fazem experimentar e que lhe propõem satisfazer, assim abafando nele a intuição da verdadeira felicidade que lhe está reservada. Eis a sua primeira punição.”

No capítulo XII, do inferno, pág. 99, encontramos esta notável apreciação da morte e dos flagelos destruidores:

“Seria enumerando os flagelos que espalham sobre a Terra o terror e o pânico, o sofrimento e a morte, que acreditariam poder dar a prova das manifestações da cólera divina?

“Sabei, pois, temerários evocadores das vinganças celestes, que os cataclismos que assinalais, longe de terem o carácter exclusivo de um castigo infligido à Humanidade, são, ao contrário, um acto da misericórdia divina, que fecha a esta o abismo onde a precipitavam as suas desordens e, lhe abre as vias do progresso, que a levarão ao caminho que deve seguir para assegurar a sua regeneração.

“Que são esses cataclismos, senão uma nova fase na existência do homem, uma era feliz, marcando para os povos e a Humanidade inteira o ponto providencial do seu adiantamento?

“Sabei, pois, que a morte não é um mal. Farol da existência do Espírito, ela é sempre, quando vem de Deus o, sinal de sua misericórdia e de sua assistência benfazeja. A morte é apenas o fim do corpo, o termo de uma encarnação e, nas mãos de Deus é, o aniquilamento de um meio corruptor e vicioso, a interrupção de uma corrente funesta, à qual, num momento solene, a Providência arranca o homem e os povos.

“A morte não é senão uma interrupção na prova terrestre. Longe de prejudicar o homem, ou antes, o Espírito, ela o chama a recolher-se no mundo invisível, seja para reconhecer as suas faltas e as lamentar, seja para se esclarecer e se preparar, por firmes e salutares resoluções, para retomar as provas da vida terrestre.

“A morte só gela o homem de pavor porque, muito identificado com a Terra, não tem fé no seu augusto destino, do qual este globo não passa de dolorosa oficina, na qual se deve realizar a sua depuração.

“Cessai, pois, de crer que a morte seja um instrumento de cólera e de vingança nas mãos de Deus; sabei, ao contrário, que ela é ao mesmo tempo a expressão de sua misericórdia e de sua justiça, seja detendo o mau na vida da iniquidade, seja abreviando o tempo de provas ou de exílio do justo sobre a Terra.

“E vós, ministros do Cristo, que do alto do púlpito da verdade proclamais a cólera e a vingança de Deus e, pareceis, por vossas eloquentes descrições da fantástica fornalha, atiçar as chamas inextinguíveis para devorar o infeliz pecador; vós que, dos vossos lábios tão autorizados, deixais cair esta aterradora epígrafe: ‘Jamais! – Sempre!’ então esquecestes as instruções de vosso divino Mestre?

Ainda citaremos as seguintes passagens, extraídas do capítulo sobre o pecado original.

“Em vez de criar a alma perfeita, quis Deus que não fosse senão por longos e constantes esforços que ela chegaria a desprender-se deste estado de inferioridade nativa e gravitar para os seus augustos destinos.

“Para chegar a esses fins, deve ela, pois, romper os laços que a prendem à matéria, resistir ao arrastamento dos sentidos, com a alternativa de sua supremacia sobre o corpo, ou da obsessão exercida sobre ela pelos instintos animais.

“É destes laços terrestres que lhe importa libertar-se e que nela constituem, eles mesmo, as condições de sua inferioridade; eles não são outros senão o suposto pecado original, o alvéolo que cobre a sua essência divina. O pecado original constitui, assim, o ascendente primitivo que os instintos animais devem ter exercido, inicialmente, sobre as aspirações da alma. Tal é o estado do homem que o Génesis quis representar sob a figura simples da árvore da ciência do bem e do mal. A intervenção da serpente tentadora não é outra coisa senão os desejos da carne e a solicitação dos sentidos; o Cristianismo consagrou esta alegoria como um facto real, ligando-se à existência do primeiro homem; e, é sobre este facto que baseou o dogma da redenção.

“Colocado deste ponto de vista, é preciso reconhecê-lo, o pecado original deve ter sido, com efeito e, realmente foi, o de toda a posteridade do primeiro homem e, assim o será durante uma longa sucessão de séculos, até à libertação completa do Espírito das opressões da matéria, libertação que, sem dúvida, tende a realizar-se, mas que ainda não se fez nos nossos dias.

“Numa palavra, o pecado original constitui as condições da natureza humana trazendo os primeiros elementos de sua existência, com todos os vícios que ela gerou.

“O pecado original é o egoísmo, é o orgulho que presidem a todos os actos da vida do homem;

“É o demónio da inveja e do ciúme que roem o seu coração;

“É a ambição que perturba o seu sono;

“É a cupidez, que não pode saciar a avidez do lucro;

“É o amor e a sede de ouro, este elemento indispensável para dar satisfação a todas as exigências do luxo, do conforto e do bem-estar, que persegue o século com tanto ardor.

“Eis o pecado original proclamado pelo Génesis e, que o homem sempre ocultou em si; ele só será apagado no dia em que, compenetrado dos seus altos destinos, o homem abandonar, conforme a lição do bom La Fontaine, a sombra pela presa; o dia em que renunciar à miragem da felicidade terrena, para voltar todas as suas aspirações para a felicidade real, que lhe está reservada.

“Que o homem aprenda, pois, a tornar-se digno do seu título de chefe entre todos os seres criados e, da essência etérea emanada do próprio seio do seu Criador e de que está repleto. Que seja forte para lutar contra as tendências do seu envoltório terrestre, cujos instintos são estranhos às suas aspirações divinas e não poderiam constituir a sua personalidade espiritual; que o seu único objectivo seja sempre gravitar para a perfeição do seu fim último e, o pecado original já não existirá para ele.”

Sr. Bonnamy já é conhecido dos nossos leitores, que puderam apreciar a firmeza, a independência do seu carácter e a elevação dos seus sentimentos, pela notável carta que publicámos na Revista de Março de 1866, no artigo intitulado: O Espiritismo e a Magistratura. Ele vem hoje, por um trabalho de alto alcance, emprestar resolutamente o apoio e a autoridade do seu nome a uma causa que, na sua consciência, considera como a da Humanidade.

Entre os adeptos já numerosos que o Espiritismo conta na magistratura, o Sr. Jaubert, vice-presidente do tribunal de Carcassonne e, o Sr. Bonnamy, juiz de instrução em Villeneuve-sur-Lot, são os primeiros que abertamente arvoraram a bandeira. E o fizeram, não no dia seguinte à vitória, mas no momento da luta, quando a doutrina é alvo dos ataques dos seus adversários e, quando os seus aderentes ainda estão sob o golpe da perseguição. Os espíritas actuais e os do futuro saberão apreciá-lo e não o esquecerão. Quando uma doutrina recebe os sufrágios de homens tão justamente considerados é, a melhor resposta às diatribes (i) de que ela possa ser objecto.

A obra do Sr. Bonnamy marcará os anais do Espiritismo, não só como a primeira à data no seu género, mas, sobretudo, pela sua importância filosófica. O autor aí examina a doutrina em si mesma, discute os seus princípios, dos quais tira a quintessência (i), fazendo abstracção completa de todo o personalismo o, que exclui qualquer pensamento corporativista.


NO PRELO

PARA APARECER EM DEZEMBRO

A Génese, os Milagres e as Profecias SEGUNDO O ESPIRITISMO
POR ALLAN KARDEC

1 vol. in-12, de 500 páginas

Allan Kardec

/…

(*)
 Um volume in-12; Preço: 3 francos; pelo correio: 3,35 francos. Livraria Internacional, 15, Boulevard Montmartre, Paris.
"Aceder ao original francês (i). Nota desta plublicação.

Nota desta publicação: "Julgamos, estas duas notícias terem interesse actualmente. Foram publicadas na Revue, de Novembro de 1867. Através delas – viajamos na sustentação das ideias emancipadoras coligidas por Kardec – aquando, também, de levar ao prelo a sua obra A Génese. No que contou, na primeira notícia, com a colaboração de uma figura maior a, do providencial Sr. Bonnamy (**), que aqui nos concedeu o seu vivo testemunho e muitas palavras honrosas de gratidão ao Espiritismo e, que realizou uma obra notável de índole espírita; da qual a primeira notícia é exemplo e nela nos deixou exímios recados concernentes às boas práticas de orientação no estudo e na divulgação da doutrina e, um rol inumerável de alertas (muito sérios!) aos párias em redenção no planeta Terra.


Allan Kardec (i), aliás, Hippolyte Léon Denisard Rivail, A RAZÃO DO ESPIRITISMO, POR MICHEL BONNAMY (**) / Juiz de instrução; membro dos congressos científicos de França; antigo membro do conselho geral de Tarn-et-Garonne, No Prelo... | Jornal de Estudos Psicológicos de Novembro de 1867, Publicação sob a direcção de Allan Kardec, 5º fragmento da Revista objecto do presente titulo desta publicação.
(imagem de contextualização: Dança rebelde, 1965 – Óleo sobre tela, de Noêmia Guerra)