Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Deus na Natureza ~

A Força e a Matéria II – O Céu ~

               A contemplação da Natureza oferece ao homem culto, sem lugar a contestação, inefáveis, particulares encantos. Na organização dos seres descobre-se o incessante movimento dos átomos que os compõem, tanto quanto a permuta constante e operante entre todas as coisas.

   Justa é a nossa admiração por tudo o que vive na superfície da Terra. O mesmo calor solar, que mantém no estado líquido a água dos rios e dos mares, conduz a seiva à fronde das árvores e faz pulsar o coração dos abutres e das pombas. A luz que espalha a viço nos prados e nutre as plantas com um sopro impalpável também povoa a atmosfera de maravilhosas belezas aéreas. O som que estremece a folhagem canta na orla dos bosques, ruge nas plagas marinhas. Em tudo vemos, enfim, uma correlação de forças físicas, que abrange num mesmo sistema a totalidade da vida sob a comunhão das mesmas leis. Ora, quanto mais fervente for a nossa admiração pelo esplendor da vida planetária, mais extensiva e aplicável se tornará, em relação aos mundos que aí fulguram acima de nossas cabeças, no cenáculo das noites silenciosas. Esses mundos longínquos que, como o nosso, se embalam no mesmo éter, sob o império das mesmas energias e das mesmas leis, são igualmente sedes de actividade e vida. Poderíamos apresentar este grandioso e magnífico espectáculo da vida universal como eloquente testemunho da inteligência, sabedoria e omnipotência da causa anónima, que houve por bem reverberar, dos primórdios da Criação, o seu mágico esplendor no espelho da Natureza criada. Mas, não é sob este prisma que desejamos aqui desdobrar o panorama das grandezas celestes. Apenas, para o teatro das leis que regem o nosso mundo, queremos convocar os negadores da inteligência criadora.

   Se, abrindo os olhos diante desse espectáculo, eles persistirem na sua negativa, já não teremos como nos eximir de responder-lhes, em consciência, que também duvidaremos de suas faculdades mentais. Porque, para falar com franqueza, a inteligência do Criador parece-nos infinitamente mais curta e incontestável que a dos ateus franceses e estrangeiros.

   E, como o método positivo consiste em não julgar antes de observar os factos, temos o dever de examinar primeiro os factos astronómicos de que falamos e depois da interpretação com que se satisfazem os nossos antagonistas. Se, depois disso, essa sua interpretação satisfizer, subscreveremos de antemão as suas doutrinas; mas, se, ao contrário, se revelar insensata, temos, como dever de honra e por amor à verdade, de a desmascarar e entregar ao apupo da plateia.

   Esqueçamos por momentos o átomo terrestre, no qual o destino nos fixou por alguns dias. Que o nosso espírito se lance ao espaço e veja rolar diante de si o mecanismo gigantesco – mundos e mundos, sistemas após sistemas, na infinita sucessão de universos estrelados. Ouçamos, com Pitágoras, as harmonias siderais nas amplas e céleres revoluções das esferas e contemplemos, na sua realidade, esses movimentos simultaneamente vertiginosos e regulares que enfeudam as terras celestes nas suas órbitas ideais. Observamos que a Lei suprema, universal, dirige esses mundos. Em torno do nosso sol, centro, foco luminoso, eléctrico, calorífico do sistema planetário, giram os planetas obedientes. Os mais extraordinários labores do espírito humano deram-nos a fórmula da lei, que se divide em três pontos fundamentais, conhecidos em Astronomia por leis de Kepler, laborioso sábio que a descobriu graças ao seu génio, como à sua paciência, e que discutiu opiniaticamente, 17 anos, as observações do seu mestre Tycho-Braheantes que distinguisse sob o véu da matéria a força que a rege.

   Esses três pontos são:

   1º – Cada planeta descreve em torno do Sol uma órbita elíptica, na qual o centro do Sol ocupa sempre um dos focos.

   2º – As áreas (ou superfícies) descritas pelo raio vector (*) de um planeta em volta do foco solar são proporcionais aos tempos que levam a descrevê-las.

   3º – Os quadrados dos tempos de revolução planetária, em torno do Sol, são proporcionais aos cubos dos grandes eixos orbitários.

   (*) Assim se denomina a linha ideal que liga um planeta ao Sol.

   A síntese dessas leis integra o grande axioma que Newton foi o primeiro a formular na sua obra imortal sobre os Princípios.

   Nesse livro, ensina-nos ele – como bem adverte Herschel – que todos os movimentos celestes são consequências da lei, isto é: – que duas moléculas materiais se atraem na razão directa do volume de suas massas e na inversa do quadrado das distâncias. Partindo deste princípio, ele explica como a atracção exercida entre as grandes massas esféricas, componentes do nosso sistema, é regulada por uma lei cuja expressão é exactamente idêntica, como os movimentos elípticos dos planetas em volta do Sol e dos satélites à volta dos planetas, tal como os determinou Képler, se deduzem consequentes necessários da mesma lei, e como as próprias órbitas dos cometas não são mais que casos particulares dos movimentos planetários. Passando em seguida às aplicações difíceis, faz-nos ver como as desigualdades tão complicadas do movimento lunar se prendem à acção perturbadora do Sol, assim como se originam as marés da desigualdade de atracção que esses dois astros exercem sobre a Terra e o oceano que a rodeia. E demonstra-nos, enfim, como também a precessão dos equinócios não passa de consequência necessária da mesma lei.

   Pois é à execução dessas leis que está confiada a harmonia do sistema planetário; é a elas que os mundos devem os seus anos, as suas estações, os seus dias; é nelas que haurem a luz e o calor distribuídos em diversos graus pela fonte cintilante; é delas que derivam a eclosão da vida, a forma e ornamento dos corpos celestes. Sob a acção incoercível dessas forças colossais, os mundos se transportam no espaço com a rapidez do relâmpago e percorrem centenas de mil léguas por dia, sem parar, seguindo estritamente a rota certa e previamente traçada por essas mesmas forças.

   Se nos fosse dado libertar-nos um momento das aparências, sob cujo império nos acreditamos em repouso no centro do Universo, e se pudéramos abranger num olhar de conjunto os movimentos que animam todas as esferas, haveríamos de ficar surpreendidos com a imponência desses movimentos. Aos nossos olhos maravilhados, enormíssimos globos turbilhonariam rápidos sobre si mesmos, projectados no vácuo a toda a velocidade, quais gigantescas balas que uma força de projecção inimaginável houvesse enviado ao infinito. Admiramo-nos desses comboios ferroviários que devoram distâncias como dragões flamantes e, no entanto, os globos celestes mais volumosos que a nossa Terra deslocam-se com uma rapidez que ultrapassa a das locomotivas tanto quanto a destas ultrapassa a das tartarugas. A terra que habitamos, por exemplo, percorre o espaço com a velocidade de seiscentos e cinquenta mil léguas por dia. Rodeando esses mundos, veríamos satélites em circulação e a distâncias diferentes, mas adstritos e submissos às mesmas leis. E todas essas repúblicas flutuantes inclinam os pólos alternativamente para o calor e para a luz, a gravitarem sobre o próprio eixo, apresentando, cada manhã, os diferentes pontos de sua superfície ao beijo do astro-rei. Tiram, assim, da combinação mesma dos seus movimentos, a renovação da beleza e da juventude; renovam a fecundidade no ciclo das primaveras, dos estios, dos outonos e dos invernos; coroam de frondes as montanhas onde o vento suspira; reflectem no espelho dos lagos a magia de suas paisagens; envolvem-se, às vezes, na lanugem atmosférica, fazendo dela um manto protector, ou transformando-a em cadinho retumbante de raios e granizos; desdobram por superfícies imensas a força das ondas oceânicas, que, também por si, se alteiam sob a atracção dos astros, qual seio ofegante; iluminam crepúsculos com os matizes policrómicos dos ocasos comburentes e fremem nos seus pólos às palpitações eléctricas despedidas dos leques de boreais auroras; geram, embalam e nutrem a multidão de seres que as povoam; e renovam o filão da vida desde as plantas fósseis, do passado, até ao homem que pensa e sonda o futuro. Todos esses mundos, todas essas moradas do espaço, departamentos da vida, nos apareceriam quais naves bussoladas, conduzindo através do oceano celeste tripulantes que não têm a temer escolhos nem imperícias de comando, nem falta de combustível, nem fome, nem tempestades.

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Camille Flammarion, Deus na Natureza – Primeira Parte, A Força e a Matéria II – O Céu 1 de 3, 11º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Jungle Tales_1895, pintura de James Jebusa Shannon)

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

O Espiritismo na Arte ~


Nona lição de O Esteta

– A música e a transmissão do pensamento artístico
– Perispírito, receptor das ondas musicais

|10 de Fevereiro de 1922|

“Hoje falaremos sobre a música do espaço, considerada como meio de transmissão do pensamento artístico. Sei que um outro espírito, mais perto de vós (i), já tentou fazer-vos compreender a forma como as ondas, que chamais de musicais, são criadas e depois transmitidas através do espaço, para chegarem aos diferentes mundos. Já vos disseram que o que chamais de sonoridades para nós é comparável às cores que, transportadas em moléculas fluídicas, percorrem os campos vibratórios e vão comunicar aos seres impressões semelhantes àquelas que os vossos ouvidos percebem quando ouvis uma gama de sons harmonizados neste ou naquele grau de vibrações.

(i) Trata-se do Espírito Massenet, do qual publicaremos as lições mais adiante, nos tópicos especialmente dedicados à música (Nota do Autor; as suas notas sequentes conterão apenas as iniciais N.A.)

Na Terra, quando uma nota é tocada, se ela provém do tom maior, essa nota transmite-vos uma sensação de alegria plena e irrestrita. Se ela é em tom menor, ao contrário, o vosso cérebro receberá uma sensação de profundidade, algumas vezes de tristeza ou de grande dor, de acordo com a modulação dos acordes e o número de notas tocadas.

Portanto, a esses dois grandes princípios, maior e menor, correspondem duas sensações: a alegria e a dor. Entre essas notas, tendes uma infinidade de combinações que, por isso mesmo, formarão imagens. Assim como o escultor forma uma imagem virtual, o grupo de notas, os acordes, conforme sejam moduladas em tom maior ou menor, formarão pelo seu estilo uma série de pensamentos, que se tornam mais ou menos compreensíveis, segundo a evolução dos modos (ii) da música. Eis aqui um ponto estabelecido: as artes plásticas formam imagens e a arte das ondas musicais forma, igualmente, imagem, mas uma imagem mais subtil, da qual o teor é mais frágil e a compreensão mais delicada. Segundo o grau de evolução dos seres, essa compreensão será mais ou menos profunda. É por isso que muitas vezes, na vossa Terra, um ser de uma cultura média será impressionado, enquanto que o seu cérebro ficará refractário quando ele quiser servir-se do alfabeto para exprimir os seus pensamentos por meio de ondas que qualificais de musicais.

(ii) Modo: (em música) maneira como se dispõem os intervalos de tom e meio-tom numa escala; padrão rítmico constante numa composição (N.T.)

No espaço, como sabeis, não temos instrumentos, são os nossos perispíritos que recebem as ondas transmissoras do pensamento musical. Também será preciso impregnar directamente os seres que devem receber ondas dessa natureza. Como os outros artistas, o espírito evoluído no sentido musical, e que pode experimentar sensações infinitamente suaves e subtis, também pode transmiti-las com a ajuda dos vossos instrumentos e por intermédio do cérebro de um dos vossos executantes.

A matéria, para ser posta em movimento pelas ondas fluídicas, necessita de um intermediário, que será o vosso cérebro, o qual, em decorrência, age como um pólo atractivo e uma placa sensível, de onde partem todas as irradiações que emanam dos fluidos.

Os vossos grandes músicos podem, como os outros artistas, receber a inspiração, seja do espaço, seja como resultado de trabalhos anteriores. É exactamente o mesmo fenómeno que se produz com os outros artistas.

No espaço os nossos meios são muito mais rápidos que os vossos; não temos necessidade de instrumentos para trocar pensamentos, e a nossa música é toda de impressões, agindo directamente sobre a parte mais sensível do nosso ser fluídico, aquela que contém, em diversos graus, a centelha divina e que, entre vós, é representada pelo órgão do coração.

As outras artes reflectem-se por imagens esculturais ou pictóricas, que são as formas de transmissão de pensamento e, para nós, substituem a palavra. A música é uma impressão especial que invade todo o nosso ser fluídico, lança-o no êxtase, na beatitude, faz com que ele sinta sensações de alegria, de quietude, de angústia, de desgosto, de dor, de pena, de remorsos. Tal é, mais ou menos, a gama de todas as sensações ascendentes e descendentes, que vão do rosa ao preto; o preto representando o nada.

Compreendeis, por conseguinte, sob o ponto de vista puramente artístico, que sensações infinitas podem agir sobre um espírito já evoluído. Agora podeis, na Terra, preparar-vos para receber essas sensações no Além, afastando de vós qualquer satisfação material e sensual. Procurai as atracções artísticas, por mais pobres que sejam; enriquecei o vosso pensamento, dai aos vossos nervos um alimento de fortes vibrações; enchei o vosso cérebro de sensações que, no vosso mundo, se traduzem por estudos analíticos das vossas vidas terrestres. Tudo isso, um dia, repercutirá no espaço, ao cêntuplo, porquanto as vibrações armazenadas no vosso ser carnal despertarão e atrairão, como uma lira com mil asas (iii), todas as sensações atractivas que podem gerar os sentimentos mais harmoniosos, os mais elevados, que circulam nas correntes que emanam directamente da esfera divina.

(iii) Observe-se o profundo sentido desta frase: “como uma lira com mil asas”. A lira, símbolo da poesia, da expressão poética, teria mil asas, mil formas de agasalhar todas as sensações geradoras de sentimentos harmoniosos (N.T.)

É o mais alto grau da arte, uma sensação artística infinita.

As vossas pobres criaturas não podem experimentar as alegrias inefáveis que sentimos quando essas sensações vêm tocar os nossos espíritos extasiados.

Quais são essas sensações? Tentarei, como conclusão, dizer-vos, com a permissão de Deus, o que elas podem ser. Isso não será fácil, porque seria como o vos abrir uma visão directa sobre a obra divina. Os vossos guias vão orar. Espero poder dar-vos, em algumas palavras, uma ideia dessa grande obra de beleza, de luz e de harmonia.”

/... 



LÉON DENIS, O Espiritismo na Arte, Parte V – Nona lição de O Esteta – A música e a transmissão do pensamento artístico – Perispírito, receptor das ondas musicais (3 de 4) 22º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Mona Lisa 1503-1507 – Louvre, pintura de Leonardo da Vinci)

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

~~~Párias em Redenção~~~


A ESTRANHA PERSONAGEM QUE SURGE DO PASSADO (II)

   À porta do palácio, formou-se um pequeno cortejo: os amos, os porta-estandartes, os convidados, os áulicos e os amigos, que desceram na direcção da Praça do Campo, já regurgitante.

  Diante das autoridades presentes, fez-se o sorteio dos bairros inscritos, dos quais seriam destacados os que deviam competir. Logo após, começou o corteo. As multidões vibraram de entusiasmo.

  Evocando os dias passados da cidade, as suas glórias e as suas conquistas, as suas tradições e o folk-lore, desfilaram, pela ordem de importância, os representantes das diversas classes, tendo à frente as Entidades Governamentais e os componentes dos diversos bairros inscritos, destacando-se nas suas cores características. Crianças ostentavam bandeiras dos contrada. Cada bairro se faz representar por 13 figurantes. O jogo das bandeiras brilha e nele os exímios acrobatas conquistam ensurdecedores aplausos: é nota viva, comovedora, agradável na festa. E atrás, encerrando o cortejo, aparece o Carroccio, puxado por quatro bovinos seleccionados, conduzidos, a seu turno, por dois homens encapuzados. Nesse carro de guerra está o Pallium – donde derivou o nome da festa – que será entregue ao vencedor, e na qual está estampada a efígie de Maria de Nazaré. O Pallium faz-se guarnecer por quatro trompetistas, a rigor, que anunciam a hora culminante.

  Tem início, então, a grande mossa dos animais escolhidos, representando os bairros atribuidos pelo sorteio. Os animais de raça, adestrados para disputa, partem com desabalada sofreguidão, enquanto os partidários se esganam aos gritos, louvando e encorajando os seus jóqueis preferidos. A corrida sobre lajes derrapantes é feita de emoções e receios. Alguns animais escorregam e atiram longe os condutores, que se ferem no atrito com as pedras luzidias.

  O Conde Lorenzo, entre as autoridades, na tribuna de honra, freme e alardeia as excelências do seu palafrém, do ginete florentino e estertora, ansioso.

  Girólamo, graças às deferências do Senhor Bispo, que a seu turno indicou ao Arcebispo aqueles que deveriam compor o Carroccio, como guardas de honra, figura em destaque, deslumbrado, provocando inveja e erguendo as insígnias da sua herdade e dos sítios que representava.

  A chegada dos concorrentes deu ao Bairro Oca a honra de receber o Pallium. Desceram da tribuna o Conde e a Condessa di Castaldi, que, ao lado do florentino, empapado de suor, receberam das mãos de Sua Eminência o cobiçado troféu.

  Carlo, ovacionado delirantemente, agradeceu o aplauso natural, espontâneo, festivo. Era o homem do dia. Os Castaldi foram cercados pelos amigos, pelos bajuladores, pelo povo e, com o animal, deixaram-se conduzir pela multidão, que carrega o ginete, entre delírios e animações. As cordas que isolam da pista a multidão são arriadas e toda a praça se transforma num imenso palco, para as festas regionais, bailes, teatros, espectáculos improvisados, e grupos alegres, bebendo em odres trabalhados o capitoso vinho, relaxam-se no prazer.

  Girólamo, conquanto os triunfos colhidos, martiriza-se com o êxito daquela estranha personagem, cuja lembrança o aflige e por quem nutre crescente despeito, que se transforma em surto de ódio.

  À noite, o Palácio Castaldi está regurgitante e o nobre casal abre-lhe as portas aos amigos que os vão saudar, homenageando-os pela honra do alto prémio conquistado. Empalmando as apostas numerosas, Dom Lorenzo retribui regiamente ao servo, atestando a generosidade de que se encontra possuído, e concede-lhe a liberdade de viver intensamente quanto possível aquela noite, que lhe será inesquecível.

  Longas serão as horas de oferendas a Baco e às dissipações. Tem-se a impressão de que todo o povo delira e não há problemas na Siena triunfadora. Ninguém recorda o amanhã. “Hoje, agora, é o nosso dia, a nossa hora!” – gritam bandos álacres, agitados.

  Tendo acompanhado o cortejo que seguiu, pressuroso, à casa dos sogros, Girólamo, ante a presença indesejável do moço engalanado pelos louros da vitória, cumpre o dever de banquetear-se e rever os amigos, retirando-se depois, na direcção das tabernas e casinos, onde a ilusão venenosa se desprende a peso de ouro e se faz colher com as ávidas mãos da loucura. Desgarrando-se de Francesco, que, após conduzir a esposa ao palácio, retorna aos ninhos de encantamento da cidade, misturando juventude e excessos, acorre ao casino “La Conchiglia”, para fruir as horas de enlevo e embriaguez.

  Vencido quase pelos vapores do álcool e do fumo, que emprestam ao grande salão, o moço senense divisou Carlo numa banca larga de dados, exibindo as qualidades de ganhador.

  – “Feliz no jogo, infeliz no amor”, – cantarola, abraçando mulheres atormentadas e profissionais da luxúria. Apresentando a bolsa recheada de moedas, o hábil cavaleiro, invejado e comentado, desafia ao jogo. Espicaçado pela inveja e por injustificável ciúme, Girólamo aceita a provocação, e a sala silencia para ouvir, sentir e viver a disputa. O ar abafado, pestilento, enche todos os recantos. De quando em quando, rebentam gargalhadas e gritos. Os dados correm no pano de feltro verde bem cuidado, as apostas aumentam e o Conde, jogador ardiloso e inveterado, reduz o adversário a mísera condição, para zombaria geral.

  – “Feliz nos cavalos, desditoso nos dados, impotente no amor” – baldoa Girólamo, picado pela jactance et forfanterie que o dominam acerbadamente.

  Vencido e humilhado naquele ambiente infeliz, ferido nos seus brios de ganhador do palio, Carlo sente que se deve desforçar do rival. Sai da sala em busca do ar da noite. Precisa pensar. Algo conspira contra ele, mas o seu signo o protege, – pensa revoltado. – Doestos e chacotas zombam, na comparação que fazem dele com o nobre Conde, com quem desejou duelar nos dados…

  Não obstante a hora avançada, a cidade continua febril e a taça do prazer generosamente derrama os seus perfumes abundantes e fáceis.

  Depois de caminhar até à Via del la Sapienza e atingir a Piazza de San Domenico, (i) o rapaz recebe as lufadas do ar brando, que sopram na larga área fronteira ao templo imponente. Olha o santuário, que é uma das glórias da cidade; aquele edifício teve o início da sua construção por volta de 1225 e o término somente 240 anos depois, estando situado em local de destaque, donde oferece ampla visão da cidade, em várias direcções. Sentando-se na relva macia, Carlo rebusca a imaginação:

  “O Conde Cherubini – pensa, estimulado pelo ódio que o domina –, após espezinhá-lo, vencido ante todos… Embora sob o estigma das tragédias que deveriam esmagar qualquer homem, aparenta triunfo e galhardia… Conforme lhe narraram os pajens e cavalariços, falou-se que ele bem poderia ter contribuído para que a fortuna do duque lhe viesse parar às mãos, flutuando em abundante rio de sangue e crimes… O duque di Bicci…”

  No mundo espiritual, o duque concertava um plano para atirar Girólamo entre as grades do cárcere ou no laço da forca. Estimulara, pela inspiração, a jovem Senhora Lucrécia a cair-lhe nos braços, a fim de que Francesco o convidasse a duelo reparador, não colimando o desejo. Ajudado, agora, pela conjuntura das Leis Desconhecidas para ele, – Leis que trouxeram Carlo a Siena –, eis surgida a oportunidade ambicionada pelo inimigo desencarnado.

  Aproximou-se do moço em reflexão, cujo pensamento desordenado conseguia perceber, conquanto não apreendesse a forma como lhe chegavam as vibrações mentais, começou a falar, acusador, acolitado por Assunta, em desalinho total, na sua deformação espiritual – vítima do homicídio e vítima, simultânea, do novo sicário que a exauria em crua vampirização psíquica, roubando-lhe todas as energias e fazendo-a tresloucada, em longo curso de desesperação

  Em lugar, distante da bulha, debaixo do aplauso das estrelas miúdas e faiscantes, engastadas na transparência do céu de verão, Carlo interrogava-se, freneticamente. A perseverança do ódio consegue, não raro, vencer os negligentes do amor e os comparsas da insensatez, graças à constrição actuante do pensamento que vibra destruição, aniquilamento.

  Mergulhado cada vez mais nas recordações, exigindo da mente um esforço raro, passou a sintonizar com as duas entidades desditosas que lhe compartilhavam a aversão. Estabelecida a ligação psíquica, pôs-se a recordar a infância, os primeiros anos da juventude em Florença, quando pastoreava as colinas de San Miniato… (San Miniato brilhou-lhe na mente, como o espocar de fogos.) reviu a cena de sangue. Sim, era de lá que o conhecia, era ele o assassino, cujo crime vira naquela primavera do horror – reflectiu.

– Na tela mental, estimulada pelas evocações e sincronizada com o pensamento dos verdugos espirituais, delineou-se o rosto de Assunta, debatendo-se no punhal certeiro do criminoso em fúria. Evocou o desespero que dele se apossara – mantendo vivas as tintas do crime hediondo e do soberbo assassino –, fazendo-o correr logo recuperou as forças e o comando das pernas. Sim, não havia dúvidas… Saberia cobrar a dívida ao infame. “À quelque chose malheur est bon.”(*)

(*) “Para alguma coisa serve a desgraça.”

  “Na ocasião, – continuava a desfilar o novelo das recordações –, comunicara ao pai, que o acompanhara ao local  e nada encontrara, senão os sinais da terra revolvida e as manchas de sangue dos animais em fúria, como lhe dissera o genitor, ao aplicar-lhe algumas bastonadas, afirmando-lhe que delirava… E como nada mais soubesse, perdurou-lhe a dúvida. Agora, tinha a certeza.”

/...



VICTOR HUGO, Espírito “PÁRIAS EM REDENÇÃO” – LIVRO PRIMEIRO, 8. A ESTRANHA PERSONAGEM QUE SURGE DO PASSADO (2 de 3) 27º fragmento da obra. Texto mediúnico, ditado a DIVALDO PEREIRA FRANCO.
(imagem de contextualização: L’âme de la forêt | 1898, tempera e folha de ouro sobre painel de Edgar Maxence)