Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

| o grande enigma ~


Deus | e o Universo

Um mal-entendido secular divide as escolas filosóficas quanto a estas questões. O materialismo via no Universo somente a substância e a força. Parecia ignorar os estados quintessenciados, as transformações infinitas da matéria. O espiritualismo vê em Deus só o princípio espiritual e não considera imaterial tudo o que não cai sob os nossos sentidos. Ambos se enganam. O mal-entendido que os separa cessará quando os materialistas virem em seu princípio e os espiritualistas em seu Deus a fonte dos três elementos: substância, força, inteligência, cuja união constitui a vida universal.

Por isso, basta compreender duas coisas: se se admite que a substância esteja fora de Deus, Deus não é infinito, e, pois que a consciência existe no mundo atual, é preciso evidentemente que ela se encontre naquilo que tem sido o Princípio do mundo.

Mas a Ciência, depois de se haver retardado durante meio século nos desertos do materialismo e do positivismo, depois de ter reconhecido a esterilidade deles, a ciência atual modificou a sua orientação. Em todos os domínios: física, química, biologia, psicologia, ela se encaminha hoje, a passo decidido, para essa grande unidade que se entrevê no fundo de tudo. Por toda parte ela reconhece a unidade de forças, a unidade de leis. Atrás de toda substância em movimento encontra-se a força, e a força não é senão a projeção do pensamento, da vontade na substância. A eterna criação, a eterna renovação dos seres e das coisas é tão-somente a projeção constante do pensamento divino no Universo.

Pouco a pouco, o véu se levanta; o homem começa a entrever a evolução grandiosa da vida na superfície dos mundos. Ele vê a correlação das forças e a adaptação das formas e dos órgãos em todos os meios; sabe que a vida se desenvolve, se transforma e se apura à medida que percorre sua espiral imensa; compreende que tudo está regulado visando a um fim, que é o aperfeiçoamento contínuo do ser e o crescimento nele da soma do bem e do belo. Mesmo neste mundo, ele pode seguir essa lei majestosa do progresso, através de todo o lento trabalho da Natureza, desde as formas ínfimas do ser, desde a célula verde flutuando no seio das águas, até ao homem consciente no qual a unidade da vida se afirma, e acima dele, de grau em grau, até o infinito. E essa ascensão só se compreende, só se explica pela existência de um princípio universal, de uma energia incessante, eterna, que penetra toda a Natureza; é ela quem regula e estimula essa evolução colossal dos seres e dos mundos para o melhor, para o bem.

Deus, tal qual o concebemos, não é, pois, o Deus do panteísmo oriental, que se confunde com o Universo, nem o Deus antropomorfo, monarca do céu, exterior ao mundo, de que nos falam as religiões do Ocidente. Deus é manifestado pelo Universo – do qual é a representação sensível –, mas não se confunde com este. De igual maneira que em nós a unidade consciente, a Alma, o eu, persiste no meio das modificações incessantes da matéria corporal, assim, no meio das transformações do Universo e da incessante renovação de suas partes, subsiste o Ser que é a Alma, a consciência, o eu que o anima e lhe comunica o movimento e a vida.

E esse grande Ser, absoluto, eterno, que conhece as nossas necessidades, ouve o nosso apelo, nossas preces, que é sensível às nossas dores, é qual o imenso foco em que todos os seres, pela comunhão do pensamento e do sentimento, vêm haurir forças, o socorro, as inspirações necessárias para guiá-los na senda do destino, sustê-los em suas lutas, consolá-los em suas misérias, levantá-los em seus desfalecimentos e em suas quedas.
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Léon Denis, O Grande Enigma, Primeira parte Deus e o Universo, I O grande Enigma 3 de 5, 6º fragmento da obra.
(imagem: Salvador Dali, 1950)

sábado, 24 de novembro de 2012

Victor Hugo e o invisível ~


Para uma filosofia poética

   Victor Hugo foi um dos poetas que esboçou a possibilidade de uma filosofia poética. No verso como na prosa, tratou sempre de temas transcendentais relacionados com o homem e o mundo. Sendo certo que no académico não se admite uma filosofia poética, seria bom recordar que Hegel, apesar de seu tecnicismo complicado, expunha conceitos metafísicos que se relacionavam intimamente com o poético.

   George Santayana, com seu livro Três poetas, filosóficos: Lucrécio, Dante, Goethe, contribuiu para sustentar esta tese referente a uma filosofia poética. Mas é chegado o momento de considerar que se a filosofia há de cumprir um papel especial entre os homens, só o conseguirá mediante valores ontológicos e poéticos, pois o estilo obscuro e técnico de um Heidegger ou de um Sartre, por exemplo, em nada contribui para a compreensão das essências da filosofia. O existencialismo como que-fazer filosófico é, poder-se-ia dizer, como uma reação contra o tecnicismo filosófico onde apenas se vislumbra o "problema do Ser" pelas complicações filológicas incompreensíveis ainda para os homens entregues ao estudo e à cultura.

   O caso de Victor Hugo não foi considerado pela história da filosofia e o mesmo se poderia dizer da obra de Miguel de Unamuno, onde a poesia se une à filosofia.

   Sem dúvida, a filosofia deverá ser poética e religiosa ou não passará de uma acumulação de páginas técnicas que jamais chegarão a projetar luz na alma do pensador. Caso o filósofo se contente apenas com a linguagem técnica, o "conhece-te a ti mesmo" dos gregos antigos jamais se produzirá na alma dos homens.

   A filosofia esboçada pelo autor de As Contemplações estará assente sempre sobre a beleza, posto que o Ser é uma entidade sensível que só evolui por ela rumo ao bem e à verdade. Se não opta por voltar ao reino da sabedoria; se prefere objetivar-se no temporal como uma disciplina académica, o daimon da filosofia permanecerá mudo e o espírito humano será abatido pelas trevas do niilismo.

   Victor Hugo filosofou pela poesia porque desceu às profundidades do Ser, reconhecendo que não será sistematizando o presente que a sabedoria se tornará uma luz para os espíritos. Como já dissermos neste livro, Victor Hugo percebeu que a beleza determina a verdadeira filosofia; mas considerou também que o Ser não chegará à verdade através de uma única vida. Seu próprio génio não cabia dentro de uma vida única porque a alma procede de distâncias misteriosas para avançar rumo a horizontes desconhecidos. A filosofia poética de nosso poeta se baseou nessa conceção espiritual do homem e foi por isso que a beleza traduzida em amor lhe permitiu aceitar que as almas são, realmente, viajantes do infinito.

   Quando Victor Hugo disse: "Quem diz poesia diz filosofia e saber" deixou assente as possibilidades de um que-fazer filosófico expresso por uma linguagem poética. A poesia na obra do poeta é, sempre, afirmação, esperança, amor, passado e futuro. É o espírito poético que penetra nos domínios ontológicos da existência e que não se limita exclusivamente a literatura. O génio de Victor Hugo é caudaloso e transborda as dimensões do formal para penetrar no filosófico e religioso. Daí devemos considerá-lo um poeta-filósofo e um filósofo-poeta. Por isso, em seu génio se sintetizam todas as manifestações da vida humana. Nele encontramos o social, o religioso, o crítico, o político e o artístico em relação com o Ser.

   Quando a filosofia poética esboçada por Victor Hugo se manifestar nos criadores contemporâneos; quando a beleza e a filosofia demonstrarem que o homem não é "uma paixão inútil", como deseja Sartre, a missão do conhecimento se cumprirá mediante uma reivindicação moral e existencial de homens e de povos. Dar-se-á lugar a formas de vida social assentes sobre a dignidade humana, alimentadas pela verdade e beleza, porque o homem de Victor Hugo é um batalhador que luta por encontrar Deus e o sentido da vida.
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Humberto MariottiVictor Hugo Espírita, Para uma filosofia poética, 3º fragmento da obra.
(imagem: Young Girl with a Doll, pintura de Anne-Louis GIRODET-TRIOSON

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O Génio Céltico e o Mundo Invisível~


Capítulo V

A Auvergne. Vercin-gétorix, Gergovie e Alésia

Como uma cidadela que coroa alguns cumes de suas torres e de seus baluartes, a Auvergne ergue a corrente de suas montanhas acima das planícies e dos vales da França Central. Dos altos planaltos e dos contrafortes descem e rolam as torrentes, os ribeirões que se transformarão, mais adiante, em grandes rios cujas bacias, dirigidas para três mares, dão à Gália esse aspeto regular, essa forma predestinada que parece, dizia Estrabão, a obra de um deus.

O país dos arvernos era, para seus habitantes, como uma terra sagrada. Os génios invisíveis rondavam sobre suas florestas e suas montanhas. De seu solo jorravam em abundância as fontes quentes, os vapores benéficos, manifestação de um poder subterrâneo que inspirava, nesses povos primitivos, uma espécie de temor religioso.

O Puy de Dôme, que domina toda a região por seu alto porte, era o altar gigantesco de onde a oração dos druidas se elevava para o céu, o templo natural do deus Teutatès, ou melhor, do espírito protetor que simboliza a força e a bravura dos arvernos.

O panorama dos montes desperta na alma uma impressão quase tão viva como as noites estreladas. Essa impressão não se exprime por palavras, mas, geralmente, por uma contemplação silenciosa, por uma admiração tanto mais viva quanto mais profundamente a alma possua o sentido de harmonia e de beleza. Ela é aumentada, ainda, na Auvergne por marcas deixadas pela ação do fogo central, que, no seu esforço para alcançar a superfície, transtornou as camadas terrestres. Se do alto do Puy de Dôme se observa a longa cadeia de crateras que se sucedem do norte ao sul, em linha reta, e se reconstitui, pela imaginação, o período de atividade onde todos esses vulcões expeliam correntes de lavas, das quais se pode ainda seguir os rastos deixados em muitas léguas, e que as pessoas da região chamam de “cheires”, tem-se a visão grandiosa do dinamismo que sacudia o globo nos tempos quaternários.

O solo da Auvergne, tanto na região dos montes Dôme quanto na região dos montes Dore e Cantal, é gretado, crivado de crateras extintas, invadidas depois pelas águas. A mais notável é o lago Pavin, corte vasto e profundo de paredes de pórfiro, que coroa um círculo de florestas. Pela brecha onde se escoavam outrora as lavas, hoje se expandem as águas límpidas do ribeirão La Couze.

Pelo caminho que contorna o lago, através da floresta umbrosa, se atinge o planalto elevado que domina muitas crateras, entre outras a de Moncineire, ou montanha das cinzas. Ali está um dos sítios mais maravilhosos de nossa região. A natureza selvagem das primeiras eras da Terra ali se revela ainda sob o enfeite cambiante das águas e dos bosques. Pelas emanações sulfurosas e pelas lamas quentes que se encontram em alguns pontos da Auvergne, pode-se crer que a atividade subterrânea não cessou inteiramente e que um despertar de forças plutonianas é sempre possível.

O contacto dessa natureza agreste tinha comunicado às populações primitivas essas qualidades rudes e fortes que caracterizam quase todos os montanheses.

Se o sentimento que os gauleses tinham de sua origem comum, de seu parentesco de raça, se a unidade moral e religiosa que resultava fosse mudada em unidade política, os arvernenses teriam sido os primeiros a aproveitá-la. Sua província não era o núcleo ativo e, ao mesmo tempo, a principal força material da Gália?

O Puy de Dôme era o maior santuário. Para ali convergiam peregrinos de todos os locais. Gergovie era o lugar mais importante, e Vichy, situado então em região arvernense, atraía, unicamente pela virtude de suas águas, multidões de doentes e feridos.

O Rei Bituit havia mobilizado duzentos mil combatentes contra os romanos e a cavalaria arverna era considerada como a melhor de todas. Mas Bituit foi vencido e o império arverno se eclipsou durante certo tempo. Entretanto, vastos grupos políticos se formavam em outros lugares: A Federação Armoricana, no oeste; a Federação Belga, no norte de Marne. A de Auvergne se reconstituiu, incorporando todos os povos das Cévennes. Mas a rivalidade ciumenta dos eduenos comprometeu tudo. Eles recorreram a César, cujas legiões penetraram, pouco a pouco, na Gália, e fizeram aliança com ele. A influência do pérfido procônsul aumentou rapidamente e tornou-se logo ameaçadora para a independência gaulesa.

É então que a grande e nobre figura de Vercingétorix (72-46 a.C.) aparece. Educado pelos druidas, foi na sua educação que ele adquiriu essas raras qualidades, essa elevação de caráter que o distinguiam. A morte cruel de seu pai, Celtil, queimado vivo por julgamento do Senado, por ter aspirado à coroa, lançou uma sombra sobre sua juventude e contribuiu para torná-lo, muito cedo, circunspecto, meditativo e sonhador. Ele experimentou, diz-se, a sensação do mundo invisível, essas intuições inexprimíveis que são, talvez, reminiscências de lembranças anteriores, formando um conjunto de coisas enterradas na subconsciência profunda e que tendem a reviver, a se expandir em plena luz.

Camille Jullian, tão reservado nessas matérias, não hesita ao nos ensinar que Vercingétorix, enviado cedo para a escola dos druidas, vivia na familiaridade respeitosa desses sacerdotes. Ele aprende com estes que há uma alma imortal e que a morte é uma simples mudança de estado. Eles lhe ensinam que o mundo é uma coisa imensa e que a humanidade se estende ao longe, bem fora das terras paternais e dos caminhos da caça ou da guerra. Assim o jovem imaginava, pouco a pouco, a grandeza do mundo, a eternidade da alma e a unidade do nome gaulês.

Tudo em Vercingétorix lhe predispunha ao comando; seu corpo alto e soberbo, diz Camille Jullian, o indicava para a admiração das multidões. Ele tinha a superioridade física e intelectual que dá à vontade uma segurança nova, e os arvernos podiam se perguntar se Luern ou Bituit, os chefes ainda célebres da Gália triunfante, não voltavam sob a forma juvenil do último de seus sucessores.

Instruído e amado pelos bardos, tornou-se um deles. Ele sabia se exprimir em versos e empregar em seus discursos essa atitude arrebatadora que impressiona sempre os celtas. Sobre este assunto, lembremos a citação seguinte de Mommsen, o grande historiador alemão, que demonstra que nossos antepassados não eram tão bárbaros como se pretendia: “O mundo céltico se liga mais estreitamente ao espírito moderno do que ao pensamento greco-romano.” |*

E o Sr. Camille Jullian insiste sobre este facto:
“Vercingétorix não era por isso fechado e hostil à civilização greco-latina. Ele tomou emprestado muitos princípios da guerra científica e aceitou uma certa supremacia intelectual dos dois grandes povos vizinhos.”
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|* Ver Vercingétorix, de Camille Jullian, p. 93, Editora Hachette.


LÉON DENIS, O Génio Céltico e o Mundo Invisível, Primeira Parte OS PAÍSES CÉLTICOS, CAPÍTULO V – A Auvergne. Vercingétorix, Gergovie e Alésia 1 de 3, 16º fragmento da obra.
(Imagem: A Apoteose dos heróis franceses que morreram por seu país durante a guerra da Liberdade, pintura de Anne-Louis Girodet-Trioson)

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O peregrino sobre o mar de névoa~


Tratamento de Vícios e Perversões

A embriaguês, os tóxicos e o vício do jogo são os flagelos atuais do nosso mundo em fase aguda de transição. Cansados de recorrer sem proveito a internamentos hospitalares, as vítimas e suas famílias acabam recorrendo ao Espiritismo e às diversas formas mágicas do sincretismo religioso afro-brasileiro. É comum fazer-se confusão entre essas formas de religiões primitivas da África e o Espiritismo, em virtude de haver manifestações mediúnicas nos dois campos. Os sociólogos, que deviam ser minuciosos ao tratar desses problemas, carregam a maior parte da culpa dessa confusão. Estão naturalmente obrigados, pela própria metodologia científica, a distinguir com rigor um fenómeno social do outro, mas preferem a simplificação dos processos de pesquisa, que gera confusões lamentavelmente anticientíficas. A palavra Espiritismo, cunhada por Kardec como um neologismo da língua francesa, na época, é uma denominação genésica da Doutrina Espírita. Nasceu das suas entranhas e só a ela se pode aplicar. Kardec rejeitou a denominação de Kardecismo, que seus próprios colaboradores lhe sugeriram, explicando que a doutrina não era uma elaboração pessoal dele, mas o resultado das pesquisas e dos estudos das manifestações espíritas. Entrando em contacto com o mundo espiritual, em todas as suas camadas, Kardec recebeu dos Espíritos elevados os lineamentos da doutrina, mas não os aceitou de mão beijada. Submeteu essas comunicações do outro mundo a rigoroso processo de verificação experimental. Só aceitou como válido o que era provado pelas numerosas pesquisas incessantemente repetidas e confrontadas entre si. Para tanto, criou uma metodologia específica, pois entendia que os métodos devem ajustar-se à natureza específica do objeto submetido à pesquisa. Sem essa adequação seria impossível obterem-se resultados significativos. Escapava assim, aos fracassos iniciais da Psicologia Científica, que lutara em vão para enquadrar os fenómenos psicológicos na metodologia da Física e de outras disciplinas. As experiências de Wundt, Weber e Fechner, por exemplo, restritas a mensurações de intensidade, não iam além de explorações epidérmicas, pouco sugerindo sobre a natureza e o mecanismo dos fenómenos. Os fenómenos espíritas, que revelavam inteligência, não eram simples efeitos de processos biológicos e fisiológicos. Eram fenómenos muito mais complexos, que podiam provir da mente ou das entranhas humanas, mas também podiam ser produzidos por forças ainda não suficientemente conhecidas, como o magnetismo natural, a eletricidade, energias e elementos procedentes de regiões ainda não devassadas da própria consciência humana. O inconsciente era ainda uma incógnita. Kardec o abordou quando Freud estava ainda na primeira infância. Kardec deu à Revista Espírita, órgão que fundou para divulgar seus trabalhos e pesquisas de opiniões, o subtítulo de Jornal de Estudos Psicológicos, provando já estar convencido de que enfrentava os problemas do psiquismo humano. Estava fundada a Ciência Espírita, que os cientistas da época rejeitaram, considerando que Kardec fugia da metodologia científica originada das proposições filosóficas de Bacon e Descartes. A psicologia introspetiva, ainda apegada à matriz filosófica, atacou-o com a antecedência de meio-século com ataques dirigidos aos pioneiros da Psicologia Experimental. Essa é uma das glórias de Kardec, geralmente desconhecida. Mais tarde, Russel Wallace iria declarar que toda a psicologia não passa de um espiritismo rudimentar, glorificando Kardec. Charles Richet, prémio Nobel de Fisiologia e fundador da Metapsíquica, discordante de Kardec, declarou no seu próprio Tratado de Metapsíquica que Kardec era quem mais havia contribuído para o aparecimento das novas ciências e lembrou que Kardec jamais fizera uma afirmação que não estivesse provada em suas pesquisas. Depois desses sucessos no meio científico, numerosos e famosos cientistas se entregaram às pesquisas espíritas, alguns, como William Crookes, com o fim exclusivo de provar que os fenómenos espíritas não passavam de fraude. Após três anos de pesquisas, Crookes publicou os seus trabalhos, pondo-os ao lado do antigo adversário. Após a morte de Kardec, em 1869, Léon Denis o substituiu na direção do movimento espírita mundial, e a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, que Kardec chamava de sociedade científica, ficou praticamente viúva. Mas as pesquisas prosseguiram no Instituto Metapsíquico, sob a direção de Gustave Geley e Eugéne Osty, com grande proveito. Ao mesmo tempo, pesquisas continuavam a ser feitas em várias Universidades européias, como a de Zöllner em Leipzig, as de Crookes em Londres, as de Ochorowicz na Polónia e assim por diante. A Ciência Espírita continuava a se desenvolver. O Barão Von Schrenk-Notzing fundou em Berlim o primeiro laboratório de pesquisas espíritas do mundo, procedeu a valiosa série de pesquisas sobre o ectoplasma, com o auxílio de Madame Bisson. Após a primeira Guerra Mundial a Ciência Espírita continuava combatida, mas ativa. Mas a guerra desencadeara no mundo as ambições e interesses materiais, deixando exígua margem para o interesse espiritual. Só agora ressurge na França, com André Dumas, uma instituição de estudos e pesquisas espíritas. A Revista Renaitre 2.000, dirigida por Dumas, substitui a Revue Spirite de Kardec.

Este breve escorço do aparecimento e desenvolvimento da Ciência Espírita prova a sua vitalidade, apesar das campanhas incessantes e sistemáticas movidas contra ela. Em todos os grandes centros universitários do mundo as pesquisas espíritas prosseguem com resultados positivos. Nenhum princípio da doutrina foi sequer abalado pelas novas descobertas verificadas em quaisquer dos ramos da investigação. Pelo contrário, os postulados básicos do Espiritismo se comprovaram, confirmando a posição avançada da Ciência Espírita e da Filosofia Espírita perante a cultura atual. Isso representa, para a Terapia Espírita, uma base de segurança inegável para o desenvolvimento dos seus processos de cura. O que hoje se chama, na Europa, de cura paranormal, não é mais do que a cura espírita revestida ou fantasiada de novidades superficiais.

No difícil e geralmente falho tratamento das viciações, o principal é a integridade moral dos terapeutas. Os viciados não são apenas portadores de vícios, mas também de cargas de influências psíquicas negativas provenientes de entidades espirituais inferiores que a eles se apegam para vampirizar-lhes as energias e as excitações do vício. As pesquisas parapsicológicas provam a existência desses processos de vampirismo espiritual, que na verdade são apenas a contrafação no após morte dos processos de vampirismo entre os vivos. Nas relações humanas, quer sejam entre encarnados ou desencarnados, sempre existem os que se tornam parasitárias de outras pessoas. Não há nisso nenhum mistério, nem se trata de ações diabólicas. Em toda a Natureza a vampirização é uma constante que vai do reino mineral ao humano. A cura depende, em primeiro lugar, da vontade da vítima em se livrar do perseguidor. As intenções deste nem sempre são maldosas. Ele procura o amigo ou conhecido encarnado que era seu companheiro de vício e o estimula na prática para obter assim os elementos de que necessita na sua condição de desencarnado. Obtém a satisfação por indução. Ligando-se mental e psiquicamente ao ex-companheiro, pode haurir suas emanações alcoólicas ou das drogas psicotrópicas de que se servia antes da morte. De outras vezes o espírito vampiresco se serve de alguém que, não sendo viciado, revela tendências para o vício e o leva facilmente para a viciação.

A terapia espírita consiste, nesses casos, num processo oral de persuasão, conhecido como doutrinação. Conseguindo-se levar o espírito vampiro e sua vítima a se convencerem da necessidade e da conveniência de abandonarem o vício, ambos se curam. A doutrinação se distingue profundamente do exorcismo por ser um processo racional e persuasivo e não pautado pela violência. A terapia espírita parte da compreensão de que ambos, o vampiro e a vítima, são criaturas humanas necessitadas de socorro e orientação. Essa posição favorece o tratamento, que ao invés de provocar reações de indignação do espírito tratado como diabólico, provoca-lhe a razão e o sentimento de sua dignidade humana e lhe mostra as possibilidades de uma situação feliz na vida espiritual. Submetido às reuniões de preces, passes e doutrinação, os dois espíritos, o desencarnado e o encarnado, são tratados com a assistência das entidades espirituais encarregadas desse trabalho amoroso. Kardec acentuou a necessidade de boas condições morais das pessoas que se dedicam a esse trabalho, pois só a moralidade do doutrinador exerce influência sobre os espíritos. Toda pretensão de afastar o espírito vampiresco pela violência só servirá para irritá-lo e complicar o caso. A boa intenção do doutrinador para com o vampiro e a vítima, sua atitude amorosa para com ambos, é fator importante para o êxito do trabalho. A formação de correntes de mãos dadas em torno do paciente. O uso de defumadores e outros artifícios semelhantes, e qualquer outra forma de encenação material são simplesmente inúteis e prejudiciais. O imprudente que gritar com o espírito, dando-lhe ordens negativas, arrisca-se a prejudicar o trabalho e chamar sobre si a indignação do espírito ofendido. O clima dos trabalhos deve ser de paz, compreensão, amor e confiança nas possibilidades de recuperação das criaturas humanas. Nenhum espírito tem a destinação do mal. Todos se destinam ao bem e acabarão modificando-se por seus próprios impulsos de transcendência.
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José Herculano Pires, Ciência Espírita e suas implicações terapêuticas, Tratamento de Vícios e Perversões 1 de 2, 11º fragmento da obra.
(imagem: O peregrino sobre o mar de névoa, por Caspar David Friedrich)

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Seres Radiantes do espaço ~


Capítulo II

Nas sessões espíritas onde não existe nem o recolhimento, nem união de pensamentos ou união de forças, criam-se correntes diversas e fre-quentemente opostas que formam como uma tempestade de fluidos, na qual as entidades elevadas sentem um real desconforto e até um sofrimento que paralisa a sua ação. Por outro lado, os espíritos inferiores, de vibrações baixas, aí se comprazem e agem tanto mais facilmente, conforme são mais grosseiros, mais próximos da matéria. Mas a sua influência é prejudicial para os médiuns, que eles desgastam e desequilibram com o correr do tempo. Isso não é menos temível para os próprios pesquisadores, como se pode verificar pelas experiências do Dr. Gibier |* e em muitos outros casos, por experimentadores negligentes ou ignorantes das condições e leis que regem o mundo invisível.

Se os resultados obtidos na Inglaterra, nos meios científicos, são mais desenvolvidos do que na França, é porque os sábios que declaram publicamente os fenómenos e as provas de identidade que obtiveram, como Crookes, Myers, Lodge, etc., eram, ou são espiritualistas, enquanto que o ceticismo e o materialismo ainda dominam a maioria dos nossos sábios.

Todos os que, pelo estudo do mundo invisível, nos seus contactos com o Além, procuram as certezas que fortificam e consolam, as grandes verdades que iluminam a vida, traçam o caminho a seguir, fixam o objetivo da evolução; todos os que procuram adquirir as forças espirituais que sustentam na luta e na prova, que nos preservam das tentações de um mundo material e enganador, devem unir os seus pensamentos, orações e vontades, devem fazer jorrar de suas almas essas correntes poderosas e fluídicas que atraem as entidades protetoras e os amigos falecidos. Se souberem perseverar nos seus pedidos, em suas pesquisas, em seus desejos, elas se aproximarão; essas almas, e seus conselhos, ensinos e ajudas se derramarão sobre eles como um orvalho benfeitor. Nessa comunhão crescente com o invisível, gozarão uma vida nova e se sentirão reconfortados, regenerados.

E se, pela sua assiduidade e fé, obtiverem belos fenómenos e notáveis faculdades psíquicas, não se tornem vaidosos, e os aceitem com reconhecimento, humildade e façam-nos servir para o seu aperfeiçoamento moral. Lembrem-se de que a presunção é como uma muralha que se interpõe entre nós e as influências do Alto, assim como disse Bernardin de Saint-Pierre: |** “Para se achar a verdade, é preciso procurá-la com o coração puro”. E ainda acrescentarei essas palavras das Escrituras: “Deus deu para os pequenos e humildes o que negou, às vezes, aos poderosos e aos sábios”.


|* Ver Espiritismo ou Faquirismo Ocidental, pelo Dr. Paul Gibier (há edição FEB). Ver também “Caso Trágico” publicado pela revista Luce e Ombra, número de junho, 1921, reproduzido pela Revista Espírita.
|** Escritor francês (1737-1814), autor de Paulo e Virgínio.
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Léon Denis, O Espiritismo e as Forças Radiantes, Capítulo II, 2 de 3, 5º fragmento da obra.
(imagem: Ascensão de Cristo, pintura de Salvador Dali, 1958)

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Deus na Natureza~


Introdução

   Nesta nossa época de observação e experimen-tação, os materialistas procuram apoiar-se em trabalhos científicos e pretendem deduzir da ciência positiva o seu sistema.

   Os espiritualistas, em geral, acreditam, ao invés, poderem pairar acima da esfera experimental e chegar  aos píncaros da razão pura. Ao nosso ver, o espiritualismo para triunfar deve medir-se com o adversário no mesmo terreno e com as mesmas armas. Ele não perderá nada do seu caráter, condescendendo em baixar à arena, e nada terá a recear nesse confronto com a ciência experimental.

   As lutas empenhadas e os erros a combater estão longe de se tornarem perigosos para a causa da verdade. Com o exigirem um exame mais rigoroso das questões versadas, essas lutas nos ensejam a preparação de uma vitória mais completa.

   A Ciência não é materialista, nem pode servir ao erro. Como e por que, pois, haveriam de temê-la o espiritualismo e a verdadeira religião? Duas verdades não se podem opor a uma terceira.

   Se Deus existe, sua existência não poderia ser suspeitada nem combatida pela Ciência.

   Para nós, temos a convicção íntima de que, muito pelo contrário, no estabelecimento de conhecimentos exatos sobre a construção do Universo, sobre a vida e o pensamento, propicia-se atualmente o único método eficiente ao aclaramento do problema. Só assim poderemos saber se devemos admitir a soberania da matéria universal ou se importa reconhecer uma inteligência organizadora, um plano e um destino imanentes.

   Tal, pelo menos, a forma por que o debate se nos apresenta e impõe à mente, neste nosso trabalho.

   Esperamos que esta tentativa de versar a existência de Deus pelo método experimental aproveite ao progresso de nossa época, por estar de acordo com as suas tendências características.

   Ficaremos satisfeitos se a leitura deste livro deixar cair uma fagulha luminosa nos espíritos indecisos. Mais ainda, se depois de haver meditado fundo estes nossos estudos, alguma fronte se levantar consciente de sua legítima dignidade.

   Se, regra geral, os ideólogos franceses não têm aplicado o método científico aos problemas da filosofia natural, em compensação alguns sábios trataram o assunto do ponto de vista das relações gerais manifestadas no mundo e que lhe constituem a unidade viva. Com prazer assinalamos, entre as obras deste género, os diversos trabalhos do Sr. A. Langel, aqui mesmo utilizados várias vezes.

   Problemas da Natureza e problemas da vida não conduzem eles, efetivamente, ao máximo problema? Examinar as forças ativas no organismo universal não será o mesmo que examinar as diversas modalidades da força essencial e original?

   As investigações que focalizam o estudo da Natureza podem aproveitar à Filosofia com maior segurança, às vezes, do que os tratados ou os ditirambos especialmente consagrados à Metafísica. Os próprios escritos dos senhores Moleschott e Buchner nos ofereceram elementos de refutação.

   A circulação da vida, qual a expõe o primeiro, mostra na vida uma força independente e transmissível, dirigindo os átomos, mediante leis determinadas e conforme o tipo das espécies. O exame da Força e da Matéria estabelece, por outro lado, a soberania da Força e a inércia da Matéria.

   Sendo a Força e a extensão os primeiros princípios do conhecimento, e sendo a Filosofia a ciência dos princípios, poderia esta obra ser considerada antes como um estudo filosófico, se não houvéssemos resolvido limitar-nos a uma discussão puramente científica. Este, efetivamente, o seu fim precípuo e que, por bem dizer, oferece mais atrativos, mau grado à aridez aparente do trabalho.

   Pensamos que o único meio eficaz de combater o negativismo contemporâneo é voltar contra ele o materialismo científico e utilizar as suas próprias armas para derrotá-lo.

   Esse discrime compete antes à Ciência que à Filosofia.

   A Ideologia, a Metafísica, a Teologia, mesmo a Psicologia, dele se afastaram quanto possível.

   Nós não razoamos com palavras, mas com factos.
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Camille Flammarion, Deus na Natureza – Introdução 3 de 4, 3º fragmento.
(imagem: Jungle Tales_1895, pintura de James Jebusa Shannon)