Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

sábado, 29 de dezembro de 2012

Da sombra do dogma à luz da razão~


NATUREZA DA REVELAÇÃO ESPÍRITA

   Podemos considerar o Espiritismo uma revelação? Nesse caso, qual é a sua natureza? Sobre que se funda a sua autenticidade? A quem e de que forma foi feita? Será a doutrina espírita uma revelação no sentido teológico da palavra, isto é, será em todos os seus pontos produto de um ensinamento oculto vindo do alto? É absoluta ou é susceptível de modificações? Ao trazer aos homens a verdade já pronta, não teria a revelação como efeito impedi-los de usarem as suas faculdades, dado que lhes pouparia o trabalho da pesquisa? Qual pode ser a autoridade dos ensinamentos dos Espíritos, se não são infalíveis e superiores à humanidade? Qual é a autoridade da moral que pregam, se essa moral não é outra se não a de Cristo, que já conhecemos? Quais as verdades novas que nos trazem? Tem o homem necessidade de uma revelação e não pode encontrar em si e na sua consciência tudo o que necessita para se guiar? São estas as questões sobre que é importante fixarmo-nos.

  Definamos primeiro o sentido da palavra revelação.

  Revelar, do latim revelare, cuja raiz é velum, véu, significa literalmente sair de sob o véu e, em sentido figurado, descobrir, dar a conhecer uma coisa secreta ou desconhecida. Na sua acepção vulgar mais geral, diz-se de qualquer coisa ignorada que é posta às claras, de qualquer ideia nova que nos coloca no caminho do que não sabíamos.

  Deste ponto de vista, todas as ciências que nos dão a conhecer os mistérios da natureza são revelações e podemos dizer que, para nós, há uma revelação constante; a astronomia revelou-nos o mundo astral que não conhecíamos; a geologia, a formação da Terra; a química, a lei das afinidades; a fisiologia, as funções do organismo, etc.; Copérnico, Galileu, Newton, Laplace, Lavoisier são reveladores.

  O carácter essencial de qualquer revelação deve ser a verdade. Revelar um segredo é dar a conhecer um facto; se a coisa é falsa não é um facto e, por conseguinte, não existe revelação. Qualquer revelação desmentida pelos factos não é uma revelação; se for atribuída a Deus, não podendo Deus enganar-se nem mentir, esta não pode emanar dele; deve ser considerada como produto de uma concepção humana.

  Qual é o papel do professor perante os seus alunos, se não o de um revelador? Ensina-lhes o que não sabem, o que não teriam nem tempo nem possibilidade de descobrir por si, porque a ciência é a obra colectiva dos séculos e de uma quantidade de homens que trouxeram, cada um deles, o seu contingente de observações e de que se aproveitam os que vêm depois deles. Portanto, o ensino é, na realidade, uma revelação de certas verdades científicas ou morais, físicas ou metafísicas, feita por homens que as conhecem a outros que as ignoraram e que, sem isso, as teriam para sempre ignorado.

  Mas o professor só ensina o que aprendeu; é um revelador de segunda ordem; o homem de génio ensina o que foi ele a descobrir: é o revelador primitivo; traz o saber que, de aproximação em aproximação, se vulgariza. Onde estaria a humanidade sem a revelação dos homens de génio que surgem de tempos a tempos!

  Mas o que são homens de génio? Por que são eles homens geniais? De onde vêm eles? Que se passa com eles? Repara-se que a maior parte deles traz à nascença faculdades transcendentes e conhecimentos inatos, bastando pouco trabalho para que se desenvolvam. Fazem muito verdadeiramente parte da humanidade, uma vez que nascem, vivem e morrem como nós. Onde foram então buscar esses conhecimentos que não podem ter adquirido em vida? Diremos, como os materialistas, que o acaso lhes concedeu matéria cerebral em maior quantidade e de melhor qualidade? Nesse caso, não teriam mais mérito do que um legume maior e mais saboroso que outro.

  Diremos, como alguns espiritualistas, que Deus os dotou com uma alma mais favorecida que a do comum dos homens? Suposição igualmente ilógica, pois macularia Deus com a parcialidade. A única solução racional para este problema está na pré-existência da alma e no pluralismo das existências. O homem de génio é um Espírito que viveu mais tempo; que, por consequência, obteve mais saber e, como sabe muito mais do que os outros sem ter tido necessidade de aprender, é aquilo a que chamamos um homem de génio. Mais o que sabe não deixa de ser fruto de um trabalho anterior e não o resultado de um privilégio. Antes de renascer era portanto um Espírito evoluído; reencarna tanto para que os outros se aproveitem do que sabe, como para adquirir mais conhecimentos:

  Os homens progridem incontestavelmente por si mesmos e pelo esforço da sua inteligência; mas, entregues às suas próprias forças, este progresso é muito lento, caso não sejam ajudados por homens mais adiantados, tal como o aluno o é pelos seus professores. Todos os povos têm os seus homens de génio que vieram, em diversas épocas, dar-lhes um impulso e retirá-los da sua inércia.

   A partir do momento em que admitimos a solicitude de Deus para com as suas criaturas, por que não haveríamos de admitir que os Espíritos são capazes, graças à sua energia e superioridade dos seus conhecimentos, de fazer evoluir a humanidade; que encarnam pela vontade de Deus com o fim de ajudarem à evolução num sentido determinado; que recebem uma missão tal como um embaixador a recebe do seu soberano? É este o papel dos grandes génios. Que vêm eles fazer, se não ensinar aos homens as verdades que ignoram e que teriam continuado a ignorar ainda durante longos períodos, fornecendo-lhes um degrau para se poderem elevar mais rapidamente? Estes génios, que surgem no decorrer dos séculos como estrelas brilhantes, deixando atrás de si uma longa cauda luminosa sobre a humanidade, são missionários ou, se quisermos, Messias. As coisas novas que ensinam aos homens, quer no aspecto físico ou filosófico, são revelações.

  Se Deus concede reveladores para as verdades científicas, pode, com muito mais razão, concedê-los para as verdades morais, que constituem um dos elementos essenciais do progresso. São assim os filósofos cujas ideias atravessam os séculos.
/…

* Na senda e no espírito de Pedro A. Barboza de La Torre em seu livro, De la sombra Del dogma a la luz de la razón.


ALLAN KARDEC, A GÉNESE – Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo, Capítulo I NATUREZA DA REVELAÇÃO ESPÍRITA números de 1 a 6, 3º fragmento da obra. Tradução portuguesa de Maria Manuel Tinoco, Editores Livros de Vida.
(imagem: Diógenes, pintura de Jean-Léon Gérôme – 1860)

domingo, 23 de dezembro de 2012

Inquietações Primaveris~


A Heróica Pancada (II)

Um cidadão ilustrado, diplomado e doutorado, que aceita ao mesmo tempo os dogmas absurdos de uma igreja e os princípios racionais da Ciência, mostra desconhecer o princípio de contradição, da lógica, em que duas coisas não podem ser, ao mesmo tempo e no mesmo sentido, ambas verdadeiras. Esse cidadão, por mais honesto que seja, sofre de uma falha mental no seu raciocínio, produzida por interferência de elementos efectivos e exacerbados na sua mundividência. Toda a sua cultura, todos os seus títulos, toda a sua fama nos meios sócio-culturais não podem salvá-lo da condenação intelectual a que se destina e da ingenuidade infantil a que se entrega no plano filosófico. Ou aceitamos a verdade científica demonstrada e provada do nosso tempo, com suas perspectivas abertas para o amanhã, ou nos inscrevemos nas fileiras sem fim dos retrógrados, tentando tapar inutilmente o sol com a peneira.

O amor à verdade é intransigente, porque a verdade é uma só. Os que sustentam o refrão ignorante da verdade de cada um, simplesmente revelam não conhecer a verdade e suas exigências.

A Educação para a Morte só pode basear-se na Verdade Única, provada com exclusão total das verdades fabricadas pelos interesses humanos ou pelo comodismo dos que nada buscam e por isso nada sabem. O homem educado na Verdade não usa as máscaras da mentira convencional nem pode ser um sistemático. A paixão da verdade enjeita toda a mentira e o faz lembrar os versos de Tobias Barreto, aplicando-os ao campo incruento das batalhas pelo Futuro:

Quando se sente bater
no peito heróica pancada,
deixa-se a folha dobrada
enquanto se vai morrer

A intuição desses versos supera as exigências formais da poética para inscrevê-los na realidade viva de uma existência humana voltada para a transcendência. Quando a verdade é ferida, ou simplesmente tocada por dedos impuros, aquele que a ama em termos de razão fecha o livro de seus estudos e pesquisas para morrer por ela, se necessário. Mas, entregando o cadáver à Terra, a que ele de facto pertence, ressuscita em seu corpo espiritual e volta aos estudos subitamente interrompidos. A reencarnação lhe permitirá, até mesmo, retomar na própria Terra, em outro corpo carnal regido pelo seu mesmo corpo espiritual, os trabalhos que nela deixou. A morte não é um esqueleto, com sua caveira de olhos esburacados e um sabre sinistro nos ombros, como a figuraram desenhadores e pintores de outros tempos. Sua imagem real, liricamente cantada pelo poeta Rabindraná Taggore, é a de uma noiva espiritual, coroada de flores, que nos recebe nos portais da Eternidade para as núpcias do Infinito. Aqueles que assim a concebem não a temem nunca, nem desejam precipitar a sua chegada, pois sabem que ela é a mensageira da Sabedoria, que vem nos buscar após o labor fecundo e fiel nos campos da Terra.

“Vem, ó Morte, quando chegar a minha hora, envolver-me em tuas guirlandas floridas” – exclamava Taggore num dos seus poemas-canção, já velho e cansado, mas com seus olhos serenos reflectindo entre as inquietações humanas a luz das estrelas distantes.

Se conseguirmos encarar a morte com essa compreensão e esse lirismo puro, desprovido dos excessos mundanos, saberemos também transmitir aos outros, e especialmente aos que nos amam, a verdadeira Educação para a Morte.

A Verdade, o Amor e a Justiça formam a tríade básica dessa nova forma educacional que pode e deve salvar o mundo de sua perdição na loucura das ambições desmedidas. Essa tríade expulsará da Terra os espantalhos do Ódio, do Medo, da Violência e da Maldade, que fazem o homem retornar constantemente à animalidade primitiva. Então não pensaremos mais em fugir para a Luz e de lá, como júpiteres de opereta, atirarmos para o planeta que nos abrigou no processo evolutivo os raios da nossa ferocidade. A Astronáutica se libertará de suas implicações bélicas e os satélites espiões das grandes potências infernais desaparecerão para sempre. Não somos os herdeiros do Diabo, esse pobre anjo decaído das lendas piedosas, que nos lança na impiedade. Somos filhos e herdeiros de Deus, a Consciência Criadora que não nos edificou para a hipocrisia, mas para a Verdade, a Justiça e o Amor.
/…


Herculano Pires, José – Educação para a Morte, A Heróica Pancada 2 de 2, 11º fragmento da obra.
(imagem: O caranguejo, pintura de William-Adolphe Bouguereau)

domingo, 16 de dezembro de 2012

O Mundo Invisível e a Guerra~


V
A Justiça Divina e a Atual Guerra

|14 de julho de 1915|

   Soldados que, na linha de batalha, mostrais ao inimigo a trincheira de vossos peitos e de vossos valentes corações, sois a carne de nossa carne, o sangue de nosso sangue, a força e a esperança de nossa raça.

   As irradiações de nossos pensamentos e de nossas vontades se dirigem a vós, para vos sustentar na luta ardente em que estais empenhados.

   Escutai, vós também, a harmonia que neste dia sobe das planícies, dos vales e dos bosques, das cidades populosas e dos campos modestos, unidos aos toques marciais do clarim e aos vibrantes acordes da Marseillaise! É a voz da pátria que vos diz:

   “Velai e lutai. Combateis pelo que há de mais sagrado neste mundo, pelo princípio de liberdade que Deus colocou no homem e que ele próprio respeita: a liberdade de pensar e de agir sem precisar prestar contas ao estrangeiro.

   Combateis pela manutenção do património que os séculos nos legaram, pelo cemitério onde jazem nossos antepassados, pelos campos que nos alimentaram e por todos os tesouros da arte e da beleza acumulados pelo trabalho lento das gerações em nossas bibliotecas, museus e catedrais.

   Combateis para conservar a nossa língua, esse idioma tão meigo que o mundo todo considera como a expressão mais nítida e mais clara do pensamento humano.

   Defendeis o lar da família, onde gostais de repousar o vosso espírito e a vossa alma, o berço de vossos filhos e os túmulos de vossos pais!

   Soldados, vós crescestes do ponto de vista terreno. Por vossa firmeza na provação e por vosso heroísmo nos combates, elevastes o prestígio da França aos olhos do mundo e tornastes mais brilhante a auréola de glória que lhes ornamenta a fronte.

   É bom, agora, aspirar aos céus, cumprindo erguer os pensamentos para Deus, que é a fonte de toda a força e de toda vida!”

   Para vencer, não bastam armas aperfeiçoadas e um poderoso instrumental material; é preciso também ter ideal e disciplina. É necessário que as almas tenham confiança num futuro infinito, a fé esclarecida e a certeza de que uma justiça infalível preside os destinos de todos nós.

   Tomai cuidado com os negadores de verdades evidentes e com os que dizem que a morte é o fim de tudo, que o ser perece completamente, que os esforços, as lutas e os sofrimentos do ser humano só obtêm como recompensa o nada.

   Acostumai-vos a orar antes da batalha e a suplicar o socorro do Alto, porque, abrindo-lhes os vossos corações, ele se tornará mais intenso e mais poderoso.

   Desconfiai de quem vos diz: “Não há fronteiras, a pátria é apenas uma palavra e todos os povos são irmãos.” Reims, Soissons, Arras e tantas outras cidades podem falar, eloquentemente, sobre essas teorias. Não foi com elas que nossos antepassados constituíram a França, através dos séculos, tornando-a grande, forte e respeitada.

   Cada povo tem seu talento particular, mas para manifestá-lo, precisa de independência e é dessa diversificação e desses mesmos contrastes que surge o incentivo e nascem o progresso e a harmonia.

   Soldados, escutai a sinfonia que sobe das planícies, dos vales e dos bosques, misturada aos rumores das cidades, aos cânticos patrióticos e às fanfarras guerreiras.

   Das florestas de Argonne aos desfiladeiros dos Pirenéus, das margens floridas da Côte d’Azur aos jardins da Touraine e às praias da Normandia, dos promontórios bretões, banhados pelas ondas, até aos Alpes majestosos, a grande voz da França entoa o seu hino eterno!

   Sua prece se ergue ainda mais alto, a prece dos vivos e a dos mortos, a prece de um povo que não está disposto a morrer e que, em meio a sua angústia, volta-se para Deus e invoca socorro, a fim de salvar sua independência e manter intactas sua glória e sua grandeza!
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LÉON DENIS, O Mundo Invisível e a Guerra, V – A Justiça Divina e a Atual Guerra, 4 de 4, 17º fragmento da obra.
(imagem: Tanque de guerra britânico capturado pelos Alemães, durante a Primeira Guerra Mundial)

sábado, 8 de dezembro de 2012

pensamento crítico~


A sobrevi-vência contra a evolução

   Mas não fica nisso o desprezo dos autores pela dialética. Depois desse gigantesco retrocesso histórico, afirmam eles, como se dissessem uma novidade: “a morte do indivíduo é um dos métodos da vida” (que dúvida!). E continuam: “Cada indivíduo é uma experiência biológica. Cada espécie progride pela seleção, rejeição ou multiplicação dos indivíduos. Biologicamente, a vida deixaria de continuar para diante, se os indivíduos não tivessem um fim e não fossem substituídos por outros. A ideia da imortalidade individual é absolutamente contrária à ideia da evolução contínua”.

   E logo mais, numa dessas tiradas que se repetem de boca em boca e de livro em livro, enquanto alguém não pede, como Sócrates, a definição do seu verdadeiro sentido: “São os moços, e não os velhos, os que desejam a imortalidade pessoal.”

   É pena que não mencionem a fonte desse espantoso dado estatístico, pois gostaríamos de confrontá-lo com o número de mocidades espíritas, católicas, protestantes, teosofistas, e dos muitos outros jovens espiritualistas não filiados a nenhuma seita, por que estranho motivo não deixam o terreno exclusivamente aos velhos, monopolizadores modernos da velha aspiração humana da sobrevivência.

   Dizer, além disso, que a imortalidade individual é contrária à evolução contínua, é “fazer de conta” que essa imortalidade seja biológica. Ora, absurdo dessa monta ninguém poderia aceitar. Como, pois, interpretar-se a atitude desses homens habituados a lidar com as coisas do pensamento, a acompanhar e divulgar os conhecimentos científicos, senão pelo desprezo à dialética?
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José Herculano Pires, Espiritismo Dialéctico, A sobrevivência contra a evolução, 7º fragmento da obra.
(imagem: Diógenes, pormenor d'A escola de Atenas de Rafael Sanzio, 1509)

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

a pedra e o joio~


Atualização do Espiritismo

   Desde que o confrade Hernani Guimarães Andrade publicou o seu livro, A Teoria Corpuscular do Espírito, vimos sendo consultados por pessoas que não sabem como encarar a obra. Num texto que aparece nas orelhas do volume, o Professor Victor Magaldi refere-se à teoria, como sendo uma “verdadeira revolução no Neo-Espiritismo”. No primeiro capítulo, o autor declara que o Espiritismo precisa progredir, superar os velhos conceitos mecanicistas do século passado, e que “os adeptos da doutrina devem ter a coragem de voltar atrás, se preciso for; reformar conceitos velhos; sacudir o pó da suposição para descobrir a realidade soterrada; abrir mão do dogmatismo comodista e ignorante, que se aferra à forma e esquece o espírito”.

   Todas essas coisas preocupam os adeptos, não comodistas nem ignorantes, mas ciosos da pureza da doutrina. Quer o confrade Guimarães Andrade reformar o Espiritismo? A que se refere o confrade Victor Magaldi, quando proclama a existência de uma revolução no “Neo-Espiritismo”? Existe isso? Existe um Neo-Espiritismo, e no seu seio já se processa uma revolução? Por outro lado, a terminologia doutrinária estará mesmo superada, será arcaica, necessitará de revisão? Estaremos em condições de enfrentar essa tarefa? Disporá o autor do livro de meios e recursos para sacudir a poeira dos conceitos kardecistas e revelar uma possível realidade oculta?

   Confessamos que era nosso intento, desde a publicação de A Teoria Corpuscular do Espírito, escrever sobre essa obra. Mas, encontrando esses mesmos problemas referidos pelos leitores, resolvemos estudar o livro com tempo e vagar, não aventurando a respeito nenhuma opinião. Além disso, o autor anuncia outros volumes, que completarão sua teoria. Diante porém, da insistência dos leitores e amigos, e uma vez que já aparece até mesmo a ideia, em certos núcleos, de tratar do problema da “Nova nomenclatura espírita” (por analogia certamente com a “Nova nomenclatura gramatical”), resolvemos tratar do assunto.

   Nossa atitude é a mesma dos leitores. Estamos com um pé atrás. Conhecemos o confrade Guimarães Andrade, sabemos ser uma pessoa honesta e sincera, mas desconfiamos dos rumos da sua imaginação, no campo doutrinário. Primeiramente, não vemos razões para o ataque à terminologia kardecista. Ela é tão válida hoje como há cem anos. A própria negação do “conceito mecanicista de éter” precisa ser examinada. E isso por dois motivos: porque o debate sobre o problema do éter espacial ainda não se encerrou, na própria Física; e porque o éter do Espiritismo não corresponde exatamente, mas apenas analogamente, ao da Física. O mesmo acontece com os conceitos de “fluido” e de “vibração”. Kardec não formulou uma teoria científica, da mesma maneira por que Jesus não criou um sistema filosófico. A revisão dos conceitos doutrinários, na base das falíveis teorias científicas modernas, equivale, ao nosso ver, a uma revisão dos conceitos evangélicos, na base dos sistemas filosóficos instáveis do nosso tempo.

   Em segundo lugar, a tentativa de criar uma teoria científico-espírita, como quer o autor, parece-nos prematura. Suas dificuldades começam ao procurarmos situar o Espiritismo no quadro das ciências. Kardec acentuou que o Espiritismo deve evoluir com as ciências, mas esclareceu também que a natureza científica do Espiritismo não é a mesma das ciências da matéria. Foi mais longe, ao negar às ciências qualquer competência para se pronunciar sobre as questões espíritas, e afirmou taxativamente que: “O Espiritismo não é da alçada da ciência”. (Cap. VII da “Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita”). Quando ele trata, pois, da Ciência Espírita, não o faz em termos de ciência material, mas esclarece mesmo que o objeto e os métodos de ambas são diferentes.

   Ora, o que o confrade Guimarães Andrade pretende fazer, é exatamente o que Kardec condenou. Ou seja, para usarmos as expressões textuais do codificador: “sujeitar (o Espiritismo) aos processos ordinários de investigação, estabelecendo analogias que não existem”. O mesmo aconteceu com a Psicologia, quando Wundt, Fechner, Binet e outros quiseram reduzi-la a processos de mensuração física. O mesmo com a Sociologia, inicialmente chamada “Física Social”, mais tarde ligada à Biologia, e hoje liberta dessas inadequações conceptuais e metodológicas. O Espiritismo não pode sujeitar-se a esses processos de amoldagem. No próprio campo da Filosofia, os Espíritos e o próprio Kardec fizeram questão de esclarecer que ele devia desenvolver-se “livre dos prejuízos do espírito de sistema”.

   Ainda agora, ao esclarecer a utilização de conceitos da ciência moderna, em seu livro Mecanismos da Mediunidade, André Luiz adverte: “As notas dessa natureza, neste volume, tomadas naturalmente ao acervo de informações e deduções dos estudiosos da atualidade terrestre, valem aqui por vestimenta necessária, mas transitória, da explicação espírita da mediunidade, que é, no presente livro, o corpo de ideias a ser apresentado”. Aplicando essa explicação ao caso de O Livro dos Espíritos, compreenderemos que o que nos interessa no seu texto não é a vestimenta, mas a substância, não é a terminologia, mas “o corpo de ideias”.

   A tentativa do confrade Guimarães Andrade deve ser encarada, pois, com o cuidado que Kardec recomendava sempre, para todas as inovações. Procuremos conter os entusiastas, que já pretendem erigir o autor em reformador doutrinário. O próprio Ernesto Bozzano chegou a propor uma teoria do Éter-Deus, para explicar de maneira física o Ser Supremo, o que era evidentemente absurdo e não teve aceitação. Fazer avançar o Espiritismo não é subjugá-lo a conceitos da ciência material, mas dar-lhe maior desenvolvimento espiritual em nossa compreensão. E trabalhar assim, espiritualmente, para apressar aquele momento, previsto por Kardec, em que “os sábios se renderão à evidência”. Serão eles, então, os que terão de modificar os seus conceitos, sacudindo a poeira das suas hipóteses instáveis.
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José Herculano Pires – A Pedra e o Joio, Crítica à Teoria Corpuscular do Espírito.A teoria corpuscular, 11º fragmento da obra.
(imagem: As Colhedoras de Grãos, pintura a óleo por Jean-François Millet)

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

| o grande enigma ~


Deus | e o Universo

Um mal-entendido secular divide as escolas filosóficas quanto a estas questões. O materialismo via no Universo somente a substância e a força. Parecia ignorar os estados quintessenciados, as transformações infinitas da matéria. O espiritualismo vê em Deus só o princípio espiritual e não considera imaterial tudo o que não cai sob os nossos sentidos. Ambos se enganam. O mal-entendido que os separa cessará quando os materialistas virem em seu princípio e os espiritualistas em seu Deus a fonte dos três elementos: substância, força, inteligência, cuja união constitui a vida universal.

Por isso, basta compreender duas coisas: se se admite que a substância esteja fora de Deus, Deus não é infinito, e, pois que a consciência existe no mundo atual, é preciso evidentemente que ela se encontre naquilo que tem sido o Princípio do mundo.

Mas a Ciência, depois de se haver retardado durante meio século nos desertos do materialismo e do positivismo, depois de ter reconhecido a esterilidade deles, a ciência atual modificou a sua orientação. Em todos os domínios: física, química, biologia, psicologia, ela se encaminha hoje, a passo decidido, para essa grande unidade que se entrevê no fundo de tudo. Por toda parte ela reconhece a unidade de forças, a unidade de leis. Atrás de toda substância em movimento encontra-se a força, e a força não é senão a projeção do pensamento, da vontade na substância. A eterna criação, a eterna renovação dos seres e das coisas é tão-somente a projeção constante do pensamento divino no Universo.

Pouco a pouco, o véu se levanta; o homem começa a entrever a evolução grandiosa da vida na superfície dos mundos. Ele vê a correlação das forças e a adaptação das formas e dos órgãos em todos os meios; sabe que a vida se desenvolve, se transforma e se apura à medida que percorre sua espiral imensa; compreende que tudo está regulado visando a um fim, que é o aperfeiçoamento contínuo do ser e o crescimento nele da soma do bem e do belo. Mesmo neste mundo, ele pode seguir essa lei majestosa do progresso, através de todo o lento trabalho da Natureza, desde as formas ínfimas do ser, desde a célula verde flutuando no seio das águas, até ao homem consciente no qual a unidade da vida se afirma, e acima dele, de grau em grau, até o infinito. E essa ascensão só se compreende, só se explica pela existência de um princípio universal, de uma energia incessante, eterna, que penetra toda a Natureza; é ela quem regula e estimula essa evolução colossal dos seres e dos mundos para o melhor, para o bem.

Deus, tal qual o concebemos, não é, pois, o Deus do panteísmo oriental, que se confunde com o Universo, nem o Deus antropomorfo, monarca do céu, exterior ao mundo, de que nos falam as religiões do Ocidente. Deus é manifestado pelo Universo – do qual é a representação sensível –, mas não se confunde com este. De igual maneira que em nós a unidade consciente, a Alma, o eu, persiste no meio das modificações incessantes da matéria corporal, assim, no meio das transformações do Universo e da incessante renovação de suas partes, subsiste o Ser que é a Alma, a consciência, o eu que o anima e lhe comunica o movimento e a vida.

E esse grande Ser, absoluto, eterno, que conhece as nossas necessidades, ouve o nosso apelo, nossas preces, que é sensível às nossas dores, é qual o imenso foco em que todos os seres, pela comunhão do pensamento e do sentimento, vêm haurir forças, o socorro, as inspirações necessárias para guiá-los na senda do destino, sustê-los em suas lutas, consolá-los em suas misérias, levantá-los em seus desfalecimentos e em suas quedas.
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Léon Denis, O Grande Enigma, Primeira parte Deus e o Universo, I O grande Enigma 3 de 5, 6º fragmento da obra.
(imagem: Salvador Dali, 1950)

sábado, 24 de novembro de 2012

Victor Hugo e o invisível ~


Para uma filosofia poética

   Victor Hugo foi um dos poetas que esboçou a possibilidade de uma filosofia poética. No verso como na prosa, tratou sempre de temas transcendentais relacionados com o homem e o mundo. Sendo certo que no académico não se admite uma filosofia poética, seria bom recordar que Hegel, apesar de seu tecnicismo complicado, expunha conceitos metafísicos que se relacionavam intimamente com o poético.

   George Santayana, com seu livro Três poetas, filosóficos: Lucrécio, Dante, Goethe, contribuiu para sustentar esta tese referente a uma filosofia poética. Mas é chegado o momento de considerar que se a filosofia há de cumprir um papel especial entre os homens, só o conseguirá mediante valores ontológicos e poéticos, pois o estilo obscuro e técnico de um Heidegger ou de um Sartre, por exemplo, em nada contribui para a compreensão das essências da filosofia. O existencialismo como que-fazer filosófico é, poder-se-ia dizer, como uma reação contra o tecnicismo filosófico onde apenas se vislumbra o "problema do Ser" pelas complicações filológicas incompreensíveis ainda para os homens entregues ao estudo e à cultura.

   O caso de Victor Hugo não foi considerado pela história da filosofia e o mesmo se poderia dizer da obra de Miguel de Unamuno, onde a poesia se une à filosofia.

   Sem dúvida, a filosofia deverá ser poética e religiosa ou não passará de uma acumulação de páginas técnicas que jamais chegarão a projetar luz na alma do pensador. Caso o filósofo se contente apenas com a linguagem técnica, o "conhece-te a ti mesmo" dos gregos antigos jamais se produzirá na alma dos homens.

   A filosofia esboçada pelo autor de As Contemplações estará assente sempre sobre a beleza, posto que o Ser é uma entidade sensível que só evolui por ela rumo ao bem e à verdade. Se não opta por voltar ao reino da sabedoria; se prefere objetivar-se no temporal como uma disciplina académica, o daimon da filosofia permanecerá mudo e o espírito humano será abatido pelas trevas do niilismo.

   Victor Hugo filosofou pela poesia porque desceu às profundidades do Ser, reconhecendo que não será sistematizando o presente que a sabedoria se tornará uma luz para os espíritos. Como já dissermos neste livro, Victor Hugo percebeu que a beleza determina a verdadeira filosofia; mas considerou também que o Ser não chegará à verdade através de uma única vida. Seu próprio génio não cabia dentro de uma vida única porque a alma procede de distâncias misteriosas para avançar rumo a horizontes desconhecidos. A filosofia poética de nosso poeta se baseou nessa conceção espiritual do homem e foi por isso que a beleza traduzida em amor lhe permitiu aceitar que as almas são, realmente, viajantes do infinito.

   Quando Victor Hugo disse: "Quem diz poesia diz filosofia e saber" deixou assente as possibilidades de um que-fazer filosófico expresso por uma linguagem poética. A poesia na obra do poeta é, sempre, afirmação, esperança, amor, passado e futuro. É o espírito poético que penetra nos domínios ontológicos da existência e que não se limita exclusivamente a literatura. O génio de Victor Hugo é caudaloso e transborda as dimensões do formal para penetrar no filosófico e religioso. Daí devemos considerá-lo um poeta-filósofo e um filósofo-poeta. Por isso, em seu génio se sintetizam todas as manifestações da vida humana. Nele encontramos o social, o religioso, o crítico, o político e o artístico em relação com o Ser.

   Quando a filosofia poética esboçada por Victor Hugo se manifestar nos criadores contemporâneos; quando a beleza e a filosofia demonstrarem que o homem não é "uma paixão inútil", como deseja Sartre, a missão do conhecimento se cumprirá mediante uma reivindicação moral e existencial de homens e de povos. Dar-se-á lugar a formas de vida social assentes sobre a dignidade humana, alimentadas pela verdade e beleza, porque o homem de Victor Hugo é um batalhador que luta por encontrar Deus e o sentido da vida.
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Humberto MariottiVictor Hugo Espírita, Para uma filosofia poética, 3º fragmento da obra.
(imagem: Young Girl with a Doll, pintura de Anne-Louis GIRODET-TRIOSON

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O Génio Céltico e o Mundo Invisível~


Capítulo V

A Auvergne. Vercin-gétorix, Gergovie e Alésia

Como uma cidadela que coroa alguns cumes de suas torres e de seus baluartes, a Auvergne ergue a corrente de suas montanhas acima das planícies e dos vales da França Central. Dos altos planaltos e dos contrafortes descem e rolam as torrentes, os ribeirões que se transformarão, mais adiante, em grandes rios cujas bacias, dirigidas para três mares, dão à Gália esse aspeto regular, essa forma predestinada que parece, dizia Estrabão, a obra de um deus.

O país dos arvernos era, para seus habitantes, como uma terra sagrada. Os génios invisíveis rondavam sobre suas florestas e suas montanhas. De seu solo jorravam em abundância as fontes quentes, os vapores benéficos, manifestação de um poder subterrâneo que inspirava, nesses povos primitivos, uma espécie de temor religioso.

O Puy de Dôme, que domina toda a região por seu alto porte, era o altar gigantesco de onde a oração dos druidas se elevava para o céu, o templo natural do deus Teutatès, ou melhor, do espírito protetor que simboliza a força e a bravura dos arvernos.

O panorama dos montes desperta na alma uma impressão quase tão viva como as noites estreladas. Essa impressão não se exprime por palavras, mas, geralmente, por uma contemplação silenciosa, por uma admiração tanto mais viva quanto mais profundamente a alma possua o sentido de harmonia e de beleza. Ela é aumentada, ainda, na Auvergne por marcas deixadas pela ação do fogo central, que, no seu esforço para alcançar a superfície, transtornou as camadas terrestres. Se do alto do Puy de Dôme se observa a longa cadeia de crateras que se sucedem do norte ao sul, em linha reta, e se reconstitui, pela imaginação, o período de atividade onde todos esses vulcões expeliam correntes de lavas, das quais se pode ainda seguir os rastos deixados em muitas léguas, e que as pessoas da região chamam de “cheires”, tem-se a visão grandiosa do dinamismo que sacudia o globo nos tempos quaternários.

O solo da Auvergne, tanto na região dos montes Dôme quanto na região dos montes Dore e Cantal, é gretado, crivado de crateras extintas, invadidas depois pelas águas. A mais notável é o lago Pavin, corte vasto e profundo de paredes de pórfiro, que coroa um círculo de florestas. Pela brecha onde se escoavam outrora as lavas, hoje se expandem as águas límpidas do ribeirão La Couze.

Pelo caminho que contorna o lago, através da floresta umbrosa, se atinge o planalto elevado que domina muitas crateras, entre outras a de Moncineire, ou montanha das cinzas. Ali está um dos sítios mais maravilhosos de nossa região. A natureza selvagem das primeiras eras da Terra ali se revela ainda sob o enfeite cambiante das águas e dos bosques. Pelas emanações sulfurosas e pelas lamas quentes que se encontram em alguns pontos da Auvergne, pode-se crer que a atividade subterrânea não cessou inteiramente e que um despertar de forças plutonianas é sempre possível.

O contacto dessa natureza agreste tinha comunicado às populações primitivas essas qualidades rudes e fortes que caracterizam quase todos os montanheses.

Se o sentimento que os gauleses tinham de sua origem comum, de seu parentesco de raça, se a unidade moral e religiosa que resultava fosse mudada em unidade política, os arvernenses teriam sido os primeiros a aproveitá-la. Sua província não era o núcleo ativo e, ao mesmo tempo, a principal força material da Gália?

O Puy de Dôme era o maior santuário. Para ali convergiam peregrinos de todos os locais. Gergovie era o lugar mais importante, e Vichy, situado então em região arvernense, atraía, unicamente pela virtude de suas águas, multidões de doentes e feridos.

O Rei Bituit havia mobilizado duzentos mil combatentes contra os romanos e a cavalaria arverna era considerada como a melhor de todas. Mas Bituit foi vencido e o império arverno se eclipsou durante certo tempo. Entretanto, vastos grupos políticos se formavam em outros lugares: A Federação Armoricana, no oeste; a Federação Belga, no norte de Marne. A de Auvergne se reconstituiu, incorporando todos os povos das Cévennes. Mas a rivalidade ciumenta dos eduenos comprometeu tudo. Eles recorreram a César, cujas legiões penetraram, pouco a pouco, na Gália, e fizeram aliança com ele. A influência do pérfido procônsul aumentou rapidamente e tornou-se logo ameaçadora para a independência gaulesa.

É então que a grande e nobre figura de Vercingétorix (72-46 a.C.) aparece. Educado pelos druidas, foi na sua educação que ele adquiriu essas raras qualidades, essa elevação de caráter que o distinguiam. A morte cruel de seu pai, Celtil, queimado vivo por julgamento do Senado, por ter aspirado à coroa, lançou uma sombra sobre sua juventude e contribuiu para torná-lo, muito cedo, circunspecto, meditativo e sonhador. Ele experimentou, diz-se, a sensação do mundo invisível, essas intuições inexprimíveis que são, talvez, reminiscências de lembranças anteriores, formando um conjunto de coisas enterradas na subconsciência profunda e que tendem a reviver, a se expandir em plena luz.

Camille Jullian, tão reservado nessas matérias, não hesita ao nos ensinar que Vercingétorix, enviado cedo para a escola dos druidas, vivia na familiaridade respeitosa desses sacerdotes. Ele aprende com estes que há uma alma imortal e que a morte é uma simples mudança de estado. Eles lhe ensinam que o mundo é uma coisa imensa e que a humanidade se estende ao longe, bem fora das terras paternais e dos caminhos da caça ou da guerra. Assim o jovem imaginava, pouco a pouco, a grandeza do mundo, a eternidade da alma e a unidade do nome gaulês.

Tudo em Vercingétorix lhe predispunha ao comando; seu corpo alto e soberbo, diz Camille Jullian, o indicava para a admiração das multidões. Ele tinha a superioridade física e intelectual que dá à vontade uma segurança nova, e os arvernos podiam se perguntar se Luern ou Bituit, os chefes ainda célebres da Gália triunfante, não voltavam sob a forma juvenil do último de seus sucessores.

Instruído e amado pelos bardos, tornou-se um deles. Ele sabia se exprimir em versos e empregar em seus discursos essa atitude arrebatadora que impressiona sempre os celtas. Sobre este assunto, lembremos a citação seguinte de Mommsen, o grande historiador alemão, que demonstra que nossos antepassados não eram tão bárbaros como se pretendia: “O mundo céltico se liga mais estreitamente ao espírito moderno do que ao pensamento greco-romano.” |*

E o Sr. Camille Jullian insiste sobre este facto:
“Vercingétorix não era por isso fechado e hostil à civilização greco-latina. Ele tomou emprestado muitos princípios da guerra científica e aceitou uma certa supremacia intelectual dos dois grandes povos vizinhos.”
/…

|* Ver Vercingétorix, de Camille Jullian, p. 93, Editora Hachette.


LÉON DENIS, O Génio Céltico e o Mundo Invisível, Primeira Parte OS PAÍSES CÉLTICOS, CAPÍTULO V – A Auvergne. Vercingétorix, Gergovie e Alésia 1 de 3, 16º fragmento da obra.
(Imagem: A Apoteose dos heróis franceses que morreram por seu país durante a guerra da Liberdade, pintura de Anne-Louis Girodet-Trioson)

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O peregrino sobre o mar de névoa~


Tratamento de Vícios e Perversões

A embriaguês, os tóxicos e o vício do jogo são os flagelos atuais do nosso mundo em fase aguda de transição. Cansados de recorrer sem proveito a internamentos hospitalares, as vítimas e suas famílias acabam recorrendo ao Espiritismo e às diversas formas mágicas do sincretismo religioso afro-brasileiro. É comum fazer-se confusão entre essas formas de religiões primitivas da África e o Espiritismo, em virtude de haver manifestações mediúnicas nos dois campos. Os sociólogos, que deviam ser minuciosos ao tratar desses problemas, carregam a maior parte da culpa dessa confusão. Estão naturalmente obrigados, pela própria metodologia científica, a distinguir com rigor um fenómeno social do outro, mas preferem a simplificação dos processos de pesquisa, que gera confusões lamentavelmente anticientíficas. A palavra Espiritismo, cunhada por Kardec como um neologismo da língua francesa, na época, é uma denominação genésica da Doutrina Espírita. Nasceu das suas entranhas e só a ela se pode aplicar. Kardec rejeitou a denominação de Kardecismo, que seus próprios colaboradores lhe sugeriram, explicando que a doutrina não era uma elaboração pessoal dele, mas o resultado das pesquisas e dos estudos das manifestações espíritas. Entrando em contacto com o mundo espiritual, em todas as suas camadas, Kardec recebeu dos Espíritos elevados os lineamentos da doutrina, mas não os aceitou de mão beijada. Submeteu essas comunicações do outro mundo a rigoroso processo de verificação experimental. Só aceitou como válido o que era provado pelas numerosas pesquisas incessantemente repetidas e confrontadas entre si. Para tanto, criou uma metodologia específica, pois entendia que os métodos devem ajustar-se à natureza específica do objeto submetido à pesquisa. Sem essa adequação seria impossível obterem-se resultados significativos. Escapava assim, aos fracassos iniciais da Psicologia Científica, que lutara em vão para enquadrar os fenómenos psicológicos na metodologia da Física e de outras disciplinas. As experiências de Wundt, Weber e Fechner, por exemplo, restritas a mensurações de intensidade, não iam além de explorações epidérmicas, pouco sugerindo sobre a natureza e o mecanismo dos fenómenos. Os fenómenos espíritas, que revelavam inteligência, não eram simples efeitos de processos biológicos e fisiológicos. Eram fenómenos muito mais complexos, que podiam provir da mente ou das entranhas humanas, mas também podiam ser produzidos por forças ainda não suficientemente conhecidas, como o magnetismo natural, a eletricidade, energias e elementos procedentes de regiões ainda não devassadas da própria consciência humana. O inconsciente era ainda uma incógnita. Kardec o abordou quando Freud estava ainda na primeira infância. Kardec deu à Revista Espírita, órgão que fundou para divulgar seus trabalhos e pesquisas de opiniões, o subtítulo de Jornal de Estudos Psicológicos, provando já estar convencido de que enfrentava os problemas do psiquismo humano. Estava fundada a Ciência Espírita, que os cientistas da época rejeitaram, considerando que Kardec fugia da metodologia científica originada das proposições filosóficas de Bacon e Descartes. A psicologia introspetiva, ainda apegada à matriz filosófica, atacou-o com a antecedência de meio-século com ataques dirigidos aos pioneiros da Psicologia Experimental. Essa é uma das glórias de Kardec, geralmente desconhecida. Mais tarde, Russel Wallace iria declarar que toda a psicologia não passa de um espiritismo rudimentar, glorificando Kardec. Charles Richet, prémio Nobel de Fisiologia e fundador da Metapsíquica, discordante de Kardec, declarou no seu próprio Tratado de Metapsíquica que Kardec era quem mais havia contribuído para o aparecimento das novas ciências e lembrou que Kardec jamais fizera uma afirmação que não estivesse provada em suas pesquisas. Depois desses sucessos no meio científico, numerosos e famosos cientistas se entregaram às pesquisas espíritas, alguns, como William Crookes, com o fim exclusivo de provar que os fenómenos espíritas não passavam de fraude. Após três anos de pesquisas, Crookes publicou os seus trabalhos, pondo-os ao lado do antigo adversário. Após a morte de Kardec, em 1869, Léon Denis o substituiu na direção do movimento espírita mundial, e a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, que Kardec chamava de sociedade científica, ficou praticamente viúva. Mas as pesquisas prosseguiram no Instituto Metapsíquico, sob a direção de Gustave Geley e Eugéne Osty, com grande proveito. Ao mesmo tempo, pesquisas continuavam a ser feitas em várias Universidades européias, como a de Zöllner em Leipzig, as de Crookes em Londres, as de Ochorowicz na Polónia e assim por diante. A Ciência Espírita continuava a se desenvolver. O Barão Von Schrenk-Notzing fundou em Berlim o primeiro laboratório de pesquisas espíritas do mundo, procedeu a valiosa série de pesquisas sobre o ectoplasma, com o auxílio de Madame Bisson. Após a primeira Guerra Mundial a Ciência Espírita continuava combatida, mas ativa. Mas a guerra desencadeara no mundo as ambições e interesses materiais, deixando exígua margem para o interesse espiritual. Só agora ressurge na França, com André Dumas, uma instituição de estudos e pesquisas espíritas. A Revista Renaitre 2.000, dirigida por Dumas, substitui a Revue Spirite de Kardec.

Este breve escorço do aparecimento e desenvolvimento da Ciência Espírita prova a sua vitalidade, apesar das campanhas incessantes e sistemáticas movidas contra ela. Em todos os grandes centros universitários do mundo as pesquisas espíritas prosseguem com resultados positivos. Nenhum princípio da doutrina foi sequer abalado pelas novas descobertas verificadas em quaisquer dos ramos da investigação. Pelo contrário, os postulados básicos do Espiritismo se comprovaram, confirmando a posição avançada da Ciência Espírita e da Filosofia Espírita perante a cultura atual. Isso representa, para a Terapia Espírita, uma base de segurança inegável para o desenvolvimento dos seus processos de cura. O que hoje se chama, na Europa, de cura paranormal, não é mais do que a cura espírita revestida ou fantasiada de novidades superficiais.

No difícil e geralmente falho tratamento das viciações, o principal é a integridade moral dos terapeutas. Os viciados não são apenas portadores de vícios, mas também de cargas de influências psíquicas negativas provenientes de entidades espirituais inferiores que a eles se apegam para vampirizar-lhes as energias e as excitações do vício. As pesquisas parapsicológicas provam a existência desses processos de vampirismo espiritual, que na verdade são apenas a contrafação no após morte dos processos de vampirismo entre os vivos. Nas relações humanas, quer sejam entre encarnados ou desencarnados, sempre existem os que se tornam parasitárias de outras pessoas. Não há nisso nenhum mistério, nem se trata de ações diabólicas. Em toda a Natureza a vampirização é uma constante que vai do reino mineral ao humano. A cura depende, em primeiro lugar, da vontade da vítima em se livrar do perseguidor. As intenções deste nem sempre são maldosas. Ele procura o amigo ou conhecido encarnado que era seu companheiro de vício e o estimula na prática para obter assim os elementos de que necessita na sua condição de desencarnado. Obtém a satisfação por indução. Ligando-se mental e psiquicamente ao ex-companheiro, pode haurir suas emanações alcoólicas ou das drogas psicotrópicas de que se servia antes da morte. De outras vezes o espírito vampiresco se serve de alguém que, não sendo viciado, revela tendências para o vício e o leva facilmente para a viciação.

A terapia espírita consiste, nesses casos, num processo oral de persuasão, conhecido como doutrinação. Conseguindo-se levar o espírito vampiro e sua vítima a se convencerem da necessidade e da conveniência de abandonarem o vício, ambos se curam. A doutrinação se distingue profundamente do exorcismo por ser um processo racional e persuasivo e não pautado pela violência. A terapia espírita parte da compreensão de que ambos, o vampiro e a vítima, são criaturas humanas necessitadas de socorro e orientação. Essa posição favorece o tratamento, que ao invés de provocar reações de indignação do espírito tratado como diabólico, provoca-lhe a razão e o sentimento de sua dignidade humana e lhe mostra as possibilidades de uma situação feliz na vida espiritual. Submetido às reuniões de preces, passes e doutrinação, os dois espíritos, o desencarnado e o encarnado, são tratados com a assistência das entidades espirituais encarregadas desse trabalho amoroso. Kardec acentuou a necessidade de boas condições morais das pessoas que se dedicam a esse trabalho, pois só a moralidade do doutrinador exerce influência sobre os espíritos. Toda pretensão de afastar o espírito vampiresco pela violência só servirá para irritá-lo e complicar o caso. A boa intenção do doutrinador para com o vampiro e a vítima, sua atitude amorosa para com ambos, é fator importante para o êxito do trabalho. A formação de correntes de mãos dadas em torno do paciente. O uso de defumadores e outros artifícios semelhantes, e qualquer outra forma de encenação material são simplesmente inúteis e prejudiciais. O imprudente que gritar com o espírito, dando-lhe ordens negativas, arrisca-se a prejudicar o trabalho e chamar sobre si a indignação do espírito ofendido. O clima dos trabalhos deve ser de paz, compreensão, amor e confiança nas possibilidades de recuperação das criaturas humanas. Nenhum espírito tem a destinação do mal. Todos se destinam ao bem e acabarão modificando-se por seus próprios impulsos de transcendência.
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José Herculano Pires, Ciência Espírita e suas implicações terapêuticas, Tratamento de Vícios e Perversões 1 de 2, 11º fragmento da obra.
(imagem: O peregrino sobre o mar de névoa, por Caspar David Friedrich)

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Seres Radiantes do espaço ~


Capítulo II

Nas sessões espíritas onde não existe nem o recolhimento, nem união de pensamentos ou união de forças, criam-se correntes diversas e fre-quentemente opostas que formam como uma tempestade de fluidos, na qual as entidades elevadas sentem um real desconforto e até um sofrimento que paralisa a sua ação. Por outro lado, os espíritos inferiores, de vibrações baixas, aí se comprazem e agem tanto mais facilmente, conforme são mais grosseiros, mais próximos da matéria. Mas a sua influência é prejudicial para os médiuns, que eles desgastam e desequilibram com o correr do tempo. Isso não é menos temível para os próprios pesquisadores, como se pode verificar pelas experiências do Dr. Gibier |* e em muitos outros casos, por experimentadores negligentes ou ignorantes das condições e leis que regem o mundo invisível.

Se os resultados obtidos na Inglaterra, nos meios científicos, são mais desenvolvidos do que na França, é porque os sábios que declaram publicamente os fenómenos e as provas de identidade que obtiveram, como Crookes, Myers, Lodge, etc., eram, ou são espiritualistas, enquanto que o ceticismo e o materialismo ainda dominam a maioria dos nossos sábios.

Todos os que, pelo estudo do mundo invisível, nos seus contactos com o Além, procuram as certezas que fortificam e consolam, as grandes verdades que iluminam a vida, traçam o caminho a seguir, fixam o objetivo da evolução; todos os que procuram adquirir as forças espirituais que sustentam na luta e na prova, que nos preservam das tentações de um mundo material e enganador, devem unir os seus pensamentos, orações e vontades, devem fazer jorrar de suas almas essas correntes poderosas e fluídicas que atraem as entidades protetoras e os amigos falecidos. Se souberem perseverar nos seus pedidos, em suas pesquisas, em seus desejos, elas se aproximarão; essas almas, e seus conselhos, ensinos e ajudas se derramarão sobre eles como um orvalho benfeitor. Nessa comunhão crescente com o invisível, gozarão uma vida nova e se sentirão reconfortados, regenerados.

E se, pela sua assiduidade e fé, obtiverem belos fenómenos e notáveis faculdades psíquicas, não se tornem vaidosos, e os aceitem com reconhecimento, humildade e façam-nos servir para o seu aperfeiçoamento moral. Lembrem-se de que a presunção é como uma muralha que se interpõe entre nós e as influências do Alto, assim como disse Bernardin de Saint-Pierre: |** “Para se achar a verdade, é preciso procurá-la com o coração puro”. E ainda acrescentarei essas palavras das Escrituras: “Deus deu para os pequenos e humildes o que negou, às vezes, aos poderosos e aos sábios”.


|* Ver Espiritismo ou Faquirismo Ocidental, pelo Dr. Paul Gibier (há edição FEB). Ver também “Caso Trágico” publicado pela revista Luce e Ombra, número de junho, 1921, reproduzido pela Revista Espírita.
|** Escritor francês (1737-1814), autor de Paulo e Virgínio.
/…


Léon Denis, O Espiritismo e as Forças Radiantes, Capítulo II, 2 de 3, 5º fragmento da obra.
(imagem: Ascensão de Cristo, pintura de Salvador Dali, 1958)

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Deus na Natureza~


Introdução

   Nesta nossa época de observação e experimen-tação, os materialistas procuram apoiar-se em trabalhos científicos e pretendem deduzir da ciência positiva o seu sistema.

   Os espiritualistas, em geral, acreditam, ao invés, poderem pairar acima da esfera experimental e chegar  aos píncaros da razão pura. Ao nosso ver, o espiritualismo para triunfar deve medir-se com o adversário no mesmo terreno e com as mesmas armas. Ele não perderá nada do seu caráter, condescendendo em baixar à arena, e nada terá a recear nesse confronto com a ciência experimental.

   As lutas empenhadas e os erros a combater estão longe de se tornarem perigosos para a causa da verdade. Com o exigirem um exame mais rigoroso das questões versadas, essas lutas nos ensejam a preparação de uma vitória mais completa.

   A Ciência não é materialista, nem pode servir ao erro. Como e por que, pois, haveriam de temê-la o espiritualismo e a verdadeira religião? Duas verdades não se podem opor a uma terceira.

   Se Deus existe, sua existência não poderia ser suspeitada nem combatida pela Ciência.

   Para nós, temos a convicção íntima de que, muito pelo contrário, no estabelecimento de conhecimentos exatos sobre a construção do Universo, sobre a vida e o pensamento, propicia-se atualmente o único método eficiente ao aclaramento do problema. Só assim poderemos saber se devemos admitir a soberania da matéria universal ou se importa reconhecer uma inteligência organizadora, um plano e um destino imanentes.

   Tal, pelo menos, a forma por que o debate se nos apresenta e impõe à mente, neste nosso trabalho.

   Esperamos que esta tentativa de versar a existência de Deus pelo método experimental aproveite ao progresso de nossa época, por estar de acordo com as suas tendências características.

   Ficaremos satisfeitos se a leitura deste livro deixar cair uma fagulha luminosa nos espíritos indecisos. Mais ainda, se depois de haver meditado fundo estes nossos estudos, alguma fronte se levantar consciente de sua legítima dignidade.

   Se, regra geral, os ideólogos franceses não têm aplicado o método científico aos problemas da filosofia natural, em compensação alguns sábios trataram o assunto do ponto de vista das relações gerais manifestadas no mundo e que lhe constituem a unidade viva. Com prazer assinalamos, entre as obras deste género, os diversos trabalhos do Sr. A. Langel, aqui mesmo utilizados várias vezes.

   Problemas da Natureza e problemas da vida não conduzem eles, efetivamente, ao máximo problema? Examinar as forças ativas no organismo universal não será o mesmo que examinar as diversas modalidades da força essencial e original?

   As investigações que focalizam o estudo da Natureza podem aproveitar à Filosofia com maior segurança, às vezes, do que os tratados ou os ditirambos especialmente consagrados à Metafísica. Os próprios escritos dos senhores Moleschott e Buchner nos ofereceram elementos de refutação.

   A circulação da vida, qual a expõe o primeiro, mostra na vida uma força independente e transmissível, dirigindo os átomos, mediante leis determinadas e conforme o tipo das espécies. O exame da Força e da Matéria estabelece, por outro lado, a soberania da Força e a inércia da Matéria.

   Sendo a Força e a extensão os primeiros princípios do conhecimento, e sendo a Filosofia a ciência dos princípios, poderia esta obra ser considerada antes como um estudo filosófico, se não houvéssemos resolvido limitar-nos a uma discussão puramente científica. Este, efetivamente, o seu fim precípuo e que, por bem dizer, oferece mais atrativos, mau grado à aridez aparente do trabalho.

   Pensamos que o único meio eficaz de combater o negativismo contemporâneo é voltar contra ele o materialismo científico e utilizar as suas próprias armas para derrotá-lo.

   Esse discrime compete antes à Ciência que à Filosofia.

   A Ideologia, a Metafísica, a Teologia, mesmo a Psicologia, dele se afastaram quanto possível.

   Nós não razoamos com palavras, mas com factos.
/…


Camille Flammarion, Deus na Natureza – Introdução 3 de 4, 3º fragmento.
(imagem: Jungle Tales_1895, pintura de James Jebusa Shannon)

domingo, 28 de outubro de 2012

~~~Párias em Redenção~~~


ACOSSAMENTO IRREVERSÍVEL ~

   A chegada ao Palácio T., na parte superior da cidade, fez-se seguida das homenagens dos anfitriões. Francesco e sua esposa, uma morena de grandes olhos claros e tez bronzeada, de aparência sensual e leviana, acolheram o visitante com reais demonstrações de cordialidade e júbilo. Por estranho processo magnético, porém, Girólamo sentiu que a esposa do amigo experimentou a mesma sensação de prazer que ele, ao primeiro encontro, e rejubilou-se interiormente. Francesco conduziu-o à peça interior, em que se deveria hospedar, e apresentou-lhe as bilhas de água fresca e a bacia de fina porcelana, para a higiene corporal.

Sacudido pelas alegrias espontâneas do momento, Girólamo pareceu novamente ouvir ensurdecedora gargalhada a estrugir dentro de sua cabeça, reconhecendo a voz de Assunta assassinada, como se ela estivesse presente. Empalideceu de inopíno e fez-se lívido.

   Francesco, surpreso, inquiriu o amigo a respeito do seu estado.

   – Não é nada de assustar – asseverou o cavaliere.

   – Creio que o sol causticante na viagem me fez mal. Tive um pesadelo e, desde então, estou sendo acometido de desconhecidas sensações, quais delírios produzidos pela maremma *, conquanto não esteja febril. Desejava mesmo perguntar-lhe se há, na cidade, algum ervanário que mereça uma consulta, ou algum médico, embora a minha indiferença e quase perversão total contra os médicos…

   – Sim – redarguiu o anfitrião –, sei que fora da cidade, além da Porta Ovile, reside estranho misto de ervanário e adivinho, que atende seleta clientela, não obstante permaneça em silencioso abandono, entre os seus unguentos e misteres exóticos. Nossa família consultou-o mais de uma vez, com excelentes resultados. Mas, que teria o Conde Cherubini para interessar-se por gente desse jaez?

   – Se me guarda segredo – falou, esfogueado, o nobre –, gostaria de consultá-lo para acalmar-me a respeito de problemas graves de família. Não ignora você a tragédia de que foi palco o solar que hoje é propriedade minha. Não posso negar que cruéis presságios me acossam, desde que para ali transladei residência. E desde que há alguém que se atreve a penetrar nos meandros dos mortos, muito gostaria de inteirar-me de algumas questões que me perturbam, a respeito do assunto.

   Depois de uma pausa de demorada reflexão, Girólamo interrogou:

   – Como a ceia nestes dias de verão é sempre recuada para horas frescas e avançadas da noite, não poderíamos ir ao encontro desse misterioso oráculo? Seriam somente duas horas, no máximo, entre ida e volta. Se você aprova, poderemos chamar o palafreneiro e seguiremos de carruagem até lá.

   Francesco surpreendeu-se com o estado de exaltação do amigo. Os olhos estavam arregalados e o aspeto da face traduzia profunda desesperação. Assentindo, foram dadas ordens para que se atrelassem animais à carruagem e minutos depois os dois moços partiam, apressados, em direção da Porta Ovile.

   Sopravam os ventos campesinos do entardecer, embora o sol ainda estivesse modorrento por sobre o longínquo crepúsculo. Vencida a Porta, os animais galoparam por mais alguns poucos quilómetros e atingiram a habitação do sensitivo.

   Foram recebidos à porta pelo estranho hierofante, que se trajava à grega antiga. De idade avançada e plácido olhar, a cabeleira basta e as barbas crescidas, estas desciam durando-lhe o rosto dando-lhe a feição de venerando vulto bíblico arrancado às páginas do passado. Delicado, o intérprete dos Espíritos convidou os moços a entrarem em pequena câmara profusamente decorada de caratéres astrológicos e com os signos do Zodíaco, ervas perfumadas e turibulos com fumo odorífero. Assentou-se sobre um almofadão, em cima de um tapete envelhecido, e solicitou aos jovens que se acercassem, descalçando-se e sentando-se, também.

   Após demorada concentração, em que as têmporas apareciam dilatadas e suando fartamente, recompôs-se, solicitando a anuência de Francesco para ficar a sós com Girólamo, no que foi atendido.

   De imediato, falou ao moço intrigado e medrica:

   – Vejo sombras vingadoras que o ameaçam. Sua vida está em grave perigo. Ouço choros convulsos de crianças indefesas que suas mãos assassinaram…

   – Mentiroso! – trovejou o consulente, dominado de ira singular.

   – Você não me atemoriza nem me intimida. Estou acostumado às ameaças dos que se encontram julgados ao remorso e dos que temem a verdade. Você sabe que não são mentiras nem infâmias, quanto lhe digo. Vejo e ouço, como você mesmo tem ouvido, as vozes clamando por justiça e suplicando punição contra o criminoso que lhes roubou a vida… Por que, meu filho? Por que investiu contra a vida daqueles que eram os filhos do seu benfeitor? Onde você colocou a Justiça Divina? Não sabe que a vida do próximo é património sagrado da Divindade?...

   Repentinamente, o ancião se tornou muito lívido e, com a boca retorcida em rito cruel, enunciou com voz inesquecível, pelo tom de sarcasmo e ameaça:

   – Não escaparás à Justiça, bandido! Trouxe-te até aqui para que me ouvisses em lucidez. Não poderás dizer que estás sonhando ou em delírio. Ouvirás minha voz onde estejas, causticando-te o cérebro até despertar a tua consciência nefanda. Sigo-te os passos desde a hora do crime, como a sombra acompanha o corpo onde este se encontre. Não te permitirei respirar o ar da paz, como não facultaste aos meus filhos e a Lúcia aspirarem o oxigénio da sobrevivência. Usarei da mesma técnica de que utilizaste: impiedade e segurança! Agora possuis o que um dia seria teu, por outro processo, e que a tua precipitação roubou. Desgraçaste os outros, e doravante sentirás as mãos tingidas de sangue… do sangue das tuas vítimas, de Assunta, que te odeia tanto quanto eu. Também ela aqui está.

   Girólamo desejou evadir-se do local abafado. As ervas, ardendo no incensório, e a fumaça, ondulante na peça quadrada, pareciam ao criminoso, estupidificado, fantasmas dos a quem trucidara, que se corporificavam. Tinha a sensação de enlouquecer.

   Caído, em contrações dolorosas, o oráculo continuava a falar, sôfrego, odiento:

   – Sou o duque di Bicci, homocida nefasto, que a morte libertou para a vida e a justiça. É tarde para que voltes atrás. Já não podes recuar… Apareceu-me a tua tia e rogou-me piedade para ti. Eu, que tanto a tenho amado, sofri-lhe a reprovação à minha conduta. Por ela, recebi-te no meu lar, apesar de jamais ter por ti nutrido compaixão ou simpatia; dei-te o meu amparo legal; tornei-te “filho” e, peçonhento, voltas-te contra o colo que te amamentou… como poderia perdoar-te? Nunca, nunca! Não te concederei o lenitivo da trégua, a fim de que as tuas forças não se removam, nem se refaçam as tuas energias. Impedirei que sigas o caminho que trilhas. Possuis tudo o que antes era meu de outrem; não experimentarás, todavia, uma posse maior: a da paz! Ouvirás sempre minha voz, até à hora em que te arrebatarei para , tomando-te aos meus cuidados. Rolarão séculos de horror sobre nós dois. Nunca, ouve-me: nunca terás o meu perdão. Desgraçado, infeliz criminoso! Recebe, agora, o fruto ácido da tua rapina…

   Uma gargalhada em espasmos doloridos ecoou na sala abafada. O ancião estremeceu e silenciou, dominado por ignota inconsciência.

   O moço, vencido em toda a pusilanimidade, queria chamar o amigo, rogar socorro; não o conseguiu. Parecia chumbado ao solo, aparvalhado, imóvel, com as têmporas dilatadas, a respiração descompassada, com suores álgidos.

   Aqueles minutos pareciam não ter fim. Marmóreo, o oráculo jazia estendido sobre o tapete, respirando com dificuldade, arquejante…
/…

* Maremmas toscana – impaludismo, febres…



VICTOR HUGO, Espírito “PÁRIAS EM REDENÇÃO” – LIVRO PRIMEIRO, 6 ACOSSAMENTO IRREVERSÍVEL (fragmento 4 de 5 texto mediúnico recebido por DIVALDO PEREIRA FRANCO.
(imagem: L’âme de la forêt _1898, pintura de Edgar Maxence)

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O Espiritismo na Arte~


Literatura e oratória
A língua francesa e a ideia espiritualista

| Abril de 1922 |

A literatura e a oratória também são formas de arte, meios poderosos de fazer o pensamento brilhar em nosso mundo. Pode-se dizer o que Esopo (i) dizia da língua: “ela é, segundo o uso que se fizer dela, o que há de melhor ou de pior.” Sob esse ponto de vista, a França sempre teve um papel privilegiado. A clareza, a nitidez de seu idioma, ainda que mais pobre que outros em qualificativos, serviu largamente para a expansão do seu talento e a difusão das ideias generosas. São, portanto, as qualidades desse idioma que asseguram ao nosso país, ao mesmo tempo, um lugar à parte no mundo e uma alta situação no futuro.

Nossa língua, por sua limpidez, sua clara compreensão das coisas, é o instrumento predestinado das grandes anunciações, das revelações augustas. As outras línguas têm seu charme, sua beleza, porém nenhuma consegue esclarecer melhor as inteligências, persuadir, convencer. Assim, os espíritos de elite que vierem à Terra cumprir uma missão renovadora encarnarão de preferência em nosso país e, dentre eles, os maiores de todos, a fim de que nossa língua possa servir de veículo aos seus altos e nobres pensamentos através do mundo. Sua presença e sua ação, dizem-nos do Além, ainda contribuirão para aumentar o prestígio e a glória da França.

A literatura francesa sobressai principalmente na análise dos sentimentos e das paixões; ela se caracterizou sobretudo no romance, cujo tema geral é o amor sensual. Sob a influência do materialismo ávido de todos os prazeres, ela perdeu-se em contradições, assim como em prazer, e, em lugar de cooperar para o enobrecimento da raça, contribuiu, a maior parte das vezes, para corromper seus costumes e precipitar sua decadência. A maioria dos autores do nosso tempo se compraz em expor suas aventuras na ostentação de um cinismo picante. Daí, em certos momentos, o descrédito da França no exterior e as medidas tomadas contra nossa língua em inúmeros estabelecimentos de educação. Já é tempo de uma nova corrente de ideias vir inspirar a arte e a literatura francesas, com um senso mais filosófico das coisas e uma noção mais ampla do destino. Somente isso pode restituir às obras do pensamento toda a sua amplitude e sua eficácia regeneradora.

Sob a inspiração de colaboradores e instrutores invisíveis, essa reação vai se acentuar. Os escritores, os oradores, sentem-se levados pelas forças ocultas em direção a horizontes mais puros, mais luminosos. De toda parte surgem produções impregnadas de doutrinas amplas e elevadas.

O pensamento francês começa a adquirir esse poder de irradiação ao qual tem direito; um dia ele atingirá as alturas que, até agora, só a música soube fazer entrever e pressentir. Ele chegará a possuir esse dom de penetração, de persuasão, essas qualidades estéticas que asseguram sua predominância definitiva. Pode-se constatar desde agora que, sob a sua influência, o mundo latino se impregnou inteiramente das doutrinas de Allan Kardec sobre as vidas sucessivas. As obras do grande iniciador foram traduzidas em todas as línguas neolatinas. As edições espanholas e portuguesas se sucedem rapidamente na América Central e Meridional; a ideia espiritualista penetra nos meios mais isolados, sob a forma com a qual os escritores franceses a revestiram.

No século passado (ii), os autores de talento já haviam encontrado motivos de inspiração nos fenómenos psíquicos. Pode-se citar Balzac (iii), Alexandre Dumas (iv), Théophile Gautier (v), Michelet, Edgar Quinet (vi), Jean Reynaud (vii) e muitos outros.

O Romantismo, apesar dos seus excessos, levava a esse século, como uma onda muito grande, a noção do divino e da imortalidade; assim, os homens de 1830 e de 1848 tinham um caráter mais enérgico e uma importância mais nobre que os homens políticos da nossa época.

O impulso romântico manifestou-se como prelúdio do grande movimento de ideias que hoje abrange toda a humanidade. De Lamartine a Hugo, até Baudelaire e Gérard de Nerval (viii), todos buscam o infinito na natureza e na vida. A noção das vidas sucessivas se encontra em La chute d’un ange (A queda de um anjo) e em Jocelyn; (ix) depois em Revenant (Voltando), Les contemplations (As contemplações), La légende des siècles (A lenda dos séculos), de Victor Hugo (x); em La vie antérieure (A vida anterior), de Baudelaire (xi), etc.

Em obras mais recentes, certos autores de mérito, como Paul Grendel, Élie Sauvage, Dr. Wylm, etc., deram mais desenvolvimento à ideia psíquica e dela fizeram sobressair as grandes consequências. Também no exterior, Rudyar Kipling (xii), dizem, e Selma Lagerlof (xiii) introduzem a reencarnação em suas obras. Toda uma plêiade de jovens e ardentes escritores, nem sempre avaliados, segue esses exemplos e se embrenha em caminhos ricos e fecundos.

Os graves acontecimentos dos últimos anos criaram por toda parte novas necessidades do espírito e do coração: a necessidade de saber, de crer, de descobrir os focos de uma luz mais viva, de fontes abundantes de consolação. A alma da França faz esforços para se libertar das opressões do materialismo. Suas profundas intuições célticas despertam e a conduzem em direção às fronteiras espirituais onde todo um mundo invisível a chama e a atrai.
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(i) Esopo: Fabulista grego (século VII - VI a.C.), de origem escrava, depois alforriado. É personagem meio lendária, que se representava como indivíduo feio, gago e corcunda. A reunião atual das Fábulas de Esopo, redigidas em prosa grega, é atribuída ao Monge Planúdio, no século XIV. (N.T., segundo o D.K.L.)
(ii) O autor refere-se ao século XIX. (N.T.)
(iii) Honoré de Balzac: escritor francês (Tours, 1799 - Paris, 1850). Autor de A Comédia Humana reuniu, a partir de 1842, diversas séries de romances, formando um verdadeiro afresco da sociedade francesa, da Revolução ao fim da Monarquia. Alguns dos seus romances são: Gobseck, A Pele de Onagro, O Coronel Chabert, O Médico da Roça, Eugénie Grandet, O Pai Goriot, A Procura do Absoluto, O Lírio no Vale, Ilusões Perdidas e outros. Também escreveu contos e peças de teatro. (N.T., segundo o D.K.L.)
(iv) Alexandre Dumas: escritor francês (Villers-Cotterêts, 1802 - Puys, 1870). Foi o mais popular escritor da época romântica. Eis algumas de suas obras: Henrique III e sua Corte, Anthony, A Torre de Nesle, Os Três Mosqueteiros, Vinte Anos Depois, O Conde de Monte Cristo, A Rainha Margot, A Dama de Monsoreau. (N.T., segundo o D.K.L.)
(v) Théophile Gautier: poeta francês (Tarbes, 1811 - Neuilly-sur-Seine, 1872). Era partidário do romantismo, mas chegou a uma poesia mais ciosa da beleza formal : Esmaltes e Camafeus. Escreveu, entre outros, o romance Capitão Fracasso e obras de crítica literária e artística. (N.T., segundo o D.K.L.)
(vi) Edgard Quinet: historiador francês (Bourg-en-Bresse, 1803 - Paris, 1875). Filósofo idealista e ateu, historiador liberal. Obras principais : O Génio das Religiões, As Revoluções da Itália. (N.T., segundo o D.K.L.)
(vii) Jean Reynaud: filósofo e político francês, nasceu em Lyon (1806-1863). Autor de Terra e Céu. (N.T., segundo o Dictionnaire Nouveau Petit Larousse Illustré.)
(viii) Gérard Labrunie de Nerval: escritor francês (Paris, 1808 - id., 1855). Obras principais : As Filhas do Fogo, Aurélia, As Quimeras. Foi o precursor de Baudelaire, de Mallarmé e do surrealismo; traduziu Fausto, de Goethe. Era sujeito a crises de demência; enforcou-se. (N.T., segundo o Dictionnaire Nouveau Petit Larousse Illustré.)
(ix) A Queda de um Anjo e Jocelyn: obras de Lamartine. (N.T., segundo o Dictionnaire Nouveau Petit Larousse Illustré.)
(x) Victor Hugo: escritor francês (Besançon, 1802 - Paris, 1885). Inicialmente foi um poeta clássico nas suas Odes, mas depois tornou-se o chefe do Romantismo com Cromwell, Os Orientais e Hernani. Publicou ainda: Nossa Senhora de Paris, Folhas de Outono, Cantos do Crepúsculo, As Vozes Interiores, Os Castigos, As Contemplações, A Lenda dos Séculos, Os Miseráveis e Os Trabalhadores do Mar, entre outras obras. É considerado o mais ilustre dos poetas franceses. A influência sobre sua época, o número e a grandeza de suas obras e o papel político por ele desempenhado fizeram de Victor Hugo uma das maiores personalidades do século XIX. (N.T., segundo o D.K.L.)
(xi) Charles Baudelaire escritor francês (Paris, 1821 - id., 1867). Herdeiro do Romantismo e fiel à métrica tradicional exprimiu ao mesmo tempo a tragédia do destino humano e uma visão mística do Universo, onde descobriu misteriosas “correspondências”. Seus poemas As Flores do Mal, Pequenos Poemas em Prosa e sua obra crítica A Arte Romântica são a fonte da poesia moderna. (N.T., segundo o D.K.L.)
(xii) Rudyard Kipling: escritor inglês (Bombaim, Índia, 1865 - Londres, 1936). Escreveu poesias e romances, entre estes, Livros da Selva e Kim. Recebeu o Prêmio Nobel em 1907. (N.T., segundo o D.K.L.)
(xiii) Selma Lagerlof: escritora sueca (Marbacka, 1858 - id., 1940). Autora de Saga de Gosta Berling. Recebeu o Prémio Nobel em 1909. (N.T., segundo o D.K.L.)



LÉON DENIS, O Espiritismo na Arte, Parte IV – Literatura e oratória; A língua francesa e a ideia espiritualista, 14º fragmento da obra.
(imagem: Mona Lisa 1503-1507 – Louvre, pintura de Leonardo da Vinci)

domingo, 21 de outubro de 2012

Da sombra do dogma à Luz da Razão~


Introdução

   Apesar da parte que compete à atividade humana na elaboração desta doutrina, a sua iniciativa pertence aos Espíritos, mas não se baseia na opinião pessoal de nenhum deles; não é, e não pode sê-lo, mais do que a consequência dos seus ensinamentos coletivos e concordantes. Só nesta condição se lhe pode dar o nome de doutrina dos Espíritos; caso contrário, não passaria da doutrina de um Espírito e teria apenas o valor de uma opinião pessoal.

   Generalidade e consequência no ensino, é este o caráter essencial da doutrina, a própria condição da sua existência; daqui resulta que qualquer princípio que não tenha sido submetido ao controlo da generalidade não pode ser considerado parte integrante desta doutrina, mas simples opinião isolada de que o Espiritismo não pode assumir a responsabilidade.

   É esta concordância coletiva das opiniões dos Espíritos, passada, além disso, pelo critério da lógica, que constitui a força da doutrina espírita, garantindo-lhe a perpetuidade. Para que se alterasse, seria necessário que a universalidade dos Espíritos mudasse de opinião e que, um dia, viessem dizer o contrário do que tinham dito; dado que tem a sua fonte nos ensinamentos dos Espíritos, para sucumbir, seria necessário que os Espíritos deixassem de existir. É também o que fará com que prevaleça sempre sobre as teorias pessoais que não têm, como ela, as suas raízes em todo o lado.

   O Livro dos Espíritos só viu o seu prestígio consolidar-se por ser a expressão de uma ideia coletiva geral; no mês de Abril de 1867, viu cumprir-se o seu primeiro decénio; durante este intervalo, os princípios fundamentais a que colocou as bases foram sucessivamente completados e desenvolvidos como consequência do progressivo ensinamento dos Espíritos, mas nenhum deles sofreu o desmentido da experiência; todos, sem exceção, permaneceram de pé mais robustos do que nunca, enquanto, de todas as ideias contraditórias que tentaram opor-lhes, nenhuma prevaleceu, precisamente porque em todos os lados se ensinava o contrário. É este um resultado caraterístico que podemos proclamar sem vaidade, já que nunca reivindicámos para nós o seu mérito.

   Tendo as nossas outras obras sido redigidas com iguais escrúpulos, foi-nos possível classificá-las segundo os Espíritos, dado que tínhamos a certeza da sua conformidade com os ensinamentos gerais dos Espíritos. Passa-se o mesmo com esta, que podemos por motivos semelhantes, considerar complemento das precedentes, com a exceção, no entanto, de algumas teorias ainda hipotéticas que tivemos o cuidado de indicar como tal e que devem ser consideradas só como opiniões pessoais até serem confirmadas, ou contrariadas, para que sobre a doutrina não pese essa responsabilidade.

   De resto, os leitores assíduos da Revista terão podido aperceber-se do esboço da maior parte das ideias que se encontram desenvolvidas neste último trabalho, tal como fizemos para os precedentes. A Revista é frequentemente para nós um campo de ensaio destinado a sondar a opinião dos homens e dos Espíritos a respeito de certos princípios, antes de serem admitidos como partes constituintes da doutrina.
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* Na senda e no espírito de Pedro A. Barboza de La Torre em seu livro, De la sombra Del dogma a la luz de la razón.


ALLAN KARDEC, A GÉNESE – Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo, Introdução 2 de 2, 2º fragmento da obra. Tradução portuguesa de Maria Manuel Tinoco, Editores Livros de Vida.
(imagem: Diógenes, pintura de Jean-Léon Gérôme – 1860)