Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

O Génio Céltico e o Mundo Invisível ~


Capítulo X

Considerações Políticas e Sociais  O papel da Mulher  A influência Céltica  As Artes  A Liberdade e o livre-arbítrio ~
(II de II)

 Os nossos antepassados, dizíamos, tinham feito do princípio da liberdade a base das suas instituições sociais e, ao mesmo tempo, o coroamento da sua filosofia, visto que a liberdade social ocasiona, logicamente, a liberdade moral, a da alma na Terra e no espaço. Aqui aparece a questão, tão controvertida, da liberdade e do livre-arbítrio, duas palavras para uma mesma ideia, porque o livre-arbítrio é a aplicação individual do princípio da liberdade.

 A liberdade é a condição essencial do desenvolvimento, do progresso e da evolução do homem. A lei da evolução, deixando-nos o cuidado de edificarmos, através dos tempos, a nossa personalidade, a nossa consciência e, portanto, o nosso destino, deve dar-nos os meios para isso, assegurando-nos o exercício da nossa livre escolha entre o bem e o mal, visto que os méritos adquiridos constituem o preço da nossa elevação.

 O mesmo acontece quanto à consequência dos actos, o encadeamento das causas e dos efeitos que recaem sobre nós. Daí a nossa responsabilidade, inseparável do nosso livre-arbítrio, sem o qual o ser não seria mais do que um joguete, uma espécie de marionete nas mãos de uma potência externa, por consequência, um ser desprovido de originalidade e sem grandeza.

 Tendo em vista a imensa trajectória que a alma deve realizar através do tempo e do espaço, ela deve possuir o livre-exercício das suas faculdades, a inteira disposição das energias que Deus nela colocou, com os meios de as desenvolver. Que confiança poderíamos ter no futuro, se nós nos sentíssemos joguetes cegos de uma força desconhecida, sem vontade, sem energia moral?

 Eis por que os druidas afirmavam o princípio de liberdade desde a primeira Tríade e, mais explicitamente, nas Tríades 22, 23 e 24:

22 – Três primeiras coisas simultaneamente criadas: o homem, a liberdade, a luz.

23 – Três necessidades do homem: sofrer, renovar-se (progredir), escolher.

24 – Três alternativas do homem: “Abred” e “Gwynfyd”, necessidade e liberdade, mal e bem, todas as coisas estando em equilíbrio, e o homem tendo o poder de se ligar a uma ou a outra, conforme a sua vontade.

 Vão-me contrapor, certamente, a diferença das faculdades nos homens; das vontades, dos caracteres, a força moral de uns e a fraqueza de outros. Em face de um acto desleal, mas vantajoso, ou perante a sedução das paixões, um homem poderá deixar-se seduzir enquanto que o outro ficará inabalável, firme. Como medir a parte da liberdade atribuída a cada um, como conciliar o problema do livre-arbítrio com as teorias do determinismo?

 Neste assunto, como em tudo o que se relaciona com a natureza íntima do ser, é preciso elevar-se acima dos horizontes estreitos da vida presente e considerar as enormes perspectivas da evolução da alma. É o que os druidas souberam fazer com a sua doutrina, e o que, a seu exemplo, repetem os espiritualistas modernos, pelo menos os da escola de Allan Kardec.

 O círculo estreito dos conhecimentos, a exiguidade do nosso campo de observação, a ignorância geral das origens e dos fins, são obstáculos à solução dos grandes problemas. É preciso, para resolvê-los, elevar-mo-nos bem alto pelo pensamento e considerar o conjunto das vidas da alma, a sua lenta ascensão através dos séculos; então, tudo o que parecia confuso, obscuro, inexplicável, se dissipa, se aclara.

 Compreendemos como a nossa personalidade se engrandece, pouco a pouco, pelas relações sucessivas das nossas vidas; como a experiência e o julgamento se desenvolvem, e como a nossa liberdade se afirma, cada vez mais, à medida que a nossa evolução se acentua e que participamos mais intimamente na comunhão universal.

 No início da sua imensa trajectória, o ser ignorante, inexperiente, é submetido firmemente às leis universais que lhe comprimem e limitam a acção. É o período inferior. Mas, à medida que ele se eleva na escala dos mundos, o seu livre-arbítrio adquire uma amplitude sempre maior, até que, tendo atingido as alturas celestes, o seu pensamento, a sua vontade e as suas vibrações fluídicas se encontram em harmonia perfeita, isto é, em sincronismo com o pensamento e a vontade divina; o seu livre-arbítrio é definitivo, ele já não falhará mais.

 Àqueles que exigem axiomas ou fórmulas científicas, pode dizer-se: o livre-arbítrio está, para cada um de nós, em relação directa com as perfeições conquistadas; enquanto que o determinismo está na razão inversa para com o progresso da evolução.

 Apresentam-nos como oposição a previsão do futuro entre certas pessoas. Mergulhando-se até às causas do passado; é possível deduzir-lhe o porvir e predizer os acontecimentos futuros na medida em que eles são a resultante lógica dos actos livremente cumpridos, o feixe dos factos anteriores que se desenrolam, através dos tempos, na sua ordem lógica e implacável. Ora, a reconstituição do passado pode ser obtida nos fenómenos de exteriorização, (i) como também nas revelações dos espíritos, bastante evoluídos para reencontrar, na memória subconsciente dos pacientes, o encadeamento das suas vidas anteriores.

 É assim que o espiritualismo experimental nos demonstra, por factos, a existência do livre-arbítrio e nos fornece a prova de que, sobre este ponto, como em tantos outros, os nossos antepassados não se enganaram.

 Entretanto, é preciso reconhecer que, com o nosso planeta ocupando um grau pouco elevado na escala da evolução, o ser humano – ainda que desfrutando de uma parte de liberdade suficiente para lhe ocasionar a responsabilidade dos seus actos – não saberia possuir um livre-arbítrio absoluto. É isso que os druidas definiram nestes termos, desde a primeira Tríade, fazendo figurar entre as três unidades primitivas: “Um ponto de liberdade, onde se equilibram todas as oposições.”

 Esta fórmula exprime a acção das leis universais que comprimem e restringem os nossos meios de acção. Nenhum ser está abandonado a si mesmo; a influência providencial age sobre ele de duas maneiras: pela consciência ela nos comunica as inspirações, as intuições necessárias, tanto mais claras e precisas quanto mais aptos estivermos para recebê-las pela orientação do nosso pensamento e da nossa vida; em seguida, pela acção dos invisíveis, que se estende sobre nós, às vezes, intensamente, para que se possa dizer que são os mortos que governam os vivos.

 Cada um de nós pertence a um grupo espiritual, uma família de almas em que todos os membros são solidários e evoluem em comum. Todos estes espíritos, encarnados ou desencarnados (i), desempenham, uns para com os outros, alternadamente, a função de protectores ou de protegidos. Os que permanecem no espaço ajudam, inspiram, sustentam aqueles que vivem e sofrem na Terra. Se os homens soubessem quanta assistência lhes vem do Alto e quanta doce solicitude os envolve, eles teriam mais segurança, mais confiança na lei superior de justiça e de harmonia que rege os seres e os mundos. Eles dariam mais atenção às sugestões benéficas das quais eles são objecto, em vez de permanecerem insensíveis e indiferentes a elas, por efeito de uma liberdade mal empregada. Estas sugestões foram tais que se pode afirmar que, por intermédio da nossa consciência, entrámos em contacto com as coisas divinas.

 Cada grupo de almas é dirigido e inspirado por um ou mais espíritos eminentes cujos méritos os fizeram chegar às alturas celestes, ao círculo de “Gwynfyd”, de onde a irradiação de sua sabedoria e de sua experiência se estende, através das distâncias, até aos membros de sua família ainda atrasados nos mundos da matéria.

 Noutra parte descrevemos, conforme as lições dos nossos guias, as condições da vida celeste, as grandes tarefas e as missões nobres que ela comporta; o crescimento gradual das percepções e das sensações, a participação sempre mais intensa na obra eterna de poder e de beleza que é o Universo e as felicidades obtidas ao preço de numerosas existências de trabalho, de estudo e de provas.

 Deus, dizem as Tríades, atribui a cada alma nova o “Awen”, uma parcela do génio que ela é chamada a desenvolver, na sequência dos tempos, de modo a transformar, pouco a pouco, essa centelha primitiva num foco radiante que dote o espírito de uma luz imperecível.

/…
(i) Ver O Problema do Ser e do Destino, capítulo XIV.


LÉON DENIS, O Génio Céltico e o Mundo Invisível, Segunda parte, Capítulo X Considerações políticas e sociais, o papel da mulher, a influência céltica, as artes, a liberdade e o livre-arbítrio (II de II), 33º fragmento e o último desta obra.
(imagem de contextualização: A Apoteose dos heróis franceses que morreram pelo seu país durante a guerra da liberdade; Ossian, Desaix, Kléber, Marceau, Hoche, Championent, pintura de Anne-Luis Girodet-Trioson)

domingo, 20 de janeiro de 2019

o grande desconhecido ~


Colaboração Inter-Existencial

A Filosofia actual, representativa do nosso século, é a Existencial. Dela derivou o movimento existencialista, por uma interpretação espúria do pensamento de Jean-Paul Sartre. Mas o pensamento deste famoso filósofo francês nada tem a ver com as extravagâncias de Juliette Gréco, que se aproveitou do renome de Sartre para criar no Café de Flore (i), em Paris, um movimento juvenil em que se atribuiu o título de Musa do Existencialismo, dando a Sartre o título de Papa do Existencialismo. Simone de Beauvoir, discípula e companheira do filósofo, perguntou-lhe porque aceitara esta situação. Sartre encolheu os ombros, dizendo que nada tinha a ver com o movimento da cantora e nem se interessava por ele. O famoso autor de O Ser e o Nada e da Crítica da Razão Dialéctica costumava escrever numa das mesas do Café, e ali continuou a trabalhar, indiferente aos shows da artista. A Filosofia Existencial desfigurou-se na opinião dos leigos, mas não abalou o seu prestígio no meio intelectual. Fundada por Kierkegaard, teólogo dinamarquês, que não pretendia filosofar, a Filosofia Existencial dominou o pensamento filosófico mundial e permanece como o marco de uma profunda revolução filosófica, semelhante à de Copérnico na Astronomia. O conceito existencial do homem foi desenvolvido pelos maiores filósofos contemporâneos, como Martin HeideggarKarl JaspersGabriel MarcelSimoneCamus e outros. Este conceito corresponde ao espírita, formulado por Kardec na Filosofia Espírita. O homem é um projecto, um Ser que se lança na existência e a atravessa como uma flecha em direcção à transcendência que é o objectivo da existência. Para Sartre, materialista, a morte é a frustração do homem. Para Heideggar, metafísico, o homem se completa na morte. A Filosofia Existencial admite, em geral, que o Ser é um embrião lançado à existência para desenvolver as suas potencialidades. Há uma diferença essencial entre Vida e Existência. Todos os seres vivem, mas só o Ser humano existe, porque existir é ter consciência de si mesmo e viver em ritmo de ascensão, buscando superar a condição humana e atingir a divina. O homem é o único existente. Esta palavra, existente, designa o homem como Ser na existência.

Vejamos o sentido tipicamente espírita desta concepção do homem. Antes de Ser; o homem é apenas um vir-a-ser, uma coisa misteriosa fechada em si mesma. Ansiando por relação, essa coisa projecta-se na existência e abre-se na relação, encontrando nela os elementos que a despertam e a transformam num Ser. Este toma consciência de sua própria natureza de Ser e como tal busca superar-se. No trânsito existencial desenvolve a sua essência e abre no maciço do mundo, feito de leis rígidas e fatalistas, a única brecha de liberdade, que é o homem com o seu livre-arbítrio. Para Sartre, ao chegar à morte o homem já elaborou a sua essência na existência, mas esta não subsiste porque o homem desaparece na morte: o homem é uma frustração. Para Heidegger, o Ser desenvolve-se na existência e completa-se na morte: é uma realização. Para Jaspers, o desenvolvimento do Ser na existência faz-se em duas etapas:

1ª) a transcendência horizontal, no plano social;
2ª) a transcendência vertical, em busca de Deus.

Sartre aplica ao existente a dialéctica de Hegel:

a) o homem antes da existência é o em-si;
b) o homem na existência é o para-si;
c) o homem na morte é o em-si-para-si.

Como vemos, o em-si-para-si é a síntese dialéctica em que o em-si, (fechado em si mesmo) e o para-si, (aberto na relação social), que é a transcendência, horizontal de Jaspers, resolve-se no em-si-para-si, que é a condição divina atingida na transcendência vertical.

O conceito filosófico de existência difere profundamente do conceito de vida. Enquanto a vida se define como o elã de Bergson, um impulso, uma força que penetra na matéria e, segundo a ideia hegeliana, modela as formas, a existência é subjectividade pura, o que vale dizer espírito. Assim, não vivemos como as plantas e os animais, integrados na matéria, mas como espíritos ligados à matéria para usá-la em função dos seus interesses subjectivos. Vivemos na psique e não no corpo. A nossa vida não é propriamente vida, mas um existir independente das coisas e dos seres materiais, cuja única aspiração verdadeira é a liberdade, que só podemos de facto ter e gozar na interioridade de nós mesmos. Mesmo encarnados, não saímos do plano espiritual, continuamos nele, o nosso habitat natural, como sonâmbulos. A matéria não nos absorve, apenas se reflecte na nossa sensibilidade. O dia e a noite, a vigília e o sono, como Jaspers observou, marcam o ritmo existencial da relação alma-corpo. Durante o repouso do corpo, para se refazer, voltamos ao mundo espiritual no veículo do perispírito, e mesmo em plena vigília escapamos da matéria através das fugas psíquicas, das projecções telepáticas, das várias modalidades da percepção extra-sensorial. A hipnose prova o sentido ilusório do viver. No estado sonambúlico ou hipnótico, semi-desligados do corpo, vagamos no intermúndio e aceitamos facilmente as sugestões de uma situação irreal: tocamos violino sem violino, sentimos calor e transpiramos sem calor, resistimos ao fogo sem nos queimar, regressamos no tempo e projectamo-nos no futuro através da memória e assim por diante. A Gestalt mostra-nos a ilusão da forma na percepção normal do mundo, em que as aparências pregnantes cobrem a realidade material precipitando-nos em quedas e frustrações. A evolução da Física roubou-nos o mundo sólido e opaco do passado e lançou-nos no torvelinho dos átomos e das partículas nucleares. A matéria esfarelou-se nas mãos dos físicos e obrigou-nos a reconhecer, como Seres evanescentes, que vivemos num mundo mágico de estruturas imponderáveis.

Diante desta realidade fantástica, as leis físicas às quais Bertrand Roussel se apegou para não naufragar no irreal, impõe-se a realidade-real das leis psíquicas, do espírito que domina, estrutura e ordena a matéria. O que chamamos de vida transforma-se em existência, e esta não é mais do que a curta medida do tempo necessário para nos libertar de um condicionamento mental determinado pela ilusão dos sentidos, como Descartes já verificara e demonstrara nas suas tentativas de nos dar a Ciência Admirável que o Espírito de Verdade lhe revelara em sonhos. O cogito ergo sum do filósofo aparece-nos hoje como um traço de união entre o Cristianismo puro do Cristo e o Espiritismo, em que a verdade revelada se restabelece na sua realidade incompreendida, como uma ponte fluídica e indestrutível que liga duas partes do real, separadas pelo abismo de quase dois milénios de loucura, de esquizofrenia religiosa. Ao descobrir que esta frase cartesiana – penso, logo existo – foi o abre-te Sésamo de um filósofo mágico que não queria ilusionar mas atingir a Verdade, compreendemos que a ponte cartesiana passou sobre um abismo onde espumou por milénios à voragem de sangue e impiedade de um pesadelo mundial. E tão hipnótica foi esta voragem que os cientistas e os filósofos ainda resistem ao chamado da nova concepção do homem e do mundo que o Espírito de Verdade nos oferece. O próprio Descartes, apegado aos ídolos de Bacon, saiu do seu deslumbramento para uma peregrinação ao ídolo de Nossa Senhora de La Saletti, no cumprimento de uma promessa. Repetiu-se neste episódio histórico a mensagem do Mito da Caverna na República de Platão. Um escravo escapou dos grilhões e foi ver à luz do Sol a realidade que só conhecia através das silhuetas das sombras. E quando voltou e contou o que vira lá fora, os demais consideraram-no perturbado. No entanto, a partir das suas obras iniciava-se no mundo a Renascença Cristã, que se completaria mais tarde numa eclosão mediúnica em que as línguas de fogo do Pentecostes se acenderiam de novo sobre a cabeça dos Apóstolos da Nova Era. O conceito de existência é o carisma do Século XX, da fase mais aguda da transição planetária para um grau superior na Escala dos Mundos. As inteligências terrenas foram convocadas para a nova batalha cristã, em que os Mártires da Verdade não sofreriam mais as penas cruentas do passado tenebroso, mas enfrentariam as angústias da incompreensão e o martírio inevitável da marginalização cultural. Os construtores da nova cultura, nascida dos princípios cristãos, iniciariam sob escárnio e calúnias a construção da Civilização do Espírito. Este o grave problema que os espíritas precisam encarar com a maior seriedade no nosso tempo, pois somos herdeiros desta causa e os continuadores desta obra. Se não nos empenharmos nela com a devida consciência da sua importância, se não formos capazes de sacrifício e abnegação em favor dos novos tempos, assumiremos também a nossa parte de responsabilidade nos fracassos que poderão levar-nos a uma catástrofe planetária.

Mas é bom lembrar que não estamos sós. Ao conceito de existência dos filósofos actuais o Espiritismo acrescenta o conceito da solidariedade existencial entre os espíritos e os homens. Provada a sobrevivência dos mortos pela pesquisa científica e demonstrada a interpretação dos mundos material e espiritual – que se evidência na nossa própria organização psicofísica –, impõe-se naturalmente o conceito espírita da inter-existência. Já vimos que não vivemos apenas no plano material, que não estamos fundidos no corpo carnal, mas apenas ligados a ele como o condutor ao seu veículo. Nos estudos do Hipnotismo aprendemos que a nossa vida diária também se processa simultaneamente em dois planos. O mesmo acontece com os espíritos, que não estão isolados no plano espiritual, mas passam constantemente do seu plano para o nosso, como vemos no caso das comunicações mediúnicas, das aparições, das materializações e até mesmo, de maneira espontânea e concreta, visível e palpável, no caso dos agéneres. Assim, a interpenetração do plano espiritual inferior com o plano material superior (a crosta terrena e a sua atmosfera), constitui a zona planetária a que chamamos de intermúndio. Os gregos antigos diziam que os seus deuses viviam no Intermúndio, entre o Céu e a Terra. O Espiritismo permite-nos compreender esta verdade de maneira clara e racional: para eles, os espíritos eram os deuses bons e maus que se comunicavam através dos oráculos e das pitonisas. Eles também conheciam os agéneres, pois os seus deuses podiam descer do Olimpo e aparecer aos homens como homens. O conceito de inter-existência deriva do conceito de intermúndio formulado pelos gregos.

E no Espiritismo estes conceitos se ampliam através das pesquisas mediúnicas, revelando as leis da colaboração inter-existencial a que naturalmente se entregam os espíritos e os homens, em todos os tempos, desde os primitivos até ao nosso. Contamos, pois, com a colaboração constante dos nossos companheiros de humanidade na batalha cristã de elevação da Terra.

Anotemos a importância que, neste contexto, adquirem as sessões mediúnicas de orientação e esclarecimento de espíritos sofredores ou malfeitores. A doutrinação espírita, sempre auxiliada pelos Espíritos Superiores e os Espíritos Bons que os servem, é um trabalho humilde de caridade que, no entanto, não se limita aos efeitos pessoais em favor do socorrido e das suas vítimas, pois a sua contribuição maior é a da renovação consciencial ou o despertar das consciências humanas para as responsabilidades do Ser na existência. Pouco pode fazer uma sessão de doutrinação, diante da extensão dos desequilíbrios, a multidão de sofredores e malfeitores que nos rodeiam. Mas cada espírito que se esclarece é uma nova irradiação nas trevas conscienciais. Além disso, numa pequena sessão não temos o esclarecimento apenas das entidades comunicantes. Em geral, é maior o número de espíritos assistentes, que se beneficiam com a doutrinação dos que se encontram na sua mesma situação. Por outro lado, o ambiente espiritual da sessão irradia as suas luzes muito para além do recinto estreito em que se realiza. O milagre da multiplicação dos pães repete-se em cada sessão de humildes servidores da causa que é de toda a Humanidade. Os resultados positivos das sessões vão muito para além do que podemos perceber, espalhando os seus benefícios no intermúndio, no Espaço e na Terra. Note-se ainda que estas sessões representam a colaboração humana nos trabalhos de esclarecimento e orientação que os Espíritos realizam incessantemente no plano espiritual. Esta participação dos homens nas tarefas espirituais restabelece os elos de fraternidade desfeitos pelo formalismo igrejeiro. E desfaz a fábula do ciúme dos anjos, que se teriam rebelado contra Deus pela encarnação de Jesus como homem, pela concessão aos padres do direito de perdoar pecados, que os anjos não possuem. Fábulas desta espécie, criadas pela pretensiosa imaginação teológica, dão-nos a medida do desconhecimento dos clérigos mais ilustrados e prestigiados sobre a realidade espiritual. Os anjos não são mais do que espíritos humanos que se sublimaram em encarnações sucessivas. O Espiritismo coloca o problema da Criação em termos evolutivos, à luz da concepção monista e monoteísta. Nas sessões mediúnicas de caridade, anjos, espíritos humanos e espíritos diabólicos participam como orientadores, doutrinadores e necessitados de doutrinação. Não sendo o Diabo mais do que uma alegoria, um mito representativo dos espíritos inferiores voltados para o mal, a presença dos impropriamente chamados espíritos diabólicos nas sessões de socorro espiritual é justa e necessária. Ninguém necessita mais do socorro humano do que estas criaturas transviadas. Quando elas não estão em condições de aproveitar a oportunidade, não lhes é facultada a comunicação mediúnica. Permanecem no ambiente como observadores, vigiados pelos espíritos guardiões, e aprendem, aos poucos, como alunos ouvintes, a prepararem-se para o tratamento de que necessitam. Muitas pessoas não gostam destas sessões de comunicações desagradáveis, onde a caridade brilha no seu mais puro esplendor. É nelas que os pretensos diabos, deixam cair as suas fantasias infelizes para vestir de novo a roupagem comum dos homens; voltando ao convívio dos que seguem a senda da evolução espiritual. Os grupos que se recusam a realizar estes trabalhos de amor acabam por cair nas mistificações de espíritos pseudo-sábios e pagam caro o seu comodismo e a sua pretensão.

A colaboração inter-existencial iniciada pelo Espiritismo estabeleceu a verdadeira fraternidade espiritual na Terra. Este facto marca um momento sublime nos rumos da transcendência humana. O planeta das sombras, cuja História é um terrível caleidoscópio de atrocidades e maldades, brutalidades e miséria moral, ganhou um ponto de luz celeste com esta reviravolta nas suas precariíssimas condições religiosas. O desenvolvimento das práticas de socorro espiritual indiscriminado, oferecido a todos os tipos de necessitados, dará condições à Terra para se libertar das sombras e elevar-se aos planos de luz. O lema espírita: Fora da Caridade não há Salvação é o passaporte da Terra para a sua escalada aos planos superiores. Os médiuns que trabalham nestas sessões de socorro, ao invés de preferirem aquelas em que só se interessam por mensagens de Espíritos Superiores, estão mais próximos dos planos elevados e das entidades realmente superiores. Não foi para os elegantes e vaidosos rabinos do Templo que Jesus veio à Terra, mas, como ele mesmo disse, para as ovelhas transviadas de Israel. Os que pensam que só devem tratar com Espíritos Superiores provam, por esta pretensão, a incapacidade de compreender a elevação espiritual.

/…


José Herculano Pires, Curso Dinâmico de Espiritismo, XII – Colaboração Inter-existencial, 12º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Somos as aves de fogo por sobre os campos celestes, pintura em acrílico de Costa Brites)

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Deus na Natureza ~

A Vida ~ Circulação da Matéria ~
(IV)

 Bichat definiaa vida como o conjunto de funções que resistem à morte. Sem tomarmos puerilmente, à letra, esta definição, perguntamos: qual é a primeira imagem que nos oferece o exame da estrutura de um vegetal ou de um animal? Certo, é a coordenação das funções orgânicas que constituem o ser vivente. E o que será esta coordenação, senão um sistema de forças destinadas a movimentar a máquina animada?

 Deste ponto de vista, o que a tudo sobreleva é a ideia dinâmica. Banida esta, o que nos fica é nada mais que um cadáver.

  Se, da descrição do órgão apropriado ao seu funcionamento e desse conceito de forças particulares remontarmos ao do seu conjunto e à sua conservação, desde o começo ao fim da vida, concluiremos com Cuvier que “a vida é um turbilhão contínuo, cuja directiva, por mais complexa que seja, permanece constante, tal como a espécie de moléculas que consigo arrasta, mas não as moléculas individuais em si mesmas”. Aqui, ainda há que reconhecer a presença da força, que, através da incessante mutação dos corpos, lhes assegura e conserva a identidade da forma. Ela – essa força – é pois a característica principal de todo o organismo. E frisamos estas palavras de Cuvier: “as moléculas individuais circulam perpetuamente, mas a espécie permanece sempre idêntica”. Essa permanência devemo-la à força.

  Que sucederia, por exemplo, se apenas a forma se salvaguardasse e nenhuma direcção virtual presidisse à eleição das moléculas químicas? Teríamos, a breve trecho, o mais heterogéneo dos corpos imagináveis, ainda que guardando a perfeição da sua formação.

 Imaginai, por exemplo, que o elemento essencial de uma face clara como a neve, que o coralino de uns lábios, a gracilidade de uma boca, o matiz expressivo de uns olhos pulcros, fossem, ocasionalmente, refeitos por moléculas de outra espécie, como, por exemplo, do iodo, que se torna negro ao contacto da luz, do ácido butírico, fundente ao Sol, ou de um sal qualquer, solúvel pela humidade, etc... Que belos espécimes daria assim a Humanidade! E contudo, eis aí ao que se chega, quando negamos a existência de uma força vital.

 Passando do indivíduo à espécie, ainda aí notamos o predomínio necessário da força. Se cada indivíduo se mantém vivo, é graças à sua dinâmica íntima. Se as espécies vegetais ou animais permanecem, é graças à força inicial que, só ela, pode caracterizar a identidade da espécie, transmissível à descendência e existente em estado latente, ou sensível, no óvulo vegetal como no óvulo animal.

 Como pôde um carvalho enorme sair da ínfima bolota caída no solo? Como se fez carvalho, ao lado de uma vagem que expeliu a faia; da pinha, que engendrou o pinheiro; da amêndoa, que se fez tumba do pilriteiro desdobrando-se em bagas escarlate; ou ainda, ao lado do grão de trigo e de aveia, na mesma terra, com o mesmo sol e a mesma chuva; em suma: nas mesmíssimas condições?

 Porque será que os elefantes de hoje são exactamente idênticos aos de que Pyrrhus se utilizava, há 20 séculos, e o corvo de Noé (se é que Noé existiu) se vestia do mesmo luto destes que aí sulcam os nossos céus de Setembro? Certo, porque o germe orgânico não reside somente na estrutura anatómica, mas, também e sobretudo, numa força especial que se encarrega, sem enganos possíveis, da organização do ser, de modo a não dar a um cavalo uma cabeça de carneiro, nem a um coelho uns pés de pato!

 Afirmando tão apaixonadamente a inexistência de uma força especial nos seres vivos e que a vida mais não é que o resultado da presença simultânea das moléculas constitutivas do animal ou vegetal, justo seria procurassem, os arautos de tão audaciosas afirmativas, comprová-las experimental e ainda que modestamente. Improvisai um único, e o mais ínfimo ser vivo, e... nós nos renderemos. Vejamos: aqui está uma garrafa com carbonato de amoníaco, cloreto de potássio, fosfato de soda, cal, magnésio, ferro, ácido sulfúrico e sílica.

 Sois vós mesmos a confessá-lo (i) que neste frasco está contido o princípio vital, completo, de plantas e animais. Fazei, portanto, uma plantinha, um só bichinho... Como assim? Calai-vos? Nada obstante, sois patrícios de Goethe! Não vos lembrais do lúgubre laboratório de Wagner, atochado de aparelhos esquisitos, disformes; de fornos e cubos destinados a fantásticas experiências? Ele, Wagner, já tem nas mãos a garrafa.

 Apelai à vossa memória e ouvi a cena maravilhosa do eterno Mefistófeles a dialogar com o alquimista.

 Wagner, atento ao forno: “O sino tocou, uma percussão formidável! Abalou as paredes negras, ferrugentas. Oh! a incerteza desta expectativa tão solene não pode prolongar-se mais. As trevas como que se desfazem, estou a ver no fundo da lente algo que reluz (ii) como o carbono vivo, ou, melhor, como esplêndido diamante, a clarear de mil facetas a escuridão ambiente. Agora, uma luz pura, branquíssima. Bem, desta vez espero que não escapará... ah! maldição, quem bate assim à porta, justamente...

 Mefistófeles: (entrando) – Que há?

 Wagner: (baixinho) – Está a fabricar-se um homem...

 Mefistófeles: – Um homem? Mas, que amoroso casal meteste aí nessa chaminé?

 Wagner: – Ora, valha-me Deus! Essa velha fórmula de procriar já foi, há muito, considerada de mero gracejo. O foco subtil de onde brotava a vida, a força suave que de si exalava, dava e voltava a dar, destinada a formar-se por si só, alimentando-se a princípio das substâncias circunvizinhas e, a seguir, de substâncias estranhas, tudo isso caducou e perdeu o seu prestígio. Se o animal ainda lhe encontra prazer, ao homem convém, por dotado de mais nobres qualidades, uma origem mais pura e mais alta. (Voltando-se para a fornalha) Quanto brilho! veja... De agora em diante, é lícito esperar que, se de cem matérias, e por mistura – pois tudo depende da mistura – conseguimos com facilidade preparar a massa humana, aprisioná-la num alambique, o "cohober" a preceito, a obra se completará em silêncio.(Voltando-se de novo para a fornalha) É o que está a acontecer: ela se clareia e mais convencido me deixa, a cada instante. Tentamos, judiciosamente, experimentar o que se chamava – mistérios da Natureza – e o que ela produzia outrora, organizando, fazemo-lo hoje cristalizando.

 Mefistófeles: – A experiência vem com a idade e a quem quer que tenha vivido o bastante, nada acontece de novo, na Terra. Por mim, confesso que nas minhas viagens encontrei, variadíssimas vezes, muita gente cristalizada...

 Wagner: (que não tirara o olho de sua lente) – A coisa está crescendo, brilhando, fervendo... Um instante mais e a obra estará pronta. Não há ideal grandioso que à primeira vista não pareça insensato; contudo, doravante, queremos enfrentar a chance e dessa arte, futuramente, um pensador não deixará de fabricar um cérebro pensante...

 (Contemplando a redoma extasiado) O cristal retine, vibra; comove-o uma força encantadora, ele como que se perturba e se aclara, o sucesso não tarda. Já estou a ver a forma elegante de um homenzinho gesticulando... Que mais desejar? Que pode o mundo querer de melhor? Eis o mistério a desnudar-se! Atenção! Esse timbre se articula, vozeia, fala!

  Homúnculo: (de dentro da redoma, para Wagner)

 – Bom dia, papá! então sempre era verdade, hein? Toma-me, aconchega-me nos teus braços com ternura, mas, olha, não me apertes muito, senão... quebras o vidro. Isso é a propriedade das coisas: ao que é natural, só o Universo pode bastar; mas o artificial, ao contrário, reclama o limitado. (Voltando-se para Mefistófeles) Tu aqui? Velhaco... Mas, ainda bem que o momento é azado e dou graças porque a boa estrela te trouxe até nós. Já que estou no mundo, quero agir e meter desde logo mãos à obra. Hábil és tu para me desbravares o caminho.

 Wagner: – Uma palavra ainda... Até aqui, muitas vezes me vi indeciso, quando jovens e velhos me vêm acumular de problemas. Ninguém, por exemplo, ainda compreendeu como a alma e o corpo, tão intimamente conjugados e ajustados entre si, ao ponto de os julgarmos para sempre inseparáveis, vivem em luta sem tréguas e chegam a envenenar a própria existência... e depois...

 Mefistófeles: – Alto lá! Eu antes quisera saber a razão por que o homem e a mulher não se entendem. Esta é uma questão que te há de custar a resolver. Isso é o que vale tentar e o petiz deseja fazê-lo...“

 Voltai, porém, à página do libreto. Vamos ao 1º acto, é Fausto, é a velha e a nova Ciência quem fala:

 "Como tudo se movimenta para o trabalho universal! Como operam e cooperam as actividades todas, umas pelas outras! Como sobem e descem as forças, a permutar de mão em mão os seus vasos de ouro, a tocá-los com as suas asas que exalam, neste vaivém, do céu à Terra, como uma bênção de universal harmonia!

 “Estupendo espectáculo! Mas... ó tortura! nada mais que espectáculo! Onde apreender-te, ó Natureza! Ó fontes de toda a vida! que abranjeis e nutris céus e terras, onde estais? Para vós se voltam os seios desnutridos, correis aos borbotões, inundais o mundo, enquanto em vão me consumo.”

 Sim. Em vão vos consumis, tentando reivindicar para o homem a obra do Criador. E em vão que escreveis: A omnipotência criadora é a afinidade da vida... Com todo o vasto conhecimento da matéria e das suas propriedades, não conseguistes engendrar sequer um cogumelo.

 Creio, porém, que de os fazeres decimais vos desculpais. O que não podemos, pode a Natureza, visto que ela ainda é mais hábil que nós. (Bela modéstia, na verdade.) Mas, então, que fazeis da inteligência, uma vez que, por outro lado, presumis não haver espírito na Natureza? Mas vamos adiante. Ao demais – acrescentais argutamente –, se ainda não produzimos seres vivos por processos químicos, temos, todavia, produzido matérias como, por exemplo, o ácido característico da urina, e o óleo essencial da mostarda (éter alilsulfociânico), o que muito nos lisonjeia. Detenhamo-nos, pois, um instante, nas decisivas manipulações destes ilustres químicos.

 A partir dos fins do último século, como adverte Alfred Maury (iii), tem-se reconhecido que as matérias que se desenvolvem nos vegetais e nos animais, recolhidas dos seus restos, encerram quase exclusivamente carbono, oxigénio, hidrogénio e azoto. Daí se concluiu serem estes quatro corpos os princípios básicos elementares de todas as substâncias orgânicas e que se encontram muitas vezes combinados com alguns outros corpos simples e diversos sais minerais.

 Este primeiro resultado nos ensinou que, se vegetação e vida são forças à parte, insusceptíveis de se confundirem com o simples movimento, com a afinidade e a coesão, elas de si nada criam e apenas apropriam o material do reino mineral que as rodeia. De facto, os quatro elementos orgânicos existem inteiramente formados na atmosfera. O ar é um composto de oxigénio e azoto, associados à pequena porção de ácido carbónico, ou seja de carbono combinado com o oxigénio. A atmosfera tem, ao demais, em suspensão, o vapor de água e ninguém ignora que a água é um composto de oxigénio e hidrogénio. Portanto, as matérias orgânicas tiram desta massa fluídica e inorgânica que as envolve e compenetra o nosso globo os elementos de sua composição. Quanto às outras substâncias encontradas, por assim dizer, acidentalmente, na sua trama, são apropriadas ao solo. As plantas os sugam e os animais, nutrindo-se das plantas, os assimilam.

 A Química pode criar imediatamente esses elementos orgânicos e foi o Sr. Büchner o primeiro a proclamá-lo, com entusiasmo. Os químicos fizeram o açúcar de uva bem como vários ácidos orgânicos. Criaram, dizem, diferentes bases orgânicas e entre elas a ureia, substância orgânica por excelência, em desmentido aos médicos que os acusavam de incapazes de obter produtos do organismo. Dia a dia vemos aumentarem as experiências químicas no sentido de criar combinações. O Sr. Berthelot conseguiu engendrar, de corpos inorgânicos, os derivados das combinações de carbono e hidrogénio e esta descoberta, mau grado ao seu desacordo com a natureza orgânica, forneceu um ponto de partida para a composição artificial dos corpos orgânicos.

 Hoje se fabrica o álcool e perfumes preciosos do carvão vegetal; da ardósia extraem-se velas; o ácido prússico, a ureia, a taurina e quantidade de outros corpos, havidos outrora por só criados de substâncias vegetais ou animais, tornam-se obteníveis de simples elementos da Natureza inorgânica. Assim, se apagou, graças as estas manipulações, a clássica distinção entre a Natureza orgânica e inorgânica.

 Em 1828, produzindo ureia artificial, Wöhler derrubou a velha teoria que sustentava só possíveis as combinações orgânicas engendradas por corpos orgânicos. Em 1856, Berthelot criou o ácido fórmico com substâncias inorgânicas, isto é, óxido carbónico e água, aquecendo estas matérias com a potassa cáustica e sem cooperação de quaisquer plantas ou animais. Logo após, conseguiram directamente destes elementos a síntese do álcool. Chegaram mesmo a produzir a gordura artificial do ácido oléico e da glicerina, duas substâncias que se podem obter por processos exclusivamente químicos, e aí temos um dos resultados mais extraordinários até hoje conseguidos na Química sintética.

  Destes dados, o autor de Força e Matéria (Büchner) concluiu que importa banir da vida e da Ciência a ideia de uma força orgânica, produtora dos fenómenos da vida, de maneira arbitrária e independente das leis da Natureza. Tal como ele, também repelimos o arbitrário, mas guardamos a força. Ele nos garante que a pretendida distinção rigorosa entre o orgânico e o inorgânico é meramente arbitrária. Mas, nisso, tem contra si os representantes da vida terrena, na sua totalidade.

 Sem embargo, Carl Vogt acrescenta que, “alegar a força vital, não passa de circunlóquio para mascarar a ignorância, espécie de alçapões de que a Ciência está cheia e pelos quais se salvam sempre os espíritos superficiais, que recuam perante o exame de uma dificuldade, para somente se contentarem com milagres imaginários”.

 Neste caso, a doutrina da força vital representaria hoje uma causa perdida. “Nem os esforços dos naturalistas místicos, no intuito de reanimar essa sombra; nem os lamentos dos metafísicos esconjurando as pretensões e a irrupção iminente do materialismo fisiológico e contestando-lhe o contingente filosófico; nem as vozes isoladas que assinalam os factos da Fisiologia ainda obscuros; nada disso pode salvar a força vital de próxima e completa ruína.

 Há alguns anos, Bunsen e Playfer mostraram – diz o autor de A Circulação da Vida, e Rieken confirmou logo após – que é possível obter cianogénio (combinação de azoto e hidrogénio) à custa de substância inorgânica. Por outro lado, sabemos que o hidrogénio, no momento em que se separa das suas combinações, pode unir-se ao azoto para formar o amoníaco. De resto, pode-se ir do cianogénio ao amoníaco. Basta expor ao ar o cianogénio dissolvido em água, para que se vejam flocos pardacentos desagregando-se do líquido, sinal de decomposição, em seguida à qual encontramos o ácido carbónico, o prússico, amoníaco, oxalato de amoníaco e ureia, dissolvidos no líquido. O ácido oxálico é uma combinação de carbono e oxigénio que, pela mesma quantidade de carbono, não contém senão três quartos do peso de oxigénio e ácido carbónico. O ácido oxálico é o causador do paladar acidulado de azeda, da oxálida e de muitas outras plantas. É um ácido orgânico que, conforme acabamos de dizer, podemos preparar mediante corpos simples, sem o concurso de qualquer organismo.

 “Assim, ficamos agora a conhecer três substâncias – exclama Moleschott –: uma base orgânica – o amoníaco; um principio acidulante orgânico – o cianogénio, e um ácido orgânico – o oxálico, que podemos fabricar com corpos simples.

 “Não há muitos anos, acreditava-se possível preparar um e outro mediante decomposição de combinações orgânicas as mais complexas, mas ninguém imaginaria obtê-las de elementos simples. No amoníaco temos uma combinação de azoto e hidrogénio, sem partilha de corpos orgânicos. Este enigma, que a esfinge da força vital nos antepunha como espantalho, para impedir o nosso avanço na preparação artificial das combinações orgânicas, foi resolvido por Berthelot. Ele derrubou a esfinge e os seus adoradores, substituindo-os por uma plêiade de investigadores, a cujas mãos passou os fios que lhes deverão servir para levar por diante a trama das descobertas, a fim de reproduzirem todas as peças do mundo orgânico.”

 Acrescentamos que se obtém hoje o ácido acético, fazendo passar por três estados um combinado de cloro e carbono, que são: percloreto de carbono, ácido cloracético e cloreto de carbono, bem como que a combinação directa de carbono e hidrogénio dá a síntese do acetileno (iv).

 Mais fácil ainda é preparar o ácido fórmico só com o auxílio de corpos simples, qual o conseguiu o professor do Colégio de França, operando com a potassa húmida sobre o gás óxido-carbónico, num globo de vidro à prova de fogo e por espaço de setenta e duas horas, à temperatura de 100 graus (v).

 De resto, a Natureza extrai as substâncias orgânicas da mesma fonte a que recorrem os químicos nas suas experiências de laboratório.

 Certamente, palmeamos a duas mãos (mesmo porque com uma só fora impossível) essas admiráveis tentativas da Ciência e não é a nós que poderiam imputar embargos ao génio criador do homem. Ele, o homem, está na Terra para conhecer a Natureza e assenhorear a matéria. O conhece-te a ti mesmo dos antigos se traduz nos nossos dias pelo estudo do mundo exterior e é por este estudo fecundo que verdadeiramente aprenderemos a conhecer-nos a nós mesmos.

 Acreditamos, com o Sr. Maury, que o alcance de tantas descobertas compensa de sobejo o esforço para as compreender. Que ciência nos poderá mais cativar do que a que nos revela a matéria de que nos constituímos e nos alimentamos; as substâncias com as quais estamos em contacto, os efeitos físicos que se operam dentro e fora de nós, onde transitam e como rejeitamos as partículas incessantemente assimiladas?

 Não são assuntos de somenos, estes, particularismos e instantâneos: antes são problemas que abrangem a humanidade física na sua totalidade, é o mundo dos seres a que pertencemos que está em jogo.

 Despendendo amiúde muito trabalho e inteligência para penetrar no labirinto de mesquinhas controvérsias e factos insignificantes, como descurarmos o que mais interessa, ou seja, esta maravilhosa Natureza no seio da qual nascemos, vivemos e morremos; que nos precede e nos sobrevive, fornecendo a todas as gerações os princípios essenciais de sua própria existência?

 Mas, nem por isso nos associamos às pretensas consequências que os senhores materialistas deduzem, consequências que os senhores BerthelotPasteur, e os químicos práticos são os primeiros a repudiar. Os materialistas presumem ter a chave mais difícil do enigma, uma vez que podem produzir gás artificial com os corpos simples. Misturando-se cianato de potassa e sulfato de amoníaco, a potassa combina-se com o ácido sulfúrico e o ácido ciânico com o amoníaco. Esta última combinação não é cianeto de amoníaco mas sim ureia. Admirai agora a ilação: “É graças a esta brilhante descoberta que Liebig e Wöhler abriram dilatadas perspectivas nessa via e conquistaram um eterno galardão, dando, um tanto involuntária e não preconcebidamente, a prova de que, doravante, a flama da vida se resolve em forças físicas e químicas.” Que honra para Liebig e Wöhler o serem assim arrastados para as nascentes do Aqueronte. Os nossos adversários gostam desse rio e das suas margens sombrias. “Certo – acrescentam –, o químico isento de preconceitos, que não fala ao serviço do trono e do altar, contando tranquilamente com a vitória certa, pode sorrir do pobre filósofo, cujo saber não ultrapassa o conhecimento da ureia e que acredita impor limites ao poder do fisiologista.” Que altar e que trono nomeariam ministros uns tais lógicos? A própria Ciência vive retraída no seu santuário e os deixa rondar o templo, ao repicar dos sinos e fazer evoluções.

 Que conclusão definitiva tira a escola materialista destas manipulações? A de que a Química e a Física nos oferecem provas evidentes de que as forças conhecidas, das substâncias inorgânicas, exercem a sua acção, tanto na Natureza viva como na morta.

 Pela mesma razão que os obrigou a divinizar a matéria, em substituição a Deus, vemo-los animar, sem cerimónias, a matéria para destronar a vida.

/…
(i) Circulation de la Vie, T. 2º, carta 15º.
(ii) A ideia de enclausurar Espíritos em frascos é muito comum na feitiçaria medieval. O Papa Benedito IX expeliu sete Espíritos de um açucareiro.
(iii) Revue des Deux Mondes – 1º de Setembro de 1865.
(iv) Berthelot – Chimie Organique Fondée sur la Synthèse.
(v) Sobre os recentes progressos da Química orgânica, convém consultar os interessantes relatos das sessões da Academia, principalmente nestes últimos tempos.


Camille FlammarionDeus na Natureza, Segunda Parte – A Vida 1, Circulação da Matéria (4 de 5), 20º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Jungle Tales (Contos da Selva)_1895, pintura de James Jebusa Shannon)

sábado, 22 de dezembro de 2018

agonia das religiões ~


Do Princípio inteligente

Tratei até agora da relação directa do pensamento de Deus com a matéria. Essa relação é necessária, da mesma maneira que é necessária a relação directa do pintor com o quadro que ele pinta, e portanto do trabalho que ele realiza no quadro, orientado pelo seu pensamento. Na verdade, o seu pensamento se projecta no quadro e ali se materializa, passa do plano do inteligível para o plano do sensível. Ao completar a sua obra, cessa a relação directa ou activa, mas permanece a relação passiva ou indirecta. Assim, a relação directa caracteriza o acto de pintar, ou de criar. Pode alegar-se a existência de intermediários: as mãos, a paleta e o pincel, as tintas. Mas convêm lembrar que todos esses instrumentos fazem parte da obra em execução, sobre a qual o pensamento do pintor actua directamente.

Na acção de Deus sobre a matéria o processo é o mesmo. O pensamento divino aglutina a matéria, dando-lhe estrutura, através da qual temos a passagem do pensamento do plano do inteligível para o plano do sensível. Uso a divisão de Platão neste sentido: o inteligível é o intelecto divino e o sensível é o plano do sensório, das sensações humanas. Dessa maneira, Deus materializa o seu pensamento para atingir a sensibilidade do campo material em que o homem vai ser criado. No fiat ou acto inicial da criação temos a acção directa e activa do pensamento divino a estruturar a matéria. Uma vez formada essa estrutura, surge um elemento novo que é designado pela expressão princípio inteligente. O pensamento divino ligado à matéria adquire autonomia, sem com isso se desligar da fonte que o alimenta. Transforma-se na mónadaelemento básico e estrutural da matéria, de que são compostas as próprias partículas atómicas. A palavra mónada procede de Pitágoras, foi empregada por Platão como ideia e desenvolvida modernamente por LeibnizRenouvier como uma substância inteiramente simples (pura indivisível e refractária a qualquer influência exterior. A mónada é dotada de uma força interior que a transforma, de potencialidades que se desenvolvem continuamente e de capacidade de percepção e vontade. As mónadas são diferentes entre si no tocante a essas potências internas.

Estas correlações filosóficas são necessárias para se entender o que é o principio inteligente da concepção espírita. Trata-se, como se vê, do princípio básico de toda a realidade, responsável pela formação dos reinos da Natureza, pelo desenvolvimento da vida e de todas as faculdades vitais e anímicas dos seres. O admirável poder de intuição dos gregos captou não só a existência dos átomos, como também das mónadas, que a Ciência actual já está a conseguir atingir nas profundezas da misteriosa estrutura da matéria, na pesquisa sobre as partículas atómicas. A teoria espírita do princípio inteligente é explicada de maneira sintética no “O Livro dos Espíritos”. No item 23 desta obra lemos o seguinte: O que é o espírito? É o princípio inteligente do Universo. Seguem-se outras explicações nas quais a inteligência se define como um atributo essencial do espírito. Geralmente confundimos a substância (espírito) com a inteligência, que é o seu atributo.

Colocado assim o problema, parece-me explicada a razão pela qual os Espíritos Superiores não esmiuçaram esta questão fundamental. Na própria tradição filosófica, desde bem antes da era cristã, já dispúnhamos dos elementos necessários de intuições capazes de nos fornecerem os dados para uma equação futura. Faltava-nos, porém, o desenvolvimento, que só mais tarde poderia ocorrer, das pesquisas cientificas em profundidade. Actualmente já podemos compreender com mais clareza a dinâmica do processo criador. A teoria filosófica da mónadaque antes poderia ser considerada como simples hipótese inverificável, adquire hoje a condição de uma teoria científica ao alcance de comprovação pela pesquisa. Teorias como a do físico inglês Paul Dirac, por exemplo, segundo a qual o Universo está mergulhado num oceano de electrões livres, ou a dos físicos soviéticos, de que esse oceano parece ser de uma luz violácea proveniente dos primórdios da criação, mostram-nos as possibilidades novas que as pesquisas espaciais estão a abrir neste campo. O mesmo se pode dizer da teoria dos campos de força que preenchem todo o espaço sideral.

É evidente que, diante destas novas posições conceptuais, toda a nossa cultura entra em crise, prenunciando o advento de um novo mundo. A inteligência humana se abre para dimensões mais amplas e profundas da realidade universal, exigindo a reformulação de conceitos e estruturas culturais envelhecidas. Já não podemos pensar em Deus como uma figura humana, nem do ponto de vista formal, nem do substancial. Só podemos considerá-lo como o Ser Absoluto, como a Inteligência Suprema, mas assim mesmo sem lhe atribuir nenhuma das limitações humanas. Os teólogos do Cristianismo Ateu, da Teologia Radical da Morte de Deus, sentem isso na própria pele, mas faltam-lhes os dados para uma equação mais positiva do problema. Divagam através de suposições ameaçadoras e caem irremediavelmente num torvelinho de contradições. Se tivessem a humildade de consultar a Filosofia Espírita, essa pedra rejeitada da parábola evangélica, encontrariam nela a pedra angular do novo edifício a construir.

O Espírito a que a Bíblia se refere em numerosos tópicos e que nos Evangelhos toma o nome de Espírito Santo é o Espírito de Deus na sua manifestação universal. A Criação tem dois aspectos, o material e o espiritual. O sopro de Deus é o espírito criado no fiat e o homem de barro, o Adão terreno, o ápice da criação nos mundos em desenvolvimento, como a Terra. O sopro de Deus nas ventas do homem de barro, para infundir-lhe o princípio da vida e da inteligência, é a ligação do espírito com a matéria na formação da mónada. No pensamento divino todo o quadro da criação estava presente desde o princípio. E tudo era perfeito. A perfeição do ideal constituía o modelo da realidade (o mundo da rés, das coisas) que devia projectar-se no Infinito. Por isso, as mónadas diferenciadas, com características específicas, seriam semeadas no espaço, para a germinação lenta, mas segura e contínua, dos conteúdos essenciais de cada uma delas. A mónada é a semente do ser, da criatura humana e divina que dela surgirá nas dimensões da temporalidade.

Não se pode conceber, na nossa relatividade humana, mais grandiosa e perfeita concepção do acto criador. Podemos perguntar porque Deus, que é o supremo poder, precisa do tempo para realizar essa obra gigantesca. Mas o Espiritismo ensina que a nossa relatividade decorre de necessidades nossas e não de Deus. O que para nós são séculos e milénios, para Deus pode ser apenas aquele instante que, para Kierkegaard, era o encontro do tempo com a eternidade. Um instante de profundidade e extensão imensas, que resume para o homem todas as suas existências nas duas dimensões do Universo que hoje nos são acessíveis: a espiritual e a material.

É, sem dúvida, espantoso pensar, com Gustave Geley, que tudo quanto consideramos inconsciente, desde o grão de areia aos mundos que giram em torno dos sóis, possui a potencialidade da consciência em desenvolvimento no seu interior. Mas quando compreendemos que a mónadasíntese de espírito e matéria, é uma unidade infinitesimal, sobre a qual se apoia toda a realidade – o que corresponde à concepção atómica da Ciência nos nossos dias –, a nossa mente começa a abrir-se para um entendimento superior. Se o poder do átomo nos espanta, a potencialidade da mónada nos aturdiria. E ambos estes poderes nada mais são do que fragmentos do poder de Deus. Quando pensamos nisso, a teoria do princípio inteligente começa a revelar-nos a grandeza da doutrina espírita.

E no entanto os seus fundamentos estão nos princípios evangélicos, sobre os quais milhares de teólogos, filósofos, místicos e pregadores escreveram e falaram sem cessar, numa catadupa de páginas e palavrórios ao longo de dois mil anos? Essa opacidade da inteligência humana, esse embotamento da capacidade de compreensão poderia fazer-nos descrer das potencialidades do principio inteligente se não soubéssemos que o instinto gregário do homem o leva à imitação e à repetição dos papagaios. Quando Kardec se atreveu, utilizando-se de todos os recursos de sensatez e equilíbrio, apoiando-se na cultura do Século XIX – para não provocar reacções precipitadas que lhe prejudicariam a obra – ao publicar “O Livro dos Espíritos”, todos os anátemas da Religião, da Ciência e da Filosofia caíram sobre ele como as bombas norte-americanas sobre o Vietname. Somente agora se abre uma perspectiva favorável, em todos aqueles campos reaccionários, para uma possível compreensão do seu gigantesco trabalho de reposição das coisas nos seus lugares. Mas então aparecem os que pretendem reformar, actualizar e introduzir técnicas nas suas obras ao invés de estudá-las e aprofundar-lhes o sentido. Isso nos prova quanto necessitamos do tempo para que a mónada oculta se abra e se actualize em nós.

Todas as coisas têm a sua origem no mundo das ideias, como Platão, levado pelas mãos de Sócrates, percebeu claramente. Nos planos superiores do Universo não se usa a linguagem articulada das hipóstases inferiores. Fala-se do pensamento, na linguagem telepática pura. Sócrates descobriu essa linguagem ao encontrar o conceito no fundo de cada palavra. Podemos assim conceber que a linguagem de Deus seja puramente mental. Na mente divina a ideia do Universo delineia-se perfeita, mas a projecção dessa ideia no plano inferior da matéria tem de vencer os obstáculos e as resistências da materialidade. Foi o que Hegel viu e descreveu com precisão na sua teoria estética, mostrando a luta do belo para se sobrepor, no tempo, às imperfeições materiais.

O mesmo se dá com o princípio inteligente, que, para vencer a opacidade da matéria, para lhe dar inteligência, segundo Kardec, tem de lutar na temporalidade. Mas, podemos perguntar, porque Deus não fez em condições transparentes a matéria, ao invés de opaca? O Espiritismo explica que a matéria se torna transparente na proporção em que visualizamos os planos superiores, de tal maneira que a confundimos com o espírito. Isso nos mostra que a técnica dos contrastes desaparece naquilo que Buda chamou de Nirvana e que a nossa apoucada inteligência considerou como o nada. Kant teve razão ao localizar os limites da razão humana no momento em que cessam as contradições dialécticas. Mas nesse momento, nesta linha divisória entre o mundo real e o mundo ideal, começa a razão angélica. Os homens transformados em anjos – não com asas nem com estrelas na testa, mas com a mente e o coração purificados – passam a ver e a compreender a realidade pela intuição directa e global. Nesse momento descobrem a perfeição do Universo, aquela perfeição que, desde o princípio, estava na concepção ideal de Deus, mas que nas hipóstases materiais se tornava irreconhecível como a Vénus de Milo coberta de terra e lama quando a arrancaram do subsolo.

O próprio tempo desaparece neste momento. Já não há necessidade do véu de Ísis da temporalidade para encobrir a verdade das coisas e dos seres. Mergulhamos no eterno, que não é estático e inerte como o supomos, mas tem a dinâmica e a lucidez de que o pensamento nos pode dar um vago exemplo. Kardec verificou, nas suas pesquisas espíritas, que a esquematização do sensório humano, com a divisão das faculdades sensoriais em órgãos específicos e rigidamente localizados no corpo, não existe para os espíritos libertos das impressões materiais. Os espíritos percebem, vêem e sentem de maneira global, por todo o seu ser em sintonia com toda a realidade. As deslocalizações e transferências das sensações nas práticas hipnóticas comprovam, no nosso plano, a veracidade desta descoberta efectuada nas suas pesquisas mediúnicas. O seu ensaio sobre a sensação nos espíritos, que se encontra no livro básico da doutrina, é uma peça de esclarecimento lúcido e didáctico deste problema.

As pesquisas actuais da Parapsicologia, que até agora só puderam refazer o caminho percorrido por Kardec, representam uma confirmação da validade das suas afirmações de mais de um século. Apesar disso, e no interesse inferior da defesa de posições sectárias, toda uma multidão de falsos cientistas se empenha na tarefa ingrata de desmentir o Espiritismo através de capciosos argumentos temperados na panela da mentira ou nos caldeirões da trapaça diabólica. Mas nada disso impedirá que a verdade triunfe, pois a verdade é, existe por si mesma e não pede licença a nenhum censor religioso ou ateu para se revelar como ela é, aos olhos de todos os que se fizerem dignos dela.

/…


José Herculano Pires, Agonia das Religiões / Capítulo 7 – Do Princípio inteligente, 8º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Paraíso Perdido, estudo do Anjo, lápis e giz de Alexandre Cabanel).

domingo, 2 de dezembro de 2018

~ em torno do mestre


Renúncia ~

Não pode haver progresso integral sem renúncia. A obra do aperfeiçoamento do nosso Espírito é urdida de renúncias sob aspectos multiformes. Não há carácter consolidado que se não funde numa série de renúncias. Quem não sabe renunciar, jamais firmará as bases seguras da sua evolução. Renunciar é vencer, vencer é viver. A redenção é impraticável fora da órbita das renúncias: só nesse ambiente o Espírito conquista a liberdade e firma o seu império.

O homem é um animal que se espiritualiza. Veio do império dos instintos e, caminha para o reino da razão. O desenvolvimento harmónico dos atributos do Espírito — inteligência, razão, vontade e sentimentos — determina naturalmente o recuo do instinto. À medida que o Espírito assegura o seu poder, a animalidade restringe-se. Semelhante transição, de um para o outro reino, é obra da renúncia.

O instinto representa o domínio da carne; a razão, o do Espírito. Há estágios na vida dos seres em que o instinto tem a primazia: é a época da irracionalidade. Outros há em que o despotismo do instinto constitui a fonte de todos os males: o ciclo racional. O animal tem no instinto o seu guia. Para o homem o guia deve ser a razão. Sempre que esta fraqueja, cedendo lugar àquele, o homem erra e sofre. Erra porque se deixa arrastar, tendo já o leme e a bússola para orientar-se, ao sabor das vagas que o desviam do roteiro normal da vida. Sofre, porque o erro é a causa cujo efeito é a dor.

O instinto não reúne os requisitos necessários para satisfazer as aspirações do Espírito, antes constitui-lhe embaraço. Daí a necessidade de restringi-lo, impondo-lhe limites cada vez mais restritos às suas exigências. E isso só se consegue pela renúncia.

A grande maioria dos homens vegeta entre duas tiranias: uma a que actua no seu interior e, se denomina instinto; a outra que age de fora para dentro e, se chama sentidos. Subjugado pelo instinto e fascinado pelos sentidos, o homem torna-se um ser híbrido, incoerente e extravagante, capaz de todas as aberrações. Só a renúncia, jugulando a cobiça e refreando os instintos, poderá quebrar os grilhões desse duplo e aviltante cativeiro.

É o que S. Paulo aconselha na sua epístola aos Romanos, sob os seguintes dizeres: "Rogo-vos, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos como um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, pois em tal importa o culto racional e; não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que proveis qual é a boa, agradável e perfeita vontade de Deus."

Para que o nosso corpo seja um sacrifício vivo em oferenda perpétua é, indispensável manter aceso o fogo da renúncia na imolação do instinto e da cobiça.

"Se alguém vem a mim e não renuncia a seu pai, mãe, mulher, filhos, irmãos e irmãs e, ainda à sua própria vida, não pode ser meu discípulo... Assim, pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo o que possui, não pode ser meu discípulo. Quem tem ouvidos de ouvir, que oiça."

Sempre que o incomparável Mestre concluía a sua pregação com as palavras — quem tem ouvidos de ouvir, que oiça — queria, com isso, dizer: quem for capaz de penetre o sentido destas palavras, porque o meu ensino não está na letra que mata, mas no espírito que vivifica. O trecho, acima inscrito, encontra-se nessas condições.

Jesus tinha o lar e a família na mais alta consideração. Segundo a sua maneira de ver, no lar e na família se consubstanciavam os maiores bens, aqueles a que o homem se encontrava mais Intimamente ligado. Daí citar precisamente o lar e a família, a par da própria vida, como os objectos que fazem jus aos nossos maiores afectos e ao nosso mais profundo e radicado apego.

Todavia, esses tesouros devem ser renunciados quando constituam embaraço à obra da redenção dos nossos Espíritos…

Mas, afinal, de que consta essa renúncia e como deve ser executada? Aqui cumpre lembrar a observação do Senhor: Quem tiver ouvidos de ouvir, que oiça.

A renúncia, tal como Jesus a estabelece, não significa, no que respeita à família, o seu abandono nem o arrefecimento do afecto que une os corações destinados a viverem sob o mesmo tecto e; no que concerne aos bens temporais, a renúncia não importa tão pouco em abrirmos mão de tudo o que possuímos, transformando-nos em párias ou mendigos.

Renúncia, segundo o critério evangélico, quer dizer capacidade moral, força de carácter capaz de sobrepor, em qualquer emergência ou conjuntura, a causa da justiça e da verdade acima de todos os interesses, de todas as volições e prazeres e, mesmo acima das nossas mais legítimas e caras afeições. Tal é a condição — sine qua non — estabelecida por Jesus para nos tornarmos seus discípulos.

Esta importantíssima questão tem sido mal interpretada pela teologia de certos credos cristãos. Do estrabismo teológico nasceram os conventos. Os reclusos das celas supõem, com isso, apressar o dia da redenção de suas almas. Enganam-se redondamente, pois, antes, retardam a aurora desse dia glorioso. Não é fugindo da sociedade e isolando-se egoisticamente entre as paredes de um cubículo que aceleraremos a evolução dos nossos Espíritos. Os trânsfugas perdem a oportunidade de avançar, na senda do progresso, porque evitam as lutas. É enfrentando os nossos inimigos, dentre os quais a morte é o derradeiro a vencer, no conceito de Paulo, que caminharemos com passo seguro na conquista do porvir.

Os tabernáculos (i) eternos não se abrem, com gazua. E o que pretendem os habitantes do claustro senão abri-los com chaves falsas? Os instintos amortecidos pelos cilícios e pelos jejuns contínuos não foram vencidos, não foram subjugados; encontram-se apenas impossibilitados de acção mediante processos anormais, e, portanto, condenáveis. A virtude de convento é como a planta de estufa: só medra a coberto das intempéries.

Não é tal a renúncia ensinada por Jesus, que deu os mais inequívocos exemplos de sociabilidade convivendo com os pecadores, tomando parte nos seus jantares, bodas e festins, a despeito das censuras acrimoniosas do farisaísmo que o cobria de zombaria por isso.

A filha que deixa os seus pais, que abandona o lar e a sociedade para sepultar-se num convento, comete um acto de fanatismo. Ela não renunciou ao pai, à mãe, aos irmãos, às irmãs e a tudo quanto tem, no sentido em que o divino Mestre preceitua; ela deixou de cumprir o seu dever junto da família e da sociedade, fugindo às lutas e às vicissitudes da vida humana e social. O arrefecimento e o repúdio às afeições de família, consequentes ao enclausuramento, são antes delito que virtude. Já dizia o apóstolo João, sábia e judiciosamente: Se não amas a teu irmão que vês, como amarás a Deus que não vês?

O que Jesus pede não é o desafecto aos membros de nossa família; não é o repúdio do lar, essa mansão sagrada onde se forjam as virtudes fundamentais do Cristianismo; não é a abstinência de tudo o que nos alegra, conforta e refrigera a alma; não é a privação do conforto, do bem-estar e da independência material ou financeira; não é o estrangulamento de todas as aspirações do melhor por que o nosso "ser" naturalmente almeja, porque isso seria uma monstruosidade, seria a nossa morte moral como efeito do embrutecimento, da abulia a que condenássemos o nosso espírito.

O que Jesus requer dos seus discípulos é, como já ficou dito acima, a coragem moral, a disposição de ânimo capaz de resistir a todas as seduções do mundo, colocando acima de tudo, inclusive dos nossos mais santos afectos e da nossa própria vida, o ideal de justiça e de amor que a sua doutrina encerra e do qual ele mesmo é o símbolo e o exemplo.


Avareza ~

Guardai-vos e acautelai-vos de toda a avareza, porque a vida de um homem não consiste na abundância dos bens que possui — disse o maior expoente da Verdade que os homens conheceram. Em seguida, para corroborar aquela assertiva, propôs a seguinte parábola aos seus discípulos:

As terras de um homem rico produziram muitos frutos. E ele discorria consigo: Que farei, pois não tenho onde recolher os meus frutos? E concluiu: Farei isto: derribarei os meus celeiros e os reconstruirei maiores e, aí guardarei toda a colheita e os meus bens; e, em seguida, direi: Minha alma, tens largos bens em depósito para longos e dilatados anos: descansa, come, bebe e regala-te. Mas, Deus disse-lhe: Néscio (i), esta noite te exigirão a tua alma; e as fazendas que ajuntaste, para quem serão?

Quanta sabedoria em tão singela parábula!

Quão transcendente lição nesta frase tão simples: A vida do homem não consiste nos bens que possui!

Se a longevidade dependesse dos cabedais, seria justificável que o homem se empenhasse para os obter a todo o custo.

Se, de outra sorte, a felicidade tivesse uma relação directa com as riquezas, compreender-se-ia que o homem procurasse conquistá-las, envidando, para isso, os seus melhores esforços.

Mas, o facto indiscutível é que a vida e a felicidade do homem (felicidade, que outra coisa não é senão alegria de viver) independem dos bens que ele consegue obter e amontoar.

Ora, se as fazendas e os haveres não asseguram vida longa nem venturosa, como se explica a fascinação que exercem sobre os homens? De onde procede tanto apego às temporalidades do século?

Jesus responde: vem da avareza. E, não só aponta a origem de tal vesânia, como adverte: Guardai-vos e acautelai-vos de toda a avareza.

Sim, de toda a avareza, isto é, das várias formas que essa terrível paixão assume, dominando o coração do homem.

Alexandre Herculano, impressionado com os diversos aspectos do orgulho, exclamou: Orgulho humano! que serás tu mais: estúpido, feroz ou ridículo?

Pois a avareza comporta aqueles três qualificativos: pode ser estúpida, ridícula ou feroz.

estúpida é aquela modalidade sórdida e mesquinha que faz o homem privar-se do conforto, do necessário e até do indispensável, perecendo à míngua para conservar intacta a pecúnia avaramente amealhada.

A avareza ridícula é a do homem que tem no dinheiro o seu ídolo, a sua preocupação constante e absorvente, empregando-o, embora, no luxo, na ostentação, ou simplesmente na satisfação dos seus apetites e caprichos.

feroz (de todas a mais perniciosa) é a avareza dos açambarcadores, dos organizadores de monopólios e trustes, cuja ambição e cupidez desmedidas não se contentam com menos que possuir o mundo inteiro, ainda que para tanto seja mister reduzir à miséria toda a Humanidade. Outrora, essa avareza gerou os conquistadores e os latifúndios. Actualmente, ostenta-se nas grandes organizações comerciais e industriais, nas companhias, nos sindicatos e empresas poderosas cujos tentáculos se alongam em todas as direcções.

Esta classe de avareza é geralmente peculiar a homens inteligentes, ricos, astutos e de alta cotação social. Das três, é, como ficou dito, a mais perniciosa e a que mais danos tem acarretado à sociedade de todos os tempos. Um só avaro dessa categoria, ou uma comandita (i) de meia dúzia deles, pode reduzir à fome uma cidade, um povo inteiro.

É a responsável pela carestia e pelas crises económicas que convulsionam o mundo, dando origem às lutas fratricidas que, por vezes, estendem o negro véu da orfandade e da viuvez sobre milhares de crianças e de mulheres indefesas. É também obra sua, nos tempos que correm, os milhões de desocupados (desempregados) nos países industriais e, as pretensas superproduções nos países agrícolas.

O trabalho suspenso; o legítimo comércio (que significa a livre troca de produtos entre as nações), quase de todo paralisado graças às odiosas barreiras alfandegárias, são outros tantos crimes de lesa humanidade praticados pela avareza da terceira espécie, isto é, a feroz.

As outras duas formas são mais estados mórbidos ou doentios da alma; a feroz é que caracteriza a verdadeira avareza. Aquelas prejudicam somente os indivíduos que as alimentam; ao passo que os maléficos efeitos desta atingem um raio de acção considerável, incalculável mesmo.

Todavia, os escravizados por esta cruel paixão são dignos de piedade. Vivem iludidos; agitam-se, como todos os homens, em busca da sonhada felicidade. Julgam encontrá-la na satisfação dos desejos, na expansão do egoísmo. Cobiçando sempre, vão alimentando ambições, que jamais chegam a ser satisfeitas.

Entretanto, a nossa alma, para ser feliz, não precisa construir celeiros de proporções desmesuradas como fez o rico da parábola; não precisa mesmo de um céu imenso, recamado (i) de sóis refulgentes, basta-lhe uma nesga de azul, onde "brilhe a estrela do amor".

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" Aos que comigo crêem e sentem as revelações do Céu, comprazendo-se na sua doce e encantadora magia, dedico esta obra. 
                                                                                   Pedro de Camargo “Vinícius”


Pedro de Camargo “Vinícius” (i)Em torno do Mestre, Primeira Parte / Seixos e Gravetos; Renúncia / Avareza, 5º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Jesus em casa de Marta e Maria, óleo sobre tela (1654-1655), de Johannes Vermeer)