Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

segunda-feira, 17 de julho de 2017

O Mundo Invisível e a Guerra ~

Ressurreição (*)

Dia de Páscoa, 31 de março de 1918

  Anualmente, aos primeiros sorrisos da primavera, os discípulos de Allan Kardec reúnem-se em torno desta lápide sagrada, a fim de homenagearem a memória do grande Codificador.

  Parece, inicialmente, que se abriram clarões nas suas fileiras, porque todos os que são jovens estão longe, de pé, na frente de batalha, para repelir o invasor.

  Muitos tombaram na defesa da pátria e as suas almas foram juntar-se, no Espaço, às almas dos homens de ideal, de dever e de virtude que, faz 60 anos, lutaram pela divulgação do Espiritismo no nosso país, todavia essas almas, fiéis à citação, tornaram a participar desta cerimónia.

  Se conseguíssemos tirar o véu que nos oculta o mundo invisível não veríamos somente alguns grupos de adeptos, porém uma grande multidão que se apresenta espontaneamente para nos alentar e nos inspirar. O seu número cresce bastante ao somar-se com todos aqueles atingidos pela dor e que buscam na nossa doutrina o raio de esperança que esclarece e consola.

  Na luta terrível que abala o mundo, não são apenas as energias latentes que acordam, mas também todas as paixões furiosas e as ambições que jaziam no coração humano.

  Neste momento cruel, é agradável lembrarmo-nos dos grandes obreiros do pensamento pacificador e fecundo, que prepararam um futuro melhor e, dentre eles, Allan Kardec.

  Desta vez, o aniversário do mestre coincide com a festa da Ressurreição. Não é este, por acaso, um motivo de alegria, um símbolo de vida e uma promessa de imortalidade?

  A Páscoa é o despertar da natureza depois do prolongado e triste sono do inverno. Os brotos enchem-se de seiva, nascem florinhas nas moitas, recomeçam os gorjeios dos pássaros que preparam os ninhos nos ramos. Tépido perfume paira no ar.

  Ao mesmo tempo se estabelece, com maior insistência, o problema da vida renascente, que é uma questão grave do movimento progressista, através do qual são feitas ou transformadas as coisas.

  Para grande parte dos homens, esse problema ainda é obscuro, permanecendo escondida a finalidade da vida. Tudo quanto lembre o mistério dos seres e das coisas aumenta a sua inquietação e o seu anseio. Não sabem de onde vieram nem para onde vão; caminham tropeçando em todos os obstáculos da estrada. A ideia da morte assusta-os e eles a repelem horrorizados.

  Para nós, graças ao Espiritismo, o objectivo de viver se aclarou de maneira intensa. A vida é um caminho até as alturas, a rota que conduz aos grandes picos perenes. É o esforço do homem para o bem e o belo, é a ascensão para a luz, é o desenvolvimento gradual das forças e das faculdades, cujas sementes Deus colocou em cada um de nós.

  É verdade que muitas vezes, principalmente na hora actual, a subida é áspera e pontilhada de espinhos, ficando o horizonte escurecido diante de nós. Porém nas horas sombrias é que as grandes verdades se destacam com maior esplendor e se depuram as almas no cadinho do sofrimento. Pelo sacrifício e pela abnegação aumentam a sua irradiação interior. Por intermédio das nossas existências terrenas, precárias, instáveis e dolorosas, construímos o nosso espírito imortal e o grandioso edifício dos seus destinos.

  A Páscoa é também a comunhão entre dois planos: o visível e o invisível, o terreno e o espiritual. Nesse ponto de vista, é o coroamento da obra de Jesus.

  O Cristo abrira, de par em par, as amplas portas que estabelecem o intercâmbio entre esses dois mundos, permitindo que se penetrassem reciprocamente.

  Sabemos que toda a vida de Jesus foi uma obra mediúnica da maior intensidade. Se ele agrupou, à sua volta, homens simples e ignorantes para lhes entregar uma missão que exigia instrução e faculdades oratórias, foi porque descobrira neles as aptidões psíquicas que iriam convertê-los, depois que ele tivesse morrido, em intérpretes do Além, inspirados pelo próprio pensamento e pela vontade.

  A acção dos profetas hebraicos, provocada por superiores influências, prosseguia e estendia-se por toda a Igreja cristã, tornando-se ela a intermediária no mandato preparado pelas potências invisíveis. A manifestação da Páscoa e as aparições de Jesus que se seguiram são a nota importante, o centro dessa grande epopeia espiritualista.

  A Igreja primitiva apresenta notáveis semelhanças com o movimento espírita actual. Sob o nome de profetas, os médiuns nela representavam um papel importante porque nas suas inspirações e discursos havia o grande sopro do Além.

  A Igreja, durante todo o tempo em que seguiu sendo a intérprete das revelações sobre-humanas, foi assistida, protegida e, apesar dos erros e das imperfeições dos seus membros, manteve-se viva e próspera.

  Entretanto, a partir do dia em que aboliu a mediunidade, impondo o silêncio às vozes do além, nela se fez a obscuridade; pouco a pouco, os objectivos divinos foram substituídos pelos materiais e ela abandonou o seu verdadeiro papel, a missão que o seu fundador lhe conferiu.

  A violenta e pérfida campanha que a Igreja promove hoje contra o Espiritismo comprova que ela se desviou completamente do sentido de suas origens, de suas verdadeiras tradições, afastando-se, cada vez mais, dos ensinos do Cristo para se encerrar em fórmulas que os lábios repetem, mas que não trazem luz nem calor aos corações dos homens.

  Resulta daí que nos cabe, modestos discípulos e humildes herdeiros de Allan Kardec, a missão de restabelecer o laço que une o Céu à Terra, de reencontrar a fonte fecunda de onde jorram altas inspirações, de retomar essa tarefa que deve congregar os poderes invisíveis e os homens de boa vontade, a fim de se construir a nova era desejada por todas as almas inquietas e tristes...

  No meio da miséria humana, nos dias angustiados que atravessamos, a Páscoa deve ser, como um raio de luz, uma mensagem de júbilo e de esperança.

  Aí está por que, de pé em volta deste dólmen, como os antigos cristãos que celebravam a Páscoa em traje de viagem e segurando o bordão, comungamos nós, não materialmente, porém com todos os impulsos de nossa alma e todas as aspirações de nosso coração, com esse mundo invisível, cujas legiões pairam sobre nós e se associam intimamente às nossas lutas e esforços, assim como aos nossos padecimentos.

  Dessa forma, a enorme cadeia de vida que liga a Terra ao Espaço se consolida e reúne, numa só acção, as duas humanidades, solidárias no seu destino através dos séculos e dos tempos.

  Se queremos entrever pelo pensamento o porvir reservado ao Espiritismo, imaginemos, por um momento, as gerações vindouras livres de superstições clericais, de preconceitos universitários e elevadas, através do espiritualismo científico e filosófico, até à comunhão com o invisível, conversando com os habitantes do além, orientando a sua vida de acordo com os conselhos dos seus preceptores do além-túmulo e obedecendo aos impulsos superiores, como os antigos profetas de Israel.

  Semelhante sociedade não formaria o povo de eleitos aos quais Jesus veio evangelizar? A união de tal povo com a humanidade invisível seria comparável à escada de Jacob, pela qual os espíritos desceriam até nós e nós subiríamos até Deus, numa ascensão de glória, de virtude e de luz!

  A todos os que se curvam ao peso da existência e ao fardo das provações, aos que consideram com terror o flagelo, o fogo e o sangue que devastam a França, diremos: Elevai os vossos pensamentos acima das misérias humanas, elevai-os às regiões serenas, às perspectivas imensas que a doutrina de Allan Kardec nos apresenta.

  Bem mais alto que as circunstâncias terrenas, ela vos ajudará na descoberta das leis eternas que presidem à ordem, à justiça e à harmonia no Universo. Mostrar-vos-á que os males do destino são outros tantos degraus para se chegar a um nível mais elevado da vida, para alcançar sociedades melhores, humanidades mais dignas dos favores da natureza e do destino. Ela vos dirá que a catástrofe que agora se desencadeou sobre o nosso país, talvez com o fim de saneá-lo, é passageira e que melhores dias virão depois da tormenta.

  O espírita sabe que um futuro sem limites lhe está garantido e vai andando no seu caminho com mais fé e confiança.

  Suporta, resolutamente, as provações porque, de antemão, conhece as suas causas e os seus proveitos, haurindo na sua crença as consolações e a força moral tão importantes nos momentos críticos e de luto. Sabe que, apesar das vicissitudes dos tempos e dos reveses da História, a verdade, o direito e a equidade deram sempre a última palavra.

  O espírita sabe que uma poderosa protecção o envolve, que cada um de nós tem o seu guia e que seres invisíveis zelam pelos indivíduos e pelas nações.

  O estudo de nossa natureza psíquica lhe mostrou toda a extensão das nossas forças ocultas, que podemos ampliar e desenvolver pelo pensamento, pela vontade e pela oração, atraindo para nós as forças exteriores e os puros fluidos, cuja finalidade é fecundar as nossas próprias forças interiores.

  Dessa maneira, a comunhão com o invisível não é apenas um acto de fé, mas principalmente um salutar exercício que aumenta o nosso poder de irradiação e de acção.

  A fim de que possamos gozar da claridade e do calor do Sol, precisamos, em nossas casas, abrir as portas e as janelas; assim também, é preciso abrir as nossas almas e os nossos corações às divinas irradiações para sentir os seus benefícios.

  A maior parte dos homens continua refratária, resultando daí a pobreza do seu espírito e a obscuridade em suas mentes. Porém, se os nossos pensamentos e vontades vibrassem em uníssono, convergindo para um objectivo comum, essa meta seria facilmente atingida e os nossos males se reduziriam notadamente. Nas almas que se encontram mais nas sombras brotaria uma centelha que se transformaria em chama ardente.

  No meio da luta que devasta o mundo, muitas vezes nos sentimos sufocados pela tristeza. Nós que, até há pouco tempo afirmávamos a lei do progresso, com a qual sonhávamos para o melhoramento constante de todas as coisas, agora somos obrigados a reconhecer que as conquistas científicas e as mais belas descobertas da inteligência servem para intensificar a obra de destruição e de morte a que assistimos, impotentes.

  A história imparcial registará as cenas de espanto e terror que acontecem tanto no alto dos ares como na terra e até no fundo das águas; e determinará a responsabilidade dos que foram os primeiros em inaugurar processos de guerra que excedem em selvajaria e ferocidade a tudo quanto a humanidade conhecia.

  De nossa parte, diante desse desenrolar de paixões furiosas, desse transbordar de ódios, temos um dever a cumprir, uma missão a realizar: divulgar em nosso derredor o conhecimento desse além, onde a verdade e a justiça, embora muitas vezes ignoradas na Terra, ainda encontram refúgio seguro; dirigirmo-nos aos que choram os seus mortos queridos, iniciando-os nesse intercâmbio espiritual que lhes permitirá conviverem ainda com eles pelo espírito e pelo coração, proporcionando-lhes inefáveis consolações, e, finalmente, relembramos a memória do grande Codificador dessa doutrina luminosa e serena que traz alento e consolação aos aflitos.

  Nos nossos dias de sofrimento, uma das raras alegrias do pensamento é a de nos determos nas nobres figuras que muito honraram a humanidade.

/…
(*) Pronunciado em 31 de março de 1918, no Cemitério Père-Lachaise, junto ao túmulo de Allan Kardec.


LÉON DENIS, O Mundo Invisível e a Guerra, XIII Ressurreição (*) Dia de Páscoa, 31 de março de 1918, 30º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Tanque de guerra britânico capturado pelos Alemães, durante a Primeira Guerra Mundial)

segunda-feira, 3 de julho de 2017

o sentido da vida ~


Novo Panteísmo "Realista"

Ao procurarmos situar o Espiritismo, no terreno filosófico, acima das duas correntes clássicas de espiritualismo e materialismo, demos-lhe a designação de realista. Esse realismo, porém, nada tem a ver com o realismo medieval e a sua luta contra o nominalismo. Pode ser antes comparado ao realismo literário de Flaubert, pois o que o caracteriza é a preocupação de ver a vida e o mundo através de uma visão real, a mais real possível, sem o desprezo ou o descuido de qualquer dos aspectos da realidade objectiva e subjectiva, se é assim que podemos dividir, impunemente, a realidade.

Devemos lembrar, entretanto, nesse ponto, que a recusa sistemática em aceitar a teoria espírita e o desinteresse manifesto pela mesma, da parte da maioria dos cientistas modernos e dos modernos filósofos, que torcem o nariz diante dos livros de Kardec e os trabalhos de CrookesMyersRichetAksakof e Oliver Lodge, por sentirem o cheiro de uma grosseira superstição empalhada no museu da culturaconduziram-nos fatalmente a um renascimento forçado do realismo medieval, conjugado com o panteísmo na sua forma mais primitiva. E o dizemos primitiva porque é a forma que poderíamos chamar de panteísmo inconsciente, muito distanciada da forma superior de panteísmo de Espinoza, por exemplo, que, segundo o seu próprio autor, podia confundir-se com o pensamento de Paulo, de que tudo vive e se move em Deus.

Os novos corifeus da cultura, apegando-se a um racionalismo de superfície, que contradiz as maiores virtudes da própria razão, negam todas as possibilidades da sobrevivência individual, para aceitarem, em troca, uma visão infinitamente mais improvável e absurda, da sobrevivência de uma realidade dotada de percepção consciente. Não importa que uma cerebração como a de Oliver Lodge tenha reunido as suas experiências e as suas conclusões, ainda recentemente, em pleno mar da cultura moderna, num trabalho como a monografia Por que creio na imortalidade pessoal. Os grandes sábios da era atómica, embora um cientista de grande evidência no terreno das pesquisas atómicas, como Artur Campton, confirme, em A posição do homem no Universo, as assertivas de Lodge, preferem fugir espavoridos da superstição da imortalidade para se refugiarem no panteísmo científico, que é, na realidade, a mais anti-científica de todas as teorias.

De facto, não negam os nossos homens da ciência, e os possíveis filósofos desta era de pesquisas, a imortalidade da alma. Entretanto, envolvendo essa imortalidade no conceito de eternidade das coisas, confundem o resultado das suas observações parciais com as linhas mais amplas da realidade universal e oferecem à humanidade exausta um imenso borrão, como perspectiva do seu próprio futuro. Apegados ao método científico de indução e dedução, esquecem-se da regra fundamental da convergência das provas, para a qual Ernesto Bozzano nos chama incessantemente a atenção, nos seus trabalhos. Generalizam sobre meia dúzia de conceitos ou de casos, desprezando a maioria, por considerá-los sob o prejuízo da superstição, espécie de pecado original da teologia científica, fonte impura e sempre suspeita, que atemoriza e espanta os ortodoxos.

Não podendo negar a continuidade da vida, que se patenteia a própria continuidade do Universo, e não querendo aceitar a sobrevivência individual, que lhes quebraria o dogma científico do monismo psicofísico, levam de volta o pensamento moderno ao panteísmo primitivo. Deus, embora não o chamem por esse nome, que também cheira a superstição, é a própria natureza, de que tudo provém e a que tudo retorna. As individualidades, sejam humanas, animais, vegetais ou minerais, nada mais são do que ondas que surgem e se apagam, rápidas e efémeras, na superfície do mar infinito da matéria, sucedendo-se através dos tempos, como as próprias ondas do mar. O homem é uma crista de água espumosa que se levanta de súbito na superfície, percorre um certo espaço-tempo e desaparece de novo no líquido comum. O que sobrevive não é o homem, mas apenas os seus elementos constitutivos, a sua matéria e a sua energia. O deus-natureza, caprichoso, ilógico, absurdo, é um monstro universal, de mil tentáculos e de milhões de faces, a criar e a tragar incessantemente as próprias criaturas, a se revelar e se esconder, num torvelinho infernal e numa verdadeira autofagia, mais desoladora e mais horrenda do que tudo o que possa ter imaginado a mitologia pagã e a ingénua teologia católica, a respeito dos domínios satânicos.

Entretanto o homem existe. O homem pensa, vive, sente, pode filosofar. Gogito ergo sum da metade cartesiana. E diante disso, procuram, os sujet-pensant da moderna cultura científica, uma parte de saída através de novo retrocesso filosófico, na volta ao realismo medieval. Vejamos o que dizem H. G. WellsJulian Huxley e G. P. Wells, por exemplo, em A nossa vida mental, tradução e notas de Almir de Andrade, título inglês Science of life, volume oitavo, Man’s mind and behaviour.

Embora sejamos mortais como indivíduos, podemos ser imortais como fases e partes transitórias da evolução contínua e imorredoura de uma realidade dotada de percepção consciente. Quando filosofamos, nas horas de recolhimento e de silêncio, talvez essa filosofia não parta unicamente de nós, mas seja o próprio homem que se revela, na plenitude de si mesmo, através dos nossos pensamentos.”

Durante o século XI, como se sabe, desencadeou-se no mundo filosófico a tremenda luta entre nominalistas e realistas, os últimos afirmando a existência real, positiva, dos universais, que nada mais eram que figuras colectivas das coisas existentes de maneira separada do mundo físico, e os primeiros sustentando a existência apenas destas coisas. Assim, para os realistas, à maneira do que Sócrates e Platão afirmavam sobre os conceitos "gerais", os homens não são mais do que projecções materiais do Homem universal, a entidade colectiva existente no mundo das ideias. A esse idealismo escolástico são forçados a regressar, como vemos, os corifeus do pensamento científico moderno, quando se negam a aceitar as últimas consequências do esforço humano para o conhecimento mais amplo da vida e do mundo.

A Religião, a Filosofia e a Ciência atingiram um estágio superior, graças à contínua e irrevogável evolução da humanidade e dos seus processos mentais. Nesse estágio não é mais possível manter-se o divisionismo irracional, gerador de antagonismos irreconciliáveis, em que esses ramos do conhecimento humano têm vivido até agora. Chegamos, pois, à era da síntese, ao momento do encontro e fusão dessas partes distintas, para a formação do todo, do corpo único e vitorioso da concepção geral do Universo, por que anseiam o coração e a mente do homem. As forças que se opõem a esse avanço natural não podem fazer outra coisa senão barrar o caminho, desviando o curso normal desses ramos do conhecimento. Esse desvio, uma vez que o avanço foi sustado, não pode tomar outro rumo senão o do regresso ao passado.

O Espiritismo se afirma como a larga estrada do progresso para o pensamento humano, quando pensamos em tais coisas. Ele nos mostra a sua verdadeira natureza do ponto culminante das conquistas mentais e espirituais da humanidade, ao verificarmos que, sem interromper o avanço de nenhum dos ramos do conhecimento e sem voltar para trás, ele pode reuni-los, naquela síntese que nos leva da multiplicidade dos fenómenos ao princípio único que os rege.

Nem foi por outro motivo que sir Oliver Lodge afirmou, em Por que creio na imortalidade pessoal, ser o Espiritismo uma nova revolução copérnicaEle rompe o círculo fechado do pensamento moderno, estilhaçando as esferas de vidro dos novos céus superpostos de Ptolomeu, para colocar o homem diante do espaço infinito, em que os mundos gravitam e a humanidade se expande, para além do organocentrismo ortodoxo da biologia moderna.

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José Herculano Pires, O Sentido da Vida, Novo Panteísmo “Realista”, 8º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Platão e Aristóteles, pormenor d'A escola de Atenas de Rafael Sanzio, 1509)

sexta-feira, 23 de junho de 2017

| o grande enigma ~


a acção de Deus | no Mundo e na História

Deus, foco de inteligência e de amor, é tão indispensável à vida interior quanto o Sol à vida física!

Deus é o sol das almas. É Dele que emanam essas forças, às vezes energia, pensamento, luz, que anima e vivifica todos os seres. Quando se pretende que a ideia de Deus é inútil, indiferente, tanto valeria dizer que o Sol é inútil, indiferente à Natureza e à vida.

Pela comunhão de pensamento, pela elevação da Alma a Deus, se produz uma penetração contínua, uma fecundação moral do ser, uma expressão gradual das potências Nele encerradas, porque essas potências, pensamento e sentimento, não podem revelar-se e crescer senão por altas aspirações, pelos transportes do nosso coração. Fora disso, todas essas forças latentes dormitam no nosso íntimo, conservam-se inertes, adormecidas!

Falamos da prece. Expliquemo-nos ainda a respeito desta palavra. A prece é a forma, a expressão mais potente da comunhão universal. Ela não é o que muitas pessoas supõem: uma recitação frívola, o exercício monótono e muitas vezes repetido. Não! Pela verdadeira prece, a prece improvisada, aquela que não comporta fórmulas, a Alma se transporta às regiões superiores; aí haure forças, luzes; aí encontra apoio que não podem conhecer nem compreender aqueles que desconhecem Deus. Orar é voltarmo-nos para o Ser eterno, é expor-lhe os nossos pensamentos e as nossas acções, para submetê-los à sua Lei e fazer da sua vontade a regra de nossa vida; é encontrar, por esse meio, a paz do coração, a satisfação da consciência, numa palavra, esse bem interior que é o maior, o mais imperecível de todos os bens!

Diremos, pois, que desconhecer, desprezar a crença em Deus e a comunhão do pensamento que a Ele se liga, a comunhão com a Alma do Universo, com esse foco de onde irradiam para sempre a inteligência e o amor, seria, ao mesmo tempo, desconhecer o que há de maior; depreciar as potências interiores que fazem a nossa verdadeira riqueza. Seria espezinhar a nossa própria felicidade, tudo o que pode promover a nossa elevação, a nossa glória, a nossa ventura.

O homem que desconhece Deus e não quer saber que forças, que recursos, que socorros Dele dimanam, esse é comparável a um indigente que habita ao lado de um palácio, cheio de tesouros, e se presta a morrer de miséria, diante da porta que lhe está aberta e, pela qual tudo o convida a entrar.

Ouvem-se frequentemente certos profanos que dizem: “Não tenho necessidade de Deus!” Palavras tristes, deploráveis, palavras orgulhosas dos que, sem Deus, nada seriam, não teriam existido. Oh! cegueira do espírito humano, cem vezes pior que a do corpo! Ouviste alguma vez a flor dizer: não tenho necessidade de sol? Pois bem, nós o sabemos, Deus não é somente a luz das Almas; é também o amor! E o amor é a força das forças. O amor triunfa perante todas as potências brutais. Lembremo-nos de que se a ideia cristã venceu o mundo antigo, se venceu o poder romano, a força dos exércitos, o gládio dos Césares, foi pelo amor! Venceu por estas palavras: “Felizes os que têm a doçura, porque possuirão a Terra!”.

E, com efeito, não há homem, por mais duro, por mais cruel, que não se sinta desarmado contra vós, se estiver convencido de que quereis o seu bem, a sua felicidade e de que tal desejais de modo real e desinteressado.

O amor é todo-poderoso; é o calor que faz fundir os gelos do cepticismo, do ódio, da fúria, o calor que vivifica as almas embotadas, porém, prestes a desabrochar e a dilatar ao bafejo desse raio de amor.

Notai bem: são as forças subtis e invisíveis as rainhas do mundo, as senhoras da Natureza. Vede a electricidade! Nada pesa e não parece coisa alguma; entretanto, a electricidade é uma força maravilhosa; volatiliza os metais e decompõe todos os corpos. O mesmo se dá com o magnetismo, que pode paralisar o braço de um gigante. De igual modo o amor pode dominar a força e reduzi-la; pode transformar a alma humana, princípio da vida em cada um, sede das forças do pensamento. Eis a razão por que Deus, sendo o foco universal, é também o poder supremo. Se compreendêssemos a que alturas, a que grande e nobre tarefa o nosso Espírito pode chegar pela compreensão profunda da obra divina, pela penetração do pensamento de Deus em cada ser, seríamos transportados de admiração.

Há homens convencidos de que, prosseguirmos nós a nossa ascensão espiritual, acabaremos por perder a existência, para nos aniquilar no Ser supremo. É isso um erro grave: porque, ao contrário, se conforme a razão indica e o confirmam todos os grandes Espíritos, quanto mais nos desenvolvemos em inteligência e em moral, mais a nossa personalidade se afirma. O ser pode estender-se e irradiar; pode crescer em percepções, em sensações, em sabedoria, em amor, sem por isso deixar de ser ele próprio. Não percebemos que os Espíritos elevados são personalidades poderosas? E nós próprios não sentimos que, quanto mais amamos, mais nos tornamos susceptíveis de amar; que quanto melhor compreendemos mais nos sentimos capazes de compreender?

Estar unido a Deus é sentir, é realizar o pensamento de Deus. Mas o poder de sentir essa possibilidade de acção do Espírito não o destrói. Só pode engrandecê-lo. E quando chega a certo grau de ascensão, a Alma torna-se, por sua vez, uma das potências, uma das forças activas do universo; ela se transforma num dos agentes de Deus na obra eterna, porque a sua colaboração se estende sem cessar. O seu papel é transmitir as vontades divinas aos seres que estão abaixo dela, atrair a ela, na sua luz, no seu amor, tudo o que se agita, luta e sofre nos mundos inferiores. Não se contenta mesmo com uma acção oculta. Muitas vezes encarna, ocupa um corpo e torna-se um missionário, desses que passam quais meteoros na noite dos séculos.

Há outras teorias que consistem em crer que, quando em consequência de suas peregrinações, a Alma chega à perfeição absoluta, a Deus, depois de longa permanência no meio das beatitudes celestes, torna a descer ao abismo material, ao mundo da forma, ao mais baixo grau da escala dos seres, para recomeçar a lenta, dolorosa e penosa ascensão que acaba de conseguir.

Tal teoria não é mais admissível que a outra; para aceitá-la seria necessário fazer abstracção da noção do Infinito. Ora, essa noção impõe-se embora escape à nossa análise. Basta reflectir um pouco para compreender que a Alma pode prosseguir a sua marcha ascendente e aproximar-se sem cessar do apogeu, sem jamais o atingir. Deus é o Infinito! É o Absoluto! E nunca seremos, em relação a Ele, apesar do nosso progresso, senão seres finitos, relativos, limitados.

O ser pode, pois, evoluir, crescer sem cessar, sem nunca realizar a perfeição absoluta. Isto parece difícil de compreender e, entretanto, que há de mais simples? Escolhemos um exemplo ao alcance de todos, um exemplo matemático. Tomai uma unidade – e a unidade é um pouco a imagem do ser – e ajuntai-lhe a maior fracção que encontrardes. Aproximar-vos-eis do algarismo 2, mas nunca o atingireis. Nós, homens, encerrados na carne, temos grande dificuldade em fazer ideia do papel do Espírito, que contém em si todas as potências, todas as forças do Universo, todas as belezas e esplendores da vida celeste e os faz irradiar sobre o mundo. Mas o que podemos e devemos compreender é que esses Espíritos potentes, esses missionários, esses agentes de Deus, foram, tal qual agora somos, homens de carne, cheios de fraquezas e misérias; atingiram essas alturas pelas suas pesquisas e os seus estudos, pela adaptação de todos os seus actos à lei divina. Ora, o que fizeram todos podemos fazer nós também. Todos têm o gérmen de um poder e de uma grandeza iguais ao seu poder e à sua grandeza. Todos têm o mesmo futuro grandioso, e só de nós mesmo dependem o desenvolvimento desse gérmen através das nossas inúmeras existências.

Graças aos estudos psíquicos, aos fenómenos telepáticos, estamos mais ou menos aptos a compreender, desde já, que as nossas faculdades não se limitam aos nossos sentidos. O nosso Espírito pode irradiar além do corpo, pode receber as influências dos mundos superiores, as impressões do pensamento divino. O apelo do pensamento humano é ouvido; a Alma, quebrando as fatalidades da carne, pode transportar-se a esse mundo espiritual, que é a sua herança, o seu domínio o seu por vir. Eis por que é necessário que cada um de nós se torne o seu próprio médium, aprenda a se comunicar com o mundo superior do Espírito.

Esse poder tem sido até aqui privilégio de alguns iniciados. Hoje, é necessário que todos o adquiram e que todo o homem chegue a apreender, a compreender as manifestações do pensamento superior. Ele pode chegar aí por uma vida pura e sem mácula e pelo exercício gradual das suas faculdades.

A acção de Deus desvela-se no Universo, tanto no mundo físico quanto no mundo moral; não há um único ser que não seja objecto da sua solicitude. Nós a vemos manifestar-se nessa majestosa lei do progresso que preside à evolução dos seres e das coisas, levando-os a um estado sempre mais perfeito. Essa acção mostra-se igualmente na história dos povos. Pode seguir-se, através dos tempos, essa marcha grandiosa, esse impulso da Humanidade para o bem, para o melhor. Sem dúvida, há nessas caminhadas seculares muitos desfalecimentos e recuos, muitas horas tristes e sombrias; não se deve, porém, esquecer que o homem é livre nas suas acções. Os seus males são quase sempre consequência de erros, dos seus estados de inferioridade.

Não é uma escolha providencial que designa os homens destinados a produzir as grandes inovações, os descobrimentos que contribuem para o desenvolvimento da obra civilizadora? Esses descobrimentos se encadeiam; aparecem, uns depois dos outros, de maneira metódica, regular, à medida que podem encaixar-se com êxito aos progressos anteriores.

O que demonstra, de modo brilhante, a intervenção de Deus na História é o aparecimento, no tempo próprio, nas horas solenes, desses grandes missionários, que vêm estender a mão aos homens e os repor na senda perdida, ensinando-lhes a lei moral, a fraternidade, o amor aos seus semelhantes, dando-lhes o grande exemplo do sacrifício próprio das causas de todos.

Haverá algo mais imponente do que essa missão dos Enviados divinos? Eles vêm e caminham no meio dos povos. Em vão os sarcasmos e o ridículo chovem sobre eles. Em vão o desprezo e o sofrimento os atingem. Eles seguem sempre! Em vão se levantam à sua volta os patíbulos, os cadafalsos.

As fogueiras se acendem. Mas eles seguem, com a fronte altiva, a alma serena. Qual é, pois, o segredo da sua força? Quem os impele assim para a frente?

Acima das sombras da matéria e das vulgaridades da vida, mais alto que a Terra, mais alto que a Humanidade, eles vêem resplandecer esse foco eterno, um raio que os ilumina e lhes dá a coragem de afrontar todas as dores, todos os suplícios.

Contemplaram a Verdade sem os véus e, daí em diante, não têm outra preocupação se não difundir, pôr ao alcance das multidões, o conhecimento das grandes leis que regem as almas e os mundos!

Todos esses Espíritos potentes têm declarado que vêm em nome de Deus e para executar a sua vontade. Jesus afirma-o várias vezes: “É meu Pai, diz ele, que me envia.” E Jeanne d'Arc não é menos precisa: “Venho da parte de Deus, para livrar a França dos ingleses.”

No meio da noite temerosa do século XV, nesse abismo de misérias e de dores em que soçobravam a vida e a honra de uma grande nação, que trazia Jeanne à França traída, subjugada, agonizante? Era algum socorro material, soldados, um exército? Não, o que ela trazia era a , a fé em si mesma, a fé no futuro da França, a fé em Deus!

“Eu venho da parte do Rei dos Céus – dizia ela – e trago-vos os socorros do Céu.” E com essa fé a França se ergueu, escapou à destruição e à morte!

O mesmo aconteceu de 1914 a 1918. Só houve um remédio, quer para esse cepticismo aparatoso, quer para essa indiferença cega que caracterizava o espírito francês antes da guerra. Só houve um remédio para essa apatia do pensamento e da consciência nacionais que nos dissimulavam a extensão do perigo. Esse remédio foi a fé em nós mesmos, nos grandes destinos da Pátria, a fé nessa Potência Suprema que salvou de novo a França nos dias do Marne e de Verdun.

Mas os dias de perigo e de glória passaram; a união sagrada não sobreviveu ao drama sanguinolento. O pessimismo, o desencorajamento e a discórdia retomaram a sua acção mórbida; a anarquia e a ruína batem à nossa porta.

O único meio de salvar a sociedade em perigo é elevar os pensamentos e os corações, todas as aspirações da alma humana para a Potência Infinita – que é Deus; é unir a nossa vontade à sua e nos compenetrarmos da sua Lei: aí está o segredo de toda a força, de toda a elevação!

E ficaremos surpreendidos e maravilhados, avançando nesta senda esquecida, de reconhecer, de descobrir que Deus não é abstracção metafísica, vago ideal perdido nas profundezas do sonho, ideal que não existe, conforme o dizem Vacherot e Renan, senão quando nele pensamos. Não; Deus é um ser vivo, sensível, consciente. Deus é uma realidade activa. Deus é o nosso pai, o nosso guia, o nosso condutor, o nosso melhor amigo; por pouco que lhe dirijamos os nossos apelos e que lhe abramos o nosso coração, Ele nos esclarecerá com a sua luz, nos aquecerá no seu amor, expandirá sobre nós a sua Alma imensa, a sua Alma rica de toda a perfeição; por Ele e Nele somente nos sentiremos felizes e verdadeiramente irmãos; fora Dele só encontraremos obscuridade, incerteza, decepção, dor e miséria moral. Eis o socorro que Jeanne trazia à França, o socorro que o Espiritualismo moderno traz à Humanidade!

Pode dizer-se que o pensamento que Deus irradia sobre a História e sobre o mundo; Ele tem inspirado as gerações na sua marcha, tem sustentado, levantado milhões de almas desoladas. Tem sido a força, a esperança suprema, o último apoio dos aflitos, dos espoliados, dos sacrificados, de quase todos aqueles que, através dos tempos, têm sofrido a injustiça, a maldade dos homens, os golpes da adversidade!

Se evocardes a memória das gerações que se têm sucedido sobre a Terra, por toda a parte, vereis os olhares dos homens voltados para essa luz, que nada poderá extinguir, nem diminuir!

É essa a razão pela qual vos dizemos: Meus irmãos, recolhei-vos no silêncio das vossas moradas; elevai frequentemente a Deus os transportes dos vossos pensamentos e dos vossos corações, expondo-lhe as vossas necessidades, as vossas fraquezas, as vossas misérias, e, nas horas difíceis, nos momentos solenes de vossa vida, dirigi-lhe o apelo supremo. Então, no mais íntimo do vosso ser, ouvireis como que uma voz vos responder, consolar, socorrer.

Essa voz vos penetrará de uma emoção profunda; fará talvez brotar as vossas lágrimas, mas levantar-vos-eis fortalecidos, reconfortados.

Aprendei a orar do mais profundo da vossa alma, e não mais da ponta dos lábios; aprendei a entrar em comunhão com o vosso Pai; a receber os seus ensinamentos misteriosos, reservados, não aos sábios e poderosos, mas às almas puras, aos corações sinceros.

Quando quiserdes encontrar refúgio contra as tristezas e as decepções da Terra, lembrai-vos de que há somente um meio: elevar o pensamento a essas regiões puras da luz divina, onde não penetram influências grosseiras do nosso mundo. Os rumores das paixões, o conflito dos interesses não vão até lá. Chegando a essas regiões, o Espírito se desprende das preocupações inferiores, de todas as coisas mesquinhas das nossas existências; paira acima da tempestade humana, mais alto que os ruídos discordantes da luta pela vida, pelas riquezas e honras vãs; mais alto que todas essas coisas efémeras e mutáveis que nos ligam aos mundos materiais. Lá em cima, o Espírito se esclarece, inebria-se dos esplendores da verdade e da luz. Ele vê e compreende as leis do seu destino.

Diante das largas perspectivas da imortalidade, perante o espectáculo dos progressos e da ascensão que nos esperam na escala dos mundos, que se tornam para nós as misérias da vida actual, as vicissitudes do tempo presente?

Aquele que tem no seu pensamento e no seu coração essa  ardente, essa confiança absoluta no futuro, essa certeza que o eleva, esse está blindado contra a dor. Ficará invulnerável no meio das provas. Está aí o segredo de todas as forças, de todo o valor, o segredo dos inovadores, dos mártires, de todos aqueles que, através dos séculos, oferecem a sua vida por uma grande causa; de todos aqueles que, no meio das torturas, sob a mão do algoz, enquanto os seus ossos e a sua carne, esmagados pela roda ou pelo torniquete, não eram mais do que lama sanguinolenta, encontravam ainda a força suficiente para dominar os seus sofrimentos e afirmar a Divina Justiça; daqueles que, sobre o cadafalso, e assim sobre a lenha das fogueiras, viviam, já por antecipação, a vida apreciável e gloriosa do Espírito.

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Léon Denis, O Grande Enigma, Primeira parte / Deus e o Universo, VIII Acção de Deus no Mundo e na História, 19º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: As majestosas e violentas palavras dos poemas, pintura em acrílico de Costa Brites)

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Victor Hugo e o invisível ~


Jean-Paul Sartre e Victor Hugo ~

Eis dois nomes que representam duas concepções de vida: o primeiro é um apologista da matéria, o segundo um defensor do espírito. São duas figuras que sintetizam duas interpretações do Ser; o primeiro sustenta que a única realidade é o nada, o segundo afirma que a criação responde à vida.

Jean-Paul Sartre quer modificar o mundo sem encontrar para o homem um sentido; Victor Hugo sustenta que o  mundo se modificará indiscutivelmente pela própria evolução do SerO primeiro é um filósofo da negação e sobre essa base deseja dar à sociedade e à história um devir. O segundo é um poeta e revela o que a realidade encerra no seu mundo interior. Sartre impõe ao Ser um processo assente no nada, Hugo descobre a teleologia do espírito e mostra-a a cantar.

O primeiro filosofa sobre a base da Negação; o segundo desenha preciosidades cósmicas sobre os cimentos da Afirmação. Sartre encarna a fealdade externa do mundo; Hugo é o vidente da beleza humana e divina. O primeiro vê em tudo uma espantosa e sombria solidão; o segundo capta em tudo o que existe um Ser latente que procura mostrar-se como uma realidade da essência do universo.

Jean-Paul Sartre faz filosofia para ao mesmo tempo negá-la; Victor Hugo elabora uma nova poesia para ampliá-la continuamente. O primeiro compraz-se em anunciar o triunfo e o império da morte e do nada; o segundo demonstra que a vida é uma manifestação da essência divina, a afirmar-se no seu Ser infinito.

O filósofo Sartre escreveu O Ser e o nada para anunciar à humanidade que tudo morre e se extingue no nada. Mediante uma complicada linguagem metafísica, busca demonstrar que do nada surge o Ser para se reintegrar nele sem nenhuma finalidade existencial. O Ser é o nada e o nada é o Ser no pensamento de Sartre, que parecia regozijar-se ao se entregar a essa elaboração metafísica suicida.

O humanismo de Sartre funda-se na negação universal do Ser. Nega o espírito, o sentido da vida, a verdade, a moral, a liberdade e, finalmente, a existência de Deus.

O poeta Victor Hugo escreveu A legenda dos séculos para demonstrar em primeiro lugar o significado do universo, a afirmação da vida, a evolução e o desenvolvimento dos espíritos, aceitando a existência de uma Causa Suprema. Assim, Hugo penetra no aparente caos do mundo e extrai das suas profundezas a ordem e a finalidade. Demonstra que tanto o planeta terra como os demais mundos do universo formam um imenso cenário sobre o qual assenta um plano do que existe. Disse à humanidade que o homem não existe em vão; assinala que a vida tem um significado espiritual e que tudo é chamado a transformar-se para se elevar a estados superiores. Hugo possuía a divina vidência do universo; via com os olhos do espírito o que está escrito nas páginas do infinito. Descobre assim que o homem é imortal e que, mediante uma criadora palingenesia, se aperfeiçoa até alcançar os níveis mais altos da sabedoria. Para Victor Hugo o nada não existe; ele sustenta como único saber a Afirmação do Ser e o Sentido espiritual do homem e do universo. Ainda que no meio do mal, faz ver à criatura humana que ele é uma etapa para chegar ao bem. Por isso, apesar das mais duras contradições históricas e existenciais, afirma como única realidade a existência do bem.

Em Sartre está o nada como base de todo o humanismo social e filosófico. Sustenta que o advento de um estado superior na terra se dará sobre a base de uma liberdade assente no nada. Aspira a uma sociedade socialista, onde o bem e a igualdade desaparecerão ontologicamente no não-ser. Quer criar uma igualdade social para que o homem não se sinta vencido pelo pessimismo existencial.

Em Victor Hugo está a vida como fundamento do Espírito, da Justiça e da Beleza. Para ele, todos os planetas estão povoados por seres inteligentes; sustenta a doutrina da pluralidade dos mundos habitados relacionada com a filosofia da pluralidade das existências da alma. Pela poesia, capta os fraternos rumores do mundo invisível. Cantou que morrer é nascer noutra lugar e nascer é morrer no mundo do espírito, dizendo que o nada é uma ilusão dos sentidos.

Jean-Paul Sartre é o sustentáculo do existencialismo ateu, da negação e do não-serVictor Hugo é o propulsor do espiritualismo espírita, da imortalidade da alma e da palingenesia espiritual. Sartre vê no mineral, na planta e no animal apenas cegos resultados da matéria inconsciente. Não alcança a profundidade infinita da vida, que existe nos olhos de um cão, de um cavalo ou de um réptil. Para ele, o mineral, o vegetal e o animal não são mais que resultados da casualidade. Para Victor Hugo, um mineral está presente na vida esperando o momento para a sua manifestação; no vegetal toma alento a inteligência do Ser em vias de evolução e no animal encontra-se o espírito em situação rudimentar, esperando a sua divina transformação: passar da forma em que se encontra para atingir a hominal.

Como se vê, em Victor Hugo tudo é chamado a ser, a evoluir, a aperfeiçoar-se, a chegar ao mundo da consciência para melhor compreender toda a criação.

Será heresia, ateísmo e ofensa à essência da religião este processo do homem e do universo sustentado pelo autor de As Contemplações?

Cremos que não, pois não cabe nesta cosmovisão nem o ateísmo nem a heresia. Pensamos que nesta visão de Victor Hugo, terminantemente oposta ao conceito niilista de Jean-Paul Sartreestá o verdadeiro sentido do ser e do mundo, como demonstração viva e real de que Deus é amor, como dizia João, o evangelista.

Eis, aqui, enfim, duas visões da existência: uma que proclama a morte e o nada como únicas realidades do ser e a outra que demonstra a eternidade da vida, as potencialidades do espírito frente ao nada e o seu aperfeiçoamento divino pela lei dos renascimentos. Duas visões do mundo das quais depende o futuro da civilização e da cultura; dois projectos a respeito do ser e da vida sustentados por dois homens: o primeiro cego e enganado pelo Nada e pela Negação e o segundo iluminado pelo espírito e a verdade.

Sem uma dignificação "espiritual" do poeta e do escritor sobre a base de uma segura convicção "de sua imortalidade pessoal", a decadência moral das letras e das artes será inevitável. Tal como Nietzsche proclamou a morte de Deus, niilismo lançará o desolador grito: "a Beleza está morta". Assim, a aparição do mediunismo poético e literário é uma necessidade moral que se impõe no momento em que tudo se reduz a sensações e prazeres corporais. Contrariamente, avançará o existencialismo sobre cujas bases pretende firmar-se uma solução niilista e ateia do homem e do universo.

Se o nada é o que rege o processo histórico; se a morte é o sustentáculo da vida espiritual do ser, a humanidade está vivendo de ilusões. Toda a ânsia de verdade, de justiça e de beleza é uma incongruência ao não responder a nenhum sentido espiritual da existência.

A se prosseguir nessa negação do fenómeno mediúnico por medo ou por defeito; continuando a procurar-se uma intrincada explicação do mesmo a fim de não aceitar nele a presença do Espírito, estaremos a sujeitar-nos ao Nada, ao Ateísmo e à Morte. Estaremos indo de encontro à vida infinita para reclamar outra finita e sem sentido, cuja única meta é o não-ser.

Acreditamos que o mediunismo literário merece ser considerado como uma possível realidade espiritual pela crítica do nosso tempo. Este novo tipo de literatura resultará como uma blindagem espiritual frente ao império do materialismo, pois o homem, como expressão altamente tecnológica deverá saber, neste momento, de onde vem e para onde se dirige. mediunidade tanto literária como filosófica deverá elevar a sua lâmpada divina no meio desta noite terrena para salvar a raça do ódio e do nada.

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Humberto Mariotti (i)Victor Hugo Espírita, Jean-Paul Sartre e Victor Hugo, 16º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Criança com uma boneca, pintura de Anne-Louis GIRODET-TRIOSON)

terça-feira, 23 de maio de 2017

~~~Párias em Redenção~~~


SUICÍDIO ABOMINÁVEL
(I)

   Anunciava-se o Natal. As tempestades sucediam-se contínuas sobre a região. Os céus enfurecidos sacudiam as árvores e levavam a terra em fluxos e refluxos incessantes. Dezembro era sempre o mês das tormentas brutais.

   Girólamo vivia perdido nos seus cismares. Alheava-se de tudo e, quando lhe brilhavam os olhos com discernimento, afogava as angústias em incessantes libações, que o prostravam. Nesses estados de bebedeira, parecia piorar gravemente. Fugindo à consciência dos crimes que o açoitavam desapiedadamente, açulada a mente pela pertinaz presença do duque – que na sua alucinação ignorava as providências superiores da vida, fazendo que Carlo, seu filho renascesse em breve, para continuar a fruir os benefícios da evolução, já que ninguém fica à margem da Lei Divina –, quando o seu espírito desejoso de esquecimento se desprendia parcialmente do corpo, expulso pelos vapores alcoólicos, caía sob a crueza do perseguidor, que o explorava abominavelmente…

   Em Siena, dominado pela volúpia que o enceguecia, Carlo dava largas à própria insanidade moral. Logo que retornara à cidade, começou a fruir o gozo em escala desmedida, entregando-se a toda a sorte de engodos e prazeres. Mesmo com as regalias que lhe permitia o amo, o florentino excedia-se, retornando ao palácio sempre embriagado, quando não dormia fora dos cómodos reservados aos serviçais da casa. O cansaço e o amolentamento foram dominando-o com precipitação, gerando antipatia, que se generalizava entre os próprios companheiros das cavalariças. Além disso, os jogos e as noitadas contínuas culminaram por despertar suspeitas, quanto à procedência da súbita fortuna que desperdiçava.

   Os comentários chegaram ao conhecimento da bonomia do Conde, que, ante a insistência dos mexericos, resolveu convocá-lo à justa prestação de contas. Demonstrando a simpatia que lhe causava o moço, Dom Lorenzo indagou-lhe:

   – Carlo, onde você consegue tanto dinheiro para gastá-lo à larga, ao ponto de descuidar-se dos deveres, nas cavalariças, entregando-se totalmente à orgia?

   O ginete astuto, compreendendo a delicadeza do momento, bajulador e hábil, esclareceu:

   – Trata-se do prémio que a vossa generosidade me concedeu, Senhor Conde, e de pequenos regalos de outros admiradores, logo após o palio.

   – Carlo, não minta! – redarguiu, severo, o nobre. – Estou seguramente informado de que na noite da festa você perdeu todas as posses para o meu genro… (Percebeu o súbito palor que tomou a face do palafreneiro.) Além disso, já se passaram mais de 3 meses, após o palio…Por mais generosos que tenham sido ou continuem sendo os presentes que você recebe, eles não podem cobrir as suas despesas… Sou muito zeloso pela honra da minha casa, do meu nome, do meu título, e os que me servem devem servir-me com elevação. É claro que perdoo pequenos deslizes da juventude, mas não estou disposto a transigir com os grandes erros… Donde lhe vem o dinheiro? Sei que você não o está roubando de mim. De quem então? Responda-me, Carlo!

   O moço desejou escusar-se, mas não se atreveu. Havia na face do homem caprichoso, conquanto capaz de largas explosões de generosidade, os sinais de que estava disposto a ir além, descobrir tudo.

   Maneiroso, o florentino obtemperou, com modulação servil:

   – Perdoai-me, amo. Sucede que estou apaixonado e o meu amor não é correspondido, fazendo-me desesperar…

   – E o dinheiro, Carlo? – pressionou.

   – É exactamente isso, meu nobre amo, – prosseguiu.

   – Quando estive com o Cavaliere Dom Girólamo, em sua herdade, acompanhando-vos, narrei-lhe a minha desdita e, compadecido da minha sorte, o nobre senhor resolveu devolver-me o que ganhara de mim nos dados, oferecendo-me algo mais. Disse-me compreender o drama que me afligia e, agradecido pela forma como eu defendera as cores da vossa casa, ele resolveu retribuir-me a devoção…

   – Muito bem, Carlo. Irei informar-me de Dom Girólamo quanto à veracidade do que você acaba de narrar-me, preferindo confiar até comprovação contrária, se esta vier posteriormente.

   – Eu vos afirmo, senhor: jamais faria alguma coisa que vos pudesse molestar ou desagradar.

   Despedido, o moço saiu cerimoniosamente, da forma que muito agrada aos iludidos da transitória posição na Terra.

   Dali saindo, porém, inquietou-se. Tinha necessidade de advertir o seu cômpar na infelicidade do crime. Pensando demoradamente, resolveu pedir ao amo uma licença para visitar familiares em Florença, de quem afirmava ter recebido notícias muito dolorosas e, como naqueles dias de chuvas as estradas eram difíceis de transitar, solicitou ao Conde o empréstimo de um animal, no que foi atendido, partindo então, a visitar o dementado Senhor di Bicci.

   Vencida a distância a muito custo, Carlo atingiu o Solar Cherubini-Bicci.

   Foi agradavelmente recebido pelos servos da casa, que incontinente o anunciaram à ama, considerando o estado do Conde.

   A Condessa, surpreendida, supondo que houvesse acontecido alguma desventura em Siena, mandou chamá-lo imediatamente à sua presença, recebendo-o na sala em que bordava, acolitada por duas aias. O viajante apressou-se em tranquilizar a senhora, informando que seguia a Florença, a tratar de problemas pessoais, quando, colhido pela tormenta, resolvera suplicar agasalho ali até que amainassem as chuvas. Jubilosamente reconfortada, a condessa assentiu.

   – Apresentai, senhora – disse, servil –, as minhas saudações ao nobre esposo, informando-o que estarei inteiramente às suas ordens, logo que o deseje para qualquer coisa.

   – Muito obrigada, Carlo, pela sua atitude de cortesia. Meu marido apreciará devidamente o seu respeito. Darei as suas saudações. Pode retirar-se.

   – Com licença, senhora.

   Quando Girólamo soube do indesejável visitante, não pôde esconder a mágoa e a ira, provocando na esposa o espicaçar da curiosidade para saber das razões do incómodo. Não desejando, porém, produzir contrariedades maiores, silenciou. No dia imediato, pela manhã, Carlo mandou solicitar entrevista ao enfermo, que parecia mais perturbado ainda. Justificava-se como desejoso de despedir-se. Recebido a contragosto, o Conde lhe sentenciou:

   – Não me roubarás mais uma moeda cão!

   – Acalmai-vos, senhor, – retorquiu o visitante. – Estou de passagem com destino a Florença e, de lá, partirei definitivamente. Pretendo seguir adiante e crescer… Sinto-me capaz de qualquer aventura e sou ambicioso. As oportunidades multiplicam-se em Veneza e pretendo rumar para lá. Venho despedir-me, senhor.

   – Não era necessário, – remoeu o paciente, reflectindo na face o lamentável estado em que se encontrava. – Não és aqui considerado e a tua ausência não seria notada… podes retirar-te, portanto.

   – Um momento, senhor. Suporto as palavras azedas mas não as ofensas graves. Afinal, a única diferença entre nós é a oportunidade que tiveste e eu ainda não… Venho recordar-vos o meu silêncio…

   Girólamo, que parecia disposto ao último lance, avançou com um punhal na mão, resolvido a qualquer tentame. O hábil contentor, no auge da força física e da agilidade, saltou, felino, empurrando violentamente o senense, que tombou ofegante, e, acto contínuo, o dominou, tomando a arma e falando-lhe no rosto, com voz pegajosa, que traduzia a sua disposição terminante de não perder o evento:

   – E o meu silêncio, senhor?

   – Solta-me, bandido – estertou o doente, cujas forças diminuíam ante o domínio taurino que o estatelava –, solta-me, infame, ou pagarás caro a afronta. Mandarei enforcar-te, mesmo que isso seja a última coisa que eu faça…

   – Estais solto, senhor, – libertou-o, blasonando, o chantagista, que assumiu atitude arrogante, face à inferioridade do litigante enfermo –, mas daqui somentente sairei remunerado, ou trarei as autoridades senenses para um doloroso inquérito… Soube que a família Médici tem os olhos sobre esta casa, não só os de Siena como os de Florença. Os peçonhentos estão sempre procurando a quem despojar, ainda mais no que foram vilmente despojados… Portanto, senhor, em vossas mãos a decisão…

   Girólamo arfava, dolorosamente combalido. O declinar das forças orgânicas e o desequilíbrio da harmonia psíquica transformam a presunção e a altivez fanfarrona em humilhação amesquinhadora. Vencido, irreparavelmente vencido, pelas armas com que sempre esgrimia à socapa, o antigo usurpador experimentava o frio gume da derrota. O outro sorria, e a sua embófia recordava no derrotado a própria audácia de outrora, com que, insensível, vilipendiava os dons da vida… Cambaleante, atirou na face do dominador, com supremo desprezo, a bolsa das moedas, recheada, praguejando:

   – Encontrar-nos-emos… Verás…

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VICTOR HUGO, Espírito “PÁRIAS EM REDENÇÃO” – LIVRO PRIMEIRO, 10 SUICÍDIO ABOMINÁVEL (1 de 3) 32º fragmento desta obra. Texto mediúnico, ditado a DIVALDO PEREIRA FRANCO.
(imagem de contextualização: L’âme de la forêt | 1898, tempera e folha de ouro sobre painel de Edgard Maxence)

domingo, 14 de maio de 2017

O Génio Céltico e o Mundo Invisível ~


Capítulo IX

Religião dos celtas, o culto, os sacrifícios, a ideia da morte
(I)

   A obra dos druidas, cujos pontos principais acabamos de descrever, já demonstra toda a extensão de sua ciência e de sua erudição. Mas não é somente na sua doutrina que acontece o sopro poderoso da inspiração: é também na sua religião, no seu culto que revela um sentido profundo do mundo invisível e das coisas divinas. Nesse ponto de vista é preciso refutar as críticas e os erros sob os quais se tem querido enterrar o Druidismo.

   Como atestam os historiadores como A. Thierry, Henri Martin, Jean Reynaud, toda a grandeza do génio céltico se apresenta nessa obra. Na base da instituição druídica encontram-se estes dois princípios que se irradiam sobre a sociedade gaulesa e dela fazem mover todas as engrenagens: a igualdade e o direito eleitoral.

   Todo o gaulês se podia tornar druida, o nascimento não lhe dava nenhum direito a esse título, porque a antiga Gália nunca conheceu a hereditariedade. Para adquiri-lo, para obter a iniciação, era preciso justificar os méritos pessoais, além de lentos e pacientes estudos, pois os celtas colocavam a instrução em primeiro lugar na sociedade e só isso já bastaria para afastar a acusação de barbárie que tão levianamente dirigem aos nossos antepassados.

   As informações que damos sobre a organização do Druidismo provêm, em grande parte, de autores latinos e gregos, num total de dezoito; filósofos e historiadores, geógrafos e poetas.

   Além de César, de quem já falámos, citamos Aristóteles e Cétion, Diógenes de Laerte, Posidónio, Cícero, (*) no ano 44, Diodoro de Sicília, ano 30, Timogéne, pelo ano 14, em uma História da Gália, da qual Ammien Marcellin nos deixou um extracto; Estrabão, no ano 20 d.C.; Pomponius Mela, no ano 40; Lucano, entre 60 e 64, Plínio, o naturalista, pelo ano 77; Tácito, pelo ano 96; Suetónio, no fim do século I; Díon Crisóstomo, no início do século II. Nós concluiremos pelas indicações daqueles nossos guias espirituais que viveram na época céltica.

   O chefe dos druidas era eleito pela corporação inteira e investido de um poder absoluto. Era ele que resolvia as divergências entre as tribos turbulentas, agitadas, sempre prontas a recorrer às armas. Estando acima das rivalidades dos clãs, essa instituição representava a verdadeira unidade da Gália. Toda a elite juvenil da nação se agrupava em volta desses filósofos, ávida de receber os seus ensinos que eram dados longe das cidades, no interior dos recintos sagrados.

   Os druidas não só mantinham a justiça nas tribos, como também se pronunciavam sobre as causas graves, numa assembleia solene que se reunia todos os anos no país de Chartres. Essa assembleia tinha ao mesmo tempo um carácter político, e cada república gaulesa a ela enviava os seus delegados.

   O génio religioso dos celtas tinha estabelecido três formas superpostas de crenças e de culto em relação com o grau de aptidão e de compreensão dos gauleses. Inicialmente era o culto dos espíritos dos mortos, ao alcance de todos e que todos praticavam, pois os videntes e médiuns eram numerosos nessa época. Depois vinha o culto popular dos semideuses ou espíritos protectores das tribos, símbolos das forças da natureza ou das faculdades do espírito; esse culto tinha sobretudo um carácter local. Finalmente, havia o culto do espírito divino, fonte e criador da vida universal, que domina e rege todas as coisas e cujas obras são o principal objecto dos estudos e pesquisas dos druidas e dos iniciados.

   Na realidade, o politeísmo gaulês, que se condena como sendo uma idolatria, não era senão a representação dos espíritos tutelares, guias, protectores das famílias e das nações, dos quais nós podemos constatar, hoje em dia, pelos factos, a existência e a intervenção nas horas necessárias. O mesmo se deu em todas as religiões antigas e nas crenças dos povos que colocavam na classe dos deuses os espíritos daqueles que eram distinguidos pelos seus méritos e as suas virtudes. O povo tem necessidade de crer nos intermediários entre ele e Deus infinito e eterno, que ele imagina estar bem afastado, embora todos estejamos mergulhados nele, conforme a palavra de São Paulo. Em todos os países, vários seres simbólicos, concebidos pela imaginação dos seus primeiros homens, são, sob formas materiais, graciosas ou terríveis, a expressão viva dos seus medos e de suas esperanças.

   Os druidas, dizíamos, ensinavam a unidade de Deus. Os romanos, pervertidos nesses assuntos, confundiram os personagens secundários do céu gaulês, as personificações simbólicas das potências naturais e morais, com os seus próprios deuses. O Panteão gaulês apresenta mais frescor e beleza do que os deuses envelhecidos do Olimpo. O Teutatès gaulês era uma representação das forças superiores; Gwyon representava a ciência e as artes; Esus o símbolo da vida e da luz. Outros, como Hu-Kaddarn, chefe da grande migração “kymris”, eram heróis glorificados. Mas, nesse Panteão não se encontravam os deuses do mal, os ídolos do Egipto e de Roma. Ali não se viam os deuses infames, um Júpiter adúltero, uma Vénus lasciva, um Mercúrio corrompido. Também não se encontrava esse cortejo imundo dos Bacos, dos Priapos, isto é, os vícios endeusados. Conhecia-se somente a sabedoria, a virtude e a justiça. E mais alto, acima dessas forças intelectuais e morais, resplendia o foco de onde todas elas emanam, a potência infinita e misteriosa que os druidas adoravam ao pé dos monumentos de granito, na solidão das florestas. Eles diziam que o ordenador do imenso Universo não poderia estar preso entre as muralhas de um templo, que o único culto digno dele devia cumprir-se nos santuários da natureza, sob as abóbadas sombrias dos grandes carvalhos, à beira dos vastos oceanos. Eles afirmavam que Deus era grande de mais para ser representado por imagens, sob formas modeladas pela mão do homem. Por isso, eles somente lhe consagravam monumentos de pedra bruta, dizendo que toda a pedra talhada era uma pedra maculada.

   Assim, todos os símbolos religiosos dos druidas eram emprestados da natureza virgem, livre. O carvalho era a árvore sagrada, o seu tronco colossal, os seus possantes galhos representavam o emblema da força e da vida. O visco, que era retirado com pompa, o visco sempre verde, mesmo quando a natureza adormece, quando os vegetais parecem mortos, era, para os seus olhos, o emblema da imortalidade e, ao mesmo tempo, um princípio regenerador e curativo.

   Esses ritos do Druidismo, esse culto sóbrio e grande, não teriam alguma coisa de imponente? As matas de carvalho, o visco renascente sobre os troncos carunchosos, as grandes rochas de pé, à beira do oceano, eram, do mesmo modo, símbolos da eternidade dos tempos e do infinito dos Espaços.

   O Catolicismo parece ter tomado emprestado do culto druídico o que há de mais nobre e belo. Os pilares e as naves das catedrais góticas são a imitação dos troncos esbeltos e dos galhos dos gigantes das florestas; o órgão, pelos seus sons, lembra o sussurro do vento na folhagem; o incenso é o vapor que se eleva das planícies e dos bosques ao surgirem os primeiros raios solares.

   O Druidismo era o culto do imutável, do que permanece, numa palavra, o culto da natureza infinita, dessa natureza fecunda no seio da qual todo o espírito se revigora, se viriliza, reencontra as forças naturais.

   Para nós, como para os nossos antepassados, os espectáculos que ele oferece são as fontes de meditação salutares, de ensinos pelos quais se revela o Deus imenso, eterno, que os celtas adoraram, Deus, alma do mundo, “eu” consciente do Universo, foco supremo em direcção do qual convergem todas as ligações e de onde se irradiam, através dos espaços sem limites e dos tempos sem demarcações, todas as potências morais: o Amor, a Justiça, a Verdade e a Infinita Bondade!

/…
(*) Nos seus escritos, Cícero louva a ciência profunda de Divitiac, o único druida que foi a Roma.


LÉON DENIS, O Génio Céltico e o Mundo Invisível, Segunda Parte – Capítulo IX Religião dos celtas, o culto, os sacrifícios, a idéia da morte (1 de 3) 29º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: A Apoteose dos heróis franceses que morreram pelo seu país durante a guerra da Liberdade, pintura de Anne-Louis Girodet-Trioson)

segunda-feira, 1 de maio de 2017

o grande desconhecido ~


VII – A Medicina e O Espiritismo |

Por que motivo, o Espiritismo, desde o início da sua elaboração doutrinária, teve de enfrentar a mais cerrada oposição das corporações médicas em todo o mundo? Por estranho que pareça, o motivo fundamental é simplesmente este: a Ciência Espírita abre novas e grandiosas perspectivas para o desenvolvimento da Medicina, oferecendo-lhe nada menos do que a metade desconhecida da realidade humana e das possibilidades terapêuticas de que ela necessita. 
Pasteur, que não era médico, mas químico, teve de enfrentar a mesma oposição por razões semelhantes. No seu tempo, a Medicina conhecia apenas um quarto da realidade humana e Pasteur oferecia-lhe mais um quarto. Foi ridicularizado e espezinhado por esse gesto de atrevimento. Kardec era professor de ciências médicas e exerceu em Paris, como o demonstra André Moreil na sua recente biografia do Codificador. Mas nem por isso escapou da excomunhão científica. É curioso o paralelo entre eles. Pasteur descobriu e revelou, provando-o cientificamente, a existência do mundo invisível das bactérias microbianas, que respondem, juntamente com as viroses, pela totalidade das doenças infecto-contagiosas, e descobriu a maneira científica de prevenir e curar essas doenças. Kardec descobriu e revelou cientificamente o mundo invisível dos espíritos infestadores e, descobriu a maneira, científica, de prevenir e curar essas infestações. Estes dois mundos invisíveis não estão localizados no Além, mas aqui mesmo, na Terra, envolvendo e, interpenetrando o mundo visível. Porém, a Medicina é um organismo vivo do mundo das ciências e, como todo o organismo biológico ou conceptual, é dotado do instinto de sobrevivência, repelindo instintivamente toda e qualquer interferência estranha à sua estrutura.

Além disso, temos de considerar que descobertas desta natureza rompem sempre ameaçadoras fendas na estrutura superior das civilizações. A civilização científica, que nascera de brechas abertas na civilização teológica, enfrentando batalhas impiedosas para se desenvolver, reagiu com a mesma violência instintiva na defesa da sua estrutura. Rémy Chauvin, director do laboratório do Instituto de Altos Estudos de Paris, considerou recentemente a existência de uma doença alérgica no meio científico e chamou-lhe de alergia ao futuro. É essa alergia, o novo nome do instinto de sobrevivência, que ainda hoje mantém acesa a luta defensiva da Medicina contra o Espiritismo, não obstante as comprovações científicas actuais de toda a realidade espírita.

Espiritismo aliou-se à Medicina desde os primórdios, a partir das investigações sobre as curas espíritas, realizadas na Clínica do Dr. Demeure, em Paris, a pedido de Allan KardecA terapêutica espírita desenvolveu-se à revelia da Medicina, ao contrário do que Kardec desejava, revestindo-se de aspectos anti-espíritas. Mas, apesar disso, os espíritas não tomaram, salvo raras excepções, geralmente individuais e da parte de pessoas incultas, a posição das religiões ou de seitas terapêuticas milagreiras. É grande o número actual de médicos espíritas e existem até mesmo associações de Medicina e Espiritismo, como as do Rio e São Paulo. Esse é o aspecto institucional do problema, sem dúvida importante, porque dele depende, em grande parte, a aceitação da verdade espírita nos meios culturais oficiais, facto que talvez possa ocorrer no próximo milénio, com o desenvolvimento da Civilização do Espírito. A situação actual é curiosa: só a Filosofia Espírita goza de cidadania oficial, enquanto a Ciência Espírita e a Religião Espírita continuam em posição marginal. Essa marginalização é a mesma que o Cristianismo sofreu no mundo romano, agora atenuada pelas conquistas do mundo moderno no tocante aos direitos humanos. Espiritismo não é nem pode fazer-se (uma) religião institucionalizada e muito menos oficializada em parte alguma, porque os seus princípios são contrários a toda a sistemática fingida e fechada. O que importa no Espiritismo, como Kardec acentuou desde o início, não é a forma, mas a substância. Toda a tentativa de institucionalização exige hierarquia, que implica autoridade e é acção autoritária. O fundamento ético do Espiritismo é a liberdade, sem a qual não há actividade criadora nem responsabilidade individual. Por isso, só a associação livre convém ao Espiritismo, que perde com isso em representação social, mas ganha em compensação no tocante à responsabilidade individual.

Nas suas relações com as instituições sociais e políticas da actualidade Espiritismo encontra muitas dificuldades, mas a liberdade tem o seu preço. É preferível lutar com dificuldades externas, a expor-se ao perigo das congestões internas. Por toda a parte, no nosso mundo, pululam os mestres pretensiosos e os tiranetes vaidosos, prontos a servirem-se dos títulos e dos cargos oficiais para esmagarem a liberdade. Muitos espíritas não compreendem esse problema e tentam sujeitar o movimento espírita a cúpulas pretensiosas. Tratando desse tipo de institucionalização, fatalmente dogmáticaKardec recomendou a multiplicidade dos Centros Espíritas pequenos, unidos por laços de fraternidade, e Emmanuel, através da mediunidade de Francisco Cândido Xavier, declarou numa mensagem orientadora: "A Religião organizada é o cadáver da Religião". Isso porque a organização religiosa está sempre sujeita à dominação dos fanáticos e ambiciosos. A ambição do poder asfixia o espírito democrático. O Espiritismo iniciou no campo religioso a era democrática que Jesus lançara no seu tempo, mas que morreu asfixiada com o fracasso da Comunidade Apostólica.

No tocante às relações do Espiritismo com a Medicina a institucionalização "espírita igrejeira" cortaria qualquer possibilidade de entendimento. O Espiritismo não tem por objectivo opor-se à Medicina, mas ajudá-la na melhor compreensão da natureza humana e dos recursos naturais de que esta pode dispor para o seu maior progresso. Ajudando a Medicina a completar a imagem parcial do homem, de que dispõe, o Espiritismo a levará, como já vai acontecendo, à utilização dos recursos insuspeitados do espírito. A mediunidade, fonte inesgotável de recursos espirituais no combate às doenças, que seria renegada pelos médicos. A finalidade do Espiritismo nesse campo é colocar os recursos mediúnicos nas mãos de médicos esclarecidos, para benefício de toda a Humanidade. As descobertas de Kardec seriam assim postas à disposição de todos, como o foram as de Pasteur. Esse é um dos motivos da exigência kardeciana de mediunidade gratuita. A profissionalização mediúnica seria um atentado à própria finalidade do Espiritismo, sempre aberto a todas as investigações para melhor servir a todos e em todos os tempos.

Kardec intuiu desde logo esse problema, recorrendo à Clínica Demeure para o controle dos casos de mediunidade curadora. Disso resultou a conjugação médico-espírita, hoje em franco desenvolvimento, evitando o divinismo fanático das seitas religiosas que proíbem aos adeptos recorrer à Medicina. Não somos apenas espíritos, mas espíritos encarnados, dotados do corpo material que é objecto dos estudos e da terapêutica médica. A maioria absoluta dos espíritas utiliza-se de ambos os recursos, o médico e o mediúnico, no tratamento das doenças. Compreendem que os recursos em causa atendem aos dois elementos da constituição humana, o material e o espiritual, sendo por isso necessário conjugar as duas acções terapêuticas, agindo cada uma no seu campo específico. Na proporção em que se acentuar a evolução espiritual do homem, os recursos espirituais se intensificarão no plano mediúnico, contribuindo para a espiritualização da Medicina. A Medicina espiritualizada pertence aos mundos superiores, entre os quais a Terra brilhará um dia, como planeta vitorioso, apesar de todas as incompreensões e dificuldades desta fase de transição. Compreenderemos então que Deus concede os seus recursos ao homem, na medida em que ele se torna capaz de utilizá-los, sem se demorar na espreguiçadeira do comodismo e da irresponsabilidade.

mediunidade curadora, é hoje mais perigosa do que benéfica, no nosso mundo, porque excita a vaidade e a ambição dos médiuns e dos seus familiares, além dos agudos interesses políticos sempre despertados na comunidade, envolvendo os médiuns em manobras subtis que acabam por afectar a sensibilidade mediúnica e desviar o médium da sua verdadeira missão. Na maioria dos médiuns de cura os primeiros sucessos provocam espanto e humilde respeito pelos espíritos que os assistem, mas a continuidade dos sucessos tornam os factos corriqueiros e o médium acaba convencendo-se de que age por si mesmo. A fascinação do dinheiro e do prestígio social e político, levam o médium à exploração simoníaca dos seus dons. Ao benefício das curas materiais, opõe-se então o malefício das enfermidades espirituais, criando dificuldades e conflitos de toda a espécie. O pior desses males é a situação contraditória em que o médium acaba caindo (por cair), fingindo humildade e cultivando a arrogância, e não raro, na falta da assistência espiritual que se afasta, entregando-se à prática de expedientes condenáveis. As condições morais do nosso mundo ainda não permitem a constância da terapêutica mediúnica ostensiva no planeta. Os médiuns de cura são voluntários da espiritualidade que se julgam capazes de vencer essas condições adversas, mas na maioria fracassam, cedo ou tarde, caindo nas mãos de exploradores visíveis e invisíveis. Com isso aumentam as suspeitas e desconfianças, por parte da Medicina, acrescidas pelo ambiente de competição entre os médiuns e os médicos. Lutas mesquinhas que se desenvolvem, envolvendo famílias e comunidades, num torvelinho absorvente de ódios e disputas desesperadas. O que era uma bênção, transforma-se, então, em maldição. Esses os reais motivos por que a mediunidade curadora de grande eficácia é rara, aparece esporadicamente, facto que também contribui para afastar o interesse científico puro, desse campo de tantas e tão grandiosas possibilidades para o desenvolvimento da Medicina.

Quando os médiuns resistem a todas às tentações, não escapam ainda assim às calúnias, perseguições, processos criminais e prisões, como já acontecia na era apostólica. Os métodos de combate aos factos mediúnicos inegáveis continuam a ser os mesmos nos nossos dias.

Para superar essas dificuldades milenares, os Espíritos Superiores preferem agir em silêncio nos processos de curas espirituais directas, geralmente despercebidos, em que a Medicina só considera a acção espontânea dos recursos naturais do organismo do doente. Nessa cómoda posição hipotética, a maioria dos médicos não percebe a contradição em que cai, atribuindo poderes sobrenaturais ao organismo carnal dos doentes, onde ocorrem os milagres da fé ingénua, com a violação, pela própria natureza humana, das leis naturais. As relações entre a medicina e o espiritismo são de importância básica para ambos, e particularmente para a Humanidade. Mas não poderão melhorar enquanto os espíritas não tomarem consciência da sua responsabilidade doutrinária e os médicos não superarem os seus preconceitos, mais profissionais do que científicos, em relação aos problemas espirituais e em particular ao Espiritismo e à mediunidade curadora, hoje comprovada na sua realidade auspiciosa nos grandes centros universitários do mundo. Os conceitos do sagrado e do sobrenatural, de um lado, e os preconceitos científicos de outro, ainda pesam esmagadoramente sobre a nossa cultura, que terá de alijar esse fardo para sobreviver.

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José Herculano Pires, Curso Dinâmico de Espiritismo, VII – A Medicina e O Espiritismo, 8º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Somos as aves de fogo por sobre os campos celestes, pintura em acrílico de Costa Brites)