Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

quarta-feira, 22 de junho de 2022

Hippolyte Léon Denisard Rivail


Teoria das Manifestações Físicas 
(Segundo Artigo) 

Pedimos aos nossos leitores o favor de se reportarem ao primeiro artigo que publicámos acerca deste assunto (*); sendo este a sua continuação, seria pouco inteligível se não se tivesse em mente aquele início. 

As explicações que demos sobre as manifestações físicas, como dissemos, fundam-se sobre a observação e a dedução lógica dos factos: concluímos de acordo com o que vimos. Agora, como se operam, na matéria eterizada, as modificações que vão torná-la perceptível e tangível? Deixemos, primeiro, que falem os Espíritos, a quem interrogamos a este respeito, acrescentando depois os nossos próprios comentários. As respostas seguintes foram dadas pelo Espírito São Luís e; concordam com o que nos havia sido dito anteriormente por outros Espíritos. 

1. Como pode um Espírito aparecer com a solidez de um corpo vivo? 

Resp. – Ele combina uma parte do fluido universal com o fluido que o médium liberta, próprio a esse efeito. À sua vontade, esse fluído toma a forma que o Espírito deseja; mas em geral a forma é impalpável. 

2. Qual é a natureza desse fluido? 

Resp. – Fluido; está tudo dito. 

3. Esse fluido é material? 

Resp. – Semimaterial. 

4. É esse fluido que compõe o perispírito

Resp. – Sim, é a ligação do Espírito à matéria. 

5. É esse fluido que dá vida, ao princípio vital

Resp. – Sempre ele; eu disse ligação. 

6. Esse fluido é uma emanação da Divindade? 

Resp. – Não. 

7. É uma criação da Divindade? 

Resp. – Sim, tudo é criado, excepto o próprio Deus. 

8. O fluido universal tem alguma relação com o fluido eléctrico, do qual conhecemos os efeitos? 

Resp. – Sim; é um seu elemento. 

9. A substância etérea que existe entre os planetas é o fluido universal em questão? 

Resp. – Ele envolve os mundos: sem o princípio vital, nada viveria. Se um homem se elevasse além do envoltório fluídico que circunda os globos, pereceria, porquanto o princípio vital dele se retiraria, para se juntar à massa. Esse fluido vos anima; é ele que respirais. 

10. Esse fluido é o mesmo em todos os globos? 

Resp. – É o mesmo princípio, mais ou menos eterizado, conforme a natureza dos globos; o vosso é um dos mais materiais. 

11. Desde que é esse fluido que compõe o perispírito, estaria ele em uma espécie de condensação que, até certo ponto, o aproxima da matéria? 

Resp. – Até um certo ponto, sim, visto não ter as suas propriedades; é mais ou menos condensado, conforme os mundos. 

12. São os Espíritos solidificados que erguem uma mesa? 

Resp. – Essa pergunta não levará ainda ao que desejais. Quando uma mesa se move sob as vossas mãos, o Espírito evocado pelo vosso Espírito vai haurir, do fluido cósmico universal, aquilo com que haverá de animar essa mesa com uma vida factíciaOs Espíritos que produzem tais efeitos são sempre Espíritos inferiores, ainda não inteiramente desprendidos do seu fluido ou perispírito. Estando assim preparada à sua vontade – à vontade dos Espíritos batedores – o Espírito a atrai e a movimenta, sob a influência do seu próprio fluido, liberado pela sua vontade. Quando a massa que deseja levantar ou mover lhe é demasiado pesada, chama em seu auxílio Espíritos que se encontram nas mesmas condições que ele. Creio que me expliquei com bastante clareza para me fazer compreender. 

13. Os Espíritos que ele chama em seu auxílio são inferiores? 

Resp. – Quase sempre são iguais; frequentemente vêm por si mesmos. 

14. Compreendemos que os Espíritos superiores não se ocupem de coisas que estão abaixo deles; mas perguntamos, em virtude de serem desmaterializados, se teriam o poder de o fazer, caso tivessem essa vontade? 

Resp. – Têm a força moral, como os outros têm a força física; quando necessitam desta última, servem-se dos que a possuem. Não se vos disse que eles se servem dos Espíritos inferiores como o fazeis com os carregadores? 

15. De onde vem o poder especial do Sr. Home

Resp. – De sua organização. 

16. Que tem ela de particular? 

Resp. – Essa pergunta não está clara. 

17. Perguntamos se se trata de sua organização física ou moral. 

Resp. – Eu disse organização. 

18. Entre as pessoas presentes há alguém que possa ter a mesma faculdade do Sr. Home

Resp. – Têm-na em certo grau. Não foi um de vós que fez mover a mesa? 

19. Quando uma pessoa faz mover um objecto, é sempre pelo concurso de um Espírito estranho, ou a acção pode provir somente do médium

Resp. – Algumas vezes o Espírito do médium pode agir sozinho, porém, na maioria das vezes, é com o auxílio dos Espíritos evocados; isso é fácil de reconhecer. 

20. Como é que os Espíritos aparecem com as roupas que usavam na Terra? 

Resp. – Delas muitas vezes só têm a aparência. Aliás, quantos fenómenos sem solução não tendes entre vós? Como pode o vento, que é impalpável, arrancar e quebrar árvores, que são compostas de matéria sólida? 

21. Que entendeis quando afirmais que essas roupas têm apenas a sua aparência? 

Resp. – Ao tocá-las nada se sente. 

22. Se bem compreendemos o que nos dissestes, o princípio vital reside no fluido universal; o Espírito haure nesse fluido o envoltório semimaterial que constitui o seu perispírito e, é por meio desse fluido que ele age sobre a matéria inerte. É mesmo isso? 

Resp. – Sim; isto é, ele anima a matéria com uma espécie de vida factícia; a matéria se anima da vida animal. A mesa que se move sob as vossas mãos vive e sofre como o animal; obedece por si mesma ao ser inteligente. Não é ele que a dirige, como o homem com um fardo; quando a mesa se ergue, não é o Espírito que a levanta, é a mesa animada que obedece ao Espírito inteligente. 

23. Desde que o fluido universal é a fonte da vida, é, ao mesmo tempo, a fonte da inteligência? 

Resp. – Não; o fluido anima somente a matéria. 

Esta teoria das manifestações físicas oferece vários pontos de contacto com a que demos, mas dela difere sob certos aspectos. De uma e da outra ressalta um ponto capital: o fluido universal, no qual reside o princípio da vida, é o agente principal dessas manifestações e esse agente recebe a sua impulsão do Espírito, quer seja encarnado ou errante. Esse fluido condensado constitui o perispírito ou envoltório semimaterial do Espírito. Quando encarnado, o perispírito está unido à matéria do corpo; no estado de erraticidade, fica livre. Ora, duas questões se apresentam aqui: a da aparição dos Espíritos e a do movimento imprimido aos corpos sólidos. 

Em relação à primeira, diremos que, no estado normal, a matéria eterizada do perispírito escapa à percepção dos nossos órgãos; só a alma pode vê-la, quer em sonho, quer em estado sonambúlico ou, até mesmo, semi-adormecida; numa palavra, toda a vez em que houver suspensão total ou parcial da actividade dos sentidos. Quando o Espírito está encarnado, a substância do perispírito se encontra mais ou menos ligada intimamente à matéria do corpo, mais ou menos aderente, se assim nos podemos exprimir. Em algumas pessoas há uma espécie de emanação desse fluido, em consequência de sua organização e, é isso que constitui propriamente os médiuns de efeitos físicos. Emanando do corpo, esse fluido se combina, segundo leis que nos são desconhecidas, com o fluido que forma o envoltório semimaterial de um Espírito estranho. Disso resulta uma modificação, uma espécie de reacção molecular que lhe altera momentaneamente as propriedades, ao ponto de torná-lo visível e, em certos casos, tangível. Esse efeito pode produzir-se com ou sem o concurso da vontade do médium; é isso que distingue os médiuns naturais dos médiuns facultativos. A emissão do fluido pode ser mais ou menos abundante: daí os médiuns mais ou menos potentes; e como tal emissão não é permanente, fica explicada a intermitência daquele poder. Enfim, se se levar em conta o grau de afinidade que pode existir entre o fluido do médium e o de tal ou qual Espírito, conceber-se-á que a sua acção possa exercer-se sobre uns e não sobre outros. 

Evidentemente, o que acabamos de dizer também se aplica à força mediúnica, no que concerne ao movimento dos corpos sólidos; resta saber como se opera esse movimento. Conforme as respostas que relatamos acima, a questão se apresenta sob uma luz inteiramente nova; assim, quando um objecto é posto em movimento, erguido ou lançado no ar, não é o Espírito que o agarra, empurra e levanta, como o faríamos com a mão; ele, por assim dizer, o satura com o seu fluido, combinando-o com o do médium e, o objecto, assim momentaneamente vivificado, age como o faria um ser vivo, com a diferença de que, não tendo vontade própria, segue a impulsão da vontade do Espírito, tanto podendo essa vontade ser do Espírito do médium quanto de um Espírito estranho e, algumas vezes, dos dois, agindo de comum acordo, conforme sejam ou não simpáticos. A simpatia ou antipatia que pode existir entre os médiuns e os Espíritos que se ocupam desses efeitos materiais explica por que nem todos são aptos a provocá-los. 

Desde que o fluido vital, emitido de alguma sorte pelo Espírito, dá uma vida factícia e momentânea aos corpos inertes; desde que outra coisa não é o perispírito senão o próprio fluido vital, segue-se que, quando encarnado, é o Espírito que dá vida ao corpo, por intermédio do seu perispírito; fica-lhe unido enquanto a organização o permite; quando se retira, o corpo morre. Agora, se em vez de uma mesa, talhamos uma estátua em madeira e, se agirmos sobre ela como sobre a mesa, teremos uma estátua que se movimentará, que baterá, que responderá por movimentos e pancadas; numa palavra, uma estátua momentaneamente animada de uma vida artificial. Quanta claridade lança esta teoria sobre uma multidão de fenómenos até aqui inexplicados! Quantas alegorias e efeitos misteriosos ela explica! É toda uma filosofia. 

/… 
(*) Conforme indicação do autor, entre por favor aqui, onde acederá ao seu primeiro artigo, por nós já publicado e, assim beneficiarmos a sua inteligibilidade. Nota desta publicação. 


Allan Kardec (i), aliás, Hippolyte Léon Denisard Rivail, Teoria das Manifestações Físicas, Segundo Artigo. Revista Espírita – Jornal de Estudos Psicológicos, Paris, Junho de 1858, 14º fragmento da Revista objecto do presente titulo desta publicação. 
(imagem de contextualização: Dança rebelde, 1965 – Óleo sobre tela, de Noêmia Guerra

domingo, 12 de junho de 2022

~ em torno do mestre


A natureza humana ~
 

  Um erro psicológico de funestas consequências domina a ortodoxia oficial. Pretendem que o homem seja visceralmente mau, intrinsecamente perverso e, por natureza, corrupto. 

  Semelhante conceito é adoptado, salvo raras excepções, por sociólogos, juristas, escritores, filósofos, cientistas e, o que é mais de admirar, pela clerezia de vários credos religiosos. Que os materialistas façam tal conceito do homem, compreende-se; mas que sejam acompanhados pelos crentes e até pelas autoridades das religiões deístas é inominável, inconcebível quase. 

  Como é que é possível que o homem, criado à imagem e semelhança de Deus, seja visceralmente mau? Como é que se compreende que o Supremo Arquitecto haja produzido obras intrinsecamente imperfeitas e defeituosas? Semelhante despautério precisa ser combatido. Lavremos, em nome da fé que professamos, veemente protesto contra tremenda heresia. 

  O homem é obra inacabada. Entre a obra inacabada e a obra defeituosa vai um abismo de distância. Os Espíritos trazem consigo os germens latentes do bem e do belo. A centelha divina, embora oculta, como o diamante no carvão, refulge em todos eles. O mal que no homem se verifica é extrínseco e não intrínseco. No seu íntimo cintila o divinal revérbero (i) da face do Criador. Os defeitos, senãos e falhas são fruto da ignorância, da fraqueza e do desequilíbrio de que a Humanidade ainda se ressente. Removidas tais causas, decantada, a corrupção humana desaparecerá. 

  Deus não cria Espíritos como os escultores modelam estátuas. As obras de Deus são vivas, trazem em si mesmas as possibilidades de auto-desenvolvimento. A vida implica movimento e crescimento. "Em cada átomo do Universo está inscrita a legenda: para a frente e para o alto." Os atributos de Deus estão, dadas as devidas condições de relatividade, palpitando em cada criatura. Apelando-se para as faculdades profundas do Espírito, logra-se o despertar da célica natureza que nele dorme, atestando a origem de onde proveio. 

  O problema do mal resolve-se pela educação, compreendendo-se por educação o apelo dirigido às potencialidades do espírito. Educar é salvar. Através do trabalho ingente da educação, consegue-se transformar as trevas em luz, o vício em virtude, a loucura em bom senso, a fraqueza em vigor. Tal é no que consiste a conversão do pecador. 

  Jesus foi o maior educador que o mundo conheceu e conhecerá. Remir ou libertar só se consegue educando. Jesus acreditava piamente na redenção do ímpio. O sacrifício do Gólgota é a prova deste asserto. Conhecedor da natureza humana nas suas mais íntimas particularidades, Jesus sabia que o trabalho da redenção se resume em acordar a divindade oculta na psique humana. 

  A sua actuação foi sempre nesse sentido. Jamais o encontramos abatendo o ânimo ou aviltando o carácter do pecador, fosse esse pecador um ladrão confesso, fosse uma adúltera apupada pela turbamulta. "Os sãos não precisam de médicos, mas, sim, os doentes"; tal o critério que adoptava. Invariavelmente agia sobre algo de puro e de incorruptível que existe no Espírito do homem. 

  Firmado em semelhante convicção, sentenciava com autoridade: "Sede perfeitos, como o vosso Pai celestial é perfeito." Esta sentença só podia ser proferida por quem não alimentava dúvidas sobre os destinos humanos. Interpelado sobre a vinda do reino de Deus, replica o Mestre: "O reino de Deus não virá sob manifestações exteriores; porque o reino de Deus está dentro de vós." O apóstolo das gentes, inspirado em idêntico conceito a respeito do homem, proclama igualmente: "O templo de Deus, que sois vós, é santo. Ignorais, por acaso, que sois o santuários de Deus e, que o Espírito divino habita em vós?" 

  O mal é uma contingência. Na realidade significa apenas ausência do bem, como as trevas representam somente ausência de luz. O mal e a ignorância são transes ou crises que o Espírito conjurará fatalmente, mediante o despertar de suas forças latentes. A prova cabal e insofismável de que a natureza íntima do homem é divina e, por conseguinte, incompatível com o mal, está na faculdade da consciência. O que é a consciência, na acepção moral, senão o "divino" cuja acção se faz sentir condenando o mal e aplaudindo o bem? Por que razão o homem nunca consegue iludir ou corromper a sua própria consciência? Ele pode, no uso do relativo livre-arbítrio que frui, desobedecer-lhe, agir em contrário aos seus ditames, porém jamais abafará os seus protestos, nunca conseguirá fazê-la conivente de iniquidades e crimes. A consciência é o juiz íntegro cuja toga não se macula e, cuja sentença ouviremos sempre, quer queiramos, quer não, censurando a nossa conduta irregular. Esse juiz, essa voz débil, mas insopitável, é a centelha divina que refulge através da escuridão de nossa animalidade, é o diamante que cintila a despeito da negritude espessa do rude invólucro que o circunda. 

  O maior bem que se pode fazer ao homem é educá-lo. Os educadores, cientes e conscientes do seu papel, são os verdadeiros benfeitores da Humanidade. Cooperar pela ressurreição do Espírito proporcionar-lhe o sumo bem; nada mais valioso se lhe pode fazer. Tal a missão do Cristo de Deus neste mundo. Por esse ideal ele se deu em holocausto no patíbulo da cruz. 

  A Humanidade precisava de um modelo, de uma obra acabada que reflectisse na sua plenitude a majestade divina. Esse arquétipo nos foi dado ao Filho de Deus. Os modelos devem ser imitados. Para isso se destinam. Assim compreendia Paulo de Tarso, consoante se infere desta sua asserção: "...tendo em vista o aperfeiçoamento dos santos (crentes) até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem feito, à medida da estatura da plenitude do Cristo". (Efésio, 4:12 a 13.) 

  A larga parábola que temos a percorrer em demanda do Modelo é obra de educação, educação que se transforma em auto-educação. 

  Kant, o filósofo, assim compreende a educação: "Desenvolver no indivíduo toda a perfeição de que ele é susceptível: tal o fim da educação." 

  Pestalozzi, o pedagogo de renome, diz: "Educar é desenvolver progressivamente as faculdades espirituais do homem." 

  John Locke, grande preceptor, se expressa desta maneira sobre o assunto: "Educar é fazer Espíritos rectos, dispostos a não praticarem a todo o momento coisa alguma que não seja conforme à dignidade e à excelência de uma criatura sensata."  

  Lessing, autoridade não menos ilustre, compara a obra da educação à obra da revelação e, diz: "A educação determina e acelera o progresso e o aperfeiçoamento do homem." 

  Fröbel, o criador do "Kindergarten" (Jardim da Infância), afirmava que em toda a criança existe a possibilidade de um grande homem. 

  Denis, o incomparável apóstolo do Espiritismo, proferiu esta frase lapidar: "A educação do Espírito o senso da vida." 

  Diante do que aí fica, será preciso acrescentar que o objectivo da religião é educar o Espírito? "Se o sal se tornar insípido, para que servirá? 

  Como Jesus, os educadores, dignos de tal nome, crêem firmemente na reabilitação dos maus. Os novos apóstolos do Cristianismo não virão dos seminários, mas do magistério bem compreendido e melhor sentido. 

  Perniciosas e desastrosas têm sido as consequências decorrentes do falso conceito generalizado sobre o carácter humano. Tal vesânia gerou o pessimismo que domina a sociedade. 

  O vírus que tudo polui e conspurca, é, a seu turno, outro efeito oriundo da mesma causa. Que pretendem os industriais da cinematografia exibindo películas dissolventes e até indecorosas? E os literatos e romancistas abarrotando as livrarias de obras frívolas, enervantes e imorais? E os empresários teatrais com as suas comédias corriqueiras, impudicas, eivadas de obscenidades? E os compositores e os músicos com os seus "jazes", "foxtrots" e maxixes? E os costureiros e promotores de moda com a sua indumentária que peca pela falta de decência e decoro? Todos eles, convencidos de que a natureza humana é essencialmente corrupta, estão actuando através da corrupção. Visando lucros, imaginam que o meio mais seguro de êxito seja aquele. No entanto, se o cinema se transformasse, de escola do vício em escola de virtude, deixaria de existir por isso? Respondemos pela negativa, sem titubear. Teria melhor e maior concorrência, como há leitores para os bons livros, como há apreciadores da arte pura. 

  A ideia falsa de que o êxito na cinematografia, nas artes, na indústria e no comércio só se alcança acoroçoando a maldade e a ignorância humanas, é um estrabismo herético e execrável. A Teologia tem sustentado esse erro pernicioso, através dos séculos, na palavra dos seus corifeus, prejudicando seriamente a evolução da Humanidade. A Pedagogia, no seu glorioso advento, vai destroná-la desembaraçando a mente humana dessa pedra de tropeço. 

  A verdade está com a Pedagogia. Com a Teologia, o caos, a confusão, as trevas. Com a Pedagogia está o optimismo sadio, alegre e forte. 


Lázaro e o rico ~ 
(Vide Lucas, 16:19 a 31.) 

  Consoante se infere do assunto a que se encontra subordinada a parábola evangélica cujo título nos serve de epígrafe, parece que melhor lhe assentaria a denominação seguinte: O Pobre e o Rico. 

  Porque teria Jesus dado um nome ao pobre, deixando de o fazer ao rico? Qual será a razão desta razão? 

  Segundo supomos, o caso passou-se assim. O Mestre achou por bom alvitre formular uma parábola sobre as duas categorias de provações, a riqueza e a pobreza. Voltou, então, os seus olhos para a sociedade dos pobres e, encontrou ali um homem paciente e resignado, humilde e cheio de fé, que suportava galhardamente a dura prova que lhe fora destinada. Esse homem chamava-se Lázaro

  Disse, pois, o Senhor: Eis aqui uma das personagens para a parábola. Perscrutando, em seguida, o arraial dos ricos, verificou que eram todos, ou quase todos, igualmente egoístas e duros de coração. Diante disso concluiu o Mestre. Denominarei com o nome genérico esta outra figura do apólogo que idealizei — o rico — visto como é tão difícil encontrar excepções nesta classe como é difícil passar um camelo pelo buraco da agulha. 

  Ficou, por esse motivo, assim denominada a parábola: Lázaro e o rico. 

  O rico vestia-se de púrpura e linho finíssimo. Vivia banqueteando-se esplendidamente, Lázaro, enfermo e paupérrimo, mendigava o pão de cada dia. Recostado nos portais do rico, esperava, em vão, que se lembrassem de lhe mitigar a fome. O rico, na embriaguez dos prazeres, não o via. Tinha a mente enevoada pelos vapores das libações alcoólicas e, o coração impassível, mergulhado no paul do sensualismo. Tão mesquinho era o seu estado de alma, que os próprios irracionais lhe levavam a palma em matéria de sentimentos. É assim que os cães, condoídos de Lázaro, vinham acariciá-lo, lambendo-lhe as feridas. 

  Eis que certo dia a morte bate à porta de ambos: morre Lázaro e morre também o rico. A morte, rigorosamente imparcial como é, não distingue os ricos dos pobres, nem tão pouco aqueles que gozam daqueles que sofrem. 

  No entanto, a morte nada destrói: transforma apenas. Lázaro e o rico passaram para o plano espiritual. Ali, Lázaro é feliz, fruindo, no seio de Abraão a doce paz de uma consciência tranquila e a alegria do combatente que viveu a campanha e entra na posse dos louros da vitória. 

  E o rico, tendo falhado na prova por que viera de passar, sente-se confuso e humilhado com a derrota. Esmagado de remorsos, lembra-se do seu passado pecaminoso e; Lázaro — aquele que virtualmente fora sua vítima — aparece-lhe sereno e venturoso. Cena curiosa, então, se desenrola: já não é Lázaro que mendiga do rico; é o rico que mendiga de Lázaro, dizendo: Pai Abraão, manda Lázaro aplacar as minhas aflições; que ele venha suavizar, de algum modo, o fogo deste remorso que me consome. E a voz da Justiça replica pela boca de Abraão: Meu amigo, as condições de Lázaro e as tuas são opostas. Cada um colhe aquilo que semeia. Tu és um vencido, Lázaro é um vencedor. Como pretendes agora anular, num dado momento, os efeitos de uma causa que está contigo, que foi criada por ti no decorrer de toda uma existência? Entre o estado dos que triunfam e o dos que sucumbem medeia um abismo, que não pode ser transposto como imaginas. A Natureza não dá saltos; este axioma é verdadeiro tanto no plano físico quanto no espiritual. Tens que esgotar o cálice, tens que pagar até ao último ceitil. As responsabilidades contraídas, na vida terrena, acompanham o Espírito onde quer que ele se encontre. Nada pode suspender o curso dessa lei. 

  Oh! pai Abraão, retruca o rico, cujos sentimentos começam a despertar, graças ao aguilhão da dor: Manda alguém avisar os meus cinco irmãos acerca destas coisas, a fim de evitar que venham a cair nestes tormentos. E a voz da Justiça obtempera pela boca do Patriarca: Os teus irmãos estão, como tu estiveste, em provas. Lá mesmo na Terra há quem os advirta sobre isso. Se eles não ouvem a esses, não ouvirão tão pouco a um mensageiro celeste. Quando os homens se entregam à loucura dos prazeres sensuais, ficam animalizados e inacessíveis às vibrações que os anjos lhes transmitem. Como queres, pois, que um Espírito possa despertar os teus irmãos, quando não lograram despertar-te! A justiça se cumprirá com eles como se está cumprindo contigo: a dor ensiná-los-á a compreender a responsabilidade em que todos se encontram perante a soberana e indefectível justiça de Deus. A dor os fará saber e sentir que aqueles a quem muito é dado — seja em bens espirituais, seja em bens temporais — muito será exigido; ensinará também que os homens são responsáveis, não só pelo mal que praticam, como pelo bem que, podendo, deixam de praticar. 

  E o rico conformou-se, compreendendo que — dura lex, sed lex. (A lei é dura, mais é a lei) 


Jesus, o Mestre ~ 

  Jesus curou cegos de nascença, surdos-mudos, epilépticos, hidrópicos, doidos e lunáticos, paralíticos, reumáticos e leprosos; sarou, finalmente, enfermos de toda a casta que a ele recorreram em busca do maior bem temporal — a saúde. No entanto, jamais o Senhor pretendeu que o dissessem médico, ou clínico. 

  Jesus frequentava o templo e as sinagogas onde atendia aos sofredores e ensinava ao povo as verdades eternas, mas nunca se inculcou levita ou sacerdote. 

  Jesus predisse com pormenores e particularidades o cerco, a queda e a ruína de Jerusalém; como essa, fez várias outras profecias de alta relevância. Penetrava o íntimo dos homens, devassando-lhes os arcanos mais secretos, porém não consta que pretendesse as prerrogativas de vidente ou de profeta. 

  Jesus realizou maravilhas, tais como: alimentar mais de cinco mil pessoas com três pães e dois peixes; acalmar a tempestade, impondo inconcebível autoridade às ondas revoltas do oceano. Ressuscitou a filha de Jairo, o filho da viúva de Naim e, também, Lázaro, sendo que este último já estava sepultado havia quatro dias. Transformou a água em vinho nas bodas de Cana da Galiléia e, muitos outros prodígios operou não pretendendo, apesar disso que o considerassem milagreiro ou taumaturgo. 

  Jesus aclarava as páginas escriturísticas, fazendo realçar da letra que mata o espírito que vivifica, mas não se apresentou como exegeta ou, ministro da palavra. 

  O único título que Jesus reclamou para si, fizesse jus às mais excelentes denominações honoríficas que possamos imaginar, foi o de “mestre”. Esse o título por ele reivindicado, porque realmente Jesus é o Mestre excelso, o Educador incomparável. 

  A sua fé na obra da redenção humana, mediante o poder incoercível da educação, acordando as energias espirituais, é inabalável, é absoluta. Tão firme é a crença na regeneração dos pecadores, na renovação de nossa vida, que por esse ideal se ofereceu em holocausto. 

  Educar é remir. O Filho de Deus deu-se em sacrifício pela causa da liberdade humana. A cruz plantada no cimo do Calvário não representa somente a sublime tragédia do amor divino: representa também o símbolo, o atestado da fé viva que Jesus tem na transformação dos corações, na conversão das nossas almas. "Quando eu for levantado no madeiro, atrairei todos a mim..." asseverou ele. Todos, notemos bem; já não uma parcela mas a totalidade. Vemos por aí como é radical a sua confiança, a sua crença na reabilitação dos culpados, através da educação. 

  Sim da educação, dizemos bem, porque só um título Jesus reclamou, chamando-o a si e, o fez sem rodeios sem rebuços, nem perífrases, antes com a máxima franqueza e toda a ênfase: o título de mestre. Dirigindo-se aos seus discípulos, advertiu-os desta maneira: "Um só é o vosso mestre, a saber — o Cristo Portanto, a ninguém mais chameis mestre senão a mim". (Mateus, 23:8.) 

  Jesus rejeitou o ceptro, o trono, a realeza, alegando que o seu reino não é deste mundo. Dispensando igualmente, a glória e as honras terrenas; um só brasão fez questão de ostentar: ser mestre, ser educador. É significativo! 

  "Eu sou a luz do mundo, sou a verdade, sou o pão que desceu do céu" — proclamou o Senhor. Esparzir Luzes revelar a verdade, distribuir o pão do Espírito — tal a obra da educação, tal a missão do Redentor da Humanidade. 

  Que dúvida nos poderá restar a nós, neo-cristãos, sobre o rumo que deve tomar a nossa actividade, uma vez que o advento do Espiritismo é o do Consolador prometido? Que outra forma poderemos dar ao nosso trabalho, que seja tão eficaz, tão profícua e benéfica à renovação social, como aquela que se prende à educação, no seu sentido lato e amplo? 

  Trabalhemos, pois, com ardor e entusiasmo pela causa da educação da Humanidade, começando pela infância e pela juventude desta terra de Santa Cruz (*)

/… 
(*) Nome dado ao Brasil pelos portugueses no ano seguinte ao seu descobrimento (i)Adenda desta publicação. 

“Aos que comigo crêem e sentem as revelações do Céu, comprazendo-se na sua doce e encantadora magia, dedico esta obra.” 
                                                                                Pedro de Camargo “Vinícius” 


Pedro de Camargo “Vinícius” (i)Em torno do Mestre, 1ª Parte / Seixos e Gravetos; A natureza humana / Lázaro e o rico / Jesus, o Mestre, 14º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: A Arte da Pintura, óleo sobre tela (1666), de Johannes Vermeer)  

domingo, 29 de maio de 2022

Diálogos de Kardec ~


§ A música celeste ~ 

Certo dia, numa reunião familiar, o chefe dessa família, lera uma passagem de O Livro dos Espíritos, concernente à música celeste. Uma de suas filhas, intérprete amadora de música, pôs-se a dizer para consigo mesma: Mas não há música no mundo invisível! Parecia-lhe isso impossível; entretanto, não partilhou o seu pensamento. Na noite do mesmo dia, escreveu ela, espontaneamente, a seguinte comunicação: 

“Esta manhã, minha filha, o teu pai te leu uma passagem de O Livro dos Espíritos. Tratava-se de música e tu aprendeste que a do céu é muito mais bela do que a da terra. Os Espíritos acham-na muito superior à vossa. Tudo isso é verdade; no entanto, dizias intimamente: Como poderia ter sido Bellini, a vir dar-me conselhos e ouvir a minha música? Foi provavelmente algum Espírito leviano e farsante. (Alusão aos conselhos que o Espírito Bellini, por vezes lhe dava sobre a música.) Enganas-te, minha filha. Quando os Espíritos tomam sob a sua protecção um encarnado, o objectivo que perseguem é fazê-lo adiantar-se. 

“Assim, Bellini já não acha bela a sua música, porque não a pode comparar à do Espaço; mas, vendo a tua aplicação e o teu amor a essa arte, se te dá conselhos, é por sincera satisfação. Ele deseja que o teu professor seja recompensado de todo o seu esforço. Achando as suas composições muito infantis, face às sublimes harmonias do mundo invisível, ele aprecia o teu talento, que se pode qualificar de grande, aí nesse mundo. Acredita, minha filha, os sons dos vossos instrumentos, as vossas mais belas vozes, não poderiam dar-vos a menor ideia da música celeste e da sua suave harmonia.” 

Passados alguns instantes, diria a jovem: “Papá, papá, vou adormecer, vou cair.” Logo se prostrou numa poltrona, ao mesmo tempo que exclamava: “Oh! papá, papá, que música deliciosa!... Desperta-me, senão eu me vou.” 

Não sabendo os assistentes, aterrorizados, como fazer para a despertar, disse ela: “Água, água.” 

Com efeito, algumas gotas de água que lhe salpicaram no rosto, deram pronto resultado. Atordoada a princípio, voltou lentamente a si, sem a mínima consciência do que acontecera. 

Ainda na mesma noite, encontrando-se a sós, o pai da moça, recebeu do Espírito S. Luís (i) a seguinte explicação: 

“Quando lias à tua filha a passagem de O Livro dos Espíritos referente à música celeste, ela se mantinha na dúvida; não compreendia que no mundo espiritual pudesse haver música. Eis por que, depois, eu lhe disse que era verdade. Não tendo conseguido persuadi-la com a minha afirmativa, Deus permitiu que, para convencer-se, ela caísse em sono sonambúlico. Então, desprendendo-se do corpo adormecido, o seu Espírito, se lançou pelo Espaço e foi admitido nas regiões etéreas, onde ficou em êxtase produzido pela impressão da harmonia celeste. Foi por isso que exclamou: 

“Que música! que música!” Sentindo-se, porém, transportada a regiões cada vez mais elevadas do mundo espiritual, pediu que a despertassem, indicando-lhes o meio de o conseguirem: com a água. 

“Tudo se faz pela vontade de Deus. O Espírito de tua filha não voltará mais a duvidar. Embora, despertado, não guarde a lembrança nítida do que se passou, o seu Espírito, sabe agora, onde está a verdade. 

“Agradecei a Deus os favores de que beneficia esta moça. Agradecei-lhe dignar-se fazer-vos conhecer cada vez mais a sua omnipotência e a sua bondade. Que as suas bênçãos se derramem sobre vós e sobre esta médiumditosa entre mil!” 

NOTA — Perguntar-se-á, talvez, que convicção pode ter resultado para aquela moça do que lhe foi dado ouvir, uma vez que de nada agora se lembra. Se, no estado de vigília, estes pormenores se lhe apagaram da memória, então, o seu Espírito, esse se recorda. Ficou-lhe uma intuição, suficiente para modificar-lhe as ideias. Ao contrário de criar-lhes oposição, ela aceitará, sem dificuldade, as explicações que lhe foram dadas, porque as compreenderá e, intuitivamente, as reconhecerá de acordo com o seu sentimento íntimo. 

O que se passou com este facto, isolado, pelo espaço durante alguns minutos, durante a breve excursão que o Espírito da moça realizou pelo mundo espiritual, é análogo ao que se dá no intervalo de uma existência à outra, quando o Espírito que encarna possui luzes sobre um assunto qualquer. Ele se apropria, sem dificuldade, de todas as ideias referentes a esse assunto, se bem que, como homem, não se recorde da maneira como as adquiriu. Ao contrário, as ideias, para cuja assimilação ainda não se encontra maduro, dificilmente lhe entram no cérebro. 

Assim se explica a facilidade com que certas pessoas assimilam as ideias espíritas. Em tais pessoas, essas ideias, nada mais fazem do que despertar as que elas já possuíam. As criaturas a que nos referimos são espíritas de nascença, como outros são poetas, músicos ou matemáticos. Logo às primeiras palavras, compreendem e não necessitam de factos materiais para se convencerem. É, não há que duvidar, um sinal de adiantamento moral e de desenvolvimento espiritual. 

Na comunicação acima se lê: “Agradecei a Deus os favores de que beneficia esta moça; que as suas bênçãos desçam sobre esta médium, ditosa entre mil!” Poder-se-ia supor que estas palavras indicam a concessão de um favor, uma preferência, um privilégio, quando o Espiritismo ensina que, sendo Deus soberanamente justo, nenhuma de suas criaturas é privilegiada e que ele não facilita o caminho mais a uns do que a outros. Sem nenhuma dúvida, a mesma senda está aberta a todos, mas nem todos a percorrem com a mesma celeridade e com os mesmos resultados; nem todos aproveitam igualmente das instruções que recebem. O Espírito da moça em questão, embora jovem como encarnado, já com certeza muito vivera e aí progredira. 

Os bons Espíritos, achando a moça dócil aos seus ensinamentos, se comprazem em instruí-la, como faz o professor ao aluno em quem descobre as boas predisposições. É nesse sentido que o médium é ditoso entre muitos outros que, para o seu adiantamento moral, nenhum fruto colhem da mediunidade de que são dotados. Não há, pois, neste caso, nem favor, nem privilégio; unicamente uma recompensa. Se o seu Espírito deixasse de ser digno dela, dentro em pouco, teria afastados de si, os seus bons Guias e se veria cercado de uma multidão de Espíritos maus. 

/... 


ALLAN KARDEC, Obras Póstumas, Primeira Parte – Sobre as artes em geral; a sua regeneração por meio do Espiritismo – A música celeste, 20º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: Dança rebelde, 1965 – Óleo sobre tela, de Noêmia Guerra

domingo, 15 de maio de 2022

O Mundo Invisível e a Guerra ~


XXIV 

~~ A Experimentação Espírita: Tiptologia 

  Quando tudo está em repouso e nas moradas dos homens reina o silêncio, um mundo de mistérios se agita à volta de nós. Ouvem-se suaves ruídos, como coisas que se tocam levemente; passos furtivos parecem deslizar no soalho; nas paredes e nos móveis soam pancadas; as cadeiras estalam como ao peso de um corpo invisível. Durante o dia é a vida dos homens que se desenvolve; à noite, de preferência, é a dos espíritos, porque as radiações da luz solar não lhes atrapalhará as manifestações. 

  Tais impressões e percepções renovam-se para mim a cada anoitecer, no momento em que a tranquilidade e a escuridão se sucedem aos rumores e à luz do dia. 

  Aí, as almas queridas, às quais as nossas preocupações mantinham afastadas, se aproximam de nós e marcam a sua presença, cada uma a seu modo. Reconheço-as e as distingo facilmente. Ora é um espírito de carácter enérgico, que produz fortes pancadas na janela, ora outro faz ouvir, sempre no mesmo lugar, pancadas bem mais fracas, revelando a sua natureza tímida e feminina. 

  Durante muito tempo, depois da morte de meu pai, percebi, na sala onde me encontrava, ruídos de passos iguais aos de um homem. Outro espírito se esforça em me fazer ver luzes, às vezes bem vivas e intensas e, até uma forma confusa, fracamente esboçada; luzes e forma que não posso atribuir a alucinações visuais, porque também se reflectem no espelho. 

  O hábito que adquiri de ler com os dedos, no escuro, pelo método Braille, facilita a produção de tais fenómenos. 

  Semelhantes factos não são raros e acontecem em todas as casas onde haja condições psíquicas favoráveis, porém a maioria dos homens não lhes dá nenhuma atenção, sendo quase sempre perdidos os esforços dos espíritos nesse sentido. 

  Entretanto, de tempos a tempos, aparecem retumbantes afirmações a esse respeito que sacodem a indiferença geral. O senhor Louis Barthau, da Academia Francesa, após consultar os cadernos inéditos de Victor Hugo, escreve na Revue des Deux Mondes(*) 

  Tendo vindo passar dez dias em Jersey, a senhora Girardin adoptou o uso das mesas girantes e falantes. Victor Hugo foi o último a aceitá-los, porém, desde que aderiu, os espíritos já não o largaram, exercendo sobre ele uma influência cujos vestígios se mostram em vários fragmentos das Contemplações

Est-ce toi que chez moi minuit parfois apporte? 
Est-ce toi qui heurtais l’autre muit à ma porte?
Pendant que je ne dormais pas? 

C’est done vers moi que vient lentement ta lumière? 
La pierre de mon seuil peut-être est la première 
Des sombres marches tu trépas. 

  Escrita para Marine Terrace, na noite de 30 de março de 1854, essa poesia mística prolongava o seu eco na nota que Victor Hugo lançava no seu caderno, em 24 de outubro de 1873: 

  “Nessa noite eu não dormia. Eram quase três horas da madrugada. Um golpe seco e fortíssimo soou ao pé de minha cama, perto da porta do meu quarto e, pensei na minha filha morta e, disse para comigo: “És tu?” Depois, pensei na conspiração bonapartista que se comenta, num novo dois de dezembro possível e me perguntei: “Será um aviso?” Acrescentei mentalmente: “Se és tu, que estás aí e vens avisar-me por causa dessa conspiração, dá duas pancadas.” Esperei mais ou menos meia hora, a noite era profunda, reinando completo silêncio na casa e, de repente, dois golpes foram ouvidos junto à porta: eram, desta vez, surdos, porém distintos e bem claros.” 

  Louis Barthau continua o seu relato dizendo que, em 21 de novembro de 1871, Victor Hugo escrevia: 

  “Nessa noite acordei ouvindo bem perto de mim pancadas na minha mesa de cabeceira. Eram pancadas lentas e regulares, duraram um quarto de hora. Eu escutava e a coisa não parava. Orei e as pancadas pararam. Então eu disse: “Se és tu, minha filha, ou tu, meu filho, dá duas pancadas.” Dez minutos depois, aproximadamente, duas pancadas se ouviram, junto à parede, num pé da cama e, eu falei, sempre mentalmente: “É um conselho que me vens trazer? Devo sair de Paris? Devo ficar? Se devo ficar, dá uma pancada e se devo partir, três pancadas.” 

  Escutei. Silêncio. Nenhuma resposta. Então tornei a dormir. O fenómeno durara cerca de uma hora. 

  Dia 22 de novembro – Nessa noite, ouvi três pancadas, seriam a resposta da pergunta de ontem? Sendo tão tardia, pareceu-me pouco clara.” 

  Por diversas vezes o caderno menciona os mesmos golpes nocturnos, ora obstinados, surdos e até mesmo metálicos; ora leves, comovendo o poeta, que continuava a acreditar na possibilidade de um pronunciamento bonapartista e os seus amigos lhe afirmam que ele seria a sua primeira vítima. 

  Ainda se lê, na página 757: 

  “Nessa noite, por volta das duas horas, ouvi uma pancada na minha porta, fortíssima e de tal forma prolongada que a abri; não havia ninguém, mas, evidentemente, havia alguém. Credo in deum aeternum et in animam immortalem.” 

  Victor Hugo (i) se admirava da lentidão usada pelos moradores do Além para responder às suas perguntas. Ele ignorava, certamente, que nem todos os espíritos possuem igualmente a habilidade e os necessários recursos para produzir ruídos, pancadas, levantar mesas e produzir fenómenos. 

  A natureza psíquica dos participantes, a sua riqueza ou pobreza fluídica concorrem muito para a variedade dos resultados, porque é neles que os espíritos haurem, quase sempre, os elementos para as suas manifestações. 

  Enquanto o ambulante de Hydesville – e isso serviu de ponto de partida para o espiritualismo moderno – falava com as senhoritas Fox por meio de raps (**) de uma forma rápida e constante, a maioria dos espíritos se vê na necessidade de condensar fluidos, pelo pensamento e pela vontade, para projectá-los contra as paredes, móveis, portas, obtendo assim ressonâncias e vibrações. Esse trabalho exige, às vezes, horas e até dias inteiros e, provavelmente, foi este o caso dos visitantes da casa do grande poeta. 

  O conjunto dos fenómenos psíquicos é comprovado por testemunhos incontestáveis: o professor Flournoy, da Universidade de Genebra, escreveu sobre o relatório do Instituto Geral Psicológico, assinado por nomes ilustres como Curie, Bergson, d'Arsonval, BranlyEd. Perrier, Boutroux, etc., o seguinte: 

  “O relatório do Instituto Geral Psicológico é esmagador e sou do parecer que representa um testemunho brilhante e decisivo, tanto quanto pode haver alguma coisa decisiva na Ciência.” 

  Entre os fenómenos se deve colocar em primeiro lugar o das mesas e o eminente astrónomo Camille Flammarion declarou: 

  “A levitação da mesa, a sua suspensão completa do chão, sob a acção de uma força desconhecida, contrária à gravidade, é um facto que já não se pode contestar com razão.” 

  Essa “força desconhecida” – diremos nós – é posta em acção pelos espíritos e a prova disso tem sido obtida tantas vezes que poderíamos vacilar na escolha diante dos numerosos casos existentes. Aqui está um que parece responder às exigências da crítica mais rigorosa, não podendo explicar-se pela sugestão, transmissão do pensamento, nem pelo automatismo inconsciente ou subliminal, porque nenhuma das pessoas presentes acreditava na morte do manifestante. 

  A narrativa vem do senhor A. Rossignon, então secretário da Inspecção Académica de Rouen, facto que ele publicou no Farol de Normandia, do mês de maio de 1898. Actualmente Rossignon mora em Tours e a ele devemos a seguinte narrativa: 

  “A sessão se realizava à noite, em Rouen, na casa de um membro do grupo Vauvenargues, o Sr. Justobre, inspector dos impostos. 

  Faziam parte da reunião os Srs. Pelvé, tesoureiro, Ernest Rossignon, secretário do Liceu Corneille, Albert de Baucie, estudante de farmácia; a senhora Bernard, médium principal; as senhoras Justobre, Pelvé, Rossignon, etc., ao todo dez pessoas de inteira respeitabilidade, reunidas em volta de uma pesada mesa redonda. 

  Após a evocação, um espírito manifesta a sua presença com violentos movimentos na mesa que se dirige para o senhor A. Rossignon, levanta-se diante dele e depois retorna à sua posição normal. 

  Depois interrogam o visitante invisível, perguntando se há laços de parentesco ou de amizade com algum dos assistentes. A mesa responde afirmativamente e dita, pelo processo alfabético, ser o pai do Sr. A. Rossignon e ter morrido na véspera, quarta-feira, 20 de abril, indicando até a hora: o meio-dia.” 

  O Sr. Rossignon explica que o seu pai é muito idoso e que uma distância de mais de 300 quilómetros os separa. Sabia que estava doente, mas não em perigo de vida. “Além disso – acrescenta –, se fosse verdade que o meu pai houvesse morrido, a família me informaria e eu não recebi nenhuma notícia.” Assim, todos opinaram dizendo que se tratava de um embuste. 

  Não foi demorada a espera: no dia seguinte, pelo correio do meio-dia, o Sr. Rossignon recebia de sua família uma carta que o informava da morte de seu pai, ocorrida no dia e hora indicados por este. 

  Por não haver uma agência dos correios na localidade, houve um atraso no envio da carta e disso puderam certificar-se os nossos amigos do grupo pelo exame dos carimbos de expedição e de chegada. Atestaram então a verdade do facto ocorrido e a carta ficou anexa à acta que se lavrou. 

  Todavia contestarão, como é que um espírito, liberto do corpo carnal havia tão pouco tempo, já podia comunicar-se e dar tamanha precisão às suas respostas? 

  Interrogado sobre esse assunto, numa outra sessão, disse-nos o guia do grupo: 

  “Eu próprio havia trazido para os senhores o novo desencarnado e eu era o seu intermediário na manifestação entre os senhores e ele.” 

  Tudo se explicava, pela facilidade com que, em certos idosos, o espírito pode desprender-se dos seus laços, em decorrência de longa decrepitude, cujo resultado é favorecer, aos poucos, o desprendimento do perispírito

  A comunicação por pancadas, dadas pelos pés de uma mesa, indicando as letras do alfabeto, é considerada, em geral, como um recurso muito lento, monótono, rudimentar, empregado principalmente por espíritos de ordem inferior. 

  É verdade que, para conversar com os espíritos, se dispusermos de um bom médium escrevente mecânico ou, ainda melhor, de um médium de incorporação, como eu tive um durante mais de 20 anos, acharemos o uso das mesas incomodo e cansativo, porém, na falta de outros recursos, as entidades de alto valor não vacilam em recorrer a tal processo. 

  Foi assim que o meu venerável guia, Jerónimo de Praga, se me revelou pela primeira vez, no decurso da minha vida, no meio de um grupo de operários, nos arrabaldes de Mans, a 2 de novembro de 1882, dia de Finados. 

  Por certo, nenhum dos outros assistentes conhecia a história do apóstolo tcheco, mas eu bem sabia que o discípulo de Jahn Huss fora queimado vivo, como também o seu mestre, no século XV, por ordem do Concílio de Constança, porém não pensava nisso naquele momento. 

  Ainda torno a ver, pelo pensamento, a humilde estância onde realizávamos a sessão; éramos uns dez, ao redor de uma mesa de quatro pés, sem que nela se tocasse e, somente dois operários, médiuns mecânicos e, uma mulher apoiavam nela as suas mãos rudes e escuras. 

  Eis o que foi ditado pelo móvel, por movimentos solenes e ritmados: 

  “Deus é bom! A sua bênção se espalhe sobre vós como o orvalho benéfico, porque as consolações celestes só são distribuídas aos que procuraram a justiça. 

  Lutei na arena terrestre, mas a luta era desigual e sucumbi, porém das minhas cinzas surgiram corajosos defensores que marcharam pela mesma estrada que eu. Todos eles são meus filhos bem-amados.” 
                                                                                                      Jerónimo de Praga 

  O uso da prancheta americana deve ser considerado como um aperfeiçoamento do sistema de comunicação pela mesa. Ela consiste numa placa de madeira triangular, colocada sobre três bolas envolvidas com feltro e que deslizam em silêncio sobre um quadrante onde estão traçadas as letras do alfabeto em um semicírculo. Exige apenas uma quantidade mínima de força fluídica, fornecida por dois médiuns, que apoiam as pontas dos dedos nesse pequeno veículo que adquire, em alguns casos, muita velocidade. Tal sistema é cada vez mais usado nos grupos e nas famílias que se ocupam com o psiquismo experimental. 

  A senhora Ella Whesley Wilcox, autora de renome nos Estados Unidos pelas suas obras poéticas e literárias, tradutora do meu livro O Problema do Ser e do Destino, obtém, pela prancheta, frequentes mensagens do seu defunto marido Roberto Wilcox, que se constituiu o seu guia, protegendo-a e aconselhando-a na viagem de conferências que ela realizou à Europa, em benefício dos soldados americanos. 

  A senhora Wilcox me escreveu de Londres, a 7 de novembro de 1918, para mostrar-me uma prova de identificação que me julgo no dever de guardar e publicar: 

  “Ontem, dia do meu aniversário natalício, recebia por intermédio da Oui-jà (nome dado à prancheta), a primeira mensagem do meu marido, em Londres. A sessão começara pela escrita automática e vários espíritos se haviam comunicado. A senhorita Monteith, médium escrevente e audiente, estava perto de mim e de outra senhora ocupada no Oui-jà

  Subitamente ela ouviu a palavra “aurora” e começou a desenhar o despontar do Sol no mar e, sem ser artista, fez um quadro muito bonito, coisa de que pediu explicação. Respondeu-me: 

  – Em nossa casa, à beira-mar, o meu marido e eu sempre nos levantávamos bem cedo para ver a aurora despontar sobre o oceano. Para nós era uma hora sagrada e muitas vezes o meu marido dizia: “Creio que a minha alma, se eu morrer primeiro, voltará do céu a ti, ao alvorecer”. 

  Esse facto foi-me muito agradável e eu tinha a certeza da presença do meu marido. 

  Em setembro passado, encontrando-me em Tours, muitas vezes ele me predisse, pela prancheta, que aqui em Londres eu encontraria Sir Oliver Lodge e outros psicólogos eminentes e que eu seria convidada a falar sobre factos espíritas. 

  Faz um mês que estou em Londres, falei duas vezes nos salões públicos e três vezes nos salões da alta sociedade. Deverei encontrar Sir Oliver Lodge a 18 de novembro e, também Lady Barret e a senhora Leonard, a médium pela qual Sir Oliver Lodge tornou a encontrar o seu filho Raymond, morto pelo inimigo.” 

  Poderíamos multiplicar as citações deste género, porém nos limitaremos a dizer que a impressão produzida no leitor pelas secas e frias narrativas não se compara com a impressão que as pessoas sentem quando assistem às reuniões. 

  A rapidez dos ditados, a inconsciência completa dos médiuns, a interferência clara de outras inteligências, que não são as dos experimentadores, enfim, mil pormenores psicológicos que são outros tantos elementos de convicção, enquanto que a simples leitura desses mesmos factos os faz perder, forçosamente, o seu valor para todos aqueles que desconhecem o ambiente das reuniões. 

/… 
(*) Número de 15 de dezembro de 1918, pp. 747, 751 e 757. 
(**) Raps – golpes, pancadas. 


Léon Denis, O Mundo Invisível e a Guerra, XXIV A Experimentação Espírita: Tiptologia; a experimentação de Victor Hugo, Sir Oliver Lodge e outros (uma mensagem de 2 de novembro de 1882, dia de Finados, do Espírito Jerónimo de Praga), 40º fragmento desta obra. 
(imagem: Dois soldados um alemão e o outro britânico, no dia de Natal durante a primeira guerra mundial (1914), aquando de um cessar-fogo promovido pelos próprios soldados, alemães, britânicos e também franceses, ao longo de uma semana trocaram saudações, cantaram músicas e chegaram a trocar presentes) 

sexta-feira, 29 de abril de 2022

Da sombra do dogma à luz da razão ~


~ Uranografia Geral (*) 
O espaço e o tempo ~ 

| Galileu, Espírito 
(Études Uranographiques) (VI) 

Os satélites 🌈 

  Antes das massas planetárias terem atingido um grau de arrefecimento suficiente para lhes operar a solidificação, massas mais pequenas, verdadeiros glóbulos líquidos, destacaram-se de algumas no plano equatorial, plano onde a força centrifuga (i) é maior e que por virtude das mesmas leis adquiriram um movimento de translação (i) à volta do seu planeta gerador, tal como aconteceu com eles à volta do seu astro gerador. 

  Foi assim que a Terra deu nascimento à Lua, cuja massa, menos considerável, deve ter sofrido um arrefecimento mais rápido. Ora as leis e as forças que presidiram à sua separação do equador terrestre e o seu movimento de translação neste mesmo plano agiram de tal modo, que este mundo em vez de revestir a forma esferóide tomou a de globo ovóide, isto é, tendo a forma alongada de um ovo cujo centro de gravidade estaria fixado à parte inferior. 

  As condições em que se efectuou a desagregação da Lua mal lhe permitiram afastar-se da Terra e constrangeram-na a permanecer perpetuamente suspensa no seu céu como uma figura ovóide, cujas partes mais pesadas formaram a força inferior virada para a Terra e cujas partes menos densas ocuparam o topo, se designarmos com esta palavra o lado voltado para o lado oposto da Terra e elevando-se para o céu. É o que faz com que este astro nos apresente continuamente a mesma face. Pode ser comparado, para melhor se entender o seu estado geológico, a um globo de cortiça, em que a base virada para a Terra seria feita de chumbo. 

  Daí a existência de duas naturezas essencialmente diferentes na superfície do mundo lunar: uma, sem qualquer analogia possível com a nossa, pois os corpos fluidos e etéreos são-lhe desconhecidos; a outra, leve em relação à Terra, dado que todas as substâncias menos densas se transportaram para este hemisfério. A primeira, perpetuamente voltada para a Terra, sem água e sem atmosfera, a não ser por vezes nos limites deste hemisfério subterrestre, a outra, rica em fluidos, perpetuamente oposta ao nosso mundo (**)

  O número e o estado dos satélites de cada planeta variam consoante as condições especiais nas quais se formam. Alguns não deram origem a nenhum astro secundário, tais como Mercúrio, Vénus e Marte, enquanto outros formaram um ou vários, como a Terra, Júpiter, Saturno, etc. 

  Para além dos seus satélites ou luas, o planeta Saturno apresenta o fenómeno especial do anel que, visto de longe, parece envolvê-lo como que com uma branca auréola. Esta formação é para nós uma nova prova da universalidade das leis da natureza. Este anel é com efeito o resultado de uma separação que se operou nos tempos primitivos no equador de Saturno, tal como uma zona equatorial se escapou da Terra para formar o seu satélite. A diferença consiste em que o anel de Saturno se encontrava formado, em todas as suas partes, de moléculas homogéneas, provavelmente já num certo estado de condensação e, pode, desta maneira, continuar o seu movimento de rotação no mesmo sentido e num tempo mais ou menos igual ao que anima o planeta. Se um dos pontos deste anel tivesse sido mais denso do que outro, uma ou várias aglomerações de substância ter-se-iam subitamente operado e Saturno teria contado com vários satélites mais. Desde o tempo da sua formação, este anel solidificou-se assim como os outros corpos planetários. 
                                                                                                          Espírito Galileu 
/… 

(*) Este capítulo foi textualmente extraído de uma série de comunicações ditadas à Sociedade Espírita de Paris, em 1862 e 1863, sob o título de Études Uranographiques e assinado, Galileu; médium M. C. F. (N. do A.) 

(**) Esta teoria da Lua, inteiramente nova, explica através da lei de atracção, a razão pela qual este astro apresenta sempre a mesma face à Terra. Encontrando-se o seu centro de gravidade, em vez de estar no centro da esfera, num dos pontos da sua superfície e por consequência atraído para a Terra por uma força maior do que as partes mais ligeiras, a Lua produz o efeito das figuras chamadas sempre em pé, que se mantêm constantemente direitas sobre a base, enquanto os planetas, cujo centro de gravidade se encontra a igual distância da superfície, giram regularmente sobre o eixo. Os fluidos vivificadores, gasosos ou líquidos, devido à sua leveza específica, encontrar-se-iam acumulados no hemisfério superior constantemente oposto à Terra; o hemisfério inferior, o único que vemos, não os possuiria, sendo por consequência impróprio para a vida, enquanto esta reinaria no outro. Se, portanto, o hemisfério superior é habitado, os seus habitantes nunca viram a Terra, a não ser que fizessem incursões ao outro hemisfério, o que lhes seria impossível, não havendo ali as condições necessárias de vitalidade. 
Por muito racional e científica que esta teoria seja, como não pode ainda ser confirmada por qualquer observação directa, não pode ser aceite a não ser a título de hipótese e como ideia a poder servir à ciência; mas não podemos negar que seja a única, até agora, que dá uma explicação satisfatória das particularidades que este globo apresenta. (N. do A.) 


ALLAN KARDEC, A GÉNESE – Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo, Capítulo VI, Uranografia Geral, O espaço e o tempo – Os satélites (de 24 a 27), 28º fragmento desta obra. Tradução portuguesa de Maria Manuel Tinoco, Editores Livros de Vida. 
(imagem de contextualização: Diógenes e os pássaros de pedra, pintura em acrílico de Costa Brites).