Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

o grande desconhecido ~


A Morte de Deus e o Século XX 

Depois da Filosofia Existencial, nascida da angústia e da solidão do teólogo dinamarquês Kierkegaard, explodiu no mundo convalescente das primeiras explosões atómicas em Hiroshima e Nagasaki, a espantosa novidade da Morte de Deus. Imitando o louco do Nietzsche (i), teólogos jovens e de formação universitária, europeus e norte-americanos, fizeram o comunicado fúnebre ao público mundial: “Deus morreu!” Como ninguém foi convidado para o enterro, nem se efectuou nenhum registo funerário da ocorrência nos cartórios civis do mundo, acreditou-se que tudo não passava de uma alucinação. Mas os teólogos insistiram com uma série de livros transbordantes de erudição e cultura, o que perturbou os espíritos crentes em Deus. Para tranquilizar os assustados, os teólogos agoireiros obedeceram ao velho preceito: “Rei morto, Rei posto” e, colocaram Jesus de Nazaré (i), o Cristo, provisoriamente no Trono do Império Cósmico. “Agora – diziam os teólogos, na euforia de herdeiros ambiciosos perante o Cadáver Sagrado – agora temos de instalar o Cristianismo Ateu à espera de um Novo Deus que deve surgir.” 

Não se trata de uma brincadeira nem de galhofa, mas de coisa sumamente séria, pois, como diziam os nossos avós: “Com Deus não se brinca!” Mas os livros dos teólogos cortadores de mortalha não convenceram ninguém, a não ser a eles mesmos. É fácil compreender-se que houve um engano. O que havia morrido não era Deus, que não pode jamais ser enterrado no cemitério em ruínas dos deuses mitológicos. Quem na verdade estava a agonizar e, continua em lenta agonia, sustentada por milhões dos seus beneficiários do profissionalismo religioso, era a generosa sabidíssima senhora chamada Teologia. Essa pretensiosa dama de certezas absolutas e irrevogáveis estava em estado de coma, mas continua a resistir às tentativas impiedosas da morte. A maioria dos teólogos viu-se em dificuldades e apenas alguns aderiram à estranha ideia. Seria uma hecatombe mundial, ficarem todos eles órfãos e sem qualquer herança, pois só Deus lhes havia prometido a partilha do seu Reino. Jesus-Cristo, herdeiro directo e filho consanguíneo de Deus, não tomou conhecimento deste assunto e não assumiu o Trono do Universo. A situação tornou-se caótica e as brigas dos herdeiros acabaram reduzindo a espantosa novidade num bate-boca de neuróticos de guerra. Andam por aí os livros dos teólogos do complô deicista, lidos por eles mesmos e alguns curiosos retardatários, pois só eles entendem o que escreveram, se realmente entendem. São livros tecidos em teses de filigranas brilhantes e sofismas escorregadios, como as de Bizâncio na sua hora final. Dão-nos a impressão do jogo dos velórios da civilização utópica de Hermann Hesse, onde a face gelada de um lago alpino enregelava um teólogo de vez em quando. 

Não nos interessam essas lamentações de carpideira em torno de um hipotético cenotáfio (i), túmulo vazio construído no pós guerra, sobre terreno impuro de ossadas sem sepultura. Esta hora não é de morte, mas de ressurreição. Cumprindo a promessa do Cristo, o seu ensino puro ressuscita das criptas de envelhecidas catedrais e anuncia por toda a parte a nova Alvorada da Verdade. William Hamilton, Thomas Altizer, Paul Van Brune, Gabriel Vahamtaan e todo o bando necrófilo da Morte de Deus não conseguiram até agora dizer mais do que isto: que Deus morreu no nosso século e que esse é um episódio histórico. Mas onde estão as provas históricas dessa morte ideológica e alógica? Só o louco do Nietzsche (i), de quem eles herdaram a loucura, ouviu as pancadas soturnas do coveiro que abria a cova e, esse louco era uma ficção. Se os teólogos continuam a ensinar as suas teologias fanadas, os místicos a destilar os seus óleos sagrados, os sacerdotes a cobrar mais caro os seus sacramentos, o populacho a arrastar-se de joelhos nas velhas escadarias das igrejas, judeus e cristãos a manter os seus cultos por toda a parte, nem mesmo o Deus da Bíblia deixou de existir. Se não aconteceu a morte física de Deus e nem mesmo a morte metafísica, se na mente dos intelectuais e na fé popular Deus continua imperando, é claro que o bando necrófilo está a delirar. 

Mas esse episódio serve para ilustrar a esquizofrenia catatónica deste século estranho, em que vacilamos entre a paranóia e o sadismo, com furacões de obsessão individuais e colectivas a varrerem a face poluída do planeta. A todo o momento os vendavais arrancam os homens do chão e os atiram ao ar em cambalhotas alucinantes. Os espíritas, que conhecem o problema da obsessão e sabem que não são encenações do exorcismo, mas a lógica persuasiva da doutrinação evangélica o remédio certo e eficaz para este momento, precisam, mais do que nunca, firmar-se nas obras de Kardec para não serem também virados de pernas para o ar. Muitos já se deixaram levar pelas rajadas da invigilância, caindo no ridículo e chegando até mesmo à profanação da doutrina. Outros aceitaram e propagam, na teimosia característica da fascinação, obras e doutrinas absurdas, carregadas de malícia das trevas, ludibriando criaturas ingénuas com a falsa importância das suas posições em organismos doutrinários ou o falso brilho dos seus títulos universitários. Outros se aboletam na sua arrogância de pseudo-sábios, pretendendo superar a doutrina com livros encharcados pelo barro escuro das regiões umbralinas. É incrível como todas essas tolices empolgam pessoas desavisadas por toda a parte, formando os quistos de mistificação que minam o movimento doutrinário.

Se mesmo fora do campo doutrinário e, entre pessoas de inegável cultura e brilho intelectual, surgem loucuras como essa da Morte de Deus e da criação do Cristianismo Ateu, pode avaliar-se ao que estamos expostos no Espiritismo, onde só a advertência do Cristo: “Vigiai e orai,” poderá livrar-nos de quedas desastrosas. Mas não basta vigiar montado nas cavalgaduras da pretensão e da vaidade, porque o inimigo não ataca de frente, insinua-se subtil no nosso íntimo, excitando o vírus da vaidade e  infestando-nos por dentro. Desde então, pensamos com as ideias de outrem e aceitamos a sua colaboração, senão o seu Comando, com a ingenuidade dos defensores de Tróia que aceitaram o presente grego do cavalo de pau. Pedro capitulou, por medo, na hora do testemunho. Por vaidade, ignorância e interesses secundários muitos espíritas estão capitulando nesta hora decisiva. A nossa vigilância tem de ser interna, sobre nós mesmos, sobre a nossa fauna interior que o inimigo utiliza contra nós. Se os teólogos necrófilos aceitaram a sugestão da morte de Deus e caíram no ridículo, porque haveriam os espíritas de rejeitar a sugestão de deturpar os textos doutrinários para actualizá-los, prestando enorme serviço à doutrina? As sugestões das trevas são assim: falam-nos do dever para nos lançar na traição. Caímos facilmente porque não vigiamos e não oramos. O orgulho e a ambição substituem em nós as palavras humildes da recomendação do Mestre. E depois reclamamos dos Espíritos Superiores o auxílio que nos faltou na hora crucial, como se já não devêssemos estar há muito preparados para enfrentar essa hora.

Se os teólogos realmente compreendessem Deus e os Espíritas conhecessem de facto a sua doutrina, as entidades sombrias não encontrariam uma nesga de treva para se ocultarem nos seus corações iluminados pelo amor. Não somos traídos, traímo-nos. A traição não vem da malícia, brota da nossa mente transviada e do nosso coração orgulhoso. Se não compreendermos isso profundamente estaremos sempre expostos aos ventos malignos. A fidelidade ao bem tem um preço que pagamos aos poucos, nas moedinhas tilintantes do dia-a-dia, rejeitando os sopros da vaidade que tentam acender a fogueira do arrependimento. Um elogio discreto que nos agrada, uma palavra de estímulo que nos estufa, um gesto de cortesia que nos comove, um ingénuo cartão de saudações, um abraço de fingida gratidão são essas e muitas outras as moedas que não caem como o óbulo da viúva, mas como as moedas envenenadas dos cambistas. Ao som dessa música subtil cresce em nós a mandrágora do orgulho, a flor roxa e perigosa dos filtros mágicos. Acreditamos na nossa grandeza com euforia, para mais tarde cairmos na nossa insignificância com desespero.

Por que motivo Deus, se tivesse de morrer, haveria de escolher o Século XX da Era Cristã? Para morrer cristão, Ele que é o Senhor do Cristo? Por que razão os Espíritas haveriam de escolher o nosso século (XX)* para revisar e corrigir Kardec, justamente quando as Ciências, a Filosofia, a Religião e toda a Cultura Humana estão a comprovar o acerto absoluto de Kardec e seguindo o seu esquema de pesquisa numa realidade sempre vitoriosa? A resposta a essas duas perguntas é uma só: Porque é nas horas de entusiasmo, de vitória, de renovações em marcha, que estamos desprevenidos e confiantes em nós mesmos, certos de que tudo vai bem e de que – (este é o motivo da queda) – chegou o momento em que os nossos esforços serão reconhecidos e nos porão na fronte a coroa de louros que nos negaram. Não é a hora do Cristo nem a da Doutrina, mas a nossa hora, pessoal, que nos fascina.

Vejamos a triste figura desses teólogos, filósofos, historiadores da Cultura, exegetas da Palavra de Deus, que de repente, decepcionados com as atrocidades dos homens (que sempre foram atrozes) proclamam em orações brilhantes e livros falaciosos o absurdo da Morte de Deus, que não conseguem explicar nem justificar, por mais que escrevam. Charles Bent dá-nos uma informação valiosa: William Hamilton foi apresentado como uma espécie de Billy Graham da Morte de Deus. Numa de suas prédicas em São Paulo o famoso Billy, que empolga multidões, respondeu à pergunta de um assistente com a maior leviandade: “O Espiritismo é obra do Demónio.” A glória de Hamilton define-se neste episódio. Hamilton é o novo Billy. Não se precisa dizer mais nada. E Bent considera-o como sendo, talvez, o mais inteligível dos expositores do problema da Morte de Deus. Sobre o cadáver suposto de Deus os camelôs da hecatombe divina disputam a túnica do Cristo. É evidente o fogaréu de vaidade que arde na frágil carne dos homens. Se o Espiritismo, que cumpre a promessa do Consolador na Terra, é obra do Diabo, o que será essa obra de demagogia e sofisma que pretende renovar a concepção cristã de Deus na prática de Brutus, assassinando Deus pelas costas? 

Os homens enrolam-se nas suas próprias palavras, como as abelhas domésticas na barba do seu tratador. Os sofistas gregos provavam todas as contradições, mostrando que a verdade não passava de um jogo de palavras. Mas entre eles estava Sócrates, protegido pelo seu daemon, o seu espírito amigo, que de repente começou a perguntar aos sofistas: O que é isso? Todos os sofismas se esboroavam, como castelos de areia, quando Sócrates pedia a definição dos conceitos. Sim, porque ele descobrira que a verdade estava nos conceitos e não nas palavras. Quando Billy e Hamilton perguntarem a si mesmos o que estão a dizer, terão a verdade, mas enquanto continuarem a jogar com palavras perante as multidões de basbaques e fanáticos, não passarão de sofistas modernos que enganam a si mesmos e aos outros. O mal mais ameaçador da nossa civilização é o desenvolvimento excessivo da mente-oral. O abuso desse processo mental aviltou o mundo das palavras. Vem de longe esse mal, desde os judeus palradores que assustavam os romanos com as suas infindáveis querelas, o matraquear atordoante dos clérigos medievais, as trapaças doiradas dos bizantinos e a demagogia burguesa que produziu o Terror na França e se espalhou pelo mundo no papagaiar político e religioso que estourou em matanças inomináveis na boca de Hitler, Mussolini e as suas quintas-colunas genocidas. Depois das explosões atómicas de Nagasaki e Hiroshima e da escalada norte-americana no Vietname, não era de admirar o assassinato misterioso de Deus, pois quem odeia a Criação deve odiar também o Criador. 

No meio espírita os faladores fazem sucesso, como em toda a parte, pois os espíritas são criaturas humanas contagiadas, como toda a espécie, pelo mal verborrágico (i). Tem sido difícil convencer o povo ingénuo de que os grandes faladores não passam de mistificadores. Falam com atitudes teatrais, de olhos fechados para convencer os basbaques de que estão sendo inspirados por elevadas entidades espirituais, quando na verdade repetem palavrórios decorados ou simplesmente destrambelham os mecanismos repetitivos de sua mente-oral. 

Este é um problema grave num meio interessado numa doutrina lógica, profundamente conceitual, onde a insensatez palavresca funciona como tóxico mental, encobrindo e aviltando a Verdade. Precisamos de expositores doutrinários conscientes da sua responsabilidade e não apenas interessados em fascinar as massas. Não temos nem devemos ter tribunos eloquentes nas nossas assembleias, mas estudiosos (i) da doutrina que procurem transmitir os seus princípios racionais aos adeptos pouco acostumados a raciocinar. Não há lugar para sofistas num movimento que busca unicamente a Verdade, que não está nos sofismas e sim na limpidez dos conceitos. Também os espíritas se comprometem com o complô da Morte de Deus quando dão apoio e estímulo criminoso aos palradores inveterados. 

/… 
* Adenda desta publicação.


José Herculano Pires, Curso Dinâmico de Espiritismo, XVI – A Morte de Deus e o Século XX, 16º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: Somos as aves de fogo por sobre os campos celestes, acrílico de Costa Brites)

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

agonia das religiões ~


~~ Rito e Palavra 

O formalismo das igrejas caracteriza-se principalmente pelos seus rituais. Mas todo o rito implica o uso da palavra. Trata-se de uma conjugação de dois sistemas complementares de comunicação. A eles se junta o instrumento, na explicação clássica da evolução humana. Foi graças ao rito e à palavra que o homem ascendeu do primata ao sábio. Mas, para dar mais alcance ao processo de comunicação, o homem teve de inventar o instrumento. O fogo, a fumaça, as penas de aves nas árvores, as estacas no chão foram os precursores de todos os meios de comunicação à distância de que hoje nos orgulhamos. Mas pouca gente sabe, além dos círculos restritos de especialistas, que os animais também se utilizam de ritos e até mesmo de palavras nos seus processos de comunicação. No tocante aos instrumentos, eles os trazem no próprio corpo, o que não impede que animais superiores se utilizem também de instrumentos naturais, como pedras e varas. Rémy Chauvin, biólogo e entomologista francês da actualidade, no seu livro Les Societés Animales, oferece-nos abundantes informações com este objecto. 

A teoria da evolução criadora, de Henri Bergson, propõe-nos a tese da infiltração do impulso vital na matéria em duas direcções: uma que leva ao desenvolvimento dos insectos sociais, outra que resulta no aparecimento das sociedades humanas. Chauvin chega mesmo a referir-se à civilização das abelhas, advertindo naturalmente que se trata de civilização de insectos e não humana. Ortega y Gasset discorda do uso do termo social para os insectos, mas Chauvin, que pesquisou o problema a fundo, não encontra explicação para o facto de não haverem os insectos sociais alcançado o plano do pensamento criador. Chega mesmo a supor que talvez em outro planeta o tenham feito. Tudo isso pode ser pouco lisonjeiro para o orgulho humano, mas nem por isso deixa de ser significativo para os estudiosos da evolução humana na terra. Chauvin é director de pesquisas do Instituto de Altos Estudos de Paris. Menciono este dado a seu respeito para dizer da sua qualificação científica. 

O que nos é útil neste problema é verificar, através de dados científicos, que o formalismo religioso, como o social e o das chamadas sociedades ocultas não provêm de uma revelação divina, mas do impulso vital que, passando através das espécies animais, se projectou e desenvolveu no homem. O sacerdote que se paramenta para uma cerimónia religiosa, o maçom que veste os seus símbolos para uma sessão da loja, o universitário que enverga a sua beca para a formatura, todos, talvez não saibam que repetem processos antiquíssimos – evidentemente refinados pela tradição humana –, que procedem de ritos animais de milhões de anos antes da aparição do homem no planeta. Isso pode desapontar a nossa vaidade, mas servirá para nos lembrar a humildade. Não somos seres privilegiados na Terra. Somos os últimos rebentos de uma evolução multimilenar daquilo que, no Espiritismo, se chama princípio inteligente, o espírito que estrutura a matéria e através dela se desenvolve, despertando as suas potencialidades ocultas e fazendo-as passar de potência a acto, da possibilidade à realidade. 

Num trabalho curioso sobre a origem dos rituais na Igreja e na Maçonaria, Helena Blavatsky explica a procedência agrária dos ritos principais das religiões e das ordens ocultas. Os estudos de James Frazer, François Berge, René Hubert e outros mostram a relação directa dos ritos humanos com os ritmos da Natureza: a sucessão dos dias e das noites, dos anos, das estações, das gerações. Esses ritmos naturais parecem reflectir-se nos mecanismos da vida em formação e da inteligência em desenvolvimento. O instinto de imitação produz os ídolos grotescos das tribos e mais tarde as imagens artísticas das igrejas, enriquecidos pela imaginação criadora. Pestalozzi tinha razão em dividir as religiões em duas: as animais e as sociais, que correspondem às primitivas e às civilizadas. Nas primeiras ainda imperam os instintos animais, nas segundas as forças centrípetas da aglutinação social, gerando o sócio-centrismo das culturas antigas. Todas essas religiões são de elaboração telúrica, ligadas aos ritmos da terra. Mas Pestalozzi, mestre de Kardec, admitia uma religião superior, desligada dos elementos materiais, a que chamava apenas de Moralidade, para a não confundir com as anteriores. Essa, a religião espiritual que o seu discípulo iria formular, com base nas revelações dos espíritos. Nela, por ser espiritual, não há ritos nem mitos, nem sacerdotes nem altares, nem mesmo dogmas de fé, pois a religião espiritual fundamenta-se na razão e liberta-se dos ritmos telúricos que impregnam a emotividade humana. Bergson aflorou o mesmo problema no seu estudo sobre as fontes naturais da moral e da religião. 

Passar do rito à palavra é rodar no mesmo círculo. Ambos pertencem ao campo da linguagem. Quando falamos de linguagem abrangemos todas as formas de expressão. Se perguntarmos como nasceu a linguagem, a resposta leva-nos à mesma origem do rito. A diferença é apenas de forma. Enquanto o rito pertence ao campo da mímica, da gesticulação e portanto das expressões por meio de sinais corporais, a palavra pertence ao campo do som, da voz articulada. Por isso, a partir das pesquisas de Pavlov sobre psicologia animal e da formulação teórica de Watson sobre a psicologia do comportamento (Behaviorismo) predominou a tese da linguagem corporal, segundo a qual não falamos apenas com palavras, mas também com os movimentos do corpo. Não obstante, a palavra conserva o domínio da expressão do pensamento, tendo a mímica e a gesticulação como elementos acessórios de expressão. Não importa que a mímica ou a atitude de quem fala possa, não raro, modificar o própria sentido da palavra. No centro do processo de comunicação permanece a palavra como o seu elemento essencial. 

O problema da origem da palavra confunde-se com o da origem da mímica e do rito. Ao apontamos com o dedo um objecto estamos referindo-nos a ele. A palavra faz o mesmo: refere-se a um objecto. Surgiu, portanto, com o desenvolvimento da inteligência e a necessidade de comunicação. Cada palavra é um signo, um sinal, um gesto oral. Não apareceu milagrosamente na Terra, mas pelo esforço do homem na elaboração dos seus instrumentos de comunicação. 

As religiões formalistas dão à palavra um carácter divino e consideram os textos religiosos como a Palavra de Deus. Mas é evidente que Deus, o Ser Absoluto, não necessita dos meios relativos de comunicação de que necessitamos. No Espiritismo considera-se a linguagem dos seres superiores como apenas mental. Os espíritos falam por telepatia. A linguagem telepática é a do pensamento puro que costumamos traduzir em palavras. Por sinal que a palavra telepatia não quer dizer apenas transmissão mental de palavras, mas transmissão do pathus individual de cada um, dos seus pensamentos e das suas emoções, de todo o seu estado psíquico num dado momento. Bastaria isso para nos mostrar a riqueza da linguagem telepática. A palavra de Deus, ou seja, a sua forma de expressão, teria de ser ainda muito mais rica e complexa. 

Psicologicamente podemos figurar assim o mecanismo da palavra: temos uma sensação provocada por um estímulo exterior ou interior, essa sensação produz no nosso íntimo, na nossa afectividade, uma emoção e na nossa vontade uma volição, um impulso de expressá-la, que provoca na mente uma ideia daquilo que sentimos, um conceito que se traduz em um ou em vários sons articulados que constituem uma palavra. Se quisermos gravar essa palavra temos de recorrer às letras de um alfabeto. Servimo-nos assim da linguagem oral e da linguagem escrita para dizermos alguma coisa. O pensamento foi traduzido em sons e depois em letras. – Como é que podemos aceitar que a palavra de Deus esteja num livro? Isso equivaleria a submeter Deus ao nosso condicionamento humano. 

Por outro lado, costumamos dizer que a palavra é criadora, tem o poder de criar. Por isso se acredita que Deus criou o mundo pela palavra. Trata-se de uma alegoria, de uma simples imagem, mas as igrejas exigem que aceitemos essa imagem como realidade. A imagem é bela e podemos aceitá-la coma imagem. Deus disse: Faça-se a Terra e ela se fez. Mas se tomarmos isso à letra caímos no absurdo. Deus fala na nossa consciência e no nosso coração, mas não fala por palavras, nem em linguagem humana. Fala na sua linguagem divina, na sua linguagem de Deus. Podemos compreender isso? Sim, se dermos atenção à voz de Deus em nós, que nos fala por intuições, pressentimentos, emoções. Ele toca as nossas teclas internas e soamos como um piano. Mas quem poderia escrever o que Ele nos diz. Nós, propriamente, não o poderíamos fazer. 

Muitas pessoas ilustradas, doutoradas, ordenadas em cerimónias religiosas não compreendem isso. Esperam a voz de Deus como a de alguém que falasse através da linguagem humana. E, podem ouvir uma voz que lhes fala no silêncio, como ouvem milhões de pessoas diariamente. As pesquisas actuais da telepatia mostram que isso é possível e até mesmo natural. Podemos receber comunicações telepáticas de criaturas vivas e de criaturas que já morreram. Porém, se esperamos a voz de Deus como voz humana, certamente aceitaremos que Deus nos falou... E, esse é o perigo dos que procuram comunicar-se com Deus através de processos artificiais. Deus fala-nos naturalmente, quando estamos em condições de ouvir a sua voz. Mas, só ele sabe quando estamos nessas condições. Os que querem ouvir a voz de Deus a qualquer preço geralmente acabam pagando o alto preço do fanatismo ou da obsessão pela voz de um espírito inferior. Uma experiência de Deus que pode mandar-nos para o inferno das perturbações aqui mesmo, na Terra. 

Mas se estamos a pensar em Deus, dirá o leitor, como podemos ser assediados por vozes intrusas? Quando pensamos em Deus com pretensões descabidas, desejando ser melhores que os outros, separar-nos do rebanho dos impuros, arriscamo-nos a ficar sozinhos. Os fariseus orgulhosos oravam no Templo e nas esquinas das ruas, julgando-se os privilegiados de Deus, mas Jesus chamou-os de hipócritas, sepulcros caiados e cheios de podridão por dentro. Deus não faz acepção de pessoas. 

De nada valem os rituais pomposos que só nos lembram as épocas de falso esplendor dos homens que se diziam ungidos e coroados por Deus. De nada vale a leitura dos livros sagrados para nossa salvação pessoal, ajeitando-nos comodamente no carro particular dos eleitos. Deus não quer a fidelidade forçada dos filhos que ele criou para herança divina através das experiências da vida. O seu plano mostra-se evidente no espectáculo do mundo. Passam as gerações e as civilizações na roda das ilusões, mas Deus espera paciente por cada um de nós. Precisamos compreender que somos criaturas em evolução e que se Deus nos colocou no mundo não foi pelo pecado ingénuo de Adão e Eva, mas porque precisamos evoluir através das experiências da vida. Todos nós fomos feitos do mesmo barro, segundo a alegoria bíblica que o Espiritismo explica de maneira tão grandiosa e tão lógica. – Somos parte da obra de Deus e não fomos destinados à perdição, mas à salvação. Mas não é através de ritos e palavras que podemos livrar-nos dos nossos erros. Temos de acertar, de corrigir-nos. Deus espera-nos. 

Não devemos extraviar-nos nas ilusões da Terra, para não retardar a nossa evolução para Deus. Entre essas ilusões estão a da santidade fácil, a da hipocrisia que nos leva a considerar-nos melhores que a maioria, a da pretensão de podermos passar através de ritos e sacramentos ao mundo dos eleitos, a audácia de querermos ouvir a voz de Deus em particular, enquanto ela soa no mundo para todos ouvirem. O maior pecado é o da fuga à vida, às experiências que nos desafiam. Nascemos para viver a vida e precisamos vivê-la sem apego às coisas do mundo, mas sem rejeição ao mundo, que é obra de Deus. Esse equilíbrio difícil é o objectivo da nossa ginástica existencial. Jesus preferiu Zaqueu e Madalena aos doutores do Templo, não condenou a mulher adúltera nem a enviou aos juízes do Sinédrio, aconselhando-a apenas a afastar-se da vida desregrada. Não adianta procurarmos Deus em longas meditações, recusando o caminho que ele mesmo nos deu para irmos ao seu encontro: o da vida honesta e cheia de amor e compreensão para com todos os nossos companheiros de existência terrena. A Terra é a nave celeste que Deus nos deu para alcançarmos as muitas moradas da Casa do Pai. 

/… 


José Herculano Pires, Agonia das Religiões, Capítulo 12,  Rito e Palavra, 12º fragmento desta obra 
(imagem de contextualização: Paraíso Perdido, estudo do Anjo, lápis e giz de Alexandre Cabanel)

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

~ em torno do mestre


Soou a hora ~ 

O método de pesquisar a verdade científica é o mesmo que deve ser empregado na conquista da verdade religiosa. 

Não há dois processos diferentes de aprendizagem. O natural é um só. Indagar, deduzir, experimentar, confrontar, observar  eis os meios para chegarmos à solução dos problemas científicos e religiosos. 

Não há religião fora da Ciência e, não há ciência fora da Religião. Se é certo que há ciência na Física, na Química, na Astronomia e nas Matemáticas, há sabedoria e, muito grande, na bondade de coração, na integridade de carácter, no espírito de justiça, no cumprimento do dever, no altruísmo, na renuncia e no sacrifício próprio em prol do bem colectivo e da felicidade de todos. E estas coisas são o fruto da árvore da redenção plantada no cume do Calvário pelo Cristo de Deus. A ciência que proscreve a virtude não é ciência: é vaidade. A religião que proscreve a Ciência não é religião: é superstição. 

Já não estamos no tempo dos dogmas e dos rituais. O imperialismo já não domina, quer na Ciência, quer na Política, quer na Religião. O homem ambiciona agir com liberdade, um direito inalienável que Deus concede a todos. O mundo reclama uma religião que melhore as condições sociais, regenerando o indivíduo. A Humanidade está farta de Borlas e de promessas falaciosas: ela quer os frutos. 

A salvação e a condenação já se tornaram termos vazios de sentido. O mundo actual pede factos concretos que possam ser observados na esfera social, no cenário terreno; A religião que não melhora e o homem não salva o espírito; O credo que não tem poder para reformar os costumes, que é incapaz de conter a onda do vício e do crime que ora invade a sociedade, já não merece crédito, nem pode ser levado a sério; Não garante o futuro quem não tem acção sobre o presente; Quem não faz o menos, não fará, com maior razão, o mais. 

Não importa que certas instituições hajam conseguido prestígio no passado e disso se vangloriem na actualidade. O momento actual reclama uma nova fé, uma força nova, viva, forte, capaz de conjurar os males e os flagelos que arrastam a Humanidade ao abismo. 

"Águas passadas não movem moinho." Não será com as tradições que venceremos os inimigos do homem desta época: o vício, o crime, a cobiça, a ambição, a fraude, a hipocrisia, a ociosidade. A religião que se torna estática e estéril é religião morta que pede o Requiescat in pace. Necessitamos de fé, dessa fé que é dinamismo, que é energia incoercível e cuja eficácia se revela em factos palpáveis, concretos. 

A época não é de discussões, nem de controvérsias, é de factos. Quem é bom, trate de ser melhor; e quem é mau há de revelar no mais alto grau as suas maldades. Todos os homens são convidados agora a se manifestarem tais quais são na realidade. "Nada há encoberto que não seja descoberto." "É preciso que haja escândalos, mas ai daqueles por quem o escândalo vem." As máscaras vão cair. Não se tolerará a hipocrisia. O que houver oculto, no coração do homem, virá à luz meridiana. Dai porque as organizações, baseadas nas exterioridades e nas encenações, cairão por terra. Mas geraram corrupção, fanatismo e hipocrisias. Os chamados intelectuais chegaram, por isso, a negar a eficiência e o valor da fé. Encaram a religião e as demais instituições sociais como coisas que se prestam unicamente a iludir a credulidade dos simples e serem explorados pelos sábios e entendidos. 

"A hora vem e agora é", em que o Filho do homem reivindicará os legítimos direitos que lhe são devidos, pois esses direitos foram conquistados com a efusão do seu sangue. 
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A crise ~ 

O mundo, todo, está em crise e, crise original. Original e paradoxal, visto tratar-se de crise de abundância. 

Há excesso de produtos em toda a parte. Todos os países estão com os seus mercados a abarrotar. A crise provém exactamente dessa estagnação. 

O mundo está doente e, gravemente: é portador de adiantada esclerose. As suas artérias estão enferrujadas. A circulação faz-se penosamente. Os aneurismas ameaçam romper a todo o momento. Estamos diante de um doente que os médicos classificam como — caso perdido. 

Não haverá, de facto, remédio para o estado actual da Humanidade? — Pensamos que sim. Basta que se procure a causa e sobre ela se actue, ao contrário de tratar somente dos efeitos, como se tem feito até aqui. Sublata causa, tolitur effectus. (Eliminada a causa, desaparece o efeito). 

A nosso ver, a origem do mal, ou, pelo menos — uma das causas — está na política económica fundamentalmente egoísta adoptada pelas nações, em geral. 

Inspirados nesta política desastrosa, cada país pretende defender os seus interesses particulares, com menosprezo do interesse colectivo. 

Na questão económica, não há interesse particular, ou isolado, é por isso que todas as nações são igualmente interessadas. Há, realmente, um interesse único: o interesse colectivo. 

O egoísmo impede que se veja com clareza esse facto tão simples. É assim que o egoísmo de cada nação, pretendendo defender-se, se vai comprometendo; pretendendo juntar, vai espalhando; pretendendo fortificar e sustentar a obra financeira, se vai escondendo  nas suas bases e fundamentos. 

Exemplifiquemos: 

As leis naturais, que são divinas, revelam-nos o seguinte: Os países, pelas suas condições geográficas, topográficas e climatéricas, fornecem-nos determinados produtos. O Brasil produz café, a Argentina trigo, Espanha, Portugal e França produzem frutas, azeite, vinhos, etc. O México tira do seu subsolo gasolina, querosene, óleos lubrificantes. 

Certas nações, pela exiguidade do seu território, pela densidade das suas populações e por outras circunstâncias, tornam-se manufactureiras, fazendo da indústria a sua fonte principal de riqueza. 

Ora, assim sendo, o bom senso está a indicar que o modus vivendi entre os povos deve ser o da livre troca de produtos. É a lição da própria Natureza. Tudo o que contribua para atrapalhar a circulação das diferentes produções, acabará por afectar os organismos internacionais na sua parte económico-financeira. Outra coisa não tem feito a egoística política vigente. Cada nação se fortifica nos seus domínios, fechando virtualmente os seus portos aos produtos estrangeiros. Todas querem vender, nenhuma quer comprar. Exportar, sim; importar, nunca. Os impostos proibitivos de parte a parte determinaram a esclerose e os aneurismas de que se encontram atacados os organismos económico de todos os povos. 

De tal sorte se explicam as superabundâncias de produtos a abarrotar nos mercados mundiais, como também, a seu turno, o número crescente de desempregados. 

Desobstruam-se as artérias, promova-se a livre circulação dos produtos e, ver-se-á, com espanto, que o moribundo abre os olhos, desperta, dando, desde logo, sinais de melhoras e esperança no restabelecimento. 

Está visto que, dada a gravidade do mal, o remédio deve ser aplicado com justeza e proficiência, o estado do doente é melindroso. A terapêutica deve ser ministrada por mãos hábeis e competentes. 

Uma das soluções para o caso não pode deixar de ser esta: Temos que mudar de política económica. Da política vesga, materialista, estreita e mesquinha, inspirada no egoísmo, cumpre evolvermos para a política da solidariedade, altruísta, natural e cristã. 

Sem a luz dos factores morais, nenhum problema da vida humana se resolverá satisfatoriamente. 
~

Deus, Justiça, Evolução ~ 

Que significado pode ter a evolução se os seres inferiores não evolvem para espécies superiores? Onde está a eficiência desta lei eterna e incoercível se os seres tiverem de permanecer eternamente ligados ao estado e às condições em que os conhecemos no momento actual? 

Não temos, por acaso, para refutar aquela hipótese, o facto incontestável das profundas modificações verificadas entre os animais de hoje, em comparação com os do passado? Mesmo o género humano não escapa a estas alterações. Os homens, como os animais da actualidade, divergem dos homens e dos animais de outrora. Destes últimos, várias espécies desapareceram do teatro terreno, existindo apenas exemplares nos museus. Outras variedades há que existiram em épocas remotas e só lograram chegar ao nosso conhecimento através de vestígios fósseis. 

A criação é uma cadeia infinita cujos elos se entrelaçam num movimento ascensional constante. Não podemos, naturalmente, ver e palpar esse entrelaçamento gradual e progressivo dos seres, porque o orbe em que habitamos não passa de uma nesga ou fracção diminuta do Universo. 

Os elos da infinita cadeia se conjugam no incomensurável cenário da vida universal. Podemos imaginar este fenómeno, podemos concebê-lo, mercê da nossa inteligência e do nosso raciocínio, mas não nos é dado comprová-lo neste mísero recanto que agora nos hospeda. 

A escada que Jacob (i) viu nos sonhos, quando a caminho da Mesopotâmia, é a imagem fiel da evolução. Por essa escada, cujas extremidades se apoiavam, respectivamente, uma na Terra, outra no Céu, subiam e desciam os Espíritos. A escada com os seus múltiplos degraus, alegorizava, claramente as várias etapas do progresso que os Espíritos vão galgando na conquista aurifulgente dos seus destinos. 

A Terra não está insulada no céu. Tudo, na criação, é solidário, como solidárias são as células do nosso corpo. 

Os mundos e os sóis, os planetas e os astros, os anjos e os homens, animais e plantas — todas as modalidades de vida, da mais simples e rudimentar à mais complexa e elevada, sobe a escada maravilhosa da evolução como hino triunfal que a Natureza entoa à sabedoria infinita e ao amor incomparável de Deus. 

O grande naturalista Darwin, conquanto se mantivesse exclusivamente no terreno da Biologia, averiguou a veracidade da evolução através das variadas espécies animais anatomicamente estudadas. Gabriel Delanne, o pensador profundo, o espiritualista abalizado, na sua obra majestosa — Evolução Anímica — firma, com dados positivos, o conceito, hoje indiscutível, do progresso de todos os seres numa empolgante peregrinação pela senda interminável do aperfeiçoamento. Wesley, protestante, fundador da igreja metodista, era partidário da evolução. Raciocinando, certa vez, sobre a sorte dos animais, teve este pensamento, próprio de uma alma cristã, de um coração amorável e justo: "Meu Deus! certamente tens concedido aos animais a faculdade de melhorar. Acredito que eles não permanecerão no estado de inferioridade em que hoje os conhecemos." 

A evolução é um facto que se impõe e, que em tudo se verifica. No campo do subjectivo ela se ostenta também nas demonstrações e testemunhos irrefutáveis. A imprensa de Gutenberg evoluiu para as Marinoni, essas máquinas admiráveis, verdadeiros prodígios da mecânica moderna. Os barcos de Fulton evolveram, a seu turno, para essas naus possantes, para os transatlânticos que são cidades flutuantes unindo os continentes. A ideia de Gutenberg e a de Fulton, para citar apenas dois exemplos, emigraram de cérebro em cérebro de geração em geração, subindo, ascendendo aos altos paramos do aperfeiçoamento. E, certamente não se cristalizarão aí. O futuro, em todos os tempos trouxe sempre no seu bojo surpresas maravilhosas. 

Creio na evolução porque creio na justiça. Creio na justiça porque creio em Deus! 

/... 

"Aos que comigo crêem e sentem as revelações do Céu, comprazendo-se na sua doce e encantadora magia, dedico esta obra. 
                                                                                     Pedro de Camargo “Vinícius” 

Pedro de Camargo “Vinícius” (i)Em torno do Mestre, Primeira Parte / Seixos e Gravetos; – Soou a hora, – A crise, – Deus, Justiça, Evolução, 9º fragmento da obra. 
(imagem de contextualização: Jesus em casa de Marta e Maria, óleo sobre tela, pintura de Johannes Vermeer)

domingo, 11 de outubro de 2020

Hippolyte Léon Denisard Rivail


A Caridade 
(Sociedade de Estudos Espíritas, Paris, sessão de 8 de Junho de 1858) 

Pelo Espírito São Vicente de Paulo (*) 

Sede bons e caridosos, eis a chave do Céu, posta em vossas mãos. Toda a felicidade eterna está contida nesta máxima: “Amai-vos uns aos outros.” Não pode a alma elevar-se às regiões espirituais senão pela dedicação ao próximo; ela não encontra felicidade e consolação senão nos arroubos da caridade. Sede bons, ajudai os vossos irmãos, ponde de lado essa horrível chaga do egoísmo. Esse dever cumprido vos abrirá as vias da felicidade eterna. Aliás, quem dentre vós não sentiu já o coração pulsar e a sua alegria íntima se expandir pela prática de uma obra de caridade? Não deveríeis pensar senão nesta espécie de volúpia proporcionada por uma boa acção, com o que permaneceríeis sempre no caminho do progresso espiritual. Não vos faltam exemplos. Só a boa vontade é que é rara. 

Vede a multidão de homens de bem, cuja lembrança piedosa a vossa história relembra. Eu poderia citar aos milhares aqueles cuja moral não tinha por objectivo senão melhorar o vosso globo. Não vos disse o Cristo tudo quanto concerne às virtudes da caridade e do amor? Por que são postos de lado os seus divinos ensinamentos? Por que os ouvidos são tapados às suas divinas palavras e o coração é fechado para todas as suas máximas suaves? 

Eu gostaria que a leitura do Evangelho fosse feita com mais interesse pessoal. Mas abandonam esse livro; transformam-no em expressão vazia e letra morta; deixam no esquecimento esse código admirável. Os vossos males provêm do abandono voluntário em que deixais esse resumo das leis divinas. Lede, pois, essas páginas de fogo do devotamento de Jesus e meditai-as. Eu mesmo me sinto envergonhado de ousar prometer-vos um trabalho sobre a caridade, quando penso que nesse livro encontrais todos os ensinamentos que vos devem levar às regiões celestes. 

Homens fortes, armai-vos; homens fracos, forjai as vossas armas da vossa doçura e da vossa fé; tende mais persuasão, mais constância na propagação da vossa nova doutrina. Nós só vimos trazer-vos um encorajamento; é apenas para vos estimular o zelo e as virtudes que Deus permite nos manifestemos a vós. Mas, se quisésseis, não necessitaríeis senão do auxílio de Deus e da vossa própria vontade. As manifestações espíritas não foram feitas senão para os olhos fechados e para os corações indóceis. Há, entre vós, homens que devem realizar missões de amor e de caridade: escutai-os, exaltai a sua voz; fazei resplandecer os seus méritos e vós próprios sereis exaltados pelo desinteresse e pela fé viva de que vos impregnarão. 

Muito extensos e detalhados seriam os conselhos que vos deveriam ser dados sobre a necessidade de alargamento do círculo de caridade; sobre a inclusão nesse círculo de todos os infelizes cujas misérias são ignoradas; sobre todas as dores que devem ser procuradas nos seus próprios redutos, para consolá-los em nome dessa virtude divina, a caridade. Vejo com satisfação quantos homens eminentes e poderosos colaboram na busca desse progresso que deve reunir todas as classes humanas: os felizes e os desgraçados. Coisa estranha! Todos os infelizes se dão as mãos e se ajudam reciprocamente na sua miséria. Por que os felizes demoram tanto para ouvir a voz do infeliz? Por que se torna necessária uma poderosa mão terrena para dar impulso às missões de caridade? Por que não respondem com mais ardor a esses apelos? Por que permitem que a miséria, como por prazer, macule a imagem da Humanidade? 

A caridade é a virtude fundamental que deve sustentar todo o edifício das virtudes terrenas. Sem ela não existem as outras. Sem caridade não há fé nem esperança, porque sem a caridade não há esperança de uma sorte melhor nem interesse moral que nos guie. Sem a caridade não há fé, porque a fé é um raio puro que faz brilhar uma alma caridosa; ela é a sua consequência decisiva. 

Quando deixardes que o vosso coração se abra à súplica do primeiro infeliz que vos estender a mão; quando lhe derdes sem lhe perguntar se a sua miséria é fingida ou se o seu mal tem um vício como causa; quando deixardes toda a justiça nas mãos de Deus; quando deixardes a cargo do Criador o castigo de todas as falsas misérias; enfim, quando praticardes a caridade só pelo prazer que ela proporciona, sem questionardes a sua utilidade, então sereis os filhos que Deus amará e que chamará para si. 

A caridade é a âncora eterna de salvação em todos os globos; é a mais pura emanação do próprio Criador; é a sua própria virtude, que ele dá às criaturas. Como poderíeis desconhecer essa suprema bondade? Com tal pensamento, qual seria o coração suficientemente perverso para recalcar e repelir esse sentimento divino? Qual seria o filho suficientemente mau para se rebelar contra a doce carícia da caridade? 

Não ouso falar daquilo que fiz, porque os Espíritos também têm pudor das suas obras. Mas penso que a obra que iniciei é uma daquelas que devem contribuir, muito, para aliviar os vossos semelhantes. Com frequência vejo Espíritos que pedem a missão de continuar a minha obra; vejo as minhas suaves e queridas irmãs no seu piedoso e divino ministério; vejo-as a praticar a virtude que vos recomendo, com toda a alegria proporcionada por essa existência de devotamento e de sacrifícios. É para mim grande felicidade ver quanto o seu carácter é honrado; quanto a sua missão é apreciada e docemente protegida. Homens de bem, de boa e forte vontade, uni-vos para continuardes ampliando a obra de propagação da caridade. Encontrareis a recompensa dessa virtude pelo seu próprio exercício. Não há alegria espiritual que ela não proporcione, já na presente existência. Sede unidos; amai-vos uns aos outros, conforme os preceitos do Cristo. Assim seja. 

(Dirigindo-nos à entidade comunicante). 

─ Agradecemos a São Vicente de Paulo a boa e bela comunicação que teve a bondade de nos dar. 
Resp. ─ Gostaria que fosse proveitosa a todos. 

─ Poderíeis permitir-nos algumas perguntas complementares a respeito do que acabastes de dizer? 
Resp─ Certamente, pois o meu objectivo é esclarecer-vos. Perguntai o que quiserdes. 

1. ─ A caridade pode ser compreendida de duas maneiras: a esmola propriamente dita e o amor aos semelhantes. Quando nos dissestes que era necessário abrir o coração ao pedido do infeliz que nos estende a mão, sem lhe perguntar se a sua miséria é fingida, não quisestes falar da caridade do ponto de vista da esmola? 
Resp. ─ Sim, apenas nesse parágrafo. 

2. ─ Dissestes que deveríamos deixar à justiça de Deus a apreciação de falsa miséria. Entretanto, parece-nos que dar sem discernimento àqueles que não necessitam ou que poderiam ganhar a vida por um trabalho honesto, é encorajar o vício e a preguiça. Se os preguiçosos encontrassem facilmente aberta a bolsa alheia, multiplicar-se-iam ao infinito, em prejuízo dos verdadeiramente necessitados. 
Resp. ─ Podeis identificar os que podem trabalhar e então a caridade vos obriga a tudo fazer para lhes proporcionar trabalho. Entretanto, também há pobres mentirosos, que sabem muito bem simular misérias que não padecem. Esses é que devem ser deixados à justiça de Deus. 

3. ─ Aquele que pode dar apenas um centavo e que pode escolher entre dois infelizes que lhe pedem, tem o direito de inquirir qual deles é realmente necessitado, ou deve dar sem exame ao que chega primeiro? 
Resp. ─ Deve dar àquele que parece sofrer mais. 

4. ─ Não se deve considerar como parte da caridade a maneira de a fazer? 
Resp. ─ É sobretudo na maneira de a fazer que está o mérito da caridade. A bondade é sempre indício de uma alma bela. 

5. ─ Que tipo de mérito reconheceis naqueles geralmente chamados benfeitores rabugentos? 
Resp. ─ Fazem o bem apenas pela metade. Os seus benefícios são recebidos, mas não comovem. 

6. ─ Disse Jesus: “Que a vossa mão direita não saiba o que faz a esquerda.” Têm algum mérito aqueles que dão por ostentação? 
Resp. Têm apenas o mérito do orgulho, pelo qual serão punidos. 

7. ─ A caridade cristã, na sua mais larga acepção, não compreende também a doçura, a benevolência e a indulgência para com as fraquezas alheias? 
Resp. ─ Fazei como Jesus. Ele vos disse tudo isso. Escutai-o mais do que nunca. (**) 

8. ─ É bem entendida a caridade, quando exclusiva entre as criaturas da mesma opinião ou do mesmo partido? 
Resp. ─ Não. É sobretudo o espírito de seita e de partido que deve ser abolido, porquanto todos os homens são irmãos. É sobre isso que concentramos os nossos esforços. 

9. ─ Admitamos que uma pessoa veja dois homens em perigo, mas não possa salvar senão um. Um é seu amigo e o outro, inimigo. A quem deve ele salvar? 
Resp. ─ Deve salvar o amigo, pois esse amigo poderia acusá-lo de não lhe ter amizade. Quanto ao outro, Deus (inteligência directriz)*** se encarregará. 

/… 
(*) Esta instrução de São Vicente de Paulo, com algumas modificações que a reduziram, foi inserida por Allan Kardec em O Evangelho segundo o Espiritismo. Corresponde, na edição definitiva de 1866, ao capítulo XIII, item 12. 
(**) Vide questão 886, de O Livro dos Espíritos
(***) Adenda desta publicação.


Allan Kardec (i), aliás, Hippolyte Léon Denisard Rivail, A Caridade, pelo Espírito São Vicente de Paulo (Sociedade de Estudos Espíritas, sessão de 8 de Junho de 1858 / Publicada na Revista de Agosto), Revista Espírita – Jornal de Estudos Psicológicos, Paris, 8º fragmento da Revista objecto do presente titulo desta publicação. 
(imagem de contextualização: Dança rebelde, 1965 – Óleo sobre tela, de Noêmia Guerra)

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

~~~Párias em Redenção~~~


~~ O JULGAMENTO SOB O AÇODAR* DA CONSCIÊNCIA
(III de III) 

Na mente de Girólamo, em crescente desejo de reparar e diminuir as dores excessivas, surgiu um intercâmbio benéfico, de cuja continuidade resultariam os planos libertadores, para o futuro, de todos os implicados nas sucessivas tragédias. 

Assim, algumas décadas passadas, a duquesa conseguiu dos Espíritos Superiores que Dom Giovanni e Girólamo fossem recolhidos das penosas circunstâncias em que se encontravam, para reiniciarem a caminhada, recuperarem o tempo e a se reaparelharem para a vida. Na mesma dimensão de misericórdia foi o apelo estendido a Assunta e a Carlo, que sofriam noutros recintos a desídia da loucura pessoal decorrente das desregradas existências. 

Considerados os títulos da benigna senhora, os infelizes foram, cada um a sua vez, recolhidos dos tormentos em que se debatiam e levados a esferas de refazimento, pois que enxameiam, também, os pousos de paz e os redutos de reconforto, onde os trânsfugas se retemperam para o amanhã, lares de amor e misericórdia onde vigem as concessões da ventura, multiplicados em nome do Sumo Pai para o exercício da virtude e as experiências do bem, quais escolas de luz e hospitais de recuperação, em que se amparam todos aqueles que, mesmo inveterados criminosos, aspiram à redenção, dispostos ao tributo do recomeço na Terra da sua anterior desventura. 

Recebidos em recintos próprios, considerando as diversas enfermidades de que se faziam portadores, face ao desrespeito das Leis, passaram a tratamento generoso, através dos tempos, enquanto se lhes refaziam os centros do perispírito desgovernado e se medicavam as imensas feridas da alma. 

O sacerdócio da cura exige largo período junto ao leito dos portadores dos profundos males que destroçam os tecidos delicados da estrutura perispiritual. 

Vivendo os pesadelos dos antros em que se encontravam anteriormente, traduziam a loucura que deles se apossara e que deveria ser dirimida à força de muita caridade, para que o reinício na Terra, em nova provação, lhes concedesse o retempero de ânimo, porquanto, se a Justiça da Terra invariavelmente tem a preocupação de punir, sem nunca retribuir ao amor e à rectidão, por considerar que tal é dever, a Justiça Divina objectiva corrigir e amparar, estimulando todos os pródromos da esperança, a fim de que se multiplique e transforme em sementeira de abundante reconforto e paz. 

Só a pouco e pouco Girólamo passou a dormir, recolhido a longa hibernação, na qual se apagariam as impressões gravadas na mente desvairada. 

O duque, igualmente hospitalizado, foi tratado pelo carinho de enfermeiros sábios que buscaram frenar a ardência e a volúpia do ódio sob os pensos do sono refazedor e calmante. 

Assunta, devidamente atendida, começou a experimentar assistência maternal e amiga, a fim de despertar-lhe os sentimentos superiores da feminilidade, em promessas redentoras para o futuro. 

E Carlo, igualmente socorrido, ele que se permitira penetrar na trama daqueles destinos, foi medicado nas lesões danosas que o martirizavam, preparando-se todos, sem o saberem, para novas incursões na carne bendita, onde expungiriam, pelo imperativo do renascimento, os erros, formando a família da fraternidade, que é o primeiro passo para a família do amor. 

Graças ao sublime concurso do amor, através do paulatino transcorrer do tempo, aqueles espíritos rebeldes, à semelhança de milhões de outros tantos, mergulhavam nas dúlcidas águas dos rios do sono, para que fossem diminuídas, a princípio, e apagadas depois, quanto possível, as impressões muito dolorosas causadas pelos períodos longos de perversidade a que se entregaram. 

Enfermeiros abençoados, que fazem da existência o miraculoso recurso do auxílio ao próximo, desdobravam-se nas enfermarias em que se encontravam internados, aplicando-lhes recursos múltiplos de refazimento, atenuando no perispírito os efeitos das calamidades vividas, especialmente em Girólamo, de modo a reajustá-lo para o tentame futuro sem violento comprometimento da matéria de que deveria revestir-se, resgatando, em etapas, os graves compromissos firmados com a ferocidade e o vandalismo. 

Quando lhe permitiam os deveres superiores, a senhora os visitava, oferecendo-se para atendê-los, aplicando-lhes valiosos fluidos de refazimento e meditando à cabeceira do esposo profundamente hibernado – tratamento de grande significação para o estado de desvario a que o mesmo se permitia entregar. 

Naqueles momentos, conquanto a elevação de que era portadora, não adormecia as lágrimas, e pérolas transparentes rolavam, falando das suas dores perante os lances de agonia e sombra por onde deveriam recomeçar aqueles amores. 

Acontece que não há céu para quem tem na retaguarda os seres queridos, perdidos nos dédalos da treva. 

O Reino de Venturas seria um lugar deserto, caso ali não estivessem os anelos do coração, representados por aqueles outros espíritos amados, a quem todos nos entregamos e em cujo concurso sublime defrontamos a alegria de lutar e o estímulo constante para crescer. 

Dir-se-á que a felicidade é uma conquista pessoal e intransferível. Todavia, ninguém suporta vencer os múltiplos estágios da purificação se não colocar o ideal do amor como meta próxima e remota. Próxima, na representação do ser vinculado ao sentimento superior e, remota, na dimensão do Cristo, representando o Excelso Amor. 

Face a essa inatingida meta, aquela veneranda mulher, que alcançara a ventura de ser feliz, descia dos Cimos aos baixios, fazendo recordar o sol jornaleiro visitando as furnas, para ministrar luz e vida, sem contaminar-se com a emanação pestilencial do charco que oscula e depura. 

Vendo-a em atitude de reflexão profunda, perante o leito alvinitente do enfermo amado, em que a inconsciência arrancava, de período a período, estertores patológicos que reflectiam as profundas intoxicações espirituais absorvidas no largo período de quase um século, graças ao ódio corrosivo, emanado e absorvido pela fonte mental dele mesmo, não se poderia negar que a felicidade jamais se expressa em regime de solidão, de individualismo, de personificação única. É hálito de luz que se transfunde, enquanto clarifica e liberta das trevas envolventes. 

Os enfermos, todavia, não obstante o carinho de que eram alvo, não conseguiam facilmente anular todo o passado de choques violentos e conúbios degradantes, a que se fixaram fortemente, com outros seres infelizes dos recintos donde procediam. Assim, mesmo amparados, recebiam, não poucas vezes, a visita mental dos antigos comparsas e, nesses momentos, eram dominados por singulares pesadelos que os atormentavam, fazendo-os reviver, através do intercâmbio dos pensamentos afins, as antigas torturas das furnas… 

/… 
* priberam, dicionário: açodar (i). Adenda desta publicação. 


VICTOR HUGO, Espírito “PÁRIAS EM REDENÇÃO” – LIVRO SEGUNDO, 2. O JULGAMENTO SOB O AÇODAR DA CONSCIÊNCIA (III de III), 39º fragmento desta obra. Texto mediúnico, ditado a DIVALDO PEREIRA FRANCO. 
(imagem de contextualização: L’âme de la forêt | 1898, tempera e folha de ouro sobre painel de Edgard Maxence)

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

O Mundo Invisível e a Guerra ~


XX 
Nascimento de um Mundo Novo ~ 

(1 de Dezembro de 1918) 

  A análise que acabamos de fazer nos nossos últimos cinco artigos mostrou-nos como, ao longo de 50 anos, o Espiritismo criou para si um lugar de destaque em todos os domínios da actividade humana. 

  A grande onda que varreu tantos erros e ilusões recolocará muita coisa no seu lugar e a França recuperará o seu papel, a sua missão histórica e a compreensão de seus verdadeiros rumos, isto é, espalhará ideias, verdades e luzes pelo mundo. 

  Os nobres espíritos que zelam por ela e a livraram do perigo aguardam apenas o momento apropriado para utilizar todo o seu poder e então encaminhá-la na rota do seu destino. 

  Como já vimos, já se anuncia enorme reacção espiritualista contra o materialismo e a indiferença do passado e, dentro desse movimento intelectual, o Espiritismo está conclamado a desempenhar um grande papel. 

  Os estudos que ele promove e as convicções que estabelece nunca foram tão oportunas como agora, porque só uma elevada compreensão do mundo, da alma e da vida pode propiciar a serenidade de espírito e a força moral indispensáveis para suportarmos as provações do tempo actual, olhando confiantes para o futuro. 

   Ao iniciar a guerra, a Alemanha e a Áustria não calculavam o abismo de dores que iam produzir e hoje não são apenas os gritos das vítimas que se ouvem, mas também surgem vozes de reprovação de todos os quadrantes do mundo; todas as potências morais se levantaram para acusar e condenar os autores de tantos males. 

    A consciência humana lançou a sua opinião infalível e deseja uma paz baseada na justiça, que garanta a punição dos culpados e impeça a repetição de calamidades semelhantes. 

   Graças ao socorro espiritual, o horizonte se aclara, pouco a pouco e, os acontecimentos tomam direcção favorável à causa do direito. O actual conflito, que poderia ter trazido para a humanidade uma fase de decadência e aviltamento, promete ser um meio de recuperação, desempenhando a França, nessa obra, um importante papel. Ela se destaca aos olhos do mundo pela extensão de seus padecimentos e sacrifícios. 

   Há muito tempo que os seus inimigos lhe haviam preparado a ruína e o esmagamento. Todavia a França está de pé; renascendo sempre, ela segue levando ainda nas dobras de sua bandeira uma grande parte do futuro humano. Resgatada de seus erros e de suas ambições desregradas, ela hoje representa o direito dos fracos e os sagrados direitos do pensamento. 

   Dessa forma todos os povos livres voltam os seus olhos e as suas esperanças para a França e os seus aliados. Se ela fosse vencida, seria o fim da independência de todos, mas com a vitória francesa, o pensamento adquirirá o seu livre curso e se espalhará com intensidade sobre a Terra ensanguentada. 

   Vemos também o nascer de um novo mundo; tudo quanto está reservado para viver e crescer se realiza com sangue e lágrimas, vendo-se surgir as formas ainda vagas e imprecisas de uma humanidade restaurada pela dor, no meio das convulsões de uma terrível guerra. 

   As grandes nações aliadas, no início divididas por interesses económicos e que, sem os actuais acontecimentos nunca se compreenderiam, aglutinaram todos os seus recursos e meios de acção para enfrentar o perigo comum, chamando para seu lado a maior parte dos povos do mundo. 

   Isso determina um entendimento das inteligências e dos pensamentos, uma reunião de caracteres e vontades, plenas de consequências para o futuro do mundo. 

   Os povos dirigem-se para uma solidariedade verdadeira e activa, para uma organização mundial que parece ser a última fase da evolução e do direito. Uma ordem de coisas se estabelece, primeiro uma ordem económica, depois política e, mais tarde, filosófica e moral.

   Em virtude dos rápidos progressos feitos pelo Espiritismo na Inglaterra e na América, há a promessa de que ele se tornará uma doutrina universal, fortalecendo a união de todos num ideal comum. Até a Alemanha, decepcionada e obrigada a renunciar ao seu sonho de dominação brutal, será constrangida a participar do concerto das nações, ocupando apenas o lugar que merecer.

   Aí então a paz e a justiça poderão reinar sobre a Terra. Dia virá em que teremos orgulho de haver vivido numa época que está a preparar tão grandes coisas.

   Louvemos a Deus que sabe extrair a harmonia desse conflito de paixões e de ódios. Lutemos, cada um no limite de suas forças, para preparar melhores tempos para a humanidade. 

/…


LÉON DENIS, O Mundo Invisível e a Guerra, XX Nascimento de um Mundo Novo, 1 de Dezembro de 1918, 35º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Tanque de guerra britânico capturado pelos Alemães, durante a Primeira Guerra Mundial)

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Da sombra do dogma à luz da razão ~


~ Uranografia Geral (*)
O espaço e o tempo ~

| Galileu, Espírito
(Études Uranographi-ques) (I)

~ O espaço e o tempo 🌈

  Têm-se dado várias definições de espaço; a principal é esta: o espaço é a extensão que separa dois corpos. De onde certos sofistas deduziram que onde não houver corpos, não haverá espaço; foi no que se basearam os doutores em teologia para estabelecer que o espaço era necessariamente finito, alegando que corpos limitados num certo número não poderiam formar uma sucessão infinita; e que onde os corpos parassem, o espaço também pararia. Definiu-se também o espaço: o lugar onde os mundos se movem, o vazio onde a matéria age, etc. Deixemos nos tratados onde repousam todas estas definições que não definem nada.

 O espaço é uma dessas palavras que representam uma ideia primitiva e axiomática, evidente por si mesma, e as diversas definições que lhe podemos dar só servem para a obscurecer. Sabemos todos o que é o espaço e eu só quero estabelecer a sua infinidade para que os nossos ulteriores não tenham qualquer barreira a opor-se às investigações da nossa maneira de ver.

 Ora, digo que o espaço é infinito por ser impossível imaginar-lhe um limite e que apesar da dificuldade que temos em conceber o infinito, é-nos no entanto mais fácil viajar eternamente no espaço, em pensamento, que pararmos num sítio qualquer para além do qual não encontrássemos mais extensão a percorrer.

  Para imaginarmos, tanto quanto o permitem as nossas faculdades da Terra, perdida no meio do infinito, em direcção a um ponto qualquer do Universo e isto com a velocidade prodigiosa da faísca eléctrica que percorre milhares de milhas em cada segundo, mal tivéssemos saído deste globo, tendo percorrido milhões de léguas, encontrávamo-nos num sítio de onde a Terra já só nos aparecia com o aspecto de uma pálida estrela. Um instante depois, seguindo sempre a mesma direcção, chegávamos às estrelas longínquas que mal se avistam da nossa estação terrestre; e daí, não só a Terra estaria completamente perdida para o nosso olhar nas profundezas do céu como também o vosso próprio Sol no seu esplendor estaria eclipsado pela extensão que nos separa dele. Animados sempre com a mesma rapidez do relâmpago, atravessávamos estes sistemas de mundos à medida que íamos avançando na vastidão, ilhas de luz etérea, vias estelares, paragens sumptuosas onde Deus semeou mundos com a mesma profusão com que semeou as plantas nas pradarias terrestres.

 Ora, há só alguns minutos que caminhamos e já centenas de milhões e milhões de léguas nos separam da Terra, milhares de mundos nos passaram debaixo dos olhos e, no entanto escutai! Na realidade, não avançamos um único passo no Universo

 Se continuarmos durante anos, séculos, milhares de séculos, milhões de períodos cem vezes seculares e incessantemente com a mesma velocidade do relâmpago, não teremos avançado mais! E isto seja qual for o lado para que vamos e em direcção seja a que ponto for a partir deste grão invisível que deixámos e que se chama Terra.

 É isto o espaço!

 O tempo, tal como o espaço, é uma palavra definida por si mesma; fazemos dele uma ideia mais correcta estabelecendo a sua relação com o todo infinito.

  O tempo é a sucessão das coisas; está ligado à eternidade da mesma maneira que estas coisas estão ligadas ao infinito: imaginemo-nos na origem do nosso mundo, nessa época primitiva quando a Terra não balouçava ainda sob o impulso divino; numa palavra, no início da Génesis. Aí, o tempo não saiu ainda do misterioso berço da natureza; e nada pode dizer em que era de séculos nós estamos, dado que o pêndulo dos séculos não está ainda em movimento.

  Mas silêncio! A primeira hora de uma Terra isolada soa na sineta eterna, o planeta situa-se no espaço e imediatamente passa a haver noite e manhã. Para lá da Terra, a eternidade permanece impassível e imóvel apesar de o tempo avançar para muitos outros mundos.

  Na Terra, o tempo substitui-a e durante uma série determinada de gerações, contar-se-ão os anos e os séculos.

 Transportemo-nos agora até ao último dia deste mundo, à hora em que, curvada ao peso da vetustez, a Terra se apagará do livro da vida para não voltar a aparecer: aqui a sucessão de acontecimentos pára; os movimentos terrestres que mediam o tempo interrompem-se e o tempo acaba com eles.

  Esta exposição simples das coisas naturais que dão origem ao tempo, o alimentam e deixam que se acabe, basta para mostrar que, vista do ponto onde nos devemos situar para os nossos estudos, o tempo é uma gota de água que cai da nuvem para o mar e cuja queda é calculada.

  Quantos os mundos na vasta extensão, outros tantos tempos diversos e incompatíveis. Fora dos mundos, só a eternidade substitui estas sucessões efémeras e preenche pacificamente com a sua luz imóvel a imensidão dos céus. Imensidão sem limites e eternidade sem limites são estas as duas grandes propriedades da natureza universal.

  O olho do observador que atravessa, sem nunca encontrar paragem, as incomensuráveis distâncias do espaço e o do geólogo que recua para além do limite das eras ou que desce às profundezas da eternidade hiante, onde um dia se perderão, agem de acordo, cada qual na sua via, para adquirir essa dupla noção de infinito: extensão e duração.

  Ora, mantendo essa ordem de ideias, ser-nos-á fácil conceber que não sendo o tempo mais do que a relação das coisas transitórias e dependendo unicamente das coisas que se medem, se, tomando os séculos terrestres por unidades, os acumularmos milhares sobre milhares para com eles formar um número colossal, este número nunca representaria mais que um ponto na eternidade; tal como os milhares de léguas juntos aos milhares de léguas não passam de um ponto na vastidão.

  Assim, por exemplo, estando os séculos fora da vida etérea da alma, poderíamos escrever um número tão comprido como o equador terrestre e supormo-nos mais velhos esse número de séculos, sem que na realidade a nossa alma conte um dia a mais; e acrescentando a esse número infindável de séculos uma série extensa como daqui ao Sol de números semelhantes, mais consideráveis ainda, e imaginando-nos a viver durante a prodigiosa sucessão de períodos seculares representados pela adição de tais números, quando chegássemos ao fim, o amontoado incompreensível de séculos a pesarem-nos sobre as nossas cabeças seria como se não existissem: à nossa frente permaneceria sempre a eternidade inteira.

  O tempo não passa de uma medida relativa da sucessão das coisas; a eternidade não é susceptível de qualquer medida do ponto de vista da duração; para ela, não há começo nem fim: para ela tudo é presente.

  Se séculos de séculos são menos que um segundo em relação à eternidade, o que será a duração da vida humana?

                                                                                                           Espírito Galileu
  A matéria

  À primeira abordagem, nada parece tão profundamente variado, tão essencialmente distinto como várias substâncias que compõem o mundo. Entre os objectos que a arte ou a natureza nos fazem todos os dias passar debaixo dos olhos, existem dois que revelam uma identidade perfeita ou somente uma paridade de composição? Que diferença do ponto de vista da solidez, da compressibilidade, do peso e das propriedades múltiplas dos corpos, entre os gases atmosféricos e o fio de ouro; entre a molécula aquosa da nuvem e a do mineral que forma o esqueleto ósseo do globo! Que diversidade entre o tecido químico das plantas variadas que decoram o reino vegetal e o dos representantes não menos numerosos da animalidade sobre a Terra!

  No entanto, podemos colocar como princípio absoluto que todas as substâncias conhecidas e desconhecidas, por muito diferentes que pareçam quer do ponto de vista da sua constituição intima, quer da relação da sua acção recíproca, não são, de facto, mais do que modos diversos sob os quais a matéria se apresenta; em quantas variedades se transformou sob a orientação das inúmeras forças que a governam.

  A química, cujos progressos foram tão rápidos desde a minha época, quando os seus próprios adeptos a relegaram ainda para o domínio secreto da magia, esta nova ciência que podemos com razão considerar filha do século observador e como unicamente baseada, muito mais solidamente que as suas irmãs mais velhas, no método experimental; a química, digo eu, usou bem os quatro elementos primitivos que os Antigos tinham consentido em reconhecer na natureza; mostrou que o elemento terrestre não é mais do que a combinação de substâncias diversas variadas ao infinito; que o ar e a água são igualmente decomponíveis e produto de um certo número de equivalentes do gás; que o fogo, longe de ser, também ele, um elemento principal, não passa de um estado da matéria resultante do movimento universal a que está submetida e de uma combustão sensível ou latente.

  Em contrapartida, encontrou um número considerável de princípios até então desconhecidos que lhe pareceram formar, pelas suas combinações determinadas, os diversos corpos que estudou e que agem simultaneamente consoante certas leis e em certas proporções, nos trabalhos executados no grande laboratório da natureza, a estes princípios deu o nome de corpos simples, indicando com isso que os considerava primitivos e não decomponíveis e que nenhuma operação, até hoje, os pode reduzir a partes relativamente mais simples que eles mesmos (ii).

  Mas onde as apreciações do homem param, até ajudados pelos seus sentidos artificiais mais impressionáveis, a obra da natureza continua; onde a pessoa vulgar toma a aparência pela realidade, onde o prático levanta o véu e distingue o início das coisas, o olho do que conseguiu captar o modo de acção da natureza só vê nos materiais que constituem o mundo a matéria cósmica primitiva, simples e una, diversificada em certas regiões na época do seu nascimento, dividida em corpos solidários durante a sua vida, materiais desmembrados um dia no receptáculo da vastidão pela sua decomposição.

  Há questões assim que nós mesmos, espíritos apaixonados pela ciência, gostaríamos de aprofundar e sobre as quais só poderíamos emitir opiniões pessoais mais ou menos conjecturadas; sobre estas questões calar-me-ei ou justificarei a minha maneira de ver; mas esta não faz parte desse número. Aos que então se sentissem tentados a ver nas minhas palavras unicamente uma teoria fortuita, direi: Abarcai, se possível, num olhar investigador, a multiplicidade de operações da natureza e reconhecereis que, se não admitirmos a unidade da matéria, é impossível explicar não direi unicamente os sóis e as esferas, mas, sem ir tão longe, a germinação de uma semente na Terra ou a produção de um insecto.

 Se observamos uma tal diversidade na matéria é porque as forças que presidiram às suas transformações, as condições em que se produziram, sendo em número ilimitado, as combinações variadas da matéria só podiam ser elas mesmas ilimitadas.

 Portanto, quer a substância que encaramos pertença aos fluidos propriamente ditos, quer dizer aos corpos imponderáveis, ou quer esteja revestida com os caracteres e as propriedades ordinárias da matéria, só há em todo o Universo uma única substância primitiva: o cosmo ou matéria cósmica dos uranógrafos.

                                                                                                          Espírito Galileu
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(*) Este capítulo foi textualmente extraído de uma série de comunicações ditadas à Sociedade Espírita de Paris, em 1862 e 1863, sob o título de Études Uranographiques e assinado Galileu; médium M. C. F. (N. do A.)
(ii) Os principais corpos simples são: entre os corpos não metálicos o oxigénio, o hidrogénio, o azoto, o cloro, o carbono, o fósforo, o enxofre, o iodo; entre os corpos metálicos: o ouro, a prata, a platina, o mercúrio, o chumbo, o estanho, o zinco, o ferro, o cobre, o arsénio, o sódio, o potássio, o cálcio, o alumínio, etc. (N. do A.)


ALLAN KARDEC, A GÉNESE – Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo, Capítulo VI, Uranografia Geral, O espaço e o tempo, A matéria (de 1 a 7), 23º fragmento desta obra. Tradução portuguesa de Maria Manuel Tinoco, Editores Livros de Vida.
(imagem de contextualização: Diógenes e os pássaros de pedra, pintura em acrílico de Costa Brites).