Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

domingo, 22 de março de 2026

o problema do | ser


(Quem sou... o que faço aqui... de onde vim... para onde vou...)

Evolução e finalidade da Alma


A alma, dissemos, vem de Deus; é, em nós, o princípio da inteligência e da vida. Essência misteriosa, escapa à análise, como tudo quanto dimana do Absoluto. Criada por amor, criada para amar, tão mesquinha que pode ser encerrada numa forma acanhada e frágil, tão grande que, com um impulso do seu pensamento, abrange o infinito, a alma é uma partícula da essência divina projectada no mundo material.

Desde a hora em que caiu na matéria, qual foi o caminho que seguiu para remontar até ao ponto actual da sua carreira? Precisou passar vias escuras, revestir formas, animar organismos que deixava ao sair de cada existência, como se faz com um vestuário inútil. Todos esses corpos de carne pereceram, o sopro dos destinos dispersou-lhes as cinzas, mas a alma persiste e permanece na sua perpetuidade, prossegue a sua marcha ascendente, percorre as inumeráveis estações da sua viagem e dirige-se para um fim grande e apetecível, um fim que é a perfeição.

A alma contém, no estado virtual, todos os gérmenes dos seus desenvolvimentos futuros. É destinada a conhecer, adquirir e possuir tudo. Como, pois, poderia ela conseguir tudo isso numa única existência? A vida é curta e longe está a perfeição! Poderia a alma, numa única vida, desenvolver o seu entendimento, esclarecer a razão, fortificar a consciência, assimilar todos os elementos da sabedoria, da santidade, do génio? Para realizar os seus fins, tem de percorrer, no tempo e no espaço, um campo sem limites. É passando por inúmeras transformações, no fim de milhares de séculos, que o mineral grosseiro se converte em diamante puro, refractando mil cintilações. Sucede o mesmo com a alma humana.

O objectivo da evolução, a razão de ser da vida não é a felicidade terrestre, como muitos erradamente crêem, mas o aperfeiçoamento de cada um de nós, e esse aperfeiçoamento devemos realizá-lo por meio do trabalho, do esforço, de todas as alternativas da alegria e da dor, até que nos tenhamos desenvolvido completamente e elevado ao estado celeste. Se há na Terra menos alegria do que sofrimento, é que este é o instrumento por excelência da educação e do progresso, um estimulante para o ser, que, sem ele, ficaria retardado nas vias da sensualidade. A dor, física e moral, forma a nossa experiência. A sabedoria é o prémio.

Pouco a pouco a alma se eleva e, conforme vai subindo, nela se vai acumulando uma soma sempre crescente de saber e virtude; sente-se mais estreitamente ligada aos seus semelhantes; comunica mais intimamente com o seu meio social e planetário. Elevando-se cada vez mais, não tarda a ligar-se por laços pujantes às sociedades do espaço e depois ao Ser universal.

Assim, a vida do ser consciente é uma vida de solidariedade e liberdade. Livre dentro dos limites que lhe assinalam as leis eternas, se faz o arquitecto do seu destino. O seu adiantamento é obra sua. Nenhuma fatalidade o oprime, salvo a dos próprios actos, cujas consequências nele recaem; mas não pode desenvolver-se e medrar senão na vida colectiva com o recurso de cada um e em proveito de todos. Quanto mais sobe, tanto mais se sente viver e sofrer em todos e por todos. Na necessidade de se elevar a si mesmo, atrai a si, para fazê-los chegar ao estado espiritual, todos os seres humanos que povoam os mundos onde viveu. Quer fazer por eles o que por ele fizeram os seus irmãos mais velhos, os grandes Espíritos que o guiaram na sua marcha.

lei de justiça requer que, por sua vez, sejam emancipadas, libertadas da vida inferior todas as almas. Todo o ser que chega à plenitude da consciência deve trabalhar para preparar aos seus irmãos uma vida suportável, um estado social que só comporte a soma de males inevitáveis. Esses males, necessários ao funcionamento da lei de educação geral, nunca deixarão de existir no nosso mundo; representam uma das condições da vida terrestre. A matéria é o obstáculo útil; provoca o esforço e desenvolve a vontade; contribui para a ascensão dos seres, impondo-lhes necessidades que os obrigam a trabalhar. Como, sem a dor, havíamos de conhecer a alegria; sem a sombra, apreciar a luz; sem a privação, saborear o bem adquirido, a satisfação alcançada? Eis aqui a razão por que encontramos dificuldades de toda a espécie em nós e, em volta de nós.

Grandioso é o espectáculo da luta do espírito contra a matéria, luta para a conquista do Globo, luta contra os elementos, os flagelos, contra a miséria, a dor e a morte. Por toda a parte a matéria se opõe à manifestação do pensamento. No domínio da Arte, é a pedra que resiste ao cinzel do escultor; na Ciência, é o inapreciável, o infinitamente pequeno que se furta à observação; na ordem social, como na ordem privada, são os obstáculos sem-número, as necessidades, as epidemias, as catástrofes!

Não obstante, frente às potências cegas que o oprimem e o ameaçam de todos os lados, o homem, um ser frágil, se ergueu. Por único recurso tem apenas a vontade e, com esse único recurso, tem continuado, sem tréguas nem piedade, através dos tempos, a áspera luta; depois, um dia, pela vontade humana, foi vencida, subjugada a formidável potência. O homem quis e a matéria submeteu-se. Ao seu gesto, os elementos inimigos, a água e o fogo, uniram-se rugindo e para ele têm trabalhado.

É a lei do esforço, lei suprema, pela qual o ser se afirma, triunfa e desenvolve; é a magnífica epopeia da História, a luta exterior que enche o mundo. A luta interior não é menos comovente. De cada vez que renasce, terá o Espírito de ajeitar, de apropriar o novo invólucro material que lhe vai servir de morada e fazer dele um instrumento capaz de traduzir, de exprimir as concepções do seu génio. Demasiadas vezes, porém, o instrumento resiste e o pensamento, desanimado, se retrai, impotente para adelgaçar, para levantar o pesado fardo que o sufoca e aniquila. Entretanto, pelo esforço acumulado, pela persistência dos pensamentos e dos desejos, apesar das decepções, das derrotas, através das existências renovadas, a alma consegue desenvolver as suas altas faculdades.

Há em nós uma surda aspiração, uma íntima energia misteriosa que nos encaminha para as alturas, que nos faz tender para destinos cada vez mais elevados, que nos impele para o belo e para o bem. É a lei do progresso, a evolução eterna, que guia a humanidade através das idades e aguilhoa cada um de nós, porque a humanidade são as próprias almas, que, de século em século, voltam para prosseguir, com o auxílio de novos corpos, preparando-se para mundos melhores, na sua obra de aperfeiçoamento. A história de uma alma não difere da história da humanidade; só a escala difere: é a escala das proporções.

O Espírito molda a matéria, comunica-lhe a vida e a beleza. É por isso que a evolução é, por excelência, uma lei de estética. As formas adquiridas são o ponto de partida de formas mais belas. Tudo se liga. A véspera prepara o dia seguinte; o passado gera o futuro. A obra humana, reflexo da obra divina, expande-se em formas cada vez mais perfeitas.

lei do progresso não se aplica somente ao homem; é universal. Há, em todos os reinos da Natureza, uma evolução que foi reconhecida pelos pensadores de todos os tempos. Desde a célula verde, desde o embrião errante, boiando à flor das águas, a cadeia das espécies tem-se desenrolado através de séries variadas, até nós. (*)

Cada elo dessa cadeia representa uma forma de existência que conduz a uma forma superior, a um  organismo mais rico, mais bem-adaptado às necessidades, às manifestações crescentes da vida; mas, na escala da evolução, o pensamento, a consciência e a liberdade só aparecem passados muitos graus. Na planta a inteligência dormita; no animal ela sonha; só no homem acorda, se conhece, possui-se e se torna consciente; a partir daí o progresso, de alguma sorte fatal nas formas inferiores da Natureza, só se pode realizar pelo acordo da vontade humana com as leis Eternas.

É pelo acordo, pela união da razão humana com a razão divina que se edificam as obras preparatórias do reino de Deus, isto é, do reino da sabedoria, da justiça, da bondade, de que todo o ser racional e consciente tem em si a intuição.

Assim, o estudo das leis da evolução, em vez de anular a espiritualidade do homem, vem, pelo contrário, dar-lhe uma nova sanção; ensina-nos como o corpo do homem pode derivar de uma forma inferior pela selecção natural, mas mostra-nos também que possuímos faculdades intelectuais e morais de origem diferente e encontramos essa origem no universo invisível, no mundo sublime do Espírito.

teoria da evolução deve ser completada pela da percussão, isto é, pela acção das potências invisíveis, que activa e dirige essa lenta e prodigiosa marcha ascensional da vida do Globo. O mundo oculto intervém, em certas épocas, no desenvolvimento físico da humanidade, como intervém no domínio intelectual e moral, pela revelação medianímica. Quando uma raça que chegou ao apogeu é seguida de uma nova raça, é racional acreditar que uma família superior de almas encarna (i) entre os representantes da raça exausta para fazê-la subir em grau, renovando-a e moldando-a à sua imagem. É o eterno himeneu entre o céu e a Terra, a infinita penetração da matéria pelo espírito, a efusão crescente da vida psíquica na forma em evolução.

O aparecimento dos homens na escala dos seres pode explicar-se desta forma. O homem, demonstra-nos a embriogenia, é a síntese de todas as formas vivas que o precederam, o último elo da longa cadeia de vidas inferiores que se desenrola através dos tempos. Mas isso é apenas o aspecto exterior do problema das origens, ao passo que amplo e imponente é o aspecto interior. Assim como cada nascimento se explica pela descida à carne de uma alma que vem do espaço, assim também o primeiro aparecimento do homem no Planeta deve ser atribuído a uma intervenção das Potências invisíveis que geram a vida. A essência psíquica vem comunicar às formas animais evoluídas o sopro de uma nova vida; vai criar, para a manifestação da inteligência, um órgão até então desconhecido: a palavra. Elemento poderoso de toda a vida social, o verbo aparecerá e, ao mesmo tempo, a alma encarnada conservará, mediante o seu invólucro fluídico (i), a possibilidade de entrar em relação com o meio donde saiu. (**)

A evolução dos mundos e das almas é regida pela vontade divina, que penetra e dirige toda a Natureza, mas a evolução física é uma simples preparação para a evolução psíquica e a ascensão das almas prossegue muito para além da cadeia dos mundos materiais.

O que impera nas baixas regiões da vida é a luta ardente, o combate sem tréguas de todos contra todos, a guerra perpétua em que cada ser se esforça para conquistar um lugar ao Sol, quase sempre em detrimento dos outros. Essa peleja furiosa arrasta e dizima todos os seres inferiores nos seus turbilhões.

O nosso Globo é, como uma arena onde se travam batalhas incessantes. (***)

A Natureza renova continuamente esses exércitos de combatentes. Na sua prodigiosa fecundidade, gera novos seres; mas logo a morte os ceifa nas suas fileiras cerradas. Essa luta, horrenda à primeira vista, é necessária para o desenvolvimento do princípio de vida, dura até ao dia em que um raio de inteligência vem iluminar as consciências adormecidas. É na luta que a vontade se apura e afirma; é da dor que nasce a sensibilidade.

A evolução material, a destruição dos organismos é temporária; representa a fase primária da epopeia da vida. As realidades imperecíveis estão no Espírito; só ele sobrevive a esses conflitos. Todos esses invólucros efémeros não são mais do que vestuários que vêm ajustar-se à sua forma fluídica permanente. Cobre-os com vestuários para representar os numerosos actos do drama da evolução no vasto palco do universo.

Emergir grau a grau do abismo da vida para se tornar Espírito, génio superior, e isto pelos seus próprios méritos e esforços, conquistar o futuro hora a hora, ir-se libertando dia a dia um pouco mais da ganga das paixões, libertar-se das percepções do egoísmo, da preguiça, do desânimo, resgatar-se pouco a pouco das suas fraquezas, da sua ignorância, ajudando os seus semelhantes a resgatarem-se por sua vez, arrastando todo o meio humano para um estado superior, tal é o papel atribuído a cada alma. Para desempenhá-lo, tem ela à sua disposição toda a série de existências inumeráveis na escala magnífica dos mundos.

Tudo o que vem da matéria é instável; tudo passa, tudo foge. Os montes se vão pouco a pouco abatendo sob a acção dos elementos; as maiores cidades convertem-se em ruínas, os astros acendem-se, resplandecem, apagam-se e depois morrem; só a alma imperecível paira na duração eterna.

O círculo das coisas terrestres aperta-nos e limita as nossas percepções; mas quando o pensamento se separa das formas mutáveis e abarca a extensão dos tempos, vê o passado e o futuro se juntarem, fremirem e viverem o presente. O canto de glória, o hino da vida infinita enche os espaços, sobe do âmago das ruínas e dos túmulos. Sobre os destroços das civilizações extintas rebentam florescências novas. Efectua-se a união entre as duas humanidades, visível e invisível, entre aqueles que povoam a Terra e os que percorrem o espaço. As suas vozes chamam, respondem umas às outras, e esses rumores, esses murmúrios, vagos e confusos ainda para muitos, tornam-se para nós a mensagem, a palavra vibrante que afirma a comunhão de amor universal.

Tal é o carácter complexo do ser humano – espírito, força e matéria, em que se resumem todos os elementos constitutivos, todas as potências do universo. Tudo o que está em nós está no universo e tudo o que está no universo se encontra em nós. Pelo corpo fluídico e pelo corpo material o homem encontra-se ligado à imensa teia da vida universal; pela alma, a todos os mundos invisíveis e divinos. Somos feitos de sombras e luz; somos a carne com todas as suas fraquezas e o espírito com as suas riquezas latentes, as suas esperanças radiosas, os seus surtos grandiosos e, o que está em nós em todos os seres se encontra. Cada alma humana é uma projecção do grande Foco Eterno e é isso o que consagra e assegura a fraternidade dos homens. Temos em nós os instintos animais, mais ou menos comprimidos pelo trabalho longo e pelas provas das existências passadas e, temos também a crisálida do anjo, do ser radioso e puro, que podemos vir a ser pela impulsão moral, pelas aspirações do coração e pelo sacrifício constante do “eu”. Tocamos com os pés as profundezas sombrias do abismo e com a fronte as alturas fulgurantes do céu, o império glorioso dos Espíritos.

Quando aplicamos o ouvido ao que se passa no fundo do nosso ser, ouvimos como que o ruído de águas ocultas e tumultuosas, o fluxo e refluxo do mar agitado da personalidade que os vendavais da cólera, do egoísmo e do orgulho encapelam. São as vozes da matéria, os chamamentos das baixas regiões, que nos atraem e influenciam ainda as nossas acções; mas podemos dominar essas influências com a vontade, podemos impor silêncio a essas vozes. Quando em nós se faz a bonança, quando o murmúrio das paixões se aplaca, eleva-se então a voz potente do Espírito Infinito, o cântico da vida eterna, cuja harmonia enche a Imensidade. E quanto mais o Espírito se eleva, purifica e ilustra, tanto mais o seu organismo fluídico se torna acessível às vibrações, às vozes, ao influxo do Alto.

O Espírito Divino, que anima o universo, actua sobre todas as almas; busca penetrá-las, esclarecê-las, fecundá-las; mas a maior parte se deixa ficar na escuridão e no insulamento. Demasiado grosseiras ainda, não podem sentir-lhe a influência nem ouvir os seus chamados. Muitas vezes ele as cerca, as envolve, procura chegar às camadas profundas das suas consciências, acordá-las para a vida espiritual. Muitas resistem a essa acção, porque a alma é livre; outras somente a sentem nos momentos solenes da vida, nas grandes provas, nas horas desoladas em que experimentam a necessidade de um socorro do Alto e o pedem. Para viver da vida superior a que se adaptam essas influências, é necessário ter conhecido o sofrimento, praticado a abnegação, ter renunciado às alegrias materiais, acendido e alimentado em si a chama, a luz interior que se não apaga nunca e cujos reflexos iluminam, desde este mundo, as perspectivas do Além. Só múltiplas e penosas existências planetárias nos preparam para essa vida.

Assim se desvenda o mistério da Psique, a alma humana, filha do céu, presa temporariamente na carne e que volta para a sua pátria de origem ao longo dos milhares de mortes e renascimentos.

A tarefa é árdua e as subidas a escalar são difíceis; a espiral assustadora a ser percorrida se desenrola sem um término aparente; mas as nossas forças não possuem limites, pois podemos renová-las incessantemente pela vontade e pela comunhão universal.

E, depois, não estamos sozinhos para efectuar essa grande viagem. Não apenas nos reuniremos, cedo ou tarde, com os seres amados, os companheiros de nossas vidas passadas, aqueles que compartilharam as nossas alegrias e os nossos tormentos, mas também com outros grandes seres, que também foram homens e que agora são espíritos celestes e permanecem a nosso lado nas passagens difíceis; Aqueles que nos ultrapassaram no caminho sagrado não se desinteressam de nossa sorte, e quando a tormenta maltrata a nossa estrada, as suas mãos caridosas sustentam a nossa caminhada.

Lenta e dolorosamente, amadurecemos para as tarefas cada vez mais elevadas; participamos mais da execução de um plano cuja majestade enche de uma admiração comovente aquele que nele entrevê as linhas imponentes. À medida que a nossa ascensão se acentua, maiores revelações nos são feitas, novas formas de actividade, novos sentidos psíquicos nascem em nós, coisas mais sublimes nos aparecem. O universo fluídico se mostra sempre mais vasto para o nosso desenvolvimento; ele se torna uma fonte inesgotável de alegrias espirituais.

Posteriormente, chega a hora em que, depois das suas peregrinações pelos mundos, a alma, das regiões da vida superior, contempla o conjunto das suas existências, o longo cortejo dos sofrimentos por que passou. Esses sofrimentos são o preço da sua felicidade, essas provas redundaram todas em seu proveito, afinal ela o compreende. Então, mudam-se os papéis. De protegida passa a protectora; envolve com a sua influência os que lutam ainda nas terras do espaço, insufla-lhes os conselhos da própria experiência; sustenta-os na via árdua, nas sendas ásperas que ela própria percorreu.

Conseguirá a alma chegar um dia ao termo da sua viagem? Avançando pelo caminho traçado, ela vê sempre abrirem-se novos campos de estudos e descobertas. Semelhantes à corrente de um rio, as águas da Ciência suprema descem para ela em torrente cada vez mais caudalosa. Chega a penetrar a santa Harmonia das coisas, a compreender que não existe nenhuma discordância, nenhuma contradição no universo; que por toda a parte reinam a ordem, a sabedoria, a providência e, a sua confiança e o seu entusiasmo aumentam cada vez mais. Com amor maior ao Poder Supremo, ela saboreia de maneira mais intensa as felicidades da vida bem-aventurada.

Daí em diante está intimamente associada à obra divina; está preparada para desempenhar as missões que cabem às almas superiores, à hierarquia dos Espíritos que, por diversos títulos, governam e animam o Cosmos, porque essas almas são os agentes de Deus na obra eterna da Criação; são os livros maravilhosos em que Ele escreveu os seus mais belos mistérios, são como as correntes que vão levar às terras do espaço as forças e as radiações da Alma Infinita.

Deus conhece todas as almas, que formou com o seu pensamento e o seu amor. Sabe o grande partido que delas há de tirar mais tarde para a realização das suas vistas. A princípio, deixa-as percorrer vagarosamente as vias sinuosas, subir os sombrios desfiladeiros das vidas terrestres, acumular pouco a pouco em si os tesouros de paciência, de virtude, de saber, que se adquirem na escola do sofrimento. Mais tarde, enternecidas pelas chuvas e pelas rajadas da adversidade, amadurecidas pelos raios do sol divino, saem da sombra dos tempos, da obscuridade das vidas inumeráveis e, eis que as suas faculdades desabrocham em feixes deslumbrantes; a sua inteligência se revela em obras que são como que o reflexo do Génio Divino.

/…
(*) Os seres monocelulares encontram-se ainda hoje aos biliões, em cada organismo humano. – Não foi de uma única célula que saiu a série das espécies; foi, antes, a multidão das células que se agrupou para formar seres mais perfeitos e, de degrau em degrau, convergir para a unidade.(**) Qualquer que seja a teoria a que se dê preferência nestas matérias, adoptem-se as vistas de Darwin (i), de Spencer (i) ou de Haeckel (i), não é possível crer-se que a Natureza, que Deus apenas tenha um só e único meio de produzir e desenvolver a vida. O cérebro humano é limitado; as possibilidades da vida são infinitas. Os pobres teóricos, que querem enclausurar toda a ciência biológica dentro dos estreitos limites de um sistema, fazem-nos sempre lembrar o menino da lenda, que queria meter toda a água do oceano em um buraco feito na areia da praia. – O próprio professor Richet (i) declarou, na sua resposta a Sully-Prudhomme (i): “As teorias da selecção são insuficientes.” E nós acrescentaremos: “Se há unidade de plano, deve haver diversidade nos meios de execução. Deus é o grande artista que, dos contrastes sabe fazer resultar a harmonia. Parece que há no universo duas imensas correntes de vida. Uma que sobe do abismo pela animalidade; a outra que desce das alturas divinas. Vão ambas ao encontro uma da outra para se unirem e se confundirem e mutuamente se atraírem. Não é essa a significação que tem a escada do sonho de Jacob?”
(***) Ver Le Dantec (i) – La Lutte Universelle, I vol., 1906.

Léon Denis, O Problema do Ser, do Destino e da Dor, Primeira Parte O Problema do Ser, IX, Evolução e finalidade da Alma, 10º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Sin título (detalhe), de uma pintura atribuída a Josefina Robirosa)

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O Homem e a Sociedade ~


Capítulo X

Filosofia e Metapsíquica

  O fenómeno metapsíquico é uma transfiguração do fenómeno social. A metapsíquica descentralizou o aspecto natural das coisas para nos mostrar as próprias entranhas do mundo espiritual. Mas a filosofia ainda não se inclina para a metapsíquica, que se apresenta para a cultura ocidental como o único instrumento capaz de intentar uma transfiguração geral dos fenómenos históricos e sociais.

  A base material e biológica sobre a qual assentam os seus fundamentos a sociedade e o homem será superada, se a metapsíquica assumir um papel decisivo em relação ao problema da existência. Dizia Berdiaeff que “a filosofia se desdobra e já não crê nas suas próprias forças”. Esta afirmação é a pura verdade, se observamos o estado em que se encontra o quefazer filosófico, necessitado de orientações espirituais e ideológicas. Esta crise da filosofia talvez nos esteja aproximando de um novo ponto de partida do saber metafísico; a necessidade de passarmos do filosofar para o teosofar, isto é, a um conhecimento divino do homem e do espírito. (i)

  Mas devemos reconhecer, ao mesmo tempo, que o teosofar só será uma realidade social quando a metapsíquica houver transfigurado, com os seus fenómenos, o mundo material, para mostrar-nos o “outro mundo”, que se oculta atrás da realidade social. Deste modo, a crise actual da filosofia só poderia terminar quando se reconhecesse o mundo invisível que nos cerca. Do contrário, será inevitável o fracasso do quefazer filosófico, salvando-se unicamente aqueles valores metafísicos que tenham relação com as realidades metapsíquicas.

  O próprio cristianismo encontraria, na concepção de um homem metapsíquico, o seguro realizador de suas verdadeiras essências divinas. Mas o homem contemporâneo é ainda um homem mortal, considerado como um elemento físico-químico, sem nenhum futuro metafísico. Entretanto, há uma verdadeira ânsia de algo novo neste mundo, que tende para uma nova dimensão do existir. Se é certo que o existencialismo se apresenta como uma moderna reafirmação do Nada, o fenómeno metapsíquico se contrapõe às suas conclusões materialistas. De maneira que as forças que determinarão a revolução dos tempos novos não serão unicamente físicas, nem somente psíquicas, mas metapsíquicas, uma vez que o metapsíquico é um elemento vivo e real, tanto no homem como na própria natureza. (ii)

  A filosofia não intuiu este novo factor para confirmar a idealidade do mundo. O idealismo, afastado pelo materialismo, recobra-se com a realidade metapsíquica, e o próprio Hegel se firmará novamente com ela. Marx encontraria assim um magnífico contendor em Richet, o fundador da metapsíquica. Além do mais, o materialismo dialéctico seria obrigado a aceitar novos movimentos de massas, inspirados na concepção de um homem espiritual e infinito. Deste modo, o fenómeno metapsíquico nos fará compreender que a revolução dos tempos novos será operada pelo Espírito e não pelas forças cegas de um processo dialéctico sem teologia transcendente.

  O numinoso de Rudolf Otto, muito imperfeito para servir de padrão a um novo homem espiritual, seria substituído pelo metapsíquico, do qual surgirão os elementos positivos para se fundar uma antropologia espiritualista que conduzirá o novo processo histórico. Richet talvez nunca tenha pensado em se defrontar com Marx, mas a situação revolucionária do presente obriga o pensamento filosófico a fazer este confronto: ou materialismo dialéctico ou espiritualismo metapsíquico. Um dos dois deverá conduzir o desenvolvimento histórico e social; isso é indubitável. Entretanto, se o fenómeno metapsíquico, através da parapsicologia, fosse incorporado à cultura moderna, seria o espiritualismo espírita que regeria a sociedade e a história, dando à revolução dos novos tempos um sentido social e espiritual.

  A revolução socialista, sem a concepção do homem espírita, decepcionará o homem contemporâneo. Se é inegável que as formas sociais, políticas e económicas, estão destinadas a transformar-se, isso não deverá impedir que se reconheça o homem como uma entidade espiritual.

  Não se pode negar que o espiritismo aporta ao homem elementos positivos para determinar uma profunda transformação da humanidade. Ninguém que se diga evolucionista poderá admitir como bom o actual estado da sociedade, com os seus defeitos e injustiças, resultado de um tipo humano desalmado e cínico que, sob a capa de uma falsa moral, se aproveita dos débeis e necessitados. É evidente que o mais acentuado despotismo rege a ordem social materialista contemporânea; e os que o apoiam são os que levam na alma o mais perigoso de todos os vícios: a falta de amor e de fraternidade para com o próximo.

  A eliminação da ordem social materialista é um imperativo histórico e evolutivo, apoiado pelos Grandes Seres que conduzem na Terra o desenvolvimento do Plano Divino. Opor-se a isso seria negar a revolução geral que há de abalar desde os alicerces a toda a ordem constituída, desde a moral até à material. A força desta revolução emana da própria evolução dos espíritos. Todos os que se opõem a ela são almas retrógradas e partidárias do antigo sistema materialista; mas o espiritismo proclama, com o beneplácito dos espíritos livres e progressistas, o advento de uma sociedade livre do sistema de classes e baseada nos princípios do socialismo. É inegável que a evolução leva ao socialismo e todos aqueles que ignoram o advento de uma estrutura social baseada no regime socialista o fazem porque vivem alheios às grandes conquistas científicas e filosóficas alcançadas pelo espírito humano.

  O homem e a sociedade se enobrecerão com um socialismo baseado na imortalidade da alma e no processo palingenésico dos espíritos. Sem socialismo não se compreende nem se compreenderá a verdadeira essência do indivíduo, pois toda a evolução espiritual leva ao congraçamento fraternal dos espíritos. Mas a fraternidade, para ser efectiva, deverá basear-se no socialismo, visto que onde existam interesses privados e classes sociais não poderão nunca prosperar a ideia e a prática da fraternidade.

  O pior inimigo da solidariedade e da confraternização é o sistema de propriedade baseado no regime capitalista. Este sistema ou regime é completamente antiespiritual e anticristão. O espírito de posse impede o advento do cristianismo e Jesus só chegará a reinar num sistema social onde não existam classes sociais, quando a exploração capitalista tenha desaparecido para sempre.

  Consideramos que sem socialismo a humanidade é um ente que se aniquila a si mesmo. O regime social baseado no capitalismo fará que as portas dos lares, povos e cidades, permaneçam fechadas. Com esse sistema social e materialista as portas das casas jamais se abrirão fraternal e colectivamente, tal como o queria o Divino Galileu. Somente o socialismo abrirá as portas dos povos para que as almas se aproximem. Apesar disso, existem ainda espiritualistas que se inclinam em favor da propriedade privada, esquecidos de que ela é o produto do espírito de posse que domina ainda as consciências.

  Jesus e todos os Grandes Seres nunca foram partidários da propriedade individual; eles não possuíram nada como propriedade, nem se apropriaram de coisa alguma para considerá-la privativa deles. Só os doentes do espírito de posse defendem e argumentam em favor da propriedade privada; isso, porém, não faz mais do que revelar a psicologia ambiciosa e conservadora desses seres. Aqueles que não se elevaram suficientemente para limpar-se do espírito de posse são os partidários da posse particular da propriedade e inimigos declarados do socialismo. Estão ao lado das classes ricas e conservadoras e não ao lado dos miseráveis e deserdados.

  O espiritismo, revolução dinâmica na ordem espiritual e social, está, pelo contrário, sempre ao lado de JesusPorque ele, homem humano e divino, se colocou a favor do futuro humano, quer dizer, defendeu a causa dos pobres e explorados. Por isso, o seu nome vive como um foco de luz no fundo de todas as consciências emancipadas e progressistas. A sua palavra e a sua doutrina são os melhores meios para confirmar a razão moral e espiritual do socialismo.

  Temer, pois, a sociedade socialista, é temer também o futuro dos povos. Temem a sociedade sem classes os que defendem sistemas religiosos e doutrinas sociais que justificam a chamada exploração do homem pelo homem. O ideólogo espírita sustenta sempre novas concepções do mundo e da vida, porque baseia o seu pensamento na lei palingenésica. A sua filosofia é dinâmica e criadora e por isso não aceita nenhum sistema conservador, tanto espiritual como social, que se oponha à lei do progresso. O espiritismo vê em toda a transformação um renascimento e em cada renovação um estado mais propício para alcançar novos estágios sociais e espirituais.
/…
(i) O teosofar é o acto de pensar sobre o homem ou as coisas numa perspectiva deísta, considerando o mundo como a obra de Deus e a Ele unida. O autor não se refere à Sociedade Teosófica ou à sua doutrina, mas emprega a palavra no seu sentido radical. Passar do filosofar (acto de pensar num sentido humano) ao teosofar (acto de pensar num sentido divino) equivale a uma evolução do pensamento filosófico. Este é um dos belos “achados” de Mariotti neste livro. O leitor não deve esquecer que este é um ensaio filosófico espírita, a fim de não se confundir com as palavras. No plano filosófico, as palavras perdem, quase sempre, o seu sentido habitual, para adquirirem outro sentido, mais adequado ao seu conteúdo racional e aos seus componentes etimológicos. (Nota de J.H. Pires).
(ii) Como se vê, o metapsíquico não se refere à teoria científica de Richet, mas a uma realidade filosófica intuída e descoberta por aquela. (Nota de J.H. Pires).

Humberto MariottiO Homem e a Sociedade numa Nova Civilização, Do Materialismo Histórico a uma Dialéctica do Espírito, 1ª PARTE O NÚMENO ESPIRITUAL NOS FENÓMENOS SOCIAIS, Capítulo X FILOSOFIA E METAPSÍQUICA, 15º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Alrededores de la ciudad paranóico-crítica: tarde al borde de la historia europea | 1936, Salvador Dali).

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Deus na Natureza ~


~ O Destino dos Seres e das Coisas ~
~ Plano da Natureza ~ 
~ O Instinto e a Inteligência ~

(II)

Enquanto traço estas linhas, aqui, dentro de pequeno bosque cujas aves me conhecem, tenho defronte de mim um ninho de rouxinóis.

Quatro filhotes implumes, trémulos, ali se premem tão aconchegados que mal se lhes distingue as cabeças volumosas, relativamente e, os olhos negros, ainda mais. Nascidos anteontem, nada vêem, nada sabem ainda, se há arvoredos e luz.

  Se fossem abandonados, assim, não tardariam a perecer. O coração dos genitores, porém, freme por eles com anseios verdadeiramente maternos. Eles lá estão, ambos, pai e mãe, à borda do ninho e aconchegados também. Enfiam o bico nos quatro biquinhos escancarados e é de notar a força que lhes sustenta e alonga os pescocitos. Pai e mãe, trazendo-lhes no papo a provisão, ministram-lhes dessarte, durante alguns minutos, os primeiros alimentos, o mel e o leite que os há de nutrir no futuro. Que família encantadora! E como prezam a vida todos os seis! Os raios solares coam-se através dos ramos, do vale evolam-se perfumes, é a vida a espanejar-se em luz nesta temperatura tépida de Maio. Por vezes, o minúsculo casal suspende a tarefa e contempla os filhotes com ar de contentamento e movimentos de cabeça significativos. Também se fitam silenciosos, colam-se as cabeças e confundem-se os bicos, como num beijo de amor… Depois, ei-los como a se consultarem. Uma nuvem refrescou a atmosfera. O pai voou, a mãe aninhou-se, abrindo as asas de maneira a cobrir todo o ninho e, todavia, mantendo alta a cabeça, para ver o horizonte e sondar as redondezas. Mas, agora, eis que regressa o rouxinol e se coloca, tal como antes, na beira do ninho, a procurar o bico da companheira. É que chegou a hora do jantar da família e o chefe solícito lhe traz o cibo preferido. Quanto a ela, parece não lhe desprazer o regime, uma vez que aspira, como inebriada, o manjar que lhe trazem. Tremem-lhe as asas, todo o corpo lhe palpita, enquanto o marido vai e volta num afã constante, carreando-lhe no bico um repasto completo. Muito lhes cabe fazer pela prole. Agora. ei-los sérios. Há 15 dias, passavam o tempo a cantar, a saltitar de galho em galho, a brincar, a amar... Agora, já não fazem nada assim, estão casados, chefes de família, responsáveis por uma nova geração. Até que os filhotes emplumem, precisam levar-lhes à boca o que mais convém na sua idade e preocupam-se já com o seu destino. Amam-nos e talvez eles não compreendam aquela afeição maternal. É possível que voem, tão logo a mãe lhes ensine a voar; é possível que subitamente a releguem a uma solidão definitiva, sem jamais se lembrarem da infância. “A afeição é como os rios; desce e não sobe.”

  Em que pensam, hoje, esse rouxinol e a sua companheira? Certamente, ao cogitarem do futuro dos filhos, não têm em mente as profissões sociais e os princípios de honorabilidade que devem nortear todas as carreiras. Por certo que não serão atormentados por cálculos económicos, tantas vezes falaciosos para o homem. Mas aos que negam o instinto, perguntaremos: em que escola essa esposa, antes de ser mãe, aprendeu a construir o ninho que lhe havia de receber os ovos?

  Ela tem apenas um ano e ainda não havia chocado: quem lhe ensinou a fazer esse ninho, precisamente assim e não de outro modo? Quem lhe teria falado de temperatura necessária à incubação e eclosão do ovo fecundado? Quem lhe teria dito que chocando, aquecendo por 15 dias aqueles ovos, facultaria a sua geração? Posição de constrangimento, apesar do alívio que experimenta, tornar-se-ia insuportável à sua vivacidade, se um determinismo instintivo não a amparasse. E quando os ovos vingaram, quem lhe disse que precisava sair do ninho e que, vivos e precisando subsistir os pequeninos seres, importava granjear-lhes alimentação adequada? Quem a forçou a passar mais quinze noites de asas abertas sobre o ninho, na mais fatigante das posições para uma ave que deve dormir sobre as patas? A estas, poderíamos juntar mil outras advertências. Hão de responder-nos que a primeira espécie aprendeu tudo isso pelo hábito, e que as tendências se transmitem por hereditariedade; mas é recair no mistério das gerações, é não mais que recuar o problema à primeira espécie, ou melhor ainda, se o quiserem – aos primeiros tipos, supostos geradores de todas as variedades. Ora, admitindo-se mesmo, contra toda a probabilidade, que a construção dos ninhos, a incubação e os primeiros cuidados com a prole sejam mostras de inteligência, não do instinto, e que as espécies tenham, sucessivamente, aprendido a proceder dessa maneira – o que, digamo-lo ainda mais uma vez, nos parece inadmissível – como resolver as questões atinentes à formação do ser dentro do ovo? Quem construiu o ovo, berço de uma geração futura? Quem criou e colocou o germe no centro desse ovo? Mediante um poder misterioso, um ser da mesma natureza dos pais se vai mover neste fluido, o ovo incipiente vai sofrer a mais maravilhosa das metamorfoses, vai viver! Completada a transformação, surge uma ave! Assaz débil para se expor fora, não se exterioriza e, enquanto aguarda, ei-la cercada pela clara do ovo, que é precisamente o alimento que lhe convém até ao nascimento.

  Assim, pouco a pouco, se forma inteiramente, asas e patas se desligam, a cabeça sobreleva o peito, só lhe resta deixar a prisão e para isso o bico se reveste de um esmalte, que cai logo depois do nascimento. Com o bico assim aparelhado, ele se põe a quebrar a casca do ovo, até que consegue pôr de fora a cabeça. Utiliza, então, as asas e acaba por se libertar inteiramente.

  Pois bem: – que os adversários, em tudo isto se esfalfem por formular as mais vastas e intermináveis teorias, que acumulem hipóteses sobre hipóteses, que recusem chamar instinto aos actos do nascituro, como da ave que o engendrou; que embrulhem o assunto em explicações tortuosas, confusas, e nem por isso deixamos de aí ter um facto natural, eloquente na sua simplicidade e que eles, os adversários, não poderão derrocar. Aquele que criou o rouxinol e quis que nos alegrasse ele com o seu canto vespertino, criou o mundo e houve por bem dar-lhe as leis da própria conservação. Não há ideia mais simples e majestosa, nem que mais satisfaça a nossa necessidade de conhecimento. Negar as leis conservadoras da vida é negar toda a Natureza. A nós nos parece que para ir a tais extremos é preciso ser estólido ou vítima de aberração espiritual. A verdadeira Ciência está muito longe de tais negações! Seria, na verdade, uma desgraça se o fruto da sabedoria redundasse no aniquilamento das leis que regem o Universo e constituem a sua unidade viva.

  Porque, pois, em face de factos tão irresistíveis quanto os do instinto animal, não confessar uma verdade bela e tocante ao mesmo tempo? Será precisamente por ser bela e tocante que a recusam? Seríamos quase levados a supô-lo, pois nestas teorias materialistas, basta seja uma coisa agradável ao espírito para logo ser repelida. Esta, contudo, não é uma razão assaz suficiente. Para nós, ao contrário, contemplamos a Natureza em todos os seus aspectos. A verdade não pode deixar de ser bela e não é só Platão a pensar que o belo é o esplendor da verdade. A Natureza é verdadeiramente bela. Longe de desviar os olhos sempre que encontramos uma forma expressiva da beleza eterna, admiramo-la e reconhecemo-la tão sinceramente quanto o fazemos a uma verdade matemática. Não é a Natureza a nossa mãe? Onde já passamos horas mais deliciosas e instrutivas do que as vividas intimamente com ela, no seio da floresta silenciosa?

  Contemplai, na sua maravilhosa harmonia, a lei de continuidade da espécie humana, procurai aprofundar a ordem misteriosa que preside à nossa geração e crescimento. Que maior prova de habilidade pudera dar a Natureza ao envolver cada sexo nessa atracção indefinível, que o escraviza suavemente aos seus desígnios soberanos? Que sabedoria não nos testemunha ela, organizando, em bases rígidas, a vida oculta do ser em formação, que até ao dia do nascimento se beneficia de uma existência inteiramente diversa da de todos os outros seres vivos? Que previdência não demonstra ao criar, para nutrição do tesouro oculto, órgãos diferentes dos que lhe haverão de servir na vida atmosférica e ao preparar para os primeiros dias a mais pura das ambrosias? Perguntai às jovens mães quantos cuidados requerem esses recém-nascidos fragílimos e trémulos. E, contudo, a Natureza ainda será a mais vigilante das mães. Qual a afeição mais tenra, o amor mais carinhoso, o devotamento mais extremado, de mãe; qual a inteligência mais lúcida, a previdência mais sábia de um pai, que poderiam rivalizar com os cuidados incessantes e universais da Natureza, tão profusa, infatigável e prodigamente despendidos na protecção individual, activa, a cada um de seus filhos?

  Sobre a previdência da Natureza, poderíamos escrever grossos “in-fólios”. Poderíamos perguntar se é por acaso e sem objectivo que as espécies mais fracas e expostas à morte são precisamente as mais fecundas, como sejam galináceos, perdizes, etc., pondo dezenas de ovos fecundados e deixando, ao fim de um ano, centenas de rebentos, enquanto as aves de rapina, condores, águias, etc., se apresentam, comparativamente, quase estéreis. Poderíamos, também, perguntar se é às cegas que a Natureza decora de encantos particulares os pequeninos seres sem força e sem amparo, despertando-nos interesse e atenção para essas cabecitas louras, que, privadas de assistência, acabariam por dormir no seu berço um sono eterno. Poderíamos, ainda, invocar aqui o espectáculo integral da Criação vivente, mas, intimamente convencido da adesão dos leitores, neste particular, não insistiremos inutilmente.

  Parece-nos que esses eminentes trabalhadores fizeram entusiasmados a maior parte do caminho e que, não possuindo vista telescópica capaz de distinguir o fim, esquecem que o progresso das ciências tem verdadeiramente um fim e estacam, inertes, depois de provarem uma capacidade activa incontestável. Por terem verificado que as causas finais, imaginadas pela vaidade humana, só lhe têm servido, há tantos séculos, de redança por embalar-se displicentemente; – depois de se haverem certificado que os deuses-escravos do orgulho, as criações da fantasia e as ilusórias teorias de um pensamento mesquinho mais não são que simulacros sem realidade, sombras, fantasmas que um raio de luz das ciências basta para diluir – concluíram não haver directriz nem finalidade na Criação. Porque o homem se enganou na solução de um problema, decidiram eles que não há problema nem solução. Confundindo inexplicavelmente a verdade com a noção do que nos é dado saber; confundindo, igualmente, a grandeza real de uma obra com a ideia que fazemos dela, tal como os teólogos da Idade Média a confundirem a ideia religiosa, em si mesma, com a forma católica particularista, proclamam eles que a falsidade das nossas noções individuais acarretam a ruína do próprio objecto dessas noções. Na verdade, para espíritos habituados aos rigores do raciocínio; para homens sábios, que parece procurarem com absoluto desinteresse a verdade tão longamente dissimulada, dir-se-á que não provam, dessarte, excelência nem superioridade de vistas. Antes, pelo contrário, evidenciam directamente a estreiteza da esfera que habitam, dispostos a recusar-lhe qualquer ampliação, obstinados em lhe vedar toda e qualquer luz, como se temessem que essa luz viesse espalhar reveladoras claridades no horizonte e recuar, para muito além dos seus recursos, os limites do Universo.

  Os nossos opugnadores pretendem fazer ciência quando declaram que a organização dos seres não justifica o ascendente de um desígnio na Natureza. Em lugar de ciência, o que eles fazem é puro sistematismo, arbitrário, nisto como em tudo o mais.

  De facto: em que consista o método científico? Que será uma teoria em Astronomia, em Física, em Química? Observamos os factos e quando possuímos um conjunto de observações suficientes procuramos religá-los mutuamente entre si, mediante uma lei. Vemos essa lei? Nunca, jamais. Adivinhamo-la pela discussão dos factos e talvez a denominação que lhe damos não seja a que melhor convenha.

  Esta teoria, pela qual o nosso espírito insaciável sente a necessidade de explicar todas as coisas, não é, antes de tudo, senão uma hipótese cujo valor consiste, principalmente, na satisfação que nos proporciona a explicação natural dos factos estudados.

  Por muito tempo ela não passa de hipótese, inconsistente e frágil, que o mais leve sopro pode derrubar, para só elevar-se à verdadeira teoria quando suficientemente examinada, experimentada e sancionada pelo estudo. De outra forma, resvala para o campo das erronias imaginárias.

  Vejamos, por exemplo, os movimentos dos corpos celestes.

  Notamos que eles descrevem elipses de que o Sol se constitui um dos focos; notamos que as superfícies percorridas são proporcionais aos tempos, e notamos que estes tempos de revolução, multiplicados por si mesmos, estão entre si como os grandes eixos multiplicados três vezes por si mesmos. Para explicar os movimentos da mecânica celeste, emite-se a hipótese de que os corpos se atraem na razão directa das massas e inversa do quadrado das distâncias. Enunciar esta hipótese, vale simplesmente por dizer que as coisas se passam como se os astros se atraíssem. Depois, explicando essa hipótese, perfeitamente, todos os factos observados e dando conta de todas as circunstâncias do problema, se torna ela uma teoria.

  Enfim, achando-se esta lei universalmente demonstrada, tanto pelo balanço das estrelas gémeas, na profundeza dos céus, como pela queda de uma maçã na superfície da Terra, afirma-se que a lei chamada gravitação (i) representa, de facto, a força reguladora dos mundos.

  Idêntico é o processo que empregamos ao declarar que os organismos vivos são construídos como se a causa, fosse ela qual fosse, que as condicionou teria tido em vista uma destinação dos órgãos em relação à vida peculiar de cada ser, tanto quanto à existência global de todos os seres em conjunto.

  As verdadeiras causas finais são, portanto, um resultado da observação científica, O método é o mesmo e, como bem o disse Flourens, é preciso partir não das causas finais para os factos, mas destes para aquelas. Induzir do conhecido para o desconhecido, eis o único método positivo. Ora, o resultado deste método, seja ele qual for, merece ser proclamado como científico. Pode suceder que a revelação de um plano e de uma finalidade na Natureza não agrade a Fulano ou Beltrano, mas isso pouco importa. Fulano e Beltrano estão no mais falso dos erros quando nos acusam de não proceder de acordo com a Ciência experimental e incidem na mais fatal das ilusões quando imaginam proceder de acordo com essa ciência. Trocam, assim, os papéis pró-domo sua, como frequentemente acontece.

  A verdade, porém, despreza-lhes as tendências e fica inalteravelmente idêntica, sem se preocupar com os prismas através dos quais a encaram olhos interessados em vê-la abaixo da sua posição real.

  Esquisitice inexplicável em homens judiciosos, pretenderem que, admitindo a existência de Deus, sejamos obrigados a admitir o arbítrio na Natureza, como se a vontade suprema não fosse necessária, infinitamente sábia e, por consequência, universalmente regular. “Os que só vêem em todos os movimentos da Natureza os meios de atingir um fim – diz Moleschott – chegam muito logicamente à noção de uma personalidade que, num tal propósito, confere à matéria as suas propriedades. Esta personalidade também designará o fim.

  “Se assim é, se uma personalidade designa os fins e escolhe os meios, a lei de necessidade desaparece da Natureza. Cada fenómeno se torna partilha de um jogo do acaso e de um arbítrio sem finalidade.”

  J. B. Biot afigura-se-nos mais bem inspirado quando assim conclui o exame da Natureza: (*) “Por mim, quanto mais considero a harmonia, a imensidade do Universo e as maravilhas da Criação, tanto mais admiro esse concerto maravilhoso e menos apto me julgo para explicá-lo. Ousarei dizer, mesmo por havê-lo experimentado, que essas explicações imperfeitas, esses vagos ou falsos relatórios, que alguns modernos escritores querem inculcar como harmonias sublimes, nunca nos pareceram mais temerários e fúteis do que quando defrontamos a Natureza. Quando se há tido a ventura de conhecer e sentir as verdadeiras belezas que ela ostenta, somos tentados a conceituar, como profanadores e ímpios, quantos a desfiguram com indignos disfarces. Assim é que todos os seres organizados tiveram os seus meios próprios de vida, tão numerosos e tão multiplicados na variação do mecanismo, quanto as estrelas do céu.

  “E note-se que isto é o que percebemos exteriormente, pois o mais maravilhoso nos fica oculto. Quem, jamais, pôde compreender a acção química das membranas vivas, a causa dos movimentos voluntários e involuntários – que digo eu? – o voo da mosca, os torneios da borboleta? Quando a nossa inteligência mal pode atingir o conhecimento das disposições exteriores do organismo e mal pode apreender as relações entre si de alguma das peças que o compõem, seria, parece-nos, ilógico não ver no âmago desse conjunto o princípio inteligente, como o ordenador e regulador de tudo. Por mim quero, ao menos, possuir a filosofia da minha ignorância.”

  A ordem verificada nos factos não produzidos pelo homem – advertiremos ainda com o ilustre escritor (**) – mostra-nos que as correlações apresentadas pelo mundo material resultam de acções e reacções que, combinadas, se regem por leis. Pela experiência contínua da vida, sabemos que sempre as correlações, as harmonias, as leis, são obra de uma inteligência cujo poder é proporcionado à extensão dos fastos e das harmonias coordenadas. Temos assim, por evidente, que o Universo é governado por uma inteligência. Estas correlações e estas harmonias estão em correspondência com as propriedades intrínsecas da matéria e a elas se ligam de tal sorte que deixariam de existir se essas propriedades substanciais fossem outras. Daí concluímos que a matéria com as suas propriedades intrínsecas é também obra da Inteligência, que lhe estabeleceu as leis. O bom senso decreta, imperiosamente, e no que pesem às alegações contrárias, que não podemos atribuir a uma circunstância molecular, fortuita, a atracção, a electricidade, o calor, a composição do ar, factos cósmicos perfeitamente apropriados à vegetação das plantas, à vida animal, pela mesma razão que ninguém admitiria pudessem milhares de tipos de impressão, espalhados ao acaso, produzir a Ilíada ou a Jerusalém Libertada. Se, para fugir a conclusões lógicas, nos dissessem que essas qualidades são efeitos inerentes, nem por isso elidiriam a necessidade lógica de uma intervenção suprema e inteligente.

  Juntemos a esta imagem um aforismo pouco discutível: todo o fim supõe uma intenção, toda a intenção uma consciência e toda a consciência uma personalidade.

  O problema das causas finais, repitamo-lo, é de solução mais difícil e complicada do que se prefigura a muitos imaginativos apressados. Ele se traduz, como diriam os antepassados, antes em potencial do que em acto. Os factos gerais o decidem e os particulares o dificultam. Para bem o apreender, importa ao espírito adstringir-se a um exame severo e, de um golpe de vista, abranger, senão a totalidade, pelo menos a maioria das coisas conhecidas, sob o duplo aspecto do tempo e do espaço.

  O primeiro efeito desse rigoroso estudo crítico é, precisamente, afastá-lo de toda a crença e resguardá-lo dessas mesquinhas interpretações humanas, que levam a criatura a referir tudo a si mesma, como eixo central da Criação.

  Assim procedendo, poderemos, então, rir das ilusões, vaidades e tentativas insensatas do orgulho humano. Esse, o primeiro resultado do estudo geral dos seres.
/…

(*) Mélanges Scientifiques et Litteraires (i), t. 2º.
(**) J. M. de la Codre – Les Dessems de Dieu. Este ensaio de filosofia religiosa e prática caracteriza uma das felizes tendências contemporâneas contra a invasão do ateísmo. Os argumentos, aí desenvolvidos, resumem-se no seguinte: Não existe o impossível; no Universo há ordem e a ordem só pode emanar de uma inteligência. O Universo é, portanto, obra de uma inteligência. Essa ordem resulta da execução de uma lei, ou do concerto de várias leis e, as leis são sempre e, necessariamente, obra de uma vontade inteligente. O autor do Universo, Deus, sendo uma Inteligência, teve indubitavelmente um fim, criando o Universo. Esse fim seria fazer-nos felizes, como no-lo atestam as nossas aspirações e faculdades, no que possuem de mais elevado. Todos os seres dotados de sensibilidade são, por conseguinte, convocados à felicidade. E nós vemos, de facto, que eles são até certo ponto felizes, por isso que todos vivem e amam a vida, assegurando-a e defendendo-a até aos limites extremos. A felicidade, porém, não é igual para todos os seres: Há, notadamente, uma diferença marcante entre a felicidade dos animais e a presumida felicidade humana. Aquela se adstringe a estreitos limites, é uma felicidade simplesmente “dada”, enquanto que esta toma vastas proporções e reveste outro carácter; é uma felicidade merecida”.
Compreender-se-á facilmente esta distinção – diz o Autor – observando os factos e comparando os raros e incompletos prazeres de que compartilham os seres puramente sensitivos, com os gozos serenos, infinitos, que a alma humana encontra no cumprimento do dever, na piedade, nos doces afectos da família. A maior parte dos sofrimentos nos sobrevêm quando, por ignorância ou rebeldia, contravimos às leis do criador.
Da perpetuidade dessa aspiração a uma felicidade completa e indefinida, e da faculdade de aperfeiçoamento moral, bem como de conhecimento progressivo; – uma vez que essa felicidade não pode existir na Terra – devemos concluir que o homem não perecerá neste mundo com o seu invólucro corporal. A esta hermenêutica podemos ajuntar o seguinte, que o autor nos expôs em carta particular:
“A Natureza é ao mesmo tempo o laboratório e o operário de Deus, assim como a oficina provida de um preparador é o laboratório do físico ou do químico. Tanto mais superiores são os produtos brotados da Natureza, em relação aos de nossas oficinas, quanto mais exaltam e atestam o poder e a inteligência divinos, em relação aos de nossos sábios. Estes, com os materiais que lhes oferece a Natureza, não conseguem fazer o que faz “o operário de Deus” sob a sua direcção. D:H::N:O “Deus está para o homem como os produtos da Natureza estão para os da oficina.” D:N::H:B Deus “actua” sobre a Natureza como a vontade do homem, guiada pela sua inteligência, “actua” sobre os seus olhos e braços. Num capítulo de Os Desígnios de Deus, consagrado à Pluralidade dos Mundos habitados, o Autor contradita a nossa opinião sobre a variedade dos organismos no Universo e a ideia de uma semelhança entre todas as humanidades. Baseia-se ele no seguinte raciocínio: se os habitantes doutros mundos não têm a forma terrestre e se estamos destinados a viver também nesses mundos, não poderemos lá reconhecer os amigos caros... A objecção é mais sentimental que científica e não cabe discuti-la aqui. Podemos, não obstante, repetir que, em virtude da diversidade de acção das forças naturais, noutros planetas, é quase certo que a série zoológica lá se tenha construído sobre um tipo análogo ao da série terrestre.

(Referências: – Leis que presidem à conservação das espécies. – Faculdades instintivas especiais. – Não se explica o instinto pela suposição de hábitos hereditários. – Distinção fundamental entre os factos instintivos e os racionais. – Desígnio nas obras da Natureza. – Ordem geral e as harmonias universais. – Qual a distinção geral do mundo? – Magnitude do problema. – Insuficiência da razão humana.)

Camille FlammarionDeus na Natureza, Quarta Parte (4); O Destino dos Seres e das Coisas, (2) Plano da Natureza, Instinto e Inteligência (2 de 3), 35º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Jungle Tales (Contos da Selva) 1895, pintura de James Jebusa Shannon)

domingo, 28 de dezembro de 2025

metapsíquica | humana


...metagnomia (clarividência,* ) 
e hipóteses espíritas

  Volto a discutir uma objecção já por mim abordada, mas que está a reclamar alguns esclarecimentos mais. Como devemos estar lembrados, Sudre afirma que “os espíritas discutem sobre algumas categorias de fenómenos, em que se entrincheiraram e que declaram inexplicáveis pelas teorias metapsíquicas”.

  A tal respeito cumpre-me dizer que não somente deixa de ser exacto se trate apenas de algumas categorias de manifestações, mas que a análise comparada torna evidente que diversas manifestações metapsíquicas, de ordinário anímicas, podem ser na realidade espíritas, do mesmo modo que muitas manifestações, ordinariamente espíritas, podem, não raro, ser de facto anímicas.

  Com efeito, Animismo e Espiritismo representam o duplo aspecto pelo qual se apresenta a mesma fenomenologia, que provém de uma causa única, constituída pelo espírito humano, na sua dupla fase de existência: a encarnada e a desencarnada.

  Agora e, em harmonia com esta tese, devo lembrar que nas classificações dos casos de identificação espírita se encontram numerosos episódios obtidos com a ajuda de manifestações habitualmente anímicas, assim como que, sob o ponto de vista rigorosamente científico, é relativamente raro que na categoria das manifestações ordinariamente anímicas se possam encontrar incidentes especiais que sejam cientificamente capazes de anular a explicação natural em favor da probabilidade espírita. De qualquer modo e naquilo que concerne à tese em apreciação, devo fazer notar, como observação teoricamente importante, que uma coisa é reconhecer que se não devem ter em conta os casos de identificação espírita que, mais ou menos bem, possam ser explicados pela metagnomia e, que outra coisa, aliás muito diferente, é pretender que todos os casos, mais ou menos bem explicados pela metagnomia, devam constituir, em bloco, casos de metagnomia. Este último modo de ver é uma pretensão gratuita e absurda dos nossos opositores, quando à análise comparada dos factos deveria levar a uma conclusão diametralmente oposta. Daí decorre que, sob o ponto de vista científico, devemos limitar-nos a afirmar que, nas circunstâncias duvidosas, nos cumpre optar sempre pela hipótese menos ampla que, no caso, é a da metagnomia. E, nesse pormenor, parece que estamos todos de acordo.

  Feita essa declaração de princípio, vou desenvolver a tese acima exposta, demonstrando, no terreno dos factos, o motivo pelo qual devemos concluir que uma percentagem considerável de casos supostos de metagnomia – ou de criptestesia, se assim o quiserem – de facto não o são, embora cientificamente ainda seja legítimo excluir, inexoravelmente, das provas de identificação espírita os casos incertos.

  O incidente, já referido, do não reconhecimento da Srta. Warner pela personalidade medianímica de George Pelham proporciona um bom exemplo para esclarecer a tese que sustento.

  Neste incidente encontram-se, com efeito, os elementos necessários para demonstrar, de um lado, que ele é incontestavelmente de natureza espírita e, de outro, que, embora assim sendo, ele deveria ser classificado entre os explicáveis pela metagnomia, se algumas circunstâncias de natureza colateral houvessem faltado.

  As circunstâncias colaterais, que o tornam invulnerável, são os trinta casos de reconhecimento dos amigos vivos, por parte da personagem medianímica de George Pelham. Se o incidente do não reconhecimento da Srta. Warner houvesse sido um incidente insulado, teriam os opositores podido invocar a hipótese conhecida da “telepatia ao lado”, segundo a qual muitas vezes os sensitivos lêem com grande facilidade na subconsciência do consultante e só muito dificilmente na mentalidade consciente do mesmo. Assim, no caso da Srta. Warner, ter-se-ia podido dizer que a médium em transe (i), personificando o Espírito de George Pelham, não havia podido captar os esclarecimentos necessários para uma mistificação porque os consultantes os tinham presentes na mente, mas que, se não estivessem nisso pensando, teria conseguido a médium tirá-los das respectivas subconsciências. Em verdade, vê-se que esta explicação teria sido pesada a gancho de talho, mas, em todo o caso, não seria possível de todo eliminá-la e o incidente em questão estaria perdido para a classificação dos casos de identificação espírita. Mas, felizmente, essa explicação especiosa não pode prevalecer uma vez que do incidente negativo da Srta. Warner fazer parte integrante uma série de trinta casos de completo conhecimento de outros tantos amigos vivos do defunto comunicante, amigos que tinham presente na mente os seus próprios nomes e qualidades, exactamente como a Srta. Warner. Se tivessem, pois, a pretensão de aplicar a hipótese em foco ao incidente do não reconhecimento da Srta. Warner, os trinta episódios de completo reconhecimento ficariam então inexplicáveis. Segue-se que esta admirável série de episódios colaterais não só serve para anular a explicação sofística, senão também para demonstrar como, praticamente, são duvidosas as pretensas explicações naturais, tão ao sabor dos nossos opositores, explicações que se não podem ser, de todo, eliminadas, 75 vezes sobre 100 pecam por falta de base, como constantemente estão os factos a demonstrar.

  Dentro em breve os pesquisadores providos de uma intuição realmente científica hão de reconhecer que, para resolver o problema relativo à génese subconsciente ou extrínseca dos casos de identificação espírita, o exame de cada caso se impõe, acompanhado de análise meticulosa e inteligente de todos os incidentes e de todos os elementos atinentes ao episódio, análise que precisa ter em conta as condições dentro das quais se desenvolve e, sobretudo, os característicos particulares da mediunidade através da qual são obtidos. As teorias genéricas, preestabelecidas, totalizadoras, são destituídas de qualquer valor.

  Um segundo exemplo, em favor da mesma tese, pode ser tirado de um caso notável de metagnomia, o famoso caso “Lerasle”, estudado pelo Dr. Osty (Annales des Sciences Psychiques, 1914, pág. 97, e 1916, pág. 130.)

  A 18 de Março de 1914, o Sr. Mirault, residente em Court-les-Barres (Cher), preveniu o Dr. Osty de que havia mais de 15 dias se procurava, infrutiferamente, um velho chamado Lerasle, que, tendo saído de casa para o seu passeio diário, já não havia voltado. Os parentes e amigos, a princípio e, depois cerca de oitenta pessoas, reunidas pelo prefeito da localidade, haviam revistado cuidadosamente, durante vários dias consecutivos, os arredores, sem resultado algum. Em tais circunstâncias, o Sr. Mirault enviava ao Dr. Osty um lenço de seda (foulard), que pertencera ao velho, pedindo-lhe para, neste sentido, consultar uma das suas sonâmbulas clarividentes. O Dr. Osty apresenta o lenço à Sra. Morel, sem nada lhe indicar. A sonâmbula descreve minuciosamente a pessoa do velho desaparecido, a maneira pela qual estava vestido, a localidade em que morava, o caminho que havia percorrido pela floresta, no dia do desaparecimento, declarando, enfim, que ela, aí, percebia o cadáver, numa espessa moita à margem de um pequeno regato.

  Organiza-se nova batida, orientada pelas informações dadas pela sonâmbula e, logo se descobre o cadáver do velho Lerasle. Tudo o que a sonâmbula havia afirmado e descrito era rigorosamente exacto, salvo o detalhe da posição do corpo. Ela o via “deitado sobre o lado direito, com uma das pernas recolhidas”, quando, na realidade, ele estava “deitado de costas, com ambas as pernas estendidas”.

  No decorrer das três consultas, feitas pelo Dr. Osty à sonâmbula, este pormenor se apresenta sempre do mesmo modo.

  Durante a segunda consulta, a sonâmbula havia acrescentado o seguinte detalhe: Ele não se mete demasiado na floresta... sente-se doente, deita-se, adormece e morre.

  A persistência daquele pormenor, sempre integralmente repetido, nas três consultas, deve ser retida como importante, por isso que, combinada com o que consta da última frase, se reveste, como vou demonstrar, de grande significação.

  Cumpre-me observar que este episódio constitui um caso clássico de legítima “metagnomia”, no qual não se nota qualquer indício aparente de intervenção estranha à sonâmbula. Desde que procuremos, no entanto, encontrar a forma de metagnomia que melhor se preste a explicá-lo, começamos logo a sentir a dificuldade, diante do detalhe erróneo e três vezes repetido, que tende a excluir todas as formas pelas quais se pode manifestar a metagnomia propriamente dita. E, se não, vejamos.

  Temos de rejeitar, in limine, a hipótese de um fenómeno de “visão à distância”, inadmissível, no caso. De facto, o erro de visão em que três vezes incide a sonâmbula, percebendo o cadáver deitado sobre o flanco direito, com uma das pernas recolhida, quando ele estava deitado de costas, com ambas as pernas estendidas, vem mostrar, de modo decisivo, não se poder tratar dessa hipótese.

  Devemos também excluir a da exteriorização do “corpo fluídico” da sonâmbula, que, em tais condições, não poderia deixar de ter visto o cadáver na posição em que, de facto, estava.

  Do mesmo modo somos obrigados a afastar a da “telestesia”, por isso que se o objecto entregue à sonâmbula houvesse servido para estabelecer a “relação psicométrica” entre ela e o cadáver, este deveria por ela ter sido percebido na posição em que realmente se encontrava.

  Não poderemos também apelar para a “memória das coisas” (psicometria ou metagnomia táctil), porque no lenço que havia pertencido ao defunto não poderia existir qualquer vestígio de acontecimentos ocorridos depois de ter sido ele, pela última vez, usado pelo dono; enquanto que a outra circunstância – a dos parentes e amigos que, nesse sentido, tudo ignoravam – serve também para eliminar a outra hipótese, de uma suposta “relação psíquica” estabelecida entre a consciência da sonâmbula e a de um vivo ao corrente do facto, de toda a gente desconhecido.

  Teremos, pois, de nos contentar com a hipótese “psicométrico-espírita”, segundo a qual a influência contida no lenço que pertencera ao velho Lerasle teria servido para estabelecer o “contacto” com o Espírito do morto, pondo-o em condições de transmitir à sonâmbula uma sucessão de imagens pictográficas, destinadas a revelar a triste história do seu último passeio, guiando-a assim à descoberta do cadáver. Ora, é nesse momento, precisamente, que o erro, três vezes repetido, se transforma numa prova indutiva admirável em favor da interpretação espírita. Com efeito, na hipótese de o informador da vidente ser o Espírito do morto, tudo leva a crer que a imagem pictográfica errónea por ela percebida era, na realidade, transmitida pelo morto, como recordação derradeira do momento em que, tendo-se deitado do lado direito e adormecido, com uma das pernas recolhida, passou do sono à morte. E lógico é de supô-lo, não só porque deitar-se do lado direito é a posição natural, para os que se dispõem a dormir, senão também porque tudo leva a crer que os movimentos espasmódicos da agonia tenham modificado a posição do corpo do moribundo, que acabou por se virar de costas, posição de equilíbrio estável, em que acaba por se inteiriçar um corpo agitado por movimentos convulsivos. Ora, quando essa mudança de posição se deu, o moribundo devia encontrar-se já em estado de coma, sem que, portanto, o Espírito se pudesse lembrar desse incidente mínimo. Nada mais natural, pois, que ele transmitisse à sonâmbula a imagem pictográfica do seu corpo deitado sobre o flanco direito, com uma perna recolhida, imagem verídica da sua última lembrança de vida terrestre.

  É, pois, certo que, se acolhermos esta versão (única verosímil e única capaz de explicar o facto), o erro de visão em que caiu a sonâmbula se transforma em excelente prova a favor da tese por nós sustentada da provável intervenção estranha ao sensitivo, em muitos casos, mesmo, de suposta “metagnomia táctil”.

  Um terceiro exemplo em favor da mesma tese é oferecido por um caso assaz conhecido e de palpitante oportunidade. A ele me referi, in extenso, na monografia que publiquei sobre Os Enigmas da Psicometria. Relata-o o próprio protagonista, Hugh Juner Browne, banqueiro australiano, que teve a infelicidade de perder os dois filhos durante um passeio por eles empreendido, num iate, ao longo da costa de Melbourne.

  Não os vendo voltar, encheram-se de apreensões, ele e a esposa e, recorreram ao célebre médium curador, George Spriggs, para obterem informações. Narra Hugh Browne: 

  “O médium chegou às 8 horas da manhã, tomou a mão de minha mulher e caiu, pouco depois, em sono medianímico. Perguntou então:

  – Fizestes um passeio de mar?

  Minha mulher respondeu negativamente e Spriggs continuou:

  – Encontro uma grande depressão de espírito em relação com o mar. Durante a noite estivestes muito agitada e chorastes (isto é verdade).

  Completou o seu diagnóstico e terminou repetindo: – A vossa perturbação relaciona-se com o mar.

  Só então fiz uma ligeira referência ao que nos preocupava, perguntando:

  – Percebeis algum naufrágio?

  Ao que o médium, sempre em transe, respondeu:

  – Eu não posso ver se eles se encontram no mundo dos Espíritos, mas se me derdes um objecto qualquer, que lhes pertença, pelo qual me possa orientar, então eu os poderei encontrar.

  Peguei um canhenho que pertenceu a um e ao outro dos meus filhos e lho entreguei. Começou ele imediatamente nestes termos:

  – Vejo-os em uma pequena embarcação na curva de um rio, com uma grande vela e outra pequena abertas ao vento...”

  Para não ser demasiado extenso, interrompo aqui a transcrição do texto, fazendo apenas notar que o médium produziu uma descrição minuciosa e completa de todos os acontecimentos ocorridos no passeio, até ao momento do naufrágio, descrição essa mais tarde confirmada pelas investigações feitas pelo pai. Um dos filhos de Browne manifestou-se, em seguida, pelo médium, fornecendo informações ulteriores ao drama. Entre outras a de ter o corpo do seu irmão sido horrivelmente mutilado por um tubarão, que lhe arrancara um dos braços até a espádua; foi isto confirmado de um modo surpreendente, pois que um tubarão, então capturado por acaso, tinha ainda no ventre o braço de Hugh, com uma parte do colete, o relógio e algumas moedas. Os ponteiros do relógio estavam parados nas 9 horas, hora indicada pelo médium como sendo a do naufrágio.

  Tal é a parte essencial do acontecimento trágico, que mergulhou em luto a família Browne. Voltando, agora, ao nosso ponto de vista, convém destacar a circunstância, teoricamente notável, de o médium, não obstante segurar a mão da Sra. Browne entre as suas, nada ter podido descobrir relativamente à sorte dos seus dois filhos, enquanto não lhe foi entregue o canhenho por eles usado. Esse contraste episódico torna evidente, mais do que nunca, que o verdadeiro fim do objecto psicométrico (psicometrado) é o de estabelecer uma relação entre o sensitivo e a pessoa viva ou morta, ligada fluidicamente ao objecto e, faz ressaltar, sobretudo, a condenação de uma hipótese, afagada pelo Dr. Osty, segundo a qual os parentes, os amigos e os conhecidos transmitiriam telepaticamente todos os acontecimentos de suas respectivas vidas aos parentes, amigos ou conhecidos, acontecimentos que ficariam gravados de um modo indelével na subconsciência destes últimos, onde os sensitivos os iam buscar, dando a ilusão das comunicações com os mortos. Ora, a circunstância acima refuta, de modo peremptório, tal hipótese, pois se o médium, mesmo conservando, entre as suas, a mão da Sra. Browne, nada conseguiu saber sobre a sorte dos rapazes, mostra isto que a subconsciência desta nada havia recebido pela telepatia sobre o drama. E de modo tanto mais evidente que, a esta prova negativa, sucedia a contraprova positiva, do médium que tudo revelava, desde que a influência dos dois mortos, contida no objecto, o tornou capaz de ir beber alhures as informações pedidas. De onde as havia ele tirado? A procurá-lo, seguindo o método científico de eliminação gradual das hipóteses insustentáveis, eis o que resultaria. O médium não podia tirar do canhenho fios elucidadores sobre o drama ocorrido depois que os dois rapazes tinham partido, para não mais voltarem e, por conseguinte, depois de, pela última vez, se haverem utilizado do canhenho indicador. A circunstância a que me referi acima mostra que o médium não as hauriu da subconsciência dos pais. Ele não as podia desentranhar da subconsciência de nenhuma pessoa viva, já que o naufrágio não teve testemunhas. Donde se segue que a “influência” contida no canhenho havia servido apenas para estabelecer o contacto entre o médium e as personalidades desencarnadas daqueles que o tinham usado, conforme havia afirmado o médium em transe. Foi isso confirmado pelas comunicações medianímicas que se seguiram à análise psicométrica, pelas quais os filhos falecidos se manifestaram, através do médium, fornecendo novos detalhes sobre o drama, de que haviam sido vítimas e, entre estes, o do incidente autêntico e teoricamente muito importante, qual o de haver um tubarão mutilado o cadáver de um deles.

  Tais são as deduções rigorosamente lógicas que ressaltam dos factos e, como não existam a explicá-los outras hipóteses, devemos necessariamente concluir que este terceiro exemplo contribui, com os demais, para demonstrar que, se analisarmos com um critério investigador mais penetrante os casos clássicos de pretendida “metagnomia”, cuja génese pareceria dever ser atribuída exclusivamente às faculdades supranormais da subconsciência humana, chegaremos, não raro, a conclusões nitidamente espíritas. E isso por circunstâncias certamente pouco nítidas e dificilmente notáveis, que são, todavia, teoricamente preciosas, visto não encontrarem explicação em nenhuma hipótese natural.

  É preciso que os nossos opositores o não esqueçam; é preciso, sobretudo, que Sudre disto se lembre sempre, mesmo porque, formalmente, o aconselho a tomar em consideração os episódios que acabo de expor, para depois refutar as conclusões a que cheguei, se lhe for possível a prebenda.

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(*) metagnomia – em metapsíquica (ver fonte ), termo usado por alguns autores para indicar o que hoje se chama comummente; conhecimento paranormal ou percepção extra-sensorial e, também como sinónimo do termo tradicional de clarividênciaNota desta publicação.

(Nesta obra, de natureza puramente científica, Bozzano faz uma minuciosa análise com o objectivo de refutar a obra anti-espírita de René Sudre, “Introdução ao Estudo da Metapsíquica". Desenvolvendo argumentação insofismável sobre aparições junto do leito de morte, fenómenos de materialização e outros, o autor demonstra que a “prosopopese-metagnomia”, hipótese fundamental sustentada por Sudre, para explicar as manifestações metapsíquicas de efeitos inteligentes, de modo algum atinge o fim que teve em vista o autor.)

Ernesto Bozzano (1862-1943) (i)A propósito da Introdução à Metapsíquica Humana, Refutação do livro de René Sudre  Título Original em Italiano; Ernesto Bozzano - Per la difesa dello spiritismo (A proposito della "Introduction à la Métapsychique Humaine" di René Sudre) Società Editrice Partenopea, Napoli (1927); IV – Metagnomia e hipóteses espíritas, 4º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Puro aire, uma pintura de Josefina Robirosa)