Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

domingo, 16 de abril de 2017

Deus na Natureza ~

A Força e a Matéria II – A Terra (III)

 É nesses instantes de contemplação fugazes e indescritíveis, que a ideia estética de Deus me surge mais luminosa e mormente me avassala. São estas revelações, que não posso exprimir e nem a mim próprio definir, quando me ocorrem. Sinto-me subjugado pela necessidade de reconhecer uma causa para essa beleza, uma causa que não posso dizer e que, não obstante, me surge com as características da própria beleza, da bondade, da ternura, do amor e assim também com as do poder, da magnitude e da dominação. Não é mais, então, pela inteligência, mas pelo coração que me compenetro da existência de Deus. Deverei confessar que me sinto às vezes surpreso e acabrunhado por uma emoção profunda? Nem, por isso que, na opinião dos contraditores, todo o sinal de emoção só tem origem na centralidade variável do coração anatómico, ou na secreção da glândula lacrimal, mais ou menos sensível por temperamento e que, portanto, todas as maravilhas aqui expendidas não passam de cego resultado, baldo de senso, das combinações materiais engendradas pela química e pela física orgânicas!

  “O Deus eterno, omnisciente, omnipotente, infinitamente sábio, passou-me perante os olhos.” – exclamava Linnaeus, após os seus admiráveis trabalhos de Botânica. – “Não o vi face a face, mas o seu reflexo me saturou o espírito de pasmo e admiração. Acompanhei-lhe o traço em todas as coisas criadas, e em todas as suas obras, das menores às maiores, e mesmo nas mais imperceptíveis, quanta força, quanta sabedoria, quanta perfeição indefinível! Observei como os seres animados se sobrepõem e se encadeiam no reino vegetal, os vegetais por sua vez, nos minerais que jazem nas entranhas do globo, ao mesmo tempo em que este globo gravita, num plano invariável, à volta do sol que lhe deu a vida. Enfim, vi o Sol e todos os astros, todo o sistema sideral imenso, incalculável na sua infinitude, moverem-se no espaço, suspensos no vácuo por um motor primário, incompreensível, o Ser dos seres, o Guia, o Conservador do Universo, Mestre e Operário de toda a obra universal...

  “Todas as coisas criadas dão testemunho do poder e sabedoria divinos, ao mesmo tempo em que se fazem tesouro e pábulo de nossa felicidade. A utilidade que elas têm testificam a bondade de quem as fez; a sua beleza demonstra sabedoria, enquanto que por sua harmonia, conservação, proporcionalidade e inesgotável fecundidade, proclamam a grandeza do poder divino!

  “É a isso que quereis chamar – Providência? É efectivamente o seu nome, e não há outro que o seu conselho, para explicar o mundo. É, pois, justo acreditar que há um Deus imenso, eterno, incriado, sem o qual nada existe e que tenha feito e coordenado esta obra universal.

  “Esse Deus escapa-se-nos à vista e, não obstante, no-la repleta da sua luz. Só em pensamento podemos aprendê-lo e é neste profundo santuário que se oculta a sua majestade.”

  Os nossos adversários não compreendem estes arroubos da alma. Ao demais, para sentir a poesia das coisas, é preciso, antes de tudo, possuir a poesia dentro de si mesmo, é preciso que a alma entre em vibração. O espírito que se degrada à função de produto químico não é susceptível de emoções que tais.

  Por consequência, e já que aqui falamos da estética da Natureza inanimada, notemos de passagem um exemplo da tendência dos nossos químicos para estender a todas as coisas o rigorismo de suas concepções. Deixemo-los resvalar do verdadeiro ideal para um realismo irreal.

  O Sr. Moleschott é, sem favor, o apóstolo da realidade físico-química. Diga-se mesmo, de um realismo assaz exagerado. Julgai-o, pois, pela sua maneira de poetizar a Natureza.

  Gostais, sem dúvida, do brilho das flores, dos seus matizes delicados, dos seus aromas tão subtis? Pois bem: mal podeis imaginar o que sucede quando vos debruçais sobre uma rosa para, narinas dilatadas, aspirar-lhe a fragrância. Ouçamos o químico:

 “Quando respiramos o balsâmico perfume dos prados, não absorvemos mais que verdadeiras substâncias excrementais dos vegetais.

  “Seguramente, não temos o direito de nos surpreender ao vermos coleópteros fimícolas e outros animais, de uma ordem superior, comerem carniça (sic) e excrementos, bem como que todo o reino vegetal viva de excretos dos animais, uma vez que nós também nos deliciamos com as substâncias decompostas por efeito da vida vegetal e cuja origem é análoga à da urina e das matérias fecais.”

  Nunca o suspeitastes? Pois aí tendes uma coisa bem séria para as flores e para quantos as estimam e admiram, porque, enfim... (i)

  Para retornar ao assunto e terminar pela consideração geral da acção da lei no ambiente da Terra, lembremo-nos de que essa acção permanente é condicional à existência do mundo, tanto quanto de sua beleza. Quando os corpos vibram, quando a corda ressona ao atrito do arco; quando o sino geme ao toque do badalo, as moléculas se agitam cadenciadas, tal como as esferas no espaço. A harmonia das esferas não é uma frase vã. Ela é efeito de uma força e essa força é a mesma para os dois casos, quer se chame coesão, quando agrupa moléculas, quer se chame gravitação, quando junge os corpos celestes. Força primordial, elementar, que anima toda a substância, ora determinando uma simples aproximação molecular, ora sujeitando-a a directivas determinadas, segundo as condições em que estejam colocadas. Essa força, podemos denominá-la físico-química. Célere havemos de verificar a existência de uma força distinta, a reger o turbilhão da matéria nos seres vivos. É pelo sistema nervoso que o animal se distingue do mineral e do vegetal. A partir do estado rudimentar, onde se apresenta com os zoófitos, até ao seu mais completo desenvolvimento na espécie humana, o sistema nervoso é o índice da animalidade e preside aos fenómenos imateriais. Por ele é que percebemos toda e qualquer sensação; é ele que possibilita os nossos movimentos voluntários e é por ele, ainda, que manifestamos o pensamento. Eliminai os nervos e tereis de facto destruído a sensação. Cortai o fio telegráfico e já não transmitireis a mensagem.

  Se o nervo óptico paralisar, ainda que intacto o globo ocular, o animal fica cego; as imagens prosseguirão, formando-se na câmara visual, mas insensíveis. O ouvido pode estar perfeitamente são, fisicamente constituído para recolher as vibrações sonoras e, no entanto, não haverá sons perceptíveis, desde que lá não exista o nervo acústico para os captar e transmitir ao cérebro e também que haja um cérebro vivo para os receber.

  É, pois, de cérebro e nervos que se utiliza a força que percebe e julga.

  No reino vegetal, particularmente em certas espécies como sejam a sensitiva, a dioneia, o desmódio, nós reconhecemos uma energia latente, correspondente ao nosso sistema nervoso.

  Indiscutível é, todavia, que a força físico-química, a força vegetal, a força animal, a inteligência, não são uma só força-matéria. Expliquem-nos, então, como uma molécula é sucessivamente animada por forças tão distintas.

  Como admitir que o átomo de ferro, que agora se integra num homem, num animal ou numa planta, constituísse momentos antes a ferrugem de uma velha estátua, por exemplo? Se ele é ao mesmo tempo matéria e força, e se a força é única, como explicar produza fenómenos tão distintos?

  Acima da matéria existe um princípio imaterial, absolutamente distinto. Um espírito anima a matéria, qual o disse Vergílio.

  Diante da organização regular dos seres terrestres, não nos cabe mais que repetir a resposta, já de um século, dada ao Sistema da Natureza. A matéria é passiva e incapaz de se coordenar por si mesma num todo regular. Contudo, ela é dotada de umas tantas propriedades que a fazem susceptível de obediência às leis. Ora, como pode a matéria cega ter desígnios e tender para uma finalidade? Como, ininteligente, teria engendrado seres inteligentes? Como se governaria por leis sábias, se não conhece o que seja a sabedoriaComo reinar numa ordem majestosa entre as suas partes, se ela não conhece a ordem?

  Como, enfim, essa utilidade sensível e perceptível em todas as suas operações, se ela, de facto, não tem alvo?

  Aí estão uns tantos problemas a que os materialistas hodiernos vão tentar responder em detalhe nas suas discussões (ii).

  Assim, para resumir o estado da questão e os princípios de nossa refutação do ponto de vista do mundo inorgânico, temos estabelecido que, no céu como na Terra, a força rege a matéria, que a harmonia é constituída pelo número e que este leva consigo, por toda a parte, o cunho intelectualEm parte alguma, porém, a inteligência criadora aparece tão evidente como na organização da vida e na existência do homem.

  É o que vamos verificar nos capítulos seguintes.

/…
(i) Não será que esta físico-química vai longe de mais assimilando tão radicalmente funções vegetais e funções animais? Os lírios cândidos e as mimosas violetas em nada se parecem, traço por traço, com os animais peludos dos nossos estábulos; nem o perfume dos goivos se exala, precisamente, do mesmo objecto, que o odor nada equívoco, das pesadas pipas que rolam à meia-noite pelas ruas de Paris. A Química, decerto, não tem falsos decoros e nós queremos admitir que, num capítulo sobre a digestão, o Sr. Moleschott discuta a ideia do Sr. Liebig, de identificar o valor digestivo do alimento pela grossura toda particular dos resíduos da refeição, deixados pelos transeuntes ao longo dos muros. Mas, num capítulo tratando de flores, pensamos não ser necessário exagerar similitudes do reino vegetal e animal para o conseguir. De resto, não passa isto de mera digressão extratextual, para mostrar aos adversários sob um aspecto particular. Encerremo-la.

(ii) Proclamando alto e a bom som que a força governa a substância, não o fazemos a ponto de pretender, como certos metafísicos, que não existe substância e sim, unicamente, a força. É um exagero para nós tão falso como o dos materialistas. Ouçamos por momentos uma demonstração metafísica da incoexistência dos corpos e da extensão. (É de Magy, em Science et Nature.) “Se supusermos que a extensão, assim como a força, convém aos objectos da experiência e se tornam dela um elemento inseparável, então, como as propriedades da primeira são precisamente inversas das da segunda, chega a admitir-se implicitamente que as contraditórias possam coexistir num mesmo objecto – erro típico que caracteriza de si mesmo o absurdo.

Mas, se, ao contrário, reconhecermos que só a força é real, de uma realidade absoluta e substancial, enquanto que a extensão não passa de acto psicológico, que só pelo facto de aparecer sob o olhar da consciência requer umas tantas condições físico-fisiológicas, logo se desvanece a contradição. De modo que a nossa resposta à questão de saber qual a realidade objectiva da noção de extensão, tão estranha à primeira vista, é, no fundo, a única verdadeiramente racional, visto não admitir recusa sem colidir, por assim dizer, com a razão em si mesma.

Mas, objectar-se-à, esta resposta está em contradição expressa com a experiência, pois ela reduz a extensão a uma simples aparência psicológica, ao passo que a vista e o facto, relativamente a todos os corpos que podem atingir, nos atestam uma extensão peculiar a cada qual e, manifestamente, exterior à alma. Não são extensos esses objectos com os quais estou em relação, ou seja: este mesmo corpo a que me ligo pela ala, esta mesa na qual me debruço, esta casa, esta terra, este sol que me aclara, todo o Universo, enfim? Será possível e mesmo concebível uma ilusão tão geral e tão constante?

Esta objecção pressupõe justamente o que está em jogo, responde o filósofo. De facto, que nos ensinam a vista e o tacto, sobre o grau de realidade da extensão corporal? Nada, absolutamente, pois uma vez percebido um corpo, é sempre lícito indagar se a imagem dimensória que acompanha a percepção não seria uma simples aparência.

Trata-se dessa aparência, aqui, no sentido da existente em alguns fenómenos astronómicos, tal como o movimento solar, de que nos podemos certificar tão facilmente pela rotação da Terra como do Sol. Quanto à própria experiência, literalmente neutra no caso, o seu pretenso desacordo com a nossa tese procede, não dos factos invocados, mas do sentido arbitrário que implicitamente lhes atribuem.

Os elementos constitutivos da matéria são, necessariamente, inextensiveis e puramente dinâmicos.

Os mesmos princípios que nos conduziram à verdadeira teoria da extensão corporal, sugerem-nos, igualmente, a explicação da extensão incorpórea, ou seja, do espaço.

extensão corporal é o simples fenómeno que acompanha a reacção natural dessa força híper orgânica chamada alma, contra a acção das forças que constituem os corpos brutos, e das quais é advertida pelas forças orgânicas do nosso corpo. Mas, se as forças orgânicas, de que o corpo humano é o sistema, suscitam em nós a aparência de extensão, quando operam como intermediárias entre a alma e o mundo exterior, também poderiam, por sua actuação incessante sobre a alma, a que estão tão intimamente ligadas, poderiam, dizemos, não provocar um fenómeno análogo, cujos caracteres específicos seria difícil assinar “a priori”, mas que devem, infalivelmente, encontrar-se entre os fenómenos psicológicos? Ora, isto é o que precisamente acontece e a consciência nos informa incessantemente. A reacção permanente da alma contra as forças orgânicas engendra a todo o momento um fenómeno homogéneo ao da extensão corporal. É o fenómeno da extensão corporal ou do espaço puro, no qual localizamos naturalmente todos os corpos. O movimento no espaço, como qualquer outro fenómeno sensível, não é mais que o sinal visível de acções invisíveis e de permutas não menos inacessíveis aos nossos órgãos, no modo de coexistência das forças.

Mas, de todas as soluções armadas ao problema, a mais notável, sem contestação, é a de KantEste grande pensador, que tanto meditara as condições primordiais do pensamento entre as quais a noção de espaço lhe pareceu, com razão, uma das principais, foi o primeiro a suspeitar que ele – o espaço – não poderia ser um objecto extrínseco ao ser, qual o presumem os físicos, nem a ordem de coexistência das coisas, como pretendia Leibnitz, mas, verdadeiramente, um simples modo do ser pensante. “A Geometria – diz – é uma ciência que determina as propriedades do espaço sinteticamente e, todavia, “a priori”. Ora, qual deverá ser a representação de espaço para que tenhamos a respeito um conhecimento possível? Uma intuição primitiva.

O espaço para Kant, como para nós – conclui o escritor –, é, pois, essencialmente, uma afecção psicológica.

Por um lado, segundo a lei objectiva do conhecimento, todas as ideias científicas se ligam às noções de força e extensão, Únicas verdadeiramente primordiais e irredutíveis; e por outro lado, segundo o aprofundado exame a que acabamos de submeter essas duas noções, a de força representa o elemento substancial dos seres e a de extensão um modo puramente subjectivo de nossa natureza.

Assim se expressam, ainda, os partidários da interpretação puramente subjectiva.

Pode fazer-se, a respeito, um reparo assaz curioso e suficiente para responder a essa teoria algo exagerada e vem a ser que, se a extensão não existisse, os corpos não tinham como ocupar um lugar, tal como o ensina a Física. Daí se conclui que nós não ocupamos lugar e que não estamos em parte alguma!

Quanto ao primeiro ponto, que se precatem os teatrólogos; e, quanto ao segundo, que dele se valham os malfeitores, se bem lhes aprouver, para justificarem a sua metafísica.

Estes argumentos muito se assemelham ao dos fraseólogos modernos, que levantam contendas de palavras acreditando discutir factos.

Neste caso, por exemplo, os que repetem com Broussais que Deus e alma não existem, porque a linguagem humana os designa, algumas vezes, em termos negativos! O mesmo valeria dizer da matéria, qualificada impenetrável nos seus atributos, por ser uma expressão negativa.

Efectivamente, pura logomaquia.


Camille Flammarion, Deus na Natureza – Primeira Parte, A Força e a Matéria II – A Terra 3 de 3, 16º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Jungle Tales_1895, pintura de James Jebusa Shannon)

domingo, 2 de abril de 2017

Diálogos de Kardec ~

§ VII — Dos homens duplos e das aparições de pessoas vivas

É facto hoje comprovado e perfeitamente explicado que o Espírito, isolando-se de um corpo vivo, pode, com auxílio do seu envoltório fluido-perispirítico, aparecer em lugar diferente do em que está o corpo material. Até ao presente, porém, a teoria, de acordo com a experiência, parece demonstrar que essa separação somente se dá durante o sono, ou, pelo menos, durante a inactividade dos sentidos corpóreos. Se são exactos, os factos seguintes provam que a separação igualmente se produz no estado de vigília. Extraímos da obra alemã: Os Fenómenos Místicos da Vida Humana, por Maximilian Perty, professor da Universidade de Berna, publicada em 1861. (Leipzig e Heidelberg).

1. “Um camponês proprietário foi visto, pelo seu cocheiro, na cavalariça, com o olhar dirigido para os animais, ao mesmo tempo em que se encontrava a comungar na igreja.

Narrando o facto, mais tarde, ao seu pastor, este lhe perguntou em que pensava ele no momento da comunhão. — Para dizer a verdade, respondeu o camponês, pensava nos meus animais. — Aí está explicada a sua aparição, replicou o eclesiástico.”

Estava com a verdade o pastor, porquanto, sendo o pensamento atributo essencial do Espírito, tem este que se encontrar onde se encontre o seu pensamento. A questão é saber se, no estado de vigília, pode o desprendimento do perispírito ser suficientemente grande para produzir uma aparição, o que implicaria um como que desdobramento do Espírito, uma de cujas partes animaria o corpo fluídico e a outra o corpo material. Nada terá isto de impossível, se considerarmos que, quando o pensamento se concentra num ponto distante, o corpo apenas actua maquinalmente, por efeito de uma espécie de impulsão mecânica, o mesmo que se verifica, sobretudo, com as pessoas distraídas. A vida espiritual acompanha o Espírito. É, pois, provável que o homem de quem se trata haja tido, naquele momento, uma distracção forte e que os seus animais o preocupavam mais do que a comunhão.

Este outro facto é da mesma categoria; apresenta, porém, uma particularidade mais notável:

2. “O juiz de cantão, J..., em Fr... mandou certo dia o seu amanuense a uma aldeia dos arredores. Passado algum tempo, ele viu-o entrar de novo, tirar um livro de um armário e folheá-lo. Perguntou-lhe bruscamente por que ainda não fora onde o mandara. A essas palavras, o amanuense desapareceu. O livro caiu no chão e o juiz colocou-o em cima de uma mesa, aberto como caíra. À tarde, no regresso do amanuense, o juiz pergunta-lhe se lhe acontecera alguma coisa no caminho, se tinha voltado à sala onde naquele momento estavam. — Não, respondeu o amanuense; fiz a viagem na companhia de um amigo; ao atravessarmos a floresta, pusemo-nos a discutir acerca de uma planta que encontráramos e eu disse-lhe que, se estivesse em casa, fácil me seria mostrar-lhe uma página de Linnaeus que me daria razão.

Era justamente esse o livro que ficara aberto na página indicada.”

Por mais extraordinário que pareça este facto, não podemos considera-lo materialmente impossível, pois que ainda estamos longe de conhecer todos os fenómenos da vida espiritual. Contudo, é necessária a sua confirmação. Num caso destes, seria necessário comprovar, de maneira positiva, o estado do corpo no momento da aparição. Até prova em contrário, duvidamos de que o facto seja possível, desde que o corpo se encontre em actividade inteligente.

Os casos que se seguem são bem mais extraordinários e francamente devemos confessar que nos inspiram dúvidas também ainda maiores. Compreende-se facilmente que a aparição do Espírito de uma pessoa viva seja vista por uma terceira pessoa, porém não que um indivíduo possa ver a sua própria aparição, principalmente nas condições abaixo referidas.

3. “O Secretário do governo, de Triptis, em Weimar, tendo ido à Chancelaria, buscar uma pasta de documentos de que necessitava, deparou-se lá consigo próprio, já sentado na sua cadeira habitual e tendo diante de si essa pasta. Assustado, voltou para casa e mandou um seu empregado buscar os documentos que se encontravam no lugar do costume. O empregado ao chegar lá igualmente viu o patrão sentado na sua cadeira.”

4. “Becker, professor de matemática em Rostok, estava a uma mesa com alguns amigos, quando entre eles surgiu uma dúvida teológica. Becker foi à sua biblioteca procurar uma obra que decidiria a questão e deu consigo sentado no lugar habitual. Olhando por cima dos ombros do seu outro eu, verificou que este lhe apontava a seguinte passagem da Bíblia, num volume aberto: ‘Arruma a tua casa, pois tens de morrer.’ Voltou para junto dos seus amigos que em vão se esforçam por lhe demonstrar que era loucura ligar a menor importância aquela visão. — Ele morreu no dia seguinte.

5. “Hoppack, autor da obra: Materiais para o Estudo da Psicologia, diz que o padre Steinmetz, com visitas em casa, estando no seu quarto, se viu a si próprio no seu jardim, no sítio por ele preferido. Apontando para si mesmo e depois para o seu semelhante, disse: ‘Aqui está Steinmetz, o mortal; lá está o imortal’.”

6. “F..., da cidade de Z..., que viria a ser juiz mais tarde, encontrando-se, quando jovem, em férias numa estância de campo, uma filha da casa lhe pediu que fosse buscar ao seu quarto um guarda-sol. Ele foi e viu essa moça sentada à sua mesa de trabalho, porém mais pálida do que quando a deixara. Olhava para a frente. F..., apesar do medo de que foi tomado, apanhou o guarda-sol, que estava ao lado dela, e levou-o. Vendo-o de semblante transtornado, disse-lhe a moça: Confesse que viu alguma coisa, que me viu no quarto. Não se aflija, não estou para morrer. Sou dupla (em alemão:  Doppelgänger, que quer dizer, literalmente: alguém que anda duplo). Em pensamento, eu estava junto do meu trabalho e já muitas vezes dei com a minha imagem a meu lado. Nada fazemos uma sem a outra.”

7. “O conde... e as sentinelas pretenderam ter visto uma noite a imperatriz Elisabeth da Rússia, sentada no seu trono, na sala onde este se erguia, em trajes de grande gala, estando ela deitada e a dormir no seu aposento. A dama de honra, que se encontrava de serviço, convencida do facto, foi despertá-la. A imperatriz dirigiu-se também para a sala do trono e viu lá a sua imagem. Ordenou a uma sentinela que fizesse fogo; imediatamente a imagem desapareceu . A imperatriz morreu três meses depois.”

8. “Um estudante, chamado Elger, tornou-se muito melancólico, depois de se ter visto a si mesmo com o costume vermelho que habitualmente usava. Nunca via o seu rosto, mas apenas os contornos de uma forma vaporosa que se lhe assemelhava e sempre ao cair da tarde ou ao luar. Via a imagem no lugar onde estivera por longo tempo a estudar.”

9. “Emília Sagée, uma governanta francesa, perdeu dezanove vezes esse cargo, porque aparecia por toda a parte em duploAs moças de um pensionato em Neuwelke, na Livônia, viram-na algumas vezes no salão ou no jardim, ao mesmo tempo que, na realidade, ela se encontrava. De outra vez, viram-na, diante de um quadro de ardósia, duas senhoritas Sagée, uma ao lado da outra, exactamente iguais, fazendo os mesmos movimentos, com a única diferença de que só a verdadeira Sagée tinha na mão um pedaço de giz, com que escrevia no quadro.”

A obra do Sr. Perty contém grande número de factos deste género. É de se notar que, em todos os casos citados, o princípio inteligente se mostra do mesmo modo activo nos dois indivíduos e, até, mais activo no ser material, quando o contrário é que deveria dar-se. Mas, o que nos parece radicalmente impossível é que haja antagonismo, divergência de ideias, de pensamentos e de sentimentos nos dois seres. Entretanto, essa divergência é manifesta, sobretudo, no facto nº 4, no qual um previne o outro de sua morte, e no nº 7, em que a imperatriz manda fazer fogo contra o seu outro eu.

Admitindo-se a divisão do perispírito e uma força fluídica suficiente para manter a actividade normal no corpo; supondo-se também a divisão do princípio inteligente, ou uma irradiação sua capaz de animar os dois seres e de lhe facultar uma espécie de ubiquidade, esse princípio, que é uno, tem que se conservar idêntico; não poderia, pois, haver, de um lado, uma vontade que não existisse do outro, a menos se admita que haja Espíritos gémeos, como há corpos gémeos, isto é, que dois Espíritos se identifiquem para encarnar num só corpo, o que não é concebível.

Se, em todas estas histórias fantásticas, alguma coisa há que se deva guardar, também há muito que repudiar, havendo ainda a parte pertencente à lenda. Longe de nos induzir a aceitá-las cegamente, o Espiritismo ajuda-nos a separar o verdadeiro do falso, o possível do impossível, mediante leis que nos revela, concernentes à constituição e ao papel do elemento espiritual. Não nos apressemos, todavia, em rejeitar a priori tudo o que não compreendamos, porque muito distante estamos de conhecer todas as leis e porque a natureza ainda não nos patenteou todos os seus segredos. O mundo invisível é um campo ainda novo de observações e seríamos presunçosos se pretendêssemos ter sondado todas as suas profundezas, quando incessantemente novas maravilhas se nos ostentam aos olhos. Entretanto, há factos cuja impossibilidade material a lógica e as leis conhecidas demonstram. Tal, por exemplo, o que vem relatado na Revista Espírita de fevereiro de 1859, na pág. 41, sob a epígrafe: “O meu amigo Hermann”. Trata-se de um jovem alemão da alta roda, delicado, atencioso, de bom carácter, que, todas as tardes, ao pôr-do-sol, caía em estado de morte aparente, durante o qual o seu Espírito despertava nos antípodas, na Austrália, no corpo de um bandido que acabava sendo enforcado.

O simples bom senso demonstra que, admitida como possível essa dualidade corpórea, o mesmo Espírito não pode ser, alternativamente, um homem honesto, durante o dia, num corpo e, à noite, um bandido, noutro corpo. Quem diga que o Espiritismo acredita em tais historietas prova que não o conhece, pois que, ao contrário, ele fornece os meios de evidenciar o absurdo que há nelas. Mas, ao mesmo tempo que demonstra o erro de uma crença, prova que muitas vezes essa crença repousa num princípio verdadeiro, desfigurado ou exagerado pela superstição. Cumpre que se destaque o fruto da casca que o envolve.

Que histórias ridículas se não engendraram sobre o raio, antes que se conhecesse as leis da electricidade! Outro tanto se dá no que concerne à relação do mundo visível com o mundo invisível. Tornando conhecida a lei que preside a essas relações, o Espiritismo as coloca no terreno da realidade. Esta realidade, porém, ainda é excessiva para os que não admitem nem almas, nem mundo invisível. Em seu entender, tudo isto é superstição que sai dos limites do mundo visível e tangível. Razão pela qual achincalham o Espiritismo.

NOTA(*) — A questão, muito interessante, dos homens duplos e a dos agéneres, a que aquela se liga intimamente, até agora a ciência espírita as relegou para segundo plano, à falta de documentos para completa elucidação de uma e da outra. Essas manifestações, por muito singulares que sejam, por incríveis que pareçam à primeira vista, sancionadas pelas narrativas dos mais sérios historiadores da antiguidade e da Idade Média, confirmadas por factos recentes, anteriores ao advento do Espiritismo, ou contemporâneos, de modo nenhum podem ser postas em dúvida. O Livro dos Médiuns, no artigo intitulado: Visitas espirituais entre pessoas vivas, e a Revista Espírita, em muitas passagens, confirmam a realidade de tais manifestações de forma absolutamente incontestável. De um confronto e de um exame aprofundado de todos esses factos, talvez ressaltasse uma solução pelo menos parcial da questão e a eliminação de algumas das dificuldades que parecem envolvê-la.

Muito gratos ficaríamos a estes nossos correspondentes que se dignassem fazer dessa questão um estudo especial, quer pessoalmente, quer por intermédio dos Espíritos, e de nos reportarem o resultado das suas pesquisas, no interesse, bem entendido, da difusão da verdade.

Percorrendo rapidamente os anos anteriores da Revista e considerando os factos assinalados e as teorias enunciadas para explicá-los, chegamos à conclusão de que talvez conviesse separar os fenómenos em duas categorias bem distintas, o que permitiria se lhes dessem explicações diferentes e se demonstrasse que são mais aparentes do que reais as impossibilidades que se levantam contra a aceitação pura e simples dos mesmos fenómenos. (Vejam-se a respeito os artigos da Revista Espírita de Janeiro de 1859, o Duende de Baiona; fevereiro de 1859, Os Agéneres Meu Amigo Hermann; maio de 1859, O laço entre o Espírito e o corpo; novembro de 1859, A Alma Errante; janeiro de 1860, O Espírito de um Lado e o Corpo do Outro; março de 1860, Estudo sobre o Espírito das Pessoas VivasO Dr. V... e a Senhorita S...; abril de 1860, O Fabricante de São PetersburgoAparições tangíveis; Novembro de 1860, História de Maria d’Agréda; julho de 1861, Uma Aparição Providencial, etc., etc.)

A faculdade de expansão dos fluidos perispiríticos já está sobejamente demonstrada pelas mais dolorosas operações cirúrgicas realizadas em doentes adormecidos, quer pelo clorofórmio e o éter, quer pelo magnetismo animal. Não raro, com efeito, estes últimos conversam de coisas agradáveis com os assistentes, ou se transportam para longe, em Espírito, enquanto o corpo se retorce com todas as aparências de estar experimentando as mais horríveis torturas. A máquina humana, imobilizada no todo ou em parte, é retalhada pelo escalpelo brutal do cirurgião, os músculos se agitam, crispam-se os nervos e transmitem a sensação ao aparelho cérebro-espinhal; mas, a alma, que é quem, no estado normal, sente a dor e a manifesta exteriormente, afastada, por alguns momentos, do corpo sujeito à operação, dominada por outras ideias, por outras acções, só muito surdamente é avisada do que se passa no seu envoltório mortal e se conserva perfeitamente insensível. Quantas vezes não se têm visto soldados gravemente feridos, absorvidos pelo ardor do combate, a perder sangue e forças, combaterem por muito tempo ainda, sem se aperceberem dos seus ferimentos? Um homem vivamente preocupado, recebe um golpe violento sem sentir coisa alguma, e só quando cessa a abstracção da sua inteligência, reconhece tê-lo atingido a sensação dolorosa que experimenta. A quem não aconteceu ainda, durante uma profunda contenção do Espírito, passar pelo meio de uma multidão tumultuosa e ululante, sem nada ver, nem ouvir, embora o nervo óptico e o aparelho auditivo hajam percebido e transmitido à alma as sensações?

Pelos casos precedentes e por uma imensidade de factos que seria ocioso reproduzir aqui, mas que a todos é possível conhecer e apreciar, torna-se fora de dúvida que o corpo pode desempenhar as suas funções orgânicas, estando longe o Espírito, levado por preocupações de outra ordem. Indefinidamente expansível, conservando ao corpo a elasticidade e a actividade necessárias à sua existência, o perispírito acompanha constantemente o Espírito durante a sua prolongada viagem pelo mundo ideal.

Se, ao demais, considerarmos a propriedade, muito conhecida, que ele possui, de condensar-se, propriedade que lhe permite tornar-se visível sob aparências corpóreas aos médiuns videntes e, embora mais raramente, a quem quer que se encontre presente no lugar para onde o Espírito se haja transportado, não poderemos pôr em dúvida a possibilidade do fenómeno da ubiquidade.

Temos, pois, como demonstrado que uma pessoa viva pode aparecer simultaneamente em dois lugares afastados um do outro: num, com o seu corpo real; no outro, com o seu perispírito momentaneamente condensado sob a aparência de suas formas materiais. Entretanto, de acordo nisto, como sempre, com Allan Kardec, não podemos admitir a ubiquidade, senão quando reconhecemos identidade perfeita nos modos por que se comporta o ser aparente. Tais, por exemplo, os factos anteriormente citados, em 1 e 2. Quanto aos factos que se seguem a esses e que consideramos inexplicáveis, se lhes aplicamos a teoria da ubiquidade, logo nos parecem, senão indiscutíveis, pelo menos admissíveis, desde que considerados de outro ponto de vista.

Nenhum dos nossos leitores ignora que os Espíritos desencarnados têm a faculdade de mostrar-se, sob aparência material, em certas circunstâncias e, em particular, aos médiuns videntes. Contudo, em grande número de casos, tais como os das aparições visíveis e tangíveis para uma multidão, ou para umas tantas pessoas, torna-se evidente que a percepção da aparição não é devida à faculdade mediúnica dos assistentes, mas à realidade da aparência corpórea do Espírito e, nessa circunstância, como nos casos de ubiquidade, essa aparência corpórea resulta da condensação do aparelho perispirítico. Ora, se, na maioria das vezes, os Espíritos, para se tornarem reconhecíveis, se apresentam tal qual eram em vida, com as vestes que habitualmente usavam, impossível não será que se apresentem vestidos de modo diferente, ou mesmo sob aspectos quaisquer, como, por exemplo, o Duende de Baiona, que aparecia ora sob a sua forma pessoal, ora com a figura de um irmão seu, já igualmente morto, ora sob o aspecto de pessoas vivas e até presentes. O Espírito tinha o cuidado de fazer que lhe reconhecessem a identidade, sem embargo das várias formas sob que se apresentava. Nada, porém, teria ele feito, se não fosse evidente que as testemunhas da manifestação estavam persuadidas de que assistiam a um fenómeno de ubiquidade.

Se, considerando como um precedente esse facto, que absolutamente não é único, procurarmos explicar os dos 3, 4, 5, 6, 7, 8 e 9, talvez se nos torne possível aceitar-lhes a realidade, ao passo que, admitida a ubiquidade, a incompatibilidade das ideias, o antagonismo dos sentimentos e a actividade do organismo das duas partes não nos permitem considerá-los possíveis. No facto nº 4 se, em vez de imaginarmos o professor Becker na presença do seu sósia, admitirmos que ele tinha diante de si um Espírito que lhe aparecia com o seu aspecto, deixa de haver qualquer antagonismo e o fenómeno entra no domínio do possível.

O mesmo se dá com o facto nº 7. Não se compreende que Elisabeth da Rússia haja mandado atirar sobre a sua própria imagem, mas admite-se perfeitamente que o haja feito contra um Espírito que tomara a sua aparência para mistificá-la. Alguns Espíritos tomam às vezes nomes de empréstimo e adoptam o estilo e as formas de dizer de outros, para alcançarem a confiança dos médiuns e conseguirem penetrar nos grupos. Que haveria de impossível que a um Espírito orgulhoso aprouvesse tomar a forma da imperatriz Elisabeth e sentar-se no seu trono, a fim de dar vã satisfação aos seus sonhos ambiciosos? O mesmo se pode dizer com relação a outros factos.

Esta explicação damo-la apenas pelo que possa valer. Não passa, para nós, de uma suposição bastante plausível; não é a solução real do problema. Mas, como a apresentamos, ela parece-nos de natureza a ajudar a esclarecer a questão, de atrair para ela as luzes da discussão e da refutação. A esse título é que a submetemos aos nossos leitores. Possam as reflexões que provoque, as meditações a que abre ensejo cooperar para a elucidação de um problema que apenas afloramos, deixando que outros mais capazes de o fazer dissipem a obscuridade que ainda a envolve.

/...
(*) Nota de Redacção da Editora francesa.


ALLAN KARDEC, Obras Póstumas, Primeira Parte, Manifestações dos Espíritos, VII – Dos homens duplos e das aparições de pessoas vivas, 15º fragmento solto da obra.
(imagem de contextualização: Dança rebelde, 1965 – Óleo sobre tela, de Noêmia Guerra)

segunda-feira, 20 de março de 2017

agonia das religiões ~


a experiência de | Deus

Sacerdotes e pastores, homens de fé, sinceros e bons procuraram demonstrar-me que as religiões não estão em crise. Sustentaram que a crise é do homem e não das instituições religiosas. As religiões continuam vivas e actuantes no coração dos crentes – disseram – os homens mundanos, que se entregam à loucura do século, conturbam a paisagem terrena. É necessário que os homens busquem a Deus, que tenham a experiência de Deus. E essa experiência só é possível quando o homem se desligar do mundo para ligar-se a Deus através da oração e da meditação. Falaram de milhares de pessoas que, no torvelinho da vida contemporânea, procuram todos os dias, a horas certas, o refúgio dos templos ou de um quarto solitário para tentar um encontro pessoal com Deus. Muitas dessas pessoas já conseguiram a audiência secreta com o Todo Poderoso. São criaturas felizes, iluminadas pela graça divina, que sustentam com a sua fé inabalável a continuidade das religiões e garantem a sua expansão.

É bom que existam pessoas assim, dedicadas vestais que zelam pelo fogo sagrado. São os últimos abencerrages do formalismo religioso, flores de estufa cultivadas na penumbra das naves sagradas. Cuidam da fé como jardineiros especializados que cultivam uma espécie vegetal extremamente delicada. Acreditam que os seus canteiros floridos darão sementes para semeaduras ilimitadas por toda a superfície da terra. Não percebem essas almas eleitas que cultivam exclusivamente a si mesmas, ocultam na aparência piedosa os seus conflitos profundos e nada mais fazem do que fugir da realidade escaldante da vida. Não escondem a cabeça na areia, pois mergulham de corpo inteiro no sonho egoísta da salvação pessoal.

As práticas místicas do passado provaram mal a sua eficácia. De Oriente a Ocidente, multidões de gerações de crentes desfilaram sem cessar, através dos milénios, pelos templos de todas as religiões convictas de haverem alcançado a salvação pessoal, enquanto hordas ferozes e exércitos em guerras de extermínio brutal cobriam o mundo de ruínas, cadáveres inocentes, sangue e lágrimas. Os que ouviram Deus em audiência particular não se recusaram a pegar em armas para estraçalhar os seus irmãos considerados como réprobos e infiéis. Santos Bispos e Padres, pastores calvinistas, crentes populares, fidelíssimos e humildes, não acenderam as suas lâmpadas votivas para iluminar as noites das trevas. Preferiram acender fogueiras inquisitórias e, quando o sol raiava, submeter piedosamente os hereges à morte redentora do garrote vil, réplica religiosa à guilhotina profana. 

Lembro-me do episódio histórico de Jerónimo de Praga. Depois de haver assistido, pelas grades da prisão, ao seu mestre Jan Hus ser queimado vivo em praça pública, foi também glorificado com a graça especial de uma fogueira semelhante. No momento em que as chamas começavam a iluminar a sua figura estranha, caridosamente amarrada ao palanque do suplício (para salvação de sua alma rebelde) viu uma pobre velhinha aproximar-se da fogueira com uma acha de lenha e atirá-la ao fogo. Era a sua contribuição piedosa para a salvação do ímpio. Jerónimo exclamou apenas: “Santa simplicidade.” Pouco depois estava reduzido a cinzas, para glória de Deus, e as suas cinzas foram lançadas ritualmente nas águas do Reno.

Todas as formas de culto, todos os ritos, todos os sacramentos, todas as cerimónias religiosas, todos os cilícios foram empregados nos milénios sombrios do fanatismo religioso, para a salvação da HumanidadeE eis que agora chegamos a um tempo de descrença generalizada, de materialismo e ateísmo oficializados, de hipocrisia pragmática erigida em sustentáculo das religiões fracassadas. Deus falava directamente com o seu servo Moisés no deserto, falava-lhe cara a cara, ordenando matanças colectivas, genocídios tenebrosos, destruição total dos povos que impediam o acesso dos hebreus à terra dos cananeus, que seria tomada a fio de espada. Deus continua falando em particular a seus servos nos nossos dias, para a sustentação das igrejas, enquanto o Diabo não perde tempo e alicia milhões de almas perdidas para as práticas do terrorismo, para a matança de crianças e criaturas inocentes, para assaltos e estupros em toda a face da Terra.

A experiência de Deus sustenta os crentes privilegiados e sustenta as suas igrejas salvacionistas. E enquanto não chega a salvação, católicos e protestantes matam-se gloriosamente nas lutas fratricidas da Irlanda, em plena era das mais brilhantes conquistas da inteligência humana. Que estranha experiência é esta, que não revela os seus frutos, que não prova a sua eficácia? Deus estaria, acaso, demasiado velho para não perceber a inutilidade dos seus métodos de salvação pessoal em audiências privadas? E os seus servidores, os clérigos investidos de autoridade divina para implantar na Terra o Reino do Céu, porque não avisam o velho monarca da inutilidade milenarmente provada de sua técnica de conta-gotas?

Não seria mais certo tentarmos a revisão dos conceitos religiosos que nos deram a herança de tantos fracassos e tão espantosa expansão do materialismo e do ateísmo no mundo? Todas as grandes religiões afirmam a omnipresença de Deus no Universo. Não obstante, todas consideram o mundo (criado por Deus) como profano, região em que as trevas dominam e o Diabo faz a incessante caçada das almas de Deus. É curioso lembrar que nos tempos mitológicos o mundo era considerado sagrado, a vida uma bênção, os prazeres naturais e as leis da procriação eram graças concedidas pelos deuses aos homens. O monoteísmo judaico, desenvolvido pelo Cristianismo, impregnou o mundo com a omnipresença de Deus e o mundo se tornou profano. Se Deus está presente num grão de areia, numa guia de relva, num fio dos nossos cabelos e numa pena das asas de um pássaro, como, apesar dessa impregnação divina, o homem se defronta com a impureza do mundo? Por que estranho motivo necessitamos de ritos especiais para purificar a inocência de uma criança, se Deus está presente no seu olhar puro e límpido, no seu choro, na meiguice do seu pequeno rosto ainda não marcado pelo fogo das paixões terrenas? E porque precisa o cadáver de recomendação, com aspersão de água benta, se a ressurreição dos mortos se faz, como ensina o Apóstolo Paulo na I Epistola aos Coríntios e como Jesus exemplificou na sua própria morte, no corpo espiritual e não no corpo material?

São estes e outros muitos problemas acumulados nos erros milenares dos teólogos que levam o homem contemporâneo à descrença e ao materialismo, ao ateísmo e ao niilismo. São todos estes erros que colocam as religiões em crise e as levarão à morte sem ressurreição. Considerando-se, porém, este estranho panorama religioso da Terra numa perspectiva histórica, à luz da razão, compreende-se facilmente que os erros de ontem, até hoje sustentados pelas religiões, foram úteis e necessários nos tempos de ignorância, em que os problemas espirituais não podiam ser colocados em termos racionais. Há justificativas válidas para o passado religioso, mas não justificativas possíveis para o seu presente contraditório e absurdo. A tese, mais do que absurda, do Cristianismo Ateu, com que teólogos rebeldes procuram hoje remendar as vestes esfarrapadas das igrejas, só vem acrescentar maior confusão ao momento de agonia das religiões envelhecidas.

O problema da experiência de Deus poderia ser resolvido com um mínimo de reflexão. Se Deus está em nós, e por isso somos deuses em potência, segundo a própria expressão evangélica, porque necessitamos de uma busca artificial de Deus para termos a experiência da sua realidade? Se fomos criados por Deus e se Deus pôs em nós a sua marca, como afirmou Descartes – a ideia de Deus em nós, que é inata – já não trazemos, ao nascer, a experiência de Deus? E se, no desenvolver da vida humana, o homem nada mais faz do que cumprir um desígnio de Deus, assistido pelos Anjos Guardiães, porque tem ele de buscar a Deus através de uma prática artificial e egoísta, procurando preservar-se sozinho num mundo em que a maioria se perde irremediavelmente? Moisés supunha ter ouvido o próprio Deus no Sinai, mas o Apóstolo Paulo explicou que Deus lhe falara através de mensageiros, que são anjosAs pessoas que buscam hoje a experiência de Deus em audiência privada serão mais dignas do que Moisés, não estarão sujeitas a ouvir a voz de um anjo, que tanto pode ser bom quanto mau, pois as próprias igrejas admitem que os anjos decaídos andam à solta pela Terra procurando roubar para o Inferno as almas de Deus? Quem estará livre, na sua piedosa tarefa de salvar-se a si mesmo, de ser tentado pelo Diabo, que tentou o próprio Jesus nas suas meditações solitárias no Deserto?

As práticas místicas do passado não servem para a era da razão, em que nos encontramos na antevéspera da era do espírito. Orar e meditar é evidentemente um exercício religioso respeitável e necessário em todos os tempos. A oração liga-nos aos planos superiores do espírito e a meditação sobre questões elevadas desenvolve a nossa capacidade de compreensão espiritual. Mas o dogma da experiência de Deus através de um pretensioso colóquio directo e pessoal com a Divindade é uma proposição egoísta e vaidosa. Se Deus é o Absoluto e nós somos relativos, a humildade não nos aconselha a ter mais cautela nas nossas relações pessoais com a Divindade? São muitos os casos de perturbações mentais, de obsessões perigosas, de lamentáveis desequilíbrios psíquicos decorrentes de exageradas pretensões das criaturas humanas no campo das práticas religiosas. A História das Religiões é marcada por terríveis experiências nesse sentido. Basta lembrarmos os casos de perturbações colectivas em conventos e mosteiros da Idade Média, onde os excessos de misticismo transformaram criaturas piedosas em vítimas de si mesmas, sujeitando-as não raro à própria condenação da igreja a que pertenciam e a que procuravam servir.

Os dogmas de fé, que formam a estrutura conceptual das igrejas, são as pedras de tropeço do seu caminho evolutivo. Partindo do princípio de que a Revelação Divina é a própria palavra de Deus dirigida aos homens, as igrejas se anquilosaram nos seus dogmas intocáveis, pois a exegese humana não poderia alterar as ordenações ao próprio Deus. Na verdade, a alteração se verificou em vários casos, apesar disso, mas decisões conciliares puseram a última  de cimento nos erros cometidos. As estruturas eclesiásticas tornaram-se rígidas e as igrejas confirmaram, no seu espírito, a ossatura de pedra de suas catedrais. Vangloriam-se ainda hoje da sua imutabilidade, num mundo em que tudo evolui sem cessar. Os resultados dessa atitude ilusória e pretensiosa só poderiam ser nefastos, como vemos actualmente no lento e doloroso processo de agonia das religiões. Incidiram assim no pecado do apego, contra o qual os Evangelhos advertiam os homens. Apegaram-se de tal maneira à própria vida, que perderam a vida em abundância que Jesus prometeu aos que se desapegassem. As liberalidades actuais chegaram demasiado tarde.

A palavra dogma é grega e o seu sentido original é opinião. Adquiriu em filosofia e religião o sentido de princípio doutrinário. Nas Escrituras religiosas aparece algumas vezes com o sentido de édito ou decreto de autoridades judaicas ou romanas. Entre o dogma religioso e o filosófico há uma diferença fundamental. O dogma religioso é de fé, princípio de fé que não pode ser contraditado, pois provém da Revelação de Deus. O dogma filosófico é racional, dogma de razão, ou seja, princípio de uma doutrina racionalmente estruturada. O sentido religioso superou os demais por motivo das consequências muitas vezes desastrosas da sua rigidez e imutabilidade. Se falarmos, por exemplo, em dogmática, esse termo é geralmente entendido como designando a estrutura dos dogmas fundamentais de uma religião. Por isso, a adjectivação de dogmática, que implica também o masculino, como expressões: pessoa dogmática, posição dogmática ou homem dogmático, significa intransigência de opiniões. O mesmo acontece com o substantivo dogmatismo, que designa um sistema de opiniões intransigentes.

Estas influências religiosas na semântica revelam a intensidade da rigidez a que as igrejas se entregaram, através dos séculos e dos milénios, na defesa da suposta eternidade de seus princípios básicos. Temos, portanto, no dogma de fé, um dos motivos fundamentais da crise das religiões nos nossos dias. No Espiritismo, como em todas as doutrinas filosóficas, existem dogmas de razão, como o da existência de Deus, o da reencarnação, o da comunicabilidade dos espíritos após a morte. Muitos adeptos estranham a presença dessa palavra nos textos de uma doutrina que se afirma antidogmática, aberta ao livre exame de todos os seus princípios. São pessoas ainda apegadas ao sentido religioso da palavra. Não há nenhuma razão para essa estranheza, como já vimos, do ponto de vista cultural.

O problema da religião no Espiritismo tem provocado discussões e controvérsias infindáveis, porque essa doutrina não se apresenta como religião no sentido comum do termo. Allan Kardec, discípulo de Pestalozzi, adoptava a posição do seu mestre no tocante à classificação das religiões. Pestalozzi admitia a existência de três tipos de religião: a animal ou primitiva, a social e a espiritual. Mas recusava-se a chamar esta última de religião, dando-lhe a designação de moralidade. Isso porque a religião superior ou espiritual, segundo ele, só era professada individualmente pela criatura que superava o ser social e desenvolvia em si o ser moralKardec recusou-se a falar em Religião Espírita, sustentando que o Espiritismo é doutrina científica e filosófica, de consequências morais. Mas deu a essas consequências enorme importância ao considerar o Espiritismo como o desenvolvimento histórico do Cristianismo, destinado a restabelecer a verdade dos princípios cristãos, deformados pelo processo natural de sincretismo-religioso que originou as igrejas cristãs.

Essa posição espírita manteve a doutrina e o movimento doutrinário em posição marginal no campo religioso. Para os espíritas, entretanto, a posição da doutrina não é marginal, mas superior, pois o Espiritismo representaria o cumprimento da profecia evangélica da Religião em espírito e verdade, que se desenvolveria sob a égide do próprio Cristo. A religião espírita não se organizou em forma de igreja, não admite sacramentos nem admitiu nenhuma forma de autoridade religiosa de tipo sacerdotal. Não há baptismo, nem casamento religioso no Espiritismo, nem confissões ou indulgências. Todos esses formalismos são considerados como de origem pagã e judaica. Entende-se o baptismo como rito de iniciação, que Jesus substituiu pelo baptismo do espírito, sendo este considerado como a iniciação no conhecimento doutrinário, feita naturalmente pelo estudo da doutrina, sem nenhum acto ritual. Admite-se também que o baptismo do espírito, segundo o texto do Livro de Actos dos Apóstolos sobre a visita de Pedro à casa do centurião Cornélius, no porto de Jope, pode completar-se, nos médiuns, quando se verifica espontaneamente, com o desenvolvimento da mediunidade.

Essa posição espírita no campo religioso causou numerosas dificuldades aos espíritas no tocante às relações de instituições doutrinárias com os poderes oficiais, particularmente para a declaração de religião em documentos oficiais, para o resguardo dos direitos escolares em face do ensino religioso, para a declaração de religião nos recenseamentos da população, até que medidas oficiais reconheceram esses direitos. Em compensação, o Espiritismo ficou livre das consequências da crise religiosa, que não o atingiram. Demonstrarei nos capítulos seguintes a posição da Religião Espírita em face dessa crise, que é evidentemente uma posição de vanguardaA sua contribuição para a racionalização dos princípios religiosos, para a reintegração da Religião no plano cultural, particularmente no tocante aos problemas científicos da actualidade, é realmente substancial. No campo filosófico a posição espírita é também vanguardeira, pois desde o século passado a sua filosofia se apresenta como livre dos prejuízos do espírito de sistema, conservando-se aberta a todas as renovações que decorrem de descobertas cientificamente comprovadas. Livre da dogmática religiosa e da sistemática filosófica, apoiada inteiramente na pesquisa científica, a doutrina está de facto a cavaleiro nas crises da actualidade.

/…


José Herculano Pires, Agonia das Religiões / Capítulo 3 – A Experiência de Deus, 4º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Paraíso Perdido, estudo do Anjo, lápis e giz de Alexandre Cabanel)

sábado, 11 de março de 2017

~ em torno do mestre


Educar

Na maneira de conduzir a obra da educação, está a chave do problema cuja solução o momento actual da Humanidade reclama.

Não há duas correntes de opinião, quanto ao valor da educação. Todos a reconhecem e a proclamam como medida salvadora. Porém, há divergência no que respeita ao modo de educar. Existem dois processos de educação: um falso, que mascara a ignorância; outro, verdadeiro, que realmente conduz ao saber. Um, que age de fora para dentro, outro que actua de dentro para fora. Um, artificial, ora maquiavelicamente (i) empregado para confundir; outro, natural, cujo alvo é esclarecer, libertar e aperfeiçoar o homem.

O ensino por autoridade, impondo princípios e doutrinas, avilta o carácter e neutraliza as melhores possibilidades individuais. Cria a domesticidade e a escravatura espiritual, regímen ignóbil onde se estiolam as mais nobres aspirações e onde se oficializam a hipocrisia, o vício e o crime.

O ensino por autoridade é a educação às avessas: oblitera a mente, ofusca a inteligência, ensombra a razão, atrofia a vontade, mecaniza e cristaliza a alma do educando.

O ensino que se funda no processo de despertar os poderes latentes do Espírito é o único que realmente encerra e resolve o problema da educação.

Baseando-se o ensino no apelo constante à razão e ao bom senso, gera-se a confiança própria, estimula-se a vontade, esclarece-se a mente — numa palavra — consegue-se que o educando faça a independência própria em todo o terreno, o que representa a verdadeira nobreza de carácter.

A educação, segundo o processo natural, conduz fatalmente o educando à liberdade, faz dele um homem que pensa, sente e age por conta própria. O educando, orientado como deve de ser, não será um repositório de conhecimentos acumulados na memória; há de ser um poder aquisitivo capaz de se enfronhar prontamente em qualquer assunto ou matéria consoante requeiram as necessidades do momento. Nada o embaraçará, nenhuma pedra de tropeço o mobilizará no carreiro da vida. Não sendo um armazém de teorias e de regras estreitas hauridas de oitiva, é uma potência dinâmica capaz de penetrar todos os meandros do saber e de solucionar os mais intrincados problemas da vida, desde que a questão o afecte e lhe desperte interesse.

A educação normal cria capacidades, enquanto que a artificial gera marionetas que vivem a repetir o que ouvem, sem consciência do que fazem. Tais indivíduos são sempre dependentes, imitadores vulgares, parasitas, estratificados.

A educação real organiza sociedades dignas, onde a ciência, a filosofia, a moral e as artes vicejam francamente sob atmosfera favorável; onde há campo vasto para todas as actividades do Espírito e onde todas as aspirações elevadas da alma encontram possibilidades de realização.

A falsa educação promove conglomerados amorfos de indivíduos incapazes, medíocres em tudo, verdadeiros rebanhos que se agitam monotonamente ao sinal do cajado que os tange segundo alheios caprichos.

A educação, tal como deve de ser, prepara o indivíduo para a vida como realmente ela é: para os destinos altaneiros que Deus concebeu e tracejou para o Espírito. A educação falsa amolda o indivíduo ao sabor de outrem, prepara-o para certas escolas político-sociais ou para servir a determinadas organizações sectárias. Em quaisquer desses meios, a liberdade é um mito em que muito se fala para iludir a boa fé alheia, e onde a escravidão é um facto com todo o seu cortejo de ignomínias.

A submissão incondicional à autoridade, como base de ensino, é ultraje à dignidade humana contra o qual se revolta o nosso século. A geração nova, que ora desponta, jamais poderá tolerá-la, em que pese aos reaccionários e ultramontanos (i) de todos os matizes e calibres.

É tempo de se estabelecer a verdade neste particular de tão subida importância. É preciso salvar o mundo, apontando os meios conducentes à realização desse ideal de amor.

A missão do Espiritismo é educar para salvar. Enquanto este facto não penetrar a mente e o coração da maioria dos espíritas, a luz não estará no velador, e o Paracleto (i) ver-se-á embaraçado na tarefa de reivindicar os direitos do divino Redentor, restaurando o Cristianismo de Jesus, desse Jesus que foi mestre, teve discípulos e proclamou a liberdade do homem mediante a educação racional do Espírito.

Educar: eis o rumo a seguir, o programa do momento.


Jesus, o Mestre

Jesus curou cegos de nascença, surdos-mudos, epilépticos, hidrópicos, doidos e lunáticos, paralíticos, reumáticos e leprosos; sarou, finalmente, enfermos de toda a casta que a ele recorreram em busca do maior bem temporal — a saúde. No entanto, jamais o Senhor pretendeu que o dissessem médico, ou clínico.

Jesus frequentava o templo e as sinagogas onde atendia aos sofredores e ensinava ao povo as verdades eternas, mas nunca se inculcou levita  ou sacerdote.

Jesus predisse com pormenores e particularidades o cerco, a queda e a ruína de Jerusalém; como essa, fez várias outras profecias de alta relevância. Penetrava o íntimo dos homens, devassando-lhes os arcanos mais secretos, porém não consta que pretendesse as prerrogativas de vidente ou de profeta.

Jesus realizou maravilhas, tais como: alimentar mais de cinco mil pessoas com três pães e dois peixes; acalmar a tempestade, impondo inconcebível autoridade às ondas revoltas do oceano. Ressuscitou a filha de Jairo, o filho da viúva de Naim e, também, Lázaro, sendo que este último já estava sepultado havia quatro dias. Transformou a água em vinho nas bodas de Cana da Galileia, e muitos outros prodígios operou não pretendendo, apesar disso que o considerassem milagreiro ou taumaturgo.

Jesus aclarava as páginas escriturísticas, fazendo realçar da letra que mata o espírito que vivifica, mas não se apresentou como exegeta ou, ministro da palavra.

O único título que Jesus reclamou para si, fizesse jus às mais excelentes denominações honoríficas que possamos imaginar, foi o de “mestre”. Esse o título por ele reivindicado, porque realmente Jesus é o Mestre excelso, o Educador incomparável.

A sua fé na obra da redenção humana, mediante o poder incoercível da educação, acordando as energias espirituais, é inabalável, é absoluta. Tão firme é a crença na regeneração dos pecadores, na renovação da nossa vida, que por esse ideal se ofereceu em holocausto.

Educar é redimir (i). O Filho de Deus deu-se em sacrifício pela causa da liberdade humana. A cruz plantada no cimo do Calvário não representa somente a sublime tragédia do amor divino: representa também o símbolo, o atestado da fé viva que Jesus tem na transformação dos corações, na conversão das nossas almas. "Quando eu for levantado no madeiro, atrairei todos a mim..." assegurou ele. Todos, notemos bem; não uma parcela mas a totalidade. Vemos por aí como é radical a sua confiança, a sua crença na reabilitação dos culpados, através da educação.

Sim da educação, dizemos bem, porque só um título Jesus reclamou, chamando-o a si, e o fez sem rodeios sem rebuços, nem perífrases, antes com a máxima franqueza e toda a ênfase: o título de mestre. Dirigindo-se aos seus discípulos, advertiu-os desta maneira: "Um só é o vosso mestre, a saber — o Cristo Portanto, a ninguém mais chameis mestre senão a mim". (Mateus, 23:8.)

Jesus rejeitou o ceptro, o trono, a realeza, alegando que o seu reino não é deste mundo. Dispensando igualmente, a glória e as honras terrenas; um só brasão fez questão de ostentar: ser mestre, ser educador. É significativo!

"Eu sou a luz do mundo, sou a verdade, sou o pão que desceu do céu" — proclamou o Senhor. Esparzir Luzes revelar a verdade, distribuir o pão do Espírito — tal a obra da educação, tal a missão do Redentor da Humanidade.

Que dúvida poderá restar a nós, neo-cristãos, sobre o rumo que deve tomar a nossa actividade, uma vez que o advento do Espiritismo é o do Consolador prometido? Que outra forma poderemos dar ao nosso trabalho, que seja tão eficaz, tão profícua e benéfica à renovação social, como aquela que se prende à educação, no seu sentido lato e amplo?

Trabalhemos, pois, com ardor e entusiasmo pela causa da educação da Humanidade, começando pela infância e pela juventude desta terra de Santa Cruz.
/...

"Aos que comigo crêem e sentem as revelações do Céu, comprazendo-se em sua doce e encantadora magia, dedico esta obra" Pedro de Camargo “Vinícius”


Pedro de Camargo “Vinícius” (i), Em torno do Mestre, Primeira Parte / Seixos e Gravetos, – Educar, – Jesus, o Mestre, 1º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Pedro de Camargo “Vinícius”, o homem)

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

O Espiritismo na Arte ~


Parte IX

Segunda lição de o Espírito Massenet

– Ser espiritual: meios de alcançar a esfera musical desejada

(Outubro de 1922)

“Hoje falaremos não do instrumento supra-terrestre, como o fizemos, mas da forma como o ser desencarnado (i) se pode afastar da Terra e penetrar nas esferas etéreas onde as harmonias do espaço se tornarão mais perceptíveis para ele. Tomemos, por exemplo, um ser desencarnado, de uma educação espiritual média, resultante dos seus trabalhos anteriormente realizados e do seu grau de fé.

No início da sua vida no espaço, o ser desencarnado deverá familiarizar-se com o seu novo estado, e ele chegará a despertar em si a lembrança das harmonias que percebeu nas suas existências anteriores. Ele sentirá o desejo de se retemperar nesses fluidos harmónicos; mas, sob o ponto de vista latente, ele não pode saber imediatamente quais os meios para atingir a esfera a que o seu espírito aspira subir. Os seus guias (i), mais elevados que ele, o intuirão e farão vibrar o seu perispírito (i) de uma maneira graduada, a fim de que ele não seja perturbado.

Assim se estabelecerá o que chamamos harmonia, e toda a dissonância desaparecerá entre ele e a esfera musical em que deseja penetrar. Quando, na Terra, ouvis um instrumento imperfeito, se ele não está afinado, os vossos pobres órgãos ficam aturdidos; acontece o mesmo na vida do Além. Os guias impressionam o perispírito do desencarnado, a fim de obter uma adaptação mais completa.

Eis então o nosso ser, tomado como exemplo, preparado para receber ondas musicais. À medida que as suas próprias radiações se ligam melhor às irradiações harmónicas do espaço, aumenta o seu desejo de se elevar ainda mais alto em direcção à fonte de eterna beleza. Livre de toda a influência grosseira, ele vai subir, com os seus guias, para as regiões superiores, celebrando com eles a glória do Altíssimo.

Os fluidos materiais volatilizam-se, o perispírito torna-se mais luminoso, as radiações mais intensas, mais subtis, e a sua evolução é facilitada. O espírito vai subir como sobem os balões sobre o vosso globo.

Penetrando as altas regiões do espaço, o ser espiritual experimenta inicialmente uma sensação de suavidade, uma espécie de dilatação, de arrebatamento; depois, as emanações fluídicas que se desprendem do perispírito entram em contacto com outros feixes de emanações; daí uma espécie de desligamento fluídico entre dois feixes de uma subtileza mais ou menos igual, mas de natureza diferente. Vós não podeis imaginar a impressão experimentada pelo ser fluídico: já não são sensações de bem-estar, de contentamento, mas uma espécie de acalentamento, de ondulação, acompanhados de uma sensação especial, que determina um estado emotivo, uma espécie de êxtase. As vibrações sentidas nesse estado formam o que vós chamais de tonalidades; elas são produzidas pelo atrito entre camadas fluídicas.

Mais alto do que essas esferas harmónicas, existem outras regiões que ainda não podemos atingir e onde residem seres superiores, criadores de uma música sublime, que nos é transmitida por correntes fluídicas especiais. Nós não percebemos os seres que a produzem, no entanto ela chega-nos por correntes condutoras de uma natureza subtil. Um guia esclareceu-me que os seres que produzem as ondas dessa música celeste são quase perfeitos e possuem uma parcela do talento divino.”


Terceira lição de o Espírito Massenet (i)

– As vibrações sonoras nos espaços etéreos

(Outubro de 1922)

“Vós sabeis como se formam as vibrações. O espírito, transportado na esfera vibratória, encontra-se envolvido por uma rede de ondas sonoras cujos elementos são constituídos por seres superiores. O que este sente? Sente uma impressão comparável àquela que sentis ao ouvir uma tónica (ii) em música. Quanto mais as ondas do campo vibratório são desenvolvidas em velocidade e em comprimento, mais a impressão sentida pelo perispírito é viva, penetrante e comparável, em termos humanos, à impressão que nos proporcionam os sons agudos.

Temos, então, de um lado a tónica e de outro o som agudo. Se, no campo vibratório, as ondas variam em velocidade e intensidade, a amplitude do som variará e esse som parte de um ponto inicial, comparável à tónica. Esse ponto inicial compreende uma certa onda vibratória, e eu não posso mensurá-la. Eis uma comparação: os vossos fonógrafos (iii) emitem sons onde, além da sonoridade produzida pelo instrumento, se aproximardes o ouvido do seu pavilhão, sentireis um calor mais ou menos intenso, segundo a elevação do tom. Pois bem, ser desencarnado não sente calor, mas sensações mais ou menos deliciosas, de acordo com a maior ou menor velocidade e com a maior ou menor duração da onda.

As radiações que atingem o perispírito são coloridas de tons infinitamente variados. Cada cor tem uma propriedade particular, que dá uma sensação de bem-estar, de satisfação, que difere segundo a pureza, a homogeneidade de cada tom. É preciso, então, levar em conta, de um lado, a qualidade das ondas, isto é, da sua coloração; de outro lado, a sua velocidade, a sua duração, as diversas fases dos seus meandros. Tudo isso provoca, no ser desencarnado, fenómenos incomparáveis e infinitamente variáveis, porque, quanto mais o espírito é evoluído, mais diversas são as ondas que ele percebe, assim como as cores, que exprimem os sentimentos. Tomemos como exemplo o azul, que representa os sentimentos mais elevados sob o ponto de vista afectivo; uma onda azul nos dará vibrações que serão, para o vosso ser, como um banho de amor. O vermelho, nas mesmas condições, representa a paixão. O amarelo será intermediário. O rosa, que é uma mistura de amarelo com vermelho, vos dará um amor menos intenso, porém mais constante. Assim, com essas cores fundamentais, podeis formar uma gama de tonalidades que dão, por correspondência, vibrações de todos os sentimentos humanos e sobre-humanos.

Se o ser desencarnado ainda é pouco evoluído, mas tem o desejo de se impregnar de sentimentos belos, os seus guias o conduzirão para esferas animadas por seres angélicos. Quando o ser desencarnado é muito evoluído, ele colhe, nas mesmas esferas, satisfações em que o amor e a paixão virão impregnar o seu ser, e é por isso que, de regresso à vossa Terra, os seres que amam a música se lembram intuitivamente das estadas mais ou menos longas que fizeram no espaço, em um campo de ondas musicais.

A música celeste não é produzida por fricções de arco sobre cordas: tudo é fluídico, tudo é espiritual, tudo é inspirado pelo pensamento de Deus.”


– Comentários

Sobre a Terra, a gama de sons, tal como a concebemos, é apenas uma relação de sensibilidade que nada tem de absoluto. Compreende-se muito bem que existe uma relação entre as ondas sonoras e as ondas luminosas, mas esta relação escapa a muitos observadores e sensitivos, porque as percepções são muito diversas nos seus graus de intensidade; sendo as vibrações luminosas incomparavelmente mais rápidas que as vibrações sonoras.

No entanto, para o espírito cujas percepções são muito mais possantes e mais extensas, a relação é mais estreita do que para nós, e a sensação se unifica; temos um exemplo disso na diferença que se estabelece entre as notas baixas, que correspondem às cores mais escuras, e os sons agudos, que correspondem às intensidades mais vivas. (iv)

A inteligência, que percebe e resume todos os efeitos e todas as formas da substância eterna, abrange todas as vibrações, e ela mesma vibra sem preocupações com distâncias e ritmos através do infinito.

Também é fácil para nós compreender como, na vida espiritual, os prazeres estéticos são correlativos ao grau de evolução dos seres. Todos nós temos, na Terra, o mesmo órgão auditivo, no entanto que diferença de sensações experimentadas pelos ouvintes de uma sinfonia, conforme o seu grau de cultura ou a sua elevação psíquica!

As formas e as imagens produzidas pelas vibrações sonoras nos espaços etéreos, das quais nos fala o Espírito Massenet, também nos parecem ser manifestações do pensamento ordenador que concebeu e dirige o Universo. A música celeste poderia representar a própria vibração da alma divina. Eis por que quanto mais o espírito evolui e se depura, mais se torna apto a compreender, a sentir a beleza e a harmonia eterna do mundo.

/…
(ii) Tónica: primeira nota da gama, de um dado tom; aquela que começa um trecho de música e lhe dá o seu nome. Ex.: fá maior. (N.T., segundo o Dictionnaire Le Robert de la Langue Française.)
(iii) Fonógrafo: antigo aparelho destinado a reproduzir sons gravados em cilindros ou discos metálicos; aparelho que reproduz os sons gravados em discos sob a forma de sulcos espiralados; gramofone. (N.T., segundo o Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa.)
(iv) A esse respeito, citarei as palavras pronunciadas pelo Sr. Deslandres, director do Observatório de Meudon (i), no seu discurso na sessão anual do Instituto, no dia 25 de Outubro de 1921: “Actualmente, as vibrações e ondas do éter, bem reconhecidas e classificadas, formam cerca de 50 oitavas. O campo de estudo é muito mais extenso do que para os sons perceptíveis ao ouvido, que formam, no máximo, 10 oitavas, reduzidas a sete nos instrumentos de música. Essas 50 oitavas são repartidas em três grupos principais, que são: o grupo da radiotelegrafia, o grupo ligado à luz e o grupo dos raios X. Em geral, eles são classificados por ordem de frequência, como num grande piano. À esquerda, do lado das baixas frequências e dos sons graves, estão as ondas da telegrafia sem fio, que asseguram as comunicações terrestres a grande distância. Ao centro, tem-se a oitava luminosa e as oitavas vizinhas que transportam calor e luz, que nos fazem conhecer o horizonte do local, o Sol e as estrelas, que impressionam as placas fotográficas e servem para depurar as águas. Enfim, à direita, do lado das altas frequências e dos sons agudos, estão os raios X, que têm propriedades eléctricas notáveis, que nos fazem descortinar as partes mais escondidas dos corpos vivos e a estrutura íntima dos átomos. Deve observar-se também que sobre essas 50 oitavas, só uma, colocada próxima ao meio, é percebida directamente por um dos nossos sentidos: é a oitava que contém os raios luminosos do vermelho ao violeta.” (N.A.)


LÉON DENIS, O Espiritismo na Arte, Parte IX – Segunda lição de o Espírito Massenet: Ser espiritual: meios de alcançar a esfera musical desejada – Terceira lição de o Espírito Massenet: As vibrações sonoras nos espaços etéreos – Comentários, 27º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: O Concerto dos Anjos (1897), óleo sobre tela de Edgard Maxence)