Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Deus na Natureza ~


~ O Destino dos Seres e das Coisas ~
~ Plano da Natureza ~ 
~ O Instinto e a Inteligência ~

(II)

Enquanto traço estas linhas, aqui, dentro de pequeno bosque cujas aves me conhecem, tenho defronte de mim um ninho de rouxinóis.

Quatro filhotes implumes, trémulos, ali se premem tão aconchegados que mal se lhes distingue as cabeças volumosas, relativamente e, os olhos negros, ainda mais. Nascidos anteontem, nada vêem, nada sabem ainda, se há arvoredos e luz.

  Se fossem abandonados, assim, não tardariam a perecer. O coração dos genitores, porém, freme por eles com anseios verdadeiramente maternos. Eles lá estão, ambos, pai e mãe, à borda do ninho e aconchegados também. Enfiam o bico nos quatro biquinhos escancarados e é de notar a força que lhes sustenta e alonga os pescocitos. Pai e mãe, trazendo-lhes no papo a provisão, ministram-lhes dessarte, durante alguns minutos, os primeiros alimentos, o mel e o leite que os há de nutrir no futuro. Que família encantadora! E como prezam a vida todos os seis! Os raios solares coam-se através dos ramos, do vale evolam-se perfumes, é a vida a espanejar-se em luz nesta temperatura tépida de Maio. Por vezes, o minúsculo casal suspende a tarefa e contempla os filhotes com ar de contentamento e movimentos de cabeça significativos. Também se fitam silenciosos, colam-se as cabeças e confundem-se os bicos, como num beijo de amor… Depois, ei-los como a se consultarem. Uma nuvem refrescou a atmosfera. O pai voou, a mãe aninhou-se, abrindo as asas de maneira a cobrir todo o ninho e, todavia, mantendo alta a cabeça, para ver o horizonte e sondar as redondezas. Mas, agora, eis que regressa o rouxinol e se coloca, tal como antes, na beira do ninho, a procurar o bico da companheira. É que chegou a hora do jantar da família e o chefe solícito lhe traz o cibo preferido. Quanto a ela, parece não lhe desprazer o regime, uma vez que aspira, como inebriada, o manjar que lhe trazem. Tremem-lhe as asas, todo o corpo lhe palpita, enquanto o marido vai e volta num afã constante, carreando-lhe no bico um repasto completo. Muito lhes cabe fazer pela prole. Agora. ei-los sérios. Há 15 dias, passavam o tempo a cantar, a saltitar de galho em galho, a brincar, a amar... Agora, já não fazem nada assim, estão casados, chefes de família, responsáveis por uma nova geração. Até que os filhotes emplumem, precisam levar-lhes à boca o que mais convém na sua idade e preocupam-se já com o seu destino. Amam-nos e talvez eles não compreendam aquela afeição maternal. É possível que voem, tão logo a mãe lhes ensine a voar; é possível que subitamente a releguem a uma solidão definitiva, sem jamais se lembrarem da infância. “A afeição é como os rios; desce e não sobe.”

  Em que pensam, hoje, esse rouxinol e a sua companheira? Certamente, ao cogitarem do futuro dos filhos, não têm em mente as profissões sociais e os princípios de honorabilidade que devem nortear todas as carreiras. Por certo que não serão atormentados por cálculos económicos, tantas vezes falaciosos para o homem. Mas aos que negam o instinto, perguntaremos: em que escola essa esposa, antes de ser mãe, aprendeu a construir o ninho que lhe havia de receber os ovos?

  Ela tem apenas um ano e ainda não havia chocado: quem lhe ensinou a fazer esse ninho, precisamente assim e não de outro modo? Quem lhe teria falado de temperatura necessária à incubação e eclosão do ovo fecundado? Quem lhe teria dito que chocando, aquecendo por 15 dias aqueles ovos, facultaria a sua geração? Posição de constrangimento, apesar do alívio que experimenta, tornar-se-ia insuportável à sua vivacidade, se um determinismo instintivo não a amparasse. E quando os ovos vingaram, quem lhe disse que precisava sair do ninho e que, vivos e precisando subsistir os pequeninos seres, importava granjear-lhes alimentação adequada? Quem a forçou a passar mais quinze noites de asas abertas sobre o ninho, na mais fatigante das posições para uma ave que deve dormir sobre as patas? A estas, poderíamos juntar mil outras advertências. Hão de responder-nos que a primeira espécie aprendeu tudo isso pelo hábito, e que as tendências se transmitem por hereditariedade; mas é recair no mistério das gerações, é não mais que recuar o problema à primeira espécie, ou melhor ainda, se o quiserem – aos primeiros tipos, supostos geradores de todas as variedades. Ora, admitindo-se mesmo, contra toda a probabilidade, que a construção dos ninhos, a incubação e os primeiros cuidados com a prole sejam mostras de inteligência, não do instinto, e que as espécies tenham, sucessivamente, aprendido a proceder dessa maneira – o que, digamo-lo ainda mais uma vez, nos parece inadmissível – como resolver as questões atinentes à formação do ser dentro do ovo? Quem construiu o ovo, berço de uma geração futura? Quem criou e colocou o germe no centro desse ovo? Mediante um poder misterioso, um ser da mesma natureza dos pais se vai mover neste fluido, o ovo incipiente vai sofrer a mais maravilhosa das metamorfoses, vai viver! Completada a transformação, surge uma ave! Assaz débil para se expor fora, não se exterioriza e, enquanto aguarda, ei-la cercada pela clara do ovo, que é precisamente o alimento que lhe convém até ao nascimento.

  Assim, pouco a pouco, se forma inteiramente, asas e patas se desligam, a cabeça sobreleva o peito, só lhe resta deixar a prisão e para isso o bico se reveste de um esmalte, que cai logo depois do nascimento. Com o bico assim aparelhado, ele se põe a quebrar a casca do ovo, até que consegue pôr de fora a cabeça. Utiliza, então, as asas e acaba por se libertar inteiramente.

  Pois bem: – que os adversários, em tudo isto se esfalfem por formular as mais vastas e intermináveis teorias, que acumulem hipóteses sobre hipóteses, que recusem chamar instinto aos actos do nascituro, como da ave que o engendrou; que embrulhem o assunto em explicações tortuosas, confusas, e nem por isso deixamos de aí ter um facto natural, eloquente na sua simplicidade e que eles, os adversários, não poderão derrocar. Aquele que criou o rouxinol e quis que nos alegrasse ele com o seu canto vespertino, criou o mundo e houve por bem dar-lhe as leis da própria conservação. Não há ideia mais simples e majestosa, nem que mais satisfaça a nossa necessidade de conhecimento. Negar as leis conservadoras da vida é negar toda a Natureza. A nós nos parece que para ir a tais extremos é preciso ser estólido ou vítima de aberração espiritual. A verdadeira Ciência está muito longe de tais negações! Seria, na verdade, uma desgraça se o fruto da sabedoria redundasse no aniquilamento das leis que regem o Universo e constituem a sua unidade viva.

  Porque, pois, em face de factos tão irresistíveis quanto os do instinto animal, não confessar uma verdade bela e tocante ao mesmo tempo? Será precisamente por ser bela e tocante que a recusam? Seríamos quase levados a supô-lo, pois nestas teorias materialistas, basta seja uma coisa agradável ao espírito para logo ser repelida. Esta, contudo, não é uma razão assaz suficiente. Para nós, ao contrário, contemplamos a Natureza em todos os seus aspectos. A verdade não pode deixar de ser bela e não é só Platão a pensar que o belo é o esplendor da verdade. A Natureza é verdadeiramente bela. Longe de desviar os olhos sempre que encontramos uma forma expressiva da beleza eterna, admiramo-la e reconhecemo-la tão sinceramente quanto o fazemos a uma verdade matemática. Não é a Natureza a nossa mãe? Onde já passamos horas mais deliciosas e instrutivas do que as vividas intimamente com ela, no seio da floresta silenciosa?

  Contemplai, na sua maravilhosa harmonia, a lei de continuidade da espécie humana, procurai aprofundar a ordem misteriosa que preside à nossa geração e crescimento. Que maior prova de habilidade pudera dar a Natureza ao envolver cada sexo nessa atracção indefinível, que o escraviza suavemente aos seus desígnios soberanos? Que sabedoria não nos testemunha ela, organizando, em bases rígidas, a vida oculta do ser em formação, que até ao dia do nascimento se beneficia de uma existência inteiramente diversa da de todos os outros seres vivos? Que previdência não demonstra ao criar, para nutrição do tesouro oculto, órgãos diferentes dos que lhe haverão de servir na vida atmosférica e ao preparar para os primeiros dias a mais pura das ambrosias? Perguntai às jovens mães quantos cuidados requerem esses recém-nascidos fragílimos e trémulos. E, contudo, a Natureza ainda será a mais vigilante das mães. Qual a afeição mais tenra, o amor mais carinhoso, o devotamento mais extremado, de mãe; qual a inteligência mais lúcida, a previdência mais sábia de um pai, que poderiam rivalizar com os cuidados incessantes e universais da Natureza, tão profusa, infatigável e prodigamente despendidos na protecção individual, activa, a cada um de seus filhos?

  Sobre a previdência da Natureza, poderíamos escrever grossos “in-fólios”. Poderíamos perguntar se é por acaso e sem objectivo que as espécies mais fracas e expostas à morte são precisamente as mais fecundas, como sejam galináceos, perdizes, etc., pondo dezenas de ovos fecundados e deixando, ao fim de um ano, centenas de rebentos, enquanto as aves de rapina, condores, águias, etc., se apresentam, comparativamente, quase estéreis. Poderíamos, também, perguntar se é às cegas que a Natureza decora de encantos particulares os pequeninos seres sem força e sem amparo, despertando-nos interesse e atenção para essas cabecitas louras, que, privadas de assistência, acabariam por dormir no seu berço um sono eterno. Poderíamos, ainda, invocar aqui o espectáculo integral da Criação vivente, mas, intimamente convencido da adesão dos leitores, neste particular, não insistiremos inutilmente.

  Parece-nos que esses eminentes trabalhadores fizeram entusiasmados a maior parte do caminho e que, não possuindo vista telescópica capaz de distinguir o fim, esquecem que o progresso das ciências tem verdadeiramente um fim e estacam, inertes, depois de provarem uma capacidade activa incontestável. Por terem verificado que as causas finais, imaginadas pela vaidade humana, só lhe têm servido, há tantos séculos, de redança por embalar-se displicentemente; – depois de se haverem certificado que os deuses-escravos do orgulho, as criações da fantasia e as ilusórias teorias de um pensamento mesquinho mais não são que simulacros sem realidade, sombras, fantasmas que um raio de luz das ciências basta para diluir – concluíram não haver directriz nem finalidade na Criação. Porque o homem se enganou na solução de um problema, decidiram eles que não há problema nem solução. Confundindo inexplicavelmente a verdade com a noção do que nos é dado saber; confundindo, igualmente, a grandeza real de uma obra com a ideia que fazemos dela, tal como os teólogos da Idade Média a confundirem a ideia religiosa, em si mesma, com a forma católica particularista, proclamam eles que a falsidade das nossas noções individuais acarretam a ruína do próprio objecto dessas noções. Na verdade, para espíritos habituados aos rigores do raciocínio; para homens sábios, que parece procurarem com absoluto desinteresse a verdade tão longamente dissimulada, dir-se-á que não provam, dessarte, excelência nem superioridade de vistas. Antes, pelo contrário, evidenciam directamente a estreiteza da esfera que habitam, dispostos a recusar-lhe qualquer ampliação, obstinados em lhe vedar toda e qualquer luz, como se temessem que essa luz viesse espalhar reveladoras claridades no horizonte e recuar, para muito além dos seus recursos, os limites do Universo.

  Os nossos opugnadores pretendem fazer ciência quando declaram que a organização dos seres não justifica o ascendente de um desígnio na Natureza. Em lugar de ciência, o que eles fazem é puro sistematismo, arbitrário, nisto como em tudo o mais.

  De facto: em que consista o método científico? Que será uma teoria em Astronomia, em Física, em Química? Observamos os factos e quando possuímos um conjunto de observações suficientes procuramos religá-los mutuamente entre si, mediante uma lei. Vemos essa lei? Nunca, jamais. Adivinhamo-la pela discussão dos factos e talvez a denominação que lhe damos não seja a que melhor convenha.

  Esta teoria, pela qual o nosso espírito insaciável sente a necessidade de explicar todas as coisas, não é, antes de tudo, senão uma hipótese cujo valor consiste, principalmente, na satisfação que nos proporciona a explicação natural dos factos estudados.

  Por muito tempo ela não passa de hipótese, inconsistente e frágil, que o mais leve sopro pode derrubar, para só elevar-se à verdadeira teoria quando suficientemente examinada, experimentada e sancionada pelo estudo. De outra forma, resvala para o campo das erronias imaginárias.

  Vejamos, por exemplo, os movimentos dos corpos celestes.

  Notamos que eles descrevem elipses de que o Sol se constitui um dos focos; notamos que as superfícies percorridas são proporcionais aos tempos, e notamos que estes tempos de revolução, multiplicados por si mesmos, estão entre si como os grandes eixos multiplicados três vezes por si mesmos. Para explicar os movimentos da mecânica celeste, emite-se a hipótese de que os corpos se atraem na razão directa das massas e inversa do quadrado das distâncias. Enunciar esta hipótese, vale simplesmente por dizer que as coisas se passam como se os astros se atraíssem. Depois, explicando essa hipótese, perfeitamente, todos os factos observados e dando conta de todas as circunstâncias do problema, se torna ela uma teoria.

  Enfim, achando-se esta lei universalmente demonstrada, tanto pelo balanço das estrelas gémeas, na profundeza dos céus, como pela queda de uma maçã na superfície da Terra, afirma-se que a lei chamada gravitação (i) representa, de facto, a força reguladora dos mundos.

  Idêntico é o processo que empregamos ao declarar que os organismos vivos são construídos como se a causa, fosse ela qual fosse, que as condicionou teria tido em vista uma destinação dos órgãos em relação à vida peculiar de cada ser, tanto quanto à existência global de todos os seres em conjunto.

  As verdadeiras causas finais são, portanto, um resultado da observação científica, O método é o mesmo e, como bem o disse Flourens, é preciso partir não das causas finais para os factos, mas destes para aquelas. Induzir do conhecido para o desconhecido, eis o único método positivo. Ora, o resultado deste método, seja ele qual for, merece ser proclamado como científico. Pode suceder que a revelação de um plano e de uma finalidade na Natureza não agrade a Fulano ou Beltrano, mas isso pouco importa. Fulano e Beltrano estão no mais falso dos erros quando nos acusam de não proceder de acordo com a Ciência experimental e incidem na mais fatal das ilusões quando imaginam proceder de acordo com essa ciência. Trocam, assim, os papéis pró-domo sua, como frequentemente acontece.

  A verdade, porém, despreza-lhes as tendências e fica inalteravelmente idêntica, sem se preocupar com os prismas através dos quais a encaram olhos interessados em vê-la abaixo da sua posição real.

  Esquisitice inexplicável em homens judiciosos, pretenderem que, admitindo a existência de Deus, sejamos obrigados a admitir o arbítrio na Natureza, como se a vontade suprema não fosse necessária, infinitamente sábia e, por consequência, universalmente regular. “Os que só vêem em todos os movimentos da Natureza os meios de atingir um fim – diz Moleschott – chegam muito logicamente à noção de uma personalidade que, num tal propósito, confere à matéria as suas propriedades. Esta personalidade também designará o fim.

  “Se assim é, se uma personalidade designa os fins e escolhe os meios, a lei de necessidade desaparece da Natureza. Cada fenómeno se torna partilha de um jogo do acaso e de um arbítrio sem finalidade.”

  J. B. Biot afigura-se-nos mais bem inspirado quando assim conclui o exame da Natureza: (*) “Por mim, quanto mais considero a harmonia, a imensidade do Universo e as maravilhas da Criação, tanto mais admiro esse concerto maravilhoso e menos apto me julgo para explicá-lo. Ousarei dizer, mesmo por havê-lo experimentado, que essas explicações imperfeitas, esses vagos ou falsos relatórios, que alguns modernos escritores querem inculcar como harmonias sublimes, nunca nos pareceram mais temerários e fúteis do que quando defrontamos a Natureza. Quando se há tido a ventura de conhecer e sentir as verdadeiras belezas que ela ostenta, somos tentados a conceituar, como profanadores e ímpios, quantos a desfiguram com indignos disfarces. Assim é que todos os seres organizados tiveram os seus meios próprios de vida, tão numerosos e tão multiplicados na variação do mecanismo, quanto as estrelas do céu.

  “E note-se que isto é o que percebemos exteriormente, pois o mais maravilhoso nos fica oculto. Quem, jamais, pôde compreender a acção química das membranas vivas, a causa dos movimentos voluntários e involuntários – que digo eu? – o voo da mosca, os torneios da borboleta? Quando a nossa inteligência mal pode atingir o conhecimento das disposições exteriores do organismo e mal pode apreender as relações entre si de alguma das peças que o compõem, seria, parece-nos, ilógico não ver no âmago desse conjunto o princípio inteligente, como o ordenador e regulador de tudo. Por mim quero, ao menos, possuir a filosofia da minha ignorância.”

  A ordem verificada nos factos não produzidos pelo homem – advertiremos ainda com o ilustre escritor (**) – mostra-nos que as correlações apresentadas pelo mundo material resultam de acções e reacções que, combinadas, se regem por leis. Pela experiência contínua da vida, sabemos que sempre as correlações, as harmonias, as leis, são obra de uma inteligência cujo poder é proporcionado à extensão dos fastos e das harmonias coordenadas. Temos assim, por evidente, que o Universo é governado por uma inteligência. Estas correlações e estas harmonias estão em correspondência com as propriedades intrínsecas da matéria e a elas se ligam de tal sorte que deixariam de existir se essas propriedades substanciais fossem outras. Daí concluímos que a matéria com as suas propriedades intrínsecas é também obra da Inteligência, que lhe estabeleceu as leis. O bom senso decreta, imperiosamente, e no que pesem às alegações contrárias, que não podemos atribuir a uma circunstância molecular, fortuita, a atracção, a electricidade, o calor, a composição do ar, factos cósmicos perfeitamente apropriados à vegetação das plantas, à vida animal, pela mesma razão que ninguém admitiria pudessem milhares de tipos de impressão, espalhados ao acaso, produzir a Ilíada ou a Jerusalém Libertada. Se, para fugir a conclusões lógicas, nos dissessem que essas qualidades são efeitos inerentes, nem por isso elidiriam a necessidade lógica de uma intervenção suprema e inteligente.

  Juntemos a esta imagem um aforismo pouco discutível: todo o fim supõe uma intenção, toda a intenção uma consciência e toda a consciência uma personalidade.

  O problema das causas finais, repitamo-lo, é de solução mais difícil e complicada do que se prefigura a muitos imaginativos apressados. Ele se traduz, como diriam os antepassados, antes em potencial do que em acto. Os factos gerais o decidem e os particulares o dificultam. Para bem o apreender, importa ao espírito adstringir-se a um exame severo e, de um golpe de vista, abranger, senão a totalidade, pelo menos a maioria das coisas conhecidas, sob o duplo aspecto do tempo e do espaço.

  O primeiro efeito desse rigoroso estudo crítico é, precisamente, afastá-lo de toda a crença e resguardá-lo dessas mesquinhas interpretações humanas, que levam a criatura a referir tudo a si mesma, como eixo central da Criação.

  Assim procedendo, poderemos, então, rir das ilusões, vaidades e tentativas insensatas do orgulho humano. Esse, o primeiro resultado do estudo geral dos seres.
/…

(*) Mélanges Scientifiques et Litteraires (i), t. 2º.
(**) J. M. de la Codre – Les Dessems de Dieu. Este ensaio de filosofia religiosa e prática caracteriza uma das felizes tendências contemporâneas contra a invasão do ateísmo. Os argumentos, aí desenvolvidos, resumem-se no seguinte: Não existe o impossível; no Universo há ordem e a ordem só pode emanar de uma inteligência. O Universo é, portanto, obra de uma inteligência. Essa ordem resulta da execução de uma lei, ou do concerto de várias leis e, as leis são sempre e, necessariamente, obra de uma vontade inteligente. O autor do Universo, Deus, sendo uma Inteligência, teve indubitavelmente um fim, criando o Universo. Esse fim seria fazer-nos felizes, como no-lo atestam as nossas aspirações e faculdades, no que possuem de mais elevado. Todos os seres dotados de sensibilidade são, por conseguinte, convocados à felicidade. E nós vemos, de facto, que eles são até certo ponto felizes, por isso que todos vivem e amam a vida, assegurando-a e defendendo-a até aos limites extremos. A felicidade, porém, não é igual para todos os seres: Há, notadamente, uma diferença marcante entre a felicidade dos animais e a presumida felicidade humana. Aquela se adstringe a estreitos limites, é uma felicidade simplesmente “dada”, enquanto que esta toma vastas proporções e reveste outro carácter; é uma felicidade merecida”.
Compreender-se-á facilmente esta distinção – diz o Autor – observando os factos e comparando os raros e incompletos prazeres de que compartilham os seres puramente sensitivos, com os gozos serenos, infinitos, que a alma humana encontra no cumprimento do dever, na piedade, nos doces afectos da família. A maior parte dos sofrimentos nos sobrevêm quando, por ignorância ou rebeldia, contravimos às leis do criador.
Da perpetuidade dessa aspiração a uma felicidade completa e indefinida, e da faculdade de aperfeiçoamento moral, bem como de conhecimento progressivo; – uma vez que essa felicidade não pode existir na Terra – devemos concluir que o homem não perecerá neste mundo com o seu invólucro corporal. A esta hermenêutica podemos ajuntar o seguinte, que o autor nos expôs em carta particular:
“A Natureza é ao mesmo tempo o laboratório e o operário de Deus, assim como a oficina provida de um preparador é o laboratório do físico ou do químico. Tanto mais superiores são os produtos brotados da Natureza, em relação aos de nossas oficinas, quanto mais exaltam e atestam o poder e a inteligência divinos, em relação aos de nossos sábios. Estes, com os materiais que lhes oferece a Natureza, não conseguem fazer o que faz “o operário de Deus” sob a sua direcção. D:H::N:O “Deus está para o homem como os produtos da Natureza estão para os da oficina.” D:N::H:B Deus “actua” sobre a Natureza como a vontade do homem, guiada pela sua inteligência, “actua” sobre os seus olhos e braços. Num capítulo de Os Desígnios de Deus, consagrado à Pluralidade dos Mundos habitados, o Autor contradita a nossa opinião sobre a variedade dos organismos no Universo e a ideia de uma semelhança entre todas as humanidades. Baseia-se ele no seguinte raciocínio: se os habitantes doutros mundos não têm a forma terrestre e se estamos destinados a viver também nesses mundos, não poderemos lá reconhecer os amigos caros... A objecção é mais sentimental que científica e não cabe discuti-la aqui. Podemos, não obstante, repetir que, em virtude da diversidade de acção das forças naturais, noutros planetas, é quase certo que a série zoológica lá se tenha construído sobre um tipo análogo ao da série terrestre.

(Referências: – Leis que presidem à conservação das espécies. – Faculdades instintivas especiais. – Não se explica o instinto pela suposição de hábitos hereditários. – Distinção fundamental entre os factos instintivos e os racionais. – Desígnio nas obras da Natureza. – Ordem geral e as harmonias universais. – Qual a distinção geral do mundo? – Magnitude do problema. – Insuficiência da razão humana.)

Camille FlammarionDeus na Natureza, Quarta Parte (4); O Destino dos Seres e das Coisas, (2) Plano da Natureza, Instinto e Inteligência (2 de 3), 35º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Jungle Tales (Contos da Selva) 1895, pintura de James Jebusa Shannon)

domingo, 28 de dezembro de 2025

metapsíquica | humana


...metagnomia (clarividência,* ) 
e hipóteses espíritas

  Volto a discutir uma objecção já por mim abordada, mas que está a reclamar alguns esclarecimentos mais. Como devemos estar lembrados, Sudre afirma que “os espíritas discutem sobre algumas categorias de fenómenos, em que se entrincheiraram e que declaram inexplicáveis pelas teorias metapsíquicas”.

  A tal respeito cumpre-me dizer que não somente deixa de ser exacto se trate apenas de algumas categorias de manifestações, mas que a análise comparada torna evidente que diversas manifestações metapsíquicas, de ordinário anímicas, podem ser na realidade espíritas, do mesmo modo que muitas manifestações, ordinariamente espíritas, podem, não raro, ser de facto anímicas.

  Com efeito, Animismo e Espiritismo representam o duplo aspecto pelo qual se apresenta a mesma fenomenologia, que provém de uma causa única, constituída pelo espírito humano, na sua dupla fase de existência: a encarnada e a desencarnada.

  Agora e, em harmonia com esta tese, devo lembrar que nas classificações dos casos de identificação espírita se encontram numerosos episódios obtidos com a ajuda de manifestações habitualmente anímicas, assim como que, sob o ponto de vista rigorosamente científico, é relativamente raro que na categoria das manifestações ordinariamente anímicas se possam encontrar incidentes especiais que sejam cientificamente capazes de anular a explicação natural em favor da probabilidade espírita. De qualquer modo e naquilo que concerne à tese em apreciação, devo fazer notar, como observação teoricamente importante, que uma coisa é reconhecer que se não devem ter em conta os casos de identificação espírita que, mais ou menos bem, possam ser explicados pela metagnomia e, que outra coisa, aliás muito diferente, é pretender que todos os casos, mais ou menos bem explicados pela metagnomia, devam constituir, em bloco, casos de metagnomia. Este último modo de ver é uma pretensão gratuita e absurda dos nossos opositores, quando à análise comparada dos factos deveria levar a uma conclusão diametralmente oposta. Daí decorre que, sob o ponto de vista científico, devemos limitar-nos a afirmar que, nas circunstâncias duvidosas, nos cumpre optar sempre pela hipótese menos ampla que, no caso, é a da metagnomia. E, nesse pormenor, parece que estamos todos de acordo.

  Feita essa declaração de princípio, vou desenvolver a tese acima exposta, demonstrando, no terreno dos factos, o motivo pelo qual devemos concluir que uma percentagem considerável de casos supostos de metagnomia – ou de criptestesia, se assim o quiserem – de facto não o são, embora cientificamente ainda seja legítimo excluir, inexoravelmente, das provas de identificação espírita os casos incertos.

  O incidente, já referido, do não reconhecimento da Srta. Warner pela personalidade medianímica de George Pelham proporciona um bom exemplo para esclarecer a tese que sustento.

  Neste incidente encontram-se, com efeito, os elementos necessários para demonstrar, de um lado, que ele é incontestavelmente de natureza espírita e, de outro, que, embora assim sendo, ele deveria ser classificado entre os explicáveis pela metagnomia, se algumas circunstâncias de natureza colateral houvessem faltado.

  As circunstâncias colaterais, que o tornam invulnerável, são os trinta casos de reconhecimento dos amigos vivos, por parte da personagem medianímica de George Pelham. Se o incidente do não reconhecimento da Srta. Warner houvesse sido um incidente insulado, teriam os opositores podido invocar a hipótese conhecida da “telepatia ao lado”, segundo a qual muitas vezes os sensitivos lêem com grande facilidade na subconsciência do consultante e só muito dificilmente na mentalidade consciente do mesmo. Assim, no caso da Srta. Warner, ter-se-ia podido dizer que a médium em transe (i), personificando o Espírito de George Pelham, não havia podido captar os esclarecimentos necessários para uma mistificação porque os consultantes os tinham presentes na mente, mas que, se não estivessem nisso pensando, teria conseguido a médium tirá-los das respectivas subconsciências. Em verdade, vê-se que esta explicação teria sido pesada a gancho de talho, mas, em todo o caso, não seria possível de todo eliminá-la e o incidente em questão estaria perdido para a classificação dos casos de identificação espírita. Mas, felizmente, essa explicação especiosa não pode prevalecer uma vez que do incidente negativo da Srta. Warner fazer parte integrante uma série de trinta casos de completo conhecimento de outros tantos amigos vivos do defunto comunicante, amigos que tinham presente na mente os seus próprios nomes e qualidades, exactamente como a Srta. Warner. Se tivessem, pois, a pretensão de aplicar a hipótese em foco ao incidente do não reconhecimento da Srta. Warner, os trinta episódios de completo reconhecimento ficariam então inexplicáveis. Segue-se que esta admirável série de episódios colaterais não só serve para anular a explicação sofística, senão também para demonstrar como, praticamente, são duvidosas as pretensas explicações naturais, tão ao sabor dos nossos opositores, explicações que se não podem ser, de todo, eliminadas, 75 vezes sobre 100 pecam por falta de base, como constantemente estão os factos a demonstrar.

  Dentro em breve os pesquisadores providos de uma intuição realmente científica hão de reconhecer que, para resolver o problema relativo à génese subconsciente ou extrínseca dos casos de identificação espírita, o exame de cada caso se impõe, acompanhado de análise meticulosa e inteligente de todos os incidentes e de todos os elementos atinentes ao episódio, análise que precisa ter em conta as condições dentro das quais se desenvolve e, sobretudo, os característicos particulares da mediunidade através da qual são obtidos. As teorias genéricas, preestabelecidas, totalizadoras, são destituídas de qualquer valor.

  Um segundo exemplo, em favor da mesma tese, pode ser tirado de um caso notável de metagnomia, o famoso caso “Lerasle”, estudado pelo Dr. Osty (Annales des Sciences Psychiques, 1914, pág. 97, e 1916, pág. 130.)

  A 18 de Março de 1914, o Sr. Mirault, residente em Court-les-Barres (Cher), preveniu o Dr. Osty de que havia mais de 15 dias se procurava, infrutiferamente, um velho chamado Lerasle, que, tendo saído de casa para o seu passeio diário, já não havia voltado. Os parentes e amigos, a princípio e, depois cerca de oitenta pessoas, reunidas pelo prefeito da localidade, haviam revistado cuidadosamente, durante vários dias consecutivos, os arredores, sem resultado algum. Em tais circunstâncias, o Sr. Mirault enviava ao Dr. Osty um lenço de seda (foulard), que pertencera ao velho, pedindo-lhe para, neste sentido, consultar uma das suas sonâmbulas clarividentes. O Dr. Osty apresenta o lenço à Sra. Morel, sem nada lhe indicar. A sonâmbula descreve minuciosamente a pessoa do velho desaparecido, a maneira pela qual estava vestido, a localidade em que morava, o caminho que havia percorrido pela floresta, no dia do desaparecimento, declarando, enfim, que ela, aí, percebia o cadáver, numa espessa moita à margem de um pequeno regato.

  Organiza-se nova batida, orientada pelas informações dadas pela sonâmbula e, logo se descobre o cadáver do velho Lerasle. Tudo o que a sonâmbula havia afirmado e descrito era rigorosamente exacto, salvo o detalhe da posição do corpo. Ela o via “deitado sobre o lado direito, com uma das pernas recolhidas”, quando, na realidade, ele estava “deitado de costas, com ambas as pernas estendidas”.

  No decorrer das três consultas, feitas pelo Dr. Osty à sonâmbula, este pormenor se apresenta sempre do mesmo modo.

  Durante a segunda consulta, a sonâmbula havia acrescentado o seguinte detalhe: Ele não se mete demasiado na floresta... sente-se doente, deita-se, adormece e morre.

  A persistência daquele pormenor, sempre integralmente repetido, nas três consultas, deve ser retida como importante, por isso que, combinada com o que consta da última frase, se reveste, como vou demonstrar, de grande significação.

  Cumpre-me observar que este episódio constitui um caso clássico de legítima “metagnomia”, no qual não se nota qualquer indício aparente de intervenção estranha à sonâmbula. Desde que procuremos, no entanto, encontrar a forma de metagnomia que melhor se preste a explicá-lo, começamos logo a sentir a dificuldade, diante do detalhe erróneo e três vezes repetido, que tende a excluir todas as formas pelas quais se pode manifestar a metagnomia propriamente dita. E, se não, vejamos.

  Temos de rejeitar, in limine, a hipótese de um fenómeno de “visão à distância”, inadmissível, no caso. De facto, o erro de visão em que três vezes incide a sonâmbula, percebendo o cadáver deitado sobre o flanco direito, com uma das pernas recolhida, quando ele estava deitado de costas, com ambas as pernas estendidas, vem mostrar, de modo decisivo, não se poder tratar dessa hipótese.

  Devemos também excluir a da exteriorização do “corpo fluídico” da sonâmbula, que, em tais condições, não poderia deixar de ter visto o cadáver na posição em que, de facto, estava.

  Do mesmo modo somos obrigados a afastar a da “telestesia”, por isso que se o objecto entregue à sonâmbula houvesse servido para estabelecer a “relação psicométrica” entre ela e o cadáver, este deveria por ela ter sido percebido na posição em que realmente se encontrava.

  Não poderemos também apelar para a “memória das coisas” (psicometria ou metagnomia táctil), porque no lenço que havia pertencido ao defunto não poderia existir qualquer vestígio de acontecimentos ocorridos depois de ter sido ele, pela última vez, usado pelo dono; enquanto que a outra circunstância – a dos parentes e amigos que, nesse sentido, tudo ignoravam – serve também para eliminar a outra hipótese, de uma suposta “relação psíquica” estabelecida entre a consciência da sonâmbula e a de um vivo ao corrente do facto, de toda a gente desconhecido.

  Teremos, pois, de nos contentar com a hipótese “psicométrico-espírita”, segundo a qual a influência contida no lenço que pertencera ao velho Lerasle teria servido para estabelecer o “contacto” com o Espírito do morto, pondo-o em condições de transmitir à sonâmbula uma sucessão de imagens pictográficas, destinadas a revelar a triste história do seu último passeio, guiando-a assim à descoberta do cadáver. Ora, é nesse momento, precisamente, que o erro, três vezes repetido, se transforma numa prova indutiva admirável em favor da interpretação espírita. Com efeito, na hipótese de o informador da vidente ser o Espírito do morto, tudo leva a crer que a imagem pictográfica errónea por ela percebida era, na realidade, transmitida pelo morto, como recordação derradeira do momento em que, tendo-se deitado do lado direito e adormecido, com uma das pernas recolhida, passou do sono à morte. E lógico é de supô-lo, não só porque deitar-se do lado direito é a posição natural, para os que se dispõem a dormir, senão também porque tudo leva a crer que os movimentos espasmódicos da agonia tenham modificado a posição do corpo do moribundo, que acabou por se virar de costas, posição de equilíbrio estável, em que acaba por se inteiriçar um corpo agitado por movimentos convulsivos. Ora, quando essa mudança de posição se deu, o moribundo devia encontrar-se já em estado de coma, sem que, portanto, o Espírito se pudesse lembrar desse incidente mínimo. Nada mais natural, pois, que ele transmitisse à sonâmbula a imagem pictográfica do seu corpo deitado sobre o flanco direito, com uma perna recolhida, imagem verídica da sua última lembrança de vida terrestre.

  É, pois, certo que, se acolhermos esta versão (única verosímil e única capaz de explicar o facto), o erro de visão em que caiu a sonâmbula se transforma em excelente prova a favor da tese por nós sustentada da provável intervenção estranha ao sensitivo, em muitos casos, mesmo, de suposta “metagnomia táctil”.

  Um terceiro exemplo em favor da mesma tese é oferecido por um caso assaz conhecido e de palpitante oportunidade. A ele me referi, in extenso, na monografia que publiquei sobre Os Enigmas da Psicometria. Relata-o o próprio protagonista, Hugh Juner Browne, banqueiro australiano, que teve a infelicidade de perder os dois filhos durante um passeio por eles empreendido, num iate, ao longo da costa de Melbourne.

  Não os vendo voltar, encheram-se de apreensões, ele e a esposa e, recorreram ao célebre médium curador, George Spriggs, para obterem informações. Narra Hugh Browne: 

  “O médium chegou às 8 horas da manhã, tomou a mão de minha mulher e caiu, pouco depois, em sono medianímico. Perguntou então:

  – Fizestes um passeio de mar?

  Minha mulher respondeu negativamente e Spriggs continuou:

  – Encontro uma grande depressão de espírito em relação com o mar. Durante a noite estivestes muito agitada e chorastes (isto é verdade).

  Completou o seu diagnóstico e terminou repetindo: – A vossa perturbação relaciona-se com o mar.

  Só então fiz uma ligeira referência ao que nos preocupava, perguntando:

  – Percebeis algum naufrágio?

  Ao que o médium, sempre em transe, respondeu:

  – Eu não posso ver se eles se encontram no mundo dos Espíritos, mas se me derdes um objecto qualquer, que lhes pertença, pelo qual me possa orientar, então eu os poderei encontrar.

  Peguei um canhenho que pertenceu a um e ao outro dos meus filhos e lho entreguei. Começou ele imediatamente nestes termos:

  – Vejo-os em uma pequena embarcação na curva de um rio, com uma grande vela e outra pequena abertas ao vento...”

  Para não ser demasiado extenso, interrompo aqui a transcrição do texto, fazendo apenas notar que o médium produziu uma descrição minuciosa e completa de todos os acontecimentos ocorridos no passeio, até ao momento do naufrágio, descrição essa mais tarde confirmada pelas investigações feitas pelo pai. Um dos filhos de Browne manifestou-se, em seguida, pelo médium, fornecendo informações ulteriores ao drama. Entre outras a de ter o corpo do seu irmão sido horrivelmente mutilado por um tubarão, que lhe arrancara um dos braços até a espádua; foi isto confirmado de um modo surpreendente, pois que um tubarão, então capturado por acaso, tinha ainda no ventre o braço de Hugh, com uma parte do colete, o relógio e algumas moedas. Os ponteiros do relógio estavam parados nas 9 horas, hora indicada pelo médium como sendo a do naufrágio.

  Tal é a parte essencial do acontecimento trágico, que mergulhou em luto a família Browne. Voltando, agora, ao nosso ponto de vista, convém destacar a circunstância, teoricamente notável, de o médium, não obstante segurar a mão da Sra. Browne entre as suas, nada ter podido descobrir relativamente à sorte dos seus dois filhos, enquanto não lhe foi entregue o canhenho por eles usado. Esse contraste episódico torna evidente, mais do que nunca, que o verdadeiro fim do objecto psicométrico (psicometrado) é o de estabelecer uma relação entre o sensitivo e a pessoa viva ou morta, ligada fluidicamente ao objecto e, faz ressaltar, sobretudo, a condenação de uma hipótese, afagada pelo Dr. Osty, segundo a qual os parentes, os amigos e os conhecidos transmitiriam telepaticamente todos os acontecimentos de suas respectivas vidas aos parentes, amigos ou conhecidos, acontecimentos que ficariam gravados de um modo indelével na subconsciência destes últimos, onde os sensitivos os iam buscar, dando a ilusão das comunicações com os mortos. Ora, a circunstância acima refuta, de modo peremptório, tal hipótese, pois se o médium, mesmo conservando, entre as suas, a mão da Sra. Browne, nada conseguiu saber sobre a sorte dos rapazes, mostra isto que a subconsciência desta nada havia recebido pela telepatia sobre o drama. E de modo tanto mais evidente que, a esta prova negativa, sucedia a contraprova positiva, do médium que tudo revelava, desde que a influência dos dois mortos, contida no objecto, o tornou capaz de ir beber alhures as informações pedidas. De onde as havia ele tirado? A procurá-lo, seguindo o método científico de eliminação gradual das hipóteses insustentáveis, eis o que resultaria. O médium não podia tirar do canhenho fios elucidadores sobre o drama ocorrido depois que os dois rapazes tinham partido, para não mais voltarem e, por conseguinte, depois de, pela última vez, se haverem utilizado do canhenho indicador. A circunstância a que me referi acima mostra que o médium não as hauriu da subconsciência dos pais. Ele não as podia desentranhar da subconsciência de nenhuma pessoa viva, já que o naufrágio não teve testemunhas. Donde se segue que a “influência” contida no canhenho havia servido apenas para estabelecer o contacto entre o médium e as personalidades desencarnadas daqueles que o tinham usado, conforme havia afirmado o médium em transe. Foi isso confirmado pelas comunicações medianímicas que se seguiram à análise psicométrica, pelas quais os filhos falecidos se manifestaram, através do médium, fornecendo novos detalhes sobre o drama, de que haviam sido vítimas e, entre estes, o do incidente autêntico e teoricamente muito importante, qual o de haver um tubarão mutilado o cadáver de um deles.

  Tais são as deduções rigorosamente lógicas que ressaltam dos factos e, como não existam a explicá-los outras hipóteses, devemos necessariamente concluir que este terceiro exemplo contribui, com os demais, para demonstrar que, se analisarmos com um critério investigador mais penetrante os casos clássicos de pretendida “metagnomia”, cuja génese pareceria dever ser atribuída exclusivamente às faculdades supranormais da subconsciência humana, chegaremos, não raro, a conclusões nitidamente espíritas. E isso por circunstâncias certamente pouco nítidas e dificilmente notáveis, que são, todavia, teoricamente preciosas, visto não encontrarem explicação em nenhuma hipótese natural.

  É preciso que os nossos opositores o não esqueçam; é preciso, sobretudo, que Sudre disto se lembre sempre, mesmo porque, formalmente, o aconselho a tomar em consideração os episódios que acabo de expor, para depois refutar as conclusões a que cheguei, se lhe for possível a prebenda.

/…
(*) metagnomia – em metapsíquica (ver fonte ), termo usado por alguns autores para indicar o que hoje se chama comummente; conhecimento paranormal ou percepção extra-sensorial e, também como sinónimo do termo tradicional de clarividênciaNota desta publicação.

(Nesta obra, de natureza puramente científica, Bozzano faz uma minuciosa análise com o objectivo de refutar a obra anti-espírita de René Sudre, “Introdução ao Estudo da Metapsíquica". Desenvolvendo argumentação insofismável sobre aparições junto do leito de morte, fenómenos de materialização e outros, o autor demonstra que a “prosopopese-metagnomia”, hipótese fundamental sustentada por Sudre, para explicar as manifestações metapsíquicas de efeitos inteligentes, de modo algum atinge o fim que teve em vista o autor.)

Ernesto Bozzano (1862-1943) (i)A propósito da Introdução à Metapsíquica Humana, Refutação do livro de René Sudre  Título Original em Italiano; Ernesto Bozzano - Per la difesa dello spiritismo (A proposito della "Introduction à la Métapsychique Humaine" di René Sudre) Società Editrice Partenopea, Napoli (1927); IV – Metagnomia e hipóteses espíritas, 4º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Puro aire, uma pintura de Josefina Robirosa)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Léon Denis e o Cristianismo ~


Alteração do Cristianismo
 – Os Dogmas

  Como palhetas de ouro nas ondas turvas de um rio, a Igreja mescla, no seu ensino, a moral evangélica pura na vacuidade das próprias concepções.

  Acabamos de ver que, depois da morte do Mestre, os primeiros cristãos tinham, nas suas comunicações com o mundo invisível, abundante fonte de inspirações. Utilizavam-nas abertamente. Mas as instruções dos Espíritos nem sempre estavam em harmonia com as opiniões do sacerdócio nascente, que, se nestas relações encontrava um amparo, nelas muitas vezes encontrava também uma crítica severa e, às vezes, mesmo uma condenação.

  Pode ver-se no livro do padre de Longueval, (ii) como, à medida que se constitui a obra dogmática da Igreja, nos primeiros séculos, os Espíritos se afastam pouco a pouco dos cristãos ortodoxos, para inspirar os que eram então designados sob o nome de heresiarcas (i).

  Montanus, diz também o abade de Fleury, (iii) tinha duas profetisas, duas senhoras nobres e ricas, chamadas Priscila e Maximiza. Carenciado também obtinha revelações. (iv) Apolónio de Tiana contava-se entre esses homens favorecidos pelo céu, que são assistidos por um “espírito sobrenatural”. (v) Quase todos os mestres da escola de Alexandria eram inspirados por génios superiores.

  Todos estes Espíritos, apoiando-se na opinião de S. Paulo: “o que por enquanto possuímos em conhecimento e profecia é muito imperfeito” (I Coríntios, XIII, 9) – traziam, diziam eles, uma revelação que vinha confirmar e completar a de Jesus.

  Desde o século III, afirmavam que os dogmas impostos pela Igreja, como um desafio à razão, não eram mais que um obscurecimento do pensamento do Cristo.

  Combatiam os faustos já excessivos e escandalosos dos bispos, insurgindo-se energicamente contra o que a seus olhos era uma corrupção da moral. (vi)

  Esta oposição crescente tornava-se intolerável aos olhos da Igreja. Os “heresiarcas”, aconselhados e dirigidos pelos Espíritos, entravam em luta aberta contra ela. Interpretavam o Evangelho com amplidão de vistas que a Igreja não podia admitir, sem cavar a ruína dos seus interesses materiais. Quase todos se tornavam neoplatónicos, aceitando as vidas sucessivas (reencarnação) do homem e o que Orígenes denominava “os castigos medicinais”, isto é, punições proporcionais às faltas da alma, reencarnando em novos corpos, para resgatar o passado e purificar-se pela dor. Esta doutrina, ensinada pelos Espíritos e cuja sanção Orígenes e muitos padres da Igreja, como vimos, encontravam nas Escrituras, era mais conforme com a justiça e misericórdia divinas. Deus não pode condenar as almas a suplícios eternos, depois de uma vida única, mas lhes deve dar os meios para se elevarem mediante existências laboriosas e provas aceites com resignação e serem suportadas com coragem.

  Esta doutrina de esperança e de progresso não provocava, aos olhos dos chefes da Igreja, o terror suficiente da morte e do pecado. Não permitia firmar sobre bases convenientemente sólidas a autoridade do sacerdócio. O homem, podendo resgatar-se a si próprio das suas faltas, não necessitava do padre. O dom de profecia, a comunicação constante com os Espíritos, eram forças que, sem cessar, minavam o poder da Igreja. Esta, assustada, resolveu pôr termo à luta, sufocando o profetismo. Impôs silêncio a todos os que, invisíveis ou humanos, no intuito de espiritualizar o Cristianismo, afirmavam ideias cuja elevação a amedrontava.

  Depois de ter, durante três séculos, reconhecido no dom de profecia, ou da mediunidade acessível a todos, conforme a promessa dos apóstolos, um meio soberano de elucidar os problemas religiosos e fortificar a fé, a Igreja chegou a dizer que tudo o que provinha desta fonte não era mais que pura ilusão ou obra do demónio. Ela se proclamou, do alto da sua autoridade, a única profecia viva, a única revelação perpétua e permanente. Tudo o que dela não provinha foi condenado, amaldiçoado. Todo esse lado grandioso do Evangelho, de que temos falado; toda a obra dos profetas que o completava e esclarecia, foi recalcado para a sombra. Já não se tratou mais dos Espíritos nem da elevação dos seres na escala das existências e dos mundos, nem do resgate das faltas cometidas, nem dos progressos efectuados e dos trabalhos realizados através do infinito dos espaços e do tempo.

  Perderam-se de vista todos os ensinos; a tal ponto se esqueceu a verdadeira natureza dos dons de profecia que os modernos comentadores das Escrituras dizem que “a profecia era o dom de explicar aos fiéis os mistérios da religião”. (vii) Os profetas eram, a seu ver, “o bispo e o padre que julgavam, pelo dom do discernimento e as regras da Escritura, se o que fora dito provinha do espírito de Deus ou do espírito do demónio”: – contradição absoluta com a opinião dos primeiros cristãos, que nos profetas viam inspirados, não de Deus mas dos Espíritos, como o diz S. João, na passagem de sua primeira Epístola (IV, 1), já citada.

  Por um momento, ter-se-ia podido acreditar que, aliada ao descortino profundo dos filósofos de Alexandria (i), a doutrina de Jesus ia prevalecer sobre as tendências do misticismo judaico-cristão e lançar a Humanidade na ampla via do progresso, na fonte das altas inspirações espirituais. Mas os homens desinteressados, que amavam a verdade pela verdade, não eram bastante numerosos nos concílios. As doutrinas que melhor se adaptavam aos interesses terrenos da Igreja foram elaboradas por essas célebres assembleias, que não cessaram de imobilizar e materializar a Religião. Graças a elas e sob a soberana influência dos pontífices romanos é que se elevou, através dos séculos, essa amálgama de dogmas estranhos, que nada têm de comum com o Evangelho e lhe são muitíssimo posteriores – sombrio edifício em que o pensamento humano, semelhante a uma águia engaiolada, impotente para desdobrar as asas e não vendo mais que uma nesga do céu, foi encerrado durante tanto tempo como numa catacumba.

  Esta pesada construção, que obstrui o caminho à Humanidade, surgiu na Terra em 325 com o concílio de Nicéia e foi concluída em 1870 com o último concílio de Roma. Tem por alicerce o pecado original e por coroamento a imaculada Conceição e a infalibilidade papal.

  É por esta obra monstruosa que o homem aprende a conhecer esse Deus implacável e vingativo, esse inferno sempre actuante, esse paraíso fechado a tantas almas valorosas, a tantas inteligências generosas, e facilmente alcançado por uma vida de alguns dias, terminada após o baptismo – concepções que têm impelido tantos seres humanos ao ateísmo e ao desespero.

  Examinemos os principais dogmas e mistérios, cujo conjunto constitui o ensino das igrejas cristãs. Encontramos a sua exposição em todos os catecismos ortodoxos.

  Começa com essa estranha concepção do Ser divino, que se resolve no mistério da Trindade, um só Deus em três pessoas, o Pai, o Filho e o Espírito-Santo.

   Jesus trouxera ao mundo uma noção da divindade, desconhecida para o Judaísmo. O Deus de Jesus já não é o déspota zeloso e parcial que protege Israel contra os outros povos; é o Deus Pai da Humanidade. Todas as nações, todos os homens, são seus filhos. É o Deus em quem tudo vive, se move e respira, imanente na Natureza e na consciência humana.

  Para o mundo pagão, como para os judeus, esta noção de Deus encerrava toda uma revolução moral. Aos homens que tudo haviam chegado a divinizar e a temer tudo o que haviam divinizado, a doutrina de Jesus revelava a existência de um só Deus, Criador e Pai, por quem todos os homens são irmãos e em cujo nome eles se devem afeição e assistência. Ela tornava possível a comunhão com este Pai, pela união fraternal dos membros da família humana. Franqueava a todos o caminho da perfeição pelo amor ao próximo e pela dedicação à Humanidade.

  Esta doutrina, simples e grande ao mesmo tempo, devia elevar o espírito humano a alturas admiráveis, até ao Foco divino, cuja irradiação todo o homem pode sentir dentro em si mesmo. Como foi que esta ideia simples e pura, que podia regenerar o mundo, ser transformada ao ponto de se tornar irreconhecível?

  É o resultado das paixões e dos interesses materiais que entraram em jogo no mundo cristão, depois da morte de Jesus.

  A noção de Trindade, colhida numa lenda hindu que era a expressão de um símbolo, veio obscurecer e desnaturar essa alta ideia de Deus. A inteligência humana podia elevar-se a essa concepção do Ser eterno, que abrange o Universo e dá a vida a todas as criaturas: não pode a si mesma explicar como três pessoas se unem para constituir um só Deus. A questão da consubstancialidade em nada elucida o problema. Em vão nos advertiriam que o homem não pode conhecer a natureza de Deus. Neste caso, não se trata dos atributos divinos, mas da lei dos números e medidas, lei que tudo regula no Universo, mesmo as relações que ligam a razão humana à razão suprema das coisas.

  Esta concepção trinitária, tão obscura, tão incompreensível, oferecia, entretanto, grande vantagem às pretensões da Igreja. Permitia-lhe fazer de Jesus-Cristo um Deus. Conferia ao poderoso Espírito, a que ela chama o seu fundador, um prestígio, uma autoridade, cujo esplendor sobre ela recaía e assegurava o seu poder. Nisso está o segredo da sua adopção pelo concílio de Nicéia. As discussões e perturbações que esta questão suscitou agitaram os espíritos durante três séculos e só vieram a cessar com a proscrição dos bispos arianos, ordenados pelo imperador Constâncio, e o banimento do papa Libério que recusava sancionar a decisão do Concílio. (viii)

  A divindade de Jesus, rejeitada por três concílios, o mais importante dos quais foi o de Antioquia (269), foi, em 325, proclamada pelo de Nicéia, nestes termos:

  “A Igreja de Deus, católica e apostólica, anatematiza os que dizem que houve um tempo em que o Filho não existia, ou que não existia antes de haver sido gerado.”

  Esta declaração está em contradição formal com as opiniões dos apóstolos. Ao passo que todos acreditavam o Filho criado pelo Pai, os bispos do século IV proclamavam o Filho igual ao Pai, “eterno como ele, gerado e não criado”, opondo assim um desmentido ao próprio Cristo, que dizia e repetia: “meu Pai é maior do que eu”.

  Para justificar essa afirmação, apoia-se a Igreja em certas palavras do Cristo, que, se exactas, foram mal compreendidas, mal interpretadas. Em João (X, 33), por exemplo, se diz: “Nós te apedrejamos porque, sendo homem, te fazes Deus a ti mesmo”.

  A resposta de Jesus destrói essa acusação e revela o seu pensamento íntimo: “Não está escrito na vossa lei: – Eu disse: vós sois deuses?” (João, X, 34). (ix)

  “Se ela chamou deuses àqueles a quem a palavra de Deus foi dirigida...” (João, X, 35).

  Todos sabem que os antigos, latinos e orientais, chamavam deuses a todos quantos, por qualquer motivo, se tornavam superiores ao comum dos homens. (x) O Cristo preferia a essa qualificação abusiva, a de filho de Deus para designar os que investigavam e observavam os divinos ensinamentos. É o que ele expõe no versículo seguinte:

  “Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus.” (Mateus, V, 9).

  Os apóstolos atribuíam o mesmo sentido a esta expressão:

  “Todos os que são levados pelo Espírito de Deus, esses tais são filhos de Deus.” (S. Paulo, Epístola aos Romanos, VIII, 14)

  Jesus confirma-o em muitas circunstâncias:

  “A mim, a quem o Pai santificou e enviou ao mundo, porque dizeis vós “Tu blasfemas”, por eu ter dito que sou Filho de Deus?” (João, X, 36) (xi)

  A um israelita replicou: “Porque me chamais bom? Ninguém é bom senão unicamente Deus.” (Lucas, XVIII, 19). “Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma. Não sigo a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou.” (João, V, 30).

  As seguintes palavras são ainda mais explícitas:

  “Procurais tirar-me a vida, a mim que sou um homem, que vos tenho dito a verdade que de Deus ouvi.” (João, VIII, 40)

  “Se me amásseis, certamente havíeis de gostar que eu vá para o Pai, porque o Pai é maior do que eu.” (João, XIV, 28)

  “Jesus diz a Madalena: Vai a meus irmãos e diz-lhes que eu vou para o meu Pai e o vosso Pai, para o meu Deus e o vosso Deus.” (João, XX, 17)

  Assim, longe de manifestar a ideia sacrílega de que era Deus, em todas as circunstâncias Jesus fala do Ser infinito como a criatura deve falar do Criador, ou ainda como um subordinado fala do seu senhor.

  Nem mesmo a sua mãe acreditava na sua divindade, e todavia quem mais autorizado que ela a admiti-la? Não recebera a visita do anjo que lhe anunciava a vinda do Menino, abençoado pelo Altíssimo e por sua graça concebido? (xii) Porque tenta, pois, embaraçar-lhe a obra, imaginando que ele perdera o juízo? (xiii) Há aí contradição patente.

  Os apóstolos por sua vez não viam em Jesus senão um missionário enviado do céu, um espírito sem dúvida superior pelas suas luzes e virtudes, mas humano. A sua atitude para com ele, a sua linguagem, provam-no claramente.

  Se o tivessem considerado um Deus não se teriam prosternado diante dele, não seria ajoelhados que lhe teriam falado? ao passo que a sua deferência e respeito não ultrapassem o devido a um mestre, a um homem eminente. E ao demais esse título do mestre (em hebreu rabi) que lhe dispensavam habitualmente. Os evangelhos dão o testemunho disso. Quando lhe chamam de Cristo, não vêem nesse qualitativo senão o sinónimo de enviado de Deus.

  Respondeu Pedro: “Tu és o Cristo.” (marcos, VIII, 29).

  O pensamento dos apóstolos encontra-se explicado, esclarecido por certas passagens dos Actos (II, 22). Pedro, dirigindo-se à multidão:

  “Varões israelitas, ouvi as minhas palavras. Jesus Nazareno foi um varão (virium), aprovado por Deus entre nós, com virtudes, prodígios e sinais que Deus obrou por ele no meio de nós.”

  Encontra o mesmo pensamento expresso em Lucas, XXIV, 19:

  “Jesus de Nazaré foi um profeta, poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo.”

  Se os primeiros cristãos tivessem acreditado na divindade de Jesus, se dele houvessem feito um Deus, a sua religião teria submergido na multidão que o império Romano admitia, em cada qual existindo divindades particulares. Os arroubos de entusiasmos dos apóstolos, a indomável energia dos mártires, tinham a sua origem na ressurreição do Cristo. Considerando-o um homem semelhante a eles, viam nessa ressurreição a prova manifesta da sua própria imortalidade. São Paulo confirma com absoluta clareza esta opinião, quando diz:

  “Pois se não há ressurreição dos mortos, nem Cristo ressuscitou. E se Cristo não ressuscitou, é logo vã a nossa pregação, é também vã a nossa fé. E somos assim mesmo convencidos por falsos testemunhos de Deus, dizendo que ressuscitou a Cristo, o qual não ressuscitou, se os mortos não ressuscitam”. (xiv)

  Assim, para os discípulos de Jesus, como para todos os que atentamente, e sem paixão, estudam o problema dessa existência admirável, o Cristo, segundo a expressão que a si próprio aplica, não é que o “profeta” de Deus, isto é, um intérprete, um porta-voz de Deus, um Espírito dotado de faculdades especiais, de poderes excepcionais, mas não superiores à natureza humana.

  A sua clarividência, as suas inspirações, o dom de curar que possuía em tão elevado grau, encontram-se em épocas diversas e em diferentes graus, em outros homens.

  Pode comprovar-se a existência destas faculdades nos médiuns dos nossos dias, não agrupadas, reunidas de modo a constituírem uma poderosa personalidade como a do Cristo, mas dispersas, distribuídas por grande número de indivíduos. As curas de Jesus não são milagres, (xv) mas a aplicação de um poder fluídico e magnético, que novamente se encontra mais ou menos desenvolvido, em certos curadores da nossa época. Estas faculdades estão sujeitas a variações, a intermitências que no próprio Cristo se observam, como o provam os versículos do Evangelho de Marcos (VI, 4, 5):

  “Mas Jesus lhes dizia: Um profeta só deixa de ser honrado na sua pátria, em sua casa e entre os seus parentes. E não podia ali fazer milagre algum.”

  Todos os que têm de perto observado os fenómenos do Espiritismo, do magnetismo e da sugestão, e remontado dos efeitos à causa que os produz, sabem que existe uma grande analogia entre as curas operadas pelo Cristo e as obtidas pelos que exercem modernamente estas funções. Como ele, mas com menos força e êxito, os curadores espíritas tratam dos casos de obsessão e possessão e, com o auxílio de passes, tocando os indivíduos pela imposição das mãos, libertam os doentes dos males produzidos pela influência dos Espíritos impuros, daqueles que a Escritura designa pelo nome de demónios:

  “À tarde, porém, apresentaram-lhe muitos endemoninhados, dos quais ele expelia os maus espíritos com a sua palavra; e curou todos os enfermos.” (Mateus, VIII, 16)

  A maior parte das doenças nervosas provém das perturbações causadas por estranhas influências no nosso organismo fluídico, ou perispírito. A Medicina, que estuda simplesmente o corpo material, não pôde descobrir a causa destes males e os remédios a eles aplicáveis. Por isso é quase sempre impotente para os curar. A acção fluídica de certos homens, firmados na vontade, na prece e na assistência dos Espíritos elevados, pode fazer cessar essas perturbações, restituir ao invólucro fluídico dos doentes as suas vibrações normais e forçar a se retirarem os maus Espíritos. Era o que Jesus obtinha facilmente, como o obtinham, depois dele, os apóstolos e os santos.

  Os conhecimentos difundidos entre os homens pelo moderno Espiritualismo permitem melhor compreender e definir a alta personalidade do Cristo. Jesus era um missionário divino, dotado de poderosas faculdades, um médium incomparável. Ele próprio o afirma:

  “Eu não falei de mim mesmo, mas o Pai que me enviou é o mesmo que me prescreveu o que devo dizer e o que devo falar.” (João, XII, 49)

  A todas as raças humanas, em todas as épocas da História, enviou Deus missionários, Espíritos superiores, chegados, pelos seus esforços e merecimentos, ao mais alto grau da hierarquia espiritual. Podem acompanhar-se, através dos tempos, os sulcos dos seus passos. As suas frontes dominam, sobranceiras, a multidão dos humanos que eles têm o encargo de dirigir para as altitudes intelectuais.

  O céu os apercebeu para as lutas do pensamento; dele receberam o poder e a intrepidez.

  Jesus é um desses missionários divinos e é de todos o maior. Destituído da falsa auréola da divindade, mais imponente ele nos parece. Os seus sofrimentos, os seus desfalecimentos, a sua resignação, deixam-nos quase insensíveis, se oriundos de um Deus, mas tocam-nos, comovem-nos profundamente em um irmão. Jesus é, de todos os filhos dos homens, o mais digno de admiração. É extraordinário no sermão da montanha, no meio da turba dos humildes. É maior ainda no Calvário, quando a sombra da cruz se estende sobre o mundo, na tarde do suplício.

  Nele vemos o homem que ascendeu à iminência final da evolução, e neste sentido é que se lhe pode chamar deus, assim conciliando os apologistas da sua divindade com os que a negam. A humanidade e a divindade do Cristo representam os extremos de sua individualidade, como o são para todo o ser humano. No fim de nossa evolução, cada qual se tornará um “Cristo”, será uno com o Pai e terá alcançado a condição divina.

  A passagem de Jesus pela Terra, os seus ensinamentos e exemplos, deixaram-nos traços indeléveis; a sua influência se estenderá pelos séculos vindouros. Ainda hoje, ele preside aos destinos do globo em que viveu, amou, sofreu. Governador espiritual deste planeta, veio, com o seu sacrifício, encarreirá-lo para a senda do bem e é sob a sua direcção oculta e com o seu apoio que se opera essa nova revelação, que, sob o nome de moderno espiritualismo, vem restabelecer a sua doutrina, restituir aos homens o sentimento dos próprios deveres, o conhecimento de sua natureza e dos seus destinos.

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(ii) História da Igreja galicana, t. 1, pág. 84.
(iii) Hist. ecies., liv. N, 6.
(iv) Ibidem, liv. 11, 3.
(v) Ibidem, liv. I, 9.
(vi) Padre de Longueval, História da igreja galicana, 1, 84.
(vii) De Maistre de Sacy (i)Comentários sobre São Paulo, 1, 3, 22, 29.
(viii) Ver, quanto às particularidades destes factos. E. Bellemare, Espírita e Cristão, Pág. 212.
(ix) Estas palavras referem-se à seguinte passagem do Salmo LXXXI, v. 6: "Eu disse: vós sois deuses e todos filhos do Excelso."
(x) Ver nota complementar nº 8. ( link para aceder a esta nota)
(xi) Se, na sua linguagem em parábolas, Jesus algumas vezes se denomina filho de Deus, com muito mais frequência se designa filho do homem. Esta expressão se encontra setenta e seis vezes nos Evangelhos.
(xii) Lucas 1, 26-28.
(xiii) Marcos, 3, 21.
(xiv) I Coríntios, XV, 13-15.
(xv) O que se denomina milagres são fenómenos produzidos por acção de forças desconhecidas, que a ciência descobre cedo ou tarde. Não pode existir milagre no sentido de postergarão das leis naturais. Com a violação destas leis, a desordem e a confusão penetrariam no mundo. Deus não pode ter estabelecido leis para, em seguida, as violar. Ele nos daria, assim, o mais pernicioso exemplo; porque, se violamos a lei, poderemos ser punidos, ao passo que Deus, fonte da lei, terá atentado contra ela?

Léon Denis (1846-1927) (i)Cristianismo e Espiritismo, Título Original em Francês; Léon Denis - Christianisme et Spiritisme, Librairie des Sciences Psychiques, Paris (1898). – Alteração do Cristianismo – os Dogmas, (VI), 8º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: Paraíso Perdido, estudo do Anjo, lápis e giz de Alexandre Cabanel)