Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Diálogos de Kardec ~


§ Introdução ao estudo da fotografia e da telegrafia do pensamento 

É um facto incontestável, que existe uma acção fisiológica, de um indivíduo ao outro, com ou sem contacto físico. Semelhante acção, evidentemente, só pode dar-se através de um agente intermediário, do qual o nosso corpo apenas é o reservatório e, os nossos olhos e os nossos dedos, são os principais órgãos de emissão e de direcção. Esse agente, invisível, é necessariamente um fluido. Quais são a sua natureza e a sua essência? Quais são as suas propriedades íntimas? Serão um fluido especial, uma modificação eléctrica, ou de algum outro fluido conhecido? Não serão antes, o que chamamos hoje de fluido cósmico, quando se encontra disperso na atmosfera e, fluido perispirítico, quando se encontra individualizado? 

Esta questão, aliás, é secundária. 

O fluido perispirítico é imponderável, como a luz, a electricidade e a força calórica. É-nos invisível, no nosso estado normal e, somente se revela pelos seus efeitos. 

Torna-se, porém, visível a quem se encontre no estado de sonambulismo lúcido e, mesmo, no estado de vigília, às pessoas dotadas de dupla vista. No estado de emissão, ele se apresenta sob a forma de feixes luminosos, muito semelhante à luz eléctrica difundida no vácuo. A isso, em suma, se limita a sua analogia com este último fluido, porquanto não produz, pelo menos ostensivamente, nenhum dos fenómenos físicos que conhecemos. No estado ordinário, denota matizes diversos, conforme os indivíduos que o emitem: ora vermelho fraco, ora azulado, ou acinzentado, qual ligeira bruma. As mais das vezes, espalha sobre os corpos circundantes uma coloração amarelada, mais ou menos forte.

Sobre esta questão, são idênticos os relatos dos sonâmbulos e dos videntes. Teremos ainda ocasião de tratar disso, quando falarmos das qualidades que ao fluido imprimem, o móbil que o põe em movimento e o adiantamento do indivíduo que o emite.

Nenhum corpo lhe opõe obstáculo; ele os penetra e atravessa a todos. Até agora nenhum se conhece que seja capaz de o isolar. Somente a vontade lhe pode ampliar ou restringir a acção. A vontade, com efeito, é o seu mais poderoso princípio. Pela vontade, dirigem-se-lhe os eflúvios através do espaço, saturam-se dele alguns objectos, ou faz-se que ele se retire dos lugares onde exista em excesso. Digamos, de passagem, que é neste princípio que se funda a força magnética. Parece, enfim, que ele é o veículo da vista psíquica, como o fluido luminoso o é da vista ordinária. 

O fluido cósmico, conquanto emane de uma fonte universal, individualiza-se, por assim dizer, em cada ser e adquire propriedades características, que permitem distingui-lo de todos os outros. Nem mesmo a morte apaga esses caracteres de individualização, que persistem por longos anos após a cessação da vida, coisa de que já temos podido convencer-nos. Cada um de nós tem, pois, o seu fluido próprio, que o envolve e acompanha em todos os movimentos, como a atmosfera acompanha cada planeta. É muito variável a extensão da irradiação dessas atmosferas individuais. Encontrando-se o Espírito em estado de absoluto repouso, pode essa irradiação ficar circunscrita nos limites de alguns passos; mas, em função da vontade, pode alcançar distâncias infinitas. A vontade como que dilata o fluido, do mesmo modo que o calor dilata os gases. As diferentes atmosferas individuais se entrecruzam e misturam, sem jamais se confundirem, exactamente como as ondas sonoras que se conservam distintas, a despeito da imensidade de sons que simultaneamente fazem vibrar o ar. Pode, por conseguinte, dizer-se que cada indivíduo é o centro de uma onda fluídica, cuja extensão se encontra em relação com a força de vontade, do mesmo modo que cada ponto vibrante é o centro de uma onda sonora, cuja extensão está na razão propulsora do fluido, como o choque é a causa de vibração do ar e propulsora das ondas sonoras. 

Das qualidades peculiares a cada fluido resulta uma espécie de harmonia ou desacordo entre eles, uma tendência a se unirem ou evitarem, uma atracção ou uma repulsão, numa palavra: as simpatias ou antipatias que se experimentam, muitas vezes sem manifestas causas determinantes. Se nos colocamos na esfera de actividade de um indivíduo, a sua presença não raro se nos revela pela impressão agradável ou desagradável que nos produz o seu fluido. Se estamos entre pessoas de cujos sentimentos não partilhamos, cujos fluidos não se harmonizam com os nossos, penosa reacção entra a oprimir-nos e sentimo-nos ali como nota dissonante num concerto! Se, ao contrário, muitos indivíduos se encontram reunidos em comunhão de vistas e de intenções, os sentimentos de cada um se exaltam na mesma proporção da massa das forças actuantes. Quem não conhece a força de arrastamento que domina as aglomerações onde há homogeneidade de pensamentos e de vontades? Ninguém pode imaginar a quantas influências estamos assim submetidos, à nossa revelia. 

Não podem essas influências ser a causa determinante de certas ideias, dessas ideias que em dado momento se nos tornam comuns e a outras pessoas, desses pressentimentos que nos levam a dizer: paira alguma coisa no ar, pressagiando tal ou tal acontecimento? Enfim, certas sensações indefiníveis de bem-estar ou de mal-estar moral, de alegria ou tristeza, não serão efeitos da reacção do meio fluídico em que nos encontramos, dos eflúvios simpáticos ou antipáticos que recebemos e que nos envolvem como as emanações de um corpo odorífico? Não podemos pronunciar-nos afirmativamente, de modo absoluto, sobre essas questões, mas é forçoso convir, pelo menos, em que a teoria do fluido cósmico, individualizado em cada ser sob o nome de fluido perispirítico, abre um campo inteiramente novo para a solução de uma imensidade de problemas até agora insolúveis. 

No seu movimento de translação, cada um de nós leva consigo a sua atmosfera fluídica, como o caracol leva a sua casa; esse fluido, porém, deixa vestígios na sua passagem; deixa como que um sulco luminoso, inacessível aos nossos sentidos, no estado de vigília, mas que serve para que os sonâmbulos, os videntes e os Espíritos desencarnados reconstituam os factos ocorridos e lhe examinem o móbil que os ocasionou. 

Toda a acção física ou moral, patente ou oculta, de um ser sobre si mesmo, ou sobre outro, pressupõe, de um lado, uma força actuante e, de outro, uma sensibilidade passiva

Em todas as coisas, duas forças iguais se neutralizam e a fraqueza cede à força. Ora, não sendo todos os homens dotados da mesma energia fluídica, ou, por outra, não tendo o fluido perispirítico, em todos, a mesma potência activa, explicado fica por que, nuns, essa potência é quase irresistível, ao passo que, noutros, é nula; porque algumas pessoas são muito acessíveis à sua acção, enquanto que outras lhe são refractárias. 

Essa superioridade e essa inferioridade relativas dependem evidentemente do organismo; mas, seria erro acreditar-se que estão na razão directa da força ou da fraqueza física. A experiência prova que os homens mais robustos às vezes sofrem as influências fluídicas mais facilmente do que outros de constituição muito mais delicada, ao passo que com frequência se descobrem entre estes últimos uma força que a frágil aparência deles não permitiria se suspeitasse. De muitas formas se pode explicar essa diversidade no modo de agir. 

O poder fluídico aplicado à acção recíproca dos homens uns sobre os outros, isto é, ao Magnetismo, pode depender: 1º da quantidade de fluido que cada um possua; 2º da natureza intrínseca do fluido de cada um, abstracção feita da quantidade; 3º do grau de energia da força impulsiva; porventura, até, dessas três causas reunidas. Na primeira hipótese, aquele que tem mais fluido dá-lo-ia ao que tem menos, recebendo-o deste em menor quantidade. Haveria nesse caso analogia perfeita com a permuta de calor entre dois corpos que se colocam em equilíbrio de temperatura. Qualquer que seja a causa daquela diferença, podemos aperceber-nos do efeito que ela produz, imaginando três pessoas cujo poder representaremos pelos números 10, 5 e 1. O 10 agirá sobre o 5 e sobre o 1, porém mais energicamente sobre o 1 do que sobre o 5; este actuará sobre o 1 mas será impotente para actuar sobre o 10; o 1, finalmente, não actuará sobre nenhum dos dois outros. Será essa talvez a razão por que certos pacientes são sensíveis à acção de tal magnetizador e insensíveis à de outro. 

Podemos também, até certo ponto, explicar esse fenómeno, apoiados nas considerações precedentes. Dissemos, com efeito, que os fluídos individuais são simpáticos ou antipáticos, uns com relação aos outros. Ora, não poderia dar-se que a acção recíproca de dois indivíduos estivesse na razão da simpatia dos fluidos, isto é, da tendência destes a se confundirem por uma espécie de harmonia, como as ondas sonoras produzidas pelos corpos vibrantes? Indubitavelmente essa harmonia ou simpatia dos fluidos é uma condição, ainda que não indispensável em absoluto, pelo menos muito preponderante e, quando há desacordo ou antipatia, a acção não pode deixar de ser fraca, ou, até, nula. Este sistema explica bem as condições prévias da acção; mas, não diz de que lado está a força e, admitindo-o, somos forçados a recorrer à nossa primeira suposição. 

Em suma, que o fenómeno se dê por uma ou outra dessas causas, isso não leva a nenhuma consequência. O facto existe; é o essencial. Os da luz se explicam igualmente pela teoria da emissão e pela das ondulações; os da electricidade, pelos fluidos positivo e negativo, vítreo e resinoso. No próximo estudo, apoiando-nos nas considerações que temos exposto, procuraremos definir o que entendemos por fotografia e telegrafia do pensamento. 

/... 

ALLAN KARDEC, OBRAS Póstumas, Primeira Parte, Manifestação dos Espíritos, – Introdução ao estudo da fotografia e da telegrafia do pensamento, 16º fragmento solto desta obra.
(imagem de contextualização: Dança rebelde, 1965 – Óleo sobre tela, de Noêmia Guerra

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

O Mundo Invisível e a Guerra ~


XXI 
O Reinado do Espírito ~ 

(15 de Dezembro de 1918) 

  Os frutos ilusórios e venenosos do materialismo (i) podiam ser encontrados, antes da guerra, por todos os lados à volta de nós, tanto na política como na literatura e nos costumes. Foi necessário o terrível choque dos acontecimentos para que viessem à luz as heróicas qualidades do país, que estavam mergulhadas numa espessa camada de interesses e de paixões egoístas. 

  Agora, terminada a tempestade, os frutos venenosos não terão desaparecido, de todo e, é de temer que o conflito de interesses e as lutas de classes, a acção surda e violenta das paixões prossigam e ainda tenhamos outros sofrimentos e outras provas para sofrer. 

  A solução para tudo isso consiste principalmente na procura e na aplicação de um ideal nobre, que ajudará o homem a levantar os olhos e os seus pensamentos acima das ambições terrenas. 

  Um país só é grande pela ideia que ele representa e não há ideia mais nobre que a do progresso individual e colectivo, a elevação de cada um de nós para esses píncaros eternos que são a sabedoria, a justiça e o amor. Nada mais belo que a colaboração crescente na obra do progresso universal. 

  Entretanto, como interessar os homens por esse ideal, quando já houve pastores cruéis que, durante longo tempo, os mantiveram na ignorância de sua natureza e do seu importante papel? 

  A tarefa será longa, trabalhosa e difícil, mas não há outra maneira de despertar uma vida espiritual elevada e pura, de fazer reinar o espírito sobre a matéria. 

  Faz 20 ou 30 anos que uma poderosa corrente encaminha os povos para uma democracia socialista, mas para que ela seja fecunda deverá realizar o reinado do espírito, respeitando a liberdade pessoal, que é sagrada, que é o próprio garante de nossa autonomia e cuja luz deve permanecer sempre nas nossas almas. Se houvesse um constrangimento, uma violência, se se espezinhasse a liberdade individual, o Socialismo seria simplesmente uma forma de despotismo e chegaria aos piores excessos. 

  Na Rússia temos o exemplo disso; a revolução, no início, era inspirada em sentimentos generosos, porém, pela opressão, caiu no abismo, transformando-se numa forma de anarquia e pilhagem. 

  O socialismo igualitário estaria no caminho errado, como já demonstramos noutros artigos, a igualdade não reside na natureza nem pode sobreviver na sociedade. A nivelação, por baixo, como pensam certos utópicos e, a igualdade imposta pela força iriam suprimir as capacidades, isto é, todas as forças intelectuais chegariam ao reinado universal da mediocridade, ao fracasso da arte e da ciência, constituindo-se num retrocesso à barbárie. 

  O socialismo materialista esqueceu uma coisa importante: que a alma humana necessita de esperança e fé, como o corpo precisa de alimentos. 

  A democracia deve ser uma solidariedade estreita e fraterna entre todos; um esforço comum para o melhor, uma dedicação para nos elevarmos a uma vida mais digna e mais alta. Em tais condições, a democracia representaria um valor de ordem moral e teria a sua sede nas consciências. 

  Quanto ao ponto de vista dos interesses, a paz social só se adquire pelos sacrifícios voluntários daqueles que possuem os bens e pelas reivindicações justas e equitativas dos que, nada tendo, colaboram para estabelecer a riqueza pública. O socialismo não deve ser inspirado no ódio das classes, mas na simpatia e na benevolência. O ódio só gera ódio, que só pode ser vencido pelo amor. 

  Entretanto, para se alcançar esse alvo, todo o conjunto das leis e das instituições políticas serão impotentes. Não basta que se dirijam à inteligência e à razão; é preciso que atinjam, principalmente, o coração dos homens, dele suprimindo o egoísmo, a inveja e o espírito de dominação. 

  Só existe possibilidade de triunfo pela divulgação de uma grande doutrina, alicerçada em provas concretas, que ensine a todos o dever, a responsabilidade moral, iluminando o caminho do porvir. Somente assim os conflitos terminarão e um melhor destino se preparará para a humanidade. 

  Onde encontrar os obreiros para tal transformação, os colaboradores para o reerguer espiritual e moral de nossa pátria? Iremos encontrá-los entre os homens que, há 20 anos, prosseguem no poder? Quem os conhece bem garante que não, salvo raras excepções. 

  A democracia deve ser conduzida por mãos honestas e puras e não por materialistas amantes do gozo, descuidados das leis superiores e do destino que o Além lhes reserva. 

  Talvez seja necessário aguardar a chegada de outra geração, o advento de novos homens que, rompendo as estruturas dos velhos partidos, instituam uma situação mais condizente com o verdadeiro objectivo da vida e com as normas do progresso humano. 

  De qualquer forma, já o afirmamos, cabe ao Espiritismo desempenhar um grande papel, podendo, confiante, encarar o futuro, oferecendo desde já supremas consolações e incalculáveis esperanças para todos os corações sofredores. 

  O Espiritismo amplia a comunhão com o invisível e, ao mesmo tempo, a torna mais real e mais forte. Por meio das faculdades mediúnicas e das revelações concordantes dos espíritos, conhecemos muito melhor as condições da existência no mundo espiritual. Os laços de amizade e de solidariedade que nos ligam aos mortos se ampliam e as duas formas de vida, a visível e a invisível, se juntam numa poderosa unidade. Todos os que praticam o diálogo com os seus queridos entes desaparecidos (e o seu número é grande) sabem quanta ajuda e quantos elementos de renovação as relações com o além-túmulo introduzem na nossa mente e na nossa consciência. 

  Os horizontes de nossa vida ampliam-se, reduzindo-se as coisas da Terra às suas justas proporções. Aprendemos a nos desinteressar de tudo o que é fútil e vão, colocando o nosso alvo na conquista de bens espirituais indestrutíveis. 

  A cooperação e a vida em comum com os nossos entes invisíveis é qual um banho fluídico onde as nossas almas se retemperam e robustecem. 

  Os nossos actos, os nossos pensamentos e as nossas percepções se modificam profundamente; a morte, por exemplo, perde todo o seu carácter fúnebre; todo o aparato de pavor com que as religiões, propositadamente, a envolveram desmorona e se esfuma. 

  A morte passa a ser um retorno para a verdadeira vida, vida radiante e livre do espírito que não cometeu erros. É o descanso para o pesquisador fatigado e o refúgio de quantos sofreram e lutaram. 

  O hábito de conversarmos com os nossos amigos do Espaço e a ideia de que eles estão muitas vezes a nosso lado, falando-nos, ouvindo-nos e interessando-se pelos nossos labores, obrigam-nos a vigiar melhor os nossos actos. À medida que nos adiantamos sob as suas inspirações, a nossa compreensão da vida espiritual se torna mais profunda, o dever fica mais fácil de cumprir e o fardo das provações fica menos pesado. 

  Aprendemos a nos libertar de mil submissões materiais, livrando-nos das ambições doentias, dos ciúmes mesquinhos e de tudo quanto separe e desgrace os homens. 

  Nas situações trágicas que atravessamos, o intercâmbio entre a Terra e o Céu, entre os vivos e os mortos, assume aspecto grandioso e consegue uma extensão e uma intensidade incalculáveis. As almas dos heróis que tombaram na defesa da pátria e de todos quantos ofereceram a vida em sacrifício para que o solo da França não fosse escravizado, a incomparável multidão desses espíritos que, nos seus voos de glória, pairam sobre as nossas cabeças, todos se associam aos nossos esforços, às nossas dores e ao nosso pranto. 

  Não se trata de um caso isolado o de Raymond Lodge; por todos os lados as manifestações similares se multiplicam. Assim que acaba o período de perturbação, que acontece depois das mortes violentas, todos esses espíritos só têm um pensamento: ajudar os nossos soldados na luta gloriosa em que estão empenhados, exaltando-lhes o ânimo e sustentando-lhes o ardor impetuoso até que o inimigo seja repelido para lá das nossas fronteiras. 

  No momento actual, os médiuns videntes podem admirar esse espectáculo impressionante das duas humanidades que se juntam num esforço supremo para salvar a França e o mundo dos dolorosos ataques da águia germânica. E esse grande movimento não se extinguirá quando a guerra terminar, porque as forças espirituais que estão em actividade continuarão a intervir, já não numa luta armada, mas para levar por diante a obra pacificadora e restauradora por excelência. 

  Pelos seus abusos e excessos, a humanidade criou, fluidicamente, à sua volta, um círculo fatal que só poderia ser rompido por um choque violento. Em vez de reconhecer os seus próprios erros como a causa principal dos males que suportava, em lugar de procurar os remédios para esses males no estudo e na prática das leis eternas, a humanidade se agarrou ao sensualismo e à negação. E o choque se produziu! – o choque que quebrou muitos egoísmos e destruiu muitas prevenções e rotinas; que tirou do homem antigo a roupagem do seu orgulho, possibilitando o seu entendimento das coisas divinas. 

  Agora, as reformas e os melhoramentos individuais e sociais que não foram realizados na paz e na tranquilidade terão que ser executados na provação e na dor. 

  Todos os que se opunham ao progresso do pensamento e à evolução moral irão desaparecer. Entre nós, encarnarão espíritos elevados para a realização dos desígnios espirituais. Um poderoso sopro passará sobre o mundo. Os habitantes da Terra, unidos aos habitantes do Espaço, trabalharão juntos a fim de preparar dias mais prósperos no nosso atrasado planeta. 

  Penso ser meu dever acrescentar o meu testemunho pessoal às considerações anteriores. – No meu contacto constante com os invisíveis, obtive inspirações e as forças necessárias para realizar o que pude fazer de útil e bom no curso desta vida, que já declina e se acaba. A colaboração dos nobres espíritos do Espaço me proporcionou os principais elementos da minha obra de divulgação. 

  Nesses contactos diários, consegui muitas provas de identidade, a minha fé e a minha confiança aumentaram, ao mesmo tempo em que se iluminava a minha vida interior. Acostumei-me a me desprender das superficialidades do mundo, colocando os meus afectos e o meu objectivo no Além. 

  A idade já chegou, trazendo consigo o seu cortejo de enfermidades; os meus meios de acção se debilitam e um sombrio véu se estende sobre os meus olhos. 

  Perdi a excelente médium por meio da qual me comunicava com os meus guias e protectores invisíveis, mas sinto-os constantemente à minha volta e ainda lhes percebo as irradiações dos pensamentos e dos fluidos. 

  De agora em diante, nada mais desejo do que me juntar a eles, quando Deus quiser, para viver com eles na paz serena do Espaço e na divina harmonia das almas e dos mundos! 

/… 


Léon Denis, O Mundo Invisível e a Guerra, XXI O Reinado do Espírito, 15 de Dezembro de 1918, 36º fragmento da obra. 
(imagem: Dois soldados um alemão e o outro britânico, no dia de Natal durante a primeira guerra mundial (1914), quando fizeram um cessar-fogo informal entre soldados, alemães, britânicos e também franceses, ao longo de uma semana, trocaram saudações, cantaram músicas e chegaram a trocar presentes) 

domingo, 24 de janeiro de 2021

Da sombra do dogma à luz da razão ~


~ Uranorafia Geral (*) 
O espaço e o tempo ~ 

| Galileu, Espírito 
(Études Uranographi-ques) (II) 

~ As leis e as forças 🌈

  Se um destes seres desconhecidos que consomem a sua existência efémera no fundo das regiões tenebrosas do oceano, se uma dessas poligaláceas, uma dessas nereidas – miseráveis animalejos que só conhecem da natureza os peixes ictiófagos e as florestas submarinas – recebesse subitamente o dom da inteligência, a faculdade de estudar o seu mundo e de estabelecer sobre as suas apreciações um raciocínio conjectural extensivo à universalidade das coisas, que ideia fariam eles da natureza viva que se desenvolve no seu meio e do mundo terrestre que não faz parte do seu campo de observação? 

 Se agora, por um efeito maravilhoso do seu novo poder, esse mesmo ser conseguisse elevar-se acima das trevas eternas, à superfície do mar, não longe dos rios opulentos de uma ilha de esplêndida vegetação, ao sol fecundo, fornecedor de um benfazejo calor, que pensariam então das teorias antecipadas da Criação universal, teoria que bem cedo apagaria através de uma apreciação mais vasta mas ainda relativamente tão incompleta como a primeira? É esta, ó homens, a imagem da vossa ciência toda ela especulativa (ii)

 Quando então venho tratar aqui a questão das leis e das forças que regem o Universo, eu que tal como vós não sou mais que um ser relativamente ignorante relativamente à ciência real, apesar da aparente superioridade que me dá sobre os meus irmãos da Terra a possibilidade de estudar questões naturais que lhes são proibidas na sua posição, o meu objectivo é unicamente expor-vos a noção geral das leis universais sem explicar em pormenor o modo de acção e a natureza das forças especiais que daí dependem. 

 Há um fluido etéreo que enche o espaço e penetra os corpos; este fluido é o éter ou matéria cósmica primitiva, gerador do mundo e dos seres. Ao éter são inerentes as forças que presidiram às metamorfoses da matéria, as leis imutáveis e necessárias que governam o mundo. Estas formas múltiplas, indefinidamente variadas, consoante as combinações da matéria, localizadas segundo as massas, diversificadas nas formas de acção consoante as circunstâncias e os meios, são conhecidas na Terra com o nome de peso, coesão, afinidade, magnetismo, electricidade activa; os movimentos vibratórios do agente, são conhecidos pelos de som, calor, luz, etc. Noutros mundos apresentam-se sob outros aspectos, apresentam outros caracteres desconhecidos deste e na mesma extensão dos céus, forças em número indefinido, desenvolvendo-se numa escala imaginária de que somos tão incapazes de avaliar a grandeza como os crustáceos no fundo do oceano, são incapazes de abarcar a universalidade dos fenómenos terrestres (iii)

  A natureza nunca está em oposição consigo mesma. O brasão do Universo só tem uma divisa: UNIDADE / VARIEDADE. Subindo a escala dos mundos, encontramos a unidade de harmonia e de criação ao mesmo tempo que uma variedade infinita nesse imenso canteiro de estrelas; percorrendo os degraus da vida, desde o mais ínfimo dos seres até Deus, a grande lei da continuidade dá-se a conhecer; considerando as forças em si mesmas, podemos formar com elas uma série cuja resultante, confundindo-se com a geradora, é a lei universal. 

  Não poderíeis apreciar esta lei em toda a sua extensão dado que as forças que a representam no campo das vossas observações são restritas e limitadas; no entanto, a atracção e a electricidade podem ser consideradas como uma vasta aplicação da lei primordial que reina para além dos céus. 

  Todas estas forças são eternas – explicaremos esta palavra – e eternas como a Criação; sendo inerentes ao fluido cósmico, agem necessariamente em tudo e em todo o lado, modificando a sua acção pela sua simultaneidade ou pela sua sucessão; predominando aqui, apagando-se mais longe; poderosas e activas nalguns pontos, latentes ou secretas noutros; mas finalmente preparando, dirigindo, conservando e destruindo os mundos nos seus diversos períodos de vida, governando os trabalhos maravilhosos da natureza em qualquer sítio que ocorram, garantindo para todo o sempre o eterno esplendor da Criação. 

                                                                                                         Espírito Galileu 

/… 
(*) Este capítulo foi textualmente extraído de uma série de comunicações ditadas à Sociedade Espírita de Paris, em 1862 e 1863, sob o título de Études Uranographiques e assinado, Galileu; médium M. C. F. (N. do A.) 
(ii) É esta também a situação dos negadores do mundo dos Espíritos, quando, depois de se terem despojado do seu invólucro carnal, os horizontes deste mundo se desenvolvem a seus olhos. Percebem então o vazio das teorias com que pretendiam tudo explicar através unicamente da matéria. No entanto, estes horizontes têm ainda para eles mistérios que só se revelam a pouco e pouco, à medida que se elevam por depuração. Mas, a partir dos seus primeiros passos, neste mundo novo, são obrigados a reconhecer a sua cegueira e até que ponto estavam longe da verdade. (N. do A.) 
(iii) Relacionando tudo com aquilo que conhecemos e não entendemos o que escapa à percepção dos nossos sentidos assim como o cego nato não percebe os efeitos da luz e a utilidade dos olhos. Pode no entanto acontecer que noutros meios o fluido cósmico tenha propriedades, combinações, de que não fazemos qualquer ideia, efeitos apropriados às necessidades que nos são desconhecidos, dando lugar a novas percepções ou outros modos de percepção. Não percebemos, por exemplo, que se possa ver sem os olhos do corpo e sem a luz; mas quem nos diz que não existem outros agentes para além da luz a que estejam afectos organismos especiais? A visão sonambúlica, que não é travada nem pela distância, nem pelos obstáculos materiais, nem pela obscuridade, dá-nos disso um exemplo. Suponhamos que, num mundo qualquer, os seres são normalmente aquilo que os nossos sonâmbulos só são excepcionalmente, não terão necessidade nem da luz, nem dos nossos olhos e no entanto verão o que nós não podemos ver. Passa-se o mesmo com todas as outras sensações. As condições de vitalidade e de percepção, as sensações e as necessidades variam consoante os meios. 


ALLAN KARDEC, A GÉNESE – Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo, Capítulo VI, Uranografia Geral, O espaço e o tempo – As leis e as forças (de 8 a 11), 24º fragmento desta obra. Tradução portuguesa de Maria Manuel Tinoco, Editores Livros de Vida.
(imagem de contextualização: Diógenes e os pássaros de pedra, pintura em acrílico de Costa Brites).

sábado, 2 de janeiro de 2021

O sentido da vida ~


Conclusões Práticas ~ 
(III de III

O nascimento e a morte não devem perturbar-nos mais do que o necessário para que sejam atendidos nas suas necessidades imediatas. As convenções humanas que cercam esses acontecimentos, procurando dar-lhes um carácter de mistério impenetrável, devem ser afastadas dos meios espíritas. Nada de sacramentos aparatosos inúteis, como os baptizados religiosos, as unções do moribundo, a colocação de velas ou crucifixos nas mãos do morto ou em torno de um cadáver, as preces em conjunto, lamuriosas e prejudiciais, nada de gritos de desespero ou de choradeiras infindáveis, nada de semblantes carregados, de préstitos sombrios, carregados de coroas, nada de luto e de aparências dolorosas. O espírita sabe que o nascimento e a morte não são mais do que acontecimentos normais da existência terrena. Sabe que os aparatos de que os homens revestiram, através dos tempos, essas ocorrências, são apenas produto da ignorância, agora já superada pelos conhecimentos doutrinários. Deve banir, por isso mesmo, das casas espíritas, todos esses velhos meios da superstição e de atraso espiritual da humanidade, transformados no mais estéril e prejudicial dos convencionalismos. 

Por outro lado, na sua vida diária ele deve fazer o mesmo. A todo o momento terá de encontrar-se com as manifestações convencionais do mundo. São os hábitos criados na sociedade pela incompreensão do homem, firmados através dos tempos, constituindo a rotina quotidiana das convenções. Contra ela, o espírita irá firmando os novos hábitos denunciadores de uma diferente visão das coisas. A sua atitude será a de um simplificador da vida, a de um destruidor de convenções inúteis. Na sua vida particular, como homem de família e de sociedade, substituirá as expressões convencionais pelas atitudes simples e naturais, ditadas pelo coração em cada momento. Será o que realmente for, não o que pretendam que ele seja. Na vida comercial ou profissional procurará substituir a ganância desenfreada ou o desejo instintivo de superar os companheiros para tirar vantagens pessoais, pelo simples cumprimento do dever, com vista à realização das tarefas que lhe cabem e à satisfação das suas necessidades económicas reais. Como a ama-de-leite de que nos fala Ramakrishna, ele saberá sempre que a fortuna, o êxito, a boa-posição, não são mais do que o filho do patrão, do qual ele deve cuidar com o máximo de carinho e sem apego. (*)

No tocante aos princípios doutrinários, sabendo, como sabe, que o mundo necessita deles, tudo fará pela sua difusão. Trabalhando a sua própria vida, trabalhará também a vida do seu próximo, através da pregação e do exemplo. A pregação, ele a fará nas ocasiões oportunas, sempre que puder desviar a conversação dos rumos habituais, de futilidade e de maldade, para outros rumos, mais altos e mais belos, relacionando acontecimentos que sirvam de lições ou indicando mesmo as soluções doutrinárias para todos os problemas da vida. Não é somente através de discursos e de conferências que podemos pregar. Todos os espíritas, até os mais pobres de recursos intelectuais, podem tornar-se excelentes pregadores, despertando os homens para a compreensão verdadeira da vida. exemplo ele o dará através dos seus actos, da sua maneira de viver, de comerciar, de se desempenhar dos seus encargos profissionais, de tratar com os semelhantes na vida social. Mas feito isso, resta-lhe ainda um dever a cumprir: o trabalho em conjunto. Conhecedor que é da lei de fraternidade, não pode ele fechar-se, dentro do movimento doutrinário, numa espécie de individualismo espírita, fazendo Espiritismo somente na sua casa ou no âmbito individual das suas actividades. É necessário ir mais longe, ligando-se às associações doutrinárias, contribuindo para o trabalho dos Centros e dos Núcleos, esforçando-se em favor das boas iniciativas espíritas. 

Chegamos, neste ponto, a um assunto da maior relevância para todos os espíritasA vida das sociedades doutrinárias é de grande importância para a boa e séria propagação dos princípios espíritas no mundo. Por isso mesmo, cabe a todos nós uma parcela de responsabilidade pelas actividades dessas associações. Grande número delas, infelizmente, se desviam facilmente do caminho seguro, levados por homens vaidosos e ignorantes, que a si mesmos se atribuem poderes excepcionais, assistência privilegiada, capacidade única de direcção. Os espíritas sinceros e esclarecidos não podem fechar os olhos a essa situação.. É seu dever contribuir para a volta das associações a um roteiro seguro, se não pessoalmente, por falta de aptidões pessoais, pelo menos reforçando o trabalho dos que lutam contra essas deturpações e esses desvios. 

Um dos vícios ainda persistentes no movimento espírita é o do personalismo mais feroz, na realização de obras de carácter doutrinário. Todo o indivíduo que se julga dotado de capacidade para fazer alguma coisa, procura logo fazê-la por conta própria, individualmente, não raro firmando o seu nome, como se ele fosse o objectivo e não o realizador da iniciativa. Contra isso temos de lutar, incessantemente. Precisamos convencer os espíritas da necessidade de trabalhos em conjunto, visando as soluções mais amplas dos problemas doutrinários. A União das Sociedades Espíritas – USE, surgida em São Paulo, é uma tentativa nesse sentido e, devemos prestigiá-la. Não obstante, é necessário o maior cuidado, para que um movimento como a USE também não seja desviado dos seus verdadeiros objectivos. O perigo desse desvio já se tornou evidente, com a criação de um departamento de unificação nacional, no Rio de Janeiro, subordinado à Federação Espírita Brasileira. 

A unificação do movimento espírita, tanto no âmbito municipal, através das Uniões Municipais Espíritas, quanto no estadual ou no federal e, até mesmo, futuramente, no continental e no mundial – já existem organismos desta natureza, como a Confederação Espírita Pan-americana e a Federação Espírita Mundial –, deve ser feita através de organismos amplos, de representação colectiva e, não de pequenas sociedades, enfeixadas nas mãos de um grupo reduzido. Em cada organismo unificador devem estar presentes os representantes eleitos de grandes massas espíritas, da maneira mais democrática possível, a fim de que o movimento não se desvie do seu sentido livre e libertador; isso porque o Espiritismo é doutrina, como vimos, de liberdade e fraternidade, jamais de coação e imposição, através de autoridades arbitrariamente constituídas. O nosso trabalho deve ser no sentido de unir os espíritas para o esforço comum em prol da causa e, não de submetê-los ao arbítrio de instituições dirigentes. 

/… 
(*) O grande espiritualista hindu, Ramakrishna, dizia aos seus discípulos que eles deviam viver como uma ama-de-leite. E explicava: 
“A ama-de-leite, ao referir-se à casa dos seus patrões, diz: “a nossa casa”. Ela sabe, entretanto, que a sua casa está longe, numa aldeia distante, para a qual se dirigem os seus pensamentos. Ao referir-se ao filho dos patrões, que traz nos braços, dirá: “o meu Hari está muito travesso” ou “o meu Hari gosta disto ou daquilo”, e assim por diante. Não obstante, ela sabe que Hari não é seu. Aos que me procuram, digo-lhes que vivam uma vida de desapego, como essa ama-de-leite, que vivam desligados deste mundo, que vivam no mundo mas não sejam do mundo e, tenham ao mesmo tempo a mente dirigida a Deus, a casa celeste de onde todos viemos. Que implorem o amor de Deus, que os ajudará a viver assim.” 
In O Sentido da Vida / Conclusões Práticas (II de III), J. Herculano Pires.


José Herculano Pires, O Sentido da Vida / Conclusões Práticas (III de III), 16º fragmento desta obra 
(imagem de contextualização: Ramakrishna, finais do século XIX, pintura de Franz Dvorak)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

O Homem e a Sociedade


Capítulo III 

Marx e Kardec 
(I de II) 

Karl Marx e Allan Kardec encarnam, nos tempos actuais, as duas grandes inquietudes do pensamento: o fenómeno social e o fenómeno espiritual. Marx traçou uma imagem do homem em desacordo com a realidade espiritual. Entretanto, no campo social, expressou verdades que, postas em prática, dariam solução à mais renhida luta de classes que, actualmente, no seu conjunto, chamamos capitalismo e comunismo. 

Marx viu o homem como um composto físico-químico, isto é, como um organismo material, governado e conduzido pelos modos de produçãoKardec, pelo contrário, compreendeu o homem como um espírito encarnado num corpo físico, para demonstrar a sua evolução e a sua realidade espiritual. Mas o homem de Marx e o homem de Kardec, iguais entre si quanto ao aspecto material e diferentes na sua realidade espiritual, constituem agora uma pessoa humana ou entidade existencial, com novos direitos e iguais deveres, diante dos progressos da sociedade moderna. 

Nessa pessoa existencial e humana, onde cabem tanto o homem marxista como o homem kardecista, devemos procurar a verdadeira filosofia Social. Nela se encontram os elementos indispensáveis para estabelecermos uma relação entre o problema social e o problema espiritual. Entretanto, Marx nos mostrou um homem melhor que o homem velho dependente do regime capitalista. O homem de Marx é um ser liberto da exploração económica, mas sem perspectivas metafísicas. As suas dimensões espirituais estão sujeitas ao terrestre, o que vale dizer que desaparecem com o corpo. Disso resulta ser o homem de Marx um Ser incapaz de satisfazer o anseio de imortalidade que o Espírito leva no seu íntimo. 

Marx, com efeito, legou-nos um homem sem espírito. Não obstante, exigiu-lhe mais do que podia dar. Esqueceu-se de que um homem chamado a efectuar a transformação do mundo, em todos os seus aspectos, não deveria morrercomo sustenta a desoladora teoria do materialismo histórico, sobre a qual fundamentou todo o seu sistema social. Como se verá, o homem de Marx morre para sempre, depois de se sacrificar pela instituição de um mundo melhor. É um tipo de homem que não tem vinculações palingenésicas com o processo histórico: nasce e morre sem saber qual o sentido do drama do planeta. 

Apesar do erro no tocante ao Ser do homem, Marx teve acertos extraordinários ao julgar o regime capitalista e com ele a “exploração do homem pelo homem”. O seu génio demonstrou à inteligência humana que o sistema de propriedade privada está obrigado a se transformar em sistema de propriedade colectiva. Fez ver à humanidade que o socialismo, ou regime de propriedade colectiva, corresponde a um novo sentido da vida e, assim o admite a doutrina social espírita, considerando-o como um avanço para o verdadeiro advento do cristianismo. Porque no dia em que a sociedade cristã for uma realidade, ela estará assente sobre as bases da propriedade colectiva. Vejamos o que diz o Evangelho: “Em verdade vos digo que um rico — ensinava Jesus aos seus discípulos, — dificilmente entrará no Reino dos Céus. em verdade vos digo que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no Reino de Deus.” (Mateus XIX, 23-24). 

homem velho, que geralmente está representado no rico de que falava o Nazarenoé o que resiste à evolução do sistema social e, deverá ler e meditar profundamente este ensinamento do Divino Mestre. Porque são os ricos e poderosos, mesmo sendo cristãos, os menos concordes com a essência revolucionária do cristianismo. Recordemos o seguinte ensinamento evangélico: “Certa vez, um jovem rico perguntou a Jesus o que deveria fazer para conquistar a vida eterna e, o Mestre lhe respondeu: Se quiseres ser perfeito, vai, vende o que tens e dá-o aos pobres e, terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me. Ouvindo o jovem estas palavras, retirou-se triste, porque tinha muitos haveres”. (Mateus XIX, 21-22). 

Esta a razão pela qual o cristianismo nunca poderá ser a doutrina ou a religião dos ricos, potentados, latifundiários e poderosos. O cristianismotal como o interpreta a sociologia espírita, é uma ideia que jamais se acomodará com os interesses das classes poderosas, nem com a exploração dos humildes e o luxo desmedido dos endinheirados. 

O cristianismo possui em si mesmo tudo o que Marx atribuiu (por culpa dos próprios cristãos) ao socialismo de tipo materialista. No dia em que o cristianismo se dedicar totalmente à organização social do mundo, a própria revolução comunista, tão temida na actualidade, aparecerá como um acontecimento insignificante e sem transcendência. 

A comunhão de bens ou propriedade colectiva, antes do socialismo, pertenceu ao cristianismo, como sistema social. Nos Actos dos Apóstolos lê-se o seguinte: “E todos os que acreditavam estavam juntos; e tinham todas as coisas em comum (11-44). E não havia entre eles nenhum necessitado, porque todos os que possuíam herdades e casas vendiam-nas e depunham o valor aos pés dos apóstolos, para ser distribuído a cada um, segundo as suas necessidades.” (IV-34-35)

Esta doutrina do cristianismo primitivo mostra-nos que a ideia de propriedade colectiva, principal instrumento do socialismo moderno, já era praticada pelas primeiras comunidades cristãs. Portanto, a cristandade deverá renovar a presente estrutura social, aplicando o ideal económico ensinado por Jesus e os seus apóstolos e, evitando assim a implantação de um conceito materialista do homem e da sociedade. 

Marx esboçou um indivíduo sem vinculações com o espiritual e o eterno. Acreditou que o Espírito constituía um embaraço para o advento de uma sociedade sem classes, porque tanto o filósofo como o religioso aplacavam as reivindicações dos oprimidos, falando-lhes de uma felicidade ultraterrena. Deste modo, o poderoso se livrava das reclamações de servos e servidores, hoje trabalhadores e obreiros em geral. 

O autor de O Capital, conhecedor deste jogo, desliga-se do Espírito e atém-se unicamente à realidade objectiva das coisas. Concebe por isso um homem material, cujo destino termina com a sua morte física. Sente repulsa pelo espiritual e metafísico, porquanto a oligarquia e a opressão de todos os tempos têm submetido os homens, prometendo-lhes recompensas no além. 

Daí o homem marxista estar desvinculado de todo o conceito espiritual e religioso. Marx acreditava que a verdade jamais escraviza o homem, mas o eleva e melhora nas condições da vida social. Viu, entretanto, que a verdade espiritual praticada por cristãos, clérigos, sociólogos e filósofos, até meados do século 19, era uma verdade espiritual que exaltava os poderosos e lhes submetia os humildes e deserdados, isto é, a todos os que seguiam Jesus. O cristianismo eclesiástico, que não é o cristianismo do Espírito de Verdade, hoje proclamado pela Terceira Revelaçãoprestou-se a esse jogo aviltante, que consistia em sufocar toda a ideia de rebeldia entre os explorados. E Marx, por essa razão, negou aquela verdade espiritual, chegando à conclusão de que a única realidade se encontra no mundo físico e na vida material do homem. Terminou sustentando que a verdade sempre libertará os indivíduos e, que toda a ideia religiosa, que tratasse de subjugá-los com promessas ultraterrenas, representaria uma falsa verdade ou um argumento das forças reaccionárias, para impedir a justiça social e a democracia. 

Hoje, é reconhecida a razão de Marx, no que respeita ao socialismo, mas quanto à interpretação materialista do homem e da história, como se vem a comprovar, Marx permanece num plano de absoluto equívoco. É este o motivo que dá argumentos aos misoneístas para combaterem Marx, não tanto com o fim de refutar a sua ideologia materialista, mas para defender o regime capitalista, onde os seus instintos possessivos possam continuar a obra de avareza e de egoísmo. 

Se Marx nos legou uma falsa imagem do homem, foi devido ao procedimento moral, que já assinalamos, dos que se chamaram espiritualistas e cristãos e, que em vez de estarem com a mensagem de Cristo e, consequentemente com os pobres, despojados e explorados, estiveram com os poderosos e os afortunados. No nosso tempo, continua ainda este jogo de religiosos, espiritualistas e cristãos, que se protegem sob o poder estatal para defender os seus interesses de classe afortunada. Esta atitude dos poderosos frente aos humildes destrói, a cada momento, na vida dos povos, a ideia de Deus e do Espírito, ao ponto de serem consideradas inexistentes e, repetindo o que dizia Marx, se continua a considerá-las como instrumentos mentais para aplacar os anseios de justiça. 

Mas se o homem marxista é um erro no seu aspecto espiritual e, uma verdade na sua face social, o homem kardecista é uma verdade integral: o homem de Kardec é verdadeiro tanto no espiritual como no social. Estes mundos, na concepção espírita, não se excluem entre si, segundo afirma a mentalidade religioso-materialista. Para Kardec, estes dois mundos estão representados por dois elementos: o material e o espiritual, que deverão unir-se para revelar uma única realidade: a da vida universal. 

Kardec nos assinala que esses elementos, o material e o espiritual, constituem as duas realidades através das quais deverá passar o Espírito do homem. Esta concepção confirma-nos que a justiça social e a justiça espiritual deverão desenvolver-se de forma paralela, já que tanto o processo visível como o invisível do homem e da história contribuem para o processo que conduz ao amor e à fraternidade sociais. Isso nos mostra que o mundo material e o mundo espiritual se relacionam mutuamente e, que o desenvolvimento histórico se efectua mediante estas relações materiais e espirituais, ao lado do desenvolvimento da forma e da vida. 

/... 


Humberto MariottiO Homem e a Sociedade numa Nova Civilização, Do Materialismo Histórico a uma Dialéctica do Espírito, PRIMEIRA PARTE, O NÚMENO ESPIRITUAL NOS FENÓMENOS SOCIAIS, Capítulo III, MARX E KARDEC (I de II) / 4º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: Alrededores de la ciudad paranóico-crítica: tarde al borde de la historia europea (imagem parcial) uma pintura de Salvador Dali, 1936)

domingo, 6 de dezembro de 2020

Deus na Natureza ~


 ~ a 
origem dos seres ~ 
(III de III) 

  “O corpo humano – diz o naturalista inglês Wallace –, estava nu e desprotegido e foi o espírito que o aprovisionou de vestuário para o preservar das intempéries. O homem não teria podido competir em agilidade com o gamo, nem em força com o touro selvagem e, foi o espírito que lhe deu armas para domar e utilizar esses animais. Ele era menos apto que os outros animais para alimentar-se de ervas e de frutos que a Natureza espontaneamente oferecia e foi essa faculdade admirável que o ensinou a governar e a adequar a Natureza aos seus fins, dela extraindo o alimento quando e onde quisesse. 

  “Desde o momento em que se utilizou da primeira pele para a sua indumentária, da primeira lança na caça, da primeira semente no plantio, da primeira vara na enxertia, uma grande revolução se operou na Natureza, revolução que não teve semelhança em qualquer fase da história do mundo, uma vez que um ser existia guarnecido para as mutações do Universo; um ser, até certo ponto superior à Natureza, possuía pois os meios para controlá-la, para regular-lhe as actividades e, podendo manter-se em harmonia com ela, não lhe modificando a sua forma corporal, porém, aperfeiçoando-lhe o espírito.” 

  É nisso, tão-só, que vemos a verdadeira grandeza e dignidade do homem. (ii) 

  O homem ocupa um grau anatomicamente superior, ao em que assenta o chimpanzé; a diferença entre os cérebros do negro e do primata não é maior que a que separa o chimpanzé do saju e, sobretudo, dos lemurianos. Depois do chimpanzé (trogloditas) vêm, na ordem decrescente, o orango (pitécus), o gibon (hilobatos), o seninopíteco, o bugio, etc. Tal como escreveu Geoffroy Saint-Hilaire em polémica célebre com Cuvier, o homem é a primeira família da ordem dos primatas, estabelecida por Linnaeus no século passado. Cabe dizer que aqui falamos do ponto de vista anatómico, unicamente. Qualquer outro raciocínio invalidaria estas classificações. Somos, porém, de opinião que quando versamos anatomia, temos de fazer anatomia. 

  No capítulo seguinte, teremos oportunidade de prosseguir na comparação do homem com o macaco, pelo estudo do cérebro. 

  O lugar geológico do homem remonta à origem da nossa espécie a época longínqua em que viviam as raças antediluvianas, hoje desaparecidas: o veado de grandes chifres, o urso das cavernas, o rinoceronte tricorne, o elefante primigéneo, o mamute, a rena fóssil, etc. A mais antiga data conhecida e que atesta a presença do homem, é muito posterior à fauna e à flora actuais. Entretanto, verifica-se não existirem já, nos nossos dias, umas tantas espécies contemporâneas do homem. Os fósseis humanos encontrados nos recifes coralíneos da Flórida, nas cavernas do Languedoc e da Bélgica, o esqueleto exumado nas redondezas de Dusseldorf, o crânio da caverna de Êngis, o de Barreby, na Dinamarca, o homem fóssil de Puy e de Natchez, no Mississipi, os restos humanos em Loes, indiciam nas variedades humanas primitivas um estado de manifesta inferioridade, aproximando-as singularmente dos selvagens contemporâneos e mesmo dos símios antropóides. Hoje ninguém contesta que a existência do homem seja anterior ao período glaciário e desde o começo da época quaternária. 

  O lugar arqueológico do homem concorda com os precedentes, a favor da teoria progressiva. Quem duvidaria, hoje, da idade da pedra e do bronze, pelas quais transitou a Humanidade antes que inventasse qualquer arte ou indústria, cujos vestígios se encontram por toda a parte? Que ancianidade poderíamos atribuir a esses períodos? A idade da pedra, na Dinamarca, coincidia com o período da primeira vegetação, seja a dos pinheiros da Escócia e, em parte, com a segunda vegetação – a do carvalho. A idade do bronze desenrolou-se durante a época do carvalho, pois foi nas camadas da turfa, onde abunda o carvalho, que se encontraram espadas e escudos desse metal. Antes dele não havia faias. A idade do ferro, menos pristina, corresponde à bétula. Quanto tempo duraria a primeira idade? Sendo o bronze um composto de mais ou menos nove partes de cobre e uma de estanho, o aparecimento dos primeiros utensílios denota uma indústria já não elementar. A fusão dos minerais, a decoração lenta dos objectos moldados, só poderiam ser conseguidas depois de longo tacteamento. 

  A que época devemos atribuir as cidades lacustres da Suíça e as quarenta mil estacas de Wangen? As escavações nos têm revelado vinte povoações no lago de Genebra, doze no de Neufchâtel, dez no de Bienne, contemporâneas das idades da pedra e do bronze. 

  As da Irlanda (Crammoges) parecem provir da mesma época. Essas povoações castoreanas deviam oferecer alguma semelhança com as da Nova-Guiné, descritas por Dumont d’Urville. Os ossos encontrados por Lartet na caverna de Aurignac (i) são contemporâneos das hienas das cavernas e do rinoceronte de narinas separadas. 

  Foi muito tempo depois que Tebas e Mênfis, capitais do alto e do baixo Egipto, atingiram o seu grande esplendor e que as quarenta pirâmides foram erigidas, tipificando uma civilização lentamente desenvolvida, com uma forma especial de culto, de cerimónias esplêndidas, um estilo singular de arquitectura e inscrições, barragens dos rios, etc. Essas glórias, entretanto, estavam desvanecidas muito tempo antes de Homero. “Foi preciso – diz Lyell – para formação lenta e gradual de raças como a caucasiana, a mongol ou a negra, um lapso de tempo bem mais longo que o possível para ser abrangido por qualquer sistema de cronologia popular.” 

  Ao problema cronológico do aparecimento do homem na Terra, a Ciência nada responde por enquanto. Ao demais, se o homem não apareceu espontaneamente, tal data não existe. Quanto aos vestígios de humanidade, ou do homem em si mesmo, as opiniões (pois que se não trata, no caso, senão de opiniões) são vagas quão variáveis. Um tijolo de carvão encontrado entre Assouan e o Cairo, a uma profundidade de 18 metros, contaria treze mil anos de existência, admitindo-se um aumento de 15 centímetros por século, no depósito de vasa, no delta do Nilo. A estimativa mais baixa do tempo necessário para formar o delta do Mississipi é de cem mil anos. 

  O esqueleto humano encontrado perto de Nova-Orleans, a cinco metros de profundidade e sob uma camada de quatro florestas extintas, não contaria menos de cinquenta mil anos, na opinião do Dr. Dower (é um número exagerado, no nosso entender). Agassiz calculou que a formação dos recifes de coral da Flórida representam cento e trinta e cinco mil anos. Os sílex talhados e recolhidos em diversas regiões do globo, particularmente no vale do Somme, parece terem servido de armas a uma raça distanciada de cem séculos. 

  A Arqueologia concorda com os historiadores e os poetas da antiguidade, quais HeródotoDiodoro, Éschylo Vitrúvio, Xenóphontes, Plínio, no concernente ao primitivismo bárbaro da raça humana e à sua predilecção pelas cavernas. Mas, esse estado nós o podemos considerar fora dos domínios históricos e a cronologia, que remonta à época já misteriosa das grandes migrações arianas, a mais de cem séculos passados, mergulha na noite profunda, quando tenta sondar a nossa verdadeira origem. 

  Tudo quanto podemos afirmar é que a Humanidade é muito mais antiga do que se supôs até agora, tendo começado por graus inferiores, até que se elevasse à noção de justiça e de moral. Se nos fosse permitido remontar a essas épocas, não poderíamos reconhecer a civilização da nossa era na caligem das idades bárbaras, quando a inteligência nos seus primórdios se esforçava por desprender das possantes constrições da matéria. 

  Preferimos confessar essa ancianidade e essa possível origem da nossa espécie, sem escrúpulos para com o Espiritualismo e sem acompanhar o mau exemplo dos que intrometem as crenças religiosas a propósito de tudo e, mesmo sem propósito. Constatamos os factos e a nossa ignorância, com sincera franqueza, persuadidos de que não se podendo antepor duas verdades entre si, a Ciência da Natureza não pode afectar a causa do Ser supremo. Como diz Helmholtz, os homens costumam medir a grandeza e a sabedoria do Universo pela duração e vantagem que daí lhes advêm; mas a história dos séculos transcorridos nos mostra quão insignificante é o período do advento da existência humana, em relação com a idade do planeta. 

  A Ciência não admite de bom grado a aparição miraculosa do primeiro casal humano. Diz Charles Lyell que “se a fonte original da espécie humana tivesse sido realmente dotada de faculdades intelectuais superiores de natureza perfectível, como a da sua posteridade; se a Ciência lhe tivesse sido inspirada, o progresso atingido seria simplesmente muito mais expressivo. No curso dos evos teria havido tempo de realizar conquistas inimagináveis e os mais diferentes caracteres teriam sido impressos nos utensílios que agora procuramos interpretar. Nos areais de Saint-Acheul, como na porção de leito do Mediterrâneo aflorada nas costas da Sardenha, ao contrário da mais grosseira cerâmica e dos sílex de feitura tão defeituosa e incompleta, que mal indiciam ao observador bisonho um esforço manual voluntário, encontraríamos esculturas superiores às obras-primas de Fídias e Praxiteles, caminhos de ferro e telégrafos nos quais os nossos engenheiros colheriam inestimáveis apontamentos; microscópios e telescópios aperfeiçoados como os não conhecemos na Europa e inúmeras outras provas, de perfeição artística e científica, que o nosso século XIX ainda não logrou testemunhar. Em vão esgotaríamos a imaginação para adivinhar a utilidade de relíquias que tais. Talvez maquinaria de locomoção aérea ou destinada a cálculos aritméticos, aparelhos desproporcionados às necessidades quiçá à concepção dos matemáticos vivos.” 

  Esta explicação física da origem das espécies não arrebata o ceptro das mãos do Governador do mundo. Já assinalamos acima a declaração de Darwin a favor do sentimento religioso e parece-nos que, sobre as consequências imediatas de qualquer doutrina, devemos reportar-nos antes à opinião do mestre que à dos discípulos. Charles Lyell emite os mesmos conceitos, citando a seguinte declaração do geólogo Asa Grey, em que este evidencia claramente que a doutrina da variação e da selecção natural não tende a destruir os alicerces da Teologia natural e que a hipótese da derivação das espécies em nada contraria qualquer dos sãos princípios da História Natural. 

  “Podemos imaginar que os acontecimentos e em geral as operações da Natureza ocorrem, simplesmente, em virtude de forças comunicadas desde o início e sem qualquer ulterior intervenção, ou podemos admitir tenha havido, de tempos a tempos e, somente de tempos a tempos, uma intervenção da Divindade. E podemos, enfim, supor ainda que todas as mudanças produzidas resultem da acção metódica e constante, mas, infinitamente variada, da causa inteligente e criadora. 

  “Os que pretendem, de um modo absoluto, que a origem de um indivíduo, tanto quanto a de uma espécie ou de um género, não se possa explicar senão por acto directo de uma causa criadora, podem, sem renunciar à teoria favorita, admitir a teoria da transmutação, que lhe não é incompatível. O conjunto e sucessão dos fenómenos naturais podem não ser mais do que a aplicação material de um plano preconcebido; e se essa sucessão de factos pode explicar-se pela transmutação, a perpétua adaptação do mundo orgânico a condições novas deixa, mais valioso que nunca, o argumento de um plano e, consequentemente, de um arquitecto.” 

  Parece-nos, com efeito, que a obstinação nada de mais tem a ganhar com esta hipótese do que com qualquer outra teoria natural. 

  Quanto à pecha de materialismo imputada a todas as modalidades da teoria transformista, já vimos mais acima que a teoria da gravitação e grande número de outras descobertas foram consideradas de subversivas da Religião. Mas, onde iríamos parar se houvéssemos de ouvir os lamentos de todos os teólogos sobressaltados? 

  Longe de possuir tendência materialista, esta hipótese da intermissão na Terra, em épocas geológicas sucessivas, primeiramente da vida, depois da sensação, do instinto e da inteligência dos mamíferos superiores convizinhos da racionalidade e, finalmente, da razão perfectível do próprio Homem, parece-nos, ao contrário, o desdobramento de um plano grandioso, apresentando-nos o quadro de predominância crescente do espírito sobre a matéria. 

  Temos sido assaz prolixos em encarar as relações do homem com os animais que o precederam, sem embargo da névoa de mistério que ainda as envolve. É que acreditamos, com Pascal; essas comparações sempre têm algum valor. 

  “É perigoso – dizia o autor de Pensamento – demonstrar ao homem o quanto ele se iguala aos animais, sem lhe mostrar ao mesmo tempo a sua grandeza. Perigoso, também, mostrar-lhe a sua grandeza, sem lhe fazer sentir a sua baixeza. Mais perigoso, ainda, é deixá-lo na ignorância de ambas.” 

  Ainda que o problema da antiguidade e a origem da espécie humana varie para o geólogo, para o arqueólogo e para o etnólogo, nem por isso deixa de se averiguar que a Humanidade procede de época muito mais remota do que se pode crer. Ainda que esse mesmo problema se definisse divergente para a Zoologia ou para a Teologia, não é menos provável, tampouco, que os nossos antepassados fossem inferiores a nós e que o progresso se manifestou na Humanidade tal como na escala de toda a Criação. Perguntamos, então, aos espíritos de boa fé: – em que, a crença na ancianidade do homem e, mesmo na sua origem simiesca, colide com a crença num absoluto? Que a vida tenha surgido na Terra, que se tenha desenvolvido mediante leis orgânicas e que, do vegetal ao homem, a criação antidiluviana não tenha formado senão uma unidade, em que pode esta hipótese destruir a acção divina? Aqui, como no que precede, a matéria não obedeceu às suas forças? E a vida dos seres não é uma força especial, regente de átomos, directora de todos os movimentos? Particularmente, na teoria da selecção natural, não é a força vital que dirige a marcha do mundo? Aqui, como por toda a parte, a matéria não é a escrava e a força a soberana? 

  Mesmo admitindo-se a mais alta influência dos meios na transformação dos órgãos, essa transformação não será, sempre, o efeito da vida e a vida regida pela inteligência e dotada de uma espécie de obediência activa à lei intelectual do progresso? 

  Abordando a tese da apropriação dos órgãos às funções que lhes incumbe executar, bem como da construção homogénea de cada espécie, dos dentes aos pés, segundo o seu papel no cenário do mundo, entramos nos domínios da destinação dos seres e das coisas. O nosso quarto livro objectivará este vasto problema. 

  Assim, em resumo, vimos de demonstrar que, seja do ponto de vista da circulação na matéria dos seres vivos, seja no da origem e da perpetuidade da vida, esta se constitui de uma Força única e central para cada ser, que dispõe a matéria organizável segundo um plano, do qual o indivíduo deve ser a expressão física. Nesta segunda, como na primeira parte, temos refutado todos os pontos dos nossos adversários. Eles já não sustentam a sua hipótese materialista e, com os seus exageros mais temerários, antes auxiliam a nossa tese, pois conceituando a matéria capaz de tudo fazer, mal se precatam que apenas substituem a ideia da força. Esperamos que esses inconsequentes negadores fiquem agora mais satisfeitos com este capítulo. E antes de passar ao seguinte, pedimos-lhes notar, para edificação de sua vaidadezinha, que os gregos e o próprio Arístoto lhes marchara à frente (*), visto que para eles as radicais força e vida eram sinónimos. O filósofo de Stagira já tinha sustentado que – “a alma é a causa eficiente e o princípio organizador do corpo vivo”. 

  Não vale a pena fazer tão grande alarde de ciência, para ficar abaixo dos Gregos. 

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(*) Dos conceitos da harmonia das esferas dos gregos... à avaliação de Dominique Proust, astrofísico e organista... Adenda desta publicação.
(ii) Grandes homens contemporâneos não compartilham destas ideias e consideram a Humanidade como uma raça degenerada. Permitimo-nos citar aqui como exemplos, que o Sr. Cousin, com quem conversamos ao iniciar esta obra (1865), sustentava essa opinião e o Sr. de Lamartine (i), a quem propusemos a mesma questão quando corrigíamos estas provas (1867), encara as raças arianas como tendo sido superiores à sociedade actual. O problema ainda está longe de solução, mas a verdade é que nem por isso a característica do homem deixa de consistir na sua inteligência progressiva. 


Camille Flammarion, Deus na Natureza, Segunda Parte – 2/ A Origem dos Seres […] (III de III), 24º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: Jungle Tales (Contos da Selva) 1895, pintura de James Jebusa Shannon