Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

terça-feira, 6 de novembro de 2018

O Mundo Invisível e a Guerra ~


XVI
O Espiritismo e a Ciência ~

(Agosto de 1918)

  Allan Kardec, nas suas Obras Póstumas, garantiu que o futuro pertencia ao Espiritismo. Depois de meio século de provações e de trabalho, esta afirmativa, verifica-se hoje e podemos repeti-la com a certeza de que tais palavras de esperança e de fé profunda nunca serão desmentidas. Afirmaremos nós, por nosso turno: o futuro pertence ao Espiritismo, saibamos prepará-lo...

  Quais são os progressos obtidos pelo Espiritismo? Primeiramente, verificamos que a própria Ciência oficial é afectada por ele, a tal ponto que terá necessidade de reformar os seus métodos e renovar os seus sistemas.

  Há 50 anos que os espíritos nos ensinam, teoricamente, e nos demonstram, experimentalmente, a existência do que eles denominam fluidos e que são estados especiais da matéria, de forças imponderáveis que os sábios rejeitavam unanimemente.

  Quem os comprovou, em primeiro lugar, foi Sir William Crookes que, com as suas experiências espíritas (como diz no seu livro Recherches sur les Phénomènes du Spiritualisme) entrou no caminho dessa descoberta.

  A partir de então, a Ciência não parou de reconhecer a diversidade e o poder dessas forças: Roentgen, com os raios X; BecquerelCurieLe Bon, ao descobrirem as energias intra-atómicasBlondlot, os raios N.

  É preciso fazer constar que as forças radioactivas não dimanam apenas dos corpos materiais, mas também dos seres vivos e pensantes. Trata-se da preparação para se constatar a vida invisível e o perispírito. Allan Kardec (i) já afirmava nas suas obras a existência de tais forças.

  Dessas descobertas resulta que todas as bases da Física, da Química e até da Psicologia vêm sendo abaladas seriamente. O Espiritismo beneficia largamente com as recentes comprovações feitas nessas áreas.

   Hoje a Ciência reconhece a existência de todas as forças subtis, manipuladas pelos espíritos nas manifestações.

   Lembremos o fenómenos dos transportes, a reconstituição espontânea de diversos objectos em ambientes fechados, os casos de levitação de móveis e de pessoas vivas, as experiências de penetração da matéria pela matéria realizadas por AksakofZöllner e outros, com anéis de metal e tiras de pano lacradas.

   De uma maneira geral, a passagem dos espíritos através das paredes, as aparições e materializações em todos os graus, todos esses factos comprovaram, desde o princípio, a acção de prodigiosas forças, ainda desconhecidas, além da possibilidade de uma dissociação da matéria, até então ignorada e, que a Ciência actual se vê forçada a admitir, após os trabalhos de CurieBecquerelLe Bon, etc.

   Um escritor católico, num recente livro onde, pela rudez da forma, se nota em cada página o verdadeiro interesse do autor, (*) que nos contesta, afirmando que outros inovadores haviam notado a existência do fluido humano muito antes de Kardec, por exemplo Mesmer, com a sua famosa selha.

   Ele esqueceu-se, certamente, da aceitação sarcástica que se deu a essa inovação e da violenta hostilidade das instituições científicas a seu respeito.

   Semelhante hostilidade persistiu a tal ponto que não seria preciso recuarmos muito para recordar as zombarias de algumas academias contra o magnetismo.

    Foi necessário todo o génio de um Crookes para derrubar as portas que permaneciam hermeticamente fechadas.

   Aquilo que os sábios se obstinaram em condenar durante tanto tempo, os espíritas já conheciam e aceitavam, há mais de 50 anos. Estes não deixaram de prosseguir na demonstração e na prova experimental de tais factos e, neste momento, informam-me da descoberta de dois investigadores da cidade de Lyon, que encontraram a forma de reproduzir a fotografia dos desdobramentos fluídicos de membros humanos amputados e até mesmo do duplo etéreo completo de um médium exteriorizado, por meio da espectroscopia e dos raios ultravioleta.

   Dessas pesquisas e experiências resultou, obrigatoriamente, uma profunda modificação das teorias clássicas sobre as energias e a matéria, caindo o dogma da indivisibilidade do átomo e com ele toda a ciência materialista, que se encontra em completa desordem. Veja-se, por exemplo, esta declaração do presidente de um Congresso para o Progresso das ciências, que se realizou pouco antes da guerra, o Sr. Laisant, ex-deputado pelo Departamento de Sena e, quem conhecemos pessoalmente como positivista, isto é, fiel discípulo de Auguste Comte:

   “Vivemos desde a infância uma vida científica tranquila, conformados com as nossas teorias, qual velha casa um tanto avariada, à qual estamos apegados pelo hábito, que amamos e onde habitamos. Mas apareceu um tufão sob a forma de novos factos, que são incompatíveis com as teorias admitidas. Caíram as hipóteses, a casa desmoronou-se e ficámos inteiramente desorientados e tristes, esperando novas tempestades e, sem saber o que fazer.”

  Que confissão de incapacidade e de esterilidade encontramos nestas palavras!

  Quando estudamos a evolução do Espiritismo, somos levados a constatar que, passo a passo, apesar de suas hesitações e repulsas, a Ciência se aproxima, gradualmente, das teorias espíritas.

   Na Física e na Química, por exemplo, elas reconhecem a existência da matéria subtil, radiante e, das forças radioactivas, que fazem a própria base, a essência e o modo de manifestar-se do mundo invisível.

   Agora, a Psicologia, ei-la obrigada a aceitar o hipnotismo e a sugestão, após tê-los negado por muito tempo. Depois veio a telepatia e a transmissão de pensamento. Ora, esses factos não são senão a demonstração do domínio humano e experimental, do princípio afirmado e aplicado, há 50 anos, pelos espíritas: a acção possível da alma sobre a alma, a qualquer distância, sem o auxílio dos órgãos e do cérebro.

   A Ciência oficial, que se inspirava nas teorias materialistas, recusava, em princípio, essa explicação; desde há poucos anos que ela rejeitava qualquer possibilidade de manifestação da inteligência fora do cérebro e, portanto, todo e qualquer meio pelo qual um ser pudesse comunicar-se com outro sem o concurso dos órgãos e dos meios correspondentes.

 Actualmente a Ciência é obrigada a reconhecer os factos telepáticos e de transmissão do pensamento e, reconhecendo-os, dá um passo notável para a frente inferindo um golpe mortal no materialismo.

   A telepatia demonstra que a comunicação é possível, entre dois seres, sem o auxílio dos sentidos físicos, assim como a sugestão comprova a possível influência de um espírito sobre outro, sem o auxílio dos órgãos correspondentes.

   Tais influências e funções foram confirmadas por milhares de experiências e, desde então, a teoria materialista tem falido e a Ciência já se encontra a meio caminho para aceitar a possibilidade de comunicação entre os homens e os espíritos. A segunda metade do caminho vencer-se-á pelo estudo da mediunidade.

   Ora, essa renovação poderosa da Psicologia, que possibilitará ao ser humano conhecer-se melhor, a quem a Ciência deverá isso?

   Aos espíritas e aos magnetizadores, que foram os pioneiros, chamando a atenção dos sábios para os fenómenos da sugestão, da telepatia e da transmissão de pensamentos, forçando, de certo modo, a evolução científica a orientar-se nessa senda, que a conduzirá, seguramente, ao Espiritismo.

   Um facto notável mostra-nos já o caminho por ele percorrido no meio docente. O Dr. Gustave Geley conseguiu realizar no Colégio de França, sob os auspícios do Instituto Psicológico e perante um selecto auditório, em 28 de Janeiro de 1918, uma conferência sobre fenómenos psíquicos, onde afirmava a realidade das materializações dos espíritos.

   Como se sabe, o Colégio de França é a mais alta expressão do ensino superior e os seus professores são dos mais ilustres: RenanMicheletClaude Bernard e Berthelot ocuparam ali as suas cátedras. Ainda hoje toda a Paris intelectual segue com interesse apaixonado os cursos ali ministrados pelos professores BergsonIzouletRévilleCamille Jullian, etc. O programa e o objectivo do Colégio de França é divulgar, tornar públicas as novas descobertas e os trabalhos efectuados recentemente em todas as esferas do saber humano.

   Assim, a conferência do Dr. Geley é um acontecimento importante, a consagração oficial dos nossos estudos e pesquisas.

  Mesmo aplaudindo francamente o movimento que encaminha os homens instruídos no estudo dos fenómenos psíquicos, não podemos afastar de nós certa preocupação quando reflectimos nas prevenções e nas repetidas rotinas que reinam em certos meios académicos, pois muitos sábios ainda querem impor a esse tipo de factos as mesmas regras dadas às combinações físicas e químicas.

   Todavia é um ponto de vista errado e cheio de consequências desastrosas considerar-se tais experiências como um terreno cujos elementos e forças se apresentam sempre idênticos e de maneira que possamos dispor deles à nossa vontade. Dessa forma nos expomos a pesquisas inúteis e resultados incoerentes.

   No campo psíquico as condições de experiência são absolutamente diferentes, pois ali tudo é incerto e mutável, sendo que os resultados, conforme a composição dos círculos e as influências reinantes, podem variar ao infinito. Os esforços dos psiquistas oficiais correriam o perigo de resultar estéreis se continuassem com pontos de vista tão pouco conformes à realidade.

   Devemos reconhecer que os sábios ingleses deram um vigoroso impulso ao Espiritismo no mundo. As qualidades de observação, os métodos prudentes e a perseverança de um Crookes, de um Russel Wallace, um Myers e um Lodge estão acima de qualquer elogio, porém o que é ainda mais notável é o valor moral que permitiu a esses homens eminentes enfrentarem durante 20 anos as perseguições das academias e das igrejas e, finalmente, obrigarem a opinião pública a inclinar-se diante dos seus trabalhos, aceitando-lhes as conclusões.

   Crookes, entre outros, nunca modificou a sua opinião sobre as aparições de Katie King e, apesar das insinuações de certos críticos mal-intencionados, escreveu e publicou, em diversas datas, cartas onde reproduz e até destaca as suas primeiras afirmativas.

   Entre outros sábios de outros países, que se ocuparam do psiquismo, não encontramos essas qualidades no mesmo grau de entusiasmo. Charles Richet, que é um espírito inteligente e franco, após comprovar inúmeras vezes os fenómenos que se davam nas sessões com Eusápia Paladino e ter assinado as actas que atestavam a sua realidade, declarava que a sua convicção, profunda no princípio, se enfraquecia, tornando-se instável algum tempo depois, sob a influência dos hábitos espirituais contraídos no meio que frequentava. Desde então, ele se tornou mais categórico a respeito dos fantasmas.

   Também Camille Flammarion teve as suas horas de vacilação e alguém nos fez notar que na última edição de seu livro As Forças Naturais Desconhecidas, aparecida em 1917, mostra uma tendência em explicar todos os fenómenos apenas pela exteriorização dos médiuns.

   Acreditamos que, quando publicar as investigações que realiza no momento acerca de factos da mesma ordem, recolhidos no correr da guerra, ele nos dará explicações mais completas e mais satisfatórias.

   Contamos, principalmente, com a nova geração de estudiosos para firmar o espiritualismo experimental na França. Sem os preconceitos das escolas e das rotinas seculares, os seus representantes compreenderão que, para triunfar nessa ordem de estudos é preciso que se esteja animado de imparcialidade, já não confundindo médiuns com histéricos, tendo um sentimento mais respeitoso para com os seres inteligentes que, embora invisíveis, interferem na produção dos fenómenos, merecendo as nossas considerações, às vezes mais até do que as pessoas humanas.

   O Dr. Geley e os seus colegas sabem que essas questões só devem ser tratadas com reflexão e respeito, considerando-se que o mundo invisível é um reservatório imenso de forças e inteligências que, conforme as nossas disposições, estarão connosco ou contra nós.

   O bem e o mal tanto se encontram no plano invisível como no visível. Eles se buscam e se atraem tanto num como noutro lado da morte e o único recurso para se conseguir fenómenos elevados, fazendo do Espiritismo uma ciência útil e um meio de progresso, é aproximarmo-nos desse domínio somente com um sentimento grave e nobre.

   A desenvoltura com que certos experimentadores fazem alarde diante dos espíritos tem como consequência afastar as entidades benfazejas e elevadas, capazes de trazerem um poderoso auxílio para as sessões. Em compensação atrai os vadios do Espaço, sempre dispostos a mistificarem, provocando até obsessões terríveis, como aquelas de que quase foi vítima o Dr. Paul Gibier, como nos descreve no seu livro Espiritismo ou Faquirismo Ocidental.

   A Ciência tem as suas manias e os velhos espíritas kardecistas ficam desnorteados com as denominações exóticas com que ela designa os nossos fenómenos. Nomes gregos como telecinesiacriptomnésiaectoplasmia e outros tantos semelhantes não lhes dizem nada que satisfaça.

   Porém, temos que nos submeter aos hábitos dos sábios que, a seu capricho, sempre mudaram os nomes dos factos novos, procedendo a classificações, às vezes arbitrárias, que a natureza não conhece. Afirmam que tais processos são necessários para introduzir um pouco de clareza nos estudos. Portanto devemos aceitá-los, mas não deixando de usar os termos que nos são familiares e que o tempo consagrou.

   Quaisquer que sejam os vocábulos e os processos adoptados, não se perca de vista que no nosso mundo, onde tudo é relativo, não se poderia atingir, em matéria alguma, o conhecimento integral e absoluto.

   É preciso experimentar com método e rigor, porém, por muito que se faça, não se poderá encerrar dentro das estreitas regras humanas a ciência do invisível, que sempre superará as nossas classificações, tanto como a grandeza do Céu infinito supera a Terra.

  No seu conjunto, o conhecimento do além só pertence aos que nele se encontram. Apesar disso podemos, pelo menos, receber dele as luzes necessárias para iluminar a nossa caminhada na Terra.

/…
(*) Le Merveilleux Spirite, de Lucien Roure.


LÉON DENIS, O Mundo Invisível e a Guerra, XVI O Espiritismo e a Ciência, Agosto de 1918, 31º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Tanque de guerra britânico capturado pelos Alemães, durante a Primeira Guerra Mundial)

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Da sombra do dogma à luz da razão ~


fonte do bem e do mal ~

  Sendo Deus o princípio de todas as coisas e sendo este princípio toda a sabedoria, toda a bondade, toda a justiça, tudo o que daí procede deve partilhar estes atributos, pois o que é infinitamente sábio, justo e bom, não pode produzir nada de insensato, mau e injusto. 

  O mal que observamos não pode portanto ter nele a sua origem.

  Se o mal fizesse parte das atribuições de um ser especial, quer lhe chamemos Arimane ou Satanás, das duas uma: ou esse ser seria igual a Deus e, por consequência, tão poderoso como ele e para toda a eternidade como ele, ou ser-lhe-ia inferior.

  No primeiro caso, haveria duas forças rivais lutando constantemente, procurando cada uma desfazer o que a outra fez e confrontando-se mutuamente. Esta hipótese é inconciliável com a unidade de concepção que se revela na ordenação do Universo.

  No segundo caso, sendo esse ente inferior a Deus, estar-lhe-ia subordinado; não podendo ter estado, como ele, por toda a eternidade sem lhe ser igual, teria tido um princípio; se tiver sido criado, só o pode ter sido por Deus; Deus teria assim criado o espírito do mal, o que seria a negação da infinita bondade. (Ver O Céu e Inferno, Capítulo IX, Os Demónios.)

  No entanto, o mal existe e tem uma causa.

  Os males de todos os géneros, físicos ou morais, que afligem a humanidade apresentam duas categorias que interessa distinguir: são os males que os homens podem evitar e os que são independentes da sua vontade. Entre estes últimos, temos de situar as calamidades naturais.

  O homem, cujas faculdades são limitadas, não pode penetrar nem abarcar a totalidade das ideias do Criador; avalia as coisas segundo a sua personalidade, os interesses fictícios e de convenção que imaginou e que não estão de maneira nenhuma na ordem da natureza; é por isso que, muitas vezes, acha mau e injusto o que acharia justo e admirável se lhe percebesse a causa, a finalidade e o resultado definitivo. Ao procurar a razão de ser e a utilidade de cada coisa, reconhecerá que tudo traz a marca da sabedoria infinita e inclinar-se-á perante essa sabedoria, mesmo para as coisas que não perceba.

  O homem recebeu em herança uma inteligência, com a ajuda da qual pode esconjurar ou, pelo menos, atenuar grandemente os efeitos de todos os flagelos naturais; quanto mais sabedoria adquire e mais avança em civilização, menos desastrosos são estes flagelos; com uma organização social sabiamente previdente poderia até neutralizar as consequências quando elas não possam ser totalmente evitadas. Assim, para esses mesmos flagelos que têm a sua utilidade na ordem geral da natureza e para o futuro, mas que ocorrem no presente, Deus deu ao homem, através das faculdades com que lhe dotou o espírito, os meios para lhe neutralizar os efeitos.

  É assim que saneia regiões insalubres, que anula os miasmas pestíferos, que fertiliza as terras incultas e se esforça por as preservar das inundações; que constrói habitações mais salubres, mais sólidas para resistirem aos ventos tão necessários à purificação da atmosfera, que se coloca ao abrigo das intempéries; é assim, enfim, que pouco a pouco a necessidade o fez criar as ciências com a ajuda das quais melhora as condições de habitabilidade do globo e aumenta o somatório do seu bem-estar.

  Devendo o homem progredir, os males a que está exposto são um estímulo para o exercício da sua inteligência, de todas as suas faculdades físicas e morais, incitando-o à procura de meios para os evitar. Se não tivesse nada a temer, nenhuma necessidade o levaria à busca do melhor; o seu espírito amoleceria na inactividade; não inventaria nada e não descobria nada. A dor é o aguilhão que empurra o homem para a frente na via do progresso.

  Mas os males numerosos são os que o homem cria com os seus próprios vícios, os que resultam do seu orgulho, do seu egoísmo, da sua ambição, da sua cupidez, dos seus excessos em todas as coisas: reside nisso o motivo das guerras e das calamidades que arrastam consigo, das dissensões, das injustiças, da opressão do fraco pelo forte; enfim, da maior parte das doenças.

  Deus estabeleceu leis plenas de sabedoria que só têm como objectivo o bem; o homem encontra em si mesmo o que lhe falta para as seguir; o seu caminho é traçado pela sua consciência; a lei divina está gravada no seu coração; e, além disso, Deus lembra-lhas constantemente através dos seus messias e dos seus profetas, de todos os Espíritos encarnados que receberam como missão esclarecê-lo, moralizá-lo, aperfeiçoá-lo e, nestes últimos tempos, através da quantidade de Espíritos não encarnados que se manifestam por todo o lado. Se o homem se conformasse rigorosamente com as leis divinas, não restam dúvidas de que evitaria os males mais pungentes e que viveria feliz na Terra. Se não o faz, é graças ao seu livre-arbítrio e sofre disso as consequências (O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo V, nºs 4, 5, 6 e segs.).

  Mas Deus, cheio de bondade, colocou o remédio ao lado do mal. Quer dizer que, o próprio mal, faz sair o bem. Chega uma altura em que o excesso de mal moral se torna intolerável e faz com que o homem sinta a necessidade de mudar de caminho; ensinado pela experiência, é levado a procurar remédio no bem, sempre como consequência do seu livre-arbítrio; quando entra num caminho melhor é por ser essa a sua vontade e porque reconheceu os inconvenientes do outro caminho. A necessidade obriga-o então a melhorar moralmente para ser mais feliz, tal como esta mesma necessidade o obrigou a melhorar as condições materiais da existência.

  Pode dizer-se que o mal é a ausência do bem, tal como o frio é a ausência do calor. O mal não é um atributo distinto, tal como o frio não é um fluido especial; um é a negação do outro. Onde o bem não existe, existe forçosamente o mal; não praticar o mal é já o começo do bem. Deus só quer o bem; só do homem vem o mal. Se houvesse na Criação um ser predisposto ao mal, nada o poderia evitar; mas tendo o homem a causa do mal EM SI MESMO e tendo ao mesmo tempo o seu livre-arbítrio e por guia as leis divinas, evitá-lo-á quando quiser.

  Tomemos um facto vulgar como comparação. Um proprietário sabe que, na extremidade do seu campo, existe um sítio perigoso onde se poderia ferir ou morrer quem ali se aventurasse. Que faz ele para evitar os acidentes? Coloca junto ao local um cartaz com a proibição de avançar mais por causa do perigo. Aí está a lei, que é sábia e previdente. Se, apesar disso, um imprudente não ligar e passar para lá e se lhe acontecer um acidente, a quem poderá culpar senão a si mesmo?

  Assim é com todo o mal; o homem evitá-lo-ia se observasse as leis divinas. Deus, por exemplo estabeleceu um limite à satisfação das necessidades; o homem é avisado pela saciedade; se ultrapassar esse limite, fá-lo voluntariamente. As doenças, as enfermidades, a morte que podem ser disso consequência são portanto resultado da sua imprevidência e não de Deus.

  Sendo o mal o resultado das imperfeições do homem e sendo o homem criado por Deus, Deus, dir-se-á, se não criou o mal, criou pelo menos a causa do mal; se tivesse feito o homem perfeito, o mal não existiria.

  Se o homem tivesse sido criado perfeito, seria fatalmente levado para o bem; ora, devido ao seu livre-arbítrio, não é fatalmente levado para o bem nem para o mal. Deus quis que fosse submetido à lei da evolução e que essa evolução fosse o fruto do seu próprio trabalho, para que o mérito fosse seu, assim como é responsável pelo mal que é resultado da sua vontade. A questão é então saber qual é, no homem, a fonte da propensão para o mal. (*)

(*) O erro consiste em pretender que a alma saiu perfeita das mãos do Criador, enquanto este, pelo contrário, quis que a perfeição fosse o resultado da purificação gradual do Espírito e sua própria obra. Deus quis que a alma, por virtude do seu livre-arbítrio, pudesse optar entre o bem e o mal e que chegasse aos seus fins últimos por via militante e resistindo ao mal. Se tivesse feito a alma perfeita como ele e se, ao sair das suas mãos, a tivesse associado à beatitude eterna, tê-la-ia feito não à sua imagem, mas igual a si mesmo. (Bonnamy, juiz de instrução, A Razão do Espiritismo, Capítulo VI). (N. do A.)

  Se estudarmos todas as paixões e até todos os víciosverificaremos que têm a sua origem no instinto de conservação. Este instinto está em toda a sua força nos animais e nos seres primitivos que se aproximam mais da animalidade; aí domina sozinho, porque neles não existe ainda como contrapeso o sentido moral; o ser ainda não nasceu para a vida intelectual. Pelo contrário, o instinto enfraquece à medida que a inteligência se desenvolve, porque esta domina a matéria.

  O destino do Espírito é a vida espiritual; mas, nas primeiras fases da sua existência corporal, existem unicamente necessidades materiais a satisfazer e, com este fim, o exercício das paixões é uma necessidade para a conservação da espécie e dos indivíduos, materialmente falando. Mas saído deste período, tem outras necessidades, primeiro semimorais e semimateriais, depois exclusivamente morais. É então que o Espírito domina a matéria; se lhe sacode o jugo, avança na sua via providencial e aproxima-se do seu destino final. Se, pelo contrário, se deixa dominar por ela, fica para trás, assemelhando-se à besta. Nesta situação, o que outrora era um bem, porque era uma necessidade da natureza, torna-se um mal, não só por não ser uma necessidade, mas porque isso se torna prejudicial à espiritualização do ser. Assim como o que é qualidade na criança passa a ser defeito no adulto. O mal é deste modo relativo e a responsabilidade proporcional ao grau de evolução.

  Todas as paixões têm portanto a sua utilidade providencial; sem isso, Deus teria feito qualquer coisa de inútil e prejudicial. É o abuso que constitui o mal e o homem abusa devido ao seu livre-arbítrio. Mais tarde, esclarecido pelo seu próprio interesse, escolhe livremente o bem e o mal.

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ALLAN KARDEC, A GÉNESE – Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo, Capítulo III, O Bem e o Mal – Fonte do bem e do mal (de 01 a 10), 19º fragmento da obra. Tradução portuguesa de Maria Manuel Tinoco, Editores Livros de Vida.
(imagem de contextualização: Diógenes e os pássaros de pedra, pintura em acrílico de Costa Brites)

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

o sentido da vida ~


Do Empirismo | à Ciência

Até ao aparecimento do Espiritismo em forma de doutrina filosófica, bem definida, apoiada num sistema científico de observação, de pesquisa e de experimentação, as questões relativas à sobrevivência do homem e ao seu destino no além-túmulo pertenciam exclusivamente ao empirismo. E nem se poderia esperar outra coisa, de um mundo que estava a sair inteirinho do empirismo, e que mal começara a trilhar, com Galileu, o terreno das ciências positivas. Se em medicina, até Claude Bernard, a clínica se fazia ao sabor de velhos tabus e sistemas quase instintivos, como se desejar que, em matéria muito mais subtil, difícil e complexa, como a ciência do espírito, pudessem os homens se ter adiantado mais rapidamente?

Espiritismo abriu a primeira picada no matagal cerrado das superstições, derrubando a golpes de bom senso, como diz o poeta leproso Jésus Gonçalves, os tabus do velho misticismo imponente, enclausurado nas igrejas dominantes. Graças a ele, ao formidável surto de fenómenos que se verificou por toda a parte, na ocasião do seu aparecimento – como os rubores do horizonte e a brisa matinal aparecem no momento de raiar o sol –, foi possível, embora com as maiores dificuldades, um rápido avanço nesse terreno. O ambiente, aliás, já estava preparado, através das lutas cada vez maiores e mais sérias contra a dominação clerical e as absurdas imposições de uma crença destituída de qualquer base racional. As igrejas estavam, na verdade, vacilantes nos seus alicerces seculares, incapazes de resistir à investida arrasadora do raciocínio científico, que parecia destinado a desnudar por completo as formas mumificadas da religião, mostrando-as ao povo na hediondez de sua esterilidade e do seu artificialismo de sarcófago.

Allan Kardeco bom senso encarnado, compreendeu prontamente o alcance da tarefa que os espíritos lhe depositavam nas mãos. Ele ia enfrentar o mundo, ia enfrentar todo o convencionalismo da época, desde os mais velhos sistemas da liturgia religiosa, até aos mais modernos princípios afoitamente proclamados pelo materialismo nascente. Cabia-lhe uma luta gigantesca, tinha ele de enfrentar, em campo raso, sem auxílio de uma única fortificação, o exército dos padres, dos cientistas, dos filósofos, dos jornalistas e escritores, dos intelectuais e dos crentes, o bombardeio dos púlpitos, das cátedras e das tribunas. Mas era preciso enfrentar a tarefa, não havia por onde fugir. Como Galileu, ele havia tocado fundo o mistério, sabia que as mesas giravam e sabia por que o faziam. Como Pasteur, ele tinha visto a acção física, discreta, concreta, dos agentes invisíveis. E contava, além disso, com o auxílio dos companheiros espirituais, sempre dispostos a ampará-lo e esclarecê-lo. Foi por isso que, sem nenhuma atitude espectacular de vidente ou predestinado, sem qualquer encenação oracular, o sereno professor de pedagogia iniciou o seu trabalho, na cidade de Paris, centro do mundo e da cultura, que ele transformaria, para escândalo dos judeus, como diria Paulo, no quartel-general do Espiritismo.

No seu pequeno livro O que é o Espiritismo, Kardec revela a natureza da doutrina e mostra-nos mais uma vez a firmeza e a serenidade de sua atitude, dizendo claramente que o Espiritismo não veio ao mundo para se transformar num sistema novo de religião ou se constituir numa nova igreja.

“O Espiritismo – diz ele – é ao mesmo tempo, ciência experimental e doutrina filosófica. Como ciência prática, tem a sua essência nas relações que se podem estabelecer com os espíritos. Como filosofia, compreende todas as consequências morais decorrentes dessas relações. Pode ser definido assim: O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos espíritos, bem como das suas relações com o mundo corporal.”

Assim definida a natureza da doutrina, Kardec reafirmava que não pretendia convertê-la numa escola religiosa. As religiões estavam ameaçadas e tinham o flanco descoberto. Que podiam elas opor aos ataques arrasadores do racionalismo a todos os seus dogmas, cânones e sacramentos? Como se desenvencilharem da acusação de que não eram outra coisa senão as antigas superstições tribais revestidas de aparatos modernos? O Espiritismo surgia como tábua de salvação para todas elas. Era o meio de que elas podiam se servir para justificar racionalmente os seus velhos princípios, e mais do que isso – maravilha! –, para o demonstrar cientificamente, objectivamente, experimentalmente, aos homens da era científica a existência da alma, a realidade demonstrável da sobrevivência. Demonstrado isso, estavam salvas as religiões. Provada a existência da vida depois da morte, quem se atreveria a negar a necessidade de um preparo do homem, nesta vida, para enfrentar depois os problemas da outra, quando se desenvencilhasse do corpo material?

Os homens de cultura desertavam dos templos. Apenas o povo, na sua simplicidade natural, continuava apegado, pelo coração, às velhas crenças. Mas esse mesmo povo começava a ser trabalhado profundamente por ideologias revolucionárias, que lhe ofereciam, em lugar de um paraíso depois da morte, outro paraíso, muito mais apetecível, nesta própria vida, aqui mesmo, na Terra. Para que os homens cultos voltassem aos templos, era necessário que a religião lhes oferecesse uma arma nova, com que pudessem justificar a sua crença diante da zombaria dos novos profetas da razão. Para que o povo não se desviasse, era preciso mostrar-lhe que o paraíso, no espaço ou na Terra, não se conquista por meros actos exteriores. Essas respostas – que as velhas religiões não possuíam – O Espiritismo trazia-as na palma da mão, como um anjo salvador.

Mas... Sim, havia um “mas”. Para que as religiões pudessem utilizar-se do Espiritismo, era também necessário que aceitassem uma modificação de atitude, em face dos problemas da razão. O Espiritismo nascia com características nitidamente racionais. As religiões eram ilógicas, irracionais, dogmáticas. Vacilaram, a princípio, mas terminaram, como a igreja judaica diante do Cristianismo nascente, recusando-se a mudar de atitude. E, por fim – ironia da ingratidão e do egoísmo humano! – quando o Espiritismo, por si só, independente de qualquer auxílio, levou de vencida os primeiros obstáculos, reuniu os primeiros sábios e obteve os primeiros êxitos, arredou de sua atitude negativista e agressiva os primeiros materialistas, as igrejas, já então, reforçadas pela evidência dos factos, que ele e só ele produzira, despejaram sobre ele os raios outrora fulminantes da sua maldição. Os espíritas, que haviam aberto a possibilidade de retorno dos homens, cientes e inscientes, ao recinto dos templos, foram corridos dali como os apóstolos das sinagogas foram expulsos como inimigos e hereges. E foi então, só então, diante da repulsa cada vez mais forte das religiões constituídas, que as consequências morais da doutrina, de que fala Kardec, começaram a levar os homens para um novo conceito de religião, para o terreno mais amplo e livre da religião espírita. Esta não é, propriamente uma religião, no sentido clássico do termo, que implicaria organização sacerdotal, sistema litúrgico e sacramental, mas é religião no sentido natural do termo, como norma espiritual de conduta humana.

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José Herculano Pires, O Sentido da Vida / Do Empirismo à Ciência 1 de 2, 11º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Platão e Aristóteles, pormenor d'A escola de Atenas de Rafael Sanzio, 1509)

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

~~~Párias em Redenção~~~


INFELIZ DESPERTAR NO ALÉM
(II)

   Enquanto o suor lhe escorria pelas mãos álgidas, pela face e por todo o corpo, ao colocar a corda de nó corrediço no pescoço enlanguescido, com as artérias intumescidas a se arrebentarem nas têmporas, sob o guante odiento dos sicários implacáveis que o dominavam do Além-túmulo, não podia Girólamo ver nem sentir a turba exaltada de Espíritos infelizes que o seguiam em desordem e vandalismo hediondo, ávidos para se atirarem, tão logo fossem violentados os liames da vida carnal, sobre a energia em desassociação nos despojos, quais abutres ou chacais que apenas aguardam a morte do animal para roubar-lhe as expressões cadavéricas.

  A situação ali não diferia muito. Espíritos em deformações apavorantes, transformados em vampiros sugadores do fluido vital, em estado de incontinente volúpia, amedrontados ante a possibilidade de perderem a presa fácil, açulavam o enfermo e transmitiam-lhe ideias desconexas e deprimentes, a fim de o tomarem nas mãos.

  Desse modo, logo o corpo se projectou no espaço e a constrição da corda impediu a circulação sanguínea, através dos condutos arteriais, o espírito passou a experimentar imensurável asfixia, que lhe chegava dos estertores orgânicos, e enquanto se debatia no desespero de libertar-se da corda assassina, o suicida sentia já o efeito medonho do crime que acabara de perpetrar. Era como alguém que estivesse metido em roupa de ferro que possuísse a faculdade de encolher, estraçalhando rítmica, inexoravelmente o corpo entanguido, dentro de dimensões cada vez menores.

  A impossibilidade de expulsar o gás carbónico dos pulmões e a ausência do ar que lhe accionasse o aparelho respiratório produziam uma sensação animal de angústia, como se fosse explodir numa imensa agonia que, a partir de então, não chegaria ao fim, não se consumaria…

  A voz estrangulada na garganta, cujo pescoço estava quebrado; os olhos abertos, sem qualquer visão; a dor na região precordial, como se estivesse com um punhal transpassado, dilacerante; os músculos repuxados, a se deslocarem dos invólucros, e os ossos desconjuntando-se, somavam descomunal intensidade de dor, que o suicida não pôde suportar, sendo vencido, na superlativa desdita, por um vagado, no qual perdeu a consciência de si e de tudo.

  Logo depois, despertou, encontrando-se na mesma situação de angústia.

  Sucederam-se os intérminos desmaios, sempre despertado de cada um deles sob o guante do crescente horror, num mundo espectral de sombras espessas e de frio indescritível, que martelava nos ossos, parecendo laminas finas e aguçadas a cortarem cada tecido, cada fibra, cada órgão já agora em desconserto total.

  Cessada a irrigação do cérebro pelo oxigénio que o mantém vivo, começaram a morrer as células encarregadas do milagre da vida nos sentidos físicos e psíquicos.

  Os plexos, violentamente agredidos, arrebataram-se e, parecendo flores que desabrochassem intempestivamente, deixando escorrer inexorável o perfume, perdendo o pólen e a seiva, despejando as energias vitais de que se faziam depositários, atraindo a horda de vândalos espirituais, que se atiravam vorazes, vampirizadores, desesperados, sugando-as em inimaginável ferocidade.

  Lobos esfaimados arrojando-se uns sobre os outros, disputando o maior quinhão, a quantidade mais expressiva, enquanto as amarras perispirituais resistiam ao impacto do esfacelamento da vida física, sem desligar o espírito dos fortes vínculos com o corpo.

  As funções físicas e mentais ficaram lamentavelmente interrompidas, avindo a morte da vida orgânica, nunca, porém, o desligamento espiritual, a libertação do criminoso, que acompanharia, doravante, a desassociação celular ergastulado no castelo de carne que desrespeitou: presídio, látego, túmulo a que se fixaria por longo período…

  Nos sucessivos delíquios de que era vítima, o suicida não se apercebia do que se tratava.

  Turbilhonavam na mente avassalada pelo estupor crescente da loucura, na qual não se apagara de todo a consciência, o desejo de morrer, que lhe armara as mãos com o, laço criminoso, e a voragem do bailado macabro, em visões tormentosas, num crescendo aterrador, com dores superlativas.

  Naquele martelar das impressões em atropelo sucessivo, supunha que se houvesse arrebentado a corda, não obstante as dores da contrição no pescoço e a asfixia… O sonhado esquecimento, que é o grande, o enorme engodo, não chegava. Rebolcava-se, todavia pendendo no laço, sofrendo o enforcar sem limite, que não atingia o fim.

  Sob o impacto de tanto terror, não sentiu nem se apercebeu das ocorrências que tumultuaram o solar, o desespero da esposa, a infrene gritaria dos servos amedrontados, na noite tempestuosa, nem o ofício fúnebre, absolutamente inócuo, que era celebrado em memória do seu espírito, mas que não significava senão vã homenagem que se prestava aos despojos carnais em natural decomposição orgânica.

  As exéquias, de tanto agrado dos orgulhosos, em hipótese alguma atingem os objectivos a que parecem propor-se. Realizadas na frieza litúrgica escrava do ritualismo chão, sem os vigorosos liames da comunhão pelo amor, não vibram em harmonia com os Planos Divinos da vida, constituindo antes presunção humana, que pretende, desse modo, subornar a Consciência Divina, numa aberrante invasão dos domínios superiores, como a querer modificar a estrutura da Justiça. Sob o amparo dos tesouros terrenos, que são os promotores das festas de homenagem fúnebre, os cantochãos e ofício remunerados não produzem qualquer benefício em relação ao espírito desencarnado, vinculadas essas manifestações pura e simplesmente às exterioridades mortais…

  A chusma de desencarnados em opressiva condição de miséria interior, vândalos e escravos dos fluidos materiais, acompanhou o esquife à urna em que foi depositado na capela da família, prosseguindo na sucção das energias que se exteriorizavam pelo rompimento intempestivo do vaso carnal.

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VICTOR HUGO, Espírito “PÁRIAS EM REDENÇÃO” – LIVRO SEGUNDO, 1. INFELIZ DESPERTAR NO ALÉM (2 de 3), 35º fragmento desta obra. Texto mediúnico, ditado a DIVALDO PEREIRA FRANCO.
(imagem de contextualização: L’âme de la forêt | 1898, tempera e folha de ouro sobre painel de Edgard Maxence)

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

O Génio Céltico e o Mundo Invisível ~


Capítulo X

Considerações Políticas e Sociais. O papel da Mulher. A influência Céltica. As Artes. A Liberdade e o livre-arbítrio ~
(I de II)

   No início desta obra esboçámos, por alto, a organização da Gália. Sublinhámos as usurpações da aristocracia, a divisão dos chefes, a rivalidade das tribos, as diversas causas que a levaram à perda da independência.

   Os druidas, como já descrevemos, viviam distantes das cidades ruidosas, nos santuários da natureza, e tinham, por isso mesmo, mais facilidade em entrar em relação com o mundo oculto e dele receber inspirações. Esse facto é que os fazia dizer que não são as coisas visíveis que nos conduzem, mas, de preferência, as coisas invisíveis. É devido a isso que eles pesquisavam o invisível e se afastavam, às vezes, do mundo real e das contingências humanas. A sua influência nem sempre era suficiente para comprimir a impetuosidade das paixões reinantes nessa raça gaulesa, jovem, ardente, sem experiência, arrebatada pelo excesso de sua vitalidade.

   A liberdade e o direito eleitoral eram, portanto, as próprias bases da ordem social, mas os chefes eleitos estavam cercados por um grupo de homens armados, cavaleiros, escudeiros, que estavam presos à sua sorte, e se os seus chefes fossem mortos, morriam com eles. Graças a essa força, a aristocracia desempenhava uma autoridade que degenerava, às vezes, em opressão sobre as classes populares. Vimos, anteriormente, como a discórdia e a indisciplina provocaram a queda da Gália, e não voltaremos ao assunto. Resta-nos, agora, falar da mulher e do seu papel social, que era grande.

   A mulher era honrada e respeitada entre os gauleses; considerada como igual ao homem, ela podia escolher o seu esposo e gozava da metade dos bens comuns. A educação das crianças lhe era confiada até que atingissem a idade militar. Às vezes, encarregada de funções oficiais, a mulher trabalhava na diplomacia e conseguia resolver problemas árduos, controlar conflitos graves, como a história relata com destaque.

   A sua castidade igualava à sua coragem; sabe-se, também, que as mulheres gaulesas não hesitaram em morrer, depois da derrota dos “kymris” em Pourrières, a fim de não caírem nas mãos dos soldados de Mário e se tornarem vítimas dos seus excessos.

   Mas o que dava a medida real do respeito que cercava a mulher na Gália era a parte que lhe estava reservada no sacerdócio. As druidisas realizavam oráculos e presidiam às cerimónias do culto. Enquanto que outra religião, pelo dogma do pecado original, denegriu a mulher durante séculos, tornando-a responsável pela decadência do género humano, os druidas viam nela os seus dons de adivinhação e a faziam intérprete natural do mundo dos espíritos. (ii)

   As ilhas do oceano (Atlântico) possuíam vários santuários onde se praticava a evocação dos mortos.

   Foram necessários longos séculos para reabilitar a mulher e devolver-lhe o seu papel predestinado; Jeanne d’Arc e muitas outras ilustres inspiradas foram levadas à fogueira por terem recebido os dons do céu. Coube ao espiritualismo moderno reconhecer as faculdades psíquicas da mulher e, apesar de certos abusos inerentes às coisas humanas, a missão que ela pode realizar na parte experimental e nas revelações do mundo invisível.

   Seria pueril restringir a influência céltica aos limites dos territórios habitados pelos homens dessa raça. A questão das fronteiras aqui não interessa, pois que se trata da irradiação de um grande pensamento através do mundo sob formas diversas, de uma colaboração eficiente para a obra geral da civilização e do progresso.

   Antes de tudo, é uma doutrina poderosa, susceptível de regenerar toda a Filosofia, resolvendo os problemas difíceis da vida e da morte e abrindo à alma as perspectivas de um futuro sem limites. Mas o génio céltico se manifesta também nas formas de arte, sobretudo na poesia e na música. Neste último campo, os estrangeiros, principalmente os alemães, lhe tomaram numerosos empréstimos, como estabeleceu o Sr. Le Goffic.

   A música gaulesa exprime um sentimento profundo da natureza. Ela é assinalada por uma melancolia penetrante que lhe dá uma originalidade, um sabor particular. Quanto à poesia, deve consultar-se a obra volumosa do Sr. H.de la Villemarqué, (iii) para se atestar de sua riqueza e de sua variedade. Actualmente, surge além da Mancha um florescimento da arte céltica, que tem as suas repercussões no continente.

   Na poesia, os gauleses parecem ter sido os inventores da rima, tendo por base os testemunhos irlandeses. Os seus cantos de guerra e de amor estão marcados por uma grandeza viril.

   Bosc e Bonnemère, na sua Histoire des Gaulois, enumeram as obras teatrais e líricas que lhes devem ser atribuídas. As suas cerâmicas, as suas armas, as suas bijuterias constituem-lhe uma arte verdadeira. A prova disso foi verificada nos resultados das escavações e pesquisas feitas nos dolmens e túmulos funerários, que revelaram um grande número de objectos de trabalho delicado.

   Quando se quiser verificar da participação do Celtismo em tudo o que ilustrou a Inglaterra, tanto no domínio do pensamento como no da aplicação, ver-se-á, com surpresa, a importância das contribuições vindas dessa parte. Entre os ingleses célebres, muitos foram influenciados. Assegura-se que um dos seus maiores génios, Shakespeare, foi fortemente impregnado pelo Celtismo, tendo nascido e vivido longo período de tempo em Stratford on Avon, isto é, nos confins da Cambria (País de Gales).

   Se, apesar de todas as opressões e perseguições sofridas, o génio céltico pôde expandir-se em tantas obras importantes e graciosas, o que não se deve esperar dele quando, tendo recuperado a sua plena independência, puder dar livre impulso às suas esperanças e aos seus sonhos?

   A maior glória do Celtismo será, após ter guardado silenciosamente, durante séculos, o contacto com o mundo invisível, a de revelar, para as nossas sociedades decadentes, a existência desse imenso reservatório de força e de vida que nos cerca e os meios de nele se abeberar com sabedoria e ponderação. Pois que somente quando se tornarem comuns os recursos e as potências dos dois mundos, a visível e a invisível, é que se abrirá uma nova era, e uma civilização superior e mais bela brilhará para a humanidade!

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(ii) Ver sobre este assunto os atestados de Tácito, Diodoro de Sicília, Pomponius Méla, Estrabão, Aristóteles, etc., citados por Jean Reynaud (i) na sua obra L’Esprit de la Gaule(*)
(*) Ver também a obra magistral de J. Markale (i), La Femme Celte. (N.T.)
(iii) Barzaz-Breiz, Chants Populaires de la Bretagne, Editor Perrin.



LÉON DENIS, O Génio Céltico e o Mundo Invisível, Segunda Parte – Capítulo X Considerações Políticas e Sociais. O papel da Mulher. A influência Céltica. As Artes. A Liberdade e o livre-arbítrio (I de II), 32º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: A Apoteose dos heróis franceses que morreram pelo seu pais durante a guerra da liberdade; Ossian, Desaix, Kléber, Marceau, Hoche, Championnet, pintura de Anne-Luis Girodet-Trioson)

domingo, 2 de setembro de 2018

o grande desconhecido ~


relações mediúnicas | naturais

O medo da morte é natural, pois o instinto de conservação dos seres é a própria garantia da sua manutenção e sobrevivência. Todo o ser é o que é e quer continuar como é. Todas as coisas estão sujeitas a essa lei de inércia, que garante a estabilidade e a instabilidade das coisas, no fluxo eterno da realidade mutável. Mas, desde a selva, o homem sabe que sobrevive à morte e essa certeza íntima o livra do desespero e o conduz à aceitação e, até mesmo, ao desejo da morte, quando a vida se lhe torna pesada. O medo da morte, gerou o medo dos mortos e o culto dos mortos, convertidos em deuses misteriosos ao deixar o corpo carnal. Os deuses são de duas espécies: bons e maus. Os bons protegem-nos, mas os maus têm mais poder do que os bons donde, convém, mantermos relações amistosas com eles.

Dessa situação ambivalente do homem frente à morte, nasceram os rituais da morte e o culto dos manes ou deuses familiais. Egípcios e sumerianos, árabes e indianos, judeus e fenícios, gregos e romanos, todos possuíam os seus deuses domésticos e os adoravam e temiam. As religiões organizadas exploraram essa situação, ao máximo e, desenvolveram ao máximo o medo da morte nos povos. Podemos medir o poder de uma religião pela capacidade apavorante dos seus rituais mortuários. Essa exploração serviu como freio para a crueldade dos povos bárbaros, mas deixou em todos nós a marca invisível de Caim. Aprendemos a matar Abel e a temê-lo, pois sabemos que ele sobrevive como um deus que nos pode ferir. É tão forte essa marca no nosso espírito que ainda hoje, nos povos mais adiantados, há pessoas sábias e ilustradas que temem violar o segredo da morte. Os mortos não sobrevivem como seres humanos, mas como seres fantásticos num mundo de mistérios. Por isso, as pesquisas metapsíquica de Richet provocando materializações de espíritos apavoravam a cultura europeia, já assustada com o atrevimento de Kardec, que não temia conversar com os mortos. Um dos maiores escritores alemães, assistindo a um desses fenómenos, declarou assustado: “É uma profanação dos mistérios da morte!” E o próprio Richet, só no fim da vida escreveu a Cairbar SchutelMors janua vita, ou seja: A morte é a porta da vida. Imunda para os judeus, sagrada para os egípcios, a morte revestiu-se de todas as contradições no Cristianismo e o choro venal das carpideiras antigas transformou-se nas recomendações pagas do sacerdócio, com o lamento de bronze dos sinos e as litanias chorosas dos cultos mortuários. As comunicações mediúnicas dos mortos, conhecidas desde a selva até às mais avançadas civilizações, perderam a naturalidade primitiva para se transformarem nas vozes soturnas que vinham do Além, em reuniões de sabat ou através de evocações dramáticas ou trágicas, no tom assustador das tragédias de Shakespeare, pelas megeras da linhagem da Pitonisa de Endor. Estabeleceu-se a mais rígida separação entre os mortos e os vivos, o que deu a muitos mortos, mais vivos que os vivos, a oportunidade de se apresentarem como demónios em manifestações de ectoplasmia, em que o cheiro de ozónio se transformou no cheiro de enxofre do Diabo. “Não perturbem os mortos!” – pregavam os padres nos púlpitos, enquanto nas próprias igrejas, conventos e mosteiros, como em toda a parte, os mortos viviam perturbando os vivos.

Kardec, mais paciente que Jó, expôs-se a todas as maldições e zombarias para mostrar que essa interpretação fantástica não era só absurda e contrária a toda a realidade, mas também ofensiva para os seres humanos que haviam morrido e ressuscitado, como o Cristo ensinara e exemplificara. Foi dura e tenaz a sua luta para restabelecer a verdade sobre a morte. Negaram-lhe tudo: o reconhecimento da sua posição cultural, o seu valor intelectual e científico, a sua sinceridade e os seus propósitos elevados, e a sua condição de precursor e iniciador da Psicologia Experimental, da descoberta do inconsciente e da catarse psicológica, das instâncias da personalidade, dos arquétipos individuais e colectivos, de iniciador das pesquisas psíquicas de profundidade, descobridor do sentido oculto dos sonhos, da telepatia ou, como ele a chamou, da Telegrafia Humana, da percepção extra-sensorial e descobridor das leis de todos esses fenómenos e da cura dos processos obsessivos que ainda hoje aturde e desanima os mais eminentes psicanalistas e psiquiatras. Tudo isso lhe negaram para reduzi-lo a um charlatão interesseiro, no resguardo dos interesses profissionais de sacerdotes e médicos gananciosos.

Só uma coisa interessava para Kardec: revelar a verdade sobre a natureza e o destino do homem, provar cientificamente a sua sobrevivência natural, como o Cristo ensinara e provara. Para isso esgotou-se em trabalhos excessivos, deixando em apenas quinze anos de lutas, a bibliografia espírita fundamental de vinte volumes, de quatrocentas páginas em média. Ele foi também o precursor da Era Cósmica, das comunicações telepáticas através do espaço cósmico, da teoria da pluralidade dos mundos habitados, da classificação dos mundos estelares segundo a sua constituição física e do grau de desenvolvimento de suas populações. Certos Espíritos lhe falavam de mundos habitados, de civilizações inferiores e superiores à nossa. Ele os interrogava, discutia com eles para avaliar a capacidade intelectual e a pureza espiritual desses informantes. Aceitou as informações como possíveis, mas não as incluiu na doutrina como verdadeiras, pois lhes faltavam as provas objectivas, que só no futuro poderiam ser obtidas. A teoria, como tal, já estava integrada na doutrina, mas as informações específicas sobre cada um deles não podia figurar como princípio. Na Escala dos Mundos, que figura n’O Livro dos Espíritos, explica os tipos de mundos com base nas várias teorias da evolução da Terra. Serviu-se dos seus conhecimentos geológicos e astronómicos para essa operação lógica. O famoso astrónomo Camille Flammarion era médium psicógrafo e trabalhava com ele em reuniões mediúnicas da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Flammarion escreveu um volume sobre A Pluralidade dos Mundos Habitados. As indicações que alguns Espíritos deram a Kardec, sobre a rotação da Lua estavam erradas, o que só foi verificado mais tarde. Na época, esse problema não estava solucionado e não havia nenhuma teoria lógica a respeito. Kardec publicou a informação com reservas, na simples condição de teoria. Fez o mesmo com relação a Marte e Júpiter. As informações sobre Júpiter foram dadas por Mozarth e pelo grande ceramista do Século XVII, Bernard Pallissy. O dramaturgo Victorien Sardou recebeu vários desenhos psicográficos sobre aspectos de Júpiter, que seria o mundo mais elevado do nosso Sistema Solar. Os desenhos foram publicados, com reservas.

É curioso notar que esse roteiro de pesquisas cósmicas foi precisamente o seguido pelas pesquisas astronáuticas actuais: Lua, Marte e Júpiter, os três corpos celestes que figuraram nas primeiras pesquisas actuais. Quanto a Marte as informações recebidas por Kardec foram comprovadas actualmente, com excepção apenas quanto à sua população, que os Espíritos disseram ser primitiva. Júpiter que os Espíritos consideraram como um mundo de matéria bastante rarefeita, a tal ponto que os corpos dos seus habitantes se assemelham ao nosso corpo espiritual ou perispírito, ou corpo bioplásmico descoberto pelas actuais pesquisas russas na Universidade de Kirov. As sondas espaciais soviéticas e norte-americanas dirigidas a Júpiter confirmaram a natureza mais energética do que massiva desse planeta, o maior do nosso Sistema.

Kardec delimitou a Ciência Espírita ao estudo e pesquisa da vida espiritual e das relações dos espíritos com os homens. Ao tratar da pluralidade dos mundos ele apenas atendia a um interesse lógico da doutrina, mas sempre aguardando o resultado conseguido pelas Ciências especializadas. O Espiritismo, como mundividência, concepção geral do Universo, interessa-se por todos os problemas da realidade cósmica, mas não faz afirmações temerárias sobre questões que dependem de pesquisas das ciências específicas.

Entra nesse problema uma questão não apenas de critério lógico, mas também de conhecimento das possibilidades humanas no estágio evolutivo em que nos encontramos. Os instrumentos da pesquisa espírita, como dizia Kardec, são os médiuns, instrumentos de extrema sensibilidade e complexidade. Todos os médiuns estão sujeitos a interferências anímicas nas comunicações que transmitem. A alma do médium (que é o seu espírito) pode interferir com as suas informações pessoais, sem o perceber. Por isso Kardec sempre aconselhou o exame atento das comunicações recebidas, com rejeição de todas as que pudessem ser consideradas suspeitas. Numerosos médiuns, desde antes ainda de Kardec, fizeram comunicações sobre outros mundos, que não passavam de fantasias facilmente reconhecíveis. Essas fantasias, como as recentes, de Ramatis, muito divulgadas no Brasil, são sempre consideradas como mistificações. Entretanto, as interferências anímicas não constituem mistificação, uma vez que são elaborações conscientes, com o fim de enganar. A segurança da comunicação mediúnica depende do controlo dos pesquisadores e particularmente da sua experiência na prática mediúnica. Muitas comunicações que Kardec considerava como válidas, do seu ponto de vista pessoal, ele as divulgou sob reserva, por falta de comprovações objectivas. Essa cautela, ele a transformou em regra doutrinária. O critério kardeciano mostrou-se seguro através de mais de um século de experiências e os que não o adoptaram caíram sempre em situações ridículas, muitas vezes afectando o próprio conceito da doutrina, perante os que não conhecem o problema.

A naturalidade das comunicações mediúnicas, e portanto das relações entre os espíritos e os homens, ressalta dessas pesquisas de Kardec. Não há o medo dos mortos influirem na aceitação, de maneira supersticiosa, nessas relações. Os Espíritos são considerados como criaturas humanas naturais, apenas desprovidas dos seus corpos carnais. Simplesmente trocaram de roupas ao viajar para outra dimensão da realidade, que escapa aos nossos sentidos físicos. A morte, transforma-se na páscoa da ressurreição, pois a palavra páscoa, derivada do hebraico, quer dizer passagem. O espírito não se reveste da carne, mas da matéria fluídica do perispírito. Kardec assinalou que essa matéria fluídica é semimaterial, ou seja, constituída de elementos espirituais e materiais em mistura. A descoberta da antimatéria e do corpo bioplásmico vieram sanar as dúvidas dos sábios a respeito. As pesquisas da Universidade de Kirov, na URSS, levaram os cientistas à comprovação de que o corpo bioplásmico é constituído por um plasma físico, ou seja, um elemento que William Crookes descobriu no século passado e chamou de matéria radiante, considerando-o como o quarto estado da matéria. Os elementos espirituais mesclam-se nesse plasma, constituído de partículas atómicas livres (não ligadas à estrutura de nenhum átomo) formando assim a semi-matéria do perispírito, que estabelece a ligação entre o espírito e o corpo material. O facto de a antimatéria, ao contrário do que pensavam os físicos até há pouco tempo, não estar separada da matéria, mas entranhada nela, explica a constituição semi-material do chamado corpo espiritual. A imagem da crisálida que se livra do casulo para abrir as asas e librar-se no ar, em forma de borboleta, tantas vezes aplicada à morte, confirma a sua validade nessa importantíssima descoberta científica do nosso tempo.

Espiritismo provou que a transformação produzida pela morte não afecta o espírito. E como a personalidade é o espírito e não o corpo, a identificação dos espíritos dos mortos torna-se fácil para os que os conheceram em vida. Através de médiuns flexíveis os espíritos conversam connosco com toda a naturalidade, tirando-nos a falsa ideia de que se tornaram estranhos ou se metamorfosearam em entidades sobrenaturais. Nas sessões de voz-directa, sem usar o médium como instrumento, servindo-se apenas da sua ectoplasmia, essas conversações despertam-nos a compreensão da vida num sentido que nem os místicos e videntes conseguem obter, por continuarem apegados à ideia falsa do sagrado ou do demoníaco, ambos deformantes da realidade física e da realidade espiritual. As igrejas e as ordens ocultistas – necessárias nas fases anteriores da evolução humana – hoje já não podem corresponder às exigências espirituais do mundo. Os seus rituais, os seus dogmas, os seus signos e aparatos já não impressionam a ninguém. E na proporção em que as ciências avançam nas suas pesquisas, a cultura se amplia atingindo a unidade do Conhecimento, bênçãos e maldições, sacramentos e rezas, todo o formalismo aparatoso dos cultos, os segredos guardados a sete chaves e a pompa grotesca e não raro forçada, dos clérigos e mandatários divinos, guardiões da Arca Sagrada e dos mistérios de Isis, aparecem aos olhos do povo como encenações e adereço teatral.

Estamos no fim do mundo da trapaça, dos malabarismos impressionantes, das sugestões hipnóticas, da falsa importância e do falso poder dos que se dizem ministros de Deus ou gurus e ioguis detentores de poderes sobrenaturais. Caem as máscaras da hipocrisia na moral e na religião. O homem emancipa-se e reconhece a sua condição humana com destino transcendente, mas de uma transcendência que não depende de sagrações, unções, ordenações de natureza secreta. Os poderes do homem não são sobrenaturais, estão nele mesmo, no seu íntimo, fazendo-o superar o comum, transcender a condição geral através do desenvolvimento natural das suas potencialidades morais e intelecto-afectivas, volitivas e cognitivas. Fora disso, tudo são balelas de um passado agonizante e ridículo. Vai longe o tempo em que o Cardeal de Richelieu podia traçar um círculo imaginário à sua volta, usando o seu misterioso latinório, para que os adversários não o agredissem.

Por isso, o Espiritismo só admite, no seu aspecto religioso, ligado à Ciência e à Filosofia, portanto à Razão, a prática da prece e do recolhimento no seu culto, a persuasão e o esclarecimento em lugar dos exorcismos pagãos, e só reconhece uma autoridade espiritual no trato com os espíritos: a autoridade moral. Fora disso, não há títulos nem fórmulas sacramentais, nem rezas especiais, nem símbolos religiosos que possam livrar uma criatura perturbada por espíritos inferiores que a assediam.

Entre os rabinos de barbas untadas de óleo aromático e envoltos nas suas vestes sagradas e os romanos de barba raspada, marcados pelos signos de César, Jesus de Nazaré preferiu a túnica de estamenha dos carpinteiros humildes. As quinquilharias sagradas e as insígnias oficiais, nada representam para os Espíritos, que já não vivem no mundo fantasioso dos homens, mas no seu próprio mundo. Libertos do corpo material, eles guardam por algum tempo, os costumes e hábitos, os falsos conceitos e a estreita visão das coisas que levaram da Terra. Mas pouco a pouco, nos choques inevitáveis da sua conduta terrena com o novo mundo em que se encontram, vão sendo obrigados a adaptações renovadoras. Os antigos hebreus, como nos ensina Matim Burbe, consideravam o plano espiritual mais próximo da crosta terrena como o mundo da ilusão. Nesse mundo, aparentemente semelhante ao nosso, mas com muitas condições diferentes, os espíritos mais apegados à vida material, ali conservam as suas velhas ilusões, o mais que podiam, mas a realidade nova se impõe a cada momento e eles acabam percebendo que as vibrações morais são mais poderosas do que as tradições humanas. A autoridade moral não decorre de títulos e posições, mas do poder natural do espírito equilibrado.

As relações desses espíritos com os homens são naturais, pois os homens são espíritos e por toda a parte os espíritos se comunicam uns com os outros. Essa naturalidade se acentua quando sabemos que esses espíritos estão no mesmo plano em que estamos, são nossos vizinhos dimensionais e convivem connosco. Desde as selvas, por toda a Antiguidade, sabemos que estamos divididos dos espíritos dos mortos por uma ténue barreira, só um dos véus de Isis, de maneira que eles se misturam a nós e interferem nos nossos pensamentos e sentimentos, muitas vezes a nosso pedido. Kardec demonstrou isso de maneira absoluta e a Parapsicologia actual, sancionou com novos métodos de pesquisa, essa realidade em toda a sua extensão. A telepatia é uma realidade social, permanente nas relações humanas e nas relações do intermúndio. Todos nós falamos constantemente com os espíritos que vivem à nossa volta, e não raro de maneira consciente. O trânsito permanente entre os dois mundos, o dos homens e o dos espíritos, processa-se a todo o momento. Os que morrem no aquém vão para o além, os que nascem no aquém procedem do além. Nessa convivência multimilenar, o medo dos mortos é um contra-senso, que só os preconceitos religiosos e materialistas podem justificar. Falar em profanação da morte, violação do mistério e coisas semelhantes é simples absurdo, perante essa realidade das interrelações milenares entre os homens e os espíritos.

As provas acumuladas a respeito, nas sociedades de pesquisas psíquicas, nos anais da Metapsíquica e na vasta literatura de pesquisa séria, em obras publicadas por cientistas eminentes do século passado e do nosso século, todas elas actualmente comprovadas pelas pesquisas recentes, não deixam margem alguma para dúvidas. As exigências científicas nesse campo, foram todas cobertas por pesquisas rigorosas, realizadas por figuras exponenciais das Ciências. Mas, a menor dúvida levantada, anulava os esforços realizados e os seus inegáveis resultados. Os métodos de pesquisa sob controlo estatístico, na Parapsicologia actual, – postos também em dúvida – acabaram vencendo a teimosia dos cientistas alérgicos ao futuro (segundo a expressão de Remy Chauvin) e a aceitação inevitável da realidade, implicou nesta temática as áreas ideologicamente materialistas da URSS e outras de sua órbita. O que mais podem querer os negadores? Que os levemos a uma assembleia do mundo dos espíritos? Isso não nos compete, mas à morte, que fatalmente os levará para esse mundo, sem os convidar, nem lhes pedir licença.

O caso dos agéneres, são a comprovação objectiva da realidade dessas relações mediúnicas naturais. O agénere (não gerado) é uma espécie de materialização espontânea, sem reunião especial, sem médiuns presentes, em pleno dia, nas ruas e praças, a céu-aberto, em que uma pessoa falecida encontra um amigo, ou um parente, abraça-o, conversa com ele e despede-se naturalmente. Os casos comprovados são numerosos. Assim, o direito espírita de tratar desses assuntos, que as igrejas se reservam a si mesmas e negam ao Espiritismo, é um direito natural, decorrente da própria condição humana e comprovada pelas manifestações espontâneas, em todos os tempos e em todas as latitudes geológicas e históricas do nosso planeta.

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José Herculano Pires, Curso dinâmico de Espiritismo, XI – Relações mediúnicas naturais, 11º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Somos as aves de fogo por sobre os campos celestes, pintura em acrílico de Costa Brites)

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Deus na Natureza ~


A Vida ~ Circulação da Matéria ~
(III)

  Se não houvesse em nós uma força directora, como explicar a formação e a sustentada construção do corpo, nos moldes do tipo orgânico, do berço ao túmulo? Porquê, depois dos 20 anos, esse corpo que absorve tanto ar e tanto alimento, como até então, pára de crescer?

  Quem lhe distribui harmonicamente todas as substâncias assimiladas? Depois do crescimento em altura, quem lhe limita a espessura? Quem dá força ao homem maduro, quem repara continuadamente as peças da máquina animada?

  Sem admitir uma força orgânica, típica, vital (não nos atenhamos à palavra), como explicar a construção do corpo? O Sr. Scheffer diz que são as forças física e químicas. “Cada qual – diz ele – exerce sobre as outras uma influência que dá ao organismo, em todas as suas peças, uma certa uniformidade de ordem mais elevada. As acções especiais das forças individuais se conjugam, a seguir, num efeito total e formam uma resistência coordenadora da multiplicidade das partes num todo unitário, em que se desenha o tipo fundamental de toda a propriedade individual.” Eis o que se pode chamar uma explicação luminosa. Somente resta explicar como se produziriam todas essas maravilhosas combinações, à revelia de uma unidade virtual, organizadora. Quem constrói esse organismo? Como podem as propriedades da matéria operar sobre um plano, em conformidade com uma ideia que, por si, não podem ter? Como sabe o organismo, tão seguramente, escolher os alimentos que lhe convêm? Quem determina a reprodução fiel da espécie? É, portanto, mais fácil admitir todos os acasos, como diz Tissot, do que supor um princípio essencialmente activo, dotado de potência organizadora e com faculdades de exercê-la no sentido de tal ou tal tipo específico? “No homem, respondem, no seu conteúdo material e nas substituições de substância que nele se operam, a função química tem o seu papel, produz as partículas corporais capacitadas a servirem de suporte, ou substrato, de todo o edifício. Organiza-o a força vital, resultante de todas as combinações e desta organização é que resulta a força espiritual.” Aqui temos, patente, mero palavreado que nada explica.

  Vários materialistas, e com eles Mulder, riem-se da doutrina da força vital e comparam essa força a “uma batalha travada por milhares de combatentes, como se não estivesse em jogo apenas uma força que dispara os canhões, maneja os sabres, etc. O conjunto dos resultados, acrescenta Mulder, não é o resultado de uma única força, de uma força de batalha, mas a soma das forças e combinações inúmeras, em actividade num tal acontecimento.” Concluem, assim, que a força vital não é causa, mas efeito.

  À comparação não falta justeza e, tem, ao demais, a inapreciável virtude de aproveitar mais a nós do que aos seus próprios imaginadores. De facto, é evidente, o que constitui a força de um exército e ganha a peleja não é tão-só o esforço particular de cada combatente, mas, sobretudo, a direcção global, a inteligência do generalíssimo, o plano da batalha, a ordem soberana que, do cérebro do organizador, se irradia aos subchefes e vai, através dos batalhões, até aos soldados, molas arregimentadas.

  Convencer-se-á alguém que não foi Napoleão quem venceu em Austerlitz? Perguntem a Thiers (que sabe mais do que o próprio Napoleão) se essas batalhas inolvidáveis, tanto quanto as ganhas e empenhadas de surpresa não revelam, acima do valor pessoal de cada combatente, o génio lugubremente célebre que vingava atirar ao túmulo, num relance de olhos, milhares de criaturas no apogeu de força e actividade.

  Se a um exército se impõe, imprescindível, o governo de um chefe e que uma severa disciplina o abranja na unidade de milhares de soldados, com maior soma de razão importa que uma força governe a matéria, reduzindo à unidade harmónica os milhões de moléculas que sucessivamente a conformam.

  Só mediante essa força é que existe o corpo, tal como se dá com o regimento, que, não sendo mais que uma entidade abstracta, existe por virtude de lei, antes que pelo valor de cada soldado. Chegam os conscritos novos, dá-se baixa dos velhos e de sete em sete anos está o regimento renovado. Nesse período, há licenças temporárias, engajamentos particulares e uma por outra modificação nas moléculas componentes do exército. Desculpem: cada oficial ou soldado não é mais que um número, a sua personalidade não entra em linha de conta. Podem os oficiais ser comparados aos zeros da ordem decimal, ou, por falar com mais elegância – chefes de dezenas ou centenas; mas, singularmente considerada, a sua personalidade pouco mais vale que a de um caçador. Os próprios coronéis mudam, sem que o regimento deixe de existir na sua forma idêntica. Sofrem os generais, igualmente, essas transições, que em nada prejudicam a existência das respectivas brigadas e divisões. A hierarquia militar é uma unidade e é nisso que reside a sua eficiência. Quanto às partes componentes da unidade, não são conhecidas. Indubitável, que um coronel à cabeça do seu regimento, ou um general no activo, têm mais importância, do ponto de vista do serviço, do que um simples granadeiroda mesma forma que um átomo de gordura cerebral tem maior importância do que um folículo de unha.

  Mas, o que constitui o tronco, ou o nó, de uma fonte de galhos extensos não é por si mesmo a fonte integral. Logo, a comparação dos adversos aproveita mais à nossa do que à sua tese.

  Qual o homem culto, o observador de boa fé, que ousará negar seja o nosso organismo engendrado por uma força especial? Qual a diferença de um cadáver para um corpo vivo? Há duas horas que o coração de tal homem deixou de bater; ei-lo estendido no leito fúnebre, a vida escapou-se-lhe independente de qualquer lesão, sem que houvesse distúrbio orgânico. O seu estado desafia autópsia minuciosa. Quimicamente falando, não há diferença alguma entre este e o corpo que vivia esta manhã. Em que diferem, repito, o corpo vivo e o cadavérico? Pela vossa teoria, eles não diferem, têm o mesmo peso, tamanho, forma. São os mesmos átomos, as mesmas moléculas, as mesmas propriedades físico-químicas. Chegais mesmo a ensinar que essas propriedades estão inviolavelmente ligadas aos átomos. Aí temos, portanto, o mesmo ser!

  Mas, não vedes que uma tal consequência vale por condenação formal do vosso sistema?

  Porque a verdade é que um ser vivo difere, evidentemente, de um morto. Isso é coisa tão vulgarmente sabida, que não podeis contestar. Confessai, pois, que uma hipótese que ensina não ser a vida senão um conjunto de propriedades químico-atómicas, cai pela base e pela cúpula, sendo que, nascimento e morte, alfa e ómega de toda a existência, protestam vitoriosamente contra as conclusões dessa hipótese.

  Chega a ser quase ultrajante para a inteligência humana a obrigação de sustentar que um corpo vivo difere de um morto e que neste já não existe força anímica. Afirmar que a vida é algo, é assim como afirmar que há luz em pleno dia. Devemos, porém, ensejar a que os antagonistas de além-Reno venham pôr os pontos nos is.

  Torna-se necessário que seja a força constitutiva da vida uma força muito especial, visto que, frente a ela, as moléculas corporais se distribuem harmónicas, numa unidade fecunda, ao passo que na sua ausência essas mesmas moléculas se separam, se desconhecem, se combatem e deixam logo cair em total dissolução esse organismo que se faz pó.

  Também é necessário que essa mesma força exista de uma forma particularíssima, pois que, de um lado, não sendo vivos todos os corpos da Natureza e, de outro lado, sendo os corpos vivos compostos com o mesmo material dos inorgânicos, diferem, contudo, dos primeiros, pelas especiais e admiráveis propriedades da vida.

  Ainda é necessário que seja a vida uma força soberana, visto não passar o corpo de um turbilhão de elementos transitórios, em mutação constante de todas as suas partes, persistindo ela, enquanto que a matéria passa.

  Concluir-se-á, daí, com Buffon, que haja no mundo duas espécies de moléculas, isto é: orgânicas e inorgânicas?

  Que as primeiras sejam células vivas, dotadas de sensibilidade e irritabilidade, a se passarem de um a outro ser vivo sem se imiscuírem nos corpos inorgânicos, enquanto que as segundas não entram na constituição geral da vida?

  Mas a Química orgânica demonstrou, à saciedade, que os elementos da matéria vivificada são os mesmos que os do mundo mineral, ou aéreo, o que vale dizer dos elementos oxigénio, hidrogénio, azoto, carbono, ferro, cal, etc.

  Dir-se-á, então, com o botânico Dutrochet e com o anatomista Bichat, que a vida seja uma excepção temporária às leis gerais da matéria, uma suspensão acidental das leis físico-químicas, que acabam sempre imolando o ser ao governo da matéria? Mas é uma ideia que não vacilamos em proclamar errónea, sendo que a vida é o alvo mais elevado e mais fulgurante da Criação, a perpetuar-se através das espécies, desde os primórdios do mundo.

  De resto, digam e pensem como entenderem, a vida não deixará de ser uma forçasuperior às afinidades elementares da matéria.

  O que caracteriza os seres vivos é a força orgânica que aglutina essas moléculas, segundo a conformação específica dos indivíduos e conforme o seu tipo específico. “As verdadeiras molas do nosso organismo – dizia Buffon – não são estes músculos, artérias e veias, mas forças interiores, que não obedecem de modo algum às leis da grosseira mecânica por nós imaginada e às quais tudo desejaríamos subordinar (*).” Em vez de procurarem conhecer as forças pelos seus efeitos, trataram de as afastar e até banir da Filosofia. Elas reapareceram, contudo, e mais imponentes que nunca.

  Cuvier, mais explícito, o declara, uma vez que observara directamente não passar a matéria de simples “depositária da força, por esta constrangida, de antemão, a caminhar no mesmo sentido que ela, bem como que a forma dos corpos lhe é mais essencial que a matéria, visto que esta transmuda, enquanto que aquela se conserva”.

  As experiências de Flourens, sobretudo, evidenciaram a mutabilidade da matéria, a contrastar com a permanência da força, que, a bem dizer, é o que tem de essencial o ser. Uma dessas experiências consiste em submeter um animal, durante trinta dias, ao regime da granza, que, sabemo-lo, é uma substância que tinge de vermelho os objectos dela impregnados. Ao fim de um mês o animal apresenta um esqueleto de cor vermelha. Em se lhe dando, a seguir, o alimento usual, os ossos passam a branquear, começando pelo centro, uma vez que a renovação incessante, dos ossos como da carne, se opera do interior para o exterior. Outra experiência consiste em descarnar um osso e rodeá-lo de um fio de platina. Pouco a pouco, o anel de platina se recobre de camadas sucessivamente formadas e acaba por ficar no interior do osso. Eis que assim se renovam os ossos. A carne e os tecidos moles sofrem uma acção mais rápida.

  Com Quatrefages verificamos “duas correntes contrárias a circularem nas profundezas do ser: uma extraindo incessantemente, molécula por molécula, alguma coisa do organismo, e outra reparando, relativamente, todas as brechas que, por mais extensas, acarretariam a morte”. A força orgânica, que constitui o nosso ser, oculta-se sob a vestimenta variável da carne, mas nós sentimo-la palpitante no seu ardente vigor. Ela nos conforma, dirige, governa. Atentai nesses representantes primitivos da escala zoológica, nesses crustáceos protegidos de uma couraça contra a subversão da crosta terrena; detende-vos nesses anelídeos, nesses vermes que, seccionados, continuam a viver. Arrancai à lagosta uma pata e esta lhe renascerá com todos os seus caracteres. Cortai a de uma salamandra e vê-la-eis integralmente reconstituída. Esmagai a cauda de um lagarto, ela lhe renascerá. Seccionai a minhoca em muitos pedaços e cada qual recuperará o que lhe falta. A flor de coral, destacada de sua matriz, vai, através das ondas, constituir nova árvore. Será a matéria, só por si, que opera tais coisas? Será que tais coisas não revelam a acção constante da força típica que modela os seres segundo a espécie, e que, sem dúvida, lhe é mais essencial do que as moléculas orgânicas com as suas propriedades químicas?

  E, que haveremos de concluir da metamorfose dos insectos, essas formas transitórias, nas quais só a força persiste, através das fases de letargia e ressurreição? A falena que esvoaça, no ar luminoso, não será o mesmo ser há pouco existente na larva ou na lagarta?

  Diante de tais factos, é claro, incontroverso, que uma força, seja qual for (o nome pouco importa), organiza a matéria, segundo a forma típica das espécies, animais e vegetais.

  Ora, os nossos contraditores não vacilam em afirmar que nada existe, absolutamente, e que tudo se pode explicar com as propriedades químicas das moléculas. Pretende, Moleschott, que “o conjunto das circunstâncias, esse estado mediante o qual a afinidade material engendra as mesmas formas persistentes, recebeu de Henle, a exemplo de Scheiling, o nome de força típica. Esta força típica é um pequeno passo precedente à força vital, visto comportar tantos estados de matéria quantos sejam os órgãos e as espécies. Mas, a força padronizadora de plantas e animais é uma ideia tão oca, tão pueril quanto à da força vital a que se radica.”

  O Sr. Wirchow chama-lhe pura superstição, incapaz de negar parentesco com a crença demoníaca e com a pesquisa da pedra filosofal.

  Quanto ao autor do Estudo de Filosofia Positiva, esse fecha os olhos e diz: – “de real só há corpos”.

  Bois-Reymond, a seu turno, declara, numa obra sobre a electricidade animal, que a pretensa força vital não passa de quimera.

  Se os nossos antagonistas se obstinam em sustentar que os organismos estão submetidos a forças intrínsecas, não têm mais do que afirmar o seguinte: – “a molécula material, entrando no turbilhão da vida, recebe por algum tempo o dom de novas forças e torna a perdê-las quando o turbilhão da vida, agastado, a rejeite definitivamente nas plagas da Natureza inanimada”.

  É um raciocínio falso, o desses senhores, uma vez que basta à molécula a só entrada no turbilhão da vida para que se comporte em conformidade com o tipo individual que momentaneamente a retém. Para conservar o cepticismo, são obrigados, como já vimos, a fazer vista grossa à diferença que distingue o corpo vivo do cadavérico. Não se pode ter mais por duvidosa, na opinião de Du Bois-Reymond, a questão de saber “se a diferença – única cuja possibilidade admitimos – entre os fenómenos da Natureza viva e morta, existe realmente. Uma diferença dessa espécie não existe. Nos organismos, forças novas não se agregam às moléculas materiais, nem força alguma que não esteja em actividade fora dos organismos. Portanto, não há forças que se possam chamar vitais. A separação entre supostas naturezas, orgânica e inorgânica, é absolutamente arbitrária. Os que teimam em mantê-la, os que pregam a heresia da força vital, seja com que rótulo for, fiquem certos de terem jamais atingido os limites do próprio raciocínio”.

  Notemos, de passagem, a firmeza e mais este leve tom de arrogância com que se referem aos que divergem das suas teorias. Veja-se como emitem as mais contestáveis proposições.

  “As propriedades do azoto, do carbono, do hidrogénio, do oxigénio, do enxofre, do fósforo – afirmam – existem de toda a eternidade. Provem-nos o contrário... Calam-se? É que não têm razão? E com isso, está ganha a partida. As propriedades da matéria não podem mudar, quando entram na composição de vegetais e animais. Logo, é evidente que a hipótese de uma força peculiar à vida é absolutamente quimérica!”

  Objectam, enfim, que essa força não existe, porque “força sem substrato material é ideia abstracta, desprovida de senso”.

  Por nós, não vemos necessidade de admitir que não exista uma força típica, ou que essa força seja extrínseca à matéria. Os nossos negativistas incidem, aqui, no mesmo erro de quando se trata da existência de Deus, que declaram só possível de conceber fora do mundo. É sempre o mesmo princípio que está em jogo. Ao demais, nos seria fácil demonstrar que todos os conhecimentos humanos se reduzem, último rácio, à noção da força e da extensão; poderíamos invocar o testemunho da Matemática, da Física, da Química, da História Natural nos seus três reinos: Mineralogia, Botânica, Zoologia; a ciência do homem: Psicologia, Estética, Moral, Teologia natural, Filosofia; ciências que, todas, iriam esbarrar no mesmo nó substancial, isto é, a força e a extensão. Não cabe, entretanto, fazer aqui um dicionário. Baste-nos considerar do ponto de vista da vida esta dupla questão e notar, igualmente, o predomínio da força sobre a extensão.

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(*) Buffon, que nunca foi mecânico, enganou-se neste ponto, pois hoje sabemos que a Mecânica, tanto como a Química, representa um grande papel na construção do corpo. Esse erro, porém, não impede que as palavras do grande naturalista exprimam a verdade no condizente à preponderância da Força.


Camille FlammarionDeus na Natureza, Segunda Parte – A Vida 1, Circulação da Matéria (3 de 5), 19º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Jungle Tales (Contos da Selva) 1895, pintura de James Jebusa Shannon)