Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

pensamento espírita argentino ~


CAPÍTULO I

Fundamentos científicos da concepção neo-espírita da vida e da história ~

Que somos?

Há vinte e quatro séculos (470 a.C.), o imortal Sócrates viu inscrita na fachada do templo de Delfos esta profunda sentença: “Conhece-te a ti mesmo”, que tomou como fundamento da sua filosofia. Transcorreram os séculos sem que a humanidade, absorvida pelos interesses da vida material, se preocupasse com aquela afirmação. Conhecer-se a si mesmo: saber o que somos, de onde viemos e para onde vamos! Eis aí o problema, o formidável problema, que inclui o princípio da verdadeira sabedoria.

As religiões e as diversas filosofias perderam-se em conjecturas, numa metafísica infecunda e cheia de contradições, sem nos dar a chave do problema: o Nosce te ipsum (Conhece-te a ti mesmo) guardava a sua incógnita.

O positivismo materialista, iludido pelas falsas perspectivas de um conhecimento incompleto, acreditou conhecer o homem, estudando-o: com a biologia, no desenvolvimento da célula e no processo biológico, do óvulo fecundado até ao completo desenvolvimento do seu complicado organismo; com a fisiologia e a anatomia, no funcionamento orgânico e estrutura celular; com a histologia, na delicada constituição dos seus tecidos, das suas fibras e neurónios; com a química, na composição íntima dos seus elementos constitutivos e, com a antropologia, nas suas relações de origem e descendência, nas influências hereditárias etnológicas, mesológicas, etc.; e como não pôde agarrar a alma com o bisturi, descobri-la nas suas análises químicas, nem vê-la desprender-se do organismo no momento da morte, passou-lhe atestado de óbito, dando o problema por solucionado, concluindo que não há pensamento sem cérebro, nem percepção sem órgãos materiais, nem alma individual ou sobrevivência anímica, e o conhece-te a ti mesmo ficou prejudicado perante o conceito da ciência materialista.

Mas eis que “os mortos se levantam dos seus túmulos” e, enquanto os seus corpos se decompõem e os elementos constitutivos se desagregam e se infiltram na terra, dando vida às plantas e aos insectos que os circundam e deles adquirem corpo e se nutrem, a entidade psíquica, o eu espiritual que constitui a nossa verdadeira personalidade, vive, sente, pensa e actua num plano de vida superior, rodeado, ou melhor dizendo, revestido de um corpo etéreo, verdadeiro receptáculo das energias sensoriais e psíquicas e o potencial gerador das forças vitais, sensitivas e motoras, vínculo perispiritual, indispensável para a manifestação das nossas faculdades anímicas e espirituais e para a relação entre o espírito e a matéria, segundo se depreende dos factos acumulados pela psicologia experimental, pela metapsíquica e pelo Espiritismo.

Necessitava-se, pois, para que se resolvesse o problema do conhecimento do ser, dos factos e manifestações espíritas, capazes de explicar todo o alcance da sentença socrática.

Sábios de grande renome, mestres em todas as ciências, pensadores profundos, robustas mentalidades que se têm destacado em todos os ramos do saber humano, abraçaram o estudo do Espiritismo e depois de largas e pacientes investigações, de contínuas experiências e de terem acumulado enorme caudal de factos, que formam hoje um mosaico variado das suas manifestações e detalhes como sólido na base do conjunto, capaz de resistir aos embates da crítica mais minuciosa e exigente, provaram, positivamente, que a alma é uma entidade substancial, que pode actuar dentro e fora do organismo e, em circunstâncias determinadas e condições psíquicas especiais, ver sem os olhos e ouvir sem os ouvidos, não por uma hiperestesia do sentido da visão ou da audição, mas por um sentido interior, psíquico, mental; que pode, enfim ter pressentimentos e visões telepáticas verídicas, ver, em estado sonambúlico, através dos corpos opacos e a muitos quilómetros de distância e descrever minuciosamente o que se está a passar, desprender-se parcial ou totalmente do seu corpo material, e perante a destruição deste, manifestar-se no mundo dos vivos, de diferentes modos, valendo-se ou não do organismo de um médium.

As experiências do físico William Crookes, descobridor da matéria radiante, do tálio e inventor dos tubos que levam o seu nome, as do físico não menos célebre Cromwell Varley, inventor do condensador eléctrico; as do naturalista Alfred Russel Wallace, autor da teoria da selecção natural (simultaneamente com Darwin), as do fisiólogo Charles Richet, as do antropólogo-criminalista Cesare Lombroso, as do ilustre físico Oliver Lodge, as do professor Ernesto Bozzano, as dos astrónomos ZöllnerFlammarion, Porro (do Observatório de La Plata), Schiaparelli etc., as dos doutores Otero Acevedo, GibierGustave Geley, dos Osty, Hamilton, Schrenck Notzing, as dos psicólogos da importância de William James, de Weber e Fechner, as de Aksakof e mil outras, realizadas por sábios de fama mundial, sobram em factos tão rigorosamente controlados, que provam por si sós a verdade das afirmações precedentes.

Seria difícil dar aqui uma ideia, ainda que aproximada, da quantidade e variedade dos fenómenos psíquicos supranormais que registaram os anais do Espiritismo. Desde meados do século passado até aos nossos dias, se têm acumulado tantos factos em favor da tese espírita que só a ignorância, o misoneísmo ou a negação sistemática poderão desconhecê-los ou atribuí-los a sofisticações ou fraudes.

Outros sábios, outros homens, ávidos de conhecer o mistério do além-túmulo, enquanto a caravana do mundo se agita no torvelinho de suas paixões e interesses materiais, seguem esquadrinhando serena e silenciosamente as sombras do além e tratam, por todos os meios ao seu alcance, de furar o túnel da morte e chegar ao pleno conhecimento do mundo espiritual. Dos seus trabalhos pacientes, perseverantes, assaz ásperos e um tanto ingratos, há hoje indícios seguros dessa nova vida que se estende além do plano terrestre, a um mundo infinito que nos assedia e do qual até agora temos tido apenas presunções. Vozes amigas, palavras de consolo, lembranças longínquas, lamentos, remorsos, ódios inauditos, carícias, recriminações, almas que sentem e pensam, testemunhos patentes de seres que viveram e vivem ainda acreditando-se ligados à terra, chegam através desse grande túnel, aberto por quase um século de investigação científica, a anunciar-nos a aurora de um glorioso despertar, cheio de agradáveis e fundadas perspectivas, de alentadoras esperanças.

Nunca como na nossa época se sentiu a imperiosa necessidade de descerrar o véu do desconhecido; jamais esta ansiedade da alma foi tão funda e absorvente como neste século, em que os conhecimentos mais positivos se sentem fraquejar na sua própria base perante os grandes e maravilhosos descobrimentos da ciência contemporânea e a observação audaz e penetrante da filosofia. Dir-se-ia que chegaram os tempos da revelação científica das eternas verdades que alentaram a humanidade desde a infância.

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Manuel S. Porteiro (i)Espiritismo Dialéctico, CAPÍTULO I Fundamentos científicos da concepção neo-espírita da vida e da história – Que somos? 1º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Cada Mañana, óleo sobre tela (1968) de Josefina Robirosa | MUSEO DE LA SOLIDARIDAD SALVADOR ALLENDE (i))

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

o sentido da vida ~


Imortalidade Pessoal ~

No seu avanço para a frente, o Espiritismo condena a volta ao realismo medieval, as explicações empíricas dos modernos filósofos, da era científica, mostrando-lhes a incoerência da sua posição intelectual, e indica ao pensamento filosófico actual a única recta segura para a solução da incógnita humana. Essa recta é a da investigação dos fenómenos anímicos e espíritas, com o livre espírito científico, despojado de todos os obstáculos de preconceitos, que hoje embaraçam e perturbam os que tentam aventurar-se nesse terreno. Frederic MyersWilliam CrookesCharles Richet e todos aqueles que prosseguiram a obra desses pioneiros, até Oliver Lodge, e presentemente o trabalho obscuro mas sereno e fecundo, das sociedades de pesquisas psíquicas da Europa e da América, das instituições metapsíquicas e das mais recentes sociedades de parapsicologia, estabeleceram suficientemente as linhas dessa tarefa gigantesca de aclaramento do passado, do presente e do futuro do homem terreno.

De nada valem e nada significam, para todo aquele que for capaz de um pouco de raciocínio livre, as comuns alegações dos nossos cientistas e filósofos, com referência às dificuldades de trabalho. Essas alegações podem ser divididas em três grupos distintos, fora dos quais dificilmente poderíamos colocar uma só das desculpas apresentadas:

a) a natureza vaga e imprecisa dos fenómenos, que não se prestam a verificações concretas de laboratório, nem se subordinam às condições específicas que permitam a sua produção sistemática;

b) a dificuldade de aplicação dos métodos científicos ao elemento mediúnico, geralmente empolgado por concepções religiosas, e aos círculos místicos em que eles actuam;

c) a inexistência dos fenómenos, que decorrem de simples actos de prestidigitação, de ilusionismo e de esperteza, de acordo com as indicações das numerosas fraudes já descobertas e denunciadas.

A primeira dessas alegações não tem sentido algum, do ponto de vista científico, embora a encontremos quase sempre associada à segunda, na maioria das justificativas dos homens de ciência, pelo seu desinteresse com referência ao assunto. No livro de Eva Curie sobre a vida de sua ilustre mãe, madame Curie, encontramos a alegação de que o famoso casal descobridor do polonium e do radium se teria desinteressado das pesquisas psíquicas, em virtude unicamente daquelas razões.

É interessante notar que cientistas habituados a todas as subtilezas das mais avançadas teorias científicas, empenhados em pesquisas e soluções que vão dos problemas esquivos da física nuclear até às fórmulas matemáticas, mas nem por isso menos complexas, da teoria da relatividade, aleguem subtilezas e dificuldades para fugir ao terreno das pesquisas metapsíquicas e espíritas. Mais interessante ainda é verificar-se a insistência daqueles que podemos classificar, em geral, como negativistas, sejam homens de ciência, filósofos, intelectuais ou homens comuns, no afã de procurar, sempre e a todo custo, qualquer outra explicação para os fenómenos, que não a espírita. Há uma verdadeira fobia, da parte dessas pessoas, pelo Espiritismo.

Carlos Imbassahy, no final do seu valioso livro Ciência Metapsíquica, em que analisa a conferência de Richet, de despedida da Academia, pronunciada na Faculdade de Medicina de Paris, a 24 de Junho de 1925, traça um rápido estudo dos motivos dessa fobia.

Diz na sua última consideração, o sr. Imbassahy:

“Não iremos buscar no subconsciente os fenómenos espiríticos, mas, pelo contrário, a aversão que eles causam. Nela é que se encontrará a razão pela qual a hipótese dos espíritos é tão violentamente afastada. Os que a afastam, nem sempre têm consciência do motivo pelo qual o fazem.”

Parece-nos a mais justa tese proposta por Imbassahy. Os meandros do subconsciente, que tudo explicam para certas pessoas, e que nunca lhe pareceram mais difícil de devassar do que o “mistério” dos fenómenos objectivos do Espiritismo, encerra os motivos múltiplos, as causas alérgicas desse desinteresse “científico” pela hipótese espírita. Um trabalho mais aprofundado, nesse terreno, mostrará mais hoje, mais amanhã, qual a verdadeira posição dos homens que acham impossível tratar-se cientificamente matéria já tratada dessa mesma maneira por homens como Crawford, Hyslop, Osty, Geley, Myers, Aksakof e tantos outros nomes, que seria fastidioso enumerá-los.

No seu livro Raymond, sir Oliver Lodge, um dos nomes de maior evidência na física moderna, declara taxativamente:

“Estou convencido da sobrevivência da personalidade depois da morte, como o estou da minha existência na Terra. Poderão alegar que essa convicção não se baseia na experiência dos meus sentidos. Responderei que sim. Um cientista especializado em física não está sempre limitado pelas impressões sensoriais directas; lida com uma multidão de coisas e conceitos para os quais os seus sentidos são como inexistentes. A teoria dinâmica do calor, por exemplo, e a dos gases; as teorias da electricidade, do magnetismo, das afinidades químicas, da coesão e até o conceito do éter, nos levam a regiões onde a vista, o ouvido, o olfacto e o tacto são impotentes para qualquer testemunho directo. Em tais regiões tudo tem de ser interpretado em termos do insensível, do não-substancial, do imaginário. Não obstante, essas regiões de conhecimento tornam-se-nos tão claras e vivas como as coisas materiais. Fenómenos comuníssimos requerem interpretações baseadas nas ideias mais subtis – a própria solidez aparente da matéria pede explanação – e as entidades não materiais com que os físicos jogam, gradualmente revelam tanta realidade como tudo quanto eles conhecem sensorialmente. Como lord Kalvin costumava dizer, “nós, de facto, sabemos mais a respeito da electricidade do que da matéria.”

A essas afirmativas de Lodge, podemos juntar o testemunho científico e poderoso de Richet, com o seu Tratado de Metapsíquica, o de William Crookes, nos Factos Espíritas, e o de Imoda, nas suas Fotografias de Fantasmas, para mostrar que a existência dos espíritos e a sua comunicabilidade se revestem, muitas vezes, de carácter mais decisivamente material do que a de muitos dos próprios elementos comummente tratados pela ciência. E isto, para ficarmos apenas nesses, entre as centenas de testemunhos da mesma natureza e do mesmo valor.

Esses testemunhos revelam ainda a insustentabilidade das alegações de que os fenómenos espíritas não se prestam a verificações concretas de laboratório. Se os fantasmas foram apalpados por Crookes e Richet, fotografados por Imoda e por aqueles dois cientistas, e por muitos outros e continuam a ser fotografados, e se o próprio ectoplasma, extraído do médium, foi submetido à análise química, é evidente que tais alegações não passam de escusas sem fundamento.

Quanto às condições, também não procedem as desculpas. Um pouco mais de interesse e de persistência no terreno das pesquisas dariam aos interessados, por certo, as linhas seguras da produção do fenómeno. Basta dizer que, apesar desse desinteresse, já sabemos hoje que certas coisas são necessárias para a produção de certos fenómenos. Alegar que, apesar disso, muitas vezes os fenómenos não se realizam, é procurar outra desculpa. Se os fenómenos não se realizam, alguns dos elementos necessários devem estar em falta. O experimentador consciencioso e paciente, e por isso mesmo cientista, ao invés de se afastar do terreno por supor a existência de tal dificuldade, procuraria descobrir as razões da falha. Pois é evidente que até mesmo nas reacções químicas mais comuns não podemos desprezar os elementos indicados, e que a simples deterioração de um desses elementos poderia impedir a produção do fenómeno.

No tocante à alegação de que o misticismo do médium ou dos componentes do grupo a que ele pertence impede a aplicação dos métodos científicos, é também absolutamente desprovida de razão. Os factos já relatados, os trabalhos realizados por grandes cientistas, demonstram o contrário. E seria mais ou menos como afirmar que o espírito místico do povo impediria a aplicação de métodos científicos no estudo de casos religiosos, das manifestações de histeria, das chamadas auras milagrosas e dos fenómenos de estigmatização. A verdade é bem outra.

Muitos médiuns não possuem esse espírito místico e religioso. O doutor Luiz Parigot de Sousa, médico paranaense, um dos maiores médiuns de efeitos físicos e de voz-directa já conhecidos no Brasil, tinha dúvidas a respeito da existência de Deus e manifestava má vontade pelas manifestações religiosas, segundo o testemunho dos jornalistas Odilon Negrão, Wandyck Freitas e outros, que com ele privaram. Não obstante, foi esse médium quem, através de suas poderosas faculdades, convenceu o doutor Osório César, anatomo-patologista do hospital de Juquery, em São Paulo, de que o seu trabalho, Misticismo e loucura, contra o Espiritismo, estava errado nas premissas e nas conclusões. Outro médium, ainda jovem, residente em São Paulo, José Correa das Neves, conhecido por Zezinho, possuidor de faculdades semelhantes, não tem podido ser suficientemente estudado em virtude da sua falta de firmeza e de orientação no terreno religioso. Fosse ele um dos místicos a que se referem os inimigos do Espiritismo, e talvez se submetesse mais facilmente, sem tanta relutância, a experiências sistemáticas. Há outros que, muito religiosos, nem por isso se esquivam a trabalhos científicos. É evidente também que nenhum verdadeiro cientista alegará como motivo de impossibilidade para a realização de estudos o facto de alguns médiuns se mostrarem arredios e esquivos. O papel da ciência é justamente o de superar todas as dificuldades opostas pela natureza às suas investigações.

A terceira série de alegações procede de poucos cientistas e de muitos clérigos. Dizer que os fenómenos não existem, que não passam de fraudes e mistificações, é simplesmente querer tapar o sol com peneira. Os fenómenos não somente existem – e são facilmente constatáveis por milhares de pessoas, em todo o mundo –, como constam de trabalhos científicos de fôlego, irrefutáveis com uma simples negativa.

Mas há ainda uma quarta ordem de alegações contra o Espiritismo. Essa, parte exclusivamente do clero, seja de protestantes ou de católicos, e atribui a existência dos fenómenos à intervenção do demónio. É tão pueril essa atitude, que não vemos necessidade alguma de refutá-la. Entretanto, como Kardec, podemos lembrar que também aos ensinamentos e aos milagres de Jesus, os clérigos da época respondiam com a mesma acusação. Veja-se, por exemplo, a admirável descrição evangélica da cura de um jovem cego junto ao tanque de Siloé (João, IX: 1-34) e o que disseram os sacerdotes judeus a respeito.

Devemos, entretanto, assinalar nesse terreno o facto auspicioso de que alguns sacerdotes já começam a compreender a inconveniência de tal acusação. Ainda agora nos chega de Inglaterra a notícia de que a Igreja Anglicana, a velha igreja oficial do império, acaba de publicar um relatório, elaborado por vários sacerdotes, que confirma a existência das comunicações espíritas, sem atribuí-las ao demónio. O conhecido pastor protestante, rev. Otoniel Motta, publicou recentemente um opúsculo intitulado Temas espirituais, em que descreve as suas incursões pelo mundo dos fenómenos espíritas, confirmando a existência da comunicação de espíritos, e não de simples artimanhas do Diabo. E o ex-padre católico, Huberto Rohden, figura que foi do mais alto destaque do clero brasileiro, hoje afastado da igreja e “refugiado” em Washington, onde lecciona numa grande Universidade, acaba de publicar algumas notas biográficas, nessa capital, na revista protestante Unitas, números de Julho e Agosto de 1950, relatando as suas pesquisas psíquicas, sob a orientação do padre jesuíta Aloísio Gatterrer, na Áustria, para chegar à mesma conclusão de que não se trata simplesmente de artimanhas do Diabo.

Assim, como vemos, a sobrevivência individual, a imortalidade pessoal, em contradição à tese reaccionária do panteísmo-realista, a que nos referimos no capítulo anterior, firma-se através de todas as evidências. É ela confirmada pelo cientista insuspeito e liberto de injunções dogmáticas ou de fobias subconscientes, reconhecida pelos clérigos de pensamento mais arejado, constatada por todos os que lidam com sessões práticas de Espiritismo, reafirmada gloriosamente nas obras de estudos metapsíquicos e espíritas. Só mesmo os cegos que não querem ver – e são, como se sabe, os piores cegos – teimam na expectativa, já agora sem razão, de um desmentido da ciência oficial a essa grande esperança da humanidade.

Entretanto, como dissemos acima, se querem os cientistas considerar inócua, suspeita, cientificamente inaceitável, toda a obra de investigação realizada até agora, só lhes resta um caminho honesto: o da realização de investigações sistemáticas, insistentes e profundas, nesse terreno. Que se armem as academias do espírito necessário a essa grande tarefa, mostrando, de uma vez por todas, que, se dizem não acreditar, também podem provar que não temem os fantasmas.

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José Herculano Pires, O Sentido da Vida, Imortalidade Pessoal, 9º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Platão e Aristóteles, pormenor d'A escola de Atenas de Rafael Sanzio, 1509)

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

| o grande enigma ~


Objecções e contradições

Sendo o problema divino o mais vasto, o mais profundo dos problemas, pois que abrange todos os outros, embalou teorias, sistemas sem-número, que correspondem a outros tantos graus de compreensão humana, a outros tantos estádios do pensamento na sua marcha para o absoluto.

Nesse domínio as contradições pululam. Cada religião explica Deus à sua maneira; cada teoria o descreve a seu modo. E de tudo isso resulta uma confusão, um caos inextricável. Quantas formas variadas da ideia de Deus, desde o fetiche do negro até ao Parabrahm dos hindus, até ao Acto puro de São Tomás! Dessa confusão os ateus têm tirado argumentos para negar a existência de Deus; os positivistas, para declará-lo “incognoscível”. Como remediar tal desordem? Como escapar a essas contradições? Da maneira mais simples. Basta nos elevarmos acima das teorias e dos sistemas, bastante alto, para ligá-las no seu conjunto e pelo que têm de comum. Basta elevarmo-nos até à grande Causa, na qual tudo se resume e tudo se explica.

estreiteza de vistas desnaturou, comprometeu a ideia de Deus. Suprimamos as barreiras, as peias, sistemas fechados, que se contradizem, se excluem e se combatem, substituindo-os pelas vistas largas das concepções superiores. A certa altura, a Ciência, a Filosofia e a Religião, até então divididas, opostas, hostis, sob as suas formas inferiores, se unem e se fundem numa potente síntese, que é a do moderno Espiritualismo. Assim se cumpre a lei da evolução das ideias. Depois da tese, temos a antítese. Tocamos na síntese, que resumirá todas as formas e crenças, e será a glória do vigésimo século tê-las estabelecido e formulado.

Examinemos rapidamente as objecções mais comuns. A mais frequente é a que consiste em dizer: Se Deus existe, se Ele é, como pretendeis, Bondade, Justiça, Amor, por quê o mal e o sofrimento reinam feitos senhores em torno dos seres? Deus é bom, e milhões sofrem na alma e na carne. Tudo é dor e aflição na vida das multidões. A iniquidade é soberana no nosso globo e a ardente luta pela existência faz, todos os dias, vítimas sem-número.

Conforme mostramos noutra parte, (*) o sofrimento é um meio poderoso de educação para as Almas, pois desenvolve a sensibilidade, que já é, por si mesma, um acréscimo de vida. Por vezes é uma forma de justiça, um correctivo aos nossos actos anteriores e longínquos.

O mal é a consequência da imperfeição humana. Se Deus tivesse feito só seres perfeitos, o mal não existiria. Mas então o Universo seria fixo, imobilizado na sua monótona perfeição. A magnífica ascensão das Almas, através do Infinito, seria suprimida de chofre. Nada mais a conquistar; nada mais a desejar! Ora, que seria uma perfeição sem méritos, sem esforços para obtê-la? Teria algum valor aos nossos olhos? Em resumo, o mal é o Menos evoluindo para o Mais, o Inferior para o Superior, a Alma para Deus.

Deus nos fez livres; daí o mal, a fase transitória da nossa ascensão. A liberdade é a condição necessária da variante na unidade universal. Sem isso, a monotonia teria feito um Universo insuportável. Deus nos deu a liberdade com essa impulsão de vida inicial, pela qual o ser evoluirá pelo seu próprio esforço, através dos espaços e dos tempos sem limites, sobre a escala das vidas sucessivas, até à superfície dos mundos que povoam a imensidade.

Emanamos de Deus, tal qual os nossos pensamentos emanam do nosso Espírito, sem fraccioná-lo, sem diminuí-lo. Livres e responsáveis, nos tornamos senhores e artífices dos nossos destinos. Mas, para desenvolver os germens e as forças que estão em nós, a luta é necessária, a luta contra a matéria, contra as paixões, contra tudo a que chamamos de mal.

Essa luta é dolorosa e os choques são numerosos. No entanto, pouco a pouco, a experiência se adquire a vontade se tempera, o bem se desprende do mal. Chega a hora em que a Alma triunfa das influências inferiores, se resgata e se eleva pela expiação e purificação até à vida bem-aventurada. Então, compreende, admira a sabedoria e a providência de Deus, que, fazendo dela o árbitro dos seus próprios destinos, dispôs todas as coisas de maneira a destas tirar a maior soma de felicidade final para cada ser.

A condição actual de todas as Almas é o resultado justo de suas existências passadas. Da mesma forma, numa existência presente, a nossa Alma tece dia-a-dia, os actos livres, a sorte que teremos no futuro.

Outras objecções se apresentam. Há uma que não podemos desprezar, porque constitui uma das questões capitais da Filosofia. Pergunta-se-nos:

Será Deus um ser pessoal ou é o ser universal, infinito?

Não pode ser ambos, porque – dizem – essas concepções são diferentes e se excluem mutuamente. Daí os dois grandes sistemas sobre Deus; o deísmo e o panteísmo. Na realidade, tal contribuição é apenas um erro de óptica do espírito humano, que não sabe compreender, nem a personalidade, nem o infinito.

A personalidade verdadeira é o eu, a inteligência, a vontade, a consciência. Nada impede concebê-la sem limites, isto é, infinita. Sendo Deus a perfeição, não pode ser limitado. Assim se conciliam duas noções, na aparência contraditória.

Outra coisa: Deus é incognoscível, como dizem os positivistas e, entre eles, Berthelot? É o abismo dos gnósticos, a Ísis velada dos templos do Egipto, o terrível e misterioso Santo dos Santos dos Hebreus, ou pode ser conhecido?

A resposta é fácil: Deus é incognoscível na sua essência, nas suas profundezas íntimas; mas revela-se em toda a sua obra, no grande livro aberto aos nossos olhos e no fundo de nós mesmos.

Insiste-se, ainda disseste, que o fim essencial da vida, de todas as nossas vidas, era entrar, cada vez mais, na comunhão universal, para melhor amar e melhor servir a Deus nos seus desígnios. Não podendo Deus ser conhecido na sua plenitude, como se poderia amar e servir o desconhecido?

Sem dúvida, replicaremos nós, não podemos conhecer Deus na sua essência, mas nós conhecemo-lo pelas suas leis admiráveis, pelo plano que traçou todas as existências e no qual brilham a sua sabedoria e a sua justiça. Para amar a Deus não é necessário separá-lo da sua obra; é preciso vê-lo na sua universalidade, na onda de vida e amor que derrama sobre todas as coisas. Deus não é desconhecido: é somente invisível.

A alma, o pensamento, o bem e a beleza moral são igualmente invisíveis. Entretanto, não devemos amá-los? E amá-los não será ainda amar a Deus – a sua origem e, ao mesmo tempo, o pensamento supremo, a beleza perfeita, o bem absoluto?

Não compreendemos, na sua essência, nenhum desses princípios; entretanto, sabemos que existem e que não podemos escapar à sua influência, dispensando-nos de lhes prestar culto. Se amarmos somente o que conhecemos e compreendemos com plenitude, o que amaríamos, afinal, limitados qual somos actualmente, nos marcos estreitos de nossa compreensão terrestre?

Aqueles que reclamam absolutamente uma definição poder-se-ia dizer que Deus é o Espírito puro, o Pensamento puro. Mas a ideia pura, na sua essência, não pode ser formulada sem, por isso mesmo, ser diminuída, alterada. Toda a fórmula é uma prisão. Encerrada no cárcere da palavra, o pensamento perde a sua irradiação, o seu brilho, quando não perde o seu sentido verdadeiro, completo. Empobrecido, deformado, torna-se assim sujeito à crítica e vê desvanecer-se o que nele havia de mais probante. Na vida do Espaço, o pensamento é uma imagem brilhante.

Comparado ao pensamento expresso por palavras humanas, é o que seria uma jovem resplendente de vida e de beleza, comparada à mesma, porém deitada num caixão, sob a forma rígida e gelada da morte.

Entretanto, apesar da nossa impotência em exprimi-la na sua extensão, a ideia de Deus impõe-se, dissemos, por ser indispensável à nossa vida. Acabamos de ver que o Bem, o Verdadeiro, o Belo, nos escapam na sua essência, porque são de natureza divina. A nossa própria inteligência é para nós incompreensível, precisamente porque encerra uma partícula divina que a dota de faculdades augustas.

Só penetrando o sistema da alma humana chegaremos um dia a resolver o enigma do Ser infinito. Deus está na criatura, e a criatura Nele. Deus é o grande foco de vida e de amor do qual cada Alma é uma centelha, ou antes, um foco ainda obscuro e velado que contém, em estado embrionário, todas as potências; a tal ponto que, se soubéssemos tudo quanto em nós existe, e as grandiosas obras que podemos realizar, transformaríamos o mundo: elevar-nos-íamos, de um salto, na senda imensa do progresso.

Para nos conhecermos, é mister, pois, estudar Deus, porque tudo que está em Deus está nos seres, pelo menos em estado de gérmen. Deus é o Espírito Universal que se exprime e se manifesta na Natureza, da qual o homem é a expressão mais alta.

Todos os homens devem chegar a essa compreensão de sua natureza superior; na ignorância dessa natureza e dos recursos que em nós dormitam é que está a causa de todas as provações, dos nossos desfalecimentos e das nossas quedas.

Eis por que a todos diremos: Elevemo-nos acima das querelas de escola, acima das discussões e das polémicas vãs. Elevemo-nos bastante alto para compreender que somos outra coisa mais do que uma roda na máquina cega do mundo: somos os filhos de Deus e, por isso, ligados estreitamente a Ele e à sua criação, destinados a um fim imenso, ao lado do qual tudo mais se torna secundário; esse fim é a entrada na santa harmonia dos seres e das coisas, que não se realizam senão em Deus e por Deus!

Elevemo-nos até lá, e sentiremos a potência que está em nós; compreenderemos o papel que somos solicitados a desempenhar na obra do progresso eterno. Lembremo-nos de que somos Espíritos imortais. As coisas da Terra são um degrau, um meio de educação, de transformação. Podemos perder neste mundo todos os bens terrestres. Que importa? O indeclinável, antes de tudo, é engrandecer, arrancar da sua grosseira ganga esse Espírito divino, esse deus interior que é, em todo o homem, a origem da sua grandeza, da sua felicidade no porvir. Eis o fim supremo da vida!

Concluamos: Deus é a grande Alma do Universo, o foco de onde emana toda a vida, toda a luz moral. Não podeis passar sem Deus, de igual modo que a Terra e todos os seres que vivem na sua superfície não podem dispensar o seu foco solar: Se o Sol se extinguir, de repente, que acontecerá? O nosso planeta rolará no vazio dos espaços, levando nessa correria a Humanidade deitada para sempre no seu sepulcro de gelo. Todas as coisas morrerão, o globo será uma necrópole imensa. Triste silêncio reinará nas grandes cidades adormecidas no seu último sono.

Pois bem! Deus é o Sol das Almas! Extingui a ideia de Deus, e imediatamente a morte moral se estenderá sobre o mundo. Precisamente porque a ideia de Deus está falseada, desnaturada por uns, desconhecida por muitos outros, é que a Humanidade actual erra no meio das tempestades, sem piloto, sem bússola, sem guia, presa da desordem, entregue a todas as aflições.

Levantar, engrandecer a ideia de Deus, desembaraçá-la das escórias em que as religiões e os sistemas a têm envolvido, tal é a missão do Espiritualismo moderno!

Se tantos homens são ainda incapazes de ver e compreender a harmonia suprema das leis, dos seres e das coisas, é que a Alma deles não entrou ainda, pelo senso íntimo, em comunicação com Deus, isto é, com os seus pensamentos divinos, que esclarecem o Universo e que são a luz imperecível do mundo.

Indagamos de nós mesmos, ao terminar, se conseguimos dar um resumo da ideia de Deus. A palavra humana é muito fraca, muito árida e extremamente fria para tratar de semelhante assunto. Só a própria harmonia, a grande sinfonia das esferas e a voz do Infinito poderiam esboçar e exprimir a lei universal.

Há coisas que, de tão profundas, só se sentem, não se descrevem. Deus, somente no seu amor sem limites, pode revelar-nos o seu sentido oculto. E é o que fará, se na nossa fé, na nossa ascensão para a Verdade, soubermos apresentar, Àquele que sonda os recônditos mais misteriosos das consciências, uma alma capaz de compreendê-lo, um coração digno de amá-lo.

/...
(*) Vide Depois da Morte, segunda parte; O Problema do Ser, do Destino e da Dor, caps. XVIII e XIX.


Léon Denis, O Grande Enigma, Primeira parte / Deus e o Universo / IX – Objecções e contradições (fim da primeira parte), 20º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: As majestosas e violentas palavras dos poemas, pintura em acrílico de Costa Brites)

domingo, 17 de dezembro de 2017

Victor Hugo e o invisível ~


Perguntas sobre o próprio eu

  A filosofia de todas as idades pergunta pela existência do Eu individual. Fizeram-se perguntas, certamente muitas técnicas, sobre este Eu que nos conforma como um Ser existente, perguntas que não têm chegado à carne viva do homem: existir nos braços da incerteza e sobre a obscuridade do nada.

  Eu sou um eu, tem-se dito; mas este não foi nunca real e objectivo, antes um eu académico, envernizado por complicados tecnicismos psicológicos, metafísicos e ontológicos. Um eu que ao sair do âmbito oficial se esfuma como realidade existencial, surgindo dela um Ser sem nenhuma relação com a realidade humana. Quer dizer, é um eu desvinculado do dramatismo da vida diária em cujas esferas se prova a veracidade espiritual do Ser.

  Falou-se de um eu superficial, baseado no conceito fisicalista da vida, uma vez que para a filosofia oficial o homem não possui profundidade espiritual nem existencial, esta o considera uma ''massa fisiológica" e um mecanismo sem mundo interior. Mas o pensamento tem apetências que se tornam imperativos em todos os níveis ideológicos. Estas apetências são causadas pela sede de verdade que existe no eu e se sobrepõem ao físico e corporal, porque nisso está a vida do homem e dos seus processos interiores e exteriores.

  Que é o eu? pergunta a filosofia, ao que se pode acrescentar: quem sou eu? Nestas perguntas se concentra a essência ontológica do Ser e do mundo. São duas perguntas que persistem nas investigações filosóficas. O que e o quem constituem o saber ontológico que perdura com muito valor num momento do homem em que tudo muda e se confunde.

  Afinal, existe o eu para "algo" ou é o resultado de uma cega casualidade? O eu é uma entidade com dimensões ainda desconhecidas ou só existe para entrar no nada?

  Dir-se-á que estas inquietudes foram experimentadas pela alma humana em todos os tempos do planeta. Mas aqui, pela sua urgência, pode peguntar-se: quem deu sobre elas uma resposta capaz de satisfazer a alma da humanidade? Quem demonstrou por bases experimentais que o eu é um Ser profundo com dimensões desconhecidas? Quem demonstrou que no eu físico pode estar o eu metafísico?

  Foi esta última sempre aceite teoricamente, o que nada representa perante o mundo material da inteligênciaAgora trata-se de uma demonstração material, da mesma carne do homem, de uma metafísica existencial e viva do eu. Pois bem, aspirar a esta demonstração não é estar no campo de uma "má filosofia", mas buscar o homem e a vida como realidades espirituais que se sobreponham a todos os conceitos niilistas do Ser.

  O eu, porém, sempre sedento de infinito, não se detém à direita nem à esquerda da filosofia. O seu Ser profundo se sobrepõe ao conceito de "massa fisiológica" para exprimir os seus brados existenciais. A consciência moderna não se aquietará perante suposições teóricas; se o subjectivo não se transforma em realidade prática e objectiva, o eu prosseguirá reclamando um saber que esteja de acordo com as suas profundidades ontológicasSeguirá reclamando "direitos espirituais", posto que intui que existe nele um Ser que luta por instalar-se como uma realidade no mundo. É como um novo Ser que é vida com disposições espirituais bem diferentes das do passado, ansioso de encarnar no histórico e conduzi-lo mediante um novo processo tanto material como espiritual.


A pré-existência como base existencial do eu

  Se o eu existe, é para a vida ou para a morte? Essa ideia de regresso que se agita nas profundezas do eu pode ser tomada como uma prova de sua perdurabilidade espiritual? Se o eu pressente que o seu nascimento é um regresso, isso nos leva a supor que possui um pré-existir e não apenas um existir presente. Intui que regressa porque possui, de facto, um pré-existir ou um tempo anterior ao actual. Sente que regressa porque já esteve em alguma parte, o que assinala que o seu presente existir se baseia em um pré-existir.

  O eu existe hoje porque existiu antes e existirá depois porque existe agora. E por esse encadeamento de pré-existências, existências e super-existências o eu se afirma sobre a base de um novo existir consciente e definitivo. Deste modo, o homem reconhecerá um eu existencial responsável pelo seu crescimento como personalidade espiritual, até alcançar o sentido palingenésico de seu próprio Ser.

  eu ao possuir uma pré-existência poderá projectar-se sobre o passado, o presente e o futuro até perceber o enlace do humano e do divino. Sem pré-existência, o eu não passa de um Ser limitado às relatividades do presente. Existe sim uma conexão com o passado e o futuro. A história possui para ele apenas uma face, que consegue perceber com o seu sentido de presente. Mas com o tempo pré-existente, o eu é um Ser comprometido com o histórico em razão de sua participação no tempo passado que, para a filosofia universitária, carece de vinculação com o eu do tempo presente. O eu está comprometido com o histórico por causa do seu estar no pré-histórico, como o estará, por sua permanência no histórico actual, com o supra-histórico e o futuro histórico.

  A pré-existência do eu é uma prolongação do Ser desde o antigo e, uma projecção para o novo. eu já foi ontem e será novamente amanhã por ser hoje. Como se vê, a ideia da pré-existência determina no eu um enlace dialéctico que esclarece o processo histórico e nos dá essa historiosofia cristã de que falou Nicolas Berdiaev.

  A ideia de regresso experimentada pelo eu é o resultado de sua natureza pré-existenteeu intui que volta de algum lugar porque o seu Ser provém de um passado que, à medida em que se actualiza na sua memória, recorda o seu pré-existir constituído por uma série de extractos existenciais. Do que se infere que o eu é uma sucessão de seres que passaram através de um tempo infinito. Esta sucessão de seres que constituem o eu actual é o que determina a segurança de sua pré-existência e dá fundamento à sua natureza imortal. O eu, em suma, é infinito por causa de seu pré-existir, já que sem ele não seria mais que uma máquina sem capacidade de recordar ou de intuir um regresso mediante a penetração dos seus extractos pré-existenciais.

  A imortalidade do eu tem a sua base na sua própria pré-existênciaNenhum eu pode ser e existir sem que nele exista uma acumulação de idades e de tempos, pois todo o eu é uma formação sucessiva de outros eus cujas imagens estão gravadas na sua memória histórica.Ser é uma teoria de eus que não se decompôs através do processo histórico em razão de uma acumulação de experiências existenciais.

  O eu perdura através do tempo histórico e avança para o seu próprio estado absoluto, ou seja, para a sua perdurabilidade imortal por causa de seu Ser pré-existencialO passado nele traz a intuição, que se traduz pela lembrança de "algo" que regressa para a sustentação do seu Ser imortal. Em suma, a pré-existência do eu é que assegura ao Ser "salvar-se'' do nada, desse nada que destrói tanto o passado como o presente e o futuro, simultaneamente.


O nascimento como um regresso do eu

  O eu existe não obstante as negações que pretendem destruí-lo. Há nele um Ser que existe para algo transcendental, como se penetrasse na realidade material para sobrevir um "existente corporal". Mas o eu não é um existente corporal; a sua existência, quando está no mais profundo de si mesmo, vislumbra ou pressente as novas representações existenciais.

  A isso se poderia objectar o seguinte: o eu nasce como todo o humano, por conseguinte está exposto ao finito e ao relativo; é o resultado de um nascimento fisiológico e é, por isso mesmo, um factor psíquico determinado por combinações fisioquímicas, o que o situaria num plano puramente material. Porque se tem acreditado sempre que tudo o que nasce está sujeito a deteriorar-se, à categoria das coisas finitas. Sem dúvida, a sua afirmação como Ser existencial tem numerosos recursos a seu favor; contudo, o mais decisivo é essa percepção em si mesmo de uma presença anterior no seu Ser actual. Essa presença faz pressentir ao eu que o seu nascimento não é um fenómeno fisiológico, mas um regresso, um caminho pelo qual vem avançando através de um tempo infinito.

  De facto, o eu se sente como um-ser-que-nas-ce, mas sabe que regressa ou que vem de alguma parte. O seu nascimento não anula a sua sede de imensidade; pelo contrário, sem deter-se frente ao que nele é do ponto de vista corporal, continua sentindo-se no seu Ser como ''algo" que regressa, que é alguém que se está a formar através de um mundo que dura pelo espaço e o tempo.

  O que se agita no eu profundo está a comover as bases do saber materialista. Pois, enquanto do fundo do eu surgirem ideias e novas apetências gnosiológicas, o saber resultará sempre inseguro, já que os seus dogmas só se converterão em realidades experimentais se se consegue demonstrar que o eu não é mais que uma "massa fisiológica" ou uma consequência psíquica segregada pelos lóbulos cerebrais.

  Nas profundidades do eu está o novo saber da existência do Espírito. E isto não é uma simples expressão, posto que existe uma dialéctica do eu pela qual a sua natureza e o seu Ser se compreendem como o regresso de alguém que quer fazer-se presente no cenário do mundo. Essa dialéctica do eu é que determinará uma nova realidade nos campos do conhecimento, ou seja, uma realidade mutante e progressiva cujas raízes se encontram nos tempos pretéritos do Ser. Será um eu que se manifestará no temporal para dizer: eu fui, logo sou e serei eternamente.

/…


Humberto Mariotti (i)Victor Hugo Espírita, Adendo | perguntas sobre o próprio eu, a pré-existência como base existencial do eu, o nascimento como um regresso do eu, 17º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Criança com uma boneca, pintura de Anne-Louis GIRODET-TRIOSON)

domingo, 3 de dezembro de 2017

~~~Párias em Redenção~~~


SUICÍDIO ABOMINÁVEL
(II)

  Carlo afastou-se lépido, rindo, cínico, e desceu à cavalariça, partindo em seguida.

  O dia húmido e sombrio estava carregado. Caíam bátegas e a trovoada ameaçadora fechava o tempo sobre a região, com relâmpagos e trovões.

  Carlo, resguardado em pesado capuz, esporeou o animal e enfrentou a tormenta. O vento e a chuva fustigavam-lhe o rosto. Desejava, porém, atingir a estrada real, a Via Cassia, para alcançar a próxima hospedaria, evadindo-se da herdade, quanto antes.

  Coriscos rasgavam a noite que se fez no dia e o cavaleiro, a galope, surge e desaparece na alameda que desemboca na estrada de acesso à via para Florença. Raios singram em muitas direcções, acompanhados de trovões quais gargalhadas de Fúrias. O intrépido viajante sonha com as ambições. Repentinamente, um raio atinge um imponente carvalho, que arde em célere clarão e se rasga ao meio. O animal relincha e, assustando-se, atira longe o cavalgador, que tomba, recebendo em cheio o tronco decepado pela faísca eléctrica. Um grito de horror escapa-lhe dos lábios e o imenso silêncio continua, somente interrompido pelo troar da tempestade violenta.

  No solar, estremecendo e gritando, aparvalhado pela visão fantástica da tormenta que lhe produz recordações desesperantes, Girólamo se enfurece. Os servos se apressam em socorrê-lo e Beatriz ordena que seja atado com cordas.

  De coração despedaçado e sentindo o horror da situação delicada, sufoca as lágrimas e as angústias, pensando no filho, e, acompanhada pela velha aia, entrega-se à desatrelada litania da oração.

  O vento ulula fora do solar estremece aos choques das forças desgovernadas da Natureza. As sombras invadem tudo, clareadas apenas nos espaços rápidos dos relâmpagos. Olhos fora das órbitas, o obsidiado, em subjugação total, luta nas amarras contra as entidades que agora se consubstanciam diante dele, em visões incessantes, alucinadoras. Tomando o aspecto tradicional das concepções satânicas, para dominá-lo mais adiante pelo pavor, o duque desencarnado aparece-lhe armado de tridente e investe, cruel. O demente grita, esbraveja, estorce-se nas grimpas afiadas, que parecem dilacerá-lo. A demência o aniquila e a voz soturna do vingador esbraveja no pandemónio mental em que se contorce o atormentado:

  – Confessa os crimes, antes que a morte te arrebate, usurpador de vidas e de bens. Pede perdão a Deus, antes que seja tarde demais!

  – Beatriz, Beatriz, por que me abandonaste? Beatriz, socorre-me! O meu tio aqui está, matando-me. Beatriz, Beatriz, salva-me…

  A senhora, ajoelhada com a ama, crava os olhos na imagem do Crucificado, presa à parede, e suplica a protecção divina:

  – Oh! Deus meu! Por que sofro tanto, Senhor? Piedade para ele, para todos nós! – desespera-se a Condessa…

  – Os demónios me despedaçam, Beatriz, – baldoa o enfermo, entre as cordas, atado ao leito. – Oh! desgraça, mil vezes desgraçado…

  – Coragem, Girólamo! – replica a esposa. – A tormenta logo passará. Mandarei alguém a Siena buscar socorro. Coragem!

  – Será tarde, muito tarde, muito tarde… (Exaure-se numa voz que se apaga, enrouquecida pela dor e pelo cansaço.)

  A noite avança e, conquanto a chuva amaine, o tempo continua carrancudo, pesado.

  O silêncio no solar traduz o torpor que de todos se apossa.

  O paciente, desfalecido, mergulha nas sombras desalentadoras do mundo espiritual inferior. Defronta-se com o tio, que o arrasta em espírito, aturdido, e fá-lo experimentar nefanda perseguição, implacável, que parece não terminar nunca… A sugestão perniciosa da sua voz, da sua mente corroída pelo monoideísmo do desforço, esmaga as últimas resistências e apaga os derradeiros lampejos de lucidez no jovem senense…

  O novo dia começa em brumas escuras, que cobrem a região.

  Pela manhã, os servos encontram o animal que conduzia Carlo, no pátio de entrada da herdade… Dado o alarme, saem-lhe em busca e a menos de um quilómetro do portão central deparam-no morto, debaixo da árvore tombada. Conduzem o cadáver ao solar e um mensageiro ruma a Siena, para informar da tragédia o Conde Castaldi, rogando-lhe a presença.

  O sepultamento é feito entre choros das pessoas da plebe, que ali se agasalham, amedrontadas. Tem-se a impressão de que as tragédias do passado recomeçam no burgo malsinado.

  Libertado das cordas que o maltratam, o Conde Girólamo tem o olhar distante, vazio e não participa de nada que acontece à sua volta.

  Logo após o enterro, quando os lacaios vêm assistir o amo, na noite que chega e a borrasca que anuncia repetir-se, ele se levanta e, apontando a ampla janela rasgada na direcção do céu pardo-cinzento, estremece, faz-se marmóreo e grita:

  – Tirem Carlo daqui… O desgraçado está em sangue, arrastado pelo meu tio. Socorro!...

  Os servos seguram-no e o conduzem ao leito. Ele debate-se e se acalma no sono ofegante da demência.

  Quando os Condes chegam, atendendo ao aviso da filha e ao seu pedido de socorro, a casa tem aspecto fúnebre.

  – Vimos dispostos a levar-te para Siena, custe-nos o custar. Levaremos também o nosso doente, que perdeu o uso da razão. Lá, talvez…

  Depois de inteirados por Beatriz dos acontecimentos da véspera, e cansados da viagem, vencidos todos pelas emoções sucessivas, recolhem-se cedo, para o necessário refazimento.

  A noite avança e a borrasca desaba.

  Girólamo desperta e, desvairado, e ouve Assunta, que o chama:

  – Vem, perdoei-te. Poderás fugir. Vem comigo. Vamos à recâmara…

  Teleguiado pela mente da comparsa desditosa, ergue-se do leito e quando se dispõe a segui-la escuta-a dizer:

  – A corda… Traze a corda. É necessário.

  O subjugado, olhos além das órbitas, cambaleante, no silêncio da noite clareada pelos relâmpagos e de quando em quando sacudida pelo ribombar dos trovões, adentra-se pela peça da ala esquerda. Ali estão: Lúcia e as crianças (*) a debaterem-se inermes sob o travesseiro de plumas, vigorosamente aplicado sobre cada uma. Ele ri, blasfema em surdina e Assunta impõe:

  – Faze um laço corrediço. Fugiremos daqui. Ninguém nos alcançará. Unir-nos-emos. Vem, apressa-te!

  Com as mãos nervosas, ele ata a ponta da corda em nó corrediço e lança-a por cima da trave de carvalho, na peça em sombra.

  – Outro nó, Girólamio. Traze a arca, a de cânfora, para mais perto… Sim, essa traze…

  Automaticamente, o jugulado obedece. Frio cortante o vence. As mãos estão geladas e o suor escorre-lhe abundante.

  – Sobe na arca; coloca a corda. Vem! Vem, eu te ordeno; vem!

  – Sim, obedeço, sim…

  – Salta! Arroja o corpo para fora! Agora!

  – Ai… iii… uughug…

  O grito surdo não foi ouvido.

  Girólamo suicidara-se.

  Num clarão mais forte do relâmpago, quando os lacaios acordaram assustados e não encontraram o amo, deram o alarme. Acenderam-se tocheiros e velas e saíram em busca. O alvoroço tomou conta da casa.

  – Na recâmara da ala esquerda – suplicou Beatriz – , pelo amor de Deus…

  Os servos e os Condes Castaldi trouxeram o corpo do inditoso cavaliere para a alcova e logo após desceram-no para a câmara ardente, onde fora erguido um catafalco. A bandeira que ele ostentava no palio cobria o ataúde. Mensageiros foram despachados em todas as direcções. O Bispo de Siena foi chamado às pressas.

  Após o desfalecimento demorado, Beatriz continuou inspirando cuidados.

  Apesar da hora avançada, os agregados e os aldeães das cercarias foram chamados a prantear o morto.

  Nas exéquias fúnebres, quando o cortejo se dirigia à capela mortuária para o sepultamento, o Bispo, realmente comovido, depois das palavras habituais, proferiu:

  – “Requiescat in pace.”

  Um calafrio percorreu os circunstantes e alguns tiveram a impressão de escutar estridente gargalhada.

  Possivelmente, pois eram o duque Dom Giovanni di Bicci di M. e Assunta, que zombavam quanto às possibilidades de o Conde Girólamo Cherubini di Bicci “ repousar em paz”…

  O dia nevoento e sombrio morreu numa débil fímbria bruxuleante no ocaso…

  O calendário assinalava 22 de Dezembro de 1753…

  Por exigência da viúva, a Condessa Beatriz di Castaldi Cherubini di Bicci, no Duomo de Siena, um ano depois, Sua Eminência Reverendíssima proferiu, entre júbilos generalizados:

  – “Em nome do Padre e do Filho e do Espírito Santo, eu te baptizo Conde Dom Carlo di Castaldi Cherubini di Bicci…”

  As invioláveis e inabordáveis Leis Divinas davam curso à Justiça, à Misericórdia e ao Amor de Nosso Pai.

/…
(*) Fenómeno de ideoplastia proporcionado pela consciência culpada.


VICTOR HUGO, Espírito “PÁRIAS EM REDENÇÃO” – LIVRO PRIMEIRO, 10 SUICÍDIO ABOMINÁVEL (2 de 2) 33º fragmento desta obra. Texto mediúnico, ditado a DIVALDO PEREIRA FRANCO.
(imagem de contextualização: L’âme de la forêt | 1898, tempera e folha de ouro sobre painel de Edgard Maxence)

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

O Génio Céltico e o Mundo Invisível ~


Capítulo IX

Religião dos celtas, o culto, os sacrifícios, a ideia da morte
(II)

  Uma sombra, porém, se estende sobre o Druidismo. A história ensina-nos que os sacrifícios humanos se cumpriam debaixo dos grandes carvalhos, o sangue corria sobre as mesas de pedra. Talvez esteja aí o erro capital, o lado imperfeito do culto, tão grande noutros pontos de vista. Não esqueçamos, entretanto, que todas as religiões, na sua origem, todos os cultos primitivos tinham o sacrifício do sangue.

  Ainda hoje, em cada manhã e em todos os ambientes do mundo católico o sangue do Cristo não jorra sobre o altar, pela voz do padre? Com efeito, perante os olhos dos crentes isso não é uma simples imagem, é o corpo e o sangue do grande crucificado que lhes são oferecidos. O dogma da presença real é, para eles, absoluto. Se alguma dúvida subsiste em certos espíritos, meditemos nestas palavras de Bossuet:

  “Por que os cristãos já não reconhecem o santo pavor de que eram tomados outrora perante o sacrifício? Será que ele cessou de ser terrível? Será que o sangue da nossa vítima já não corre a não ser sobre o Calvário? (*)

  Além do sacrifício sangrento da missa, é preciso ainda lembrar os suplícios e as fogueiras da inquisição, todas essas imolações que não são somente atentados à vida, mas também ultrajes à consciência?

  Esses sacrifícios não são mais odiosos do que aqueles dos druidas, onde somente figuravam criminosos e vítimas voluntárias? É preciso lembrar que os druidas eram magistrados e justiceiros. Os condenados à morte, os assassinos, eram oferecidos em holocaustos àquele que era para eles a fonte da justiça.

  Era um acto sagrado e, para torná-lo mais solene, para permitir ao condenado reflectir em si mesmo e preparar-se para o arrependimento, eles deixavam sempre um intervalo de cinco anos entre a sentença e a execução. Essas cerimónias expiatórias não seriam mais dignas do que as execuções dos nossos dias, onde vemos um povo, que pretende ser civilizado, passar as noites à volta das guilhotinas, atraído pelo chamariz de um espectáculo horrível e de impressões nocivas?

  Os sacrifícios voluntários entre os gauleses revestiam-se também de um carácter religioso. Os seus sentimentos profundos de imortalidade faziam com que se entregassem facilmente aos nossos antepassados. O homem oferecia-se como uma hóstia viva pela família, pela nação, pela salvação de todos. Mas todos esses sacrifícios caíram em desuso e tornaram-se muito raros no tempo de Vercingétorix. Em lugar de matar, contentavam-se em tirar algumas gotas de sangue dos fiéis estendidos sobre a pedra dos dolmens.

  Umas das características da filosofia céltica é a indiferença pela morte. Sob esse ponto de vista, a Gália era objecto de admiração para os povos pagãos, os quais não possuíam, no mesmo grau, a noção de imortalidade. Os nossos antepassados, não receando a morte, certos de viver no além-túmulo, estavam libertos de todo o medo.

  Em nenhuma crença se encontra um sentimento tão intenso do invisível e da solidariedade que une o mundo dos vivos ao dos espíritos. Todos aqueles que deixavam a Terra faziam-no carregados de mensagens destinadas aos mortos. Diodoro da Sicília deixou-nos esta passagem preciosa: “Nos funerais eles depositavam as cartas escritas aos mortos, pelos seus parentes, para que elas lhes fossem transmitidas”. A comunicação dos dois mundos era coisa comum. Pomponius Mela, Valério Máximo e todos os autores latinos que nós citamos dizem que entre os gauleses “se emprestava um valor para ser reembolsado no outro mundo”.

  Se, como no exemplo dos nossos ancestrais, consideramos a morte como um véu, uma simples cortina que pende sobre o caminho que percorremos, véu de grande efeito para o nosso olhar, que ele detém, mas impotente para impedir a nossa marcha que não pára; se compreendemos que só se trata de abandonar esse corpo usado para nos encontrarmos no nosso manto fluídico permanente, essa morte, tão temível para aqueles que nela vêem o aniquilamento, nada teria de espantoso para nós.

  Os druidas, dizíamos, tinham um amplo conhecimento da pluralidade dos mundos. A sua fé na imortalidade lhes apresentava as almas, libertas dos liames terrestres, percorrendo os espaços, reunindo os amigos, os parentes que partiram antes delas, visitando com eles os arquipélagos estelares, as esferas inumeráveis onde desabrocham a vida, a luz e a felicidade.

  Que espectáculos, que maravilhas representam para os nossos olhos esses mundos longínquos, que variedade de sensações que se podem tirar desses universos! E essas almas prosseguem a sua viagem na imensidade, até que, submetidas à lei eterna, retomam órgãos novos, se fixam sobre um desses mundos para cooperar, pelo trabalho, para o seu adiantamento, para o seu progresso. Perante esses horizontes imensos, como a nossa Terra fica pequena! E, diante de tais perspectivas, pode temer-se a morte?

Os gauleses não conheciam, então, os infernos sinistros nem os paraísos de imobilidade. As vidas de além-túmulo eram, para eles, repletas de actividade, fecundadas por uma faina constante, vidas onde a personalidade e a liberdade do ser se desenvolviam e se aperfeiçoavam incessantemente.

É isso que diz Lucano para os druidas, no primeiro canto de A Farsália:

“Para vós, as sombras não estão enterradas nos reinos sombrios de Plutão, mas a alma voa para animar outros membros em mundos novos. A morte nada mais é do que o meio de uma longa vida. Felizes são os povos que não conhecem o medo da morte. Daí o seu heroísmo no seio das disputas sangrentas, o seu desprezo pela morte.”

  Horácio definia a Gália nestes termos: A região onde não se sofre o terror da morte.

  Não haveria um contraste chocante entre esta crença máscula e poderosa e a ideia da eternidade dos suplícios ou daquela, não menos importuna, do aniquilamento absoluto? A fé na sobrevivência era a essência do Druidismo, e deste ponto de vista decorria uma ordem política e social fundada nos princípios de igualdade, de liberdade moral.

  Essa mesma fé inspirava também as práticas, as cerimónias fúnebres, tão diferentes das nossas. Nós, modernos, temos pelo nosso corpo uma complacência infinita; os gauleses consideravam os cadáveres como ferramentas inaptas, apressavam-se em dar-lhes fim. Frequentemente eles queimavam os corpos, recolhendo as cinzas em urnas. Nós estendemos a credulidade até crer, com o Catolicismo, que a nossa alma está ligada a esses resíduos e que um dia ela ressuscitará com eles!

  Mas o tempo zomba da nossa cegueira e sejam os nossos restos enterrados sob o mármore ou sob a pedra, sempre chega uma hora onde, pó, eles retornam ao pó, onde a grande lei cíclica dispersa os seus átomos.

  Um dia que está próximo, quando estivermos mais esclarecidos sobre os nossos destinos, nós não suportaremos mais esse aparato e esses cantos lúgubres, todas essas manifestações de um culto que responde tão pouco à realidade das coisas.

  Penetrados, como os nossos antepassados, pela ideia de que a nossa vida é infinita, de que ela se renova incessantemente em diversos meios, nós veremos na morte somente uma transformação necessária, uma das fases da existência do progresso.

  É dos gauleses que nos vem a comemoração dos mortos, essa festa do dia dois de Novembro que caracteriza o nosso povo entre todos. Só que, em vez de comemorar, como nós, nos cemitérios, entre túmulos, era no lar que eles celebravam a lembrança dos amigos afastados, mas não perdidos, que eles evocavam a memória dos espíritos amados que algumas vezes se manifestavam por meio das druidisas e dos bardos inspirados.

  Henri Martin, na sua Histoire de France, volume I, página 71, assim se expressa:

  “Tudo o que se relaciona com a doutrina da morte e do renascimento periódico do mundo e de todos os seres parece estar concentrado na crença e nos ritos do primeiro de Novembro.

  A noite cheia de mistérios que o Druidismo legou ao Cristianismo e que o dobre de finados (i) anuncia, ainda hoje, a todos os povos católicos esquecidos das origens desta antiga comemoração. Cada uma das grandes regiões do mundo galo-kímrico tinha um centro ou ambiente sagrado a cuja jurisdição correspondiam todas as partes do território confederado. Nesse centro ardia um fogo perpétuo que era chamado de “fogo-pai”.

  Na noite de primeiro de Novembro, conforme as tradições irlandesas, os druidas se reuniam em volta do “fogo-pai”, guardado por um pontífice forjador, e o extinguiam. A este sinal, pouco a pouco, se apagavam todos os fogos; por toda a parte reinava um silêncio de morte, a natureza inteira parecia mergulhada numa noite primitiva. De repente, o fogo brilhava de novo sobre a montanha santa e gritos de alegria rebentavam de todos os lados. A chama cedida pelo “fogo-pai” corria de foco em foco, de uma ponta à outra, e reanimava a vida em toda a parte.”

/…
(*) Citado por Jean Reynaud (i) em L’Esprit de la Gaule.


LÉON DENIS, O Génio Céltico e o Mundo Invisível, Segunda Parte – Capítulo IX Religião dos celtas, o culto, os sacrifícios, a ideia da morte (2 de 3) 30º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: A Apoteose dos heróis franceses que morreram pelo seu país durante a guerra da Liberdade, pintura de Anne-Louis Girodet-Trioson)

domingo, 5 de novembro de 2017

o grande desconhecido ~


VIII – Espiritismo e Psicologia |

Estamos na Era Psicológica, sob o signo avançado da Psi, a letra grega que designa os fenómenos parapsicológicos. Até 1930 os críticos do Espiritismo tentavam explicar os processos mediúnicos por hipóteses psicológicas. Depois dessa data, com as pesquisas de Rhine e da sua equipa, o socorro inesperado da Parapsicologia forneceu novas armas aos negadores. Tivemos o espectáculo de uma estranha euforia nos meios intelectuais: os homens de cultura proclamavam com entusiasmo a absoluta nulidade destes fenómenos. Não eram mais do que pó que se reverte ao pó. Isso era suficiente para mostrar que a consciência mundial estava muito pesada. Mas dez anos depois das difíceis investigações iniciais da Universidade de Duke, as pesquisas tomaram um ritmo acelerado e Rhine anunciou as suas absurdas descobertas: o pensamento não é físico; há no homem um conteúdo extrafísico; a mente sobrevive à morte do corpo; a percepção extra-sensorial supera todas as barreiras físicas. Vassiliev, na URSS, dispôs-se a desfazer essas balelas burguesas e fracassou no seu intento. Soal e Carington, da Universidade de Londres e Cambridge, afirmaram a sobrevivência da alma e tiveram o desplante de obter sucesso com as experiências de voz-directa (psicofonia), fenómeno em que uma entidade espiritual falava directamente, fazendo vibrar a sua voz no ar. Price, também da Universidade de Londres, teve a audácia de explicar as assombrações londrinas como manifestações de espíritos.

A última esperança das libélulas humanas, dos homens-pó, apagava-se como chama de fogo-de-artifício nas mãos dos negadores. Surgiram então os mágicos de palco e os politiqueiros de feira, sacerdotes broncos e frades ignorantes, para combater com os seus truques ingénuos aquilo mesmo que eles pregavam e que era a base do seu profissionalismo religioso: a sobrevivência da criatura humana. Esse atrevimento causou mal-estar no próprio clero, que via o seu prestígio cultural abalado perante as elites culturais. O que esses mágicos de palco semearam no mundo, através da televisão, jornais, revistas, livros, conferências e cursos pseudocientíficos, tudo isso muito rendoso financeiramente, constitui o lixo subcultural do Século XX e explica a razão das contradições espantosas da nossa época. A miséria mental desses mágicos de picadeiro encontrava ressonância nas camadas ignorantes do povo e, uma refracção espantosa, projectava a imagem da miséria cultural de figuras emplacadas nos meios universitários e eclesiásticos para o trânsito nas vias obscuras do submundo cultural. Tudo servia, como sempre, no vale-tudo da luta contra o Espiritismo. Surgiu um clarão nas trevas: a descoberta do corpo bioplásmico do homem e a prova científica da sua sobrevivência, obtida pelos cientistas soviéticos em pesquisas biofísicas na Universidade de Kirov. Na fortaleza ideológica do Materialismo Científico no mundo havia sido descoberta a realidade do corpo espiritual da tradição cristã, o perispírito da terminologia espírita, que o Apóstolo Paulo chamara com ênfase de corpo da ressurreição. A única medida possível contra isso foi logo tomada pelo oficialismo soviético, negando validade à descoberta oficialmente realizada e sustando a divulgação de novas informações a respeito. Esse contragolpe só teve, naturalmente, efeito político. Não se podia impedir o avanço irrefreável das Ciências, mas a censura soviética foi bem recebida pelos homens-pó da vacilante cultura ocidental e fez-se o silêncio desejado sobre a mais importante conquista científica do século. Os mágicos de picadeiro, jejunos em ciências, desertores da razão, intoxicados de incoerência, cantaram de galo nas brigas da ignorância.

Apesar dessa nova euforia dos adeptos do nada, esse conceito vazio, segundo Kant, as pesquisas parapsicológicas se intensificaram na URSS e em toda a órbita soviética. Na Roménia, para evitar complicações políticas aos investigadores do paranormal, forjou-se um novo nome para a Ciência de Rhine, que passou a chamar-se Psicotrónica. O nome rebarbativo funciona como cobertura táctica para os pesquisadores. Sentados comodamente no trono do psiquismoos psicotrónicos disfarçam o seu interesse de sobreviver após a morte, imitando a táctica do Prof. Raikov na Universidade de Moscovo, para pesquisar a reencarnação como simples fenómeno psicológico. Bastam essas manobras anticientíficas para provar quanto estava certo Léon Denis, numa conferência em Paris, na década de 1920, sobre o tema A Missão do Século XX. O Druida da Lorena, como Conan Doyle o chamava, previu que o nosso século seria o da vitória do Espiritismo, com a comprovação científica dos seus princípios. Aí estão as provas obtidas através de pesquisas científico-tecnológicas, ao gosto do nosso tempo. Filosófica, científica e religiosamente o Espiritismo encontrou, no nosso século, as comprovações de sua veracidade, não produzidas pelos adeptos, mas pelos seus mais poderosos adversários.

No campo psicológico, o desenvolvimento da Psicanálise, a partir de Freud, atingiu com Jung o momento crítico da revelação dos arquétipos, só possíveis nas dimensões do espírito, e por fim, a teoria das coincidências significativas (contribuição junguiana à Parapsicologia) as confissões mediúnicas do grande psicólogo nas suas memórias e a sua confiança na descoberta científica da alma. Em 1944 Jung encerrou o seu livro a respeito declarando: “Estou convencido do estudo científico da alma como ciência do futuro. A Parapsicologia é a mais jovem das Ciências Humanas e o seu desenvolvimento não foi ainda além dos primeiros passos.”

Gestalt ou Psicologia da Forma, no campo da Psicologia da Percepção, revelou o princípio de unidade formal em que se destaca o fenómeno da pregnância, e mostrou que não vivemos segundo a realidade concreta do mundo, mas segundo a nossa ilusão psicológica, dessa realidade, confirmando o princípio espírita das aparências significativas. Da conjugação dialéctica dessas duas correntes fundamentais da Psicologia contemporânea surgiu a síntese da concepção parapsicológica do homem, com o domínio do inconsciente na interpretação das percepções sensoriais, abrindo-se para as dimensões da percepção extra-sensorial. A descoberta científica do perispírito confirmou essa tese no plano objectivo, revelando de novo (em termos espíritas) a fonte secreta das captações e manifestações paranormais. O plasma físico do perispírito (corpo semimaterial, segundo Kardecé dirigido nas manifestações pelos elementos não-físicos do corpo espiritual.

Os teóricos desavisados do inconsciente, como os da escrita automática e dos fenómenos físicos da mediunidade, esquecem-se (ou nunca tomaram conhecimento) dos estudos e das pesquisas de KardecAksakof e Bozzano sobre o animismo ou manifestações da própria alma ou espírito do médium nas manifestações mediúnicas. Formulam, assim, hipóteses superadas logo no início das pesquisas espíritas, quando o próprio Freud ainda não tinha nascido.

Kardec foi também o primeiro a notar as interferências anímicas nas manifestações, por influência sugestiva e natural das lembranças antigas ou recentes do médium. Essas infiltrações (que acontecem também em plena vigília de todos nós), decorrem da lei de associação de ideias, mas são facilmente identificáveis pelos pesquisadores e as pessoas experimentadas na prática mediúnicaOchorowicz, por exemplo, chegou ao cúmulo, nas suas experiências de materialização com a médium Stanislawa, de considerar a entidade que se materializava como desdobramento material da médium. Chamava o espírito materializado de Stanislawa II. Levou, assim, a manifestação do animismo ao extremo de uma suposta divisão do organismo da médium em dois corpos diferentes. Não obstante, Stanislawa II era bem diferenciada da médium, tanto física como psicologicamente. Muitos absurdos dessa espécie foram cometidos na pesquisa espírita por cientistas rigorosos que se viam aturdidos com o acontecimento dos factos. Os psicólogos actuais, que pretendam opinar sobre questões espíritas, deviam ter a honestidade de primeiro estudar a Doutrina e a sua História, para não incidirem nas tolices do passado, já há muito superadas, e não cometerem o crime de considerar como tolos, ingénuos ou farsantes os maiores cientistas do século passado que trataram do assunto a sério, com a maior gravidade. Por outro lado, os espíritas devem cuidar mais de sua formação doutrinária, para não se perturbarem com a repetição de papagaiadas seculares contra a doutrina. Alfred Russell Wallace, adversário de Darwin, estudando no século passado as relações do Espiritismo com a Psicologia, declarou que todas as escolas psicológicas não eram mais do que formas de uma psicologia elementar. O trecho de Jung que reproduzimos acima confirma essa posição de Wallace nos nossos dias. Qual o inexperiente estudante de Psicologia actual que se atreve a contestar esses dois gigantes?

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José Herculano Pires, Curso Dinâmico de Espiritismo, VIII – Espiritismo e Psicologia, 9º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Somos as aves de fogo por sobre os campos celestes, pintura em acrílico de Costa Brites)