~ Plano da Natureza ~
~ O Instinto e a Inteligência ~
(II)
Enquanto traço estas linhas, aqui, dentro de pequeno bosque cujas aves
me conhecem, tenho defronte de mim um ninho de rouxinóis.
Quatro filhotes implumes, trémulos, ali se premem tão aconchegados que
mal se lhes distingue as cabeças volumosas, relativamente e, os olhos negros,
ainda mais. Nascidos anteontem, nada vêem, nada sabem ainda, se há arvoredos e
luz.
Se fossem abandonados, assim, não tardariam a perecer. O coração dos
genitores, porém, freme por eles com anseios verdadeiramente maternos. Eles lá
estão, ambos, pai e mãe, à borda do ninho e aconchegados também. Enfiam o bico
nos quatro biquinhos escancarados e é de notar a força que lhes sustenta e
alonga os pescocitos. Pai e mãe, trazendo-lhes no papo a provisão,
ministram-lhes dessarte, durante alguns minutos, os primeiros alimentos, o mel
e o leite que os há de nutrir no futuro. Que família encantadora! E como prezam
a vida todos os seis! Os raios solares coam-se através dos ramos, do vale
evolam-se perfumes, é a vida a espanejar-se em luz nesta temperatura tépida de
Maio. Por vezes, o minúsculo casal suspende a tarefa e contempla os filhotes
com ar de contentamento e movimentos de cabeça significativos. Também se fitam
silenciosos, colam-se as cabeças e confundem-se os bicos, como num beijo de
amor… Depois, ei-los como a se consultarem. Uma nuvem refrescou a atmosfera. O
pai voou, a mãe aninhou-se, abrindo as asas de maneira a cobrir todo o ninho e,
todavia, mantendo alta a cabeça, para ver o horizonte e sondar as redondezas.
Mas, agora, eis que regressa o rouxinol e se coloca, tal como antes, na beira
do ninho, a procurar o bico da companheira. É que chegou a hora do jantar da
família e o chefe solícito lhe traz o cibo preferido. Quanto a
ela, parece não lhe desprazer o regime, uma vez que aspira, como inebriada, o
manjar que lhe trazem. Tremem-lhe as asas, todo o corpo lhe palpita, enquanto o
marido vai e volta num afã constante, carreando-lhe no bico um repasto
completo. Muito lhes cabe fazer pela prole. Agora. ei-los sérios. Há 15 dias,
passavam o tempo a cantar, a saltitar de galho em galho, a brincar, a amar...
Agora, já não fazem nada assim, estão casados, chefes de família, responsáveis
por uma nova geração. Até que os filhotes emplumem, precisam levar-lhes à boca
o que mais convém na sua idade e preocupam-se já com o seu destino. Amam-nos
e talvez eles não compreendam aquela afeição maternal. É possível que voem, tão
logo a mãe lhes ensine a voar; é possível que subitamente a releguem a uma
solidão definitiva, sem jamais se lembrarem da infância. “A afeição é
como os rios; desce e não sobe.”
Em que pensam, hoje, esse rouxinol e a sua companheira? Certamente, ao
cogitarem do futuro dos filhos, não têm em mente as profissões sociais e os
princípios de honorabilidade que devem nortear todas as carreiras. Por certo
que não serão atormentados por cálculos económicos, tantas vezes falaciosos
para o homem. Mas aos que negam o instinto, perguntaremos: em que escola essa
esposa, antes de ser mãe, aprendeu a construir o ninho que lhe havia de receber
os ovos?
Ela tem apenas um ano e ainda não havia chocado: quem lhe ensinou a
fazer esse ninho, precisamente assim e não de outro modo? Quem lhe teria falado
de temperatura necessária à incubação e eclosão do ovo fecundado? Quem lhe
teria dito que chocando, aquecendo por 15 dias aqueles ovos, facultaria a sua
geração? Posição de constrangimento, apesar do alívio que experimenta,
tornar-se-ia insuportável à sua vivacidade, se um determinismo instintivo não a
amparasse. E quando os ovos vingaram, quem lhe disse que precisava
sair do ninho e que, vivos e precisando subsistir os pequeninos seres,
importava granjear-lhes alimentação adequada? Quem a forçou a passar mais
quinze noites de asas abertas sobre o ninho, na mais fatigante das posições
para uma ave que deve dormir sobre as patas? A estas, poderíamos juntar mil
outras advertências. Hão de responder-nos que a primeira espécie aprendeu tudo
isso pelo hábito, e que as tendências se transmitem por hereditariedade; mas é
recair no mistério das gerações, é não mais que recuar o problema à primeira
espécie, ou melhor ainda, se o quiserem – aos primeiros tipos, supostos
geradores de todas as variedades. Ora, admitindo-se mesmo, contra toda a
probabilidade, que a construção dos ninhos, a incubação e os primeiros cuidados
com a prole sejam mostras de inteligência, não do instinto, e que as espécies
tenham, sucessivamente, aprendido a proceder dessa maneira – o que, digamo-lo
ainda mais uma vez, nos parece inadmissível – como resolver as questões atinentes à formação
do ser dentro do ovo? Quem construiu o ovo, berço de uma geração futura? Quem
criou e colocou o germe no centro desse ovo? Mediante um poder misterioso, um
ser da mesma natureza dos pais se vai mover neste fluido, o ovo incipiente vai
sofrer a mais maravilhosa das metamorfoses, vai viver! Completada a
transformação, surge uma ave! Assaz débil para se expor fora, não se
exterioriza e, enquanto aguarda, ei-la cercada pela clara do ovo, que é
precisamente o alimento que lhe convém até ao nascimento.
Assim, pouco a pouco, se forma inteiramente, asas e patas se desligam, a
cabeça sobreleva o peito, só lhe resta deixar a prisão e para isso o
bico se reveste de um esmalte, que cai logo depois do nascimento. Com
o bico assim aparelhado, ele se põe a quebrar a casca do ovo, até que consegue
pôr de fora a cabeça. Utiliza, então, as asas e acaba por se libertar
inteiramente.
Pois bem: – que os adversários, em tudo isto se esfalfem por formular as
mais vastas e intermináveis teorias, que acumulem hipóteses sobre hipóteses,
que recusem chamar instinto aos actos do nascituro, como da ave que o
engendrou; que embrulhem o assunto em explicações tortuosas, confusas, e nem
por isso deixamos de aí ter um facto natural, eloquente na sua simplicidade e
que eles, os adversários, não poderão derrocar. Aquele que criou o
rouxinol e quis que nos alegrasse ele com o seu canto vespertino, criou o mundo
e houve por bem dar-lhe as leis da própria conservação. Não há ideia
mais simples e majestosa, nem que mais satisfaça a nossa necessidade de
conhecimento. Negar as leis conservadoras da vida é negar toda a Natureza. A
nós nos parece que para ir a tais extremos é preciso ser estólido ou
vítima de aberração espiritual. A verdadeira Ciência está muito longe de tais
negações! Seria, na verdade, uma desgraça se o fruto da sabedoria redundasse no
aniquilamento das leis que regem o Universo e constituem a sua unidade viva.
Porque, pois, em face de factos tão irresistíveis quanto os do instinto
animal, não confessar uma verdade bela e tocante ao mesmo tempo? Será
precisamente por ser bela e tocante que a recusam? Seríamos quase levados a
supô-lo, pois nestas teorias materialistas, basta seja uma coisa agradável ao
espírito para logo ser repelida. Esta, contudo, não é uma razão assaz
suficiente. Para nós, ao contrário, contemplamos a Natureza em todos os seus
aspectos. A verdade não pode deixar de ser bela e não é só Platão a pensar que o
belo é o esplendor da verdade. A Natureza é verdadeiramente bela. Longe
de desviar os olhos sempre que encontramos uma forma expressiva da beleza
eterna, admiramo-la e reconhecemo-la tão sinceramente quanto o fazemos a uma
verdade matemática. Não é a Natureza a nossa mãe? Onde já
passamos horas mais deliciosas e instrutivas do que as vividas intimamente com
ela, no seio da floresta silenciosa?
Contemplai, na sua maravilhosa harmonia, a lei de continuidade da
espécie humana, procurai aprofundar a ordem misteriosa que preside à nossa
geração e crescimento. Que maior prova de habilidade pudera dar a
Natureza ao envolver cada sexo nessa atracção indefinível, que o escraviza
suavemente aos seus desígnios soberanos? Que sabedoria não nos
testemunha ela, organizando, em bases rígidas, a vida oculta do ser em
formação, que até ao dia do nascimento se beneficia de uma existência
inteiramente diversa da de todos os outros seres vivos? Que
previdência não demonstra ao criar, para nutrição do tesouro oculto,
órgãos diferentes dos que lhe haverão de servir na vida atmosférica e ao
preparar para os primeiros dias a mais pura das ambrosias? Perguntai
às jovens mães quantos cuidados requerem esses recém-nascidos fragílimos e
trémulos. E, contudo, a Natureza ainda será a mais vigilante das mães. Qual a
afeição mais tenra, o amor mais carinhoso, o devotamento mais extremado, de
mãe; qual a inteligência mais lúcida, a previdência mais sábia de um pai, que
poderiam rivalizar com os cuidados incessantes e universais da Natureza, tão
profusa, infatigável e prodigamente despendidos na protecção individual,
activa, a cada um de seus filhos?
Sobre a previdência da Natureza, poderíamos escrever grossos
“in-fólios”. Poderíamos perguntar se é por acaso e sem objectivo que as
espécies mais fracas e expostas à morte são precisamente as mais fecundas, como
sejam galináceos, perdizes, etc., pondo dezenas de ovos fecundados e deixando,
ao fim de um ano, centenas de rebentos, enquanto as aves de rapina, condores,
águias, etc., se apresentam, comparativamente, quase estéreis. Poderíamos,
também, perguntar se é às cegas que a Natureza decora de encantos particulares
os pequeninos seres sem força e sem amparo, despertando-nos interesse e atenção
para essas cabecitas louras, que, privadas de assistência, acabariam por dormir
no seu berço um sono eterno. Poderíamos, ainda, invocar aqui o espectáculo integral
da Criação vivente, mas, intimamente convencido da adesão dos leitores, neste
particular, não insistiremos inutilmente.
Parece-nos que esses eminentes trabalhadores fizeram entusiasmados a
maior parte do caminho e que, não possuindo vista telescópica capaz de
distinguir o fim, esquecem que o progresso das ciências tem verdadeiramente um
fim e estacam, inertes, depois de provarem uma capacidade activa incontestável.
Por terem verificado que as causas finais, imaginadas pela vaidade humana, só
lhe têm servido, há tantos séculos, de redança por embalar-se displicentemente;
– depois de se haverem certificado que os deuses-escravos do orgulho, as
criações da fantasia e as ilusórias teorias de um pensamento mesquinho mais não
são que simulacros sem realidade, sombras, fantasmas que um raio de luz das
ciências basta para diluir – concluíram não haver directriz nem finalidade na
Criação. Porque o homem se enganou na solução de um problema, decidiram eles
que não há problema nem solução. Confundindo inexplicavelmente a
verdade com a noção do que nos é dado saber; confundindo, igualmente, a
grandeza real de uma obra com a ideia que fazemos dela, tal como os teólogos da
Idade Média a confundirem a ideia religiosa, em si mesma, com a forma católica
particularista, proclamam eles que a falsidade das nossas noções individuais
acarretam a ruína do próprio objecto dessas noções. Na verdade, para
espíritos habituados aos rigores do raciocínio; para homens sábios, que parece
procurarem com absoluto desinteresse a verdade tão longamente dissimulada,
dir-se-á que não provam, dessarte, excelência nem superioridade de vistas. Antes,
pelo contrário, evidenciam directamente a estreiteza da esfera que habitam,
dispostos a recusar-lhe qualquer ampliação, obstinados em lhe vedar toda e
qualquer luz, como se temessem que essa luz viesse espalhar reveladoras
claridades no horizonte e recuar, para muito além dos seus recursos, os limites
do Universo.
Os nossos opugnadores pretendem fazer ciência quando declaram que a
organização dos seres não justifica o ascendente de um desígnio na Natureza. Em
lugar de ciência, o que eles fazem é puro sistematismo, arbitrário, nisto como
em tudo o mais.
De facto: em que consista o método científico? Que será uma teoria em
Astronomia, em Física, em Química? Observamos os factos e quando possuímos um
conjunto de observações suficientes procuramos religá-los mutuamente entre si,
mediante uma lei. Vemos essa lei? Nunca, jamais. Adivinhamo-la pela discussão
dos factos e talvez a denominação que lhe damos não seja a que melhor convenha.
Esta teoria, pela qual o nosso espírito insaciável sente a necessidade
de explicar todas as coisas, não é, antes de tudo, senão uma hipótese cujo
valor consiste, principalmente, na satisfação que nos proporciona a explicação
natural dos factos estudados.
Por muito tempo ela não passa de hipótese, inconsistente e frágil, que o
mais leve sopro pode derrubar, para só elevar-se à verdadeira teoria quando
suficientemente examinada, experimentada e sancionada pelo estudo. De outra
forma, resvala para o campo das erronias imaginárias.
Vejamos, por exemplo, os movimentos dos corpos celestes.
Notamos que eles descrevem elipses de que o Sol se constitui um dos
focos; notamos que as superfícies percorridas são proporcionais aos
tempos, e notamos que estes tempos de revolução, multiplicados por si mesmos,
estão entre si como os grandes eixos multiplicados três vezes por si mesmos. Para
explicar os movimentos da mecânica celeste, emite-se a hipótese de que os
corpos se atraem na razão directa das massas e inversa do quadrado das
distâncias. Enunciar esta hipótese, vale simplesmente por dizer que as coisas
se passam como se os astros se atraíssem. Depois, explicando essa hipótese,
perfeitamente, todos os factos observados e dando conta de todas as
circunstâncias do problema, se torna ela uma teoria.
Enfim, achando-se esta lei universalmente demonstrada, tanto pelo
balanço das estrelas gémeas, na profundeza dos céus, como pela queda de uma
maçã na superfície da Terra, afirma-se que a lei chamada gravitação (i) representa,
de facto, a força reguladora dos mundos.
Idêntico é o processo que empregamos ao declarar que os organismos vivos
são construídos como se a causa, fosse ela qual fosse, que as condicionou teria
tido em vista uma destinação dos órgãos em relação à vida peculiar de cada ser,
tanto quanto à existência global de todos os seres em conjunto.
As verdadeiras causas finais são, portanto, um resultado da observação
científica, O método é o mesmo e, como bem o disse Flourens, é preciso
partir não das causas finais para os factos, mas destes para aquelas. Induzir
do conhecido para o desconhecido, eis o único método positivo. Ora, o resultado
deste método, seja ele qual for, merece ser proclamado como científico. Pode
suceder que a revelação de um plano e de uma finalidade na Natureza não agrade
a Fulano ou Beltrano, mas isso pouco importa. Fulano e Beltrano estão no mais
falso dos erros quando nos acusam de não proceder de acordo com a Ciência
experimental e incidem na mais fatal das ilusões quando imaginam proceder de
acordo com essa ciência. Trocam, assim, os papéis pró-domo sua, como
frequentemente acontece.
A verdade, porém, despreza-lhes as tendências e fica inalteravelmente
idêntica, sem se preocupar com os prismas através dos quais a encaram olhos
interessados em vê-la abaixo da sua posição real.
Esquisitice inexplicável em homens judiciosos, pretenderem que,
admitindo a existência de Deus, sejamos obrigados a admitir o arbítrio na
Natureza, como se a vontade suprema não fosse necessária, infinitamente sábia
e, por consequência, universalmente regular. “Os que só vêem em todos
os movimentos da Natureza os meios de atingir um fim – diz Moleschott –
chegam muito logicamente à noção de uma personalidade que, num tal propósito,
confere à matéria as suas propriedades. Esta personalidade também designará o
fim.
“Se assim é, se uma personalidade designa os fins e escolhe os meios, a
lei de necessidade desaparece da Natureza. Cada fenómeno se torna partilha de
um jogo do acaso e de um arbítrio sem finalidade.”
J. B. Biot afigura-se-nos
mais bem inspirado quando assim conclui o exame da Natureza: (*) “Por
mim, quanto mais considero a harmonia, a imensidade do Universo e as maravilhas
da Criação, tanto mais admiro esse concerto maravilhoso e menos apto me julgo
para explicá-lo. Ousarei dizer, mesmo por havê-lo experimentado, que essas
explicações imperfeitas, esses vagos ou falsos relatórios, que alguns modernos
escritores querem inculcar como harmonias sublimes, nunca nos pareceram mais
temerários e fúteis do que quando defrontamos a Natureza. Quando se há
tido a ventura de conhecer e sentir as verdadeiras belezas que ela ostenta,
somos tentados a conceituar, como profanadores e ímpios, quantos a desfiguram
com indignos disfarces. Assim é que todos os seres organizados tiveram os seus
meios próprios de vida, tão numerosos e tão multiplicados na variação do
mecanismo, quanto as estrelas do céu.
“E note-se que isto é o que percebemos exteriormente, pois o mais
maravilhoso nos fica oculto. Quem, jamais, pôde compreender a acção química das
membranas vivas, a causa dos movimentos voluntários e involuntários – que digo
eu? – o voo da mosca, os torneios da borboleta? Quando a nossa
inteligência mal pode atingir o conhecimento das disposições exteriores do
organismo e mal pode apreender as relações entre si de alguma das peças que o
compõem, seria, parece-nos, ilógico não ver no âmago desse conjunto o
princípio inteligente, como o ordenador e regulador de tudo. Por mim
quero, ao menos, possuir a filosofia da minha ignorância.”
A ordem verificada nos factos não produzidos pelo homem – advertiremos
ainda com o ilustre escritor (**) – mostra-nos que as
correlações apresentadas pelo mundo material resultam de acções e reacções que,
combinadas, se regem por leis. Pela experiência contínua da vida,
sabemos que sempre as correlações, as harmonias, as leis, são obra de uma
inteligência cujo poder é proporcionado à extensão dos fastos e das harmonias
coordenadas. Temos assim, por evidente, que o Universo é governado por uma
inteligência. Estas correlações e estas harmonias estão em
correspondência com as propriedades intrínsecas da matéria e a elas se ligam de
tal sorte que deixariam de existir se essas propriedades substanciais fossem
outras. Daí concluímos que a matéria com as suas propriedades intrínsecas é
também obra da Inteligência, que lhe estabeleceu as leis. O bom
senso decreta, imperiosamente, e no que pesem às alegações contrárias, que não
podemos atribuir a uma circunstância molecular, fortuita, a atracção, a
electricidade, o calor, a composição do ar, factos cósmicos perfeitamente
apropriados à vegetação das plantas, à vida animal, pela mesma razão que
ninguém admitiria pudessem milhares de tipos de impressão, espalhados ao acaso,
produzir a Ilíada ou
a Jerusalém Libertada.
Se, para fugir a conclusões lógicas, nos dissessem que essas qualidades são
efeitos inerentes, nem por isso elidiriam a necessidade lógica de uma
intervenção suprema e inteligente.
Juntemos a esta imagem um aforismo pouco
discutível: todo o fim supõe uma intenção, toda a intenção uma consciência e
toda a consciência uma personalidade.
O problema das causas finais, repitamo-lo, é de solução mais difícil e
complicada do que se prefigura a muitos imaginativos apressados. Ele se traduz,
como diriam os antepassados, antes em potencial do que em acto. Os factos
gerais o decidem e os particulares o dificultam. Para bem o apreender, importa
ao espírito adstringir-se a
um exame severo e, de um golpe de vista, abranger, senão a totalidade, pelo
menos a maioria das coisas conhecidas, sob o duplo aspecto do tempo e
do espaço.
O primeiro efeito desse rigoroso estudo crítico é, precisamente,
afastá-lo de toda a crença e resguardá-lo dessas mesquinhas interpretações
humanas, que levam a criatura a referir tudo a si mesma, como eixo central da
Criação.
Assim procedendo, poderemos, então, rir das ilusões, vaidades e
tentativas insensatas do orgulho humano. Esse, o primeiro resultado do estudo
geral dos seres.
/…
(*) Mélanges Scientifiques et Litteraires (i),
t. 2º.
(**) J. M. de la Codre – Les Dessems de
Dieu. Este ensaio de filosofia religiosa e prática caracteriza uma das
felizes tendências contemporâneas contra a invasão do ateísmo. Os argumentos,
aí desenvolvidos, resumem-se no seguinte: Não existe o impossível; no Universo
há ordem e a ordem só pode emanar de uma inteligência. O Universo é, portanto,
obra de uma inteligência. Essa ordem resulta da execução de uma lei, ou do
concerto de várias leis e, as leis são sempre e, necessariamente, obra de uma
vontade inteligente. O autor do Universo, Deus, sendo uma Inteligência, teve
indubitavelmente um fim, criando o Universo. Esse fim seria fazer-nos felizes,
como no-lo atestam as nossas aspirações e faculdades, no que possuem de mais
elevado. Todos os seres dotados de sensibilidade são, por conseguinte,
convocados à felicidade. E nós vemos, de facto, que eles são até certo ponto
felizes, por isso que todos vivem e amam a vida, assegurando-a e defendendo-a
até aos limites extremos. A felicidade, porém, não é igual para todos os seres:
Há, notadamente, uma diferença marcante entre a felicidade dos animais e a
presumida felicidade humana. Aquela se adstringe a estreitos limites, é uma
felicidade simplesmente “dada”, enquanto que esta toma vastas proporções e
reveste outro carácter; é uma felicidade merecida”.
Compreender-se-á facilmente esta distinção – diz o Autor –
observando os factos e comparando os raros e incompletos prazeres de que
compartilham os seres puramente sensitivos, com os gozos serenos, infinitos,
que a alma humana encontra no cumprimento do dever, na piedade, nos doces
afectos da família. A maior parte dos sofrimentos nos sobrevêm quando, por
ignorância ou rebeldia, contravimos às leis do criador.
Da perpetuidade dessa aspiração a uma felicidade completa e
indefinida, e da faculdade de aperfeiçoamento moral, bem como de conhecimento
progressivo; – uma vez que essa felicidade não pode existir na Terra – devemos
concluir que o homem não perecerá neste mundo com o seu invólucro corporal. A
esta hermenêutica podemos ajuntar o seguinte, que o autor nos expôs em carta
particular:
“A Natureza é ao mesmo tempo o laboratório e o operário de
Deus, assim como a oficina provida de um preparador é o laboratório do físico
ou do químico. Tanto mais superiores são os produtos brotados da Natureza, em
relação aos de nossas oficinas, quanto mais exaltam e atestam o poder e a
inteligência divinos, em relação aos de nossos sábios. Estes, com os materiais
que lhes oferece a Natureza, não conseguem fazer o que faz “o operário de Deus”
sob a sua direcção. D:H::N:O “Deus está para o homem como os produtos da
Natureza estão para os da oficina.” D:N::H:B Deus “actua” sobre a Natureza como
a vontade do homem, guiada pela sua inteligência, “actua” sobre os seus olhos e
braços. Num capítulo de Os Desígnios de Deus, consagrado à
Pluralidade dos Mundos habitados, o Autor contradita a nossa opinião sobre a
variedade dos organismos no Universo e a ideia de uma semelhança entre todas as
humanidades. Baseia-se ele no seguinte raciocínio: se os habitantes doutros
mundos não têm a forma terrestre e se estamos destinados a viver também nesses
mundos, não poderemos lá reconhecer os amigos caros... A objecção é mais
sentimental que científica e não cabe discuti-la aqui. Podemos, não obstante,
repetir que, em virtude da diversidade de acção das forças naturais, noutros
planetas, é quase certo que a série zoológica lá se tenha construído sobre um
tipo análogo ao da série terrestre.
(Referências: – Leis que presidem à conservação das
espécies. – Faculdades instintivas especiais. – Não se explica o instinto pela
suposição de hábitos hereditários. – Distinção fundamental entre os factos
instintivos e os racionais. – Desígnio nas obras da Natureza. – Ordem geral e
as harmonias universais. – Qual a distinção geral do mundo? – Magnitude do
problema. – Insuficiência da razão humana.)
Camille Flammarion, Deus na Natureza, Quarta Parte (4); O
Destino dos Seres e das Coisas, (2) Plano da Natureza, Instinto e
Inteligência (2 de 3), 35º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Jungle Tales (Contos da Selva) 1895,
pintura de James
Jebusa Shannon)


