A Imagem do Homem no Fenómeno Metapsíquico ~
Na ocorrência matapsíquica chamada materialização existe algo mais do que um
fenómeno: temos a imagem do homem e a face espiritual de sua
individualidade. Não esqueçamos que se esse fenómeno não tivesse uma raiz
que mergulha no eterno, não revelaria, como sempre o faz, uma imagem e uma face
espiritual. Seria constituído apenas de representações amorfas ou na
formação de figuras caprichosas, alheias à representação humana. Entretanto, no
fenómeno metapsíquico, manifesta-se sempre a imagem do homem, tão real e viva,
que fala, sente e ama.
Que demiurgo caprichoso se compraz em manifestar-se nesse
fenómeno, não através de loucas fantasmagorias, mas revelando-nos um homem
vivo, com a sua própria imagem e natureza? A esta pergunta podemos responder
que: se na materialização metapsíquica se apresenta a imagem humana, isso nos
fornece a razão para repelirmos as doutrinas do materialismo e estabelecermos os lineamentos de uma
biologia da alma, de uma nova concepção filosófica sobre o destino do Ser e da
existência.
O fenómeno de materialização metapsíquica representa um chamado ao
sentido metafísico dos novos tempos. Omitir essa
manifestação seria retardar o progresso da antropologia,
de maneira que os interesses de sistemas ou de seitas não deveriam
prevalecer frente a um fenómeno que tão fielmente nos revela a imagem
do homem e de seu espírito. Entretanto, essa espécie de
traição ao homem espiritual foi consumada pelos próprios “estudiosos” da
metapsíquica, temerosos de serem considerados espíritas.
Não obstante, a fenomenologia metapsíquica exige do filósofo uma nova
definição do homem, pois a sua inegável realidade nos permite afirmar que o ser
humano é algo mais que um facto fisiológico. Para a filosofia
espírita e o realismo metapsíquico, o homem é um dínamopsiquismo que ultrapassa
a representação física do organismo, ainda que a idiossincrasia universitária, de carácter
acomodatício, prefira uma metapsíquica fisiológica, como a de René Sudre. (i)
Mas não é para isso que o fenómeno metapsíquico nos mostra o seu mundo de aparições e
desaparições, esse conjunto de factos que estão revelando, com toda a
clareza, que o Espírito ultrapassa os centros nervosos e que possui um mundo
espiritual independente das circunvoluções cerebrais.
Onde a metapsíquica se mostra grandiosa e comovedora é
precisamente quando nos revela a imagem do homem, viva e materializada, como se regressasse de um longínquo país. É
então que se evidencia, num facto supranormal que revoluciona todo o mundo
conhecido da natureza, que a sua origem não é natural, como à força o querem
biólogos, filósofos materialistas, e até certas correntes
espiritualistas. Esquece-se que a metapsíquica nos oferece uma visão
nova do homem e do Universo, apresentando-nos ainda outras conclusões metafísicas e com esta visão, o homem se nos apresenta
como um poder psíquico que incide sobre a sua própria morte, para superá-la,
como um ser dotado da natureza imortal. Esta superação espiritual
da morte, pelo homem, é a razão fundamental do fenómeno metapsíquico; por isso,
a imagem do homem está presente na sua manifestação. Não esqueçamos
que a fisionomia humana não se manifesta em nenhum outro facto da natureza.
Assim, se a metapsíquica no-la revela, é porque persegue algum propósito
extraordinário, através do númeno que a conduz e a determina.
William
Crookes viu um espírito em carne e osso; viu um Ser quase
ressuscitado, que falava com os vivos e se dava o nome de Katie King. O sábio inglês tocou a sua carne e
sentiu que era viva, real e quente, o que levou o grande fisiólogo
espanhol Jaume Ferran a dizer, referindo-se às materializações: “Temos de confessar que estas
materializações constituem o grande enigma da metapsíquica. O facto de aparecerem formas de contornos
vagos, dotadas de uma luminosidade especial, que acabam por adquirir o aspecto
de órgãos, membros e até de figuras humanas completas, que falam, se movimentam
e respiram, exalando ácido carbónico; que têm pulsações arteriais, um coração
que bate e a temperatura normal; que se desvanecem na presença dos espectadores
e que, ainda quando seguradas firmemente, se esvaem sem deixar o menor
vestígio; ninguém poderá negar que realmente constitui um grande mistério.” (ii)
Crookes comprovou
também que essa materialização metapsíquica tinha sangue de imortalidade, (iii) e
que a imagem humana de Katie King era tão positiva e real como se não
procedesse do outro mundo.
Mas porque é que a teologia, a teosofia hindu e os sistemas
espiritualistas negaram a espiritualidade e a realidade desse assombroso
fenómeno? Porque é que negaram a prova da existência imortal do Espírito,
quando a tiveram diante dos olhos?
Acreditamos que a negaram porque se haviam esquecido das
próprias aparições de Cristo depois
da morte, essas divinas manifestações do Espírito de Jesus, que inauguraram
para sempre, diante da humanidade e da história, a relação permanente entre os
vivos e os mortos, como um prenúncio do que seria a ciência espírita do futuro. Assim,
as ciências espirituais que não aprovam as manifestações de entidades
invisíveis tornam-se superficiais e falíveis, divorciam-se das antigas
modalidades do cristianismo.
A investigação metapsíquica racionalizou a busca da imortalidade da
alma. Aplicando-lhe o método científico, transformou em matéria experimental o
que antes se considerava exclusivamente como sobrenatural ou pertencente à
especulação teológica. Deste modo, o que se acreditava ser do domínio
religioso passou para o domínio científico; consequentemente, a razão
pode agora buscar uma nova fé, através dessa “teologia experimental” a que se
referiu Jaume Ferran, ao tratar da obra metapsíquica do
professor Charles Richet.
O organismo humano, segundo a metapsíquica, possui um dinamopsiquismo que não depende dos
centros nervosos. É por isso que a velha teoria do paralelismo psicofisiológico
se desmorona ante a terrível metapsíquica, pois esta revela
fenómenos decisivos a respeito, que constituem verdadeira contribuição de um
grande númeno espiritual, encarregado de espiritualizar o
conhecimento humano. Segundo as provas metapsíquicas, o Ser é
uma força divina que dirige e condiciona o seu próprio desenvolvimento orgânico
e espiritual, submetendo-se para isso à maravilhosa lei dos renascimentos.
As teorias puramente naturalistas passam assim a ocupar
um lugar secundário, já que o conhecimento metapsíquico dota o homem de um novo sentido
filosófico e religioso. A ideia está recobrando a sua primazia na ordem do
conhecimento, mas com acento revolucionário, pois o idealismo da metapsíquica
não se parece em nada com o velho idealismo escolástico. A filosofia
idealista que emerge dos factos sobrenaturais vem confirmar o carácter dinâmico
e revolucionário do espiritismo. Em consequência, o homem metapsíquico
é totalmente diferente do homem materialista, tendo possibilidades de ampliar os sentidos
humanos e até mesmo de dotar a espécie de órgãos psíquicos que modificarão as
actuais noções de tempo e espaço. Os cinco sentidos do homem comum
poderão ser ampliados por um sexto sentido, nexo psíquico que
conectará a espécie com as realidades do mundo espiritual.
De acordo com a filosofia espírita, a imagem do homem
mudará, porque tudo está destinado a renovar-se. Deus não deu à criatura humana
uma imagem definitiva, mas uma face espiritual que se irá transformando com a
evolução. Porque o Ser é uma entidade que avança para a imagem de
Deus, através do grande processo palingenésico a
que está sujeito, adentrando-se cada vez mais no Divino Plano do Universo.
À luz da filosofia espírita podemos dizer que a metapsíquica é a ciência dos fenómenos espirituais.
Por esta ciência da Alma, como a chamaram Ernesto Bozzano e Charles Richet, a humanidade conhecerá a verdadeira senda
espiritual que deve percorrer. Mas isto só acontecerá quando cessarem as
rivalidades religiosas e ideológicas. Então se reconhecerá, para o bem
da espécie, que no fenómeno metapsíquico está presente à imagem do homem
desencarnado e que o espiritismo será o traço de união entre o materialismo e o espiritualismo clássicos.
O espiritualismo kardecista guarda
esse elo perdido, o nexo que reconciliará o pensamento materialista com o espiritualista. A tese de Gustave
Geley, que sustenta não haver matéria sem espírito, nem
espírito sem matéria, mostra-nos o enlace do elemento material com o
elemento espiritual. Reconhecido o fenómeno metapsíquico como uma manifestação da substância ectoplásmica, será fácil compreender que matéria e espírito
“são duas realidades que se conjugam, já que o desenvolvimento espiritual e
físico resulta da união entre o corpo e a ideia. Assim se reconhecerá que não
existe materialismo nem espiritualismo puros. Ambos os sistemas
participarão reciprocamente dos seus respectivos elementos e o que antes os
separava, agora os aproximará, demonstrando que o materialismo possui valores
para o espiritualismo e o espiritualismo valores para o materialismo. (iv)
A metapsíquica contribuirá enormemente para esta inter-relação
de ambos os sistemas, devido à realidade biológica e espiritual revelada pelos
seus fenómenos de materialização, que vieram confirmar a tese de que uma
essência una anima e movimenta a vida de todo o Universo. (v)
/...
(i) A posição metapsíquica de Sudre,
vigorosamente refutada por Ernesto Bozzano, renova-se actualmente na parapsicologia, Os
próprios trabalhos de Sudre estão sendo reeditados, no interesse de refutar as
conclusões extrafísicas de Rhine. (Nota
de J.H. Pires).
(ii) Do prólogo ao Tratado de Metapsíquica, de Charles Richet, edição espanhola.
(iii) “Sangue de imortalidade”, expressão vigorosa com
que o autor se refere à natureza humana do fenómeno. (Nota de J.H. Pires).
(iv) Kardec afirmou
que o espiritismo e
as ciências devem avançar juntos, porque tratam respectivamente dos dois
aspectos fundamentais do Universo: o espírito e a matéria. (Ver a
introdução de O Livro dos Espíritos e A Génese) Léon Denis,
em O Génio Céltico e o Mundo Invisível, declara que o espiritismo avança
para a realização da síntese do conhecimento, reunindo o saber espiritual e o
material. Mariotti reafirma essa tese epistemológica da filosofia espírita. (Nota
de J.H. Pires).
(v) A metapsíquica é considerada pelo autor como uma
espécie de campo científico do espiritismo, uma
zona intermediária em que o biológico e o anímico se encontram, dando lugar às
manifestações ectoplásmicas que sintetizam espírito e matéria. (Nota de J.H.
Pires).
Humberto Mariotti, O Homem e a Sociedade numa Nova
Civilização, Do Materialismo Histórico a uma Dialéctica do Espírito, 1ª
PARTE O NÚMENO ESPIRITUAL NOS FENÓMENOS SOCIAIS, Capítulo IX A
Imagem do Homem no Fenómeno Metapsíquico, 14º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Alrededores de la
ciudad paranóico-crítica: tarde al borde de la historia europea
1936, Salvador
Dali).
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