Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Da sombra do dogma à luz da razão ~


~ Uranografia Geral (*)
O espaço e o tempo ~

| Galileu, Espírito
(Études Uranographiques) (XIII)

~ Diversidade de mundos ~ 🌈

  Seguiste-nos nas nossas excursões celestes e visitastes connosco as regiões imensas do espaço. Sob o nosso olhar, os sóis sucederam a sóis, sistemas aos sistemas, nebulosas às nebulosas; o panorama esplêndido da harmonia do Cosmos desenvolveu-se à nossa frente e nós recebemos um antegosto (i) da ideia de infinito que só podemos compreender em toda a sua extensão consoante a nossa perfeição futura. Os mistérios do éter desvendaram o seu enigma, até aqui indecifrável, e nós concebemos, pelo menos, a ideia da universalidade (i) das coisas. Importa agora parar e reflectir.

  É belo, sem dúvida, ter reconhecido a dimensão ínfima da Terra e a sua importância medíocre na hierarquia dos mundos; belo ter diminuído a arrogância humana que nos é tão cara e termo-nos humilhado perante a grandeza absoluta; mas será mais belo ainda interpretar no sentido moral o espectáculo de que fomos testemunhas. Quero dizer no poder infinito da natureza e na ideia que deveremos fazer do seu modo de acção nas diversas partes do vasto Universo.

  Habituados como estamos a avaliar as coisas pela nossa pobre pequena residência, imaginamos que a natureza não conseguiu, ou não pode agir sobre os outros mundos, a não ser segundo as regras que conhecemos aqui em baixo. Ora é precisamente aí que é importante refazermos a nossa avaliação.

  Lançai por um instante o olhar para uma região qualquer do vosso globo e sobre uma criação da vossa natureza; não reconheceis o cunho de uma variedade infinita e a prova de uma actividade inigualável? Não vedes nas asas de um passarinho das Canárias, nas pétalas de um botão de rosa entreaberto, a prestigiosa fecundação dessa bela natureza?

  Quer os vossos estudos se apliquem aos seres que planam nos ares, quer desçam até à violeta dos bosques, quer mergulhem nas profundezas do oceano; em tudo e em todo o lado lereis esta verdade universal: a natureza todo-poderosa age consoante os lugares, os tempos e as circunstâncias; é una na sua harmonia geral, mas, múltipla nas suas produções; representa-se tanto num sol, como numa gota de água; povoa de seres vivos um mundo imenso com a mesma facilidade com que faz abrir o ovo depositado pela borboleta do Outono.

  Ora, se é esta a verdade que a natureza nos conseguiu descrever em todos os lugares deste pequeno mundo tão estreito, tão limitado, até que ponto devereis desenvolver esta forma de acção, pensando nas perspectivas dos vastos mundos? Quanto mais a deveis desenvolver e dela reconhecer a poderosa dimensão, aplicando-a a estes mundos maravilhosos que, muito mais do que a Terra, atestam a sua (não conhecível) perfeição!

  Não vejais então à volta de cada sol do espaço sistemas semelhantes ao vosso sistema planetário; não vejais de modo nenhum nesses planetas desconhecidos os três reinos da natureza que brilham à vossa volta; mas pensai que, tal como o rosto de um homem não se parece com outro rosto do género humano inteiro, também uma diversidade prodigiosa, inimaginável, foi espalhada pelos domicílios etéreos que vogam no interior dos espaços.

  Por a vossa natureza animada começar no zoófito para terminar no homem, por a atmosfera alimentar a vida terrestre, por o elemento liquido a renovar sem descanso, por as vossas estações fazerem suceder nesta vida os fenómenos que a partilham, não concluais que os milhões de terras que vogam no espaço são semelhantes a esta; longe disso, diferem consoante as condições diversas que lhes foram reservadas e consoante o respectivo papel na cena do mundo; são as pedrarias variadas de um imenso mosaico, as flores diversificadas de um admirável canteiro.
/…

(*) Este capítulo foi textualmente extraído de uma série de comunicações ditadas à Sociedade Espírita de Paris, em 1862 e 1863, sob o título de Études Uranographiques e assinado, Galileu; médium M. C. F. (N. do A.)


ALLAN KARDEC, A GÉNESE – Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo, Capítulo VI, Uranografia Geral, O espaço e o tempo – Diversidade de mundos (de 58 a 61), 35º fragmento desta obra. Tradução portuguesa de Maria Manuel Tinoco, Editores Livros de Vida.
(imagem de contextualização: Diógenes e os pássaros de pedra, pintura em acrílico de Costa Brites).