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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O Homem e a Sociedade ~


Capítulo X

Filosofia e Metapsíquica

  O fenómeno metapsíquico é uma transfiguração do fenómeno social. A metapsíquica descentralizou o aspecto natural das coisas para nos mostrar as próprias entranhas do mundo espiritual. Mas a filosofia ainda não se inclina para a metapsíquica, que se apresenta para a cultura ocidental como o único instrumento capaz de intentar uma transfiguração geral dos fenómenos históricos e sociais.

  A base material e biológica sobre a qual assentam os seus fundamentos a sociedade e o homem será superada, se a metapsíquica assumir um papel decisivo em relação ao problema da existência. Dizia Berdiaeff que “a filosofia se desdobra e já não crê nas suas próprias forças”. Esta afirmação é a pura verdade, se observamos o estado em que se encontra o quefazer filosófico, necessitado de orientações espirituais e ideológicas. Esta crise da filosofia talvez nos esteja aproximando de um novo ponto de partida do saber metafísico; a necessidade de passarmos do filosofar para o teosofar, isto é, a um conhecimento divino do homem e do espírito. (i)

  Mas devemos reconhecer, ao mesmo tempo, que o teosofar só será uma realidade social quando a metapsíquica houver transfigurado, com os seus fenómenos, o mundo material, para mostrar-nos o “outro mundo”, que se oculta atrás da realidade social. Deste modo, a crise actual da filosofia só poderia terminar quando se reconhecesse o mundo invisível que nos cerca. Do contrário, será inevitável o fracasso do quefazer filosófico, salvando-se unicamente aqueles valores metafísicos que tenham relação com as realidades metapsíquicas.

  O próprio cristianismo encontraria, na concepção de um homem metapsíquico, o seguro realizador de suas verdadeiras essências divinas. Mas o homem contemporâneo é ainda um homem mortal, considerado como um elemento físico-químico, sem nenhum futuro metafísico. Entretanto, há uma verdadeira ânsia de algo novo neste mundo, que tende para uma nova dimensão do existir. Se é certo que o existencialismo se apresenta como uma moderna reafirmação do Nada, o fenómeno metapsíquico se contrapõe às suas conclusões materialistas. De maneira que as forças que determinarão a revolução dos tempos novos não serão unicamente físicas, nem somente psíquicas, mas metapsíquicas, uma vez que o metapsíquico é um elemento vivo e real, tanto no homem como na própria natureza. (ii)

  A filosofia não intuiu este novo factor para confirmar a idealidade do mundo. O idealismo, afastado pelo materialismo, recobra-se com a realidade metapsíquica, e o próprio Hegel se firmará novamente com ela. Marx encontraria assim um magnífico contendor em Richet, o fundador da metapsíquica. Além do mais, o materialismo dialéctico seria obrigado a aceitar novos movimentos de massas, inspirados na concepção de um homem espiritual e infinito. Deste modo, o fenómeno metapsíquico nos fará compreender que a revolução dos tempos novos será operada pelo Espírito e não pelas forças cegas de um processo dialéctico sem teologia transcendente.

  O numinoso de Rudolf Otto, muito imperfeito para servir de padrão a um novo homem espiritual, seria substituído pelo metapsíquico, do qual surgirão os elementos positivos para se fundar uma antropologia espiritualista que conduzirá o novo processo histórico. Richet talvez nunca tenha pensado em se defrontar com Marx, mas a situação revolucionária do presente obriga o pensamento filosófico a fazer este confronto: ou materialismo dialéctico ou espiritualismo metapsíquico. Um dos dois deverá conduzir o desenvolvimento histórico e social; isso é indubitável. Entretanto, se o fenómeno metapsíquico, através da parapsicologia, fosse incorporado à cultura moderna, seria o espiritualismo espírita que regeria a sociedade e a história, dando à revolução dos novos tempos um sentido social e espiritual.

  A revolução socialista, sem a concepção do homem espírita, decepcionará o homem contemporâneo. Se é inegável que as formas sociais, políticas e económicas, estão destinadas a transformar-se, isso não deverá impedir que se reconheça o homem como uma entidade espiritual.

  Não se pode negar que o espiritismo aporta ao homem elementos positivos para determinar uma profunda transformação da humanidade. Ninguém que se diga evolucionista poderá admitir como bom o actual estado da sociedade, com os seus defeitos e injustiças, resultado de um tipo humano desalmado e cínico que, sob a capa de uma falsa moral, se aproveita dos débeis e necessitados. É evidente que o mais acentuado despotismo rege a ordem social materialista contemporânea; e os que o apoiam são os que levam na alma o mais perigoso de todos os vícios: a falta de amor e de fraternidade para com o próximo.

  A eliminação da ordem social materialista é um imperativo histórico e evolutivo, apoiado pelos Grandes Seres que conduzem na Terra o desenvolvimento do Plano Divino. Opor-se a isso seria negar a revolução geral que há de abalar desde os alicerces a toda a ordem constituída, desde a moral até à material. A força desta revolução emana da própria evolução dos espíritos. Todos os que se opõem a ela são almas retrógradas e partidárias do antigo sistema materialista; mas o espiritismo proclama, com o beneplácito dos espíritos livres e progressistas, o advento de uma sociedade livre do sistema de classes e baseada nos princípios do socialismo. É inegável que a evolução leva ao socialismo e todos aqueles que ignoram o advento de uma estrutura social baseada no regime socialista o fazem porque vivem alheios às grandes conquistas científicas e filosóficas alcançadas pelo espírito humano.

  O homem e a sociedade se enobrecerão com um socialismo baseado na imortalidade da alma e no processo palingenésico dos espíritos. Sem socialismo não se compreende nem se compreenderá a verdadeira essência do indivíduo, pois toda a evolução espiritual leva ao congraçamento fraternal dos espíritos. Mas a fraternidade, para ser efectiva, deverá basear-se no socialismo, visto que onde existam interesses privados e classes sociais não poderão nunca prosperar a ideia e a prática da fraternidade.

  O pior inimigo da solidariedade e da confraternização é o sistema de propriedade baseado no regime capitalista. Este sistema ou regime é completamente antiespiritual e anticristão. O espírito de posse impede o advento do cristianismo e Jesus só chegará a reinar num sistema social onde não existam classes sociais, quando a exploração capitalista tenha desaparecido para sempre.

  Consideramos que sem socialismo a humanidade é um ente que se aniquila a si mesmo. O regime social baseado no capitalismo fará que as portas dos lares, povos e cidades, permaneçam fechadas. Com esse sistema social e materialista as portas das casas jamais se abrirão fraternal e colectivamente, tal como o queria o Divino Galileu. Somente o socialismo abrirá as portas dos povos para que as almas se aproximem. Apesar disso, existem ainda espiritualistas que se inclinam em favor da propriedade privada, esquecidos de que ela é o produto do espírito de posse que domina ainda as consciências.

  Jesus e todos os Grandes Seres nunca foram partidários da propriedade individual; eles não possuíram nada como propriedade, nem se apropriaram de coisa alguma para considerá-la privativa deles. Só os doentes do espírito de posse defendem e argumentam em favor da propriedade privada; isso, porém, não faz mais do que revelar a psicologia ambiciosa e conservadora desses seres. Aqueles que não se elevaram suficientemente para limpar-se do espírito de posse são os partidários da posse particular da propriedade e inimigos declarados do socialismo. Estão ao lado das classes ricas e conservadoras e não ao lado dos miseráveis e deserdados.

  O espiritismo, revolução dinâmica na ordem espiritual e social, está, pelo contrário, sempre ao lado de JesusPorque ele, homem humano e divino, se colocou a favor do futuro humano, quer dizer, defendeu a causa dos pobres e explorados. Por isso, o seu nome vive como um foco de luz no fundo de todas as consciências emancipadas e progressistas. A sua palavra e a sua doutrina são os melhores meios para confirmar a razão moral e espiritual do socialismo.

  Temer, pois, a sociedade socialista, é temer também o futuro dos povos. Temem a sociedade sem classes os que defendem sistemas religiosos e doutrinas sociais que justificam a chamada exploração do homem pelo homem. O ideólogo espírita sustenta sempre novas concepções do mundo e da vida, porque baseia o seu pensamento na lei palingenésica. A sua filosofia é dinâmica e criadora e por isso não aceita nenhum sistema conservador, tanto espiritual como social, que se oponha à lei do progresso. O espiritismo vê em toda a transformação um renascimento e em cada renovação um estado mais propício para alcançar novos estágios sociais e espirituais.
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(i) O teosofar é o acto de pensar sobre o homem ou as coisas numa perspectiva deísta, considerando o mundo como a obra de Deus e a Ele unida. O autor não se refere à Sociedade Teosófica ou à sua doutrina, mas emprega a palavra no seu sentido radical. Passar do filosofar (acto de pensar num sentido humano) ao teosofar (acto de pensar num sentido divino) equivale a uma evolução do pensamento filosófico. Este é um dos belos “achados” de Mariotti neste livro. O leitor não deve esquecer que este é um ensaio filosófico espírita, a fim de não se confundir com as palavras. No plano filosófico, as palavras perdem, quase sempre, o seu sentido habitual, para adquirirem outro sentido, mais adequado ao seu conteúdo racional e aos seus componentes etimológicos. (Nota de J.H. Pires).
(ii) Como se vê, o metapsíquico não se refere à teoria científica de Richet, mas a uma realidade filosófica intuída e descoberta por aquela. (Nota de J.H. Pires).

Humberto MariottiO Homem e a Sociedade numa Nova Civilização, Do Materialismo Histórico a uma Dialéctica do Espírito, 1ª PARTE O NÚMENO ESPIRITUAL NOS FENÓMENOS SOCIAIS, Capítulo X FILOSOFIA E METAPSÍQUICA, 15º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Alrededores de la ciudad paranóico-crítica: tarde al borde de la historia europea | 1936, Salvador Dali).

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