Filosofia e Metapsíquica
O fenómeno metapsíquico é uma transfiguração
do fenómeno social. A metapsíquica descentralizou o aspecto natural das coisas
para nos mostrar as próprias entranhas do mundo espiritual. Mas a
filosofia ainda não se inclina para a metapsíquica, que se apresenta para a
cultura ocidental como o único instrumento capaz de intentar uma transfiguração
geral dos fenómenos históricos e sociais.
A base material e biológica sobre a qual assentam os seus
fundamentos a sociedade e o homem será superada, se a metapsíquica assumir um
papel decisivo em relação ao problema da existência. Dizia Berdiaeff que “a
filosofia se desdobra e já não crê nas suas próprias forças”. Esta afirmação é
a pura verdade, se observamos o estado em que se encontra o quefazer filosófico, necessitado
de orientações espirituais e ideológicas. Esta crise da filosofia
talvez nos esteja aproximando de um novo ponto de partida do saber metafísico;
a necessidade de passarmos do filosofar para o teosofar,
isto é, a um conhecimento divino do homem e do espírito. (i)
Mas devemos reconhecer, ao mesmo tempo, que o teosofar só
será uma realidade social quando a metapsíquica houver transfigurado, com os
seus fenómenos, o mundo material, para mostrar-nos o “outro mundo”, que se
oculta atrás da realidade social. Deste modo, a crise actual da
filosofia só poderia terminar quando se reconhecesse o mundo invisível que nos
cerca. Do contrário, será inevitável o fracasso do quefazer filosófico, salvando-se
unicamente aqueles valores metafísicos que tenham relação com as realidades
metapsíquicas.
O próprio cristianismo encontraria, na concepção de um
homem metapsíquico, o seguro realizador de suas verdadeiras essências divinas.
Mas o homem contemporâneo é ainda um homem mortal, considerado como um elemento
físico-químico, sem nenhum futuro metafísico. Entretanto, há uma
verdadeira ânsia de algo novo neste mundo, que tende para uma nova dimensão do
existir. Se é certo que o existencialismo se apresenta como uma moderna
reafirmação do Nada, o fenómeno metapsíquico se contrapõe às suas conclusões materialistas. De
maneira que as forças que determinarão a revolução dos tempos novos não serão
unicamente físicas, nem somente psíquicas, mas metapsíquicas, uma vez que o
metapsíquico é um elemento vivo e real, tanto no homem como na própria
natureza. (ii)
A filosofia não intuiu este novo factor para confirmar a
idealidade do mundo. O idealismo, afastado pelo materialismo,
recobra-se com a realidade metapsíquica, e o próprio Hegel se firmará novamente com ela. Marx encontraria
assim um magnífico contendor em Richet,
o fundador da metapsíquica. Além do mais, o materialismo dialéctico seria
obrigado a aceitar novos movimentos de massas, inspirados na concepção de um
homem espiritual e infinito. Deste modo, o fenómeno metapsíquico nos
fará compreender que a revolução dos tempos novos será operada pelo Espírito e
não pelas forças cegas de um processo dialéctico sem teologia transcendente.
O numinoso de Rudolf Otto,
muito imperfeito para servir de padrão a um novo homem espiritual, seria
substituído pelo metapsíquico, do qual surgirão os elementos
positivos para se fundar uma antropologia espiritualista que conduzirá o novo
processo histórico. Richet talvez
nunca tenha pensado em se defrontar com Marx, mas a
situação revolucionária do presente obriga o pensamento filosófico a fazer este
confronto: ou materialismo dialéctico ou espiritualismo metapsíquico. Um
dos dois deverá conduzir o desenvolvimento histórico e social; isso é
indubitável. Entretanto, se o fenómeno metapsíquico, através da
parapsicologia, fosse incorporado à cultura moderna, seria o espiritualismo
espírita que regeria a sociedade e a história, dando à revolução dos
novos tempos um sentido social e espiritual.
A revolução socialista, sem a concepção do homem
espírita, decepcionará o homem contemporâneo. Se é inegável que as
formas sociais, políticas e económicas, estão destinadas a transformar-se, isso
não deverá impedir que se reconheça o homem como uma entidade espiritual.
Não se pode negar que o espiritismo aporta ao homem
elementos positivos para determinar uma profunda transformação da
humanidade. Ninguém que se diga evolucionista poderá admitir como bom o
actual estado da sociedade, com os seus defeitos e injustiças, resultado de um
tipo humano desalmado e cínico que, sob a capa de uma falsa moral, se aproveita
dos débeis e necessitados. É evidente que o mais acentuado despotismo
rege a ordem social materialista contemporânea; e os que o apoiam são
os que levam na alma o mais perigoso de todos os vícios: a falta de amor e de
fraternidade para com o próximo.
A eliminação da ordem social materialista é um imperativo
histórico e evolutivo, apoiado pelos Grandes Seres que conduzem na Terra o
desenvolvimento do Plano Divino. Opor-se a isso seria negar a
revolução geral que há de abalar desde os alicerces a toda a ordem constituída,
desde a moral até à material. A força desta revolução emana da própria evolução
dos espíritos. Todos os que se opõem a ela são almas retrógradas e partidárias
do antigo sistema materialista; mas o espiritismo proclama, com o beneplácito
dos espíritos livres e progressistas, o advento de uma sociedade livre do
sistema de classes e baseada nos princípios do socialismo. É inegável
que a evolução leva ao socialismo e todos aqueles que ignoram o advento de uma
estrutura social baseada no regime socialista o fazem porque vivem alheios às
grandes conquistas científicas e filosóficas alcançadas pelo espírito humano.
O homem e a sociedade se enobrecerão com um socialismo
baseado na imortalidade da alma e no processo palingenésico dos espíritos. Sem socialismo
não se compreende nem se compreenderá a verdadeira essência do indivíduo, pois
toda a evolução espiritual leva ao congraçamento fraternal dos espíritos. Mas
a fraternidade, para ser efectiva, deverá basear-se no socialismo, visto que
onde existam interesses privados e classes sociais não poderão nunca prosperar
a ideia e a prática da fraternidade.
O pior inimigo da solidariedade e da confraternização é o
sistema de propriedade baseado no regime capitalista. Este sistema ou regime é
completamente antiespiritual e anticristão. O espírito de posse impede
o advento do cristianismo e Jesus só chegará a reinar num sistema social onde não
existam classes sociais, quando a exploração capitalista tenha desaparecido
para sempre.
Consideramos que sem socialismo a humanidade é um ente que
se aniquila a si mesmo. O regime social baseado no capitalismo fará que as
portas dos lares, povos e cidades, permaneçam fechadas. Com esse sistema social
e materialista as portas das casas jamais se abrirão fraternal e
colectivamente, tal como o queria o Divino Galileu. Somente o socialismo abrirá as portas dos povos
para que as almas se aproximem. Apesar disso, existem ainda espiritualistas que
se inclinam em favor da propriedade privada, esquecidos de que ela é o produto
do espírito de posse que domina ainda as consciências.
Jesus e todos os Grandes Seres nunca foram partidários
da propriedade individual; eles não possuíram nada como propriedade, nem se
apropriaram de coisa alguma para considerá-la privativa deles. Só os doentes
do espírito de posse defendem e argumentam em favor da propriedade
privada; isso, porém, não faz mais do que revelar a psicologia ambiciosa e
conservadora desses seres. Aqueles que não se elevaram suficientemente para
limpar-se do espírito de posse são os partidários da posse
particular da propriedade e inimigos declarados do socialismo. Estão ao lado
das classes ricas e conservadoras e não ao lado dos miseráveis e deserdados.
O espiritismo, revolução dinâmica na ordem espiritual e
social, está, pelo contrário, sempre ao lado de Jesus. Porque ele, homem humano e divino, se
colocou a favor do futuro humano, quer dizer, defendeu a causa dos pobres e
explorados. Por isso, o seu nome vive como um foco de luz no fundo de todas as
consciências emancipadas e progressistas. A sua palavra e a sua doutrina são os
melhores meios para confirmar a razão moral e espiritual do socialismo.
Temer, pois, a sociedade socialista, é temer também o
futuro dos povos. Temem a sociedade sem classes os que defendem sistemas
religiosos e doutrinas sociais que justificam a chamada exploração do homem
pelo homem. O ideólogo espírita sustenta sempre novas concepções do mundo e da
vida, porque baseia o seu pensamento na lei palingenésica. A sua filosofia é dinâmica e criadora e por
isso não aceita nenhum sistema conservador, tanto espiritual como social, que
se oponha à lei do progresso. O espiritismo vê em toda a transformação um
renascimento e em cada renovação um estado mais propício para alcançar novos
estágios sociais e espirituais.
/…
(i) O teosofar é o acto de pensar sobre o homem
ou as coisas numa perspectiva deísta, considerando o mundo como a obra de Deus
e a Ele unida. O autor não se refere à Sociedade Teosófica ou à sua doutrina,
mas emprega a palavra no seu sentido radical. Passar
do filosofar (acto de pensar num sentido humano)
ao teosofar (acto de pensar num sentido divino) equivale a uma
evolução do pensamento filosófico. Este é um dos belos “achados” de Mariotti
neste livro. O leitor não deve esquecer que este é um ensaio filosófico
espírita, a fim de não se confundir com as palavras. No plano filosófico, as
palavras perdem, quase sempre, o seu sentido habitual, para adquirirem outro
sentido, mais adequado ao seu conteúdo racional e aos seus componentes
etimológicos. (Nota de J.H. Pires).
(ii) Como se vê, o metapsíquico não se refere à
teoria científica de Richet, mas a uma realidade filosófica
intuída e descoberta por aquela. (Nota de J.H. Pires).
Humberto Mariotti, O Homem e a Sociedade numa Nova
Civilização, Do Materialismo Histórico a uma Dialéctica do Espírito, 1ª
PARTE O NÚMENO ESPIRITUAL NOS FENÓMENOS SOCIAIS, Capítulo X
FILOSOFIA E METAPSÍQUICA, 15º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Alrededores de la
ciudad paranóico-crítica: tarde al borde de la historia europea | 1936, Salvador Dali).

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