Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

~~~Párias em Redenção~~~


OBSESSÃO VINGADORA E PERTINAZ (III)

  Para um desses redutos, onde agora sofria o duque as ásperas agruras de que Girólamo se tornara responsável, é que ele conduziu o sobrinho, a fim de produzir na sua memória espiritual o choque inicial do horror, por meio do qual a sincronização com a região da treva faria o culpado começar a pagar o pesado e duro tributo da regeneração impostergável.

  Inerme, descomposto, o espírito encarnado foi arrastado ao núcleo de punição devida e, quando sentiu a atmosfera asfixiante e se pôde dar conta do espectro que o vituperava, foi acometido de tão pungente sofrimento que o corpo, no leito distante, traduzia a dor em gritos, estertores e agitação penosos…

  O dia marchava alto e a cidade estava em bulha crescente. Sobressaltada pela atroada que vinha da peça do hóspede e estando a sós àquela hora, sem sopitar o desejo que a fazia fremir, Lucrécia, a anfitriã desassisada, resolveu afrontar os códigos da moral e experimentar o risco de qualquer dano, correndo precípite pela recâmara, e, vendo o hóspede agónico, avançou, audaciosa, e o despertou com agitação.

  Atraído ao corpo, – sublime refúgio para os viciados e culpados –, Girólamo ergeu-se, descorado, trémulo, a custo recobrando o controle dos sentidos estiolados. Vencida a primeira etapa do despertamento amargo, dando-se conta da presença da bela mulher, apressou-se em explicar o grave incidente.

  – Devo estar enfermo, – gaguejou, estremunhado. – Desde a saída do meu solar venho sendo vítima de pesadelos incessantes. Em lucidez, sinto-me acoimado por demónios vingadores e, agora, dormindo, sinto-me arrastado ao inferno…

  – Meu belo forasteiro – retrucou a arisca, em leviandade imperdoável –, seu mal deve ter outra origem…

  Sorriu, generosa, provocante. Acercou-se do moço alucinado, ainda, pelo receio e as sedas fartalhantes roçaram o corpo venal do rapaz. Dela se desprendiam os aromas fortes, luxuriosos, então em voga. Atraente, sabia como utilizar a arma da sensualidade. Curvando-se sobre ele, com o pretexto aparente de enxugar-lhe o suor, levou as mãos à face vincada por olheiras, que Girólamo apresentava, e acariciou-o. Subitamente abrasado, insensível a qualquer sentimento de gratidão ou respeito ao lar que o acolhia, espicaçado nos sentimentos inferiores, aos quais muito facilmente dava campo, o ardente senense arrebatou-a e, fogoso, na volúpia de mais um cometimento sórdido, beijou-a demorada, sofregamente.

  O tempo não lhes tinha significação, nem o local, que deveria ser sagrado, na condição de um santuário doméstico legalmente constituído. Na paixão que os desgovernava, iam dar curso ao atentado à dignidade, quando o moço, febril pelo desejo e lapso pelas perversões contínuas do corpo, escutou a estrídula gargalhada explodir dentro da cabeça.

  Fulminante pelo desespero, empurrou Lucrécia sobre o leito, segurou a cabeça com as duas mãos e chocou-a contra as pedras da parede, como se a desejasse arrebatar. A mulher, surpreendida pelo inesperado insucesso, recuou, amedrontada, ao fitar o moço repentinamente possuído pela demência. Horrorizada, desceu a escada, para buscar o esposo no andar térreo da habitação nabada e explicar-lhe o desalinho do hóspede.

  Informado do súbito mal-estar do companheiro, Francesco, que se encontrava no pátio interno do palácio, subiu a escada com celeridade e pôde impedir que o amigo enceguecido culminasse, naquele transe, numa tragédia imprevisível.

  – Talvez te tenhas perturbado com o áugure, falou-lhe, tentando acalmá-lo. – Não te deveria ter conduzido àquele local. Estavas agitado e talvez as informações e magias do louco te tivessem afectado. Mandarei um servo chamar o médico e logo mais estarás pronto para enfrentar o dia quente, para nós promissor.

  Ante a naturalidade do amigo, Girólamo aquiesceu e acalmou-se, prometendo asserenar-se.

  Não podia, porém, compreender o que se passava. Sempre pudera dominar os impulsos nos momentos oportunos, dissimulando os estados íntimos, mesmo quando comandado por emoções violentas. Até ali era tido por cidadão honrado e nobre respeitado. O seu título aureolava-o de prestígio e, como cavaleiro, caminhava em destaque ao lado das personalidades de preeminência da cidade. Deveria estar enlouquecendo e a providência de chamar o médico parecia-lhe acertada. Aguardara aquele momento, reflexionava, para viver intensamente a vida nocturna de Siena, nos dias da Festa, e aquela enfermidade parecia disposta a impedi-lo. Não procurára os sogros por desejar que a sua presença passasse despercebida. Planejava visitá-los após o prazer exacerbado, quando já estivesse de retorno, defendendo, com esse acto, a retaguarda. No entanto…

  Pudesse, porém, o leviano ver além da barreira orgânica e enxergaria, contraído e carrancudo, o duque di Bicci, irreconhecível na sua deformação exterior, agressivo, tendo Assunta a debater-se nas suas mãos poderosas, enquanto blasfemava, vingador, insaciável, desforçando-se naquela que ajudara o amante a arrojá-lo no couto da amargura. As expressões mais sórdidas, que escapavam dos lábios contorcidos de Assunta, traduziam a fúria de que se via possuída e o superlativo desejo de vingança que a vergastava, a alucinava. Ameaçava o antigo companheiro, em ímpar agonia. Desejando libertar-se, entrou, também, em agressão, mas, impotente para tanto, por ser responsável consciente pelos delitos de que agora se tornava vítima, renhiu demoradamente e desmaiou nas garras poderosas que a lancinavam…

  Chegando o médico, este surpreendeu-se com a palidez do cliente. Fez-lhe um exame superficial, como era comum na época, e prescreveu-lhe vários duches, aplicando-lhes uma rápida sangria descongestionante e mais alguns medicamentos, cujas fórmulas elaborou. Sugeriu repouso, depois do que poderia tomar um bom cálice de vinho…

  Os sorrisos varreram a preocupação, encerrando a gravidade da doença.

  O dia transcorreu morno e activo. Saindo a pé com Francesco, para ligeiras visitas a amigos, ambos retornaram cedo ao palácio, afim de retemperaram as forças para o baile-de-máscaras que o duque di Médici preparara para aquela noite, em homenagem às comemorações do dia imediato.

  Os convites distribuídos anteriormente foram dirigidos a mais de duzentos ruidosos senenses e visitantes, empolgados com os surpreendentes prazeres que os aguardavam.

  O Palácio Médici, em situação privilegiada da cidade, era uma imensa fortaleza, no acme de uma colina, entre árvores vetustas e cercado de largo fosso, que resguardava os jardins exóticos, de rosas variadas, protegido pela Viale dei Mille.

  A construção, erguida por Cosme I (Médici), é vetusta e sobranceira, donde se tem a visão da cidade engalanada.

  Os salões da herdade seriam abertos, na oportunidade, ao grande público, para uma alucinante festa de prazer, das que a fizeram célebre noutros tempos. Já não desfrutando do mesmo prestígio do passado, desde a anexação da Toscana à Áustria, os Médici entregavam-se ao gozo, recuperando em dissipação o que perderam em destaque político. As autoridades governamentais, por motivos óbvios, receberam convite especial, com o justo destaque que a sua condição impunha. Ao lado das comemorações programadas para o dia imediato. Não apenas a nobreza e os convidados especiais, mas o povo também, que normalmente se comprimia nos arredores, foi convocado podendo adentrar-se pelos jardins, ao ensejo abertos a todos, para ver o desfile da grandeza e do luxo, enquanto nos seus lares escasseavam o pão e a paz…

  Conquanto Girólamo fosse considerado persona-non-grata no Palácio Médici, por motivos compreensíveis, a instâncias de Francesco e da esposa, que receberam honrosa solicitação, resolveu participar, desde que seria um baile de máscaras, em que se poderia ocultar o carácter sórdido da aparência social, na dissimulação pelo disfarce.

  Lucrécia, abalada e ansiosa, ante o estado do homem cobiçado, com quem não pudera consumar a leviandade, gastou o dia nos aprestos superficiais para o baile.
/…



VICTOR HUGO, Espírito “PÁRIAS EM REDENÇÃO” – LIVRO PRIMEIRO, 7. OBSESSÃO VINGADORA E PERTINAZ 3 de 4, 24º fragmento da obra. Texto mediúnico ditado a DIVALDO PEREIRA FRANCO.
(imagem: L’âme de la forêt _1898, tempera e folha de ouro sobre painel de Edgar Maxence)

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

O Espiritismo na Arte ~


Sétima lição

(Acção do pensamento na literatura e na oratória)

|27 de Janeiro de 1922|

“Esta noite vamos abordar o domínio artístico, que tem por veículo puro o pensamento, o pensamento na literatura e na oratória. Na nossa última conversa mostramos como, sob o ponto de vista artístico, o reflexo do pensamento podia, graças a meios maravilhosamente subtis, ligar-se a moléculas fluídicas e, por meio de cores variadas, representando ideias, compor quadros nos quais a arte da cor reproduz cenas tendo o belo por símbolo; isso dito em forma de transição. E agora, qual será a acção do pensamento na arte?

O pensamento é, antes de tudo, um dom de observação. O ser humano, encarnado ou desencarnado, pode explorar, em pensamento, todos os meios. Deixaremos de lado os seres que têm o carácter essencialmente material e levam os seus pensamentos para mundos onde reina o espírito do lucro ou da luxúria.

Porém, no ser evoluído, o pensamento se elevará muito mais alto.

Vós sabeis que, na vossa Terra, esse pensamento se liga à pintura dos costumes, à análise dos caracteres, e se traduz em escritos que revestem formas mais ou menos simbólicas. No espaço, o pensamento torna-se naturalmente muito mais livre; ele possui em si mesmo o reflexo exacto de todos os sentimentos que, anteriormente, nele puderam imprimir-se e impressioná-lo em graus diversos. O espírito, quando está liberto da matéria e chegou a uma certa elevação, pode transmitir o seu pensamento directamente a seres ainda encarnados. Daí os fenómenos da inspiração.

Tomemos, por exemplo, um ser espiritual muito evoluído e que professe o culto da beleza perfeita. Ele reconhecerá na Terra os seres humanos cujo pensamento já se traduz em feixes luminosos. Ele sentir-se-á atraído para esses seres e o seu próprio pensamento irá misturar-se ao deles; as suas moléculas fluídicas vivificarão, de uma forma intensa, as moléculas materiais geradoras que brotam do cérebro do ser que vive no vosso mundo.

Os espíritos escritores se aproximarão dos artistas da pena; os antigos oradores sentir-se-ão atraídos para os mestres da palavra.

Eis a transmissão do espaço para um mundo. Porém, no ser evoluído, o desejo de fazer irradiar o seu pensamento através do espaço não é menor que aquele que o atrai em direcção aos mundos habitados. Tomemos, por exemplo, um grande pensador da Terra; de regresso ao espaço, ele revelará aos espíritos que o cercam a própria essência das virtudes adquiridas. Depois, lendo nos cérebros dos seres encarnados, ali projectará ondas impregnadas de todas as qualidades do seu pensamento.

É uma obra imperecível esta transmissão através dos corpos fluídicos, porque quando a irradiação do pensamento é intensa, ela impressiona os cérebros de tal maneira que estes guardam sempre a marca da impressão recebida.

Existe uma estreita correlação entre os pensadores da Terra e os do espaço. Certos espíritos passam a sua existência no espaço recolhendo essas impressões. Quando, por sua vez, se sentem capazes de fazer os seres menos evoluídos aproveitarem essas impressões, eles retornam à Terra e então vêm a ser esses grandes escritores, esses grandes poetas e essas pessoas ilustres que ganham a respectiva admiração daqueles que os cercam.

A arte da eloquência forma-se da mesma maneira, porém com mais subtileza. No orador, as vibrações do espaço são poderosamente sentidas através do organismo, em consequência de um trabalho mais intenso, efectuado antes do nascimento, e pela acção de uma vontade muito mais forte. Cada orador, em graus diferentes, possui o dom da intuição, mais ou menos desenvolvido. Em geral, as qualidades de um mestre da eloquência resultam de uma preparação realizada no espaço, graças à soma das impressões recebidas nesse meio.

Segundo a disposição das moléculas materiais, a arte, no homem de letras ou no orador, é mais ou menos pura. Tendes a prova desse facto considerando-se as diferentes classes de escritores, de poetas, de oradores. No escritor comum, o pensamento ainda é carregado de um materialismo grosseiro. No poeta, o ideal, o símbolo, distinguem-se mais e quanto mais puros mais admiráveis eles são. O mesmo acontece com o orador que, profano ou sacro, consagra o seu órgão físico à defesa e à difusão das máximas e dos preceitos que emanam quase de Deus.

As formas de exteriorização do pensamento são tão múltiplas quanto os indivíduos. As categorias de pensadores podem distinguir-se no espaço pela intensidade luminosa que se desprende do seu ser fluídico. A vossa palavra, de natureza absolutamente material, é algo desconhecido no espaço; assim sendo, quando um ser retorna a essa vida, ele deve submeter-se a uma nova adaptação e a sua linguagem tornar-se-á a da interpretação das cores. Na cor há uma gama de tal modo subtil e variada que as menores modulações podem representar as menores flutuações do pensamento.

Um ser apaixonado pela arte poderá receber e transmitir pensamentos de uma delicadeza infinita e eu vos asseguro que, em minha opinião, a arte no pensamento se aproxima mais de Deus do que as outras artes.

Que delícia é para nós, no espaço, sentir as vibrações de um ser tendo o carácter de uma pureza, de uma elevação notáveis e que se traduzem por radiações de uma tonalidade maravilhosamente rica em átomos fluídicos.

Não retornarei aqui à análise de todos os domínios do pensamento. Eu quis simplesmente dar-vos o mecanismo da transferência da arte da Terra ao espaço e o seu princípio fundamental no meio das camadas fluídicas. Acrescentarei, e insisto em vos dizer, que o pensamento é, para nós, a coisa mais fácil de se transmitir, porque temos uma verdadeira alegria em ajudar na iluminação moral dos seres que vos cercam.

Os vossos cérebros humanos, fechados às sublimes ideias emanadas do Ser Divino, não podem, actualmente, compreender o encadeamento das forças em acção no Universo. Que vos baste saber que o pensamento de Deus atinge todos os seres e todas as coisas, que nenhuma das suas radiações é perdida, e que o nosso papel, de nós, pobres libélulas, é transmitir o melhor de nós mesmos àqueles que nos podem compreender. A arte vem ajudar-nos nisso. Portanto, dediquem-se a pensar com arte. Amai aqueles que pensam bem. Porque, estejam certos disto, a própria essência desse pensamento é um reflexo da vida no espaço; lamentem aqueles que não sabem pensar. A arte é uma das formas da beleza e, como o pensamento, ela deve ser o seu veículo, porque a beleza encerra em si mesma os princípios da bondade, da grandeza e da justiça.
/…



LÉON DENIS, O Espiritismo na Arte, Parte IV – Sétima lição / Acção do pensamento na literatura e na oratória, 18º fragmento da obra.
(imagem: Mona Lisa 1503-1507 – Louvre, pintura de Leonardo da Vinci)

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Da sombra do dogma à luz da razão ~


NATUREZA DA REVELAÇÃO ESPÍRITA (IV)

   Todas as ciências se encadeiam e se sucedem numa ordem racional; nascem umas das outras à medida que vão encontrando um ponto de apoio nas ideias e nos conhecimentos anteriores. A astronomia, uma das primeiras a ter sido cultivada, permaneceu nos erros da infância até ao momento em que a física veio revelar a lei da força dos agentes naturais; a química, nada podendo sem a física, iria suceder-lhe de perto, para depois caminharem as duas em conjunto, apoiando-se uma na outra. A anatomia, a fisiologia, a zoologia, a botânica, a mineralogia, só passaram a ser ciências sérias com a ajuda das luzes trazidas pela física e depois pela química. A geologia, nascida ontem, sem a astronomia, a física, a química e todas as outras, teria tido a falta dos seus verdadeiros elementos de vitalidade; só podia ter surgido depois.

   A ciência moderna fez justiça aos quatro elementos primitivos dos Antigos e, de observação em observação, chegou à concepção de um só elemento gerador de todas as transformações da matéria; mas a matéria, em si, é inerte; não possui vida, nem pensamento, nem sentimentos; precisa da união com o princípio espiritual. O Espiritismo não descobriu nem inventou este princípio, mas foi o primeiro a demonstrá-lo por provas irrecusáveis; estudando-o, analisando-o, tornou-lhe a acção evidente. Ao elemento material veio acrescentar o elemento espiritual. Elemento material e elemento espiritual; eis os dois princípios, as duas forças vivas da natureza. Pela união indissolúvel destes dois elementos, explicam-se sem dificuldade uma quantidade de factos até então inexplicáveis |*.

   O espiritismo, tendo por finalidade o estudo de um dos dois elementos constituintes do Universo, toca na maior parte das ciências; só poderia aparecer depois da sua elaboração e nasceu, pela força das coisas, da impossibilidade de tudo se explicar somente com a ajuda das leis da matéria.

   Acusa-se o espiritismo de parentesco com a magia e com a feitiçaria, mas esquecemos que a astronomia tem como antepassada a astrologia judiciária, que não está assim tão longe de nós; que a química é filha da alquimia, com que nenhum homem de juízo se atreveria a ocupar-se nos dias de hoje. No entanto, ninguém nega que esteve na astrologia e na alquimia o germe das verdades de onde saíram as ciências actuais. Apesar das suas fórmulas ridículas, a alquimia abriu o caminho para o estudo dos corpos simples e para a descoberta da lei das afinidades; a astrologia, apoiando-se na posição e no movimento dos astros que tinha estudado; mas na ignorância das verdadeiras leis que regem o mecanismo do Universo, os astros eram, para o comum, entes misteriosos a que a superstição atribuía uma influência moral e um sentido revelador. Quando GalileuNewton ou Kepler deram a conhecer estas leis, quando o telescópio rasgou o véu e mergulhou nas profundezas do espaço um olhar que certas pessoas consideram indiscreto, os planetas apareceram-nos como simples mundos semelhantes ao nosso e a pirâmide do maravilhoso desmoronou-se.

   Passa-se o mesmo com o Espiritismo em relação à magia e à feitiçaria; estas também se apoiavam na manifestação dos astros; mas, na ignorância das leis que regem o mundo espiritual, misturavam nessa relação práticas e crenças ridículas a que o espiritismo moderno, fruto da experiência e da observação, fez justiça. Com toda a certeza, a distância que separa o Espiritismo da magia e da feitiçaria é maior do que a existe entre a astronomia e a astrologia, a química e a alquimia; querer confundi-las é provar que desconhecemos tudo.

  Só o facto de existir a possibilidade de comunicarmos com os seres do mundo espiritual tem consequências incalculáveis da maior gravidade; é todo um mundo novo que se nos revela e que tem tanto mais importância quanto atinge todos sem excepção. Este conhecimento não pode deixar de causar, ao generalizar-se, uma modificação profunda nos costumes, no carácter, nos hábitos e nas crenças, que têm uma tão grande influência nas relações sociais. É uma total revolução que se opera nas ideias, tanto maior e tão mais poderosa quanto atinge o coração de todas as classes, todas as nacionalidades, todos os cultos.

   É portanto com razão que o Espiritismo é considerado a terceira grande revelação. Vejamos em que diferem essas revelações e por que laço se ligam umas às outras.

   MOISÉS, como profeta, revelou aos homens o conhecimento de um Deus único, Senhor Supremo e Criador de todas as coisas; promulgou a lei do Sinai e estabeleceu os fundamentos da fé verdadeira; como homem, foi o legislador do povo através do qual esta fé primitiva que, depurada, se viria um dia a espalhar por toda a Terra.

   CRISTO, retirando da lei antiga o que é eterno e divino e rejeitando o que era só transitório, puramente disciplinar e de concepção humana, acrescenta a revelação da vida futura, de que Moisés não tinha falado, a dos castigos e recompensas que esperam o homem depois da morte (ver Revista Espírita, 1861, pp. 90 e 280).

   A parte mais importante da revelação de Cristo, no que ela é de fonte primeira, pedra angular de toda a sua doutrina, é o ponto de vista totalmente novo sob o qual dá a aperceber a Divindade. Já não é o Deus terrível, ciumento, vingativo de Moisés, o Deus cruel e impiedoso que rega a Terra com sangue humano, que ordena o massacre e o extermínio dos povos, sem exceptuar as mulheres, as crianças e os velhos, que castiga os que poupam as vítimas; já não é o Deus injusto que castiga um povo inteiro pelo erro do seu chefe, que se vinga do culpado na pessoa do inocente, que fere as crianças devido ao erro do pai; mas um Deus clemente, soberanamente justo e bom, pleno de brandura e de misericórdia, que perdoa ao pecador arrependido e dá a cada um consoante as suas obras; já não é o Deus de um só povo privilegiado, o Deus dos exércitos a presidir aos combates para sustentar a sua própria causa contra o deus dos outros povos, mas o Pai comum do género humano, que estende a Sua protecção a todos os Seus filhos e os chama todos a si; já não é o Deus que recompensa e castiga com os bens da Terra, que faz com que a glória e a felicidade consistam na submissão dos povos rivais e na multiplicidade da progenitura, mas que diz aos homens: «A vossa verdadeira pátria não é neste mundo, mas no reino celeste; é aí que os de coração humilde serão elevados e os orgulhosos serão rebaixados.» Já não é um Deus que faz da vingança uma virtude e manda que se troque olho por olho, dente por dente; mas o Deus de misericórdia que diz: «Perdoai as ofensas se quereis que vos sejam perdoadas; devolvei o bem contra o mal; não façais aos outros o que não quereis que vos façam.» Já não é o deus mesquinho e meticuloso que impõe, sob os mais rigorosos castigos, a forma como deseja Ser adorado, que Se ofende com a inobservância de uma fórmula; mas o Deus grande que considera o pensamento e não se honra com a forma. Já não é, enfim, o Deus que quer ser temido mas o Deus que quer ser amado.
/…

|* A palavra elemento não é aqui aplicada no sentido de corpo simples, elementar, de moléculas primitivas, mas no de parte constituinte de um todo. Neste sentido, podemos dizer que o elemento espiritual tem parte activa na economia do Universo, tal como dizemos que o elemento civil e o elemento militar figuram no montante de uma população; o elemento religioso entra na educação; que, na Argélia, existe o elemento árabe e o elemento europeu. (N. do A.)



ALLAN KARDEC, A GÉNESE – Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo, Capítulo I NATUREZA DA REVELAÇÃO ESPÍRITA números de 17 a 23, 6º fragmento da obra. Tradução portuguesa de Maria Manuel Tinoco, Editores Livros de Vida.
(imagem de ilustração: Diógenes e os pássaros de pedra, pintura em acrílico de Costa Brites)

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Inquietações Primaveris ~


Jovens e Maduros

O conceito de Educação como o chamado de uma consciência para elevar ao seu nível uma consciência imatura, segundo René Hubert, coloca a questão no plano rousseauniano da educação individual para simplificá-la, mas aplica-se a todas as formas da educação colectiva. Rousseau mesmo usou essa táctica, pois não desejava reduzir a educação a um sistema privado de elite. A Educação como um acto de amor dirige-se a toda a Humanidade. Qualquer discriminação no processo educacional, seja por motivos raciais, sociais, nacionais ou outros, é uma deturpação do processo educativo e uma traição à sua finalidade básica, que é fazer de um ser biológico, como a criança ao nascer, ou de um ser social, como o adolescente e o jovem, um ser moral. As excessivas restrições de certos tipos de moral, como a vitoriana na Inglaterra e a das religiões da morte em todo o mundo, levaram a moral ao descrédito, pois a única virtude que produziram foi a hipocrisia. Quando se quer asfixiar a natureza humana, nas suas exigências vitais, o resultado é sempre o mesmo e as consequências futuras resultam na rebeldia total. Mas quando se trata de um ser moral, a expressão não se refere a esta ou àquela moral, e sim à Moralidade em termos pestalozianos. Nesse sentido, a Educação para a Morte abrange todas as idades da evolução biopsíquica do ser humano, que só atinge realmente os seus fins quando abrange as colectividades. Por isso, Pestalozzi deu ao seu sistema uma amplitude filantrópica. O simples facto de ministrarmos educação específica aos filhos de abastados, relegando as demais crianças e jovens aos azares da sorte, é uma imoralidade que atenta o princípio do amor, fundamental na educação. É precisamente neste ponto crucial do problema que a tríade Educação, Vida e Morte se resolve numa exigência única e, portanto, indivisível. Quem não educa não ajuda ninguém a viver e morrer. Isso equivale a dizer: Quem não distribui Educação em pé de igualdade para todos trai os objectivos existenciais do homem e da Humanidade. Por outro lado, o comércio puro e simples da Educação, mantido apenas com finalidade financeira, constitui-se num pecado ético muito mais grave do que o pecado mortal das igrejas.

Henri Bergson viu com precisão a unidade fundamental e substancial da Religião, da Moral e da Educação. Segundo a sua tese, a moral social funda-se na religião estática, fechada na sua dogmática exclusivista, dando-lhe, apesar desse exclusivismo, a designação de Moral Aberta, porque ela se abre no plano social. Opõe-se a ela a Moral Fechada, assim designada por ser individual, que não se subordina a nenhuma religião institucionalizada, mas apenas à consciência dos homens superiores. Essa é a moral que Pestalozzi chamou de Moralidade, colocando-a acima das religiões. Referiu-se também à religião animal, evidentemente primitiva, nascida da magia primitiva das selvas, que determina a moral tribal, da qual resulta, no processo evolutivo do homem, na moral social. Dessa maneira, o problema ético é o pivô de toda a Educação e de toda a Moral, tendo por expressão subalterna das exigências da natureza humana as formas possíveis da religião. Assim, Deus se faz humano e o homem se faz divino, na troca ingénua de favores mútuos entre o Céu e a Terra. Os jovens, recém-saídos da adolescência, acreditam-se dotados de poderes miríficos para transformar a realidade árida e caquéctica do mundo, renovando-a nos ardores de sua própria juventude. Quando um jovem decide entrar para a carreira eclesiástica é porque a sociedade o convenceu de que nela poderá usar os instrumentos sagrados, provenientes da magia das selvas e aprimorados na estética da civilização, para realizar, com os poderes terrestres e celestes em mistura o que o sacerdócio lhe faculta, as metamorfoses necessárias de toda a estrutura social para a implantação do Reino de Deus na Terra. Ao chegar, porém, ao plano dos adultos, amadurecendo no trato da mundanidade, em que imperam as ambições de poder e ganância, tão contrárias às perspectivas divinas dos seus sonhos que já pendem murchos à beira dos caminhos percorridos e marcados pelos rastos de amarguras, decepções e frustrações irremediáveis, vê que os instrumentos divinos, já agora inúteis nas suas mãos, nada mais são do que amuletos imaginários. Só lhe resta, então, rebelar-se contra si mesmo, negar-se na dialéctica dos sonhos e desenganos e ajustar-se ao comodismo da maturidade sem perspectivas. É nesse momento fatal do fim da juventude que as religiões entram em agonia. A crença ingénua e tecida de lendas piedosas transforma-se em paliativo ignóbil para os desesperos do mundo e os impulsos do antigo entusiasmo se revelam mortos e exangues como as serpentes de fogo da kundalini indiana que viraram cinzas e carvão triturado pelos anos. A Moral, que antes brilhava no céu das aspirações supremas da alma, é então um cadáver frio que serve apenas para defendê-lo das fraquezas inevitáveis do passado. No velório estúpido das carpideiras o herói fracassado, vencido por si mesmo, só encontra a consolação presente e duramente aviltante de acomodações. Qual a sua concepção da morte? A do túmulo, da podridão oculta no laboratório da terra para o aproveitamento na química dos resíduos impuros – o nada. O pivô poderoso que sustentava o giroscópio das aspirações supremas transformou-se apenas num pivô forjado por dentista de arrabalde, agora solto e inútil na boca desdentada de uma bruxa a que chamam pelo nome de Morte. Não há saída alguma nesse impasse final e definitivo. O homem se entrega então, sem ilusões ou esperanças possíveis, ao prazer mesquinho da bajulação e da subserviência, temperando os restos de sua existência perdida no calco amargo das humilhações. Essa é a tragédia das gerações que floresceram nos campos semeados pelas mentiras da Religião e da Moral que se cevam na hipocrisia. Por isso o Fim do Mundo, imaginado pelos teólogos e pregado pelos clérigos, nada mais é que o sabá funambulesco dos duendes sem esperanças. Os mortos ressuscitam para a vida eterna, mas o fazem nos seus corpos recuperados por um Deus sádico, que os retira do túmulo no estado precário em que morreram num passado longínquo, dando-lhes apenas o consolo de continuarem na eternidade a viver com as doenças e os aleijões de uma longínqua vida frustrada. Não seria preferível o caldeirão do Diabo, nesse caso, mais piedoso do que Deus?

É espantosa a inversão de valores produzida pela imaginação teológica do Cristianismo. Espremidos entre duas ordens de coisas, a humana e a divina, mas fatalmente apegados, por sua condição humana e pelo condicionamento das aspirações celestes, os teólogos fizeram tal confusão na suposta Ciência de Deus que herdaram das mitologias pagãs, que acabaram atribuindo virtudes de Deus ao Diabo e atribuindo a Deus as maldades deste. Disso resultou que Deus aparece muitas vezes no plano teológico vestido com a pele do Diabo, e este se atreve, não raro, a enfiar-se diabolicamente na pele de Deus. Claro que essa lamentável confusão levaria os homens, não aos caminhos do Céu nem às veredas do Inferno, mas ao deserto sem caravanas nem roteiros da descrença e do materialismo. Tanto papel impresso se gastou, em tomos inflados de sabedoria fantasiosa, que se tornou necessária a rede de dogmas inexplicáveis e invioláveis, até mesmo intangíveis, para se impedir o desmoronamento total das gigantescas estruturas teológicas. Mas não há prisão que escravize para sempre o pensamento, hoje reconhecido como a energia mais poderosa do universo. Esses prometeus de batina quiseram roubar o fogo do Céu sem escalar o monte Olimpo. Evitaram os raios de Zeus e de Júpiter, mas acabaram enrolados nas suas próprias trapaças. A Igreja não confiou nas sementes do Evangelho (que Lutero teve de arrancar à força de suas mãos azinhavradas) e semeou na Terra as sementes do Diabo, regadas a maldições e sangue, ao crepitar sinistro das fogueiras inquisitoriais. Essas mesmas fogueiras, porém, fizeram amadurecer a razão humana que explodiria em flores e frutos, em safras inesperadas nos fins da Idade Média e no Renascimento. Deus corrigia os teólogos.

As novas gerações são as últimas herdeiras da herança teológica e enfrentam os derradeiros embates com os defensores de uma tradição mentirosa e hipócrita. Essa posição exige dos jovens pesados ónus. Eles se sentem esmagados por aquelas exigências dos rabinos do Templo, que Jesus acusou de sobrecarregarem os homens com fardos esmagadores e não os ajudar sequer com a ponta dos dedos; amarrados a tradições da família e ao mesmo tempo atraídos pelas perspectivas de uma vida mais racional e justa em conflito consigo mesmo. O chamado conflito de gerações se acentua e complica, levando muitos jovens à revolta e ao desespero. Acabam rasgando os velhos protocolos dos Sábios de Sião e entregando-se à experiência, na busca de originalidades. Chegam à maturidade em plena confusão. Não conseguiram assimilar a cultura do passado e precisam integrar-se urgentemente nas condições de um mundo híbrido em que as opções se tornam embaraçosas. O anseio dos adultos, de se parecerem jovens, torna-os geralmente excêntricos, portanto desajustados. Nessa fase de transição a idade cronológica perde o seu antigo sentido, juventude e maturidade se confundem, gerando uma velhice insubordinada que tripudia sobre os valores antigos. Mas a força da idade acaba se impondo e obriga os velhos jovens a todos os compromissos da mentira e da hipocrisia. É por isso que parece, aos observadores atentos, como virados do avesso.

A Educação para a Morte os livraria dessas situações conflituosa, dando-lhes os instrumentos da compreensão da época, necessários à orientação segura para os tempos de insegurança. A morte nos espera e surpreende a todos, mas quando aprendemos que a morte não é a estação final da vida e sim um ponto de baldeação para outros destinos, reconhecemos a necessidade das fases de transição, que nos fazem conhecer o avesso do mundo. É nessas fases que a rotina das civilizações se quebra, se despedaça, para que o fluxo da evolução possa prosseguir nas civilizações subsequentes. As pessoas que não podem aceitar o princípio da reencarnação, que lhes parece absurdo, deviam pensar na rotina da vida, que nos fecha também na rotina das ideias feitas e aceitas sem análise. Num Universo essencialmente dinâmico, em que, como dizia Talles, não podemos entrar duas vezes num mesmo rio, pois enquanto saímos das águas o rio já se modificou, não é admissível aceitarmos que só o homem não possa mudar-se, transformar-se, e tenha de desaparecer com a morte. A regra é uma só, para todas as coisas e todos os seres. Desde que nascemos, até que morrermos, a nossa própria vida individual é uma constante mudança. Por isso perguntou o poeta mexicano Amado Nervo: “É mais difícil renascer do que nascer?”
/…


José Herculano Pires – Educação para a Morte, Jovens e Maduros, 14º fragmento da obra.
(imagem: O caranguejo, pintura de William-Adolphe Bouguereau)

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

O Mundo Invisível e a Guerra ~


VII
O Dia de Finados na Trincheira

|2 de novembro de 1916|

   O céu está sombrio e uma imensa tristeza envolve a Terra. As almas dos que caíram lutando pela pátria pairam no espaço em incontáveis legiões.

   Nas casas solitárias, mulheres em luto pranteiam os desaparecidos.

   Os órfãos da guerra, cujos pais repousam debaixo da terra, nas planícies da região de Flandres ou nos bosques da Lorraine, vão lentamente para os cemitérios, para ornar de flores os túmulos das mães que os sofrimentos e os desgostos mataram.

   Bem ao longe, na trincheira, um jovem soldado vigia atentamente e lança os olhos em seu derredor.

   As linhas inimigas estão silenciosas e o canhão já se calou. A calma da natureza sucedeu ao tumulto da peleja e às conversas ruidosas dos acampamentos da retaguarda, porque aqui o perigo fez emudecer todas as conversações inúteis. A perspectiva da morte impõe a todos um grave recolhimento e os profundos pensamentos sobem dos corações aos cérebros.

   Aquele jovem soldado é um intelectual, um sensitivo e um espírita, e faz um ano que está na linha de frente, entrando em vários combates e vendo os colegas mortos pela metralha.

   De que depende a sua própria vida? Ela não é como um argueiro, uma palha, no meio da tormenta? Todavia, ele sabe que está sobre a sua cabeça uma protecção oculta e percebe que uma força desconhecida o ampara.

   Como todos aqueles cuja vida interior é intensa, agrada-lhe ficar só e a solidão é para ele a grande escola inspiradora, a causa das revelações, e nela se concretiza a comunhão de sua alma com Deus. Complacentes, os seus olhos repousam sobre a floresta próxima, que o Outono vestiu com as suas tintas de ouro e de púrpura.

   Até ele chega a canção de um regato, as colinas que cercam o horizonte desaparecem no pálido clarão do poente. Desse espectáculo da natureza emana uma serena paz que nada, nem o pensamento do perigo nem o receio da morte, consegue perturbar.

   Entre as cruentas visões da guerra, é bastante uma hora de contemplação para lembrar que a soberana beleza da vida e a eterna beleza do mundo superam todas as hecatombes humanas e que as guerras são impotentes para destruir qualquer parcela de embrião da alma.

   A noite se estende sobre a planície e, entre as nuvens, as estrelas projectam sobre a Terra os seus raios trémulos como provas de amor, testemunhos da imensa fraternidade que liga todos os seres e todos os mundos.

   Com a paz, a confiança e a esperança atingem o seu coração. Certamente ele saberá sempre cumprir o seu dever, batendo-se em defesa da pátria invadida, por cujo amor suportará todas as privações e trabalhos, porém as violências da guerra não lhe abafarão o sentimento superior da ordem e da harmonia universais.

   Assim como para os celtas (seus antepassados), os cadáveres estendidos pelo chão não são mais para eles, do que corpos despedaçados que a terra se prepara para receber no seu seio maternal.

   No mais profundo recesso de cada um de nós permanece um princípio imperecível contra o qual nada podem fazer todos os furores do ódio e todos os assaltos da força bruta.

   É dali, desse santuário íntimo, que renascerá, após a borrasca, o anseio humano pela justiça, a piedade e a bondade.
/…



LÉON DENIS, O Mundo Invisível e a Guerra, VII –  O Dia de Finados na Trincheira, 1 de 2, 20º fragmento da obra.
(imagem: Tanque de guerra britânico capturado pelos Alemães, durante a Primeira Guerra Mundial)

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Nas garras do pensamento crítico ~


Interpretação do homem ~

   O homem, segundo o materialismo, seja ele mecanicista dialéctico, é um animal pensante. Para Marx, e portanto para o dialéctico, é ainda o resultado da acção simultânea do trabalho, sobre ele e a natureza. Agindo sobre o meio em que vive, trabalhando-o, ele se modifica a si mesmo. Essa concepção materialista do homem não se enquadraria na doutrina de nenhuma das religiões corporificadas em igrejas. O Espiritismo, entretanto, não a contradiz. Apenas a amplia, ensinando que o princípio inteligente, no homem como no animal, independe do corpo. E por isso é condenado e combatido, ao mesmo tempo e por todos os lados, pelos religiosos e pelos materialistas.

   No capítulo III de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, encontramos esta definição: “O trabalho é lei da natureza, por isso que constitui uma necessidade, e a civilização obriga o homem a trabalhar mais porque lhe aumenta as necessidades e os gozos.” Logo adiante: “Sem o trabalho, o homem permaneceria sempre na infância, quanto à inteligência.”

   A lei de causa e efeito é o princípio fundamental da doutrina, a evolução constitui a sua própria essência. Por outro lado, não se estruturou o Espiritismo através de formulações hipotéticas. Todo o seu edifício doutrinário se assenta na observação e na experimentação. Charles Richet, que condenava a “credulidade excessiva” de Kardec, já o notara, no TraitéDialéctico por natureza, em essência e pelos métodos que emprega, o Espiritismo, se bem estudado, revela-se o legítimo e natural herdeiro do título a que se candidata o materialismo dialéctico: síntese do conhecimento.

   Realmente, o Espiritismo, diante dos mundos em litígio do materialismo e do espiritualismo, não peca por exclusão, não comete o pecado proudhoniano ou marxista da escolha. Na sua estrutura encontraremos aquelas duas concepções, não apenas conjugadas ou ajustadas, mas superadas na transfiguração de um novo corpo – a síntese –, em que a ciência, a filosofia e a religião, as três províncias antagónicas do conhecimento, aparecem encadeadas no verdadeiro “processus” da mais pura dialéctica, uma resultando da outra.

   No Anti-DühringEngels lembra as origens do marxismo e expõe a doutrina como a sequência lógica destas fases: a filosofia, a economia-política e o socialismo. No Espiritismo, a sequência se tresdobra na ciência, na filosofia e na religião. Partindo da observação e da análise dos fenómenos materiais, de natureza supranormal, criamos a filosofia do ser, e atingimos, logo a seguir, a religião. Esta, porém, não se traduz na organização de uma nova igreja, de um novo culto, de um novo “suborno da divindade”. Nem se traduz no antropomorfismo socialista, erguido no altar da produção. Mas é, ao mesmo tempo, a comunhão de bens, de corações e de espíritos, pela qual todos ansiamos, espiritualistas e materialistas, para a construção do mundo melhor amanhã.

   Porque o homem, para o Espiritismo, não é apenas “o último anel da vida animal na terra” (A Gênese, Kardec), nem o produto quase exclusivo da acção simultânea do trabalho; mas também aquele ser que se mostra nos fenómenos de materialização, de aparição, de visão, de voz directa, de incorporação, de psicografia ou de tiptologia, para demonstrar “aos que ficaram” que ele não se extinguiu com a morte, e que o seu conteúdo moral continua a viver e a se desenvolver indefinidamente, na multiplicidade das formas, sem prejuízo da identidade substancial.
/…



José Herculano Pires, Espiritismo Dialéctico, Interpretação do homem, 10º fragmento da obra.
(imagem de ilustração: Vi o caçador levantar o arco-íris, pintura em acrílico de Costa Brites)

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

a pedra e o joio ~


Autocriação do Espírito

   O livro do confrade Guimarães Andrade, A Teoria Corpuscular do Espírito, vale como um exemplo da facilidade com que os críticos e reformadores de Allan Kardec se perdem nas próprias contradições. Além da premissa falsa em que se baseia, desenvolve o falso silogismo de que os conceitos espíritas, sendo mecanicistas, devem modificar-se, adaptando-se aos princípios quânticos e relativistas da física moderna. A conclusão não podia ser verdadeira, como não é, pois representa a própria negação do espírito.

   Acusando Kardec e os Espíritos que o orientaram de se utilizarem de conceitos antiquados, o Sr. Guimarães Andrade acaba fazendo a mesma coisa. Mas, se Kardec empregava os conceitos científicos da época num sentido analógico, apresentando-nos uma visão do mundo e da vida que nada tem de mecanicista, o autor de A Teoria Corpuscular do Espírito faz o contrário. Tenta servir-se de conceitos relativistas para nos oferecer uma concepção mecânica do universo, da vida, do pensamento e do próprio espírito.

   Em Kardec, como vemos em O Livro dos Espíritos, a natureza do espírito é definida como inteiramente diversa da natureza da matéria. O Universo se compõe de três elementos essenciais: Deus, Espírito e Matéria. Não é possível falar-se em mecanicismo, quando se apresenta essa trilogia. Na teoria corpuscular, pelo contrário, o Universo se compõe apenas de matéria. Deus está ausente, e o espírito não é mais do que uma consequência das acções e reacções materiais.

   Vejamos o que é o espírito na teoria corpuscular. O Sr. Guimarães Andrade refere-se a dois tipos de arranjos atómicos: as formações espirituais simples e as formações espirituais compostas. As primeiras se constituem da seguinte maneira: dois corpúsculos, o “mentalton” e o “intelecton”, se juntam, formando um núcleo que se denomina “mónaton”, e em torno dele gira um “bion”. As segundas, “pela combinação sucessiva de mónatons com mentaltons, formando átomos espirituais cada vez mais espiritualizados”. (Suprimimos os parênteses explicativos do texto, para maior clareza da nossa exposição. O leitor encontrará esse trecho nas paginas 43 e 44 do livro). Esclarece o autor: “Assim como os átomos materiais têm afinidade entre si, capacitando-os a se combinarem, a fim de formarem moléculas, as formações espirituais simples também poderão originar combinações, as quais levarão o nome de formações espirituais compostas”.

   Temos aí o segredo atómico da formação do espírito, segredo que os próprios Espíritos orientadores de Kardec declararam desconhecer. A seguir, o Sr. Guimarães Andrade completa o quadro, afirmando: “A evolução do espírito resulta do crescimento em complexidade de uma formação espiritual composta, e é processada, inicialmente, através da vida no mundo físico, onde as experiências adquiridas nos vários ciclos de reencarnações sucessivas tornam possível a constituição de formações espirituais cada vez mais complexas”. (Isso na página 45 do livro).

   Como vemos, o espírito se forma na matéria e nela se desenvolve, por um processo puramente mecânico. Depois do arranjo-atómico de que resultou a constituição do espírito, o autor explica o processo de desenvolvimento da inteligência. Esse processo é um novo arranjo mecânico. As sensações produzidas nos átomos pela vida material formam o que ele chama de “rudimentaríssimo rosário de percepções puntiformes”. São linhas de pontos sensoriais, que deverão juntar-se mais tarde para formarem tecidos sensoriais. Dessa tecelagem vai nascer a inteligência. O autor descobre que o homem é o mais perfeito psicossoma da terra, e que o espírito se cria a si mesmo.

   O problema da autocriação espiritual é proposto na página oitenta do livro, quando o autor afirma ser o espírito “causa e efeito de si mesmo”. Para que assim seja, é claro que só podemos estar no plano do mecanicismo, que ele condenou em Kardec, como um dos motivos fundamentais da sua tentativa de reforma doutrinária. Arranjo de átomos, quanto à estrutura, e arranjo de sensações e percepções, no plano mental, o espírito é uma construção casual, semelhante à do atomismo grego. E dois elementos antiquados aí se reúnem: o empirismo filosófico e o elementarismo psicológico, ambos superados, que o autor procura juntar ao relativismo científico da física einsteiniana.

   Feito esse arranjo, o Sr. Guimarães Andrade enquadra o psicossoma na teoria do “continuum espaço-tempo”, de Einstein. Refere-se à quarta-dimensão, chamando os espíritos, quando livres do corpo material, de criaturas quadridimensionais. Mas acontece que a quarta-dimensão, para Einstein, é o tempo, que nada mais é senão uma continuação do espaço. As criaturas quadridimensionais, portanto, não são espirituais, no sentido espírita do termo, mas espaço-temporais, ou mais simplesmente, materiais, no sentido físico do termo. O hiperespaço em que os espíritos vivem é o próprio mundo físico no seu aspecto quadridimensional.

   Longe, portanto, de representar uma superação conceptual da doutrina espírita, na sua formulação kardeciana, a teoria corpuscular do espírito representa um retrocesso. Reduz o espírito à matéria e condiciona o seu aparecimento e o seu desenvolvimento às influências materiais. Além disso, a teoria se apresenta como um arranjo sincrético, uma mistura de concepções diversas, às vezes até contraditórias. Falta-lhe orientação lógica. Empirismo filosófico, elementarismo psicológico, atomismo grego, monadismo leibniziano, misticismo induísta, espiritismo kardeciano e relativismo científico moderno, são misturados ao sabor das conveniências.

   Foi por isso que dissemos, na crónica anterior, que consideramos o livro do confrade Guimarães Andrade prejudicial ao movimento doutrinário. Dando-se ares de novidade, a teoria corpuscular do espírito pode impor-se aos confrades desprevenidos, e particularmente aos “novidadeiros”, como o último passo da ciência espírita. Entretanto, quando alguém melhor informado das questões científicas e filosóficas da actualidade examinar o assunto, terá forçosamente de concluir que os espíritas não conseguem acertar o passo com a evolução do conhecimento. Se ficarmos, porém, com Kardec, estaremos avançando além dessa evolução, pois O Livro dos Espíritos abre perspectivas para a ciência moderna, em vez de ter sido ultrapassado por ela.
/…


José Herculano Pires – A Pedra e o Joio, Crítica à Teoria Corpuscular do Espírito. Autocriação do Espírito, 14º fragmento da obra.
(imagem: As Colhedoras de Grãos, pintura a óleo por Jean-François Millet)

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

| o grande enigma ~


Unidade substancial do | Universo

O Universo é uno, posto que triplo na aparência. Espírito, Força e Matéria não parecem ser mais que os modos, os três estados de uma substância imutável em seu princípio, variável ao infinito em suas manifestações.

O Universo vive e respira, animado por duas correntes poderosas: a absorção e a difusão.

Por essa expansão, por esse sopro imenso, Deus, o Ser dos seres, a Alma do Universo, cria. Por seu amor, atrai a si. As vibrações do seu pensamento e da sua vontade, fontes primeiras de todas as forças cósmicas, movem o Universo e geram a Vida.

A Matéria, dissemos, é um modo, uma forma transitória da substância universal. Ela escapa à análise e desaparece sob a objectiva dos microscópios, para se transmudar em radiações subtis. Não tem existência própria; as filosofias que a tomam por base repousam sobre uma aparência, uma espécie de ilusão. (I)

A unidade do Universo, por muito tempo negada ou incompreendida, começa a ser entrevista pela Ciência. Há duas décadas, W. Crookes, no curso de estudos sobre a materialização dos Espíritos, descobria o quarto estado da Matéria, o estado radiante, e essa descoberta, por suas consequências, ia destruir todas as velhas teorias clássicas sobre o assunto.

Estas estabeleciam distinção entre a Matéria e a Força. Sabemos agora que ambas se confundem. Sob a acção do calor, a matéria mais grosseira se transforma em fluidos; os fluidos, por sua vez, se reduzem a um elemento mais subtil, que escapa aos nossos sentidos. Toda matéria pode ser transformada em força e toda força se condensa em matéria, percorrendo assim um círculo incessante. (II)

As experiências de Crookes prosseguiram e foram confirmadas por uma legião de investigadores. O mais célebre, Roentgen, denominou raios X as irradiações emanadas das ampolas de vidro; têm eles a propriedade de atravessar a maior parte dos corpos opacos e permitem perceber e fotografar o invisível aos nossos olhos.

Pouco depois, o Sr. Becquerel demonstrava as propriedades que têm certos metais de emitir irradiações obscuras, que penetram a matéria mais densa, quais os raios Roentgen, e impressionam as placas fotográficas através das lâminas metálicas.

O rádium, descoberto pelo Sr. Curie, produz calor e luz, de maneira contínua, sem se esgotar de modo sensível. Os corpos submetidos à sua acção se tornam por sua vez irradiantes. Posto que a quantidade de energia irradiada por esse metal seja considerável, a perda de substância material que lhe corresponde é quase nula. W. Crookes calculou que um século seria necessário para a dissociação de um grama de rádium. (III) Mais ainda: as engenhosas descobertas de G. Le Bom (IV) provaram que as irradiações são uma propriedade geral de todos os corpos. A matéria pode dissociar-se indefinidamente; ela é energia concretizada. Assim, a teoria do átomo indivisível, que há dois milénios servia de base à Física e à Química, desmorona-se e, com ela, as distinções clássicas entre o ponderável e o imponderável. (V) A soberania da Matéria, que se dizia absoluta, eterna, teve fim.

É preciso, pois, reconhecer que o Universo não é tal como parecia aos nossos fracos sentidos. O mundo físico constitui ínfima parte dele. Fora do círculo de nossas percepções existe uma infinidade de forças e de formas subtis que a Ciência ignorou até hoje. O domínio do invisível é muito mais vasto e mais rico que o do mundo visível. Em sua análise dos elementos que constituem o Universo, a Ciência tem errado durante séculos, e agora lhe é necessário destruir o que tão penosamente edificou. O dogma científico da unidade irredutível do átomo, desmoronando-se, arrasta todas as teorias materialistas. A existência dos fluidos, afirmada pelos Espíritos há meio século – o que lhes valeu tantos sarcasmos da parte dos sábios oficiais –, está estabelecida, doravante, pela experimentação, de maneira rigorosa.

Os seres vivos, por sua parte, emitem irradiações de naturezas diferentes. Eflúvios humanos, variando de forma e de intensidade sob a acção da vontade, impregnam placas com misteriosa luz. Esses influxos, quer nervosos, quer psíquicos, conhecidos desde muito pelos magnetizadores e espíritas, mas negados pela Ciência, são autenticados hoje pelos fisiologistas, no grau de realidade irrecusável. Por esse caminho é encontrado o princípio da telepatia. As volições do pensamento, as projecções da vontade, transmitem-se através do Espaço, quais as vibrações do som e as ondulações da luz, e vão impressionar organismos em simpatia com o do emitente. As Almas em afinidade de pensamento e de sentimento podem trocar seus eflúvios, em todas as distâncias, de igual maneira que os astros permutam, através dos abismos do Espaço, seus raios trémulos. Descobrimos ainda aí o segredo das ardentes simpatias ou das invencíveis repulsões que certos homens sentem uns pelos outros, à primeira vista.

A maior parte dos problemas psicológicos – sugestão, comunicação à distância, acções e reacções ocultas, visão através de obstáculos – encontram aí a sua explicação. Estamos ainda na aurora do verdadeiro conhecimento, mas o campo das pesquisas se acha largamente aberto e a Ciência vai marchar, de conquista em conquista, em senda rica de surpresas. O mundo invisível se revela a própria base do Universo, a fonte eterna das energias físicas e vitais que animam o Cosmos.

Rui assim o principal argumento daqueles que negam a possibilidade da existência dos Espíritos, dos que não podiam conceber a vida invisível, por falta de um substrato, de uma substância que escapa aos nossos sentidos. Ora, nós encontramos, conjuntamente, no mundo dos imponderáveis, os elementos constitutivos da vida desses seres e as forças que lhes são necessárias para manifestar sua existência.

Os fenómenos espíritas, de toda ordem, explicam-se pelo facto de que um dispêndio considerável de energia pode produzir-se sem dispêndio aparente de matéria. Os transportes, a desagregação e a reconstituição espontâneos de objectos, em câmaras fechadas; os casos de levitação; a passagem dos Espíritos através dos corpos sólidos; aparições e materializações, que provocaram tanta admiração e suscitaram tantos sarcasmos; tudo isso se torna fácil de compreender, desde que se conheça o jogo das forças e dos elementos em acção nesses fenómenos. De tal dissociação de matéria, de que fala G. Le Bon e que o homem é ainda impotente para produzir, os Espíritos possuem, de há muito, as regras e as leis. A aplicação dos raios X não explica também o fenómeno da dupla vista dos médiuns e o da fotografia espírita? Com efeito, se as placas podem ser influenciadas por certos raios obscuros, por diversas irradiações de matéria imponderável, que penetram os corpos opacos, maior e mais forte razão existe para que os fluidos quintessenciados do envoltório dos Espíritos possam, em determinadas condições, impressionar a retina dos videntes, aparelho mais delicado e mais complexo que a placa de vidro.

É assim que o Espiritismo se fortalece cada dia, pela aquisição de argumentos tirados das descobertas da Ciência, e que acabarão por abalar os mais endurecidos cépticos.

/…

(I) “A matéria, diz W. Crookes, é um modo do movimento.” (Proc. Roy. Soc., nº 205, pág. 472.).
(II) “Toda matéria – diz Crookes – tornará a passar pelo estado etéreo de onde veio.” (Discurso no Congresso de Química, de Berlim, 1901).
(III) Vide G. Le Bon, Revue Scientifique, 24 de Outubro de 1903, pág. 518.
(IV) Vide Revue Scientifique, 17, 24 e 31 de Outubro de 1903.
(V) Desde séculos, afirmava-se e defendia-se a teoria dos átomos, sem que a conhecessem perfeitamente. Berthelot a qualifica de “romance engenhoso e subtil”. (Berthelot – La Synthese Chimique, 1876, p. 164.) Por aí se vê – diz Le Bon – que certos dogmas científicos não têm mais consistência que as divindades dos antigos tempos.



Léon Denis, O Grande Enigma, Primeira parte Deus e o Universo, II Unidade substancial do Universo 1 de 2, 9º fragmento da obra.
(imagem: As majestosas e violentas palavras dos poemas, pintura em acrílico de Costa Brites)

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Victor Hugo e o invisível ~


A EXPERIÊNCIA ESPÍRITA DE VICTOR HUGO

   Victor Hugo possuía fé no plano divino do Universo, razão porque baseava o seu lirismo sobre essa profunda convicção. Confiava na lei do progresso e admitia que tudo evolui apesar das incertezas humanas. Quando o homem, orgulhosamente, se considera "o fim e a meta do universo", o poeta exclama: ''Acreditas que esta vida universal, que vai da rosa à árvore, da árvore ao animal, que se eleva insensivelmente da pedra a ti, detem-se ante o declive do abismo do homem? Não, prossegue invencível e admirável, penetra no invisível e no imponderável, desvanece-se para ti, plena do azul de um mundo deslumbrante, penetra entre seres que estão em volta do homem e outros que estão longe dele, os espíritos puros, anjos, formados de raios, como o homem está formado de instintos. Prossegue através de céus sempre elevados, sobe escalando as estrelas; dos demónios desencadeados, sobe até aos seres alados, ao espírito astro como o sol arcanjo; une, estreitando milhões de léguas, os grupos de constelações com as legiões azuis; povoa o alto, as bordas e o centro, e em todas as profundezas está em Deus".

   A visão cósmica que possuía sobre o homem faz-nos recordar este maravilhoso texto mediúnico: "Habitante do espaço, fénix que renasce da matéria, peregrino dos mundos nos quais deixa um ser que foi e é, conta suas horas por períodos de vida. Guerreiro incansável, veste-se de organismo para lutar e acrescentar aos seus domínios mais verdade e ao seu poder mais luz" |*

   A primeira sessão mediúnica de Victor Hugo foi publicada por Gustavo Simón (ver o seu livro "Les tables tournantes de Jersey", editorial Louis Conard, Paris), na qual se manifestou a sua filha Leopoldina, há pouco falecida em naufrágio, e lavrou a correspondente acta o célebre poeta e dramaturgo Augusto Vacquerie. Eis o relato:

   "Quando se falava das mesas girantes nós duvidávamos. Havíamos feito experiências com elas, mas sem êxito certo. Víamos, sobretudo, na atenção que em todas as partes se dedicava a estes fenómenos uma armadilha da polícia francesa para distrair o espírito público das vergonhas do governo. Assim estávamos quando Mme. de Girardin veio a Jersey para visitar Victor Hugo. Chegou na terça-feira, 6 de setembro de 1853.

   "Falou-nos das mesas. Não giravam, apenas: falavam também. Convencionava-se com elas que as batidas que dessem seriam as letras do alfabeto e que se escreveria a letra na qual se detivessem. Assim se obtinham letra por letra e palavra por palavra, frases e páginas inteiras. Vimos nisto um paradoxo do génio encantador de Mme. de Girardin.

   Tanto é que, na quarta-feira, enquanto tratava de falar à mesa com Victor Hugo, na sala de jantar, nós permanecíamos no salão. A mesa não falou. Mme. de Girardin disse que o fracasso se devia a que a mesa era quadrada e que se precisava de uma redonda. Não a tínhamos. Na quinta, ela mesma trouxe uma pequena mesa de três pés que havia comprado em Saint Hélier, num bazar de jogos. No dia seguinte, voltou a experimentar sem êxito. Eu, particularmente, acreditava tão pouco nas mesas que fui deitar-me enquanto eles se punham a experimentar. No sábado, Victor Hugo e Mme. de Girardin jantaram na casa de um senhor de Jersey, M. Gordfray. Mme. de Girardin voltou a experimentar, inutilmente. No domingo à noite eis o que aconteceu.

ACTA

"Presentes Madame de Girardin, Madame Victor Hugo, Victor Hugo, Carlos Hugo, Francisco Victor Hugo, general Le Fló, M. de Trevenueu, Augusto Vacquerie.

"Mme. de Girardin e Augusto Vacquerie põem-se à mesa, colocando a mesinha redonda em cima de uma mesa grande quadrada. Ao fim de alguns minutos a mesa estremece.

"Mme. de Girardin: Quem és? (A mesa levanta um pé e não o abaixa.)

"Mme. de Girardin: Existe algo que te preocupa? Se for assim, dá uma batida, se não, duas batidas. (A mesa dá uma batida.)

"Mme. de Girardin: O quê?

"- Losango.

"(De facto, estávamos sentados formando um losango, sentados em ambos os lados de um ângulo da mesa grande.)

"(A mesa se agita, vai e vem, recusa-se a falar. Eu me separo dela. O general Le Fló ocupa meu lugar. Na mesa, Carlos Hugo e o general Le Fló.)

"General Le Fló: Diga em que penso.

"Mme. de Girardin, ao mesmo tempo: Quem és?

"- Filha.

"(O general Le Fló não pensava em sua filha. Eu penso em meu sobrinho Ernesto e pergunto:)

"- Em que penso?

"- Morta.

"Mme. de Girardin, bastante emocionada: -Filha morta?

"Eu volto a dizer:

''- Em que penso?

"- Morta.

"(Todos pensam na filha que Victor Hugo perdera.)

"Mme. de Girardin: Quem és?

''- Ame Soror.

"(Mme. de Girardin havia perdido a irmã. A mesa disse soror em latim para dizer que era irmã de um homem?)

"General Le Fló: Carlos Hugo e eu, que estamos à mesa, perdemos uma irmã cada um. De quem és irmã?

"- Dúvida.

"General Le Fló: Teu país?

"- França.

"General Le Fló: Tua cidade?

"(Nenhuma resposta. Todos sentimos a presença da morte. Todo mundo chora.)

"Victor Hugo: És feliz?

"- Sim.

"Victor Hugo: Onde estás?

"- Luz.

"Victor Hugo: O que se deve fazer para ir a ti?

''- Amar.

"(A partir deste momento, em que todos estamos emocionados, a mesa, como se se visse compreendida, já não vacila mais. Responde imediatamente ao ser interrogada. Quando demoramos para fazer-lhe uma pergunta, agita-se para a direita e esquerda.)

"Mme. de Girardin: Quem te envia?

''- Bom Deus.

"Mme. de Girardin, muito emocionada: Fala tu mesma, tens algo a dizer?

"- Sofri rumo ao outro mundo.

"Eu não estava absolutamente convencido. Não é que acreditasse precisamente que Mme. de Girardin nos enganava e dava os golpes voluntariamente. Mas eu me dizia que a força do desejo e a tensão do espírito podiam dar à sua mão uma pressão involuntária.

"Fomos buscar outra mesa, sobre a qual colocamos a pequena. Mme. de Girardin e Carlos Hugo colocam-se de maneira que cortam a mesa-suporte em ângulo recto. A mesa se agita.

"General Le Fló: Diz-me em que penso.

"- Fidelidade.

"(O general Le Fló pensava em sua mulher. Eu estava algo menos convencido. Parecia-me tão engenhoso e espiritual responder 'fidelidade' a um marido que pensa em sua mulher, que atribuía a resposta à Mme. de Girardin.)

"Victor Hugo escreve uma palavra em papel e o coloca, fechado, em cima da mesa.

"Augusto Vacquerie: Podes dizer-me o nome escrito aí dentro?

"- Não.

"Victor Hugo: Por quê?

"- Papel.

"Todas as respostas começavam a nos estranhar um pouco. Para estar mais seguro que não era Mme. de Girardin quem actuava, solicito colocar-me à mesa com Carlos Hugo. Ponho-me com ele. A mesa se move. Penso em um nome e digo:

"- Qual é o nome em que penso?

"- Hugo.

"De facto, este era o nome. Neste momento comecei a crer. Fazia alguns instantes que Mme. De Girardin estava emocionada e pedia-nos que não perdêssemos tempo com perguntas pueris. Pressentia uma grande aparição, mas nós, que duvidávamos, permanecíamos a desafiar a mesa a que respondesse a palavras escritas ou pensadas.

"Mme. de Girardin: Engana-nos?

"- Sim.

"Mme. de Girardin: Por quê?

"- Absurdo.

"Mme. de Girardin: Pois bem, fala tu mesmo.

"Importuna.

"Mme. de Girardin: Quem te importuna?

"- Um só.

"Mme. de Girardin: Aponte-o.

"- Ruivo.

"De facto, o Sr. de Trévenueu, muito ruivo, era o mais incrédulo de nós.

"Mme. de Girardin: Deseja que saia?

"- Não.

"Victor Hugo: Vês o sofrimento dos que te amam?

"- Sim.

"Mme. de Girardin: Sofrerão muito tempo?

"- Não.

"Mme. de Girardin: Voltarão rápido à França?

"(Não responde.)

"Victor Hugo: Depende deles para que possam voltar?

"- Não.

"Victor Hugo: Mas, voltarás?

"- Sim.

"Victor Hugo: Breve?

"- Sim.

"(Encerrado a uma e meia da madrugada.) Nota: Tudo o que antecede foi escrito imediatamente após a sessão por Augusto Vacquerie. A partir deste dia decidimos escrever as respostas da mesa no momento em que se produziam. Todas as actas seguintes foram recolhidas durante o transcurso das próprias sessões.''
/…

|* Daniel Suárez Artazu: Marietta y Estrella. Páginas de duas existências



Humberto MariottiVictor Hugo Espírita, A Experiência Espírita de Victor Hugo, 6º fragmento da obra
(imagem: Criança com uma boneca, pintura de Anne-Louis GIRODET-TRIOSON)

quinta-feira, 25 de julho de 2013

O Génio Céltico e o Mundo Invisível ~


Capítulo VI

A Lorraine e os Vosges. Joana d’Arc, alma céltica

   Por quê estas páginas sobre a Lorraine? – pergunta-se. Esta região, afastada de todos os grandes focos célticos, pode então figurar na sua sequência? Sim, certamente, porque a Lorraine sempre tem sido o baluarte de defesa do mundo céltico contra os germanos.

   Demais, deve notar-se que existe uma lacuna em quase todas as obras similares. Fala-se muito da Bretagne e passa-se em silêncio sobre as outras regiões célticas. Ora, para facilitar, na França, o despertar da alma céltica, reconduzi-la às suas tradições, mostrar a altivez de suas origens, é preciso lembrar a sua ascendência sobre outras províncias interessadas e desembaraçá-las, assim, dessa influência latina que, desde muitos séculos, dissimula a sua própria individualidade.

   A Lorraine foi, constantemente, o caminho de invasões dos povos vindos do norte atraídos pelos eflúvios das regiões quentes ou temperadas. Desde os primeiros tempos de nossa história, longa seria a lista das hordas estrangeiras que têm pisado o seu solo e devastado os seus campos. Toda a minha infância foi embalada pelo relato das depredações causadas pelos exércitos inimigos. À sua aproximação, os habitantes das aldeias, levando o que tinham de mais precioso, fugiam para os confins dos bosques onde erguiam as barracas, às pressas. Igualmente, enquanto que, no centro e no oeste, os sítios e as habitações estão disseminados aqui e ali, conforme as necessidades da cultura, é notável de ver, no leste, as populações agrupadas em grandes vilas; as casas isoladas, ali, são raras. De todos esses fluxos e refluxos de exércitos, desses cercos e choques violentos, a Lorraine sofreu mais do que qualquer outra província francesa. Isso motivou um patriotismo ardente que persiste através dos séculos.

   A cadeia dos Vosges se ergue como uma muralha, da qual o Reno parece ser o fosso. A planície da Alsace é misturada de elementos gauleses e germânicos, mas por toda a parte, as lembranças célticas dominam. O mesmo ocorre em alguns outros pontos da Lorraine.

   Como um posto avançado cobrindo a linha dos montes, o Odilienberg eleva bem alto, acima dessa planície, o seu campo entrincheirado, formado de blocos ciclópicos, enorme recinto que podia servir de refúgio e de defesa a uma tribo inteira com todos os seus recursos em grãos, rações e animais.

   Sobre duas elevações, ocupadas hoje em dia por duas capelas, se achavam os templos de Hésus e de Bellena. O Donon, como o Puy de Dôme, era uma montanha consagrada aos deuses, e sobre quase todos os cumes dos Vosges se encontram vestígios de altares druídicos.

   Eu andei, frequentemente, sobre essas cristas e esses planaltos encrespados de carvalhos, de faias e de negros abetos entre os rochedos de arenito vermelho e de ruínas de velhos burgos, pousados como ninhos de águia sobre os altos cumes.

   A qual época remonta o vasto sistema de defesa que, sob o nome de “muro pagão”, abarca as alturas de Sainte-Odile, a Bloss e o Menelstein? Evidentemente, à época das primeiras invasões germânicas, as quais ele tinha, por finalidade, deter ou retardar. Esses entrincheiramentos pertenciam, portanto, ao período céltico.

   Maurice Barrès escrevia sobre esse assunto:

   “Nessa montanha, desde o século IV ou III a.C., os celtas tinham construído o “muro pagão”. Encontram-se sobre esse cume os restos de um “oppidum” (fortaleza) gaulês e provavelmente um colégio sacerdotal druídico.” (I)

   Escreveu, por sua vez, Edouard Schuré:

   “Os “tumuli” (montes de pedras, espécie de túmulos) encontrados no recinto, os menires posados sobre os flancos, os dolmens e as pedras de sacrifício que se espalham pelas montanhas e vales ao redor, os nomes de certas localidades, tudo prova que a montanha Sainte-Odile foi, nos tempos célticos, a sede de um grande culto.” (II)

   Esse autor, portanto, considera esse prodigioso conjunto de ruínas como os restos de um dos maiores santuários da Gália. Ele coloca sobre o promontório de Landsberg o “Templo do Sol”, usado pelos druidas. Desse ponto o panorama é imenso, estendendo-se para trás sobre as vastas florestas e vales encaixados que cobrem as vertentes dos Vosges e em direcção oposta, sobre toda a planície da Alsace. De longe, a fita prateada do Reno se desenrola; finalmente, no horizonte, por cima das arestas sombrias da Floresta Negra, a vista se estende até aos cumes dos Alpes, deslumbrante, sob a sua coroa de geleiras.

   Pode notar-se, como fizemos a propósito da Bretagne, que a maior parte dos grandes santuários cristãos foram adaptados, poder-se-ia dizer, foram enxertados sobre cultos anteriores.

   Nos terrenos consagrados pelos druidas durante séculos foi construído, mais tarde, o Mosteiro de Sainte-Odile, padroeira da Alsace.

   Apesar da mudança de religião, desde dois mil anos, longas filas de peregrinos se encaminhavam para a “Montanha do Sol”, para ali procurar um socorro moral. Sob nomes e fórmulas variadas, a sua fé, as suas orações a ela os atraíam e nela acumulavam essas forças psíquicas das quais a ciência começa apenas a medir a potência e a extensão. Eles criavam, assim, um ambiente fluídico e magnético que permitia ao mundo invisível se reaproximar do mundo terrestre e agir sobre ele. Daí, essas manifestações e principalmente essas curas maravilhosas que se produziram nos lugares sagrados de todos os tempos, de todos os países e de todas as religiões.

   No seio desses sítios grandiosos, o pensamento se eleva com mais força, comunga com mais intensidade com o Além superior, porque Deus está por toda parte onde a natureza fala ao coração do homem.

   Quando um tremor passa sobre as massas de verde e faz ondular o cume das grandes árvores da floresta, quando a voz das torrentes e das cascatas se eleva do fundo dos vales, a alma iniciada compreende melhor a beleza eterna, a suprema harmonia das coisas, e vibra em uníssono com a vida universal. É o que eu senti não somente sobre as alturas de Sainte-Odile, mas também sobre a maior parte dos cumes dos Vosges e, notadamente, sobre o Hohneck, de onde a vista engloba toda a planície até ao Reno, até aos Alpes longínquos.

   Dia virá em que os homens, afastando-se das velhas formas religiosas, se unirão num pensamento comum de adoração e de amor. Como no tempo dos druidas, a natureza retornará ao templo augusto; será então a religião do espírito, consciente dele mesmo e de seu destino, que é o de evoluir de vidas em vidas, de mundos em mundos em direcção ao foco eterno de toda luz, de toda sabedoria, de toda verdade. E assim será fundada a unidade religiosa da Terra e do espaço, de duas humanidades, visível e invisível.
/…

(I) Maurice Barrés, Au service de l’Allemagne, cap. VI.
(II) Les Grandes Légendes de France. Ed. Perrin.


LÉON DENIS, O Génio Céltico e o Mundo Invisível, Primeira Parte OS PAÍSES CÉLTICOS, CAPÍTULO VI – A Lorraine e os Vosges. Joana d’Arc, alma céltica 1 de 3, 19º fragmento da obra.
(imagem: A Apoteose dos heróis franceses que morreram pelo seu país durante a guerra da Liberdade, pintura de Anne-Louis Girodet-Trioson)