Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

quarta-feira, 12 de março de 2014

O Mundo Invisível e a Guerra ~


VIII

Acção dos Espíritos sobre os Actuais Aconteci-mentos

|Janeiro de 1917|

   A guerra vem representando o seu terrível drama há dois longos anos e a França padeceu cruelmente. Todo o peso dos seus erros – leviandade, imprudência, cepticismo e o desenfreado amor material – recaiu sobre ela.

   Apesar disso, a França não podia morrer, e no correr das hostilidades um valoroso espírito nos afirmava: “Os orgulhosos alemães, traidores e criminosos, não dominarão o mundo.”

   Ao lado de seus erros a França apresentou, muitas vezes, qualidades generosas e, na suprema luta, nunca se rebaixou aos odiosos recursos usados pelos alemães, que desprezaram todas as leis divinas e humanas.

   O procedimento da França, durante essa guerra terrível, causou espanto e admiração à Europa e ao mundo.

   Antes que esses factos ocorressem ninguém podia prever tal despertamento das heróicas virtudes de nossa raça; pelo contrário, tudo parecia demonstrar uma decadência do carácter nacional.

   A questão Dreyfus (i) deixara marcas persistentes e profundas; o pacifismo, o antimilitarismo e as teorias internacionalistas haviam trabalhado e minado os espíritos. Já não se acreditava na possibilidade de uma guerra e procurava-se diminuir, o mais possível, as obrigações e os créditos militares.

   A lei de três anos foi motivo de longas e difíceis discussões e, mal tendo sido votada, já desejavam atenuar os seus efeitos.

   Certos oficiais inferiores me afirmavam que, no lugar de combater, devolveriam o sabre e o revólver.

   Na minha presença, os oficiais de um regimento do sul se queixavam da falta de patriotismo dos seus soldados, tentando, por meio de conferências sobre a bandeira e os grandes exemplos da História, despertar a fibra patriótica, mas como resultado só conseguiam maliciosa indiferença.

   Numa canção muito divulgada, chegou-se ao ponto de dizer que as balas dos nossos soldados seriam para os seus generais.

   A Confederação do Trabalho e os sindicatos dos ferroviários respondiam com a ameaça de greve às ordens de mobilização. Nesse ínterim a guerra rebenta e se opera rapidamente nos ânimos uma completa mudança: a mobilização se faz com presteza, gravidade e precisão.

   Todos partem conscientes das grandes responsabilidades que irão desempenhar, resolutos até ao sacrifício e até à morte, abandonando, sem hesitação, o lar, a mulher e os filhos que, talvez, jamais tornarão a ver.

   Durante dois longos anos, com uma força de vontade incapaz de enfraquecer, o soldado francês sustentará o combate do mais valente exército que o mundo viu. Consciente do seu esforço e certo dos seus recursos, sabe que está servindo à mais nobre das causas; a da pátria e a da liberdade.

   A França apresentou-se ao mundo com o seu verdadeiro carácter. Todos a julgavam debilitada, enfraquecida e decadente. Alguns atreviam-se a afirmar que o seu papel histórico havia terminado, porém, no transcurso dessa gigantesca luta, ela não conheceu uma única hora de desalento nem de desesperança.

   As mais duras provações, as maiores dificuldades encontraram a França mais corajosa, mais resoluta em continuar a sua imensa tarefa até ao triunfo do direito e da justiça.

   Durante os combates diurnos e nocturnos, nos quais se frustravam os minuciosos cálculos e as infames maquinações da estratégia alemã, uma espécie de frenesi místico se apoderava do soldado francês.

   Sob a crepitação das metralhadoras, debaixo da tempestade de ferro e de fogo, nas labaredas e nas ondas de gás asfixiante, o nosso soldado se mostrou sempre valoroso, ardente, disposto a todos os grandes feitos, a todos os esforços sublimes!

   A França representa a força moral de nossa coligação nesse terrível drama, o maior que a humanidade já conheceu.

   Foi a vitória no Marne que conteve a avalanche alemã e por muito tempo a imobilizou, dando assim aos aliados o tempo indispensável para preencher as lacunas da sua organização, remediando a sua imprudência e, num esforço comum, reagir contra o mais terrível de todos os dispositivos militares.

   Foi a França que, diante do mundo aterrado pela brutalidade alemã, defendeu, com os seus aliados, contra um adversário covarde, criminoso e desleal, a causa da justiça, da verdade, da liberdade dos povos e o direito que todo o homem tem de viver e morrer livre. Pode afirmar-se que ela salvou a Europa do mais opressor dos despotismos e, assim, se impôs à estima e ao respeito da história, oferecendo o seu sangue e os seus recursos pelo progresso e salvação da humanidade.

   Mudança tão completa e transformação tão radical só se podem explicar pelo despertamento das fortes qualidades de nossa raça, pelas lembranças evocadas e pelos heróicos exemplos que as gerações pretéritas nos deixaram como herança? É certo que tudo isso existe, porém há algo mais ainda: queremos referir-nos à imensa ajuda trazida pelas legiões invisíveis.

   Graças às orientações dos nossos guias, desde o início da guerra pudemos acompanhar, em todas as suas etapas, a acção dos poderes ocultos que lutam connosco pela salvação da França e pelos direitos da eterna justiça.

   Acima de nossas linhas, na hora dos combates, paira o incontável exército dos mortos, todas as almas dos heróis, notáveis ou obscuros, que morreram defendendo a pátria.

   Num voo glorioso, como de grandes aves, eles se equilibram sobre os nossos defensores, alentando-os na luta ardente e derramando sobre eles, com energia, as forças psíquicas e os fluidos adquiridos pelos séculos.

   O exército invisível também tem comandantes ilustres, pois os nossos médiuns videntes reconhecem Vercingétorix, Joana d’Arc, Henrique IV, Napoleão, os grandes generais da Revolução e do Império.

   Essa visão impressiona profundamente os médiuns. Cada um dos nossos comandantes, durante as operações, é secundado por um espírito poderoso que o inspira e guia na acção.

   Às vezes, todos esses espíritos se congregam e deliberam, sendo as suas decisões transmitidas pela intuição aos generais comandantes que, quase sempre, as obedecem pensando que realizam os seus planos pessoais.

   Nos momentos trágicos, o soldado francês tinha consciência desse socorro do Invisível. Sentia que uma força superior o amparava e o ajudava na grandeza da sua missão, garantindo-lhe que a sorte do seu país estava nas suas mãos.

   Aos esforços dos soldados em acção somavam-se os dos colegas que morreram, porque não dormem debaixo da terra os espíritos daqueles que, no correr de 20 meses, tombaram pela metralha alemã; tornamos a encontrá-los nessa multidão invisível, cujas ondas imensas se entrechocam com o inimigo.

/…
(i) Alfred Dreyfus (1859-1935): militar francês condenado injustamente, por espionagem, a trabalhos forçados. O caso, que comovia toda a França, despertou o interesse do escritor Émile Zola que considerava Dreyfus inocente e fez uma grande campanha em sua defesa, o que lhe valeu ser processado. Dreyfus, 12 anos após a sua condenação, depois de ser indultado e ter a sua sentença anulada, voltou ao exército no cargo de comandante. (N.R.)




LÉON DENIS, O Mundo Invisível e a Guerra, VIII / Acção dos Espíritos sobre os Actuais Acontecimentos / Janeiro de 1917 (1 de 2) 22º fragmento da obra.
(imagem de ilustração: Tanque de guerra britânico capturado pelos Alemães, durante a Primeira Guerra Mundial)

segunda-feira, 3 de março de 2014

Nas garras do pensamento crítico ~


Da especulação à ex-perimentação ~

   Mas Allan Kardec não fala “por ouvir dizer”, ele jamais foi um homem levado pela imaginação: foi um observador rigoroso. E é através da mais pura dialéctica que nos explica a razão dessas vagas aspirações.

   “Se a questão do homem espiritual permaneceu até aos nossos dias em forma de teoria, é porque nos faltaram os meios directos de observação, para constatar o estado do mundo material, e o campo ficou aberto às concepções do espírito humano. Enquanto o homem não conheceu as leis que regem a matéria e não pôde aplicar o método experimental, errou de sistema em sistema, no tocante ao mecanismo do Universo e à formação da Terra. Deu-se na ordem moral o mesmo que na ordem física; para determinar as ideias faltou-nos o elemento essencial: o conhecimento das leis do princípio espiritual. Esse conhecimento estava reservado à nossa época, como o das leis da matéria foi obra dos dois últimos séculos. Até ao presente, o estudo do princípio espiritual, compreendido na Metafísica, tem sido puramente especulativo e teórico; no Espiritismo é inteiramente experimental.”

   Chegados a este ponto, defrontamo-nos com o aspecto mais crítico da hora presente. De um lado, temos em marcha, com indiscutível eficácia, a aplicação do método dialéctico à história, à política, à sociologia etc., como a mais alta conquista do espírito no terreno prático e objectivo. Do outro, o abuso, que perdura, do método empírico, nas questões espirituais, com as consequentes explorações e deformações da realidade. E no meio, lutando entre as duas correntes, ambas poderosas, o Espiritismo, que não pode trair a realidade espiritual, para endossar a aplicação materialista da dialéctica, e não pode trair a sua própria natureza dialéctica, para apoiar o empirismo da prática espiritual. O resultado, infelizmente, é o que vemos: ele também, o Espiritismo, deformando-se, no aspecto sectário e místico de uma nova religião, ou na estrutura fria e materialista da simples observação metapsíquica.

   Todo o esforço do homem moderno tem de convergir para a superação dessa tremenda crise do conhecimento. E a superação somente se fará possível com a compreensão dos verdadeiros princípios do Espiritismo como doutrina dialéctica, por isso mesmo capaz de aplicar à história, à política, à sociologia, à economia, à arte, os seus métodos de análise, de observação, de pesquisa, sem se perder na mística de confessionário, nem se confundir com o tumulto dos comícios subversivos. Além do misoneísmo das religiões, do reformismo do socialismo político-liberal e da violência do materialismo-dialéctico, o Espiritismo indicará ao homem o caminho seguro das transformações substanciais da vida social, ou perderá a sua razão de ser. Como esta última hipótese não nos parece possível, o mais certo é que a história nos esteja empurrando, segundo observa Humberto Mariottiapesar da incapacidade geral e desoladora dos espíritas de hoje, na direcção do Espiritismo Dialéctico, verdadeira síntese do conhecimento, com que nos acena Allan Kardec.

   Humberto Mariotti afirma que “a realidade visível” da acção espírita no mundo se traduz no cultural, e “mais do que em qualquer outra parte, no bibliográfico”, faltando-lhe, entretanto, entrosar-se “no processo histórico da humanidade”. Esse entrosamento faz-se pela penetração nas massas através do seu aspecto “ingénuo”, de seita religiosa. Mas, se não houver, neste momento, a acção da alavanca da filosofia espírita, salvando o Espiritismo da “ingenuidade popular” e transformando-o, não mais em simples crença, mas em conhecimento, o processo natural desse entrosamento pode ser desvirtuado, pelo trabalho de sapa das forças contrárias.

   Aos espíritas, portanto, cabe o dever indeclinável de lutar para que esse entrosamento se realize. A bibliografia espírita – “quiçá insuperável pela de qualquer outro movimento filosófico” – deve descer das estantes e penetrar nas massas, não para se submeter à “ingenuidade” destas, mas para orientá-las no sentido da sua libertação moral, espiritual, intelectual e social. Para tanto, é necessário um novo trabalho de elaboração, de aglutinação, de sistematização do conhecimento espírita, na forma de compêndios culturais e de manuais populares.

   O aspecto religioso ou “ingénuo” do Espiritismo salvou-o da indiferença e da hostilidade conjugada de todas as forças dominantes dos séculos XIX e XX, escondendo-o no coração do povo, onde ele viveu e progrediu em silêncio, e permitindo, ao mesmo tempo, o trabalho cultural dos intelectuais espíritas. Temos hoje uma população espírita no mundo, e temos uma cultura espírita. Mas não temos a sociedade nem a civilização espíritas, como observa Mariotti, e nem mesmo a necessária e prévia ligação entre as massas espíritas e a cultura espírita, para a criação daquelas. Estamos, porém, no caminho dialéctico do desenvolvimento de uma nova civilização, e se compreendermos isso, lutando para alcançar o futuro, chegaremos lá.

   Humberto Mariotti fez uma concessão de boa-vontade ao “pensar naturalista” quando deu ao seu livro o título de Dialéctica e Metapsíquica. Porque o título verdadeiro do volume seria o de Espiritismo e Dialéctica. Evitou assim assustar a lebre na beira da estrada. Não se iludam, porém, os espíritas, mormente os espíritas brasileiros, tão afeitos a deixar de lado o que foge ao aspecto religioso da doutrina. As páginas de Mariotti não se referem apenas a uma controvérsia filosófica entre as duas doutrinas que lhe formam o título eventual. Elas são, pelo contrário, um brado de alerta e um convite sério à meditação e ao estudo. Principalmente ao estudo da natureza dialéctica do Espiritismo e das possibilidades imediatas da sua aplicação ao mundo – para transformá-lo.

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José Herculano Pires, Espiritismo Dialéctico, Da especulação à experimentação, 12º fragmento da obra.
(imagem de ilustração: Vi o caçador levantar o arco-íris, pintura em acrílico de Costa Brites)

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

a pedra e o joio ~


Reforma doutrinária total ~

   Chegamos agora ao fim do nosso exame da teoria corpuscular do espírito, e os leitores que nos acompanha-ram hão de lembrar-se que o iniciamos com esta declaração: “Conhecemos o confrade Guimarães Andrade, sabemos ser uma pessoa honesta e sincera, mas desconfiamos dos rumos da sua imaginação no campo doutrinário”. A esta altura, a nossa desconfiança está justificada. Vimos que a teoria corpuscular não é mais do que uma nova tentativa de confusão doutrinária, a envolver o movimento espírita, desprevenido e desarmado, ante as numerosas investidas que vem sofrendo.

   Companheiros dirigentes, cheios de boa-vontade fraterna, estranharam a nossa crítica. Sonham com a fraternidade sem jaça, o que é, naturalmente, muito louvável, e entendem que só devíamos ter palavras de estímulo para todos os que cuidam das coisas do espírito. Alguns chegaram mesmo a declarar que não devíamos desprestigiar “obras espíritas de valor”, por questões de ponto de vista. Mostramos, porém, de sobejo, numa análise serena e objectiva, que não se trata de “pontos de vista”, mas da própria defesa da doutrina e do movimento espírita.

   Os que batem palmas para tudo quanto se faz em nome do Espiritismo nada mais fazem do que incentivar a onda de confusões deste momento de transição. O confrade Guimarães Andrade é honesto, sincero, inteligente e culto. Mais do que isso, é uma criatura modesta, que não revela, pessoalmente, as ambições e as pretensões gigantescas do seu livro. Os que o conhecem pessoalmente e não leram ou não puderam entender o livro estranham que o acusemos de tamanha pretensão, qual a de reformador do Espiritismo e da Ciência. Não temos, porém, que examinar o homem, e sim o autor.

   Já demonstramos suficientemente as pretensões da teoria corpuscular. Embora, no início do volume, o autor declare que pretende apenas contribuir para a ciência espírita, logo mais ele se contradiz, investindo contra Kardec e o Espiritismo, para considerá-los obsoletos e propor-se a substituí-los. No correr do livro (e este é apenas o primeiro de uma série de não sabemos quantos), o autor se empolga, delira, perde-se nos desvios da sua própria imaginação, para no final declarar que pretende apresentar “as consequências filosóficas da teoria corpuscular do espírito”. É o momento de repetirmos a advertência evangélica: “Quem tem ouvidos de ouvir, ouça”.

   É inegável, porque declarado pelo próprio autor, que ele quer substituir toda a codificação kardeciana, considerando-a “empoeirada”, pela sua nova doutrina. A substituição começa na base, que é a ciência, continua no arcabouço doutrinário, que é a filosofia, e acabará por certo na cúpula, que é a religião, mesmo que seja para negá-la ou apresentar-lhe um substitutivo científico, da natureza do Positivismo. É então possível aceitarmos tudo isso, batermos palmas e essas pretensões, descuidados de suas consequências? Quem compreende a responsabilidade de espírita não pode, absolutamente, assumir, diante de ameaças dessa espécie, uma atitude de falsa tolerância. Porque isso seria compromisso no erro.

   No capítulo final do volume o confrade Guimarães Andrade esclarece ainda mais, declarando textualmente “Esperamos criar adeptos”. Acentua que deseja adeptos conscientes, capazes de analisar os seus ensaios e ajudá-lo no seu aperfeiçoamento. A sua modéstia aparece de novo, encobrindo as pretensões. Mas o véu da modéstia se torna, nesse momento, transparente como gaze. Apontamos numerosas contradições no livro, e entre elas podemos incluir esta: uma atitude modesta, encobrindo ambições desmedidas. Acreditamos que esta contradição se explique por uma frase do prólogo: “Esperamos ter alcançado a primeira etapa do vasto programa que nos foi confiado”. De um lado, temos a modéstia do instrumento; e, de outro, a ambição daquele ou daqueles que o usam, que lhe confiaram o programa.

   Outras contradições curiosas devem ser assinaladas. Pretende o autor apresentar uma teoria científica, mas não se dirige aos homens de ciência, em linguagem técnica, e sim ao público, em termos de divulgação popular. Como divulgar aquilo que ainda não está feito, que é apenas uma tentativa? Proclama a necessidade de dar bases teóricas modernas à ciência espírita, mas não se utiliza de uma bibliografia rigorosa, e sim de obras comuns de divulgação científica. Apela para a necessidade de experiências científicas, fora do campo mediúnico, o que é simples absurdo, e apoia-se em fontes mediúnicas, alegando a honorabilidade do médium, que do ponto de vista científico não tem nenhum valor. Desaconselha entusiasmos imediatos, mas reclama adeptos. Acredita estar apenas tateando num terreno difícil, mas formula extenso programa de desenvolvimento da doutrina, e chega mesmo a referir-se a aproveitamento industrial do “bion” (página 34). Toma uma atitude de extremismo científico, ao ponto de excluir a ideia de Deus da sua teoria, e cita experiências comuns de mediunidade, praticadas sem nenhum rigor científico, como modelos de experimentação mediúnica.

   Somos forçados a declarar que a análise do livro A Teoria Corpuscular do Espírito nos surpreendeu. Conhecendo pessoalmente o autor, a quem dedicamos amizade fraterna, sabendo de suas possibilidades culturais e intelectuais, não podíamos supor tamanha fragilidade em sua obra. Dessa maneira, fomos compelidos a tomar, no caso, atitude semelhante à de Aristóteles, perante o seu mestre e amigo Platão. Lamentamos que o confrade Guimarães Andrade não houvesse tomado uma atitude mais consentânea com a sua modéstia natural, pois estamos certos de que assim teria evitado o emaranhado de contradições em que se perdeu.

   Concluímos, pois, esta análise, repetindo que não se trata de nenhuma tentativa polémica, e muito menos de qualquer forma de desconsideração para com o autor de A Teoria Corpuscular do Espírito, que pessoalmente prezamos bastante. Se fomos forçados a dizer algumas coisas aparentemente duras, isso aconteceu pela necessidade de definirmos firmemente a nossa posição, em defesa do Espiritismo. Se a teoria corpuscular fosse apresentada como doutrina à parte, sem nenhuma ligação com o Espiritismo, pouco nos interessaria. Mas, tratando-se de uma nova tentativa de reforma doutrinária, somos obrigados a encará-la com a devida firmeza.




José Herculano Pires – A Pedra e o Joio, Crítica à Teoria Corpuscular do Espírito. Reforma doutrinária total, 16º e último fragmento da obra.
(imagem de ilustração: As Colhedoras de Grãos, pintura a óleo por Jean-François Millet)

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

| o grande enigma ~


Solidariedade | comunhão universal

Deus é o Espírito de Sabedoria, de Amor e de Vida, o Poder Infinito que governa o mundo.

O homem é finito mas tem a intuição do Infinito. O princípio espiritual, de que é detentor, incita-o a perscrutar os problemas que excedem os limites actuais do seu entendimento. O seu Espírito, prisioneiro na carne, separa-se dela, às vezes, e eleva-se aos domínios superiores do pensamento, donde lhe vêm essas altas aspirações, as quais muitas vezes são seguidas de recaídas na matéria. Daí tantas pesquisas, tentativas e erros, a tal ponto que seria impossível distinguir a verdade, no amontoado dos sistemas e das superstições que o trabalho das idades tem acumulado, se os Poderes Invisíveis não viessem fazer luz nesse caos.

Cada Alma é uma irradiação da grande Alma universal, uma centelha gerada do Eterno Foco. Nós, porém, nos ignoramos a nós mesmos, e essa ignorância é a causa de nossa fraqueza e de todos os nossos males.

Estamos unidos a Deus na relação estreita que liga a causa ao efeito, e somos tão necessários à sua existência quanto Ele é necessário à nossa. Deus, Espírito Universal, manifesta-se na Natureza, e o homem é, sobre a Terra, a mais alta expressão dessa Natureza. Somos a criação e a expressão de Deus, que é a fonte do Bem. Mas esse Bem, nós o possuímos somente no estado de gérmen, e a nossa tarefa consiste em desenvolvê-lo. As nossas vidas sucessivas, a nossa ascensão na espiral infinita das existências, não têm outro fim. Tudo está escrito no fundo da Alma em caracteres misteriosos: o passado, de onde emergimos e devemos aprender a sondar; o futuro, para o qual evolvemos, futuro que nós mesmos edificaremos qual monumento maravilhoso, feito de pensamentos elevados, de nobres acções, de devotamentos e de sacrifícios.

A tarefa que cada um tem a realizar resume-se em três palavras: saber, crer, querer – isto é, saber que temos recônditos e inatos recursos incalculáveis; crer na eficiência de nossa acção sobre os dois mundos, o da Matéria e o do Espírito; querer o Bem, dirigindo o nosso pensamento para o que é belo e grandioso, conformando as nossas acções com as leis eternas do trabalho, da justiça e do amor.

Vindas de Deus, todas as Almas são irmãs; todos os filhos da raça humana são unidos por laços estreitos de fraternidade e solidariedade. E porque os progressos de cada um são sentidos por todos, os rebaixamentos de um só afectam o conjunto.

Da paternidade de Deus decorre a fraternidade humana; todas as relações que nos ligam unem-se a esse facto. Deus, pai das Almas, deve ser considerado o Ser consciente por excelência e nunca em grau de abstracção. Aqueles que possuem recta consciência e são esclarecidos por um raio do Alto reconhecem Deus e o servem na Humanidade, que é a sua filha e a sua criação.

Atingindo o homem o conhecimento de sua verdadeira natureza e de sua unidade em Deus, tendo entrado essa noção na sua consciência e no seu coração, ele se eleva até à Verdade suprema; domina, do topo, as vicissitudes terrestres; encontra a força que “remove montanhas”, que o torna vencedor na luta contra as paixões e permite desprezar as decepções e a morte. Executa então o que o vulgo chama prodígios. Por sua vontade, por sua fé, submete, governa a substância; quebra as fatalidades da matéria; torna-se quase um deus para os outros homens. Muitos, na sua passagem por este mundo, chegaram a essas alturas de vistas, mas só Cristo delas se compenetrou, a ponto de dizer à face de todos: “Eu e meu Pai somos um; Ele está em mim e eu estou Nele.”.

Estas palavras não se aplicam, entretanto, a Ele somente; são verdadeiras para a Humanidade inteira. Cristo sabia que todo o homem deve chegar à compreensão de sua natureza íntima, e é nesse sentido que dizia aos seus discípulos: “Vós sois todos deuses.” (João, cap. X, v. 34.)

Poder-se-ia acrescentar: deuses para o futuro!

É a ignorância da nossa natureza e das forças divinas que dormem no nosso íntimo, é a ideia insuficiente que fazemos do nosso papel e das leis do destino que nos entregam às influências inferiores, ao que chamamos o Mal. Na realidade, o facto se reduz a uma falta de desenvolvimento. O estado de ignorância não é, por si mesmo, um mal; é somente uma das formas, uma das condições necessárias da lei de evolução. A nossa inteligência não amadureceu ainda; a nossa razão, criança, tropeça nos acidentes do caminho; daí o erro, os desfalecimentos, as provações, a dor. Mas todas essas coisas serão um bem se as considerarmos outros tantos meios de educação e elevação. A Alma deve atravessá-las para chegar à concepção das verdades superiores, à possessão da parte de glória e de luz, que fará dela uma eleita do céu, uma expressão perfeita do Poder e do Amor infinitos. Cada ser possui os rudimentos de uma inteligência que atingirá o génio e tem a imensidade dos tempos para desenvolvê-la. Cada vida terrestre é uma escola, a escola primária da Eternidade.

Na lenta ascensão que leva o homem a Deus, procuramos, antes de tudo, a ventura, a felicidade. Todavia, no seu estado de ignorância, não poderia ele atingir esses bens, porque os procura quase sempre onde não estão, na região das miragens e das quimeras, por meio de processos cuja falsidade só lhe aparece depois das decepções e dos sofrimentos. São esses sofrimentos que nos esclarecem; as nossas dores são lições austeras; elas nos ensinam que a verdadeira felicidade não está nas coisas da matéria passageira e mutável, mais na perfeição moral. Os nossos erros e faltas repetidos, com as fatais consequências que trazem, acabam por nos dar a experiência, e esta nos conduz à sabedoria, isto é, ao conhecimento inato, à intuição da verdade. Chegado a esse sólido terreno, o homem sentirá o laço que o une a Deus e avançará, a passo mais seguro, de estádios em estádios, para a grande luz que não se extingue nunca.
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Léon Denis, O Grande Enigma, Primeira parte / Deus e o Universo, III Solidariedade | comunhão universal 1 de 3, 11º fragmento da obra.
(imagem de ilustração: As majestosas e violentas palavras dos poemas, pintura em acrílico de Costa Brites)

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Victor Hugo e o invisível ~


Duas Sentenças que Resumem o Sentimento Filosófico do Poeta ~

   Victor Hugo foi, não em vão, um grande propulsor do romantismo espiritualista de França. O seu génio poético só podia desenvolver-se e nutrir-se numa corrente literária transcendente e espiritual, já que através dela pôde penetrar nas chamadas ''reminiscências platónicas'' e nessas ''distâncias da alma'' em que só pode mesmo penetrar o poeta palinginésico.

   O romantismo é como uma evasão do ser deste mundo objectivado. José Ferrater Mora, autor do Dicionário de Filosofia, ao referir-se ao romantismo disse: "Por isso, no movimento romântico existe, junto a uma decidida preocupação com o oculto e o ausente, uma ressurreição do religioso, uma concepção da história com o drama do homem e do seu destino e, em última instância, como uma revelação de Deus no ser finito do mundo''.

   Victor Hugo, de facto, sentiu em toda a sua existência um como que chamamento profundo surgido do ausente, das distâncias históricas onde a alma deixou gravadas as suas pegadas. Compreende que tudo na criação fala e que o passado, o presente e o futuro se entrelaçam harmoniosamente e que em cada um dos períodos do devir do Ser a essência da alma reconstrói o passado para marcar o presente e projectar-se sobre o seu futuro existencial.

   Em uma das suas sentenças mais profundas, como já vimos, deixou expresso com nitidez o seu sentimento palingenésico: "O berço tem um ontem e o túmulo tem um amanhã"; daí serem as bases do seu romantismo nitidamente palingenésicas. No chamado "romantismo de Jena", a poesia se manifestou como uma torneira aberta cujas águas provêm de torrentes espirituais relacionadas com a reencarnação das almas. Poetas como SchellingHõlderlinNovalisTieck e outros viveram possuídos pela ideia do ausente e distante, cuja raiz se funde nos abismos espirituais do Ser, ou seja, nas distantes vidas onde os seus espíritos cantaram e choraram sem serem jamais calados pela morte.

   Victor Hugo viveu sentindo em si mesmo esse imperativo palingenésico, em que o génio poético do século passado percebeu uma nova revelação espiritual. A poesia foi, é e será sempre palingenésica; ela, ainda que a crítica se oponha a este conceito, será sempre uma chama de fogo a iluminar os longínquos dias das idades. Porque a poesia é um fluir do interno para o externo, quer dizer, dessa vida profunda e imortal que dá ser e personalidade a tudo o que existe.

   O poeta de Os Miseráveisreferindo-se ao verdadeiro homem, dizia: ''O corpo bem poderia não ser mais que uma aparência. Ele cobre a nossa realidade; ele se interpõe entre a nossa luz e a nossa sombra: a realidade da alma. Claramente falando, a nossa cara é uma máscara. O verdadeiro homem é aquele que está por trás do homem. Se se olhasse bem esse homem oculto e guarnecido por trás dessa ilusão que se chama carne, ter-se-ia mais de uma surpresa".

   O ser encarnado, melhor dizendo, reencarnado era para Hugo uma aparência existencial cuja realidade está na essência espiritual que determina os mais variados fenómenos da história. Considerava o processo visível uma trama que tem origem no invisível. A poesia de Victor Hugo foi como a entrada num novo mundo religioso onde os espíritos são as alavancas invisíveis de tudo o que se manifesta de forma visível.

   A existência espiritual desencarnada que o poeta aceitava coincidia com a ideia da pessoa no Ser, ou seja, com esse homem de carne e osso imortal de Miguel de UnamunoO Espírito, na sua condição de desencarnado, não é uma abstracção indefinida, como ainda concebe o espiritualismo clássico. A vida do Ser no eterno possui para Hugo um perispírito objectivo, sendo portanto uma realidade vivente com um eu pessoal que actua no material a partir dos planos invisíveis.

   É isso o que nos mostra na seguinte sentença: "A borboleta é o verme metamorfoseado, mas a metamorfose é tão perfeita que se acredita ver uma nova criatura. Do mesmo modo, na nossa existência do além-túmulo não seremos puros espíritos porque estas palavras são vazias de sentido, tanto para a razão como para a imaginação.

   "O que é uma vida sem os órgãos da vida? O que a define e o que a fixa? Na verdade, nós teremos outro corpo semelhante, radiante, divino e, por assim dizer, espiritual, que será a transformação do nosso corpo terrestre''.

   A realidade espiritual do homem era, para o poeta, objectivamente existencial e não uma abstracção, pois a vida do além-túmulo é para Hugo como um alto e imenso cume, onde o espírito se resume dialecticamente. Por isso, disse: "Todos os seres são, foram e serão".

   Em outra passagem, dizia o poeta: "Os mortos são os invisíveis e não os ausentes''. Com este pensamento, ele uniu as vidas passadas das almas com a imortalidade de suas eternas naturezas. Sentiu, por isso, a presença do mundo invisível como uma realidade inteligente e comunicante. E este mundo invisível era para Victor Hugo o mundo dos espíritos tal como está desenhado na obra de Allan KardecA sua vida íntima nunca esteve rodeada de solidão e de vazio. A solidão em Hugo era como um médium que lhe permitia entrar em relação com os erradamente chamados mortos, pois, como grande romântico que era não cria no silêncio aterrador dos túmulos. Ele sabia, pelo fenómeno poético que diariamente experimentava, que é no invisível onde vivem os nossos seres queridos com os seus corpos espirituais, as suas paixões e os seus amores, esperando a oportunidade para revelarem-nos as suas inegáveis identidades. Porque, se "os mortos são os invisíveis e não os ausentes", como dizia, a humanidade está entrelaçada com a vida dos mortos tal como demonstra agora a filosofia espírita.

   Nos arquivos da Revue Spirite, de Paris, encontra-se um trabalho de Léon Denis em que ele se refere a Victor Hugo e à sua compreensão do mundo invisível, como se vê a seguir: "Louis Barthon, da Academia Francesa, depois de consultar os Apontamentos inéditos do poeta, escreveu na Revue de Deux Mondes (número 15, de dezembro de 1918, páginas 751 a 757) o que vamos transcrever: ''Madame Émile de Girardin, tendo ido passar dez dias em Jersey, introduziu ali a prática das mesas girantes e falantes". Como se sabe, Victor Hugo foi o último a ceder perante este fenómeno mediúnico. Mas desde que elas (as mesas) o convenceram, as entidades comunicantes não o abandonaram jamais, exercendo sobre o seu pensamento influências espirituais revolucionárias.

   "Continua dizendo Louis Barthon que na noite de 30 de março de 1857 o poeta percebe a noção de uma nova concepção metafísica, a qual descreve com data de 24 de outubro no seu caderno de apontamentos. Vejamos como capta a presença do invisível através de sua própria relação: 'Esta noite eu não dormia. Eram  cerca das três da madrugada. Um golpe seco, muito forte, se produziu aos pés da minha cama, contra a porta da minha habitação. Pensei em minha filha morta e disse para mim: És tu? Pois eu pensava no complô bonapartista, segundo se falava, em um novo dois de dezembro possível e me perguntava: É uma advertência? E acrescentava mentalmente: Se és realmente tu que estás aí e se vens advertir-me na ocasião deste complô, dá dois golpes. E por cerca de meia hora escuto. A noite era profunda e tudo em casa silêncio. De repente se fazem ouvir dois golpes contra a porta. Desta vez eram surdos mas distintamente muito leves".

   Louis Barthon prossegue em seu relato: "Em 21 de novembro de 1874 Victor Hugo escrevia o seguinte: 'Esta noite despertei e percebi no ouvido, muito próximo de mim, na minha cabeceira, leves pancadas surdas. Eram lentas e regulares, durando um quarto de hora. Eu escutava e não cessavam. Por isso, orei; quando cessaram, disse: se és tu, minha filha, ou tu, meu filho, dá dois golpes. Ao fim de dez minutos, mais ou menos, dois golpes se deram, mas contra a parede perto da cama. Mentalmente disse: é um conselho o que tu trazes? Devo abandonar Paris? Devo permanecer? Se devo ficar, dá um golpe. Se devo partir, dá três golpes. Escuto! Nenhuma resposta ainda. Acabo dormindo. O fenómeno dura quase uma hora'.

   "No caderno de apontamentos do poeta, com data de 22 de novembro de 1874, lê-se o seguinte: 'Esta noite escutei três golpes. Será a resposta à pergunta de ontem? Seria pouco clara ao ser tão demorada'.

   Léon Denis afirma que no mesmo caderno mencionam-se apontamentos nocturnos de carácter mediúnico obstinados, surdos e ainda metálicos e doces, tão comoventes que o poeta terminou por crer na possibilidade de um pronunciamento bonapartista do qual ele seria a primeira vítima (ver La Revue Spirite, de março/abril de 1952).

   Diz ainda Denis que na página 157 do caderno se lê: "Esta noite, cerca das duas horas, senti golpes na minha porta, que estava aberta, sem que pessoa alguma houvesse ali de forma evidente. Credo in Deum eternum et in animan inmortalem".

   Como se verá, os fenómenos mediúnicos experimentados por Victor Hugo não são vãos nem intranscendentes. Têm a virtude de haver elevado a alma do poeta até Deus e de fazê-lo crer no espírito imortal. Este mesmo facto se operou no ânimo de seu compatriota Gabriel Marcel, o distinto filósofo católico, a quem os fenómenos mediúnicos influenciaram notavelmente para a elaboração do seu pensamento filosófico. Victor Hugo, pois, não se equivocou quando disse: "Evitar o fenómeno espírita é fazer bancarrota com a verdade".

/…



Humberto MariottiVictor Hugo Espírita, Duas Sentenças que Resumem o Sentimento Filosófico do Poeta, 8º fragmento da obra.
(imagem de ilustração: Criança com uma boneca, pintura de Anne-Louis GIRODET-TRIOSON)

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O Génio Céltico e o Mundo Invisível ~


Capítulo VI

A Lorraine e os Vosges. Joana d’Arc, alma céltica
(III)

   Voltemos à vertente lorena dos Vosges. É preciso ter frequentado por longo tempo essas regiões, visitado esses lagos, essas torrentes, essas cascatas, tudo quanto alegra ou varia a cada passo a paisagem, para compreender e sentir o encanto penetrante, a doce magia que se forma nessa região e predispõe a alma ao recolhimento e ao devaneio.

   Eu gostava de conversar com os lenhadores e os carvoeiros da floresta de Vosges e constatei que se reencontra entre eles tudo o que caracteriza a raça céltica, a elevada estatura, a alegria, a hospitalidade, o amor à independência.

   Bismarck dizia dos lorenos, após 1871: “Esses elementos são muito indigestos”. Isto me lembra uma discussão que tive em Schlucht, com alemães, no dia seguinte à anexação da Alsácia ao seu império. Como a disputa se inflamou e eu era o único francês, fiquei surpreso ao ver, de repente, saírem do bosque homens de alta estatura, com as faces negras. Eram os carvoeiros lorenos que tinham ouvido tudo e vinham, no momento oportuno, prestar-me ajuda.

   Mas é sobretudo o vale do Meuse que faz voltar as minhas lembranças e afectos. A minha cidade natal, o lugar do meu último nascimento, está separada de Vaucouleurs por uma floresta; as minhas excursões a Domremy e aos seus arredores são incontáveis. Uma atracção poderosa me reconduz a ela. A colina de Bermont, com os seus bosques densos, as suas fontes sagradas, a velha capela onde Joana d’Arc ia sempre orar, conservou todo o seu encanto poético. O bosque Chenu está mais devastado, mas a fonte de Groseilliers sempre faz ouvir o seu doce murmúrio. A sumptuosa basílica moderna, apesar da sua ostentação, não esconde a humilde igreja da vila onde Joana foi baptizada.

   Sobre todo o vale plana uma atmosfera de misticismo que impressiona a alma pensativa e recolhida. Os espíritos flutuam no ar, inspirando os escritores mais refractários; é assim que Maurice Barrès, que nem sempre foi delicado para os espíritas, mas tão bom loreno pelo coração, escrevia o seguinte:

   “Em Jeanne nós vemos agir, sem o seu conhecimento, as velhas fantasias célticas. O Paganismo cerca e assedia esta santa cristã. A donzela honra os santos, mas, instintivamente, prefere aqueles que abrigam, sob as suas invocações, as fontes encantadas.

   As diversas potências religiosas espalhadas nesse vale do Meuse, ao mesmo tempo céltico, latino e católico, Jeanne as acolhe e as harmoniza; deveria ela morrer por efeito de sua nobreza natural... As fontes druídicas, as ruínas latinas e as velhas igrejas romanas formam um concerto. Toda essa natureza separada desperta em nós o amor de uma causa perdida na qual Jeanne é o tipo ideal. Enquanto tivermos um coração céltico e cristão, não cessaremos de amar essa fada que transformamos em uma santa.” (i)

   Merlin, o encantador, profetizou a sua vinda, como se assegura? O caso é possível, mas foi muito contestado e não insistiremos nesse particular. O certo é que “ela foi anunciada, desejada, esperada, prevista, do âmago de uma raça que sempre pôs a sua esperança e a sua fé no olhar inspirado das virgens”. (ii)

   E Maurice Barrès chega a atribuir às influências célticas que iluminam a infância de Joana uma das causas de sua condenação.

   Como Joana, eu gostava de visitar os bosques, as fontes sagradas, as árvores seculares em volta das quais se desenvolvia o “círculo das fadas”. Mas, quem eram essas fadas de que se trata um pouco por todas as partes da Lorraine? Sem dúvida, uma vaga e longínqua lembrança das druidisas de vestidos brancos, celebrando o seu culto sob os raios prateados da Lua.

   Edouard Schuré, no seu belo livro Les Grandes Légendes de France, escreveu:

   “As druidisas eram também chamadas de fadas, isto é, seres semidivinos, capazes de revelar o futuro… (iii)

   A origem dos druidas remonta à noite dos tempos, à aurora da raça branca. As druidisas são talvez mais antigas ainda, se nos basearmos em Aristóteles, que atribui o culto de Apolo de Delos a sacerdotisas hiperboreanas. As druidisas foram em princípio as inspiradas livres, as pitonisas da floresta. Os druidas serviram-se delas, inicialmente, como pacientes sensíveis, aptas à clarividência, à adivinhação. Com o tempo elas se emanciparam, formaram colégios femininos e, ainda que submetidas hierarquicamente à autoridade dos druidas, agiam por seu próprio impulso.”

   Daí resultou certo abuso de poder, particularmente no que se refere aos sacrifícios humanos, mas Edouard Schuré considera a questão sob plano superior e acrescenta:

   “A acção é a origem de tudo. A ideia da vidente, da visão espiritual da alma que vê e possui o mundo interior, superior à realidade visível, domina toda a lenda e aí lança como que raios de luz.”

   Joana d’Arc era, então, por excelência, uma alma céltica, uma imagem desses seres predestinados, desde a aurora da história, às formas mais elevadas do sacerdócio feminino e da adivinhação. Não estava ela sob a possessão das mais altas faculdades psíquicas: visão, audição, pressentimentos, premonições? Seja nos interrogatórios dos examinadores e dos juízes, seja nas discussões dos conselhos ou mesmo no tumulto dos combates, ela sempre teve a intuição daquilo que devia dizer e fazer. (iv)

   Tudo isso numa jovem sem instrução, que não tinha sequer vinte anos. E que cena nesse terrível drama! Trata-se da salvação da França, de saber se ela será inglesa. Mas, como Joana nos vai dizer mais adiante, ela era “o modesto instrumento vibratório que recebia a inspiração do mundo invisível”.

   Sim, certamente, ela era agente do mundo invisível, missionária celeste. Quando os homens aprenderem a conhecer a vida que reina sobre as esferas superiores e nos espaços etéreos, saberão que Deus criou uma classe de espíritos angélicos e puros, a quem ele reserva missões dolorosas, missões de devotamento e sacrifício, pela salvação dos povos e reabilitação da humanidade. Cristo, Joana d’Arc e outros pertencem a esta ordem de espíritos. Quando eles descem aos mundos materiais encarnam sempre nas classes mais humildes para ali dar o exemplo da simplicidade, do trabalho e do desinteresse. Houve excepção para Buda, nascido em berço de ouro, e que mais tarde abandonou o seu palácio e a sua esposa, para penetrar na selva. Maomé também, no início, era um obscuro cameleiro.

   Todos esses missionários são fáceis de reconhecer pelos eflúvios possantes que deles emanam e que impressionam as multidões. Parece que eles têm um raio divino sobre as suas frontes e nos seus corações. Era o caso de Joana d’Arc, segundo o testemunho do cidadão de Orléans que dizia: “É uma alegria vê-la e ouvi-la.” (v)

   Ainda agora, quando lhe agrada, às vezes, nos visitar, o espírito de Joana se anuncia nas nossas reuniões por uma viva radiação luminosa. Ela aparece ao vidente, em transe, sob uma forma cujo esplendor é difícil de fitar directamente. Foi nessas condições que ela ditou, por incorporação, numa noite de Natal, a seguinte mensagem:

   “Amigos, a Lorraine vos saúda! Desejo que esta festa de Natal seja nos vossos corações o símbolo da doçura, do amor, da esperança. As minhas atribuições no espaço não me permitem descer frequentemente até vós. Eu vos devia estas poucas palavras, porque a minha afeição vos é dedicada. Vim aqui trabalhar convosco; pensei e orei convosco.

   Eu desejo que Deus abençoe a vossa obra e que ela faça o bem aos franceses e às francesas apaixonados pelo Celtismo e pela lembrança da raça. Esta raça francesa inviolável na sua essência, sempre impregnada pela centelha divina, não pode perecer! É pelos bons escritos que vós a fareis amar.

   Unamos o pensamento de Deus à França, para que ele envie as suas volutas de amor, a fim de regenerar os nossos irmãos e irmãs que tudo ignoram de Deus. Vós desejais associar a pastora de Lorraine à vossa obra. Durante toda a minha vida terrestre, fui impregnada pela centelha céltica. Ela manteve em mim a chama do ideal patriótico, como também os germes da fé transmitida pelo primeiro druida. Eu os sentia sob a forma de uma vitalidade particular, feita do culto da tradição e do reflexo das leis imutáveis, retiradas das fontes da vida universal.

   Eu fui o modesto instrumento vibratório que recebia a inspiração de Deus. Dessa terra lorena, que vós amais, eu levei, através da França, as radiações interligadas pelos séculos, e foi uma honra para mim poder unir as almas perdidas e as vontades vacilantes.

   Se o vosso coração vos impõe falar da Lorraine, de suas emanações célticas, dizei que Jeanne, a pobre pastora de Domremy, foi o dócil instrumento que ouvia as vozes dos espíritos bem-amados, prova de que o raio céltico não estava extinto sobre o solo de França.

   O amor de Deus, o do país e do próximo são as essências, as mais suaves, as mais luminosas, transmitidas pelo raio recebido, outrora, pelos druidas. Ele se estendia e se esparramava da Bretagne à Lorraine, daí se irradiando do oeste para o leste.

   Se este capítulo vos dá alegria de escrever, é que ele vos foi inspirado pelos vossos bons guias e pelo vosso coração. Jeanne vos agradece que o façam. Em troca ela pedirá a Deus que sustente, na alma daqueles que lerão a vossa obra, o culto da fé em Deus todo-poderoso e bom, o amor da pátria, do solo que recebe os eflúvios celestes, o que dá ao coração a doce alegria de amar no reconforto e na esperança.”

/…
(i) Maurice Barrès, Le Mystère en pleine Lumière, pp. 189 e 190.
(ii) Página 200 da obra acima citada.
(iii) As druidisas, segundo Dupiney de Vorepierre, predisseram o futuro de Aureliano, de Alexandre Severo e de Diocleciano.
(iv) Ver o meu livro Joana d’Arc, Médium.
(v) Crónica do Cerco de Orléans.




LÉON DENIS, O Génio Céltico e o Mundo Invisível, Primeira Parte OS PAÍSES CÉLTICOS, CAPÍTULO VI – A Lorraine e os Vosges. Joana d’Arc, alma céltica 3 de 3, 21º fragmento da obra.
(imagem de ilustração: A Apoteose dos heróis franceses que morreram pelo seu país durante a guerra da Liberdade, pintura de Anne-Louis Girodet-Trioson)

domingo, 26 de janeiro de 2014

O peregrino sobre o mar de névoa ~


Os Imponderáveis da Cura Espírita ~

Pasteur descobriu o mundo das bactérias infecciosas que ameaçam a saúde e a vida do homem no planeta e ninguém lhe dava crédito, porque esse mundo era imponderável e invisível. Allan Kardec descobriu o mundo dos espíritos, que ameaçam por toda parte o equilíbrio mental e emocional dos homens, mas a condição imponderável e invisível desse mundo levou-o ao ridículo perante as corporações científicas. Freud descobriu o mundo igualmente imponderável e invisível das instâncias da personalidade, que influem no comportamento humano, e até hoje os cientistas positivos, que só acreditam no que podem ver e pegar, não se cansam de combatê-lo e ridicularizá-lo. O conceito do positivo exclui da realidade científica as causas imponderáveis que se ocultam numa realidade subjacente do real. A rés (ou coisa) tem de se manifestar como tal na perspectiva científica, sob pena de não merecer atenção das Ciências. Mas a vida e a morte, os sonhos e as aspirações do homem são o fundamento de toda a realidade que nasce do imponderável e do invisível para constituir a realidade. O próprio método científico teve de apoiar-se na técnica do fantasma, ou seja, das aparições, pois o pesquisador científico remonta dos efeitos às causas para definir o real. O fenómeno, com a sua raiz etimológica grega, é simplesmente o fantasma. A mecânica do positivo chama-se revelação. Sem a determinação positiva do número kantiano o fenómeno não existe. Bastaria esse facto linguístico para se provar que o positivo é fecundado pelo imponderável. Sem este não temos aquele. Dessa maneira, a busca científica do real processa-se inelutavelmente subjacente ao imponderável e invisível. Hoje, com isso sobejamente provado, não há mais razão para se querer negar a positividade do imponderável. Por isso, Kant falhou ao determinar os limites dialécticos do conhecimento humano e Cassirer demonstrou, na sua Tragédia da Cultura, que a Religião e a Ciência se fundamentam igualmente no imponderável da Fé. Sem a fé na Ordem Universal, que não pode ser cientificamente provada, a Ciência seria impossível. O religioso parte da fé em Deus para conhecer a realidade universal. O cientista parte da fé na Ordem Universal para descobrir o real.

Mas o que é a fé, senão a crença transformada em verdade pela invisível e imponderável intuição do homem? Kardec afirmou: “Só podemos ter fé naquilo que conhecemos.” E ao mesmo tempo em que ele fazia essa afirmação audaciosa, provava a realidade do imponderável e inacessível através das manifestações espíritas. A mediunidade se lhe apresentava, através da pesquisa científica, como a percepção extra-sensorial, que antecipa a realidade imponderável e invisível que amadurece subjacente ao real. E Mannheim, nos nossos dias, confirmaria essa possibilidade no estudo da utopia, que se mostra, no plano sensível da realidade social, como antevisão de realidades futuras. O vidente e o profeta que anunciam realidades ainda ocultas subjacentes ao real concretizaram necessariamente o vir-a-ser das realidades ainda em gestação no futuro. E essa visão alucinatória está hoje cientificamente provada como realidade nas pesquisas parapsicológicas.

Não houve milagres nem magia nessa transposição da utopia em realidade positiva, mensurada e pesada na imponderabilidade dos métodos estatísticos que abrangem as quantidades outrora imponderáveis da realidade oculta das aparências do irreal. A Ciência Espírita se apresenta, assim, como a base irremovível de toda a revolução científica do nosso tempo. A pedra rejeitada da parábola evangélica foi necessariamente colocada no ângulo de sustentação de todo o edifício. Porque toda a solidez da matéria depende da fluídica do espírito e a matéria acaba revolvendo-se em pura dinâmica espiritual. As experiências fragmentárias da Cultura só podem ser unificadas na síntese da consciência. Por isso Alfred Russel Wallace chegou à conclusão de que toda a forma de psicologia nada mais é do que um espiritismo rudimentar. Os psicólogos tratam a psique, a alma, como caçadores de borboletas. Muitos deles se tornam coleccionadores apaixonados de borboletas mortas pregadas em cartolinas coloridas. Enganam-se com o jogo de cores dos efeitos psíquicos, elaboram teorias engenhosas sobre as várias formas do borboletear do espírito, mas não se atrevem a mergulhar no labirinto do psiquismo, única maneira de se defrontarem com o minotauro e conhecê-lo de perto.

Russel Wallace, que corrigiu o darwinismo com fortes injecções de espírito, não teve dúvidas em colocar no seu devido lugar epistemológico as tentativas periféricas do estranho e confuso mundo psicológico. Para ele, na sua visão científica dos problemas da alma, todo o psicólogo não passava de um aprendiz de feiticeiro. Os gregos temiam a Esfinge da Estrada de Tebas, porque ela devorava os que não decifravam os seus enigmas. Mas o mundo grego morreu e foi empalhado pelos teólogos. Hoje ninguém precisa passar pela Estrada de Tebas, podendo fazer o trajecto com voos de borboleta. Mas Pitágoras deixou o seu testamento aos pósteros, advertindo-os de que na matemática do Universo o número 2 é a opinião, borboleta insegura que não serve à Ciência.

No Espiritismo as opiniões não passam de palpites, mesmo quando se disfarçam em hipóteses ou teorias. Por isso a Ciência Espírita, que os inscientes confundem com magia delirante, na realidade é uma estrutura lógica de conceitos fundados na experiência e provados através de pesquisas rigorosas. Todas as Ciências evoluíram nos dois últimos séculos, na direcção exacta dos postulados espíritas. Só a leviandade humana, que Kardec denunciou nos meios académicos, pode levar um sábio de farda imponente a dar palpites sobre a Ciência Espírita, com ares de infalibilidade. A situação conflituosa dos cientistas que desejam ajustar os dogmas de seus catecismos à realidade científica actual denuncia a incapacidade desses cientistas para a livre busca da verdade. Os imponderáveis da Ciência tornam-se ponderáveis na proporção do progresso científico, mas os imponderáveis da Mística se escondem atrás das barreiras dogmáticas e pesam negativamente na balança do progresso. A incompatibilidade entre a dogmática e a pesquisa só pode ser resolvida pelo abandono dos dogmas. O credo qui absurdum dos escolásticos não pode sobreviver na era científica. Mas as religiões podem tornar-se racionais e até mesmo científicas, desde que se disponham a libertarem-se da sua paixão interesseira pelos reinos da Terra, preferindo o Reino de Deus. O Espiritismo encontrou a solução desse problema na sua estrutura de ciência livre ligada à religião livre e à moral pura de Cristo, sem concessões aos magnatas da simonia.

Kardec deu como regra única da pureza espírita o desinteresse total pelos bens materiais, a fraternidade humana incondicional, o desinteresse total pelo proselitismo, o respeito absoluto às ideias e crenças dos outros, sem a aceitação fingida e comprometedora desses erros, mas sem hostilidades à ingenuidade dos que não podem ir além dos conhecimentos primários. Deu à Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas uma estrutura puramente científica e afirmou que a única forma de fé que pode subsistir em todos os tempos é a que se baseia na razão. As Igrejas de estrutura sectária, que vivem à custa da submissão dos fiéis aos seus princípios arcaicos, estão condenadas irrevogavelmente a desaparecer. Mas isso não é uma profecia, é apenas uma dedução lógica tirada do processo histórico, das exigências da Cultura.

Os clérigos e os clericalistas gostam de confundir a sua posição perante a Ciência com a livre condição dos espíritas. Alegam que se eles não podem estudar livremente os fenómenos paranormais, também os espíritas não o podem, pois já têm os seus pontos de vista fixados pela doutrina. É essa uma alegação ignorante ou de má-fé, pois sabem que os espíritas jamais aceitaram imposições dogmáticas, gozam da mais ampla liberdade de opção e não devem nenhuma obediência a nenhuma espécie de supostas autoridades religiosas. Só devem obediência à sua própria consciência, que só se curva ante as verdades comprovadas.

Não se pode comparar a submissão do crente à insubmissão do que não busca uma forma de crença, mas o saber, provado e comprovado cientificamente. Os factos espíritas não foram provados apenas pelos espíritas, mas também e principalmente pelos adversários da doutrina. A realidade espírita não foi forjada por teóricos comprometidos com qualquer tipo de instituição religiosa ou não, mas por pesquisadores livres e altamente responsáveis. Richet, Crookes, Zöllner, Lombroso, Aksakof, Notzing e tantos outros nomes da Ciência e da Cultura Geral não fizeram pesquisas para comprovar a verdade espírita, mas para obterem provas contra a doutrina. Nenhuma outra doutrina, no mundo passou incólume por tantas investigações promovidas por grandes cientistas que a contestavam em nome da Ciência. E todos eles foram obrigados, por amor à verdade e por exigências de consciência, a proclamar a realidade dos factos que comprovavam a doutrina e a se curvarem perante ela.

Por outro lado, nenhum espírita consciente tentou jamais transformar a doutrina em meio de vida, profissionalizando a sua prática. Por tudo isso, os espíritas não podem ser considerados em paridade com os profitentes e profissionais das religiões. Pelo contrário, todo o espírita tem o direito e o dever de participar das pesquisas actuais e futuras dos fenómenos paranormais, sem que sejam apontados como parciais, pois na verdade são pioneiros dessas pesquisas e pisam no terreno que lhes pertence. Quando um espírita competente trata de Parapsicologia não a deforma, pois isso seria deformar a sua própria doutrina. As Ciências do paranormal nasceram das entranhas do Espiritismo e em vão lutaram para contradizê-lo, mas acataram todos os seus princípios científicos. Richet, numa carta histórica a Bozzano, declarou que encontrara a verdade nas monografias do grande italiano. Mais tarde escreveu a Cairbar Schutel, de Matão, no Brasil, declarando em latim “Mort janua vitae” (A morte é a porta da vida). Lombroso, inimigo acérrimo do Espiritismo e da Metapsíquica, aceitou o desafio de Chiaia para uma sessão com Eusápia Paladino e obteve a materialização da própria mãe, a quem pôde abraçar, contando o facto em artigo para a revista de Milão Luce e Ombra e indicando-o depois em estudo sobre Espiritismo e Hipnotismo. Frederico Figner obteve a materialização de sua filha Raquel, morta ainda menina, e a teve no colo. A menina passou ao colo da mãe, abraçando-a e beijando-a. A médium foi Ana Prado, em Belém do Pará. Figner e a esposa, judeus ortodoxos, tornaram-se espíritas. A Ciência Espírita foi além, no século passado, de todas as conquistas actuais da Parapsicologia. O único interesse de um espírita, ilustrado na ciência, seria o prazer de confirmar para as gerações actuais – num excesso de provas – os factos largamente obtidos no passado. Reduzido interesse, aliás, pois os factos espíritas continuam a repetir-se por todo o mundo, nos grandes centros universitários de nosso tempo. O próprio Vaticano reconheceu hoje, como o declarou recentemente Monsenhor Pisoni à revista italiana Gente, a realidade desses factos. Perdem o seu tempo e mentem às suas ovelhas os pastores que tentam tapar o sol com peneiras. Não se pode dizer que o imponderável da fé tenha a mesma importância, na cura espírita, que tem, nos demais tipos de cura paranormal, porque os elementos racionais da teoria e da prática espírita influem na própria disposição do doente para a eclosão da fé. Esta permanece controlada pela razão. O doente espírita não procura o milagre, a acção divina sobrenatural. Ele sabe que o médium é elemento de acção, não um agente. Simples instrumento de transmissão das energias fluídicas do plano espiritual, o médium não tem o poder de curar. Mas os resíduos mágicos e religiosos da tradição actuam ainda no processo de cura, predispondo o paciente a uma acção mais eficaz da intervenção fluídica. Apesar disso, a cura espírita já representa um passo decisivo para a técnica terapêutica ou operatória racionalizada. As entidades espirituais, que Geley chamou de controles, realmente controlam o processo de cura, que é geralmente progressivo, mesmo quando possa parecer instantâneo. Por outro lado, nenhum médium consciente da relatividade de sua acção pode assegurar antecipadamente a eficácia da sua intervenção. Porque em toda cura, normal ou paranormal, estão presentes os pressupostos cármicos, ou seja, as cargas negativas do passado moral do doente. Como dizem as entidades espirituais esclarecidas, não raro é a doença que cura a gente. A função educativa e reequilibradora da dor, como explicou Léon Denis, nem sempre pode ser dispensada ou atenuada. O conceito de lei, no processo evolutivo, dá um novo aspecto à cura espírita. Quem com ferro fere – disse Jesus – com ferro será ferido. Essa menção de uma lei moral irrevogável pode enfraquecer a esperança do doente, mas ao mesmo tempo o livra da preocupação aterradora das penas eternas. Essa lei moral se funda no princípio da acção e reacção, que condiz, no plano da consciência, ao subliminar do paciente, com a sua esperança de redenção e transcendência. O paciente espírita aprende a enfrentar a sua responsabilidade moral, e quanto melhor o fizer mais rapidamente obtém o seu resgate.

A natureza racional de todo esse processo abre a mente das criaturas para uma concepção mais clara e precisa da realidade da vida humana na Terra, fazendo-as superar com mais facilidade as heranças mágicas e religiosas que as prendem numa visão trágica e desoladora do mundo e da vida. O gesto simples do passe espírita, como a simples imposição das mãos, praticada e ensinada por Jesus, não se reduz apenas à transmissão de energias. Além dessa transmissão, em que as mãos funcionam como antenas captadoras e transmissoras, o passe espírita abre a mente do paciente para a percepção de um mundo de perfeito equilíbrio, tecido numa teia irredutível de leis teleológicas, ou seja, de leis que têm finalidades precisas na evolução do mundo e do homem. O passe espírita equivale a um acordar da mente para a nova era, em que o homem descobrirá as suas potencialidades divinas e a sua destinação cósmica. Por isso, os que pretendem aplicar técnicas antigas ou modernas a esse gesto de amor e esperança só conseguem complicar e envaidecer os que se entregam à missão humilde e ao mesmo tempo sublime de acordar os homens para uma visão superior da realidade.

Todas as formas rituais do passado mágico e religioso não passam de adendos pretensiosos dos homens à técnica natural e simples do Evangelho. Os imponderáveis da cura espírita, quando transformados em actos físicos, de gesticulação e dança, perdem a sua eficácia. As cerimónias sumptuosas dos egípcios, sumerianos e mesopotâmicos, nas mumificações e enterros espectaculares, de nada valeram para os mortos, que voltam ainda hoje nas sessões espíritas, necessitados de uma gota de humildade para se livrarem das suas ilusões vaidosas. De que adiantam as recomendações de cadáveres nas religiões actuais, as missas e te-déuns solenes, oficiados por hierofantes até hoje apegados à cinza dos sarcófagos? O Espiritismo é o despertar dos homens para a verdade de que eles sempre fugiram, no jogo dos seus mitos e das suas encenações teatrais. Atingimos agora o momento crucial da Era Cósmica que se avizinha. Não procuremos novas formas de prosseguir com os nossos jogos e malabarismos de esconde-esconde. Abandonemos as trapaças de Simão, o Mago, lembrando-nos da ressurreição que Cristo ensinou e demonstrou a Paulo no esplendor da sua visão na Estrada de Damasco. A Terra abre-se para o Infinito e as suas pétalas de luz nos indicam o rumo das constelações. É com humildade e não com inovações pretensiosas que podemos pisar no limiar da Nova Era.
/…




José Herculano Pires, Ciência Espírita e suas implicações terapêuticas, Os Imponderáveis da Cura Espírita, 16º fragmento da obra.
(imagem de ilustração: O peregrino sobre o mar de névoa, pintura de Caspar David Friedrich)

sábado, 18 de janeiro de 2014

Seres Radiantes do espaço ~


Capítulo III (IV)

Para concluir, afirmamos que é por desconhecerem o papel das forças radiantes nos fenómenos e o modo de dirigi-las que os pesquisadores oficiais registaram tamanho insucesso. Nas pesquisas psíquicas, a homogeneidade do ambiente, a harmonia dos fluidos e dos pensamentos são factores indispensáveis para o seu sucesso. Quanto mais forem empregados os procedimentos materialistas usados pela Ciência, menos a assistência do Alto será favorecida. Nos ambientes em que as entidades superiores querem intervir, se encontrarem influências contrárias, para elas, torna-se impossível agir ou mesmo transmitir os seus pensamentos; as divergências de pontos de vista formam uma barreira e os fluidos delas não podem mais penetrar o médium e, através deste, atingir o espírito e o coração dos assistentes.

É somente na homogeneidade perfeita, na fusão de fluidos e sentimentos que o espírito, ao ler os nossos pensamentos, pode responder com exactidão às perguntas íntimas e resolver os problemas mais delicados da vida e da morte.

Os nossos sábios oficiais pouco se preocupam em preencher essas condições e, por isso, ocorrem os repetidos fracassos. Eles não tratam os médiuns com a imparcialidade necessária. Esperamos encontrar médiuns muito eficientes, bem-dotados para apresentar aos sábios provas incontestáveis da sobrevivência, mas para que um médium transmita fielmente o pensamento ou reproduza a forma de um desencarnado, é preciso ter um grau adequado de sensibilidade. Ora, se tomarmos um médium muito sensível e o colocarmos num meio onde os fluidos produzidos pelos assistentes não sejam da mesma natureza e com velocidade de vibração diferente, daí resultará, então, que a sua sensibilidade será enfraquecida e, até mesmo, anulada. O seu estado mental será influenciado por alguém do ambiente e, vendo que a experiência falha, ele procurará, talvez, por meios fraudulentos, dar a impressão dos fenómenos esperados.

Citemos um exemplo: Os espíritas de Paris ainda se lembram de um médium exótico que, em 1909, após ter obtido aparições autênticas, fenómenos de real valor, abusou das suas faculdades e se abandonou à prática de repetidas fraudes, em locais heterogéneos e na presença de várias testemunhas. Foi preciso denunciá-lo publicamente, e até mesmo, incriminá-lo moralmente, denuncia publicada na Revue Spirite, (Revue Spirite, 1909, pp. 79, 217 e 222 e Annales des Sciences Psychiches de 1909) para impedir a série de fraudes e deter o seu exercício. Sem esta medida, esses nossos adversários que se comprazem em investigações falsas, em vez de procurarem, longe, temas de escândalo, não teriam deixado de explorar a lembrança dessas cenas que, mesmo em Paris, tiveram tantos espectadores e testemunhos ainda vivos.

Resumindo, os espíritas podem, com razão, pretender, não somente, ter possuído, bem antes dos sábios oficiais, o conhecimento do mundo dos fluidos e das forças radiantes – e isso é uma objecção capital para todos os que acusam o Espiritismo de nada ter fornecido à Ciência – mas também saber tomar, quando as circunstâncias o exigem, as resoluções necessárias para proteger a dignidade da sua causa.

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Léon Denis, O Espiritismo e as Forças Radiantes, Capítulo III 4 de 4, 10º fragmento da obra.
(imagem de ilustração: Anos e Anos de Viagem Sideral, pintura em acrílico de Costa Brites)

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Deus na Natureza ~


A Força e a Matéria I Posição do Problema (IV)

  A teoria mecânica, es-tabelecendo a pura necessidade matemática nas acções e reacções que formam a vida do mundo, é incompleta, por isso que suprime a causa e dissipa em névoa o mundo moral. A teoria de uma força única, universal, sempre actual e formando a variedade dos seres pelas suas metamorfoses, ajusta essa misteriosa universalidade a uma força primordial.

  Poder-se-ia, portanto, acusar simplesmente o processo geral dos nossos contraditores de um erro gramatical, atribuindo à matéria um poder só cabível à força e pretendendo não passar esta de mero adjectivo qualificativo, quando lhe cabem os mesmos direitos daquela, na classe dos substantivos.

  Examinemos agora, nesta mesma vista de conjunto, quais os grandes erros que marcham de paralelo e sustentam essa conduta e que havemos de encontrar sob várias formas, no curso das nossas contraditas.

  O primeiro erro geral de que abusam os materialistas é imaginarem que, pelo facto de existir Deus, importa atribuir-lhe uma vontade caprichosa e não constante e imutável, na sua perfeição.

  Ersted, por exemplo, sábio escrutador do mundo físico, exprimiu sensatamente as relações de Deus com a Natureza, dizendo que “o mundo é governado por uma razão eterna, cujos efeitos se manifestam nas leis da Natureza”.

  O Dr. Büchner opõe a esse conceito a seguinte especiosa objecção: – “Ninguém poderia compreender como uma razão eterna, que governa, se conforme com leis imutáveis. Ou são as leis naturais que governam, ou é a razão eterna. Que umas ao lado de outras entrariam, a cada instante, em colisão. Se a razão eterna governasse, supérfluas se tornariam as leis naturais e se, ao revés, governam as leis imutáveis da Natureza, elas excluem toda a intervenção divina.” – “Se uma personalidade governa a matéria num determinado sentido – opina Moleschott – desaparece da Natureza a lei da necessidade. Cada fenómeno se torna partilha de jogo do acaso e de uma arbitrariedade sem pelas.”

  Havemos de convir que esta grave objecção é singularíssima.

  É um raciocínio extravagante que cai pela base. A nós nos parece, pelo contrário, que a inteligência notória nas leis da Natureza demonstra, no mínimo, a inteligência da causa a que se devem essas leis, que são, elas mesmas, precisamente a expressão imutável dessa inteligência eterna.

  E não será algo ridículo pretender que essa causa deixe de existir, pelo motivo do íntimo acordo com essas mesmas leis?

  Vejamos, por exemplo, um excelente harpista: a sua virtuosidade é tão perfeita que os acordes frementes parecem-nos identificados com a poesia da sua alma! Diremos, então, que essa alma não existe, visto que para lhe admitir existência era preciso que ela estivesse eventual e arbitrariamente em desacordo com as leis da Harmonia! Essa maneira de raciocinar é tão falsa que os próprios autores que a utilizam são os primeiros a reconhecê-lo implicitamente. Assim é que Büchner, referindo-se a milagres e ao facto de haver o clero inglês solicitado a decretação de um dia de jejum e de preces para conjurar a cólera, elogia Palmaraton por haver respondido que o surto epidémico dependia mais de factores naturais, em parte conhecidos, e poderia melhor jugular-se com providências sanitárias, antes que com preces.

  Muito bem! O autor, melhor ainda, acrescenta: “Essa resposta lhe acarretou a pecha de ateísmo e o clero declarou pecado mortal não crer pudesse a Providência transgredir, a qualquer tempo, as leis da Natureza.”

  Mas, que singular ideia faz essa gente de Deus que por si criou! Um legislador supremo a deixar-se comover por preces e soluços, a subverter a ordem imutável que ele mesmo instituiu, a violar por suas próprias mãos a actividade das forças naturais! – “Todo o milagre, se existisse – diz também Cotta – provaria que a Criação não merece o respeito que lhe tributamos e os místicos deveriam deduzir, da imperfeição do criado, a imperfeição do Criador.”

  Aí temos os adversários em contradição consigo mesmos, quando, por um lado, não querem admitir uma razão eterna em concordância de leis imutáveis, e por outro pensam connosco, que a ideia de imutabilidade ou, pelo menos, a regularidade, se identifica muito melhor com a perfeição ideal do ser desconhecido que denominamos Deus, do que a ideia de mutabilidade e arbitrariedade, que umas tantas crenças pretendem impor-lhe.

  Um segundo erro geral, não menos funesto que o precedente e que por igual ilude os nossos contraditores, é o de acreditarem que, para existir Deus, importa colocá-lo fora do mundo.

  Não vemos pretexto algum racional que possa justificar uma tal necessidade. E antes do mais, que significa essa ideia de uma causa soberana extramundo? Onde os limites do mundo? Pois o mundo, isto é, o espaço no qual se movem estrelas e terras, não é infinito por sua mesma essência?

  Imaginais um limite a esse mesmo espaço e supondes que ele se não renova além? Será, então, possível traçar limites à extensão? Onde, pois, imaginar Deus fora do mundo? Será fora da matéria, o que se quer dizer? Mas, que é a matéria em si? – agrupamentos de moléculas intangíveis. Portanto, impossível determinar uma semelhante posição. Deus não pode estar fora do mundo, mas no mesmo lugar do mundo, do qual é o sustentáculo e a vida.

  Não fosse temer a pecha de panteísta e ajuntaríamos que Deus é – a alma do mundo. O Universo vive por Deus, assim como o corpo obedece à alma. Em vão pretendem os teólogos que o espaço não pode ser infinito, em vão se apegam os materialistas a um Deus fora do mundo, enquanto sustentamos que Deus, infinito, está com o mundo, em cada átomo do Universo – adoramos Deus na Natureza.

  Entretanto, os nossos adversários combatem insensatamente o seu fantasma. “Não há considerar o Universo – diz Strauss – como ordenação regrada por um Espírito fora do mundo, mas, como razão imanente às forças cósmicas e às suas relações.”

  A essa razão, chamamo-la Deus, enquanto os modernos ateístas aproveitam essa declaração para sentenciar que, em não existindo fora do mundo, é que Deus não existe.

  “Tudo, – diz H. Tuttle – desde a tinha (perdoem a expressão) que baila aos raios do Sol, à inteligência humana, que verte das massas medulosas do cérebro, está submetido a princípios fixos. Logo, não existe Deus.” Logo, existe – dizemos nós – “Livre é cada qual de franquear os limites do mundo visível – pondera Büchner – e de procurar fora dele uma razão que governa, uma potência absoluta, uma alma mundial, um Deus pessoal”, etc. Mas, que é o que vos fala disso? “Nunca, em parte alguma – diz o mesmo literato – nos mais longínquos espaços revelados pelo telescópio, pôde observar-se um facto que fizesse excepção e pudesse justificar a necessidade de uma força absoluta, operando fora das coisas.”

  “A força não impelida por um Deus, não é uma essência das coisas isoladas do princípio material” – adverte Moleschott.

  Ninguém terá visão tão limitada – afirma ele alhures – para enxergar nas acções da Natureza outras forças não ligadas a um substrato material. Uma força que planasse livremente acima da matéria seria uma concepção absolutamente balda de sentido.

  Positivamente, ainda hoje existem cavaleiros errantes, à guisa dos que outrora manobravam em torno dos castelos do Reno, e de bom grado arremetem moinhos de vento. Lídimos heróis de Cervantes, visto que, no fim de contas, qual o filósofo que hoje propugna um Deus ou forças quaisquer fora da Natureza?

  Vemos em Deus a essência virtual que sustenta o mundo em cada uma de suas partes microscópicas, daí resultando ser o mundo como que por ele banhado, embebido em todas as suas partes e que Deus está presente na mesma composição de cada corpo.

  Dessarte, a primeira trincheira cavada pelos adversários para bloquear o Espiritualismo foi por eles mesmos entulhada; e a segunda nem sequer objectiva a cidadela, e os nossos soldados alemães não fazem mais que bater o campo.

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Camille Flammarion, Deus na Natureza – Primeira Parte, A Força e a Matéria I - Posição do Problema 4 de 6, 8º fragmento da obra.
(imagem de ilustração: Jungle Tales_1895, pintura de James Jebusa Shannon)