Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

sábado, 20 de agosto de 2011

Reminiscências, intuições, aptidões

Recordemos aqui os pontos essenciais da teoria do “eu”, com a qual têm conexão todos os problemas da memória e da consciência.

Os dois factores que constituem a permanência e mantêm a identidade, a personalidade do “eu”, são a memória e a consciência. As reminiscências, as intuições e as aptidões determinam a sensação de haver vivido. Existe na inteligência uma continuidade, uma sucessão de causas e efeitos que é preciso reconstituir na sua totalidade para possuir o conhecimento integral do “eu”. É isso, como vimos, impossível na vida material, pois que a incorporação produz uma extinção temporária dos estados de consciência que formam esse todo contínuo. Assim como a vida física está sujeita às alternativas da noite e do dia, assim também se produz um fenómeno análogo na vida do Espírito. A nossa memória e a nossa consciência atravessam alternadamente períodos de eclipse ou de esplendor, de sombra ou de luz, no estado celeste ou terrestre e, até, neste último plano, durante a vigília ou nos diferentes estados do sono. E, assim como há gradações no eclipse, há também graus de luz.

Muitos sonhos, à semelhança das impressões recebidas durante o sono do sonambulismo, não deixam vestígios ao despertar. O esquecimento, todos os magnetizadores o sabem, é um fenómeno constante nos sonâmbulos; mas, desde que o Espírito do sujet, imerso em novo sono, torna a encontrar-se nas condições dinâmicas que permitem a renovação das recordações, estas se reavivam logo. O sujet recorda-se do que fez, disse, viu, exprimiu em todas as épocas da existência.

Por isso compreenderemos facilmente o esquecimento momentâneo das vidas anteriores. O movimento vibratório do invólucro perispiritual, amortecido pela matéria no decurso da vida actual, é excessivamente fraco para que o grau de intensidade e a duração necessária à renovação dessas recordações possam ser obtidos durante a vigília.


LÉON DENIS, O Problema do ser, do destino e da dor, Segunda Parte/O Problema do Destino, XIV – As vidas sucessivas. Provas experimentais. Renovação da memória. (3 de 4)

O despertar da memória

A memória é a concatenação, a associação das idéias, dos factos, dos conhecimentos. Desde que essa associação desaparece, desde que se rompe o fio das recordações, parece que para nós se apaga o passado, mas só na aparência. Num discurso pronunciado em 6 de fevereiro de 1905, o Prof. Charles Richet, da Academia de Medicina, dizia: “A memória é uma faculdade implacável de nossa inteligência, porque nenhuma de nossas percepções jamais é esquecida. Logo que um facto nos impressionou os sentidos, fixa-se irrevogavelmente na memória. Pouco importa que tenhamos conservado a consciência dessa recordação: ela existe, é indelével.”
Acrescentamos que ela pode ressurgir. O despertar da memória não é mais do que um efeito de vibração produzido pela acção da vontade nas células do cérebro. Para fazermos reviver as lembranças anteriores ao nascimento, é necessário colocarmo-nos novamente em harmonia de vibrações com o estado dinâmico em que nos achávamos na época em que houve a percepção. Não existindo já os cérebros que registaram essas percepções, é preciso procurá-las na consciência profunda; mas esta se conserva calada enquanto o Espírito está encerrado na carne. Para recuperar a plenitude das suas vibrações e reaver o fio das lembranças em si ocultas, é necessário que ele saia e se separe do corpo; então percebe o passado e pode reconstituí-lo nos menores factos. É isso o que se dá nos fenómenos do sonambulismo e do transe.
Sabemos que há em nós profundezas misteriosas onde lentamente se foram depositando, através das idades, os sedimentos das nossas vidas de lutas, de estudo e de trabalho; ali se gravam todos os incidentes, todas as vicissitudes do passado obscuro. É como um oceano de coisas adormecidas, balouçadas pelas vagas do destino. Um apelo poderoso da vontade pode fazê-lo reviver. A vista do Espírito, nas horas de clarividência, desce para elas como as radiações das estrelas passam das profundezas galácticas até debaixo das abóbadas e das arcadas dos recessos sombrios do mar.

LÉON DENIS, O Problema do ser, do destino e da dor, Segunda Parte/O Problema do Destino, XIV – As vidas sucessivas. Provas experimentais. Renovação da memória. (2 de 4)

O papel de um apagador

Nas páginas precedentes expusemos as razões lógicas que militam em prol da doutrina das vidas sucessivas. Consagraremos o presente capítulo e os seguintes a refutar as objecções dos seus contraditores e entraremos no campo das provas científicas que, todos os dias, vêm consolidá-la.
A objecção mais trivial é esta: “Se o homem já viveu, pergunta-se: por que não se lembra de suas existências passadas?”
Já, sumariamente, indicamos a causa fisiológica desse esquecimento; essa causa é o próprio renascimento, isto é, o revestimento de um novo organismo, de um invólucro material que, sobrepondo-se ao invólucro fluídico, faz, a seu respeito, o papel de um apagador. Em consequência da diminuição do seu estado vibratório, o Espírito, cada vez que toma posse de um corpo novo, de um cérebro virgem de toda imagem, acha-se na impossibilidade de exprimir as recordações acumuladas das suas vidas precedentes. Continuarão, é verdade, revelando seus antecedentes em suas aptidões, na facilidade de assimilação, nas qualidades e defeitos; mas todas as particularidades dos factos, dos sucessos que constituem seu passado, reintegrado nas profundezas da consciência, ficarão veladas durante a vida terrestre. O Espírito, no estado de vigília, apenas poderá exprimir pelas formas da linguagem as impressões registadas por seu cérebro material.

LÉON DENIS, O Problema do ser, do destino e da dor, Segunda Parte/O Problema do Destino, XIV – As vidas sucessivas. Provas experimentais. Renovação da memória. (1 de 4)

terça-feira, 9 de agosto de 2011

~~~Párias em Redenção~~~


1. O DUQUE DI BICCI DI M.

   O catafalco ergue-se em meio ao salão nobre do palácio senhorial e os pesados crepes descem pelas paredes de pedras e argamassa, sob tecto de cedros envernizados, sustentados por esguias colunas góticas. Flâmulas em cor de ouro, com seis bolas

vermelhas (palle) – emblema da casa – arrancadas de muitas lanças, em seda fartalhante, descem dos capitéis e guarnecem os fustes das colunas pardas e altaneiras. Na porta de entrada, trabalhado em pedra lavrada, destaca-se o brasão com as armas da família, que descende dos remanescentes M., dominadores até há pouco do grão-ducado da Toscana.

   A noite sombreada de nuvens precursoras de tormenta, que logo desabará, tudo envolve. Ventos fortes vergastam lá fora, ululantes…

   Dos arredores, afluem agricultores humildes e senhores da terra, grandes plantadores de vide e oliveiras; chegam, pressurosos, representantes das autoridades governamentais da Casa de Lorena e as diversas ordens religiosas da cidade fazem-se destacar com as roupas coloridas e os estandartes dispostos ao lado dos tocheiros fumegantes.

   Círios e archotes untados de óleo e breu ardem esfuziantes, dando a coloração amarelo-avermelhada a se projectar por toda a parte, enquanto servos diligentes, em pesados trajes, e senhores enlutados passam em ruidosa movimentação por entre carpideiras profissionais adrede contratadas para lamentarem o extinto, exaltando-lhe as qualidades e posses…

   Fora, no pátio de pedras quadrangulares e largas, em volta do importante chafariz que exibe gracioso cavalo marinho capturado por Vénus levantando-se de concha ampla, os cocheiros arrumam os carros variados e conduzem os animais relinchantes às cavalariças, para os defender da tempestade.

   Sobre a essa, atapetada de vermelho e negro, ergue-se o ataúde de madeira preciosa alcochoada de veludo, no qual repousam os despojos carnais do duque Giovanni di Bicci di M., descendente de Cosme III, em mortalha característica da Ordem de Santo Sepulcro, a que pertencia, e que, desde a paz de Viena, se recolhera a singular abatimento…

   Viúvo há três anos aproximadamente, fechara-se em áspera reclusão no seu palácio situado nos arredores de Siena, entre bosques frondosos e seculares, ao lado dos filhos do casal, cuja primogénita, Grazziella, que contava apenas 7 anos, não conseguia afugentar da sua alma os fantasmas da dor e da saudade.

   Dona Ângela, a senhora duquesa, partira subitamente, vítima de “febres” (*) estranhas que assolaram a região, situada nos alagamentos das planuras, despedaçando o coração do nobre esposo, que ainda não completara quarenta anos de idade. O sofrimento, que desde então o enlutara, fez-se-lhe cruel verdugo, esmagando-o continuamente.

   Com o matrimónio, Dona Ângela trouxera para o Solar di Bicci um sobrinho órfão, de quem cuidava com extremada abnegação desde antes que lhe houvessem chegado os próprios filhos, incluindo-o, logo após; entre os “rebentos” da sua vida, graças à generosa aquiescência do consorte.

   De carácter fraco, o filho adoptivo do casal revelou, desde cedo, tendências para a dissolução, a aventura, os prazeres violentos, como, aliás, eram habituais na época em que se destacavam as ambições guerreiras, as disputas pelo favoritismo artístico e as concessões religiosas no jogo para a dominação dos homens.

   Conquanto a austeridade dos senhores, que se dedicavam à agricultura, proprietários que eram de extensas áreas próximas à cidade, havia na herdade educadores que se encarregavam da preparação dos descendentes da família e especialmente de Girólamo, o qual todavia, passara a residir em Siena logo após a desencarnação da tia, a fim de prosseguir os estudos.

   Alto e vigoroso, Girólamo possuía porte empertigado e atraente, agraciado com os requisitos da beleza física, de que se utilizava indevidamente para explorar moçoilas inexperientes e triunfar socialmente onde se apresentava.

   Como era natural, por impositivo das leis das afinidades, o moço frequentava as reuniões alegres da cidade nas bisca e betolla (**) mal afamadas, nas quais aprimorava as inclinações negativas da personalidade infeliz.

   Não perdoava a arrogância do tio que o expulsara, sob o ardiloso pretexto do programa de estudos, da villa impotente, onde, conforme ambicionava, esperava dominar algum dia.

   Rebelde e irascível, possuía temperamento voluntarioso e apaixonado, insistindo até ao desvario, quando arquitectava possuir uma presa para os aguçados instintos. Insinuante, sabia fazer-se estimar, e, ao consegui-lo, golpeava os que dele se acercavam, com certeira e segura manobra.

   Dessa forma conquistara Assunta, jovem aia da duquesa, que lhe fascinara o apetite e que dele, a seu turno, se enamorara. Frívola e irrequieta, a moça se lhe entregara à desgovernada paixão, constituindo-se segura e fiel informante de quanto ali ocorria, quando ele se demorava em Siena.
/…

(*) Maremma toscana – impaludismo.
(**) Bisca e betolla: tasca e cabaré.


VICTOR HUGO, Espírito "PÁRIAS EM REDENÇÃO" – LIVRO PRIMEIRO 1. O DUQUE DI BICCI DI M. (fragmento 1 de 3) psicografia de DIVALDO PEREIRA FRANCO
(imagem: L’âme de la forêt _1898, pintura de Edgar Maxence)

domingo, 7 de agosto de 2011

~No Templo da Luz~


"  Assim foi, sem nenhum mal, até ao momento em que, formado o corpo sacerdotal, este, sentindo a necessidade de uma doutrina, impondo-se-lhe uma escolha, teve que tomar uma decisão. Então, pelos fins da 18ª dinastia (3064-1703 a.C.), os sacerdotes muito habilmente, para não ferir nenhuma crença, para chamar a si todas as opiniões, conceberam um sistema em que coubessem todas as hipóteses.

   A pessoa humana foi tida como composta de quatro partes: o corpo, o duplo (ka), a substância inteligente (khou) e a essência luminosa (ba ou baí). Mas, essas quatro partes se reduziam realmente a duas, no sentido de que o duplo, ou ka, era parte integrante do corpo durante a vida, como a essência luminosa, ou ba, se achava contida na substância inteligente, ou khou. Foi assim que, nos últimos tempos da 18ª dinastia, pela primeira vez, o Egipto, embora sem lhe compreender a verdadeira teoria, teve, na realidade, a noção do ser humano composto de uma única alma e de um só corpo. A nova teoria se simplificou ainda mais, com o passarem o corpo e o seu duplo a ser tidos como permanecendo para sempre no túmulo, enquanto que a alma-inteligência, “servindo de corpo à essência luminosa”, ia viver com os deuses a segunda vida. A imortalidade da alma substituía desse modo à imortalidade do corpo, que fora a primeira concepção egípcia.

A China

   Porventura, em nenhum povo o sentimento da sobrevivência foi tão vivo quanto entre os chineses. O culto dos Espíritos se lhes impôs desde a mais remota antiguidade. Cria-se no Thian ou Chang-si, nomes dados indiferentemente ao céu; mas, sobretudo, prestavam-se honras aos Espíritos e às almas dos antepassados. Confúcio respeitou essas crenças antigas e certo dia, entre os que o cercavam, admirou umas máximas escritas havia mais de mil e quinhentos anos, sobre uma estátua de ouro, no Templo da Luz, sendo uma delas a seguinte:

   “Falando ou agindo, não penses, embora te aches só, que não és visto, nem ouvido: os Espíritos são testemunhas de tudo.” 

   Vê-se que, no Celeste Império, os céus são povoados, como a Terra, não somente pelos génios, mas também pelas almas dos homens que neste mundo viveram. A par do culto dos Espíritos, estava o dos antepassados.

   “Tinha por objecto, além de conservar a preciosa lembrança dos avós e de os honrar, atrair a atenção deles para os seus descendentes, que lhes pediam conselhos em todas as circunstâncias importantes da vida e sobre os quais supunha-se que eles exerciam influência decisiva, aprovando-lhes ou lhes censurando o proceder.” 

   Nessas condições, é evidente que a natureza da alma tinha que ser bem conhecida dos chineses. Confúcio não concebia a existência de puros Espíritos; atribuía-lhes um envoltório semimaterial, um corpo aeriforme, como o prova esta citação do grande filósofo:

   “Como são vastas e profundas as faculdades dos Koûci-Chin (Espíritos diversos)! A gente procura percebê-los e não os vê; procura ouvi-los e não os ouve. Identificados com a substância dos seres, não podem ser dela separados. Estão por toda a parte, acima de nós, à nossa esquerda, à nossa direita; cercam-nos de todos os lados. Entretanto, por mais subtis e imperceptíveis que sejam, eles se manifestam pelas formas corpóreas dos seres; sendo real, verdadeira, a essência deles não pode deixar de manifestar-se sob uma forma qualquer.”

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GABRIEL DELANNE in A Alma é Imortal, Primeira parte A observação, Capítulo I Golpe de vista histórico – As crenças antigas (5 de 5)
(imagem de contextualização: Pintura das Aves, pintura de Franz Dvorak)

A parte durável, que resiste à morte

“  Se reflectirmos que esses hinos estavam escritos, há cerca de 3.500 anos, na língua mais rica e mais harmoniosa que já existiu, ficamos sem poder calcular a que épocas recuadas remontam essas noções, tão precisas e quase justas, sobre a alma e o seu envoltório. Só mesmo toda a ignorância da nossa época grosseiramente materialista seria capaz de contestar uma verdade velha como o pensamento humano e que se nos depara em todos os povos. As nossas modernas experiências sobre os Espíritos, que se deixam fotografar ou se materializam momentaneamente, como veremos mais adiante, mostram que o perispírito é uma realidade física, tão inegável como o próprio corpo material. Já era essa a crença dos antigos habitantes da margem do Nilo e constitui facto digno de nota que, no alvorecer de todas as civilizações, topamos com crenças fundamentalmente semelhantes, quando quase nenhum meio de comunicação havia entre povos tão distanciados uns dos outros.

O Egipto

   Tão longe quanto possamos chegar interrogando os egípcios, ouvi-los-emos afirmar a sua fé numa segunda vida do homem, num lugar donde ninguém pode volver, onde habitam os antepassados. Imutável, essa idéia atravessa intacta todas as civilizações egípcias; nada consegue destruí-la. Ao contrário, apenas o que não resiste às influências diversas, vindas de todas as partes, é o “como” dessa imortalidade. Qual, no homem, a parte durável, que resiste à morte, ou que, revivificada, continua outra existência?

   A mais antiga crença, a dos começos (5.000 anos a.C.), considerava a morte uma simples suspensão da vida. Depois de estar imóvel durante certo tempo, o corpo retomava o “sopro” e ia habitar muito longe, a oeste deste mundo. Em seguida, mas sempre muito remotamente, antes mesmo, talvez, das primeiras dinastias históricas, surgiu a ideia de que somente “uma parte do homem” ia viver segunda vida. Não era uma alma, era um corpo, diferente do primeiro, porém, proveniente deste, mais leve, menos material. Esse corpo, quase invisível, saído do primeiro corpo mumificado, estava sujeito a todos os reclamos da existência: era preciso alojá-lo, nutri-lo, vesti-lo. A sua forma, no outro mundo, reproduzia, pela semelhança, o primeiro corpo. É o ka, o duplo, ao qual, no antigo Império, se prestava o culto dos mortos. (5004-3064 a.C.)

   Uma primeira modificação fez do “duplo” – do ka – um corpo menos grosseiro do que o era na concepção primitiva. Não passava o segundo corpo de uma “substância” – bi – de uma “essência” – baí – e, afinal, de um claror, de “uma parcela de chama”, de luz. Essa fórmula se generalizou nos templos e nas escolas. O povo, esse, se atinha à crença simples, original, do homem composto de duas partes: o corpo e a inteligência – khou – separáveis. Houve, pois, um instante, sobretudo nas proximidades da 18ª dinastia, em que coexistiam crenças diversas. Cria-se, ao mesmo tempo: no corpo duplo, ou ka; na substância luminosa, ou baí, ba; na inteligência, ou khou. Eram três almas.”


GABRIEL DELANNE in A Alma é Imortal, Primeira parte A observação, Capítulo I Golpe de vista histórico – As crenças antigas (4 de 5)

A sobrevivência de uma parte do ser

“  Desde que o céu védico foi concebido qual morada divina habitável pelo ser humano, posta se achou a questão de se saber como poderia o homem “elevar-se tão alto” e como, dotado de faculdades restritas, seria “capaz de viver uma vida celeste sem fim”. Fora possível que o corpo humano, tão fortemente ligado à terra, levantando voo, tornado leve como uma nuvem, atravessasse o espaço para ir ter, por si mesmo, à maravilhosa cidade dos deuses? Necessário seria que um milagre se produzisse. Ora, esse milagre jamais visivelmente se produziu. Dar-se-ia, então, que a morada divina ainda estivesse sem habitantes? A não ser mediante um prodígio, que corpo físico pode perder o seu próprio peso? Desse mistério, desse pensamento vago, nasceu, de certo modo, a preocupação positiva dos destinos da matéria após a morte, da sobrevivência de uma parte do ser. Essa a mais antiga explicação que se conhece daquele misterioso além.

   Abatido pela morte, o corpo humano se desfaz por inteiro nos elementos que participaram da sua formação. Os raios do olhar, matéria luminosa, o Sol os reabsorve; a respiração, tomada aos ares, a estes volve; o sangue, seiva universal, vai vivificar as plantas; os músculos e os ossos, reduzidos a pó, tornam-se húmus. “O olho volta para o Sol; o respiro volta para Vayú; o céu e a terra recebem o que lhes é devido; as águas e as plantas retomam as partes do corpo humano que lhes pertencem.” O cadáver do homem se dispersa. As matérias que compunham o corpo vivo, privadas do calor vital, restituídas ao Grande Todo, servirão à formação de outros corpos. Nada se perdeu, nada o céu tomou para si.”

   Entretanto, o ária que morreu santamente receberá a sua recompensa: elevar-se-á às alturas inacessíveis; gozará da sua glorificação. Como será isso? Assim: a pele nada mais é do que o invólucro do corpo e, quando Agni, o deus quente,  abandona o moribundo, respeita o invólucro corpóreo, pele e músculos. As carnes, debaixo da pele, são apenas matérias espessas, grosseiras, que constituem segundo envoltório destinado ao trabalho, sujeito a funções determinadas. Sob esse duplo envoltório, da pele e do corpo, há o homem verdadeiro, o homem puro, o homem propriamente dito, emanação divina, susceptível de voltar para os deuses, como o raio de luz volta para o Sol, a respiração para o ar, a carne para a terra. Depois da morte, essa alma, revestida de um novo corpo, luminosa névoa resplandecente, de forma brilhante, “cujo próprio brilho a furta à fraca visão dos vivos”, é transportada à morada divina.

   Se o deus ficou satisfeito com as oferendas do ária morto, vem, ele próprio, dar-lhe o “invólucro luminoso” com que a alma será transportada. Um hino exprime sumariamente a mesma ideia, sob a forma de uma prece:

   “Desdobra, ó Deus, os teus esplendores e dá assim ao morto o novo corpo em que a alma será transportada, segundo a tua vontade.” 


GABRIEL DELANNE in A Alma é Imortal, Primeira parte A observação, Capítulo I Golpe de vista histórico – As crenças antigas (3 de 5)

Onde o ária fiel viverá de eterna vida

“  Verifica-se, com efeito, que os homens da época pré-histórica, a que se deu o nome de megalítica, sepultavam os mortos, colocando-lhes nos túmulos armas e adornos. É, pois, de se supor que essas populações primitivas tinham a intuição de uma segunda existência, sucessiva à existência terrena. Ora, se há uma concepção oposta ao testemunho dos sentidos, é precisamente a de uma vida futura. Quando se vê o corpo físico tornado insensível, inerte, malgrado a todos os estímulos que se empreguem; quando se observa que ele esfria, depois se decompõe, torna-se difícil imaginar que alguma coisa sobreviva a essa desagregação total. Não obstante, se apesar dessa destruição, se observa o reaparecimento completo do mesmo ser, se ele demonstra, por actos e palavras, que continua a viver, então, mesmo aos seres mais malogrados se impõe, com grande autoridade, a conclusão de que o homem não morreu de todo. Só, provavelmente, após múltiplas observações desse género, foi que se estabeleceram o culto prestado aos despojos mortais e a crença numa outra vida em continuação da vida terrestre.

A Índia

   Ainda nos dias actuais, as tribos mais selvagens crêem numa certa imortalidade do ser pensante e as narrativas dos viajantes são concordes em atestar que, em todas as partes do globo, a sobrevivência é unanimemente afirmada. Remontando aos mais antigos testemunhos que possuímos, isto é, aos hinos do Rigveda, vemos que os homens que viviam nas faldas do Himalaia, no Sapta Sindhu (país dos sete rios), tinham intuições claras sobre o além da morte.

   Baseando-se provavelmente nas aparições naturais e nas visões em sonho, foi que os sacerdotes, ao cabo de muitos séculos, lograram codificar a vida futura. Como será essa vida? Um poeta ária esboça assim, vigorosamente, o céu védico:

   “Morada definitiva dos deuses imortais, sede da luz eterna, origem e base de tudo o que é, mansão de constante alegria, de prazeres infindos, onde os desejos se realizam mal surjam, onde o ária fiel viverá de eterna vida.” “


GABRIEL DELANNE in A Alma é Imortal, Primeira parte A observação, Capítulo I Golpe de vista histórico – As crenças antigas (2 de 5)

A Alma ou o Espírito é alguma coisa

“É-nos desconhecida a natureza íntima da alma. Dizendo-se que ela é imaterial, esta palavra deve ser entendida em sentido relativo e não absoluto, porquanto a imaterialidade completa seria o nada. Ora, a alma ou o espírito é alguma coisa que pensa, sente e quer; tem-se, pois, que entender, quando a qualificamos de imaterial, que a sua essência difere tanto do que conhecemos fisicamente, que nenhuma analogia guarda com a matéria.

Não se pode conceber a alma, senão acompanhada de uma matéria qualquer que a individualize, visto que, sem isso, impossível lhe fora se pôr em relação com o mundo exterior. Na Terra, o corpo humano é o médium que nos põe em contacto com a Natureza; mas, após a morte, destruído que se encontra o organismo vivo, mister se faz que a alma tenha outro envoltório para entrar em relações com o novo meio onde vai habitar. Desde todos os tempos, essa indução lógica foi fortemente sentida e tanto mais quanto as aparições de pessoas mortas, que se mostravam com a forma que tiveram na Terra, fundamentavam semelhante crença.

Quase sempre, o corpo espiritual reproduz o tipo que o Espírito tinha na sua última encarnação e, provavelmente, a essa semelhança da alma se devem as primeiras noções acerca da imortalidade.

Se também ponderarmos que, em sonho, muitas pessoas vêem parentes ou amigos que já morreram há longo tempo, que esses parentes e amigos conversam com elas, parecendo vivos como outrora, não nos será talvez difícil encontrar em tais factos as causas da crença, generalizada entre os nossos ancestrais, numa outra vida.”


GABRIEL DELANNE in A Alma é Imortal, Primeira parte A observação, Capítulo I Golpe de vista histórico – As crenças antigas (1 de 5)

sábado, 6 de agosto de 2011

Conquista da compaixão

“Exercita-te pessoalmente na piedade.” – Paulo
(I Timóteo, 4:7.)

Não se conhece nenhuma conquista que chegasse ao espírito sem apoio na prática.

Um grande intérprete da música não se manteria nessa definição, sem longos exercícios com base na disciplina.
Um campeão nas lides desportivas não consegue destacar-se simplesmente sonhando com vitórias.
Nos dons espirituais, os princípios que nos regem as aquisições são os mesmos.

Se quisermos que a piedade nos ilumine, é imperioso exercitar a compreensão. E compreensão não vem a nós sem que façamos esforço para isso.

Aceitemos, assim, as nossas dificuldades por ocasiões preciosas de ensino, sobretudo, no relacionamento uns com os outros.
Nesse sentido, os que nos contrariam se nos mostram como sendo os melhores instrutores.

Se alguém comete uma falta, reflictamos na doença mental que lhe terá ditado o comportamento.
Se um amigo nos abandona, imaginemos quanto haverá sofrido no processo de incompreensão que o levou a se afastar.
Pensa na insatisfação enfermiça dos que se fazem perseguidores ou na dor dos que se entregam a esse ou àquele tipo de culpa.

Compaixão é a porta que se nos abre no sentimento para a luz do verdadeiro amor, entretanto, notemos: ninguém adquire a piedade sem construí-la.

ESPÍRITO EMMANUEL, Ceifa de Luz – Conquista da compaixão, psicografia de FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER
(imagem: Salvador Dali, 1964_05)