Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

sábado, 27 de junho de 2015

~~~Párias em Redenção~~~


A ESTRANHA PERSONAGEM QUE SURGE DO PASSADO (III)

  Electrificado pelo impacto da descoberta e encorajado pela inspiração perniciosa, Carlo retomou ao casino e fitou o homem semi-embriagado, que o humilhara. De temperamento venal e orgulhoso, ele também não admitia competidor. Olhou-o de vários ângulos e quanto mais o observava, com severidade, mais se lhe acentuava a certeza sobre a procedência das suspeitas. No íntimo conturbado e na mente exacerbada, agora, pela dupla força da raiva pessoal e do ódio que lhe era transmitido, ocorreu-lhe – por transmissão mental – vender o silêncio, apavorando o criminoso, táctica eficaz para vingar-se demoradamente, e – quem sabe? – denunciá-lo depois. A denúncia, é claro – reflectia –, não surtiria o efeito desejado. Quem iria acreditar num cavalariço, ante a palavra do jovem Conde e do respectivo sogro? Dar-se-ia até que ele seria chibateado em público e atirado a um cárcere, até à morte. O melhor e mais eficiente método seria inquietar-lhe a consciência – se é que a tinha –, obrigando-o a denunciar-se, ele próprio, mediante o conciliábulo da chantage.

  Doía-lhe o corpo pela ansiedade e tremiam-lhe os músculos.

  Acercou-se exultante e disse, sem maiores delongas:

  – Com vossa permissão, Senhor Conde. Necessito falar-vos.

  – A mim? – interrogou Girólamo. – Conseguiste mais dinheiro ou desejas pedi-lo a mim?

  Algumas mulheres de aparência grotesca, na pintura e nos trajes, vários homens de vida duvidosa que se encontravam em torno do dissipador gargalharam, zombeteiros.

  Dominando a impetuosidade e fazendo-se humilde, submisso, o florentino tornou:

  – Perdão, senhor! Trata-se de assunto grave, se me permitis.

  – Dize, homem. Que acanhamento é esse, após o prejuízo?

  Novas gargalhadas em troça espocaram. Girólamo realizava-se, ferindo e macerando o opositor vencido.

  – Com vossa aquiescência, senhor, trata-se de problema da vossa família…

  – Que tem minha família…

  Girólamo saltou e mesmo ubriaco (i) aproximou-se do parlamentário e perguntou:

  – Vens do Palácio Castaldi?

  – É mais grave, senhor. Diz respeito à vossa vida, vossa paz.

  – Saiamos, então, daqui, – acudiu o quase borracho.

  Alguns vadios do casino, que cobiçavam a presa, a meio caminho da bebedeira total, para roubar-lhe as moedas, explodiram em exclamações de aborrecimento e enfado.

  Os dois homens saíram à rua. Logo à porta, o senense inquiriu molesto:

  – De que perigo se trata? Avia-te, ordeno!

  – Calma, senhor. Não nos devem ouvir pessoas levianas.

  – Que aparência de mistério é essa?

  – Trata-se realmente de um mistério.

  Avançaram alguns passos e, na semi-obscuridade da viela, entre as pilastras de pedra de cantaria, sob os arcos superiores, onde os vultos pareciam mais estranhos, Carlo arengou:

  – Necessito de vossa ajuda. Somente uma questão de tal monta me obrigaria…

  – Qual é o mistério que me envolve? – vociferou Girólamo.

  Sentindo-se detentor de poderosa arma, Carlo reflectiu sobre o velho provérbio: “Chi va piano, va sano. Chi va sano va lontano.” (ii) Logo explicou:

  – Trata-se de uma ocorrência que vos envolve. – Fez uma pausa, para atingir melhores e seguros resultados.

  Girólamo, enfadado, empurrou o contendor e pôs-se a caminho, de volta ao casino, protestando:

  – Cavalariço imundo, incomodar-me!... Atrevido…

  – Lembrai-vos de um domingo de primavera nas colinas de San Miniato, em Florença, senhor? – gritou-lhe. (Era sua grande cartada: vida ou desgraça. A sorte estava lançada, pensou com sofreguidão.) – Eu estava lá…

  Girólamo estancou o passo. Cambaleou. Um fogo de febre subiu-lhe À cabeça, os ouvidos zumbiram, como se as veias se agitassem, quase a estourar. Rodopiou sobre os calcanhares e volveu. Apesar de quase vencido pela bebida, crispou as mãos e avançou na direcção do ginete dos Castaldi, segurando-o pelas vestes com vigor e, face a face, ardendo de ira, com os dentes travados em rito de ódio, indagou, com a voz subitamente enrouquecida:

  – Não ouvi bem, miserável, canalha. Repeti! Fala! Que desejas, verme asqueroso?...

  – Acalmai-vos, senhor. (Carlo estava convicto de que atingia o objectivo. Vingar-se-ia, agora, em longo curso de desforra.)

  Tentando oferecer naturalidade à voz, falou com fingida humildade:

  – Desejava que o Senhor Conde soubesse… Gostaria de ser-vos útil… As circunstâncias da fortuna me colocaram em San Miniato, naquele dia…

  Os olhos de Girólamo fuzilavam. Mesmo na sombra, Carlo, igualmente robusto, viu o folgor estranho daqueles olhos e sentiu as mãos de ferro, agora em torno do seu pescoço, enquanto a voz rouquenha gritava:

  – Que viste, bandido? Abre-te, antes que eu mesmo te esgane!

  Tentando desvencilhar-se daquelas mãos de aço, crispadas, Carlo retrucou, atordoado:

  – Eu estava em San Miniato quando…

  – Quando?!...

  – Quando o Senhor Conde matou aquela mulher… Eu vi. (E ante o espanto de Girólamo, colhido pela surpresa do inesperado, que afrouxou um pouco a constrição, Carlo, de um golpe, desarmou o desafecto.)

  Aparentando desconhecer a que se referia o florentino, o senense acercou-se e, fulminante, esbordoou-o com violência.

  – Se fosses um homem da nobreza – aduziu com desprezo –, eu te convidava a um duelo. Mas, um réptil dessa classe eu entrego às autoridades…

  Sobrepondo a arrogância à razão, ensaiou alguns passos na direcção do casino, esfogueado, em convulsão. O inesperado colhia-o em circunstância jamais desejada, cravando-lhe a lança de incomparável choque e dor. Não conseguia raciocinar com o necessário acerto. A violência da emoção superou o desalinho das forças pelo álcool, e, como suasse em bagas, passou a eliminar o tóxico. Parou a meio passo. Voltou-se e enfrentou o olhar do inimigo, imóvel, lábios contraídos, desafiador.

  – Serei eu, Senhor Conde – revidou Carlo –, quem irá procurar as autoridades para narrar o vosso hediondo segredo. É certo que não sou nobre, mas posso sê-lo como vós o sois, lavando a condição plebeia no sangue das vítimas, como o fizestes com a vossa ganância. Não vos temo! Somos do mesmo estofo, cavaliere. (E gargalhou com mofa.)

  – Matar-te-ei, miserável! (Girólamo avançou, estertorando.)

  – Parai ou matar-vos-ei eu. (O lépido moço recuou num salto felino, colocando-se à distância do agressor.) Não me interessa a vossa vida…

  – E que desejas, cão?

  – Vender-vos o meu silêncio.

  – A calúnia só merece chibata e cárcere.

  – Veremos como a cidade reagirá ao saber a notícia e relacioná-la com as tragédias do Solar di Bicci…As circunstâncias da morte dos vossos parentes… (Sardónico e igualmente impiedoso, continuou a gargalhar.)

  No mesmo momento em que se sentia desvairar, Girólamo ouviu a gargalhada de Assunta e distinguiu a voz do duque invectivar: “Assassino! Pagarás agora, assassino!”

  O infeliz mancebo, por sua vez, trovejou expressões de louco e sem qualquer lucidez invadiu o casino, transtornado, perseguido pelas Erínias  (iii). Palavras desconexas saíam-lhe dos lábios intumescidos. Segurando a cabeça com as duas mãos, correu de um lado para o outro, perdido no mundo das sombras, nas quais perpetrara os crimes, e ululava. Nos ouvidos superaguçados, continuava ouvindo as acusações do tio e as imprecações de Assunta. Gritos e doestos sórdidos espocavam-lhe no cérebro e ele, açoitado pelo desespero, arrancou em direcção a uma parede e arrojou-se de encontro a ela.

  O pavor tomou conta do recinto. Dois dos seus muitos companheiros de orgias, surpreendidos pelo nefasto acontecimento, levantaram-se de repente e seguraram-no a contorcer-se no solo, a gemer, a sangrar, olhar perdido, músculos e carnes trémulos: era um trapo, sacudido violentamente pela tempestade da insânia íntima.

  O cavaliere Conde Dom Girólamo Cherubini di Bicci experimentava a segunda crise de loucura.

  Através dos olhos sem luminosidade, ele via, além da realidade objectiva, o duque de pé, à sua frente, dedo em riste, empunhando longa chibata, com a qual o surrava desapiedadamente e, ao lado, Assunta, louca, megera nauseante, bailava e cachinava impudente, vingadora. Sofrendo o cilício que o tio lhe infligia, sentiu-se arrancado ao corpo, à força, e foi obrigado a enfrentar as circunstâncias em que se arrojara voluntariamente. O corpo, exânime, tombou quase sem vida.

  Recostaram-no em um leito, no andar superior do cassino-bordel, e alguém foi providenciar uma carruagem, para conduzi-lo ao lar dos sogros. A villa dos Castaldi estava em silêncio. Ante a gritaria dos que se encontravam fora, o guarda da entrada acordou e, cientificado do que acontecera, Dom Lorenzo e a senhora, tomados de inquietação, recolheram o genro ainda ensanguentado, promovendo meios de atendê-lo e diminuir os danos daquele insucesso, constatando que na agitação em que se debatia o genro este deveria estar bêbado, não dando maior importância ao incidente.

  Dois lacaios foram designados a acompanhar a noite do mancebo, que continuou estremunhado, estertorado.

Carlo, o zagal florentino, quando viu o furor que se apossara do antagonista, fruiu a vã satisfação da vitória, comprovando, simultaneamente, que aquele homem não passava de um louco assassino. Agora, tinha certeza da legitimidade da sua observação e não o perderia de vista. Era-lhe uma presa fácil, que poderia modificar o seu destino. Propor-lhe-ia mudança de vida… Fá-lo-ia, sim.

  “Agora, vamos ao prazer interrompido.” – planeou.

  Abandonando a rua deserta, demandou outros sítios.

  A cidade acordou pachorrentamente, vagarosamente, exausta, no dia seguinte. O lixo abundava e as ruas estavam imundas…

Girólamo despertou febril, sem recobrar a lucidez, alquebrado, expressão de demente, olhar parado, fácies desconcertante. Às vezes, ria sem motivo ou se deixava vencer por crises nervosas que o sacudiam violentamente.

  Dom Lorenzo despachou um moço de recados à herdade Bicci, encarregue de trazer a Condessa Beatriz. A jovem senhora, notificada da enfermidade do esposo, acudiu aflita a socorrê-lo. No palácio paterno.

  A notícia chegou igualmente ao Palácio T., provocando em Francesco e Lucrécia sincera preocupação.

  Por intermédio dos lacaios, Carlo manteve-se informado do que acontecia na intimidade do palácio, gozando interiormente a desforra e aguardando acontecimentos novos. Tinha a certeza de que os bons génios, que lhe auguraram o destino futuro, premeditaram tais cometimentos para ensejar-lhe fortuna e regalias, Girólamo possuía mais do que podia dissipar e não lhe custava muito repartir com o comparsa, elegendo-o amigo e preferido da sua casa. Reservou o tempo, esperando.

  Logo chamado, o esculápio examinou detidamente o enfermo e, como este se encontrasse vitimado por febre e constantes delírios, nos quais o corpo em desequilíbrio sofria as vicissitudes do espírito aturdido, a sofrer o império do desconforto que proporcionava a si mesmo, foi taxativo: maremma toscana! Recomendou repouso excessivo e silêncio, prescrevendo clisteres e outras mezinhas. Comprometeu-se a retornar com assiduidade, acompanhando a marcha da enfermidade do paciente.

  Sentindo o êxito do programa em plena execução, o desencarnado duque di Bicci, no fragor da loucura de que também se via possuído, experimentou júbilo, o júbilo que, à semelhança de ácido, queima e requeima os que o conduzem. Considerava a partida ganha: Girólamo, à semelhança de Assunta, estava em suas mãos. Na ferocidade do ódio em que se consumia, não desejava que o desditoso jovem morresse de imediato. Comprazer-se-ia em vê-lo sofrer lentamente, como a cobrar a asfixia que padeceram seus filhinhos e Lúcia nas mãos ímpias do assassino. Assim, reflexionando, a entidade folgou a constrição psíquica e a influenciação exercida sobre a vítima, a qual, vendo-se parcialmente livre dos fluidos danosos, recobrou alento, recuperando o controlo sobre os órgãos dos sentidos físicos, a consciência, as lembranças…

  Passaram pela sua mente os últimos acontecimentos, em esfera penumbrosa de sonho pernicioso. Recordava-se da agressão espiritual sofrida, sem a compreender, todavia, evocou as ameaças e revelações de Carlo. A simples lembrança do móvel das dores que experimentava fê-lo desesperar. Possuidor de um carácter venal, tentou recompor-se para cuidar do desafecto, na ocasião oportuna.

  As melhoras do enfermo, repentinas, foram saudadas festivamente com êxito do médico.

  Uma semana depois, ainda convalescente, Girólamo, acompanhado pelo carinho da esposa, retorna ao solar altaneiro, nas colinas do pequeno ducado…

/…
(i) Ubriaco: bêbado.
(ii) “Quem vai devagar vai seguro. Quem vai seguro vai longe.”
(iii) As Erínias ou Eumênides eram deusas gregas a que os romanos chamavam Fúrias. Eram filhas da Terra, que viviam no Tártaro, com a missão de punir os crimes dos homens. Faziam-se representar com os cabelos entrelaçados de serpentes, tendo um punhal numa mão e um facho aceso noutra. Tinham como nomes: Tisífone, Alecto e Megera. Pertencem à Mitologia.



VICTOR HUGO, Espírito “PÁRIAS EM REDENÇÃO” – LIVRO PRIMEIRO, 8. A ESTRANHA PERSONAGEM QUE SURGE DO PASSADO (3 de 3) 28º fragmento da obra. Texto mediúnico, ditado a DIVALDO PEREIRA FRANCO.
(imagem de contextualização: L’âme de la forêt | 1898, tempera e folha de ouro sobre painel de Edgard Maxence)

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Diálogos de Kardec ~


Profissão de Fé Espírita Raciocinada

§ I. Deus

1. Há um Deus, inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.

A prova da existência de Deus está neste axioma: Não há, absolutamente, efeito sem causa. Vemos incessantemente uma multidão inumerável de efeitos, cuja causa não está na humanidade, já que a humanidade é impotente para produzi-los, e mesmo para explicá-los; a causa está, portanto, acima da humanidade. É esta causa a que se chama Deus, Jeová, Alá, Brahma, Fo-Hi, Grande Espírito, etc., segundo as línguas, os tempos e os lugares.

Esses efeitos não se produzem absolutamente ao acaso, fortuitamente e sem ordem; desde a organização do menor insecto e do menor grão, até à lei que rege os mundos que circulam no Espaço, tudo atesta um pensamento, uma combinação, uma previdência, uma solicitude que ultrapassam todas as concepções humanas. Esta causa é, portanto, soberanamente inteligente.

2. Deus é eterno, imutável, imaterial, único, todo-poderoso, soberanamente justo e bom.

Deus é eterno; se houvesse tido um começo, alguma coisa teria existido antes dele; teria saído do nada, ou melhor, teria criado a si próprio através de um ser anterior. É assim que, pouco a pouco, remontamos ao infinito na eternidade.

Ele é imutável; se estivesse sujeito a mudanças, as leis que regem o Universo não teriam nenhuma estabilidade.

Ele é imaterial; quer dizer, que a sua natureza difere de tudo o que chamamos matéria, de outro modo, ele estaria sujeito às flutuações e às transformações da matéria, e não seria imutável.

Ele é único; se houvesse vários Deuses, haveria várias vontades, e desde então, não haveria nem unidade de vistas, nem unidade de poder na ordenação do Universo.

Ele é todo-poderoso, porque é único. Se não tivesse o soberano poder, haveria alguma coisa mais poderosa que ele; ele não teria feito todas as coisas, e as que não tivesse feito seriam a obra de um outro Deus.

Ele é soberanamente justo e bom. A sabedoria providencial das leis divinas se revela nas menores coisas como nas maiores, e essa sabedoria não permite duvidar nem da sua justiça, nem da sua bondade.

3. Deus é infinito em todas as suas perfeições. Se supuséssemos imperfeito um só dos atributos de Deus, se subtraíssemos a menor parcela de eternidade, de imutabilidade, de imaterialidade, de unidade, de todo-poder, da justiça e da bondade de Deus, poderíamos supor um ser que possuísse o que lhe faltasse, e este ser, mais perfeito que ele, seria Deus.

§ II. A alma

4. Há no homem um princípio inteligente a que chamamos ALMA ou ESPÍRITO, independente da matéria, e que lhe dá o senso moral e a faculdade de pensar.

Se o pensamento fosse uma propriedade da matéria, ver-se-ia a matéria bruta pensar; ora, como nunca se viu a matéria inerte dotada de faculdades intelectuais; e quando o corpo está morto, ele não pensa mais, é preciso concluir que a alma é independente da matéria, e que os órgãos são apenas instrumentos com a ajuda dos quais o homem manifesta o seu pensamento.

5. As doutrinas materialistas são incompatíveis com a moral e subversivas da ordem social.

Se, segundo os materialistas, o pensamento fosse segregado pelo cérebro, como a bílis é segregada pelo fígado, resultaria que, com a morte do corpo, a inteligência do homem e todas as suas qualidades morais retornariam ao nada; que os pais, os amigos e todos aqueles a quem fomos afeiçoados, estariam perdidos, sem retorno; que o homem de génio não teria mérito, já que deveria as suas faculdades transcendentais apenas ao acaso de sua organização; que não haveria entre o imbecil e o sábio, senão a diferença de mais ou menos cérebro.

As consequências dessa doutrina seriam de que o homem, não esperando nada além dessa vida, não teria nenhum interesse de fazer o bem; que seria muito natural procurar para si os maiores prazeres possíveis, mesmo que fosse à custa de outrem; que haveria estupidez em se privar em favor dos outros; que o egoísmo seria o sentimento mais racional; que aquele que é obstinadamente infeliz na Terra, não teria nada de melhor a fazer do que matar-se, já que, devendo cair no nada, tanto faria para ele, e que abreviaria os seus sofrimentos.

A doutrina materialista é, portanto, a sanção do egoísmo, fonte de todos os vícios; a negação da caridade, fonte de todas as virtudes e base da ordem social, e a justificação do suicídio.

6. A independência da alma é provada pelo Espiritismo.

A existência da alma é provada pelos actos inteligentes do homem, que devem ter uma causa inteligente e não uma causa inerte. A sua independência da matéria é demonstrada de uma maneira patente pelos fenómenos espíritas que a mostram agindo por si própria, e sobretudo pela experiência de seu isolamento durante a vida, o que lhe permite manifestar-se, pensar e agir na ausência do corpo.

Pode dizer-se que, se a química separou os elementos da água, se ela colocou por isso as suas propriedades a descoberto, e se ela pode à vontade desfazer e refazer um corpo composto, o Espiritismo pode, igualmente, isolar os dois elementos constitutivos do homem: o espírito e a matériaa alma e o corpo, separá-los e reuni-los à vontade, o que não pode deixar dúvida sobre a sua independência.

7. A alma do homem sobrevive ao corpo e conserva a sua individualidade depois da morte.

Se a alma não sobrevivesse ao corpo, o homem não teria como perspectiva senão o nada, assim como, se a faculdade de pensar fosse o produto da matéria; se não conservasse a sua individualidade, quer dizer, se fosse perder-se no reservatório comum chamado o grande todo, como as gotas de água no oceano, seria igualmente, para o homem, o nada do pensamento, e as consequências seriam absolutamente as mesmas do que se não tivesse alma.

A sobrevivência da alma após a morte é provada de uma maneira irrecusável e, de alguma sorte palpável, pelas comunicações espíritas. A sua individualidade é demonstrada pelo carácter e as qualidades próprias a cada um; essas qualidades que distinguem as almas umas das outras, constituem a sua personalidade; se fossem confundidas num todo comum, teriam apenas qualidades uniformes.

Além dessas provas inteligentes, há ainda a prova material das manifestações visuais ou aparições, que são tão frequentes e tão autênticas, que não é permitido colocá-las em dúvida.

8. A alma do homem é feliz ou infeliz após a morte, segundo o bem ou o mal que tenha feito durante a vida.

Desde que se admita um Deus soberanamente justo, só se pode admitir que as almas tenham um destino comum. Se a posição futura do criminoso e do homem virtuoso devesse ser a mesma, isto excluiria qualquer utilidade em procurar fazer o bem; ora, supor que Deus não faz diferença entre aquele que faz o bem e aquele que faz o mal, seria negar a sua justiça. O mal, não recebendo sempre a sua punição, nem o bem, a sua recompensa durante a vida terrestre, é necessário daí concluir que a justiça será feita depois, sem o que, Deus não seria justo.

As penas e as alegrias futuras são, além disso, materialmente provadas pelas comunicações que os homens podem estabelecer com as almas daqueles que viveram, e que vêm descrever o seu estado feliz ou desgraçado, a natureza de suas alegrias ou de seus sofrimentos, e dizer-lhes a causa.

9. Deus, a alma, a sobrevivência e a individualidade da alma depois da morte do corpo, penas e recompensas futuras, são os princípios fundamentais de todas as religiões.

O Espiritismo vem acrescentar às provas morais desses princípios, as provas materiais dos factos e da experimentação, e arrasar com os sofismas do materialismo. Em presença dos factos, a incredulidade não tem mais razão de ser; é assim que o Espiritismo vem devolver a fé àqueles que a perderam, e tirar as dúvidas dos incertos.

§ III. Criação

10. Deus é o criador de todas as coisas. Esta proposição é a consequência da prova da existência de Deus (nº 1).

11. O princípio das coisas está nos segredos de Deus.

Tudo diz que Deus é o autor de todas as coisas, mas quando e como as criou? A matéria é como ele de toda a eternidade? É isso que ignoramos. Sobre tudo o que não julgou revelar-nos a respeito, só se pode estabelecer sistemas mais ou menos prováveis. Pelos efeitos que vemos, podemos remontar a certas causas; mas há um limite que nos é impossível ultrapassar, e seria ao mesmo tempo perder seu tempo e expor-se a equivocar-se, querer ir além.

12. O homem tem como guia na busca do desconhecido, os atributos de Deus.

Na busca dos mistérios que nos é permitido sondar pelo raciocínio, há um critério certo, um guia infalível: são os atributos de Deus.

Desde que se admita que Deus deve ser eternoimutávelimaterialúnicotodo-poderososoberanamente justo e bom, que é infinito nas suas perfeições, qualquer doutrina ou teoria, científica ou religiosa, que tendesse a suprimir-lhe uma parcela de um só de seus atributos, seria necessariamente falsa, já que tenderia à negação da própria divindade.

13. Os mundos materiais tiveram um começo e terão um fim.

Que a matéria seja de toda a eternidade como Deus, ou que tenha sido criada numa época qualquer, é evidente, segundo o que acontece quotidianamente sob os nossos olhos, que as transformações da matéria são temporárias, e que dessas transformações resultam os diferentes corpos que nascem e se destroem incessantemente.

Os diferentes mundos sendo produtos da aglomeração e da transformação da matéria, devem, como todos os corpos materiais, ter tido um começo e ter um fim, segundo leis que nos são desconhecidas. A Ciência pode, até um certo ponto, estabelecer as leis de sua formação e remontar ao seu estado primitivo. Toda a teoria filosófica em contradição com os factos demonstrados pela Ciência, é necessariamente falsa, a menos que prove que a Ciência está errada.

14. Criando os mundos materiais, Deus criou também seres inteligentes a que chamamos espíritos.

15. A origem e o modo de criação dos espíritos nos são desconhecidos; sabemos somente que foram criados simples e ignorantes, quer dizer, sem ciência e sem conhecimento do bem e do mal, mas perfectíveis e com uma igual aptidão para tudo conquistar e tudo conhecer com o tempo. No princípio, estão numa espécie de infância, sem vontade própria e sem consciência perfeita de sua existência.

16. À medida que o espírito se afasta do ponto de partida, as ideias nele se desenvolvem, como na criança, e com as ideias, o livre-arbítrio, quer dizer, a liberdade de fazer ou não fazer, de seguir tal ou qual caminho para o seu adiantamento, o que é um dos atributos essenciais do espírito.

17. O objectivo final de todos os espíritos é de atingir a perfeição da qual é susceptível a criatura; o resultado dessa perfeição é a alegria da felicidade suprema que é a consequência, e à qual chegam mais ou menos prontamente, segundo o uso que fazem do seu livre-arbítrio.

18. Os espíritos são agentes do poder divino; constituem a força inteligente da natureza e concorrem para a execução das visões do Criador para a manutenção da harmonia geral do Universo e das leis imutáveis da criação.

19. Para concorrer, como agentes do poder divino, na obra dos mundos materiais, os espíritos revestem temporariamente um corpo material. Os espíritos encarnados constituem a humanidade. A alma do homem é um espírito encarnado.

20. A vida espiritual é a vida normal do espírito: ela é eterna; a vida corporal é transitória e passageira: é apenas um instante na eternidade.

21. A encarnação dos espíritos está nas leis da natureza; é necessária ao seu adiantamento e à execução das obras de Deus. Pelo trabalho que sua existência corporal necessita, eles aperfeiçoam a sua inteligência e adquirem, observando a lei de Deus, os méritos que devem conduzi-los à felicidade eterna. Daí resulta que, concorrendo para a obra geral da criação, os espíritos trabalham para o seu próprio adiantamento.

22. O aperfeiçoamento do espírito é o fruto de seu próprio trabalho; progride na razão da sua maior ou menor actividade ou da boa vontade para adquirir as qualidades que lhe faltam.

23. Não podendo o espírito adquirir numa só existência corporal todas as qualidades morais e intelectuais que devem conduzi-lo ao objectivo, ele aí chega através de uma sucessão de existências, em cada uma das quais dá alguns passos adiante, no caminho do progresso, e purifica-se de algumas de suas imperfeições.

24. A cada nova existência, o espírito traz o que adquiriu em inteligência e em moralidade, nas suas existências precedentes, assim como os germens das imperfeições das quais ainda não se despojou.

25. Quando uma existência foi mal empregada pelo espírito, quer dizer, se não fez nenhum progresso no caminho do bem, ela não tem proveito para ele, e ele deve recomeçá-la em condições mais ou menos penosas, em razão da sua negligência e de seu malquerer.

26. Devendo o espírito a cada existência corporal adquirir alguma coisa de bem e despojar-se de alguma coisa de mal, daí resulta que, após um certo número de encarnações, encontra-se depurado e chega ao estado de puro espírito.

27. O número das existências corporais é indeterminado; depende da vontade do espírito abreviá-la, trabalhando activamente para o seu aperfeiçoamento moral.

28. No intervalo das existências corporais, o espírito é errante e vive a vida espiritual. A erraticidade não tem duração determinada.

29. Quando os espíritos adquiriram num mundo a soma de progresso que comporta o estado desse mundo, deixam-no para encarnar num outro mais adiantado, onde adquirirão novos conhecimentos, e assim, sucessivamente, até que a encarnação num corpo material não lhe sendo mais útil, vivem exclusivamente a vida espiritual, onde progridem ainda num outro sentido e através de outros meios. Tendo chegado ao ponto culminante do progresso, desfrutam da suprema felicidade; admitidos nos conselhos do Todo-Poderoso, têm o seu pensamento e tornam-se os seus mensageiros, os seus ministros directos para o governo dos mundos, tendo sob as suas ordens os espíritos de diferentes graus de adiantamento.

/…


ALLAN KARDEC, Obras Póstumas, Primeira Parte, PROFISSÃO DE FÉ ESPÍRITA RACIOCINADA, I Deus, II A alma, III Criação, 11º fragmento solto da obra.
(imagem de contextualização: Dança rebelde, 1965 – Óleo sobre tela, de Noêmia Guerra)

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Nas garras do pensamento crítico ~


Por uma consciência humanista ~

             Se a experiência nos mostra que a formação de uma “consciência proletária” é praticamente inviável, pois, entre outros motivos, a própria revolução proletária vem sendo impulsionada e dirigida por forças estranhas ao proletariado; não somente desde os seus pródromos, mas ainda, hoje, e cada vez mais; se nos mostra que a “filosofia do proletariado” não consegue atraí-lo e empolgá-lo mais do que a demagogia fascista ou o diversionismo democrático dos países capitalistas mais altamente industrializados; revela-se-nos ainda que a vitória das chamadas “minorias conscientes” cria novos e violentos antagonismos internacionais, cada vez mais agressivos, é evidente que só nos resta procurar uma saída humana, e não proletária nem burguesa, para essa terrível situação. A saída não será a da submissão, a do pescoço entregue mansamente à canga, mas não será também a da violência e a da força.

   Se Marx reconhece no proletariado o potencial revolucionário, que a sua filosofia devia armar da necessária orientação para a luta, e se essa orientação só seria possível através da criação da “consciência de classe”, não teremos, nesse mesmo facto, o exemplo e a indicação do que nos cabe fazer? As massas que hoje se deparam à nossa frente, exploradas e sofredoras, não são apenas o proletariado, mas essa multidão heterogénea, que se chama povo, humanidade, e que as classes dividem de maneira formal, mas não substancial. Ao mesmo tempo, a situação das classes dominantes é de angústia e desespero, pesando sobre elas as consequências morais inevitáveis do usufruto indevido e da exploração dos semelhantes. O capital, o dinheiro, o poder, as comodidades, não bastam para salvá-las e, pelo contrário, cada vez mais as precipitam no pântano da corrupção moral e social.

   Diante disso, cabe-nos repetir o gesto de Marxoferecendo agora uma filosofia, não a esta ou àquela classe, mas a toda a humanidade, para armá-la da orientação necessária, através da criação de uma “consciência humanista”. Entreguemos essa filosofia de libertação, essa arma de defesa moral, esse instrumento de luta social, ao homem de todas as latitudes e de todas as classes, e trabalhemos pela criação da “consciência humanista” nos indivíduos em particular e no meio social em geral.

   Elevar a Terra na escala dos mundos!
   Não nos iludamos, porém, quanto aos métodos de acção que devemos empregar. Simples evangelização ou catequização, nos moldes religiosos, não darão resultados, porque nos amarram, pelo contrário, às antiquadas formas sectárias, que proliferam por toda parte e criam divisionismos estéreis e perigosos. O Espiritismo tem de descobrir a sua própria maneira de agir, tem de forjar as suas próprias armas, inteiramente novas, tão diferentes das usadas pelo processo do religiosismo clássico quanto pelo materialismo-dialéctico. Talvez nesta altura nos pudessem servir de “pontos-de referência” algumas longínquas tentativas históricas, como a de comunidade apostólica, de que nos dá notícia O Livro de Actos, ou ainda as recentes colónias de produção do Estado de Israel. O certo, porém, é que precisamos estabelecer os fundamentos sólidos e definidos do Espiritismo Dialéctico, aplicando-o, no plano sociológico ou histórico, rumo à sociedade futura.

   Ele mostrará, com base na experiência secular e no estudo objectivo da natureza humana, do homem psicológico, que não se pode construir um mundo social harmónico através da violência social, mas tão-somente do desenvolvimento do espírito colectivista de cooperação. E que a sociedade, como o homem – sem cairmos rigidamente no organicismo spenceriano –, tem as suas fases evolutivas bem definidas, que não poderemos deixar de considerar, pois Engels já nos ensinou que não desprezaríamos impunemente a dialéctica.

   Assim, se aquilo que o homem só podia resolver pelo emprego da força bruta, no seu estado primitivo, consegue fazê-lo pelo raciocínio e pela técnica, no estado de civilização, também a humanidade, superada a fase primitiva da sua elaboração social, pode caminhar, sem o uso da violência brutal e instintiva, para a revolução colectivista. Isso não quer dizer que a luta não se processe, que tenha sido interrompida no seu organismo, e que tenhamos de esperar o advento espontâneo da nova forma social, mas apenas que a luta se desenvolve de maneira diversa, em plano mais alto, como bem o definiu Ubaldi.

   Aproveitemos, pois, a oportunidade que Humberto Mariotti nos oferece, com a sua “interpretação espiritual da dialéctica”, para meditarmos sobre esses assuntos e buscarmos a forma que nos falta de oferecer ao mundo a solução espiritual do problema social. De fazermos, enfim, que o Espiritismo cumpra a sua missão histórica, vencendo a crise que o reduz, no momento, a uma luz bruxuleante no meio de densas trevas, a uma espécie de simples refúgio individual para as decepções e para as aflições humanas. Pois o seu destino, como assinalou sir Oliver Lodge, não é apenas o de consolar corações desalentados, mas o de rasgar para o mundo as perspectivas de uma nova era. Se a fé dogmática determinou o fanatismo religioso da Idade Média, com as suas fogueiras sinistras, a fé raciocinada criará o positivismo religioso do terceiro milénio, com as piras da fraternidade acesas em todos os quadrantes do planeta. Porque, como já o dissera Kardec, a tarefa do Espiritismo é a de elevar a Terra na escala dos mundos, transferindo-a da categoria expiatória para a de Mundo Regenerador.

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José Herculano Pires, Espiritismo Dialéctico  Por uma consciência humanista – Elevar a Terra na escala dos mundos, 15º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Vi o caçador levantar o arco-íris, pintura em acrílico de Costa Brites)

segunda-feira, 25 de maio de 2015

O Espiritismo na Arte ~


Décima e última lição de O Esteta

– As sensações artísticas e os espíritos elevados
– Acção do foco divino
– Arte, meio de sentir a grandeza de Deus

 |17 de Fevereiro de 1922|

“O tema final das nossas conversas torna-se mais e mais delicado e os elementos que encontro no médium são de tal modo restritos que devo vos pedir que me desculpem a pobreza das expressões empregadas. Iremos quase entrar e planar no domínio divino.

Hoje, eu queria poder entreabrir uma janela sobre esse azul celeste, que é o centro de todas as radiações e resume, para vós, todas as virtudes, todas as potências intelectuais e morais.

Comprovaste, nas vossas vidas humanas, que cada ser possui, em grau diverso, quer por intuição, quer como resultado de sua vontade, qualidades que ele adquiriu na Terra, em vidas anteriores ou por aspiração em direcção às esferas fluídicas divinas.

Atrevo-me a vos dizer que o Ser divino é um centro radiante, composto de todas as coisas e realizando cada coisa.

A vossa imaginação terrestre não pode compreender isso. Aliás, não é necessário, visto que, no vosso plano, não tens a obrigação de vos colocar mais alto do que a evolução vos permite. Porém, do espaço, temos uma sensação mais forte de que existe uma esfera, um campo de acção no qual as ondas fluídicas impressionam e fazem vibrar, no nosso plano, os seres espirituais e, no vosso plano, os seres corporais, e que representa o poder, a beleza, a harmonia do divino. Essa harmonia é a própria essência da arte; é ela que, empregada na medida certa, faz vibrar o cérebro dos génios e põe em acção as inteligências em fase de evolução, por um trabalho e uma vontade firme e racional. Essas esferas abrem a entrada do campo divino. Nós podemos representá-lo melhor que vós, no entanto ainda não podemos fundir-nos nele.

Eu queria abrir inteiramente a janela para vos comunicar o pensamento divino, para vos dizer de que forma e por qual irradiação fluídica integral a obra criadora prossegue, porém, não está ao meu alcance abrir completamente a porta para esse azul criador. Portanto, é apenas por uma pequena abertura que posso comunicar aos vossos cérebros e aos vossos corações o que eu mesmo sei.

O foco divino, então, está em acção constante e regular, criando o movimento universal. É por meio dele que as criaturas nascem, vivem e se transformam, segundo a pureza dos elementos físicos empregados. A irradiação divina se faz sentir mais ou menos intensamente sobre as moléculas que aprisionam o seu espírito.

O corpo humano é mais ou é menos perfeito. Há uma questão de atavismo, uma questão de atracção espiritual nos meios mais puros ou menos puros que os ditos corpos atravessam. As criações provindas do campo divino são de uma elevação grandiosa. À medida que nos aproximamos dele, compreende-se melhor o funcionamento desse grande organismo que é o Universo.

É um facto indubitável que, quando o conjunto de rodas de uma máquina não se move continuamente, elas chegam a se cobrir de uma ferrugem que impede os seus eixos de funcionarem regularmente. A ferrugem se traduz entre os seres organizados por uma influência dos caprichos e das esquisitices inerentes aos meios inferiores e, quando há excessos, pela influência das imperfeições e dos vícios.

É assim que se degenera o bem, mas ele pode reviver ao contacto das fontes puras, assim como alguém que trabalhe em mecânica de precisão pode recolocar sobre os seus eixos um instrumento que não funcionava mais.

Por uma vontade sempre firme, por um apelo directo, aspirai, portanto, às irradiações vivificantes, assim podereis vos manter em relação com os feixes fluídicos que emanam do campo divino e que vivificarão, pela sua acção, as partes do vosso ser contaminadas pela ferrugem dos defeitos e dos vícios. É por essas relações, quase constantes, com esses feixes fluídicos, que o ser, num mundo ou no espaço, conserva aptidões, meios de elevação, intuições que formam o sentido genérico da palavra arte.

É por isso que cada ser deve ter cuidado com o seu progresso e conservar em si mesmo esse pólo atractivo que, se traduzindo virtualmente por capacidades correspondentes aos seus desejos, será mais, ou menos, apaixonado pela arte. Esta palavra, arte, quase mágica, significa: irradiação emanando de um campo supracósmico; essa irradiação mantém no nosso mundo a luz, a grandeza, o poder, a beleza, a bondade, que emanam do foco que forma o centro do campo fluídico divino.

Eu falei, numa conversa anterior, desse ponto mais sensível do organismo humano que se chama coração. É do coração que parte a vibração que, espalhando-se em todo o vosso ser, lhe fornece os meios de exteriorizar pensamentos nobres e elevados. Porém, analisai bem essa vibração, reflecti e compreendereis que quando um sentimento generoso faz vibrar o vosso coração, é porque ele recebeu no mesmo instante, por uma onda emanada do divino, o impulso de um nobre e generoso sentimento.

É graças a uma evolução racional em planos diferentes, em mundos diversos, que os seres se depuram gradualmente. O que se faz em torno de vós far-se-á muito mais em torno dos seres, dos mundos, das esferas.

Para concluir as nossas palavras, a arte é, para o ser humano, o chamado do campo divino. Quanto mais um ser, por sua vontade e pelos seus actos, se aproxima de Deus, mais ele está apto a sentir os eflúvios e as vibrações divinas. Segundo a sua evolução, essas vibrações se traduzirão pela criação de virtudes, com a palavra virtude sendo tomada num sentido bastante geral. Na minha consciência ela significa tudo o que é digno de ser amado. A arte, portanto, é um dos meios de se sentir a grandeza de Deus. Devemos agradecer ao Criador por nos deixar sempre em relação com ele, e temos que nos tornar cada vez mais dignos disso. É preciso venerar e amar a arte, porquanto, através da imensidão do espaço, ela é a mensageira da imortal irradiação e do movimento divino universal.

Guardemos no mais profundo do nosso ser esse ponto sensível, que é para nós um dos pólos de comunicação com o nosso Criador. Quer estejamos munidos de um corpo carnal ou de um invólucro espiritual, a irradiação divina sempre chega até nós, quando não deixamos na inacção, por uma inércia repreensível, essa máquina que deve servir de transmissão aos fluidos e às ondas divinas. O ser evoluído tem a alegria de ajudar no aperfeiçoamento e na preservação de seres mais materiais.

A arte, mensageira do divino, é a chama que jamais se deve apagar, ela deve fazer-nos compreender que a beleza e a glória de Deus são infinitas. Pode haver arte mesmo nas mais pequenas acções se, adaptando-se ao meio onde age, a irradiação divina que se exterioriza espalha à sua volta uma chuva de ondas benéficas.

Como há evolução nos seres, há evolução nas artes. Vós tendes as premissas nas artes, assim como nas acções e nas virtudes, porém, a centelha brilha sempre nas condições em que ela se pode manifestar para confirmar a grandeza de Deus.”

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LÉON DENIS, O Espiritismo na Arte, Parte V  Décima e última lição de O Esteta – As sensações artísticas e os espíritos elevados – Acção do foco divino – Arte, meio de sentir a grandeza de Deus (4 de 4) 23º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Mona Lisa 1503-1507 – Louvre, pintura de Leonardo da Vinci)

terça-feira, 12 de maio de 2015

Da sombra do dogma à luz da razão ~


Natureza da Revelação Espírita (IX)

A Terceira Revelação ~

  A primeira revelação estava personificada em Moisés, a segunda em Cristo e a terceira não o está em nenhum indivíduo. As duas primeiras são individuais, a terceira é colectiva; reside nisso uma característica essencial de grande importância. É que ninguém, por consequência, se pode afirmar seu profeta exclusivo. Foi feita simultaneamente em toda a Terra, a milhões de pessoas, de todas as idades e de todas as condições, desde o mais baixo ao mais elevado da escala, consoante a profecia relatada pelo autor dos Actos dos Apóstolos: «E nos últimos dias acontecerá, diz Deus, que do meu Espírito derramarei sobre toda a carne; e os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos mancebos terão visões e os vossos velhos sonharão sonhos; / E também do meu Espírito derramarei sobre o meu servo e minhas servas, naqueles dias, e profetizarão.» (Actos dos Apóstolos, 2: 17, 18.) Não saiu de nenhum culto especial para servir um dia de ponto de encontro a todos(*)

(*) O nosso papel pessoal no grande movimento das ideias que se prepara através do Espiritismo e que começa a acontecer, é o de observador atento que estuda os factos para daí retirar as consequências. Confrontámos todos os que nos foi possível reunir; comparámos e comentámos as instruções dadas pelos Espíritos em todos os pontos do globo; depois, coordenámos tudo metodicamente; numa palavra, estudámos e demos a saber ao público o fruto das nossas investigações sem atribuir ao nosso trabalho outro valor que o de uma obra filosófica deduzida da observação e da experiência, sem nunca nos termos dado ares de chefe de doutrina, nem ter querido impor as nossas ideias a ninguém. Ao publicá-las, usámos de um direito comum e os que as aceitaram fizeram-no livremente. Se estas ideias encontraram numerosas simpatias, é por terem tido a vantagem de corresponder às aspirações de um grande número, com o que não nos podemos envaidecer, pois a sua origem não nos pertence. O nosso maior mérito é o da perseverança e devoção à causa que abraçamos. Em tudo isto fizemos o que outros podiam ter feito; é por isso que nunca tivemos a pretensão de nos julgarmos profetas ou messias e ainda menos apresentarmo-nos por tal. (N. do A.)

  Sendo as duas primeiras revelações produto de um ensinamento pessoal, foram forçosamente localizadas. Isso quer dizer que tiveram lugar num só ponto, à volta do qual a ideia se foi expandindo de uns para os outros; mas foram precisos muitos séculos para que atingissem os extremos do mundo, mesmo sem o invadirem por completo. A terceira tem isso de particular; não sendo personificada num indivíduo, produziu-se simultaneamente em milhares de pontos diferentes e todos se tornaram centros ou focos de irradiaçãoAo multiplicarem-se estes centros, a sua radiação une-se a pouco e pouco, como os círculos formados por uma quantidade de pedras atiradas à água; de tal maneira que, em determinada altura, acabarão por cobrir a superfície total do globo.

  É esta uma das causas da rápida propagação da doutrina. Se tivesse surgido num só ponto, se tivesse sido obra exclusiva de um homem, teria formado uma seita à sua volta; mas meio século teria talvez decorrido antes de ter atingido os limites do país onde tivesse nascido, enquanto que assim, dez anos depois, tem rebentos implantados de um pólo ao outro. 

  Esta circunstância, espantosa na história das doutrinas, confere a esta uma força excepcional e uma força de acção irresistível; com efeito, se a comprimirmos num ponto, num país, é materialmente impossível comprimi-la em todos os pontos, em todos os países. Por cada sítio onde seja reprimida, haverá mil ao lado onde florescerá. Ainda mais, se a extinguirmos num indivíduo, não podemos extingui-la nos Espíritos, que são dela a fonte. Ora, como os Espíritos estão em todo o lado e porque sempre existirão, se, por impossível, se conseguisse abafá-la em todo o globo, ela reapareceria algum tempo depois, porque assenta sobre um factofacto esse que está na natureza, e não podemos suprimir as leis da natureza. É disto que se devem então convencer os que sonharam com a aniquilação do Espiritismo. (Revista Espírita, Fevereiro de 1865, p. 38: Perpetuidade do Espiritismo.)

  No entanto, estes centros disseminados deveriam permanecer ainda algum tempo isolados uns dos outros, confinados como alguns estão a países longínquos. Era necessário entre eles um traço de união que os colocasse em comunhão de pensamento com os seus irmãos de doutrina, ensinando-lhes o que se fazia noutros lugares. Este traço de união, que terá faltado ao Espiritismo na antiguidade, encontra-se nas publicações que chegam a todo o lado, que condensam numa forma única, concisa e metódica, os ensinamentos dados em todos os sítios sob múltiplas formas e em línguas diversas.

/…


ALLAN KARDEC, A GÉNESE – Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo, Capítulo I NATUREZA DA REVELAÇÃO ESPÍRITA números de 45 a 48 (IX), 11º fragmento da obra. Tradução portuguesa de Maria Manuel Tinoco, Editores Livros de Vida.
(imagem de contextualização: Diógenes e os pássaros de pedra, pintura em acrílico de Costa Brites)

domingo, 3 de maio de 2015

Inquietações Primaveris ~


Dialéctica | da Consciência

Deus não morreu, mas morreu o Papa. Os teólogos agoureiros da Morte de Deus também vão morrer, um a um, cada qual com a sua morte individual e intransferível. Paulo VI passou silencioso pelo tumulto do mundo. Fiel à sistemática da Igreja, não inventou reformas nem tentou cercar as reformas audaciosas de João XXIII. Ante a insubordinação do Cardeal Lefevre, que ordenou exércitos de novos padres para lutar contra ele, não se atemorizou nem promoveu represálias sagradas. Acusado brutalmente de pecados horríveis quando cardeal de Milão, limitou-se a lamentar o caluniador. Dava a impressão de um Júpiter envelhecido, que não dispunha mais de forças para desfechar os raios da ira mitológica sobre os atrevidos. Dedicou-se à semeadura da paz entre os homens, ofereceu-se como refém nos casos de sequestro e, ao invés de ameaçar os incrédulos com o espantalho do Diabo, chegou a prestar a mais espantosa homenagem ao Anjo Rebelado, afirmando: “Quem não acredita no Diabo não é cristão”. Ultimamente passou a falar na sua morte próxima, como se preparasse o mundo para aceitá-la como ele a aceitava. Se não conseguiu pacificar os homens, pelo menos manteve a paz da Igreja, desapontando os arruaceiros que tudo faziam para merecer uma maldição. Fez jus ao título de Sua Santidade, que tantos dos seus antecessores ostentaram sem dar mostras de merecimento.

A impressão que se tem, agora que o seu cadáver está diante do mundo com um apelo silencioso à concórdia e ao amor, é a de que ele foi o último Papa. O Colégio Cardinalício que deve eleger o novo Papa está com dificuldades. (i) Se o Espírito Santo não pousar docemente na cabeça veneranda de um dos candidatos à sua sucessão, não se sabe como os votantes farão a escolha. A Barca de Pedro está balançando indecisa sobre as águas, como a Arca do Dilúvio. Talvez tenha chegado o momento da Igreja, que há muito luta em vão para sair dos recifes teológicos em que encalhou depois da última conflagração mundial.

A consciência não é, como Sartre supôs, um vazio que se enche com dados do mundo. Pelo contrário, a consciência é a garra psíquica do homem, com a qual ele se apodera do mundo para transformá-lo, subjugando-o e adaptando-o às exigências humanas. Desde a selva esse diálogo se desenvolve através das civilizações. Os dados da consciência antecedem o mundo, provêm das regiões arquetípicas do inconsciente humano, onde se desenvolvem as estranhas florações dos anseios de perfeição, justiça e beleza, que deixaram as suas marcas por toda a parte, desde as inscrições e os desenhos rudes das cavernas até às obras-primas da escultura grega, das lendas e das canções do Folclore mais remoto até à pintura italiana e às sinfonias de Beethoven. O vazio que deve ser cheio é o do mundo, pelos dados subjectivos da consciência. O mundo é criado por Deus no mistério infinitesimal da mónada, essa ideia platónica que encerra em si toda a realidade futura, como, na teologia hebraica, a alma de Arão já continha em si todas as almas futuras. O mundo vazio, sem a presença humana, é apenas a matéria-prima de que a consciência do homem irá servir-se mais tarde para se desenvolver. A criança que nasce desprovida até mesmo das garras, instrumentos defensivos dos animais, traz em si mesma as potencialidades humanas da Humanidade em perspectiva. A semente necessita da Terra para germinar e desenvolver-se, a mónada necessita da carne e das suas formas para actualizar a sua espantosa potencialidade humana e divina. As forças naturais preparam, por milénios incalculáveis, com os elementos dos reinos inferiores, o material flexível e vibrátil que a consciência modelará no tempo, imprimindo-lhe lentamente os moldes secretos dos seus anseios.

As Filosofias incipientes apegam-se aos efeitos sensíveis dos processos e esquecem as suas causas. A leviandade humana, essa herança no homem da irresponsabilidade animal, leva os pensadores e os cientistas à formulação de hipóteses e teses absurdas sobre uma realidade que não conhecem. Proliferam as sabedorias vazias, os doutores pontificam nas cátedras e nos púlpitos fazendo afirmações temerárias que só servem para aumentar a insegurança e a angústia do homem nas sociedades formalizadas. Não obstante essa gratuidade aparente, a consciência fermenta as inquietações e aguça a curiosidade, liberando os vectores do espírito no plano das realizações superiores. Até mesmo as pompas assombrosas da morte contribuem para desencadear no homem as suas aspirações de uma visão mais segura e precisa da realidade a que foi lançado como um náufrago na praia de um país estranho. Nas civilizações mais adiantadas a pressão dos formalismos sócio-culturais esmaga as criaturas. Rousseau rompeu as muralhas da Genebra formalista ao tentar a aventura da liberdade humana. Voltaire armou-se da ironia para derrubar as instituições mentirosas. A consciência se definiu como ameaça perigosa nos burgos e nos castelos, inflamando nos homens o amor sacrificial pela castelã desconhecida a que nos pósteros chamariam de Liberdade. Sem essa dama solitária e temida o mundo jamais escaparia da barbárie.

A Dialéctica da Consciência se constitui da tese da realidade imediata em confronto, estática e poderosa na sua estruturação social, com a antítese da utopia, que lança Dom Quixote contra os moinhos de vento nas charnecas da Mancha. Sancho é o contrapeso que abrandará os seus excessos na busca de Dulcinéia. O desafio da Terra leva os homens aos sonhos e aos delírios. E apesar de todas as Condenações da sociedade acomodada e estática, o Quixote avança impávido, transfigurado pelo amor, na conquista do seu ideal. Ainda hoje os homens se matam, galopando em seus rocinantes de aço, contra todos os poderes da sociedade real, armada de explosivos atómicos, para salvar a castelã oprimida no castelo. Os interesses bastardos parecem haver asfixiado todas as esperanças humanas. Mas os anseios da consciência, que brotam das profundezas da alma humana, não cessam de sacudir e minar as estruturas do presente com os sonhos do futuro. Nada detém nem pode deter as forças secretas da consciência, vectores imponderáveis que transfiguram a realidade material do mundo.

O apego humano à realidade concreta decorre naturalmente do condicionamento animal da espécie, que por sua vez provém da unidade do Cosmos, da totalidade do real, que só se fragmenta na percepção sensorial. As pesquisas astronáuticas confirmaram essa unidade já percebida pelos gregos e confirmada rigorosamente pelo desenvolvimento actual da Física, da Biologia e da Psicologia. Os especuladores filosóficos do pluralismo se perdem nas discussões bizantinas sobre uma realidade caótica jamais comprovada. A multiplicidade que visualizam à distância na infinitude cósmica ou na variedade microscópica se resolve naturalmente na compreensão da natureza orgânica da realidade una. Quando passamos do politeísmo ao monismo o fazemos pelo simples motivo de havermos superado a ilusão sensorial da multiplicidade. Kardec resolveu esse problema através do encadeamento natural das coisas e dos seres, com este princípio gestáltico: “Tudo se encadeia no Universo”. Esse encadeamento é o próprio fundamento da Ordem Universal, sem a qual não haveria lógica na realidade e o conhecimento e a Ciência se tornariam impossíveis. Cassirer lembra que a fé na ordem universal equivale, na Ciência, à fé religiosa no Deus Único. Ambas não podem ser provadas por nenhuma pesquisa, mas se impõem a nós por necessidade lógica. Actualmente, com o acelerado desenvolvimento das pesquisas parapsicológicas, não há como negar a superação do sensório psicofisiológico pela percepção extra-sensorial da mente, que penetra em todas as dimensões do real comprovando e justificando as espantosas intuições dos gregos na Antiguidade.

A concepção monista do Universo corresponde à concepção monoteísta. Deus é uno porque é Consciência Cósmica, não em figura humana, mas num dinamismo consciencial abrangente, que tudo envolve, de maneira que ao mesmo tempo supera a realidade universal e nela se entranha. Por isso, como queria Flammarion, Deus está na Natureza e é a Natureza. Não obstante, o facto de ser natureza não obriga Deus à materialidade. A diferença entre Deus e a Natureza é qualitativa, a sua qualidade consciencial o distingue da qualidade material da Natureza. Espinosa colocou bem esse problema na sua teoria da Natura Naturata e da Natura Naturans, correspondentes aos princípios platónicos de sensível e inteligível. Mas isso não implica uma divisão da Natureza de Deus, que é una. Como em Platão, a Natureza Ideal de Deus reflecte-se no Universo como projecção criadora. Isso nos leva à teoria do elã criador em Bergson, esse impulso vital que penetra nas entranhas da matéria para produzir a vida. E nos leva também à teoria estética de Hegel, em que o Belo se infiltra e se desenvolve na criação artística, desde as formas primitivas e monstruosas da arte até ao equilíbrio harmonioso da arte clássica.

É evidente a relação de todos esses pensamentos com o problema da morte, em que a vida anima os corpos materiais e os leva a toda a perfectibilidade possível, como queria Kant, para depois reverter os elementos vitais, com a morte, a novas experiências criadoras. Sobre as teorias de Platão e Aristóteles, Tomás de Aquino e Santo Agostinho forjaram as bases da Teologia Cristã, amesquinhando o pensamento grego e desfigurando os princípios do Cristo na retorta dos dogmas sincréticos tirados de modelos pagãos. Dessas tentativas atrevidas surgiram as Religiões do Medo e da Morte, que levaram a Civilização Terrena à aberração do materialismo.

O estudo de um tema como o da educação para a morte exige incursões difíceis no pensamento antigo, moderno e contemporâneo, para o estabelecimento das conexões orientadoras. Não se pode entrar no labirinto sem o fio de Ariadne nas mãos, pois o Minotauro pode estar à nossa espera. Numa fase de transição cultural como a deste século o problema da morte exige de todos nós um esforço mental muitas vezes atordoante. Mas temos de fazer esse esforço, para que a vida não fracasse em nós. A vida nunca fracassa em si mesma, pois o elã vital nunca se enfraquece, mas pode fracassar em nós. Os que se apegam à sua vida, como ensinou o Cristo, a perderão, mas os que a perdem por amor d’Ele a reencontrarão em abundância. Quem impede o fluxo da vida suicida-se na barreira do seu egoísmo e volta ao círculo vicioso das reencarnações repetitivas. Esse é o castigo que o espírito preguiçoso se impõe a si mesmo.

/…
(i) No momento em que o Autor escrevia este capítulo, não havia sido eleito o substituto de Paulo VI. (N.E.)



José Herculano Pires – Educação para a Morte, Dialéctica da Consciência, 19º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: O caranguejo, pintura de William-Adolphe Bouguereau)

sexta-feira, 24 de abril de 2015

O Mundo Invisível e a Guerra ~


IX
O Espiritismo e as Religiões

|Março de 1917|

   A ideia de Deus, na nossa pátria obscurecida e alterada pelas religiões, apagou-se em muitas almas.

   Já há muito tempo que se formara na França uma corrente de incredulidade que tem minado, secretamente, os alicerces da religião e até de toda a ordem social.

   As horas trágicas chegaram e, sob uma devastadora tempestade de ferro e de fogo, a França conheceu a necessidade de um ideal nobre e de uma força moral que torne possível olhar a morte frente a frente, suportando, sem vacilações, todos os golpes da adversidade. A proximidade do perigo impôs, mesmo para os mais frívolos, uma gravidade concentrada e muitos pensamentos se voltaram para o Além.

   Tudo isso parecia ser outro tanto dos indícios de renovação espiritual. Do fundo do abismo de sofrimentos em que caímos, um grito de súplica se eleva para o céu; aspirações ascendem a formas religiosas mais altas e mais puras, proporcionando ao homem meios eficientes, capazes de desenvolver nele o que existe de imortal e divino.

   As ideia do passado poderão influir para essa recuperação, porém, já o afirmamos, na nova ciência, enaltecida e espiritualizada, é que se encontrará a religião do futuro, os princípios das sua crença e os elementos de convicção, porque a religião e a ciência não são antagónicas, excepto quando as consideramos nos seus aspectos inferiores. Elas se identificam e se fundem na sua directriz fundamental, no seu objectivo maior, que são o conhecimento do Universo e a comunhão íntima com a causa de todas as coisas: Deus!

   Talvez, na sua evolução, a religião enfraqueça no seu carácter colectivo, mas se fortalecerá em cada um de nós pelo desenvolvimento do conhecimento e da consciência individuais.

   É importante dirigirmos um olhar de conjunto para o Universo, para nos encontrarmos na presença de leis majestosas, que dominam os seres e as coisas sob a acção de um soberano poder. Ora, não existe lei alguma sem uma mente que a crie e sem uma vontade que zele pelo seu cumprimento.

   Nas silenciosas vastidões do abismo da vida onde gravitam os mundos uma Inteligência preside à ascensão das almas e à eterna harmonia do cosmo. (i)

   As anomalias e as contradições que muitos crêem descobrir no estudo do Universo nascem simplesmente da pobreza de suas observações. Os nossos grosseiros sentidos, mesmo ajudados pelos instrumentos que a tecnologia nos oferece, não nos podem dar senão uma pálida ideia do conjunto das coisas.

   A nossa ignorância sobre o mundo invisível mais ajuda a enfraquecer os nossos julgamentos e somente a revelação dos espíritos vem, oportunamente, preencher as principais lacunas do nosso entendimento, mostrando-nos, por exemplo, que as leis morais e as leis físicas se inter-relacionam e se fundem num todo harmónico, o mesmo ocorrendo com a ideia de Deus que se aperfeiçoa e se engrandece.

   Para o espírito que abandona as formas materiais e os limites dos cultos, Deus já não é um ser antropomórfico, isto é, o homem divinizado de que nos falam os livros sagrados e as crenças de idades antigas.

   Não! Deus é pura essência, é um princípio e uma meta, uma causa e um fim.

   Os espíritos bastante evoluídos para o poderem contemplar (e, neste caso, só conheço um), descrevem-no como um imenso foco de luz, cujo brilho e esplendor quase não se pode suportar e de onde partem as vibrações poderosas que animam o Universo inteiro. 

   Dele resulta uma impressão majestosa, mesclada por eflúvios de amor que penetram e comovem a quantos se aproximem dele.

   Com as asas do pensamento e da oração, no recolhimento dos sentidos, qualquer alma pode comunicar-se com esse foco eterno e sentir as suas irradiações. Todos os impulsos do pensamento religioso se permutam em contemplação e em êxtase, quando chegam a tais alturas.

   Realmente, no seu começo e no seu nobre fim, todas as crenças estão irmanadas e convergem para um único ponto.

   Assim como a fonte límpida e o regato murmurante, vão, finalmente, reunir-se no mar imenso, também o Bramanismo, o Budismo, o Cristianismo, o Judaísmo, o Islamismo e os seus derivados, nas suas mais nobres e puras formas, poderiam fundir-se numa vasta síntese e as suas orações, unindo-se às harmonias do mundo, se transformariam em um hino universal de adoração e de amor!

   Inspirado nesse sentimento de ecletismo espiritualista, muitas vezes me aconteceu juntar-me às orações de irmãos de outras religiões, sem me agarrar às fórmulas usadas em semelhantes meios, podendo orar com fervor, tanto nas grandes catedrais góticas, como nos templos protestantes, nas sinagogas ou mesmo nas mesquitas.

   No entanto, a minha oração consegue maior impulso e ardor à beira do mar, quando o embala o ritmo das ondas, assim como nos altos cumes, ante o panorama das planícies e dos montes, ou sob o domo imponente das florestas ou, à noite, sob a abóbada estrelada do firmamento, porque a natureza é o único templo verdadeiramente digno do Eterno.

   A necessidade, existente em cada um de nós, de criar um meio interior onde a alma possa encontrar refúgio contra as preocupações exteriores, contra os cuidados materiais, fortalecendo-se e voltando a tomar contacto com a pura essência de onde ela provém, é uma das condições indispensáveis da vida moral.

   No momento em que a idade e as doenças me privam dos grandes espectáculos da natureza, construí, por minha vontade, um templo interior onde o meu pensamento se alegra em ficar, nos momentos de calma e de isolamento, para render culto aos nobres espíritos cujo génio revelador aclarou, com a sua luz, os caminhos da humanidade.

   Nesse templo interior, por um esforço de imaginação, erigi as estátuas ideais, as imagens augustas dos messias, dos profetas e dos filósofos mais merecedores de respeito e admiração.

   No meio do santuário brilha o símbolo sagrado da Divindade, a quem, em primeiro lugar, as minhas adorações se dirigem. À sua direita, me aparece a grande figura do Cristo, meu venerável mestre, e à esquerda os mestres asiáticos: Krishna, Buda, Lao-Tse e Zoroastro, aos quais sucedem as estátuas dos filósofos gregos, desde Pitágoras a Platão. Diante deles me alegro, recitando os maravilhosos versos da sabedoria antiga.

   Por detrás do Cristo aparecem os mais autorizados representantes da doutrina cristã e, junto deles, repito para mim próprio o Sermão da Montanha, que é o resumo e a essência do próprio Cristianismo: “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados”, assim como os conceitos evangélicos reconhecidos como autênticos. Muito longe fiquei de me esquecer do grupo dos druidas e dos bardos. À frente deles se ergue a alta silhueta, a imponente figura de Taliesin e diante dele recito, com muita alegria, As Tríades, que são um maravilhoso monumento das tradições celtas, cuja ciência se iguala à profunda sabedoria do Oriente.

   Por último, depois, vem Allan Kardec, a quem considero o continuador e o renovador das grandes tradições de nossa raça.

   Peço ao leitor que me desculpe, prendendo-o com coisas tão pessoais, porém só lhe quis dar um exemplo de que pode conseguir ensinamentos úteis e inspirações salutares. Realmente, nas minhas visitas costumeiras a esses grandes espíritos, nos exercícios que a recordação deles provoca, isto é, no facto de recitar trechos de suas mais célebres obras, sempre encontrei a serenidade e o reconforto para o espírito.

   Não vejam, na diversidade das suas concepções, qualquer contradição, porque debaixo das suas formas variadas, em cada uma delas encontramos o mesmo impulso, a mesma aspiração para o bem e para a suprema beleza, que são outros tantos atributos de Deus, uma irradiação divina.

   De todo o conjunto se desprende uma síntese magnífica que resume o pensamento de todo um mundo no que ele possui de mais nobre e puro; síntese que narra, precisa e fecunda, o moderno espiritualismo, numa comunhão universal que um dia ligará todas as consciências e todos os corações.

   Lançando um olhar panorâmico sobre a história dos tempos modernos, parece que uma das missões da França é criar correntes de ideias para o mundo.

   Após dezoito séculos da vinda do Cristo, a França despertou a noção de fraternidade que dormitava no fundo das almas. Nenhuma outra nação trabalhou mais ardentemente para libertar o pensamento dos grilhões seculares e assegurar os direitos da consciência. Ela comunicou a chama de seu génio a várias teorias humanitárias e sociais.

   Na actual luta, o papel da França cresceu mais ainda, porque arrisca a sua liberdade e a sua própria existência para salvar a Europa da sua volta à barbárie. Assim obteve a simpatia e a admiração dos neutros, e até mesmo a consideração dos seus inimigos. Antes da guerra, acreditavam e afirmavam que se encontrava em franca decomposição, porém ela se sublimou, com um verdadeiro holocausto.

   Assim que acabar o sangrento drama a que assistimos, outra missão caberá à nossa pátria e essa concórdia, que une todos os seus filhos na hora do perigo, será mantida e garantida por outros meios, isto é, por novos processos de ensino e educação.

   A França deve ensinar ao mundo as regras da religião do futuro, dessa religião ampla e tolerante que terá por base a ciência dos factos e por coroamento as mais altas e mais puras aspirações do ideal espiritualista.

   Nessa religião, a fé e a ciência encontrarão um campo comum, uma possibilidade de comunhão de todos os espíritos e corações. Essa obra haverá de ser, entre todas, a mais preciosa para a humanidade, porque fará desaparecer a maior parte dos motivos de separação e de ódio, unindo os pensamentos e as vontades para esse “caminho real da alma”, do qual nos falou Platão, visando o fim elevado da alma, conforme a Doutrina dos Espíritos nos revela.

   Tal iniciativa garantiria que a França completasse a vitória das armas com uma vitória intelectual e moral mais bela e ainda mais frutífera. Dessa forma, o nosso país se elevaria à primeira classe das nações, merecendo o reconhecimento de todos os séculos futuros.

   Os tempos nunca foram mais favoráveis que agora para uma renovação religiosa, que excluiria qualquer espírito de sectarismo e de reacção. Da presente luta, assim esperamos, aparecerá uma nova sociedade, doutrinada pela provação, fortalecida pelo infortúnio e mais unida, disciplinada, consciente de seus deveres e responsabilidades.

   Parece que o progresso já se produz nos espíritos e que os homens compreenderam a natureza precária das coisas deste mundo, encarando com mais satisfação o problema dos destinos.

   Já faz três anos que a morte tem batido a tantas portas, tem visitado tantas casas que até os mais indiferentes a encararam, indagando a si mesmos, quem era esse misterioso hóspede e, pelas reflexões que a sua presença ditou, abriu-se nesses seres um caminho para o Infinito, para o Divino.

   No calor dos sofrimentos, a alma humana tornou-se mais apta a receber e compreender as verdades superiores e, de agora em diante, as futilidades e a sensualidade de outrora e as obras decadentes não poderiam mais satisfazê-la. Ela exige alimentos mais substanciais e mais fortes.

   Os estudos psíquicos, os testemunhos dos sábios com relação à sobrevivência da alma, lhe oferecerão condições mais sólidas para erguer um edifício mais digno dela e dos seus objectivos.

   A filosofia se aclarará com novas luzes, tiradas da doutrina de Allan Kardec. Em certas escolas já se compreende e se admite que a personalidade humana não se formou de um só golpe, porém lentamente e através dos séculos. A concepção apressada e insuficiente de uma única vida é trocada, paulatinamente, pela da evolução da alma através de existências sucessivas no infinito dos tempos.

   O nosso destino não é determinado por um favor particular ou pelo sacrifício de um salvador, mas por nós próprios. O ser consciente se constrói a si mesmo, tal como o escultor aperfeiçoa a sua estátua: a sua forma representativa só tem como valor a soma de seus esforços e cuidados. Ele se ilumina ou se obscurece conforme a natureza de seus pensamentos e de seus actos: a fonte das alegrias, das penas ou das recompensas reside nele, nas suas faculdades, nas suas percepções, aumentadas ou diminuídas.

   O destino não é senão o resultado das nossas obras boas ou más e recai sobre nós em forma de raios ou de chuva. Todo o sofrimento que se suporta com paciência é qual um golpe do cinzel do escultor que colabora para aperfeiçoar a sua obra.

   O resultado do nosso progresso é um desfrutar crescente de tudo que é grande, de tudo que é beleza, esplendor, luz e harmonia. É uma progressiva participação na vida universal, uma cooperação com a obra soberana, sob a forma de tarefas e missões que aumentam, gradualmente, de importância e extensão. Finalmente, é a plenitude da felicidade nas suas três formas importantes: virtude, génio e o amor...

   A nossa meta principal deve ser nos aproximarmos do foco supremo, deixando-nos penetrar pelas irradiações do pensamento divino, tornando cada vez mais estreita e mais profunda a comunhão com Deus, e, assim, atingirmos o conhecimento de todas as coisas, porque tudo se resume nele e vive nele.

   Tal é, na sua essência, o ensino que decorre da revelação dos grandes espíritos e que é bem conhecido dos que viveram na sua intimidade e deles receberam o pão da vida. Só participa desse ensino, por enquanto, um pequeno número de pessoas, mas ele deve ser estendido com profusão, para que as inteligências se aclarem, os caracteres se aperfeiçoem e as almas se elevem.

   Aí está por que, depois da guerra, os espíritas deverão divulgar essas verdades às mãos cheias, porque o terreno já estará admiravelmente bem preparado para a semeadura e eles não estarão sós no seu trabalho, porque a multidão imensa dos invisíveis os ampara e alenta.

   Sobre nós pairam, espiritualmente, os que deram a sua vida em sacrifício pela França e tombaram mortos na defesa da causa e do direito.

   Eles nos inspiram e nos exortam a não esquecermos do seu nobre exemplo e, por nossa vez, trabalharmos, de outras formas, para a salvação e fortalecimento da pátria.

   Eles se debruçam sobre os corações angustiados e as almas enlutadas, a fim de depositar nelas o bálsamo das consolações e das esperanças; asseguram-lhe que a sua afeição não se extinguiu e que a sua actividade não decresceu, mas que, pelo contrário, os seus sentimentos e a sua vida são mais intensos, mais reais e mais poderosos que os nossos.

   De toda a parte se levanta a voz dos espíritos para nos afirmar que sobre a atmosfera de ódio, vingança e pavor que pesa sobre o nosso infeliz planeta há um mundo superior onde reina a eterna justiça, onde os que lutaram e sofreram na Terra recolhem os frutos dos males que suportaram; um mundo no qual nos reuniremos algum dia para juntos comungarmos da paz serena e na divina harmonia!

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   Primeira Guerra Mundial 1914-1918.

   (i) Os nossos telescópios captaram mais de cem milhões de estrelas que, como sabemos, são outros tantos sóis, a maior parte dos quais superam o nosso em poder e brilho, arrastando, cada um deles, um maravilhoso cortejo de mundos.
Qual é a força que sustenta esses milhares de astros e planetas no vazio dos espaços, dirigindo a sua marcha interminável? É a mesma que regula o agrupamento dos átomos e as afinidades químicas, isto é, a lei da atracção. Pois bem, essa lei pertence ao domínio do invisível.



LÉON DENIS, O Mundo Invisível e a Guerra, IX O Espiritismo e as Religiões 2, Março de 1917 (2 de 2), 25º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Tanque de guerra britânico capturado pelos Alemães, durante a Primeira Guerra Mundial)