Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

terça-feira, 21 de agosto de 2012

O Mundo Invisível e a Guerra~


V
A Justiça Divina e a Actual Guerra

|14 de julho de 1915|

   Deus podia, do ponto de vista material, evitar a guerra, entretanto, do ponto de vista moral não podia fazê-lo, visto que uma de suas supremas leis exige que todos nós, individual ou colectivamente, soframos as consequências de nossos actos.

   Todas as nações empenhadas na presente guerra são culpadas, em diversos graus. A Alemanha levantou contra si as forças vingadoras, pelo seu orgulho insensato, o culto da força bruta, o desprezo ao direito, suas mentiras e seus crimes.

   O orgulho excessivo acarreta sempre a queda e o fracasso: foi a sorte de Napoleão e será a de Guilherme II. As responsabilidades deste último são tremendas, porque sua atitude não produz apenas hecatombes sem precedentes na História; ela poderia também retirar da Europa a coroa da civilização. Ele conseguiu iludir a opinião pública durante muito tempo, mas não enganará a justiça eterna.

   Já dissemos que, relativamente à França, a leviandade, a imprudência, o amor descontrolado dos prazeres deveriam atrair-lhe inevitavelmente duras provas. Assinalemos que foi um dia após um processo, onde a podridão nacional se destacava claramente, que a guerra explodiu.

   O que existia de pior entre nós não eram os nossos defeitos, porém um estado de consciência que não distinguia mais o bem do mal: é a pior das condições morais.

   Os laços de família estavam afrouxados de tal modo que um filho era considerado como uma carga, daí o despovoamento que, como consequência de nossos vícios, nos tornou fracos e diminuídos diante de um temível adversário; mas a alma francesa ainda conservava enormes recursos, podendo sair retemperada desse banho de sangue.

   Diante da divina justiça, não são apenas a Alemanha e a França as nações responsáveis por enormes dívidas, pois entre os males que destacamos há muitos que se estendem por toda a Europa.

   Encontramos por toda parte criaturas semelhantes àquelas que existem em torno de nós, cujas consciências desapareceram e fizeram do bem-estar o objecto exclusivo de suas existências, como, aliás, certos políticos e estadistas que pretenderam dirigir os destinos de nosso país.

   Deus permitiu que as calamidades tivessem um carácter geral, a fim de reagir contra essas doenças da consciência e esse baixo materialismo. Caso fossem apenas parciais, muitos teriam assistido com indiferença aos sofrimentos dos outros.

   Para tirar as almas da letargia moral e do profundo mergulho na matéria era preciso que esse raio abalasse a sociedade até em seus alicerces.

   Já será suficiente a terrível lição que nos foi reservada? Se resultar inútil, se as causas morais da decadência e dos fracassos continuarem em nós, então seus efeitos continuariam se produzindo, reaparecendo a guerra com seu cortejo de males.

   É necessário, pois, que a vida nacional recomece em bases morais e que, terminando a tormenta, a alma humana aprenda a se desfazer dos bens materiais, compreendendo seu desvalor. Sem isso foram estéreis todos os sofrimentos e nossa bela juventude foi ceifada sem benefícios para a França.
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LÉON DENIS, O Mundo Invisível e a Guerra, V – A Justiça Divina e a Actual Guerra, 2 de 4 15º fragmento da obra.
(imagem: Tanque de guerra britânico capturado pelos Alemães, durante a Primeira Guerra Mundial)

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

pensamento crítico ~


Nem um passo à frente

   Quando Engels escreveu o seu artigo contra o método empírico-indutivo de Bacon, ou melhor,


confundindo esse método com:

“o êxtase e a vidência, importados da América”, de que se fazia vítima o empirismo inglês, na pessoa do “eminentíssimo zoologista e botânico Alfred Russel Wallace”, o homem que, simultaneamente com Darwin, apresentou a teoria da evolução das espécies pela selecção natural, o materialismo dialéctico era uma conquista recente, um equívoco em forma de desenvolvimento, e não nos caberia censurá-lo por essa digna atitude de combate. 

Engels não poderia entender de outra maneira o “desencaminhamento” de Wallace. Vê-se, não obstante, desse mesmo artigo, que Engels não ficaria no terreno da teoria. Embora mal, com a imperícia de quem jamais se interessara pelo assunto, procurou justificar as suas afirmações, através da observação e da experimentação.

   O artigo de Engels foi publicado pela primeira vez em 1898. Devia ter sido escrito, segundo encontramos na edição brasileira da Dialética, em 1878. Engels criticava também os trabalhos de Crookes, Aksakof e Zöllner. É uma crítica violenta e irreverente, em que ele chega a considerar o Espiritismo “a mais estéril de todas as superstições”. 

Como se vê, a afirmação não era dialéctica, mas empírica, inteiramente gratuita, e o longo roteiro das experiências espíritas e metapsíquicas aí está para desmenti-la. 

Mas tinha a sua razão de ser. Podemos dizer, com Hegel, que o Zeitgeist, o espírito da época, a justificava. 

O que espanta, entretanto, é que ainda hoje, quase um século depois, o artigo de Engels seja a única pauta dos que, como o professor Silva Mello, desejam eliminar do mundo em que vivemos, por incómoda, a realidade dos fenómenos espíritas, sem seguir sequer o exemplo de Engels no tocante à experimentação própria.
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José Herculano Pires, Espiritismo Dialéctico – Nem um passo à frente, 5º fragmento da obra.
(imagem: Diógenes, pormenor d'A escola de Atenas de Rafael Sanzio, 1509)

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

a pedra e o joio~


O espírito como objecto

   Kardec transformou o espírito, entidade metafísica, em objecto específico da pesquisa científica. 

Nem mesmo a reacção kantiana, nos séculos XVIII e XIX, com a crítica da razão, estabelecendo os supostos limites do conhecimento em termos do Empirismo inglês, impediu essa transformação. 

Na própria Alemanha o professor Friedrich Zöllner, da Universidade de Leipzig, submeteu o espírito à investigação kardeciana e Schrenck Von Notzing, em Berlim, instalou o primeiro laboratório de pesquisa espírita do mundo. 

Hoje os cientistas soviéticos, na maior fortaleza ideológica do materialismo no mundo, provaram sem querer a existência do espírito e de seu corpo espiritual, a que passaram a chamar de corpo bioplasmático

As pesquisas realizadas com o fenómeno da morte mostrou-lhes que o corpo material é vitalizado por ele e por ele mantido em função. 

A última novidade da Biologia soviética é essa descoberta que atenta contra o materialismo de Estado.

   O espírito convertido em objecto de investigações físicas e biológicas é hoje a prova inegável da vitória de Kardec. Mas Kardec avançou além dessa posição actual. Ele não se limitou a pesquisar o espírito como objecto acessível à percepção sensorial. Da mesma maneira por que o pensamento, na Lógica, é um objecto não-físico – e hoje na Parapsicologia um objecto extrafísico –, Kardec submeteu o espírito a pesquisas psicológicas e provou a sua realidade energética, a sua natureza dupla, de energia espiritual pura manifestada no corpo espiritual, de natureza semimaterial. Os instrumentos de que se serviu para essa audaciosa pesquisa constituem hoje os campos de força da percepção extra-sensorial, cuja realidade palpável foi demonstrada pelas experiências de laboratório dos mais eminentes parapsicólogos. A aparelhagem mediúnica das pesquisas de Kardec, ridicularizadas pelos sabichões do tempo, como Richet os classificou, é hoje cientificamente reconhecida, tanto nos Estados Unidos como na Inglaterra, na Alemanha quanto na URSS.

   Kardec desenvolveu o seu método de pesquisa tendo por base o processo de comunicação. Hoje estamos na época da comunicação e essa palavra adquiriu um valor científico de importância básica. Mas a palavra comunicação já era, no tempo de Kardec, uma categoria da Filosofia Espírita e designava um elemento fundamental da pesquisa espírita. A comunicação mediúnica abriu para o homem uma nova dimensão na sua concepção do mundo e da vida. E Kardec dedicou-lhe todo um tratado, com O Livro dos Médiuns, estabelecendo as regras metodológicas da comunicação entre os vivos da Terra e os supostos mortos do Além. Nenhum tratado actual de Parapsicologia conseguiu superar o que Kardec descobriu e expôs nesse volume.

   Com essa descoberta Kardec revolucionou o campo central das estruturas religiosas. O problema da Revelação, que representava uma fortaleza aparentemente inexpugnável da Religião, o seu mistério essencial e fundamental, foi cruamente esclarecido. E a posição metodológica de Kardec enriqueceu-se com a possibilidade de investigar as próprias bases da Religião. Mostrando que a fonte da Revelação é a comunicação mediúnica, Kardec pôde estabelecer a relação entre Ciência e Religião de maneira definitiva. Existe, explicou ele, a Revelação Espiritual, que consiste no ensino de leis do mundo espiritual através da comunicação mediúnica, e existe a Revelação Científica, que consiste na explicação de leis do mundo material através da comunicação científica, feita pelos pesquisadores. A Ciência Espírita utilizou-se dessas duas formas de revelação e estabeleceu a conjugação de ambas para o controle do conhecimento da realidade, que é o objectivo directo da Ciência.

   Foi assim que Kardec, adoptando uma orientação metodológica segura e nunca dela se afastando, conseguiu, finalmente, desdobrar a moderna concepção do mundo, revelando a face oculta da própria Terra em que vivemos e aniquilando o último reduto do maravilhoso ou sobrenatural. Graças a ele, ao seu trabalho gigantesco e ao sacrifício total da sua existência, os cientistas actuais poderão prosseguir no desenvolvimento das Ciências, sem tropeçar nas barreiras supersticiosas, mitológicas, mágicas e teológicas do passado. Kardec completou a Ciência com a sua contribuição espantosa. Fez, praticamente sozinho, no campo do espírito, e em apenas quinze anos de trabalho, o que milhares de equipas de cientistas, no campo da matéria, realizaram através de pelo menos três séculos.

   E a precisão do seu método se confirma nas conclusões inabaladas e inabaláveis a que chegou sozinho, muitas vezes criticado pelos seus próprios companheiros, que o acusavam de personalismo centralizador. Faltava aos próprios companheiros o espírito científico que o sustentou na batalha sem tréguas. Os que hoje desejam confundir as coisas, ignorando o problema metodológico em Kardec, aceitando mistificações grosseiras de espíritos pseudo-sábios, servem apenas para provar, ainda em nossos dias, como e quanto Kardec avançou no futuro, superando de muito o seu tempo e o nosso tempo.

   Só a ignorância orgulhosa ou a inteligência vaidosa e interesseira podem hoje querer superar Kardec, quando a própria Ciência e a própria Filosofia actuais estão ainda rastreando as conquistas de Kardec, nos rumos de futuras descobertas. O Espiritismo evolui, como tudo evolui no Universo. Esse é um axioma espírita. Mas a obra de superação de Kardec pertence às gerações do amanhã, pois a geração actual não revelou ainda condições sequer para compreender Kardec. Por outro lado, é bom lembrar que a superação de Kardec não será mais do que o prosseguimento do seu trabalho, o desdobramento da sua obra, na medida em que o homem se torne mais apto a compreender o que Kardec ensinou. O atraso actual do movimento espírita nos sugere, mesmo, que talvez o próprio Kardec tenha de voltar à Terra, como os Espíritos lhe disseram na ocasião em que esteve entre nós, para completar a sua obra, que homem nenhum foi capaz até ao momento de ampliar em qualquer sentido.

   Os leitores que desejarem verificar as comprovações parapsicológicas actuais das pesquisas de Kardec poderão fazê-lo em duas fontes: a nossa tradução anotada de O Livro dos Médiuns e o nosso livro Parapsicologia Hoje e Amanhã, em sua quarta edição. Neste último encontrar-se-á um capítulo especial sobre a descoberta do corpo bioplasmático pelos físicos e biólogos soviéticos.

   Fotografias da aura das coisas e dos seres têm sido apresentadas como fotografias da alma e justamente rejeitadas pelas pessoas de bom senso. Essas fotos pertencem à fase da efluviografia nas experiências com as câmaras Kyrillian. As fotografias do corpo bioplasmático são as que realmente correspondem à alma.
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José Herculano Pires – A Pedra e o Joio, Crítica à Teoria Corpuscular do Espírito. O espírito como objecto, 9º fragmento da obra.
(imagem: As Colhedoras de Grãos, pintura a óleo por Jean-François Millet)

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

| o grande enigma ~


Deus | e o Universo

Há uma finalidade, há uma Lei no Universo? 

Ou esse Universo é apenas um abismo no qual o pensamento se perde por falta de ponto de apoio, em que gire sobre si mesmo, igual à folha morta ao influxo do vento?

Existe uma força, uma esperança, uma certeza que nos possa elevar acima de nós mesmos a um fim superior, a um princípio, a um Ser em que se identifiquem o bem, a verdade, a sabedoria? 

Ou terá havido em nós e em redor de nós apenas dúvida, incerteza e trevas?

O homem, o pensador, sonda com o olhar a vasta extensão; interroga as profundezas do céu; procura a solução desses grandes problemas: o problema do mundo, o problema da vida. Considera esse majestoso Universo, no qual se sente como que mergulhado; acompanha com os olhos a carreira dos gigantes do Espaço, sóis da noite, focos terríficos cuja luz percorre as imensidades taciturnas; interroga esses astros, esses mundos inumeráveis, mas estes passam mudos, prosseguindo em seu rumo, para um fim que ninguém conhece. Silêncio esmagador paira sobre o abismo, envolve o homem, torna esse Universo mais solene ainda.

Duas coisas, no entanto, nos aparecem à primeira vista no Universo: a matéria e o movimento, a substância e a força. Os mundos são formados de matéria e essa matéria, inerte por si mesma, se move. Quem, pois, a faz mover-se? Qual é essa força que a anima? Primeiro problema. Mas o homem, do infinito, chama sobre si mesmo sua atenção. Essa matéria e essa força universais ele encontra em si mesmo e, com elas, um terceiro elemento, com o qual conheceu, viu e mediu os outros: a Inteligência.

Entretanto, a inteligência humana não é, por si só, sua própria causa. Se o homem fosse sua própria causa, poderia manter e conservar o poder da vida que está em si; mas, em verdade, esse poder, sujeito a variações, a desfalecimentos, excede à vontade humana.

Se a inteligência existe no homem, deve encontrar-se nesse Universo de que faz parte integrante. O que existe na parte deve encontrar-se no todo.

A matéria não é mais que a vestimenta, a forma sensível e mutável, revestida pela vida; um cadáver não pensa, nem se move. A força é um simples agente destinado a entreter as forças vitais. É, pois, a inteligência que governa os mundos.

Essa inteligência se manifesta por leis sábias e profundas, ordenadoras e conservadoras do Universo.

Todas as pesquisas, todos os trabalhos da ciência contemporânea, concorrem para demonstrar a acção das leis naturais, que uma Lei suprema liga, abraça, para constituir a universal harmonia. Por essa lei, uma Inteligência soberana se revela à razão mesma das coisas, Razão consciente, Unidade universal para onde convergem, ligando-se e fundindo-se, todas as relações, aonde todos os seres vêm haurir a força, a luz e a vida; Ser absoluto e perfeito, fundamente imutável e fonte eterna de toda a ciência, de toda a verdade, de toda a sabedoria, de todo o amor.
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Léon Denis, O Grande Enigma, Primeira parte Deus e o Universo, I O grande Enigma 1 de 5, 4º fragmento da obra.
(imagem: Salvador Dali, 1950)

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Victor Hugo e o invisível ~


Introdução

   Apenas um real e positivo idealismo pode dar vigor e energia à natureza humana. 

Apenas um ideal que seja capaz de sobrepor-se à dura realidade do dia-a-dia pode ajudar o homem a lutar contra aquilo que está destruindo o verdadeiro sentido da vida. 

Este ideal está na beleza, na justiça e no bem, mas, principalmente, na poesia que simultaneamente pode vincular o homem tanto ao humano quanto ao transcendente.

   O homem como Ideia poderá olhar de frente e com segurança o mundo material e o mistério do universo; mas, considerado como um reflexo dos fenómenos físicos, o homem será um ser sem liberdade e sujeito ao mecanismo do meio em que está situado. Porém, a vontade humana será real apenas mediante a auto-liberdade do ser. O Ideal é como o vapor que pode movimentar um grande volume de ferro, razão pela qual o homem não será o verdadeiro motor da história enquanto for considerado como um reflexo do meio em que vive. O homem, a moral e a sociedade serão realidades criadoras apenas quando a vontade puder gerar sua própria liberdade sobre a base de um ideal inspirado na verdade.

   Se o homem não for uma ideia soberana e criadora será um ser sem dignidade. Será apenas um mecanismo que acciona as causas dos reflexos circundantes e uma consequência das forças físicas sem nenhuma teleologia moral ou espiritual. A verdade e a justiça não são anuladas por ser o homem uma Ideia. O verdadeiro homem progressista é o que se sustenta pela força da Ideia e, por isso mesmo, pelo Espírito. Os que são capazes de forjar o bem para a humanidade são os que vivem iluminados pela luz que emana de sua própria inteligência. São os que vivem sustentados pelo Ideal porque se sentem ideia que se sobrepõem as influências opressoras dos fenómenos físicos.

   Victor Hugo foi um exemplo do que dissemos. Sua natureza poética não surgiu em seu Ser pelos reflexos do meio ambiente de sua época. Ao contrário, seu Ser foi poético, idealista e amante da justiça porque esses valores morais estavam em seu espírito e não fora dele. Não se chega a escrever um poema somente com os reflexos materiais que influem sobre a inteligência. Um poema se escreve quando o espírito possui as condições indispensáveis para dar curso a esse fenómeno poético.

   A verdade e a justiça não estarão no homem pela acção reflexa do meio; tais valores éticos surgirão da Ideia que determina o ser espiritual e social do homem. Surgem da consciência, que é onde Victor Hugo falou a Deus e, logo, ao Espírito. O autor de Os Miseráveis foi uma vida que lutou pela Ideia apesar dos mais variados obstáculos sociais que atingiram sua sensibilidade. Mas não foi um homem que amarrou seu ideal ao mundo exclusivo da matéria. Sua inteligência penetrou no Mais Além não apenas para ver uma nova imagem das coisas objectivas, mas para descobrir a essência da vida imortal do Espírito.

   Victor Hugo sabia que somente se constrói um mundo - novo e melhor se as asas do pensamento não são atropeladas pelas garras da vulgaridade e da indiferença. Por isso é necessário o Ideal, é indispensável a Fé e urge conhecer o sentido da vida, posto que sem uma teleologia espiritual o ser e a existência se apresentam como dois enigmas que desembocam num abismo. Victor Hugo não se rendeu à morte e ao nada. Afirmou pela poesia a vida do Espírito e da Ideia e lutou como um gigante para mostrar ao homem a essência divina e imortal que se esconde em sua carne perecível.
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Humberto Mariotti, Victor Hugo Espírita, Introdução 1º fragmento da obra.
(imagem: Victor Hugo em 1875, por Comte Stanislaw)

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O Génio Céltico e o Mundo Invisível~


CAPÍTULO IV

A Bretagne francesa. Lembranças druídicas |

No curso de minhas frequentes viagens à Bretagne, nas minhas palestras com a gente do povo, artistas, burgueses, eu pude notar que a noção das vidas anteriores subsistia no fundo das inteligências, de modo semivelado. 

E não seria de outra forma entre os bardos modernos, que representam uma elite intelectual. Eles não estão exclusivamente inclinados ao passado, mas se comprazem também em contemplar o futuro.

Eles sonham para a Bretagne uma autonomia semelhante àquela que goza o País de Gales, com a sua língua, a sua literatura, os seus jornais. Eles sonham com uma família forte, de costumes mais puros e baseados na tradição! Eles sonham em uma união estreita com os países de além-mar de origem céltica, aliados no sentimento de um destino comum.

Eles conservam, no âmago do coração, uma confiança inalterável nos destinos da raça, no triunfo do Celtismo e de seus princípios superiores: liberdade, justiça e progresso. É isso que os leva a crer numa missão sagrada, numa função social regeneradora

É isso que comunica às suas estrofes esses valores que fazem, às vezes, vibrar a alma popular. Seu verbo inflamado será suficiente para sacudir a indiferença e galvanizar as multidões? Não, certamente, porque é preciso para isso o auxílio poderoso do além, o concurso activo do mundo invisível.

Notemos que esse movimento de opinião em favor do regionalismo não é especial para os bardos. Os intelectuais de todas as classes, de todos os partidos se associam. Eles reclamam essa descentralização prometida pela Revolução (Francesa) e que não foi ainda realizada. Na Bretagne, o patriotismo local não é exclusivo; respeitando os liames que a unem estreitamente à França, ela quer um lugar especial para a pequena pátria na grande e a manutenção da língua céltica, que é como o “paládio” da raça bretã.

O movimento pancéltico não tem, na Bretagne, o carácter separatista de que certos críticos o acusaram. É uma pena que no Congresso de Quimper, em 1924, uma ínfima minoria de congressistas tenha concebido essa vaga ideia. A divisa geral era: “Franceses em primeiro lugar, bretões depois!” 

O objectivo dos dirigentes é o de regenerar a raça por um idealismo elevado, feito ao mesmo tempo de um Cristianismo depurado e de um retorno às tradições célticas, em tudo que elas têm de mais nobre e maior. É nesse sentido que todos os celtistas da França e de outros lugares simpatizam com esse movimento.

A obra dos bardos bretões apresenta eclipses e desigualdades; às vezes ela se confina na penumbra dos “gwerz” e dos “gwerziou” – cantos populares que os obscuros improvisadores vão divulgar, de aldeia em aldeia, de procissão em procissão –, mas às vezes também ela rompe em estrofes vibrantes, pela voz deste bardo cego: Yann-ar-Gwenn, que em 1792, nas ruas e praças de Quimper, reanimava a chama dos entusiasmos patrióticos entre os mais indiferentes.

Falemos de um contemporâneo, de Quellien, que se dizia ironicamente “o último dos bardos” e cuja verve, inesgotável, divertia os cafés literários e as salas de redacção de Paris. Após ter criado os chamados “jantares célticos”, que reuniam todos os anos os bretões letrados da capital e dos quais Renan foi o ornamento mais belo, Quellien morreu esmagado por um auto, deixando uma obra densa, da qual duas peças de teatro, ritmadas no dialecto do país de Tréguier, chamadas “Annaïk” e “Perrinaïk”, ele esperava representar na sua querida Bretagne.

Coisa estranha, Quellien parecia ter previsto seu fim trágico, pois escreveu no prefácio de sua Bretagne Armoricaine: “Tenho o pressentimento de que as tempestades da vida me levarão antes do tempo.” Alguns viram, nessa morte acidental, uma punição por ele ter desencaminhado o Bardismo nos cabarés da colina de Montmartre.

O Sr. H. de la Villemarqué publicou, em 1903, uma colectânea considerável de poemas e de cantos populares da Baixa-Bretagne que foi objecto de contestações e de críticas intermináveis; aí se encontram, entretanto, coisas muito interessantes, de belos ritmos e sugestivas evocações, em outras palavras, a expressão das alegrias e das dores de um povo inteiro.

Não está na minha ideia lembrar aqui as polémicas ardentes, originadas a propósito de fraudes literárias atribuídas a certos escritores celtistas, ainda menos nelas tomar parte. Esses debates e discussões fazem ressaltar todo o preconceito e o fanatismo que os interesses políticos ou religiosos podem colocar em jogo para abafar uma grande ideia que os prejudica.

Pouco importa para nosso assunto, por exemplo, que a epopeia do Rei Arthur e os romances da Távola Redonda tenham sido adornados pela imaginação. Pouco importa, também, que os manuscritos dos poemas de Ossian sejam a obra do advogado Macpherson ou que os Srs. Luzel e de la Villemarqué tenham refeito e ampliado os cantos populares da Bretagne.

Nosso alvo é bem outro. Não se trata, para nós, de fazer a crítica literária, mas de mostrar toda a beleza e a grandeza da doutrina dos druidas que se têm diminuído, à vontade. Para isso basta nos elevarmos acima das contestações, mais alto do que as rivalidades das escolas, para nos ligarmos aos testemunhos dos historiadores imparciais que viveram na própria época dos druidas e os conheceram melhor. É o que faremos no desenrolar dos capítulos seguintes.

É verdade que a lenda de Merlin, o encantador, poderia chamar a nossa atenção, porque tais pensadores eminentes a consideram como o poema no qual se reflectem, mais brilhantemente, as qualidades e os defeitos da alma céltica. Entretanto, um exame atento de tudo o que foi escrito sobre esse assunto demonstrou-nos que a parte de ficção, ali, é considerável e nós preferimos deixar ao nosso amigo Gaston Luce, poeta inspirado que preparou sobre esse tema um drama lírico de grande elevação, o cuidado de lhe fazer realçar todo o interesse. Nós nos limitaremos a reproduzir estas linhas do célebre escritor Edouard Schuré, tiradas de seu livro As Grandes Lendas da França (Les Grandes Légendes de France) e nas quais ele resume “a longa, a heróica luta dos celtas contra o estrangeiro”:

“Arthur torna-se, para toda a Idade Média, o tipo do cavalheiro perfeito. Desforra na qual os bretões não tinham pensado, mas não menos gloriosa e fecunda. Quanto a Merlin, ele personifica o génio poético e profético da raça, e se ele ficou incompreendido na Idade Média, como também nos tempos modernos, é porque, primeiro, a importância do profeta ultrapassa, de muito, a do herói; depois porque a lenda de Merlin e todo o Bardismo se confinam a uma ordem de factos psíquicos onde o espírito moderno somente agora começa a penetrar.”
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LÉON DENIS, O Génio Céltico e o Mundo Invisível, Primeira Parte OS PAÍSES CÉLTICOS, CAPÍTULO IV A Bretagne francesa. Lembranças druídicas 2 de 3, 14º fragmento.
(Imagem: A Apoteose dos heróis franceses que morreram por seu país durante a guerra da Liberdade, pintura de Anne-Louis Girodet-Trioson)

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O peregrino sobre o mar de névoa~


Natureza Moral da Terapia Espírita

Há pessoas que usam a terapia espírita como autógena, entregando-se à prece, sem procurar o socorro de médiuns. 

Esse é um aspecto pouco conhecido da terapia espírita. 

As pessoas que recorrem a esse processo não o fazem por auto-suficiência, mas por estarem submetidas a viciações ou perversões de que se envergonham. 

Conhecemos casos de homossexualismo masculino e feminino que foram assim autocurados. Não se trata propriamente de uma autocura, pois a terapia espírita foi realizada pelos espíritos e não por elas mesmas. Essas vítimas, conhecendo a doutrina, cultivaram a fé racional e conseguiram impor a si mesmas disciplinas curadoras a que se apegaram com firmeza e constância. 

Os que perseveram em suas boas intenções criam condições favoráveis à acção curadora dos espíritos terapeutas. 

É emocionante o caso de um rapaz de família exemplar que chegou à beira do suicídio. Foi salvo pela voz que soou em sua mente dizendo-lhe: 

“Deus me permitiu anunciar-te a hora da libertação. Daqui por diante não sentirás mais os impulsos negativos que te torturavam. Esgotaste perante a Espiritualidade Superior um passado de ignomínias.” 

Não foi um caso de auto-sugestão, mas de perseverança na prova, como depois lhe explicou a entidade protectora que lhe falara em particular, falando então pela boca de um médium que não o conhecia e nada sabia do seu sofrimento oculto.

Em casos como esses revela-se a importância da vontade do paciente, como ocorre na terapêutica em geral. Numa batalha oculta como a desse jovem intervêem influências de entidades vingativas, que podem levá-lo ao desespero, mas, em contrapeso, há sempre assistência de espíritos amigos, cuja acção se torna mais poderosa quando o paciente desperta as suas potencialidades volitivas e decide o seu destino por si mesmo. Firmado no seu direito de escolha e amparado pelas energias da vontade e os estímulos da consciência de sua dignidade humana, o espírito pode superar as provas mais desesperantes e triunfar sobre as suas tendências inferiores provenientes do submundo da animalidade. Por isso a terapêutica espírita condena e repele a capitulação actual da psiquiatria da libertinagem.

A condenação hipócrita do sexo pelas religiões cristãs sobrecarregou de preceitos e ordenações morais que fomentaram por toda parte o fingimento e a hipocrisia. As tentativas cruéis de abafar o instinto sexual através de um moralismo ilógico, como o da era vitoriana na Inglaterra, prepararam a explosão sexualista da actualidade, com o rompimento explosivo dos diques e açudes tradicionais. Todos os moralistas condenaram veementemente o pan-sexualismo de Freud, como se ele tivesse culpa de só encontrar, nos traumatismos espantosos do consultório, a violência da libido, dominadora oculta de uma civilização em ruínas. A loucura de Hitler e de seus comparsas recalcados e homossexuais, bem como a megalomania ridícula e exibicionista de Mussolini, não surgiram das heranças bárbaras, mas do pietismo castrador do medievalismo. O histerismo nazista, ligando-se ao exibicionismo fascista e à necrofilia nipônica, resultaram na formação do Eixo e na explosão da Segunda Conflagração Mundial. Foi uma explosão de recalques. Até mesmo os signos sexuais estavam presentes no sigma nazista, no fascio de Mussolini e no sol nascente de Hiroíto. Veio depois, confirmando esse conluio libidinoso, em que floresceu desavergonhado o homossexualismo germânico. Era evidente que viria depois a era pornográfica em que nos encontramos. Marcuse diagnosticou o mal da civilização, mas não foi capaz de lhe propor a solução conveniente, que aos poucos vai se delineando numa volta penosa ao reconhecimento da naturalidade do sexo, sem os excessos e desmandos da actualidade, em que a contribuição russa aparece com a mística libidinosa de Rasputin.

Historicamente, pesa sobre a figura angustiada de Paulo de Tarso a responsabilidade dessa tragédia mundial. Porque foi ele, o Apóstolo dos Gentios, quem implantou nas comunidades nascentes do Cristianismo Primitivo as leis de pureza do Judaísmo farisaico, tantas vezes condenadas por Cristo. Seu zelo pelo Cristianismo chegou ao excesso de deformá-lo, na luta que teve de enfrentar com a libertinagem do paganismo. Armou a diaclética histórica da tese pagã contra a antítese cristã-judaica, que resultou na síntese da hipocrisia clerical. Aldous Huxley colocou esse problema em seus livros Os Demônios de Loudan e O Gênio e a Deusa.

Kardec já havia antecipado, em meados do século passado, as convulsões morais que abalariam o mundo a partir da Guerra do Piemonte. Previu a sucessão de guerras e revoluções que se desencadeariam, com surpreendentes transformações sociais, políticas e culturais em todo o mundo, acentuando que não eram catástrofes geológicas, que ocorreriam naturalmente, como sempre ocorrem, mas catástrofes morais que abalariam as nações aparentemente mais seguras em suas tradições. E o remédio indicado para a reconstrução do mundo seria a educação das novas gerações, nos princípios de liberdade, igualdade e fraternidade, o lema da Revolução Francesa que ressurgiria com o restabelecimento ou a ressurreição do Cristianismo de Cristo e não dos seus vigários, como anunciaria também o Padre Alta, Doutor da Sorbonne, suspenso de ordens por suas ideias perigosas.
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José Herculano Pires, Ciência Espírita e suas implicações terapêuticas, 3 
Natureza Moral da Terapia Espírita 2 de 3, 9º fragmento da obra.
(imagem: O peregrino sobre o mar de névoa, por Caspar David Friedrich)

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Deus na Natureza~



Introdução

   Destina-se esta obra a representar o estado actual dos nossos conhecimen-tos precisos, sobre a Natureza e o homem.

   A exposição dos últimos resultados a que atingiu a inteligência humana no estudo da Criação é, ao nosso ver, a verdadeira base sobre a qual se há de fundar doravante toda a convicção filosófica e religiosa. Em nome das leis da razão, tão solidamente justificadas pelo progresso contemporâneo e por força dos inelutáveis princípios constituintes da lógica e do método, pareceu-nos que só através das ciências positivas deveremos prosseguir na pesquisa da verdade.

   Se temos, de facto, a ambição de chegar pessoalmente à solução do maior dos problemas; se estamos sôfregos de atingir, por nós mesmos, uma crença na qual encontremos repouso e pábulo de vida; se nos anima, ao demais, o legítimo desejo de transmitir ao próximo a consolação que já encontramos; – não temamos nunca afirmá-lo ser na ciência experimental que devemos procurar os elementos de cognição, só com ela devendo marchar.

   O cepticismo e a dúvida universal imperam no âmago de nossa alma e nosso olhar escrutador, que nenhuma ilusão fascina, vigila na cripta dos nossos pensamentos. Não nos despraz que assim seja. Não lastimemos que Deus não nos houvesse tudo revelado ao criar-nos, dando-nos contudo o direito de discutir. Essa prerrogativa do nosso ser é óptima em si mesma, como condição maior de progresso. Mas, se o cepticismo nos atalaia vigilante, também a necessidade de crença nos atrai.

   Podemos duvidar, certo, sem por isso nos isentarmos do insaciável desejo de conhecer e saber. Uma crença torna-se-nos imprescindível. Os espíritos que se vangloriam de não a possuírem são os mais ameaçados de cair na superstição ou de anular-se na indiferença. O homem tem, por natureza, uma necessidade tão imperiosa de firmar-se numa convicção –, particularmente quanto à existência de um coordenador do mundo e da destinação dos seres – que, quando não encontra uma fé satisfatória, experimenta a necessidade de se demonstrar a si mesmo que esse Deus não existe e busca, então, repousar o espírito no ateísmo e no niilismo.

   Diga-se, também, já não ser a questão que ora nos apaixona, a de sabermos qual a forma do Criador, o carácter da mediação, a influência da graça, nem discutir, tampouco, o valor de argumentos teológicos. A verdadeira questão é saber se Deus existe ou não. Note-se que, em geral, a negativa é patrocinada pelos experimentalistas da ciência positiva, enquanto a afirmativa se ampara nos indivíduos estranhos ao movimento científico.

   Qualquer observador atento pode, ao presente, apreciar no mundo pensante duas tendências diametralmente opostas.

   De um lado, químicos ocupados em tratar e triturar, nos seus laboratórios, os factos materiais da ciência moderna, por lhes extrair a essência e quinta-essência, a declararem que a presença de Deus jamais se manifesta em suas manipulações.

   Doutro lado, teólogos acocorados entre poeirentos manuscritos de bibliotecas góticas compulsando, folheando, interrogando, traduzindo, compilando, citando e recitando versículos dogmáticos, e declarando, com o anjo Rafael, que da pupila esquerda à pupila direita do Padre-Eterno medeiam trinta mil léguas de um milhão de varas, cada qual equivalente a quatro e meia vezes o comprimento da mão.

   Queremos crer que de ambos os lados haja boa fé, que os segundos, como os primeiros, estejam animados do propósito de conhecer a verdade. Pretendem os primeiros representar a Filosofia do século 20, enquanto os segundos guardam, respeitosos, a do século 15. Os primeiros, passam por Deus sem O ver, como o aeronauta que sulca o espaço celeste, enquanto os segundos focalizam um prisma que retrai a imagem, colorindo-a.

   O observador imparcial e independente que procura explicar-lhes suas tendências contrárias, admira-se de os ver obstinados no seu sistema particular e pergunta a si mesmo se será verdadeiramente impossível interrogar, de um modo directo, este vasto Universo e chegar a ver Deus na Natureza.

   Por nós, isentos de qualquer sectarismo, sentimo-nos à vontade em equacionar o problema. Diante do panorama da vida terrestre; no âmbito da Natureza radiosa à luz do Sol, beirando mares bravios ou fontes murmuras; entre paisagens de Outono ou florações de Abril; tanto quanto no silêncio das noites estreladas, temos procurado Deus. A Natureza, interpretada com a Ciência, foi quem no-lo demonstrou num carácter particular. De facto, Ele está nela, visível, como a força íntima de todas as coisas. Temos considerado na Natureza as relações harmónicas que constituem a beleza real do mundo e, na estética das coisas, encontramos a manifestação gloriosa do pensamento supremo.
/…


Camille Flammarion, Deus na Natureza – Introdução 1 de 4, 1º fragmento.
(imagem: Jungle Tales_1895, pintura de James Jebusa Shannon)

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Seres Radiantes do espaço ~


Capítulo I

É sobretudo em nós mesmos que é preciso estudar a união íntima da força e do espírito; cada alma é um centro de força e vida, cujas radiações variam ao infinito, conforme o


valor moral e o estado de evolução do ser. 

Essas radiações criam, em torno de nós, uma espécie de atmosfera fluídica, cuja análise poderia dar a medida exacta de nosso valor psíquico, de nossa saúde do corpo e do espírito, a indicação precisa de nossa situação, com respeito à escala dos seres; em uma palavra, sobre nosso grau de evolução.

É pelo aspecto dessas radiações que os espíritos se reconhecem e se julgam na vida do Além. O seu brilho e a sua intensidade aumentam ou diminuem pela determinação do pensamento e da vontade. Elas escapam aos nossos sentidos, no seu estado normal, mas certos médiuns as percebem, as descrevem e pode-se provar a sua existência por meio de chapas fotográficas.

Colocando-se a ponta dos dedos sobre uma chapa fotográfica, no banho revelador, ao fim de certo tempo de exposição, vê-se emitir, de cada um dos dedos, como de tantos outros focos, eflúvios que se estendem na forma de espirais, com mais ou menos intensidade, conforme as pessoas. Em geral, o resultado é fraco. Mas, fazendo intervir a vontade, com a força do pensamento sob um impulso da alma, de um apelo ou de uma prece, as radiações aumentam e se transformam numa forte corrente que cobre toda a placa e toma uma direcção rectilínea.

Tenho muitos exemplares e muitas reproduções desse género que são bastante demonstrativos. Podem-se obter os mesmos resultados colocando-se as placas a uma distância próxima da fronte. As experiências dos doutores Joire e Baraduc e os cuidados minuciosos de que se cercaram, provaram, de modo exaustivo, que não se pode atribuí-los ao calor dos dedos, nem a qualquer outra causa, a não ser às radiações psíquicas.

Essas constatações têm uma grande importância e é necessário nisso insistir, a fim de se compreender o que ocorre nas reuniões espíritas e o papel que têm os nossos pensamentos e as nossas radiações na produção dos fenómenos. Sabe-se que, nas reuniões em que intervêm os espíritos, estes só podem agir conforme os recursos que lhes são fornecidos pelos assistentes: as forças psíquicas e as faculdades mediúnicas.

Os resultados dependem, então, em grande parte, do ambiente criado pelos próprios experimentadores. A primeira condição é que suas radiações concordem e se harmonizem entre si, com as dos médiuns e as dos espíritos. A protecção de uma entidade elevada é indispensável para se obter belos fenómenos intelectuais e, até mesmo, para dirigir e manter os espíritos produtores de fenómenos físicos que, geralmente, pertencem a uma ordem mais inferior.

Sem essa protecção, as reuniões se acham sujeitas a influências más, contraditórias, às vezes cheias de mistificações. Quanto mais o espírito for superior, mais o andamento da sessão será digno, sério e expressivo, os conselhos e os ensinos serão mais elevados, os factos convincentes, mais claros e precisos, assim como as provas de identidade.

Ora, para tornar essa protecção possível é preciso apresentar, ao espírito presente, condições que facilitem a sua acção, isto é, fluidos e sentimentos que reflictam a sua própria natureza e o fim moralizador a que se propõe.

A prática do Espiritismo não deve somente nos proporcionar as lições do Além, a solução dos graves problemas da vida e da morte; ela pode também nos ensinar a pôr as nossas próprias radiações em harmonia com a vibração eterna e divina, a dirigi-las e a discipliná-las. Não esqueçamos de que é por um exercício psíquico gradual, por uma aplicação metódica de nossas forças, de nossos fluidos, de nossos pensamentos e de nossas aspirações que preparamos nosso papel e nosso futuro no mundo invisível; a actuação e o porvir que serão maiores e melhores à medida que conseguirmos fazer de nossa alma um foco mais radiante de forças, de sabedoria e de amor.

Inicialmente, é preciso vencer o mal em si, para tornar-se apto a combatê-lo e a vencê-lo na ordem universal. É preciso tornar-se um espírito radiante e puro, para assimilar as forças superiores e aprender a utilizá-las.

É somente nessas condições que o ser se eleva, de degrau em degrau, até as alturas espirituais onde resplandece a glória divina, onde o ritmo da vida embala, nas suas ondas poderosas, a obra eterna e infinita.
/…


Léon Denis, O Espiritismo e as Forças Radiantes, Capítulo I, 3 de 3, 3º fragmento da obra.
(imagem: Ascensão de Cristo, pintura de Salvador Dali, 1958)

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

~~~Párias em Redenção~~~


ACOSSAMENTO IRREVERSÍVEL ~

   Sob a constrição do horror, 
o corpo do jovem gorgoleja 
semi-asfixiado, debate-se no pesadelo soez. 
Inconsciente-
mente, procura libertar-se de 
tudo aquilo, 
arrojando-se porta afora, em 
busca do campo crestado, que os animais vão atravessando em infrene correria. Tão pronto pensa em fazê-lo, tem a sensação, ainda mais estranha, de que à porta ressuma a presença do duque di Bicci, com mais feroz aspecto, a impedir-lhe a evasão. Naquele antigo semblante de austeridade está insculpida, a fogo, uma face de ódio que aparvalha, e dos olhos, antes amenos, que fitavam com misericórdia a dor dos infelizes, chispas de violência crepitam, como labaredas prestes a espraiarem-se em incêndio voraz. 

   Tentou gritar; a voz, porém, estava estragada na garganta ressequida.

   Passaram-lhe pela mente, em estupor, todos os actos, minuciosamente, desde as primeiras articulações macabras, nos refolhos do espírito mesquinho, até a onda de crimes contínuos. Espavorido, o sinistro homicida sentiu-se morrer, desejando perecer, ter aniquilada a consciência. Não conseguia articular palavra.

   Foi o senhor di Bicci quem arrebentou a torvação do momento:

   – Não fugirás, Girólamo! Não tens mérito para morrer, evadindo-te à minha justiça. Se é verdade que te não permitirei a vida, não te concederei a morte. Terás alongada a existência, para penar e pagar, gota a gota, todo o mal que fizeste e toda a loucura que vitalizas. Somos a tua sombra e estaremos onde quer que a tua vibração peçonhenta denuncie a ignomínia da tua passagem. Pensavas que as sombras do crime apagariam as pegadas do criminoso, na noite do esquecimento? Ignoravas que ninguém tem o direito de matar, desde que a ninguém é dado o direito de produzir a vida?! Se não te podemos impedir a consumação dos objectivos macabros, não te permitiremos gozar o fruto na colheita dos resultados. Não confiando na Justiça de Deus, e sonhando com o poder da Terra, tornaste-nos teu juiz e teu verdugo, o ódio, o desejo da morte, ansiarás pela inconsciência – tudo quanto temos desejado para nós mesmos, desde que te ergueste como destruidor das minhas esperanças – e como não as tivemos para os meus, por tua culpa, não as fruirás para ti, em razão da mesma culpa…

   Como se desejasse imprimir, a ferro em brasa, aquele encontro na mente do moço pávido, o vingador relanceou o olhar e apanhou Assunta, num misto de ferocidade e demência, o infeliz duque blasonou:

   – Supunhas que a mataste também. Como te enganas com a vida, usurpador da existência! Desconheces que a destruição da roupa orgânica de forma alguma extingue o ser, que continua desditoso ou feliz conforme o mereça? A morte é mais cruel e indevassável do que a vida. As mais funestas narrativas não descrevem o que é atravessar as águas do Estige ou sofrer a presença das Parcas *|. Quando Átropos corta o fio da vida, como um rio perdido no infinito. Rebolcam-se em suas águas lodacentas os que foram vencidos pela desgraça, como eu, atirado que me encontro no fosso do ódio pelas tuas mãos criminosas, que deceparei, logo mais, após fazer-te verter baga a baga o suor da desdita que me impuseste. A tua comparsa – fita-a, reconheces? – sim, é Assunta, a traidora! –, jaz agora sob o meu guante. Alcancei-a do lado de cá, logo se libertou da matéria putrescível, na qual pretendeste apagá-la, silenciando-lhe a cumplicidade. Surpreendida pelo teu punhal sega-vias, não há palavras nem tintas que possam dizer o que lhe passou pelo infeliz espírito expulso do corpo, ao império da tua impiedade e cobardia: os lábios selados, a garganta hirta, os meios de comunicação impossibilitados de articulação e o cérebro ricocheteado pelo assombroso, desejando bradar toda a alucinação… As dores sobre-humanas, acompanhadas da surpresa, as amarras físicas vigorosas, dominadoras, a noite da razão toda feita de incomensurável agonia, não, não as podes entender, porque a águia desconhece as sensações da pomba estraçalhada nas suas garras contraídas! Entenderás depois, logo mais, quando começarmos a fazer justiça, como agora já compreende a víbora que te acompanhou no crime do meu solar, ajudando-te e hominizando-se ao teu lado. Ninguém soube realmente o que aconteceu, conforme supunhas. No entanto, eu lá estava, arrastado pela tua mente odienta, que me exprobrava, arrancando-me do sepulcro onde eu me encontrava em desalinho, para seguir contigo, estupidificado, pelo corredor longo, escuro e, inerme, ver-te no assassínio dos meus filhos e Lúcia, indefesos ante o abutre devorador…

   A entidade, desferida, arquejante, babava.

   O ódio é semente de destruição, que ressuda tóxico corrosivo a aniquilar interiormente. Aqueles que são alcançados pelas suas nefandas e morbíficas destilações de tal forma se impregnam que somente o mergulho em novas formas carnais consegue diminuir a mortífera emanação. Desenvolvido no homem, por processo de educação deficitária, desde a mais tenra infância, na qual se injectam os germes do egoísmo, da prepotência, da vaidade, muito facilmente medrarão os princípios da ira, que se transforma em rancor, logo tenham desconsiderados seus propósitos inferiores. Em toda parte, os semens do ódio se encontram latentes, considerando-se que na Terra, ainda, a força do instinto predomina sobre as manifestações da inteligência e do sentimento, numa conspiração formal contra a evolução do ser e sua consequente libertação das amarras primitivas.

   Enquanto predomina a natureza animal, em detrimento da natureza espiritual, o homem se aventura na posse indébita dos valores transitórios e promove a guerra, exteriorizando os princípios selvagens que ainda estão no seu ser. A impiedade se manifesta desde cedo, nele, mediante a indiferença pela dor do próximo e, se por acaso é convocado à justiça para sancionar os criminosos, em defesa dos cidadãos probos e correctos, aplica a lei não como correctivo e processo de reeducação, porém, na forma de punição e vingança, como se a Justiça fosse exclusivamente punitiva e não processo rectificador de educação e disciplina, em que o amor deve preponderar. A violência medra porque encontra reciprocidade na atmosfera moral das criaturas. Quantas vezes, ante as calamidades, as tragédias ou as injustiças de que alguns são alvo, cidadãos pacatos se rebelam, dando vazão a sentimentos que já não se aceitam sequer nos bárbaros?! Quantas pessoas de siso e educação se revelam vândalos, desde que estejam a sós ou se acumpliciem em malta, instigados por nómadas que lhes açulam as manifestações primárias?! Por essa razão, a paixão de qualquer natureza deve ser motivo de disciplina pelo homem de bem. Nem a indiferença ante a aflição do próximo, nem a exacerbação pelo sofrimento injusto. Moderação é a medida preventiva para os estados que a patologia, nos estudos psicológicos, examina como capítulo básico da degenerescência do homem. Quando rutilarem as morigerantes lições do Cordeiro, na Terra, o ódio e seus sequazes baterão em retirada, dando lugar ao clima de amor por Ele preconizado e vivido até à cruz.

   Ante o torvo semblante do acusador, Girólamo respirava com dificuldade, açoitado pelos tropéis das lembranças sinistras, que retornavam à mente sobressaltada. Longe, porém, de arrepender-se ou justificar-se, sintonizava com o ódio que o pai adoptivo destilava, sentindo-se impossibilitado de selar-lhe os lábios em definitivo. De compleição moral pusilânime, não tinha coragem de enfrentar a vítima, acostumado aos ardis criminosos nos quais sempre se escondia. Por mais que desejasse libertar-se da constrição da cena, não conseguia senão afundar-se ainda mais na angústia maceradora do momento.

   – Sei o que pensas, miserável! – vociferou, soturno e frio, o adversário. – Ouço-te por processo que ignoro. Tua mente fala na minha e sei o que desejarias perpetrar para silenciar-me, como tens feito com os infelizes que tentam obstaculizar-te o avanço desregrado. É, porém, inútil. Não me atingirás. Eu, sim, tenho-te nas mãos e te esganarei lentamente, como fizeste aos meus, asfixiando-os com frieza calculada… Mas, ainda não acabei. Ouvirás agora a tua parceira. Ela está do meu lado. Recebi-a depois da morte e submeti-a a mim, considerando o ódio que agora também ela te devota. Escuta-a, bandido, para que nunca mais esqueças…

   Assunta, conquanto tivesse o aspecto de górgona, por momentos lívida, por instantes rubra, escancarou a boca macilenta e, vencida por dorida agonia, doestou:

   – Por que me destroçaste a vida, quando a juventude me sorria, infeliz?! Não te fui cômpar dócil e maleável, deixando-me arrastar à hediondez do crime sob tua inspiração? Ao dar-te meu corpo, não selei contigo o pacto de vida ou morte, oferecendo-te, também, minha alma, que ambos atiramos na desgraça em que ora padeço?! Dá-me uma só razão para o homicídio que perpetraste contra mim. Silenciar-me a voz, apagando-me da tua presença? Inditoso e venal assassino. Eu te lamento, porque não te posso perdoar. Na tua sanha e desfaçatez, ignoras Deus ou te supões maior do que Ele, para tomares nas tuas mãos as vidas e destroçá-las, como se fossem brinquedos de que te podes utilizar caprichosamente, para logo após arrojá-los no abandono do abismo?... E eu que tanto te amei!

   Lágrimas de fogo escorriam abundantemente pelo rosto congestionado da facínora, colhida na rede da própria trama. Convulsiva, no entanto, vociferou:

   – Todo o amor que nutria por ti agora me consome em fornalha de ódio vivo. O duque colheu-me e vinga-se em mim. Rouba-me energias, vampiriza-me, deixando-me somente parcas forças, para que eu as tome de ti, vampirizando-te, também, já que estamos tão vinculados, a fim de passá-las a ele… Nada sabes da morte, corretor da destruição. Locupletam-se aqui, em hediondos conúbios, os desventurados como nós. Fazes parte, já, dos que aqui se encontram, não obstante ainda estejas fora destes sítios. Experimentarás o exaurir das energias, o deperecer inevitável, e depois… depois estaremos esperando por ti, vinculados uns aos outros pelos crimes que nos igualam. Girólamo, Girólamo, porquê?...
/…

*| Parcas – As parcas eram figuras da Mitologia que representavam três divindades dos Infernos, senhoras das vidas das criaturas, cuja trama fiavam. Cloto representava o nascimento, segundo a roca, Láquesis fazia que girasse o fuso e Átropos cortava o fio, fazendo extinguir a vida.



VICTOR HUGO, Espírito “PÁRIAS EM REDENÇÃO” – LIVRO PRIMEIRO, 6 ACOSSAMENTO IRREVERSÍVEL (fragmento 2 de 5) texto mediúnico recebido por DIVALDO PEREIRA FRANCO
(imagem: L’âme de la forêt _1898, pintura de Edgar Maxence)