Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

sábado, 24 de setembro de 2011

A Terceira Revelação / os média

   45. A primeira revelação estava personificada em Moisés, a segunda em Cristo e a terceira não o está em nenhum indivíduo…/

   46. Sendo as duas primeiras revelações produto de um ensinamento pessoal, foram forçosamente localizadas.
Isso quer dizer que tiveram lugar num só ponto, à volta do qual a ideia se foi expandindo de uns para os outros; mas foram precisos muitos séculos para que atingissem os extremos do mundo, mesmo sem o invadirem por completo.

   A terceira tem isso de particular; não sendo personificada num indivíduo, produziu-se simultaneamente em milhares de pontos diferentes e todos se tornaram centros ou focos de irradiação. Ao multiplicarem-se estes centros, a sua radiação une-se a pouco e pouco, como os círculos formados por uma quantidade de pedras atiradas à água; de tal maneira que, em determinada altura, acabarão por cobrir a superfície total do globo.

   É esta uma das causas da rápida propagação da doutrina. Se tivesse surgido num só ponto, se tivesse sido obra exclusiva de um homem, teria formado uma seita à sua volta; mas meio século teria talvez decorrido antes de ter atingido os limites do país onde tivesse nascido, enquanto que assim, dez anos depois, tem rebentos implantados de um pólo ao outro.

   47. Esta circunstância, espantosa na história das doutrinas, confere a esta uma força excepcional e uma força de acção irresistível; com efeito, se a comprimirmos num ponto, num país, é materialmente impossível comprimi-la em todos os pontos, em todos os países. Por cada sítio onde seja reprimida, haverá mil ao lado onde florescerá.

   Ainda mais, se a extinguirmos num indivíduo, não podemos extingui-la nos Espíritos, que são dela a fonte. Ora, como os Espíritos estão em todo o lado e porque sempre existirão, se, por impossível, se conseguisse abafá-la em todo o globo, ela reapareceria algum tempo depois, porque assenta sobre um facto, facto esse que está na natureza, e não podemos suprimir as leis da natureza. É disto que se devem então convencer os que sonharam com a aniquilação do Espiritismo. (Revista Espírita, Fevereiro de 1865, p. 38: Perpetuidade do Espiritismo.)

   48. No entanto, estes centros disseminados deveriam permanecer ainda algum tempo isolados uns dos outros, confinados como alguns estão a países longínquos. Era necessário entre eles um traço de união que os colocasse em comunhão de pensamento com os seus irmãos de doutrina, ensinando-lhes o que se fazia noutros lugares.

   Este traço de união, que terá faltado ao Espiritismo na antiguidade, encontra-se nas publicações que chegam a todo o lado, que condensam numa forma única, concisa e metódica, os ensinamentos dados em todos os sítios sob múltiplas formas e em línguas diversas.

ALLAN KARDEC, A GÉNESE, Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo – Capítulo I, Natureza e Revelação Espírita 46. 47. e 48.
(imagem: Two Angels, pintura de Edgar Maxence)

domingo, 18 de setembro de 2011

~~Em torno da humildade~~

“Toda boa dádiva e todo dom perfeito é lá do Alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança.”
 – Tiago

(Tiago, 1:17.)

   Afinal, que possuímos que não devemos a Deus? A própria vida de que dispomos se reveste de tanta grandeza e de tanta complexidade, que só a loucura ou a ignorância não reconhecem a Divina Sabedoria em seus fundamentos.

   Para a consideração disso, basta que o homem reflicta no usufruto inegável de que se vale na mobilização dos bens que o felicitam no mundo.

   O corpo que lhe serve de transitória morada é uma doação dos Poderes Superiores, por intermédio do santuário genético das criaturas.

   Os familiares se lhe erigem como sendo apoios de empréstimo.

   A inteligência se lhe condiciona a determinados factores de expressão.

   O ar que respira é património de todos.

   As conquistas da ciência, sobre as quais baseia o progresso, são realizações correctas, mas provisórias, porquanto se ampliam consideravelmente, de século para século.

   Os seus elementos de trabalho são alteráveis de tempo a tempo.

   A saúde física é uma dádiva em regime de comodato.

   A fortuna é um depósito a título precário.

   A autoridade é uma delegação de competência, obviamente transferível.

   Os amigos são mutáveis, na troca incessante de posições, pela qual são frequentemente chamados a prestação de serviço, segundo os ditames que os princípios de aperfeiçoamento ou de evolução lhes indiquem.

   Os próprios adversários, a quem devemos preciosos avisos, são substituídos periodicamente.

   Os mais queridos objectos de uso pessoal passam de mão em mão.

   Em qualquer plano ou condição de existência, estamos subordinados à lei da renovação. À vista disso, sempre que nos vejamos inclinados a envaidecer-nos por alguma coisa, recordemos que nos achamos inelutavelmente ligados à Vida de Deus que, a benefício de nossa própria vida, ainda hoje tudo pode rearticular, refundir, refazer ou modificar.


ESPÍRITO EMMANUEL, Ceifa de Luz – Em torno da humildade, psicografia de FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER
(imagem: The Bird's Nest - 1860, pintura de Charles Joshua Chaplin)

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

~~~Párias em Redenção~~~


1. O DUQUE DI BICCI DI M.
…/

   A enfermidade que vitimara o dono do palácio fora breve. Seu organismo, antes robusto, recusara-se a lutar, dominado que se encontrava pela insuportável saudade da esposa – espírito de rara e peregrina beleza, que viera ter à

Terra para alça-lo e aos seus a região superior da vida. Religiosa, fora Dona Ângela, antes tudo, piedosa, e suas mãos delicadas, raramente adereçadas de gemas, repartiam bênçãos aos que a buscavam, reservando também um dia por semana para visitar os pobres e enfermos, de alguns dos quais ela mesma cuidava, embora os servos que a seguiam nas suas romagens de misericórdia e socorro, conduzindo volumes com repasto e guloseimas, moedas e agasalhos, formassem um séquito prestimoso e dedicado.

   À sua chegada, enxugavam-se as lágrimas e a esperança refloria. Não foram poucos os que lhe receberam da bondade multiplicados pães e vestuários, unguentos e bálsamos. O médico e o sacerdote do palácio, por ordem sua, eram igualmente o esculápio e o pastor dos infelizes de todos aqueles sítios. As guerras contínuas ali haviam deixado várias gerações esfaimadas…

   Em torno do seu nome e da sua pessoa eram tecidos comentários elevados, quais grinaldas de luz, e os múltiplos beneficiários nela sabiam reconhecer a dama da caridade, a irmã da compaixão…

   O duque, a seu turno, rejubilava-se, apesar de, zeloso, preocupar-se com a sua guarda, nas excursões fora dos muros da propriedade.

   Pela estrada real, a Via Cassia, que conduzia de Siena a Florença, não eram poucos os bandoleiros em surtidas constantes, e as escaramuças contínuas com os salteadores exigiam que todos os senhores de terras mantivessem pequenos exércitos de mercenários, nos quais, no entanto, a abnegação e o dever estavam relacionados com o salário que o opositor lhes pudesse oferecer.

   Como o bem aureola e defende todo aquele que o esparze, jamais qualquer dificuldade obstara a nobre senhora de realizar o exercício santo do amor fraterno. Parecia que no ministério da Caridade suas forças se multiplicavam e os dons da alegria lhe refundiam ânimo e tranquilidade.

   Quando da extinção da “Casa Médici”, em 1737, que passara o poder do grão-ducado da Toscana a Francisco de Lorena, esposo de Maria Teresa da Áustria – Segunda Casa de Lorena –, a Senhora Ângela, ao invés de quebrantar o ânimo mais o aumentara, tornando-se o estimulo constante e o encorajamento do esposo, que resolvera reagir e preservar o património, evitando evadir-se da região, como ocorrera a outros membros da família.

   Antes da derrocada, todo o ducado readquirira com Cosme II o esplendor de outros tempos, embora o seu carácter fraco e pusilânime, sendo, pois, devedor de muitas das suas glórias de então à  tradicional família, descendente de Bonagiunta, o comerciante florentino que enriquecera nas transacções internacionais. De certo modo, o fausto e as extravagâncias de Cosme III, que sucedera, foram responsáveis pela decadência da Toscana, a vergonha e a quase miséria dele mesmo.

   Com a elevação moral da esposa e o seu carácter inquebrantável, o duque reconquistara, também, o prestígio em torno do nome, enquanto que, amado, prosseguia, nos domínios em que se erguia a vila palaciana, como um reduto remanescente de mentes esclarecidas dos dias idos, não porém, apaixonado.

   Desaparecida Ângela, as sombras da tristeza e do acabrunhamento desceram sobre o vetusto solar, cuja beleza somente se destacava através da alacridade infantil das três crianças, quando dos folguedos nos jardins ou nos corredores atapetados do majestoso edifício.

   A saudade e a melancolia, cultivadas, são também sementes venenosas que aniquilam a seiva da vida no seio em que se agasalham. Parasitas, nutrem-se matando. Assim, quando a enfermidade surpreendeu o duque di Bicci di M., as forças morais se recusaram a duelar e o corpo se permitiu deixar vencer.

   Especialmente convidado para as exéquias, o Bispo de Siena fez-se presente, acolitado por um séquito de ociosos, e o velório transformou-se em local em que sobressaíam o arrivismo e os seus sequazes, atendidos através de repasto abundante, tendo Lúcia no comando dos serviços, duramente vigiada por Girólamo, que maquinava planos sórdidos, e por Assunta, que se passava por sua amiga, enquanto os convidados se deixavam conduzir pelo vinho, consumindo os acepipes… A bulha era geral e o silêncio somente era feito pelo corpo desencarnado. As crianças adormeceram a custo, ajudadas por uma serva leal e da confiança de Lúcia. O solar mergulhava em dor, na alma de uns, e enchia de cobiça os espíritos infelizes de muitos.

   A longa madrugada começa a despertar sobre o burgo encharcado das chuvas contínuas, enquanto Girólamo, maquiavélico, encoraja os próprios programas inditosos.

   Enquanto Lúcia serve ao Bispo, que se locupleta em farta bandeja de doces e chá quente, Girólamo, se lhe acerca, simulando afectada gentileza, e da palestra incipiente, despropositada, sonda, maledicente, o ocioso religioso, quanto ao que consta sobre o testamento do tio.

   Um tanto estimulado pelo capitoso vinho, ingerido em contínuas libações ao longo da noite, o sacerdote se refere à tutela que Lúcia exercerá sobre as crianças, com plenos poderes ao património, até que aquelas alcancem a maioridade. Encorajado pelo moço venal, comenta da sua estranheza quanto à atitude generosa do senhor em referência a uma jovem sem linhagem nem fortuna. Lamenta a situação do rapaz, que continuará sob mesada, a ser distribuída pela testamentária, sob fiscalização do poder público, e diz-se revoltado por a Igreja não ter sido aquinhoada, recordando-se, enfático, de que algumas décadas entes os religiosos eram prestigiados em toda a Toscana, graças à família…

   Lisonjeado o moço, o representante religioso adianta que se este fora herdeiro tudo, certamente, seria diverso.

   Girólamo, em febre, sorri, corado, inquieto, e medita.

   O ódio lhe desperta as paixões subalternas, o ciúme o enceguece e o desespero o asfixia.

   Mentalmente, tem o plano definido: não poderá falhar. Tudo concorre para o seu êxito. Tem mesmo a impressão de que conta com o conivente apoio do prelado ambicioso.

   Intimamente gargalha. Entre dentes, murmura: “Pagar-me-ás, fera peçonhenta e espoliadora! Pagar-me-eis, tu e o vil Senhor di Bicci di M. Não suporto quase esperar! Pagar-me-eis logo mais. Paciência! Espera, Girólamo. Acalma-te!”.

   Raia o dia nevoento e demorado. O calendário assinala: 22 de Dezembro de 1745.  


VICTOR HUGO, Espírito “PÁRIAS EM REDENÇÃO ” – LIVRO PRIMEIRO, 1. O DUQUE DI BICCI DI M. (fragmento 3 de 3) psicografia de DIVALDO PEREIRA FRANCO
(imagem: L’âme de la forêt _1898, pintura de Edgar Maxence)

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

~~Acima de todas as crenças~~

I - As Religiões, A Doutrina Secreta

   Quando se lança um golpe de vista sobre o passado, quando se evoca a recordação das religiões desaparecidas, das crenças extintas, apodera-se de nós uma espécie de vertigem ante o aspecto das sinuosidades percorridas pelo pensamento humano. Lenta é sua marcha. Parece, a princípio, comprazer-se nas criptas sombrias da Índia, nos templos subterrâneos do Egipto, nas catacumbas de Roma, na meia-luz das catedrais; parece preferir os lugares escuros à atmosfera pesada das escolas, o silêncio dos claustros às claridades do céu, aos livres espaços, em uma palavra, ao estudo da Natureza.

   Um primeiro exame, uma comparação superficial das crenças e das superstições do passado conduz inevitavelmente à dúvida. Mas, levantando-se o véu exterior e brilhante que ocultava às massas os grandes mistérios, penetrando-se nos santuários da idéia religiosa, achamo-nos em presença de um facto de alcance considerável. As formas materiais, as cerimónias extravagantes dos cultos tinham por fim chocar a imaginação do povo. Por trás desses véus, as religiões antigas apareciam sob aspecto diverso, revestiam carácter grave e elevado, simultaneamente científico e filosófico. Seu ensino era duplo: exterior e público de um lado, interior e secreto de outro, e, neste último caso, reservado somente aos iniciados. Conseguiu-se, não há muito, reconstituir esse ensino secreto, após pacientes estudos e numerosas descobertas epigráficas.  Desde então, dissiparam-se a obscuridade e a confusão que reinavam nas questões religiosas; com a luz, fez-se a harmonia. Adquiriu-se a prova de que todos os ensinos religiosos do passado se ligam, porque, em sua base, se encontra uma só e mesma doutrina, transmitida de idade em idade a uma série ininterrupta de sábios e pensadores.

   Todas as grandes religiões tiveram duas faces, uma aparente, outra oculta. Está nesta o espírito, naquela a forma ou a letra. Debaixo do símbolo material, dissimula-se o sentido profundo. O Bramanismo, na Índia, o Hermetismo, no Egipto, o Politeísmo grego, o próprio Cristianismo, em sua origem, apresentam esse duplo aspecto. Julgá-las pela face exterior e vulgar é o mesmo que apreciar o valor moral de um homem pelos trajes. Para conhecê-las é preciso penetrar o pensamento íntimo que lhes inspira e motiva a existência; cumpre desprender do selo dos mitos e dogmas o princípio gerador que lhes comunica a força e a vida. Descobre-se, então, a doutrina única, superior, imutável, de que as religiões humanas não são mais que adaptações imperfeitas e transitórias, proporcionadas às necessidades dos tempos e dos meios.

   Em nossa época, muitos fazem uma concepção do Universo, uma idéia da verdade, absolutamente exterior e material. A ciência moderna, em suas investigações, tem-se limitado a acumular o maior número de factos e, depois, a deduzir daí as suas leis. Obteve, assim, maravilhosos resultados, porém, por tal preço, ficar-lhe-á sempre inacessível o conhecimento dos princípios superiores e das causas primitivas. As próprias causas secundárias escapam-lhe. O domínio invisível da vida é mais vasto do que aquele que é atingido pelos nossos sentidos: lá reinam essas causas de que somente vemos os efeitos.

   Na antiguidade tinham outra maneira de ver, e um proceder muito diferente. Os sábios do Oriente e da Grécia não desdenhavam observar a natureza exterior, porém era sobretudo no estudo da alma, de suas potências íntimas, que descobriam os princípios eternos. Para eles, a alma era como um livro em que se inscrevem, em caracteres misteriosos, todas as realidades e todas as leis. Pela concentração de suas faculdades, pelo estudo profundo e meditativo de si mesmos, elevaram-se até à Causa sem causa, até ao princípio de que derivam os seres e as coisas. As leis inatas da inteligência explicavam-lhes a harmonia e a ordem da Natureza, assim como o estudo da alma lhes dava a chave dos problemas da vida.

   A alma, acreditavam, colocada entre dois mundos, o visível e o oculto, o material e o espiritual, observando-os, penetrando em ambos, é o instrumento supremo do conhecimento. Conforme seu grau de adiantamento ou de pureza, reflecte, com maior ou menor intensidade, os raios do foco divino. A razão e a consciência não só guiam nossa apreciação e nossos actos, mas também são os mais seguros meios para adquirir-se e possuir-se a verdade.

   A tais pesquisas era consagrada a vida inteira dos iniciados. Não se limitavam, como em nossos dias, a preparar a mocidade com estudos prematuros, insuficientes, mal dirigidos, para as lutas e deveres da existência. Os adeptos eram escolhidos, preparados desde a infância para a carreira que deviam preencher e, depois, levados gradualmente aos píncaros intelectuais, de onde se pode dominar e julgar a vida. Os princípios da ciência secreta eram-lhes comunicados numa proporção relativa ao desenvolvimento das suas inteligências e qualidades morais. A iniciação era uma refundição completa do carácter, um acordar das faculdades latentes da alma. Somente quando tinha sabido extinguir em si o fogo das paixões, comprimir os desejos impuros, orientar os impulsos do seu ser para o Bem e para o Belo, é que o adepto participava dos grandes mistérios. Obtinha, então, certos poderes sobre a Natureza, e comunicava-se com as potências ocultas do Universo.

   Não deixam subsistir dúvida alguma sobre tal ponto os testemunhos da história a respeito de Apolônio de Tiana e de Simão, o Mago, bem como os factos, pretensamente miraculosos, levados a efeito por Moisés e pelo Cristo. Os iniciados conheciam os segredos das forças fluídicas e magnéticas. Este domínio, pouco familiar aos sábios dos nossos dias, a quem se afiguram inexplicáveis os fenómenos do sonambulismo e da sugestão, no meio dos quais se debatem impotentes em conciliá-los com teorias preconcebidas, esse domínio, a ciência oriental dos santuários havia explorado, e estava possuidora de todas as sua chaves. Nele encontramos meios de acção incompreensíveis para o vulgo, mas facilmente explicáveis pelos fenómenos do Espiritismo. Em suas experiências fisiológicas, a ciência contemporânia chegou ao pórtico deste mundo oculto conhecido dos antigos e regido por leis exactas. Ainda bem perto está o dia em que a força dos acontecimentos e o exemplo dos audaciosos constrangê-la-ão a tal. Reconhecerá, então, que nada há aí de sobrenatural, mas, ao contrário, uma face ignorada da Natureza, uma manifestação das forças subtis, um aspecto novo da vida que enche o infinito.

   Se do domínio dos factos passarmos ao dos princípios, teremos de esboçar desde logo as grandes linhas da doutrina secreta. Ao ver desta, a vida não é mais que a evolução, no tempo e no espaço, do espírito, única realidade permanente. A matéria é sua expressão inferior, sua forma variável. O Ser por excelência, fonte de todos os seres, é Deus, simultaniamente triplo e uno – essência, substância e vida – em que se resume todo o Universo. Daí o deísmo trinitário que, da Índia e do Egipto, passou, desfigurando-se, para a doutrina cristã. Esta, dos três elementos do ser, fez as pessoas. A alma humana, percela da grande alma, é imortal. Progride e sobe para o seu autor através de existências numerosas, alternativamente terrestres e espirituais, por um aperfeiçoamento contínuo. Em suas encarnações, constitui ela o homem, cuja natureza ternária – o corpo, o perispírito e a alma –, centros correspondentes da sensação, sentimento e conhecimento, torna-se um microcosmo ou pequeno mundo, imagem reduzida do macrocosmo ou Grande Todo. Eis por que podemos encontrar Deus no mais profundo do nosso ser, interrogando a nós mesmos na solidão, estudando e desenvolvendo as nossas faculdades latentes, a nossa razão e consciência. Tem duas faces a vida universal: a involução ou descida do Espírito à matéria para a criação individual, e a evolução ou ascensão gradual, na cadeia das existências, para a Unidade Divina.

   Prendia-se a esta filosofia um feixe inteiro de ciências: a Ciência dos Números ou Matemáticas Sagradas, a Teogonia, a Cosmogonia, a Psicologia e a Física. Nelas, os métodos indutivo e experimental combinavam-se e serviam-se reciprocamente de verificação, formando, assim, um todo imponente, um edifício de proporções harmónicas.

   Este ensino abria ao pensamento perspectivas suscetíveis de causarem vertigem aos espíritos mal preparados, e por isso era somente reservado aos fortes. Se, por verem o infinito, as almas débeis ficam perturbadas e desvairadas, as valentes fortificam-se e medram. É no conhecimento das leis superiores que estas vão beber a fé esclarecida, a confiança no futuro, a consolação na desgraça. Tal conhecimento produz benevolência para com os fracos, para com todos esses que se agitam ainda nos círculos inferiores da existência, vítimas das paixões e da ignorância; inspira tolerância para com todas as crenças. O iniciado sabia unir-se a todos e orar com todos. Honrava Brahma na Índia, Osíris em Mênfis, Júpiter na Olímpia, como pálidas imagens da Potência Suprema, directora das almas e dos mundos. É assim que a verdadeira religião se eleva acima de todas as crenças e a nenhuma maldiz.

   O ensino dos santuários produziu homens realmente prodigiosos pela elevação de vistas e pelo valor das obras realizadas, uma elite de pensadores e de homens de acção, cujos nomes se encontram em todas as páginas da História. Daí saíram os grandes reformadores, os fundadores de religiões, os ardentes propagandistas: Krishna, Zoroastro, Hermes, Moisés, Pitágoras, Platão e Jesus; todos os que têm posto ao alcance das multidões as verdades sublimes que fazem sua superioridade. Lançaram aos ventos a semente que fecunda as almas, promulgaram a lei moral, imutável, sempre e em toda parte semelhante a si mesma. Mas, não souberam os discípulos guardar intacta a herança dos mestres. Mortos estes, os seus ensinos ficaram desnaturados e desfigurados por alterações sucessivas. A mediocridade dos homens não era apta a perceber as coisas do espírito e bem depressa as religiões perderam a sua simplicidade e pureza primitivas. As verdades que tinham sido ensinadas foram sufocadas sob os pormenores de uma interpretação grosseira e material. Abusou-se dos símbolos para chocar a imaginação dos crentes e, muito breve, a idéia máter ficou sepultada e esquecida sob eles. A verdade é comparável às gotas de chuva que oscilam na extremidade de um ramo. Enquanto aí ficam suspensas, brilham como puros diamantes aos raios do Sol; desde, porém, que tocam o chão, confundem-se com todas as impurezas. O que nos vem de cima mancha-se ao contacto terrestre. Até mesmo ao seio dos templos levou o homem as suas concupiscências e misérias morais. Por isso, em cada religião, o erro, este apanágio da Terra, mistura-se com a verdade, este bem dos céus.

\…

LÉON DENIS in Depois da Morte, Primeira Parte Crenças e Negações
(1 de 2 fragmento).
(imagem: Michelangelo in His Studio Visited by Pope Julius II, pintura de Alexandre Cabanel - 1859)

sábado, 3 de setembro de 2011

Aos corações escolhidos

  
 O budismo penetrou na China e lhe assimilou as antigas crenças. Continuou as relações estabelecidas com os mortos.
   Aqui está um exemplo dessas evocações e da aparência que toma a alma para se tornar visível a olhos mortais.
   O Sr. Estanislau Julien, que traduziu do chinês a história de Hiuen-Thsang, que viveu pelo ano 650 da nossa era, narra assim a aparição do Buda, devida a uma prece daquela santa personagem.
   “Tendo penetrado na caverna onde, animado de fé profunda, vivera o grande iniciador, Hiuen-Thsang se acusou de seus pecados, com o coração transbordante de sinceridade. Recitou devotamente suas preces, prosternando-se a cada estrofe. Depois de fazer uma centena dessas reverências, viu surgir uma claridade na parede oriental da caverna.
   Tomado de alegria e de dor, recomeçou ele as suas saudações reverentes e viu brilhar e apagar-se qual relâmpago uma luz do tamanho de uma salva. Então, num transporte de júbilo e amor, jurou que não deixaria aquele sítio sem ter visto a sombra augusta do Buda. Continuou a prestar-lhe suas homenagens e, ao cabo de duzentas saudações, teve de súbito inundada de luz toda a gruta e o Buda, em deslumbrante brancura, apareceu, desenhando-se-lhe majestosamente a figura sobre a muralha. Ofuscante fulgor iluminava os contornos da sua face divina. Hiuen-Thsang contemplou em êxtase, durante largo tempo, o objecto sublime e incomparável de sua admiração. Prosternou-se respeitosamente, celebrou os louvores do Buda e espalhou flores e perfumes, depois do que a luz se extinguiu. O brâmane que o acompanhara ficou tão encantado quanto maravilhado daquele espectáculo. “Mestre – disse ele –, sem a sinceridade da tua fé e o fervor dos teus votos, não terias presenciado tal prodígio.”
   Essa aparição lembra a transfiguração de Jesus, quando se prostraram Moisés e Elias. Os Espíritos superiores têm um corpo de esplendor incomparável, por isso que a sua substância fluídica é mais luminosa do que as mais rápidas vibrações do éter, como poderemos verificar pelo que se segue.

A Pérsia

   No antigo Irã, depara-se com uma concepção toda especial acerca da alma. Zoroastro pode reivindicar a paternidade da invenção do que hoje é chamado o eu superior, a consciência subliminal e, doutro ponto de vista, a paternidade da teoria dos anjos guardiães.
   É conhecida a doutrina do grande legislador: abaixo do Ser Incriado, eterno, existem duas emanações opostas, tendo cada uma sua missão determinada: Ormuzd tem o encargo de criar e conservar o mundo; Arimã o de combater Ormuzd e destruir o mundo, se puder. Há, igualmente, dois génios celestes, emanados do Eterno, para ajudar a Ormuzd no trabalho da criação; mas, há também uma série de Espíritos, de “génios”, de ferúers, pelos quais pode o homem crer que tem em si algo de divino. O ferúer, inevitável para cada ser, dotado de inteligência, era, ao mesmo tempo, um inspirador e um vigia: inspirador, por insuflar o pensamento de Ormuzd no cérebro do homem; vigia, por ser guardião da criatura amada do deus. Parece que os ferúers imateriais existiam, por vontade divina, antes da criação do homem e que cada um deles sabia, de antemão, qual o corpo humano que lhe era destinado.
   A missão desse ferúer consistia em combater os maus génios produzidos por Arimã, em conservar a humanidade.
   Após a morte, o ferúer se conserva unido “à alma e à inteligência”, para sofrer um julgamento, receber a sua recompensa ou o seu castigo. Todo homem, todo Ized (génio celeste) e o próprio Ormuzd tinham o seu ferúer, o seu frawaski, que por eles velava, que se devotava à sua conservação.
   De certas passagens do Avestá se há podido deduzir que, depois da morte do homem, o ferúer voltava ao céu, para desfrutar aí de um poder independente, mais ou menos extenso, conforme fora mais ou menos pura e virtuosa a criatura que lhe estivera confiada. De todo independente do corpo humano e da alma humana, o ferúer é um génio imaterial, responsável e imortal. Todo ser teve ou terá o seu ferúer. Em tudo o que existe, há um ferúer certo, isto é, alguma coisa de divino. O Avestá invoca o ferúer dos santos, do fogo, da assembléia dos sacerdotes, de Ormuzd, dos amschaspands (anjos celestes), dos izeds, da “palavra excelente”, dos “seres puros”, da água, da terra, das árvores, dos rebanhos, do tourogérmen, de Zoroastro, “em quem, primeiro, Ormuzd pensou, a quem instruiu pelo ouvido e ao qual formou com grandeza, em meio das províncias do Irã”.
   Na Judéia, os hebreus, ao tempo de Moisés, desconheciam inteiramente qualquer ideia de alma.  Foi preciso o cativeiro de Babilónia, para que esse povo bebesse, entre os seus vencedores, a ideia da imortalidade, ao mesmo tempo que a da verdadeira composição do homem. Os cabalistas, intérpretes do esoterismo judeu, chamam Nephesh ao corpo fluídico do Princípio pensante.

A Grécia

   Os gregos, desde a mais alta antiguidade, estiveram na posse da verdade sobre o mundo espiritual. Em Homero, é frequente os moribundos profetizarem e a alma de Pátroclo vem visitar Aquiles na sua tenda.
   “Segundo a doutrina da maioria dos filósofos gregos, cada homem tem por guia um demónio particular (eles davam o nome de daimon aos Espíritos), que lhe personifica a individualidade moral.” 
   A generalidade dos humanos era guiada por Espíritos vulgares; os doutos mereciam visitados por Espíritos superiores (Id.). Thales, que viveu seis séculos e meio antes da nossa era, ensinava, tal qual na China, que o Universo era povoado de demónios e de génios, testemunhas secretas das nossas acções, mesmo dos nossos pensamentos, sendo também nossos guias espirituais.  Até, desse artigo, fazia um dos pontos capitais da sua moral, confessando que nada havia mais próprio a inspirar a cada homem a necessidade de exercer sobre si mesmo essa espécie de vigilância a que Pitágoras mais tarde chamou o sal da vida.
   Epimênides, contemporâneo de Sólon, era guiado pelos Espíritos e frequentemente recebia inspirações divinas. Sustentava fortemente o dogma da metempsicose e, para convencer o povo, dizia que ressuscitara muitas vezes e que, particularmente, fora Éaco.
   Sócrates   e, sobretudo, Platão, como achassem excessivamente grande a distância entre Deus e o homem, enchiam-na de Espíritos, considerando-os génios tutelares dos povos e dos indivíduos e os inspiradores dos oráculos. A alma preexistia ao corpo e chegava ao mundo dotada do conhecimento das ideias eternas. Semelhante à criança, que no dia seguinte há esquecido as coisas da véspera, esse conhecimento ficava nela amodorrado, pela sua união com o corpo, para despertar pouco a pouco, com o tempo, o trabalho, o uso da razão e dos sentidos. Aprender era lembrar-se; morrer era voltar ao ponto de partida e tornar ao primitivo estado: de felicidade, para os bons; de sofrimento, para os maus.
   Cada alma possui um demónio, um Espírito familiar, que a inspira, com ela se comunica, lhe fala à consciência e a adverte do que tem que fazer ou que evitar. Firmemente convencido de que, por intermédio desses Espíritos, uma comunicação podia estabelecer-se entre o mundo dos vivos e os a quem chamamos mortos, Sócrates tinha um demónio, um Espírito familiar, que constantemente lhe falava e o guiava em todas as circunstâncias.
   “Sim – diz Lamartine – ele é inspirado, segundo o afirma e repete. Por que nos negaríamos a crer na palavra do homem que dava a vida por amor da verdade? Haverá muitos testemunhos que tenham o valor da palavra de Sócrates prestes a morrer? Sim, ele era inspirado... A verdade e a sabedoria não emanam de nós; descem do céu aos corações escolhidos, que Deus suscita, de acordo com as necessidades do tempo.” 
   O claro génio dos gregos percebeu a necessidade de um intermediário entre a alma e o corpo. Para explicar a união da alma imaterial com o corpo terrestre, os filósofos da Hélade reconheceram a existência de uma substância mista, designada pelo nome de Ochema, que lhe servia de envoltório e que os oráculos denominavam o veículo leve, o corpo luminoso, o carro subtil. Falando daquilo que move a matéria, diz Hipócrates que o movimento é devido a uma força imortal, ignis, a que dá o nome de enormon, ou corpo fluídico.

GABRIEL DELANNE, A Alma é Imortal, Primeira parte A observação, Capítulo I Golpe de vista histórico – As crenças antigas (fragmento 1 de 3).
(imagem: Tête Divine, pintura de Edgard Maxence - 1907)

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O Espírito na Natureza

   E assim, o plano da Natureza foi anunciado pela construção dos seres vivos.
   Mais eloquentemente ainda, foi esse plano afirmado pelas provas do instinto no reino animal. A criação, aí, nos surgiu magnificamente completada por leis assecuratórias da sua duração e grandeza. Mas, ao mesmo tempo que a presença de Deus se manifestava mais imponente aos nossos olhos, o problema geral da finalidade do mundo surgia mais vasto e temeroso. Sentimos, então, a insignificância comparativa e assim fomos levados, naturalmente, pela diretriz do arrazoado, a retomar a idéia dominante do nosso ponto de partida, isto é, demonstrar conjuntamente o erro do ateísmo e da superstição religiosa.
   Este exame da causalidade final teve por epígrafe o título da obra do grande físico e filósofo Ested – O Espírito na Natureza.
   A força espiritual que vive na essência das coisas e governa o Universo em suas partículas infinitesimais revelou-se assim, sucessivamente, nos mundos sideral, inorgânico, vegetal, animal, pensante. Esperamos que o observador de boa fé, desprevenido do espírito de sistema, se contentará com esta exposição dos últimos resultados da Ciência contemporânea, confirmativos da soberania da força e da passividade da matéria.
   Temos íntima convicção de que a idéia de Deus se apresentou a seus olhos maior e mais pura que toda e qualquer imagem simbólica e dogmática, e que a criação universal, misteriosa filha do mesmo pensamento, lhe surgiu mais ampla e mais bela.
O Universo desdobra-se na sua realidade, como a manifestação de uma idéia una, de um plano único e de uma só vontade. Possa este quadro da vida eterna da natureza de Deus afastar o leitor dos erros grosseiros que o materialismo espalha por toda parte, robustecendo-lhe o intelecto no culto puro da Verdade. Possam os nossos espíritos se compenetrarem, cada vez mais, do Belo manifestado na Natureza e santificarem-se no Bem, com o apreciarem mais completamente a unidade da obra divina, fazendo uma idéia mais justa do nosso destino espiritual, conhecendo a nossa categoria na Terra em relação ao conjunto dos mundos e sabendo, finalmente, que a nossa grandeza está em nos elevarmos constantemente na posse e pela posse dos bens imperecíveis, que são apanágio da inteligência.

CAMILLE FLAMMARION, Deus na Natureza, Tomo V – DEUS (1 de 4 fragmento)
(imagem: The Spring, pintura de Franz Xaver Winterhalter)

terça-feira, 30 de agosto de 2011

~A Terceira Revelação

   A primeira revelação estava personificada em Moisés, a segunda em Cristo e a terceira não o está em nenhum indivíduo. As duas primeiras são individuais, a terceira é colectiva; reside nisso uma característica essencial de grande importância. É que ninguém, por consequência, se pode afirmar seu profeta exclusivo. Foi feita simultaneamente em toda a Terra, a milhões de pessoas, de todas as idades e de todas as condições, desde o mais baixo ao mais elevado da escala, consoante a profecia relatada pelo autor dos Actos dos Apóstolos: «E nos últimos dias acontecerá, diz Deus, que do meu Espírito derramarei sobre toda a carne; e os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos mancebos terão visões e os vossos velhos sonharão sonhos; / E também do meu Espírito derramarei sobre o meu servo e minhas servas, naqueles dias, e profetizarão.» (Actos dos Apóstolos, 2: 17, 18.) Não saiu de nenhum culto especial para servir um dia de ponto de encontro a todos*.

   *O nosso papel pessoal no grande movimento das ideias que se prepara através do Espiritismo e que começa a acontecer, é o de observador atento que estuda os factos para daí retirar as consequências. Confrontámos todos os que nos foi possível reunir; comparámos e comentámos as instruções dadas pelos Espíritos em todos os pontos do globo; depois, coordenámos tudo metodicamente; numa palavra, estudámos e demos a saber ao público o fruto das nossas investigações sem atribuir ao nosso trabalho outro valor que o de uma obra filosófica deduzida da observação e da experiência, sem nunca nos termos dado ares de chefe de doutrina, nem ter querido impor as nossas ideias a ninguém. Ao publicá-las, usámos de um direito comum e os que as aceitaram fizeram-no livremente. Se estas ideias encontraram numerosas simpatias, é por terem tido a vantagem de corresponder às aspirações de um grande número, com o que não nos podemos envaidecer, pois a sua origem não nos pertence. O nosso maior mérito é o da perseverança e devoção à causa que abraçamos. Em tudo isto fizemos o que outros podiam ter feito; é por isso que nunca tivemos a pretensão de nos julgarmos profetas ou messias e ainda menos apresentarmo-nos por tal. (N. do A.)


ALLAN KARDEC, A GÉNESE, Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo – Capítulo I, Natureza e Revelação Espírita 45.
(imagem: Baptismo de Jesus - detalhe -, pintura de Leonardo da Vinci)

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

~~~Párias em Redenção~~~


1. O DUQUE DI BICCI DI M.
…/

   Notificado do agravamento da enfermidade do tio, que resultara do funesto acon-tecimento, chegara dias antes, aparentando o desejo de ser útil, planeando, todavia inteirar-se de todas as ocorrências a fim de levar a cabo maldita trama

que lhe inquietava a mente desde o falecimento de Dona Ângela. Desse modo, através da perspicácia de que era capaz, e pelo suborno, conquistou os servos e o notário da cidade, graças à impossibilidade de lucidez do Senhor di Bicci, assumindo responsabilidades e tomando providências com zelo falso, simulando o interesse de que o seu protector recebesse todas as homenagens de que se fazia credor na última jornada, agora encerrada com a desencarnação.

   O clã, que em anos idos restabelecera a grandeza da Toscana, principalmente em Florença, Siena e Pisa, sob as últimas vicissitudes governamentais caíra em desprestígio, desaparecendo quase, paulatinamente. O próprio Senhor di Bicci possuía somente como herdeiros directos os filhos e, depois destes, Girólamo, a quem adotara anos antes. A imensa herdade, no entanto, representava poderosa fortuna e o tesouro da família somava expressivo e elevado valor, por muitos cobiçado.

   Girólamo sabia-se antipático ao nobre benfeitor, que apenas o suportava, financiando-lhe os estudos em memória da esposa idolatrada. Deserdara-o quase, se considerarmos a hábil maneira como dispusera as suas vontades e posses no testamento.

   Através de ardis bem urdidos, algum tempo antes o rapaz soubera das últimas disposições regulares que o tio introduzira no legado, graças à indiscrição do notário, que era encarregado dos negócios da casa e fora regiamente recompensado para a delação. Desde essa oportunidade, rebelara-se interiormente, nutrido pelo protector inamistosa atitude, que chegava a caracterizar-se pelo ácido do ódio íntimo. Disfarçava-o, é certo, no entanto, sabia-se intolerável. A antipatia, diga-se com justiça, era recíproca. Incapaz de agasalhar sentimentos de gratidão, nutria-se da surda cólera, que conseguia disfarçar com habilidade. Os primos pequeninos, em consequência, eram para o seu espírito, insidioso rivais que necessitavam desaparecer, logo que lhe sorrisse a boa Fotuna…

   A morte do Senhor di Bicci surpreendia-o, portanto, agradavelmente, pois que lhe favorecia pôr em prática o plano já em execução paulatina, que poderia ter o seu desfecho por aqueles dias. Significava-lhe o ambicioso ensejo do poder.

   Desde que a tia desencarnada, maliciosamente espalhara que o recolhimento do Senhor duque se devia aos encantos de Lúcia, a dama de companhia da Senhora Ângela, que no vigor dos trinta anos repelia continuamente os candidatos ao matrimónio, dizendo-se fiel servidora da prole Bicci di M. O próprio duque várias vezes lhe conseguira excelentes candidatos, que foram sumariamente recusados. Como gratidão a tão elevado devotamento, dizia-se, fora contemplada no testamento com soma vultosa, porém, o favor através de outros favores menos dignos, asseverava o jovem.

   A calúnia, cavilosamente preparada, espalhava-se entre as pessoas levianas, tendo-se em vista a sua procedência, e não mais à boca pequena se falava da donzela e do seu amo, desmoralizando-o vilmente.

   A calúnia possui o miraculoso elixir de agradar aos frívolos, sendo a arma poderosa dos cobardes, com duração de pequeno porte, todavia.

   Muitos sussurravam que Lúcia substituíra a senhora do palácio, embora a altivez e sobriedade da moça que, por imposição do duque e graças à sua ascendência moral, dirigia, compreensivelmente, os empregados e os lacaios sujeitos ao seu amádigo. Atarefada, desdobrando-se entre os deveres para com o senhor que a respeitava, as crianças que muito a amavam e os serviçais, não dispunha de tempo para as frivolidades em voga nem os mexericos que lhe chegavam ao conhecimento, embora tais notícias a mortificassem interiormente. Estranha e poderosa afeição ligava-a aos membros do solar. Pelo amo e seus filhos experimentava profunda dedicação e por isso tentava preencher, mediante a bondade e o dever rectamente cumprido, a lacuna decorrente do desaparecimento da senhora.

   Esguia, morena e grácil, de cabeleira negra e abundante, era o espécime perfeito descendente dos antigos etruscos que um dia dominaram aquelas terras e em cujo dialecto conseguia expressar-se. Delicada, inspirava confiança e, sensível, tranquilizava com a sua presença formosa.

   Nos últimos tempos, nas noites em que a insónia a vencia, deixava-se mergulhar em profundos cismares, interrogando os céus estrelados, como que dominada por presságios atormentadores. Nessas oportunidades, parecia vislumbrar, à meia claridade dos círios que iluminavam o quarto em que dormia com as crianças, ou entre os prateados raios da lua plena, a figura soberana da duquesa, que se lhe afigurava mais bela, mais encantadora. Embora o esplendor da face da senhora, notava-lhe uma expressão de melancolia no sorriso sereno, conquanto triste, que esta lhe endereçava.

   Nesses momentos, dominada por ignotos receios, ajoelhava-se aos pés do Crucificado, que havia preso à parede da alcova, e procedia aos recitativos memorizados a que se acostumara, suplicando protecção, aspirando amparo, vindo a tranquilizar-se somente depois de muitas aflições interiores.

   Identificando em Girólamo estranha antipatia, sabia-o responsável pelas infâmias e pressentia, quando o moço se acercava do burgo, sombrios prenúncios constrangedores. Afável, tratava-o com respeito e discrição, aparentando ignorar-lhe as acusações descabidas, quanto injustas.

   Dom Giovanni, por sua vez, recebia-o de raro em raro, evitando com delicadeza sua presença, por lhe parecer esta perniciosa aos filhos, embora o moço tivesse completado apenas vinte e dois anos. Era como se macabro conciliábulo de estranhos sentimentos constrangesse as pessoas ante o atormentado e leviano rapaz.
/…


VICTOR HUGO, Espírito “PÁRIAS EM REDENÇÃO ” – LIVRO PRIMEIRO, 1. O DUQUE DI BICCI DI M. (fragmento 2 de 3) psicografia de DIVALDO PEREIRA FRANCO
(imagem: L' âme de la forêt _1898, pintura de Edgar Maxence)

sábado, 20 de agosto de 2011

Assunto de l i b e r d a d e

“Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais de novo a jugo de servidão.” – Paulo
(Gálatas, 5:1.)

Importante pensar como terá Jesus promovido a nossa libertação.

O Divino Mestre não nos conclamou a qualquer reacção contra os padrões administrativos na movimentação da comunidade, nem desfraldou qualquer bandeira de reivindicações exteriores.

Jesus unicamente obedeceu às Leis Divinas, fazendo o melhor da própria vida e do tempo de que dispunha, em benefício de todos. Terá tido lutas e conflitos no âmbito pessoal das próprias actividades.
Aflições incompreensíveis, companheiros frágeis, adversários e perseguidores não lhe faltaram; nada disso, porém, fê-lo voltar-se contra a hierarquia ou contra a segurança da vida comunitária. Por fim, a aceitação da cruz lhe assinalou a obediência suprema às Leis de Deus.
Pensa nisto e compreendamos que Cristo nos ensinou o caminho da libertação e de nós mesmos.

Dever observado e cumprido mede o nosso direito de agir com independência.

Não existe liberdade e respeito sem obrigação e desempenho.

Meditemos na lição para não cairmos de novo sob o antigo e pesado jugo de nossas próprias paixões.


ESPÍRITO EMMANUEL, Ceifa de Luz – Assunto de liberdade, psicografia de FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER
(imagem: Portrait of a Child, pintura de Edgar Maxence_1941)

Recordações da nossa consciência...

Na realidade, a memória não é mais do que uma modalidade da consciência. A recordação está, muitas vezes, no estado subconsciente. Já, no círculo restrito da vida actual, não conservamos a recordação de nossos primeiros anos, a qual está, contudo, gravada em nós, como todos os estados atravessados no decurso de nossa história. Sucede o mesmo com grande número de actos e factos pertencentes aos outros períodos da vida. Gassendi, dizem, lembrava-se da idade de 18 meses; mas isso é uma excepção. É necessário o esforço mental para reavivar essas recordações da vida normal, a que nos é mais familiar; é necessário, repetimo-lo, para novamente colher mil coisas estudadas, aprendidas e, depois, esquecidas, porque baixaram às camadas profundas da memória.
A cada passo, a inteligência precisa procurar na subconsciência os conhecimentos, as recordações que quer reavivar; esforça-se para fazê-los passar para a consciência física, para o cérebro concreto, depois de tê-los provido dos elementos vitais fornecidos pelos neurónios ou células nervosas. Segundo a riqueza ou a pobreza desses elementos, a recordação surgirá clara ou difusa; às vezes, esquiva-se; a comunicação não pode estabelecer-se, ou então a projecção produz-se mais tarde somente, no momento em que menos se espera.
Para recordar, portanto, a primeira das condições é querer. Aí está a razão pela qual muitos Espíritos, mesmo na vida do espaço, sob o domínio de certos preconceitos dogmáticos, desprezam toda investigação e conservam-se ignorantes do passado que neles dorme. Nesse meio, como entre nós, no decurso da experimentação, é necessária uma sugestão. Vemos essa lei da sugestão manifestar-se em toda parte, debaixo de mil formas; nós mesmos, a cada instante do dia, estamos sujeitos à sua acção. Eleva-se, por exemplo, perto de nós um canto, ressoa uma palavra, um nome, fere-nos a vista uma imagem e, de repente, graças à associação de idéias, desenrola-se em nosso espírito um encadeamento completo de recordações confusas, quase esquecidas, dissimuladas nas camadas profundas da nossa consciência.

LÉON DENIS, O Problema do ser, do destino e da dor, Segunda Parte/O Problema do Destino, XIV – As vidas sucessivas. Provas experimentais. Renovação da memória. (4 de 4)
(imagem: Sainte Thérèse de Lisieux_1931, pintura de Edgar Maxence)