Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

quinta-feira, 5 de julho de 2012

O Mundo Invisível e a Guerra~


IV
O Mês de Joana d’Arc

|Maio de 1915|

   Cabe perguntar se sua clara visão, atravessando os séculos vindouros, não se projectava então até aos acontecimentos do presente, até essa gigantesca luta da civilização contra a barbárie, na qual pensava em interferir.

   Por meio da violência e do terror, a Alemanha pretendeu impor ao mundo a sua horrível cultura, suas teorias implacáveis do super-homem, das quais Nietzsche se constituiu profeta e que anulam o que há de mais digno, mais poético, mais belo na alma humana, isto é, as qualidades nobres, e com elas a compaixão, a piedade e a bondade.

   O Deus do Evangelho, que Jesus nos ensinara a amar, os alemães pretenderam trocar por não se sabe qual divindade sombria e cruel, que se assemelha muito menos ao Deus dos cristãos do que ao Odin escandinavo em seu Walhalla manchado de sangue.

   A essas concepções de outras eras, nas quais ao mais grosseiro materialismo se alia um misticismo bárbaro, devemos contrapor, sob a égide da Virgem Lorena, um espiritualismo claro e progressista, feito de luz, justiça e amor.

   Esse espiritualismo mostrará ao mundo a lei eterna que prega a liberdade, a responsabilidade de todos os seres e que lhes impõe a necessidade de resgatar, pelas existências sucessivas e dolorosas, todo o mal que hajam praticado.

   E após a expiação ela assegura o ressurgimento e a partilha, para todos, das alegrias e bens celestes, na proporção justa do merecimento conquistado e dos progressos realizados.

   Eis a doutrina que Joana preconiza, que não se ocupa apenas com a libertação da pátria, pois que, desde muitos anos, coopera também em sua renovação moral. Todos aqueles que frequentam os grupos de estudo onde ela se manifesta sabem com que carinho vela por essa doutrina, sustentando seus defensores e trabalhando por sua difusão no mundo.

   Joana, inspirada pelo Alto, cumpriu outrora uma missão que, no decorrer dos tempos, serviria de exemplo para todos. Hoje se compreende que o papel da mulher poderia ser o de fortalecer o ânimo do homem, aumentando-lhe a dedicação patriótica. Realmente, no seio da família, sua missão é mais modesta; mas a educação que dá ao filho deve despertar-lhe a energia e o valor, acentuando-lhe o amor à pátria e todas as virtudes daí decorrentes.

   Assim ver-se-ão desenvolver as energias do país; a fusão dos partidos tornar-se-á mais fácil, assim como a missão de todos, porque estarão unidos por um nobre ideal comum.

    Separados na paz, os franceses se uniram diante do perigo. Ontem incrédulos, apelam hoje às forças divinas e humanas capazes de fortalecer a raça; apelam às inspirações do Alto, que vivificam as almas e despertam as qualidades viris adormecidas.

   Estamos certos de que esse estado de espírito há de persistir. No momento actual existem, em nossa linha de frente, cerca de três milhões de homens que sentem iguais fadigas e sofrem iguais perigos. É impossível que as provações sofridas por eles não constituam um laço poderoso e que, unidos pelo coração e por um mesmo pensamento, não trabalhem unidos para o reerguer da pátria.

   Joana os ajudará para conseguirem esse objectivo e, por seu intermédio, afirmamos nós, será feita a união de todos os partidos, porque a Virgem de Orléans não é propriedade de nenhum deles. Pertence a todos e cada um encontrará em sua vida um motivo para venerá-la.

   Os monárquicos glorificarão nela a heroína fiel que se sacrificou pelo rei; os crentes, a enviada providencial que surgiu na hora dos desastres.

   Os filhos do povo a amarão como a camponesa que se armou para salvar a pátria; os soldados se recordarão de que, como eles, ela sofreu e foi ferida duas vezes; os infelizes, que ela suportou todas as amarguras, todas as provações, e que bebeu o cálice das dores até ao fim.

   Todos verão nela uma demonstração da força superior, da força eterna encarnada em um ser humano para executar obras capazes de elevar as inteligências e reconciliar todos os corações.
/…


LÉON DENIS, O Mundo Invisível e a Guerra, IV – O Mês de Joana d’Arc, 3 de 3 13º fragmento da obra.
(imagem: Tanque de guerra britânico capturado pelos Alemães, durante a Primeira Guerra Mundial)

quarta-feira, 4 de julho de 2012

pensamento crítico ~


Justificativa do equívoco marxista

   Sobram razões, entretanto, para esse equívoco. Não podemos condenar Marx e Engels, bem como Feuerbach, em última instância, se este último, rebelando-se contra a “divinização dos fenómenos naturais impressionantes” pelo homem primitivo, pela razão instintiva, quis apegar-se à raiz latina da palavra religião, o verbo “religare”, para construir uma religião humana de fraternidade terrena, sem compromissos transcendentes, como Comte o tentaria mais tarde. Os dois primeiros, pelo contrário, rejeitaram até mesmo a velha raiz, tomados de uma verbofobia que ainda hoje impregna os seus seguidores. E levantaram, no pó do planeta, a primeira grande revolução filosófica, política e social, contra a imensidade cósmica do Espírito.

   Foi, não um temporal num copo d’água, mas uma tormenta num grão de areia. Não obstante, como nesse grão de areia é que, segundo Kardec, nascemos, crescemos, vivemos, morremos, renascemos e progredimos sempre, pois “tal é a lei”, a revolta representa, para nós, toda uma época histórica, de importância igual à rebelião dos anjos, no princípio dos tempos.

   A esses novos lúciferes assistiam as razões poderosas da mistificação religiosa da época. A religião, distanciada da sua velha raiz, convertera-se em instrumento de opressão e da mais deslavada velhacaria. Nem foi por outro motivo que Kardec declarou, em A Gênese, com a clareza e a precisão que o caracterizavam: “As religiões, infelizmente, têm sido sempre instrumentos de dominação. O papel de profeta tem tentado as ambições secundárias, e tem-se visto surgir uma multidão de pretensos reveladores ou messias que, favorecidos pelo prestígio desse nome, exploram a credulidade, em proveito do seu orgulho, da sua cupidez ou da sua preguiça, achando mais cómodo viver na dependência dos iludidos. A religião cristã não esteve ao abrigo desses parasitas.” 

   As igrejas haviam corporificado o princípio religioso, no terreno social, na forma de organizações político-financeiras, sedentas de dominação. Os sacerdotes nada mais eram do que os negociantes do culto. E este, como bem o definiram os materialistas dialécticos, “o suborno da divindade”. A corrupção capitalista invadira os céus, podendo acrescentar-se, por isso mesmo, com Tcheskiss: “O desenvolvimento da ciência provoca a morte da religião.” Já Kardec o dissera, no mesmo livro citado: “Se a religião se recusa a avançar com a ciência, a ciência avançará sozinha.”

   Querer que a capacidade de análise objectiva de Marx e Engels falhasse nesse terreno, despercebida do aspecto brutal da religião e ao seu verdadeiro papel na estrutura social, seria querer demasiado. Por outro lado, supor que esses anátemo-patologistas da sociedade capitalista pudessem agir, diante do corpo enfermo da sociedade da época, como psiquiatras, descobrindo a malversação dos elementos espirituais no desequilíbrio religioso, seria desconhecer o fenómeno das especializações no campo da ciência.

   Marx e Engels fizeram o que puderam. Pura e simplesmente. O que assombra, porém, é que um século depois os seus discípulos e continuadores ainda arrastem a mesma asa quebrada, sem compreenderem a necessidade de avançar na concepção do mundo, em obediência, pelo menos, ao “processus” da sua própria dialéctica.
/…


José Herculano Pires, Espiritismo Dialéctico – Justificativa do equívoco marxista, 3º fragmento da obra.
(imagem: Diógenes, pormenor d'A escola de Atenas de Rafael Sanzio, 1509)

terça-feira, 3 de julho de 2012

a pedra e o joio~


questão metodo-
lógica

   Quem se atreve a afirmar, por exemplo, que o roustain-
guismo é simples questão de opinião e por isso não deve ser discutido, ou que este ou aquele pretenso cientista tem o direito de formular suas teorias, dá uma prova espontânea de sua ignorância do problema espírita em sua inelutável posição epistemológica. Como obra evidente de mistificação, um decalque malfeito e deformador da obra de Kardec, visando a ridicularizar a doutrina verdadeira, o roustainguismo não pode (absolutamente não pode) ser aceito por nenhum espírita consciente, a não ser por efeito de fascinação. O direito de uma pessoa formular teorias em qualquer campo do conhecimento está sujeito a uma exigência elementar e básica: a de conhecer a fundo esse campo. Sem isso, e sem dar provas disso, ninguém, por mais aparentemente culto que possa ser considerado ou que se diga, não tem o direito de formular e divulgar teorias a respeito. Isso é ponto pacífico em todo o mundo.

   Vamos a exemplos concretos:

   Quando o Sr. Oswaldo Polidoro, na sua incultura e na sua ingenuidade, se propõe a fazer um Espiritismo do Século XX, chamando-o de Espiritismo Divinista – pois entende que Kardec sujeitou-se à Ciência humana e negou a divina –, só os que ignoram a posição metodológica de Kardec e sua importância cultural podem aceitar esse absurdo. No outro extremo, quando Hernani Andrade elabora em bases físicas uma Teoria Corpuscular do Espírito para superar o suposto mecanicismo de Kardec, só as pessoas incapazes de compreender a posição kardeciana e a função cultural do Espiritismo podem bater palmas a essa tentativa absurda.

   Esclareçamos um pouco mais, se possível:

   Quando o Sr. Luciano dos Anjos, representando toda a Directoria da Federação Espírita Brasileira, sustenta e propaga o roustainguismo e nega aos espíritas o direito de instituir cursos de doutrina e de organizar instituições culturais espíritas (defendendo ridiculamente o autodidatismo como ideal de formação cultural), só os que nada entendem dos problemas culturais podem apoiá-lo nessa proposta de retorno ao primitivismo. Nenhuma pessoa de bom senso e de certa cultura poderá aceitar esse ilogismo a menos que esteja sujeita a um processo de fascinação, essa forma aguda de obsessão que afecta a capacidade de julgar.

   Quando o Sr. Artur Massena, presidente leigo da Sociedade de Medicina e Espiritismo do Rio de Janeiro, acha que as suas experiências de 36 anos no trato da mediunidade (não como cientista, que não é, mas como um prático, um curioso e no máximo um amador) lhe dá o direito de contradizer Kardec e introduzir novidades no assunto, só os que ignoram por completo o que seja Ciência e o que seja cultura podem aprovar essa temeridade.

   É necessário compreendermos o absurdo dessas posições, se quisermos prestar algum serviço, por mínimo que seja, à causa espírita. Ainda neste caso aplica-se admiravelmente a recomendação de Erasto a Kardec: é preferível rejeitar dez possíveis verdades ou acertos nesse terreno do que aceitar uma única mentira. Porque essa única mentira porá o Espiritismo em má situação perante os homens de bom senso. E porque, como advertiu Kardec, devemos pisar no terreno sólido da realidade, deixando as utopias, por mais fascinantes que se apresentem, que se submetam à prova inexorável do tempo. Não somos utópicos, somos realistas. Não jogamos com possibilidades, mas com factos. E fora dos factos e da sua pesquisa rigorosa não temos Espiritismo.

   Quem não compreender isso pode aderir a qualquer das formas de utopia que levaram o Espiritualismo ao descrédito no século passado e continuam a se propagar em nossos dias com ampla liberdade. Quem quiser permanecer no Espiritismo terá de submeter-se às exigências culturais da doutrina, que são sobretudo de ordem metodológica.

   Até agora, o Espiritismo só foi conhecido no Brasil através dos cinco volumes da Codificação. Só agora dispomos da colecção da Revista Espírita do tempo de Kardec, tão importante que ele mesmo a incluiu no rol das leituras necessárias para o bom conhecimento da doutrina, como vemos em O Livro dos Médiuns. Ninguém, entre nós, conhece Kardec em profundidade. Homens de cultura, considerados como grandes conhecedores da doutrina, publicaram trabalhos que provam a superficialidade espantosa desse conhecimento. Se leram e estudaram, não aprenderam, não assimilaram.

   Dirigentes de grandes instituições doutrinárias mostram-se ignorantes do sentido e da natureza da doutrina, enxertando-a com estranhos conceitos provindos da época anterior ao aparecimento do Espiritismo. Chega-se a combater, como perigoso, o desenvolvimento cultural do Espiritismo, e isso nas altas rodas das instituições de cúpula.

   Essa situação desoladora favorece o aparecimento de pretensos reformadores e actualizadores da doutrina, que tanto surgem do meio do povo – através de médiuns ao serviço de espíritos mistificadores –, quanto das elites culturais, através de teóricos improvisados, que se aproveitam de seus títulos universitários ou posições sociais para impor ao povo suas ideias pessoais, não raro tão absurdas como as dos místicos sertanejos. E há também, para maior espanto das pessoas sensatas, os que exercendo funções de responsabilidade no meio espírita, mostram-se admirados com os prodígios de mediunismo nas formas de sincretismo religioso afro-brasileiro – como a Umbanda, a Quimbanda, o Candomblé – e bandeiam-se para os terreiros.

   Tudo isso resulta de uma fonte única: a ignorância da doutrina. As molas secretas da vaidade, da auto-suficiência e das obsessões encorajam essa proliferação de tolices, cuja finalidade evidente é a ridicularização do Espiritismo. Urge, pois, que os espíritas sensatos e responsáveis tomem posição contra essa avalanche de absurdos, tenham a coragem e a franqueza de falar a verdade em defesa do Espiritismo, doa a quem doer.
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José Herculano Pires – A Pedra e o Joio, Crítica à Teoria Corpuscular do Espírito. A questão metodológica, 2 de 2, 7º fragmento da obra.
(imagem: As Colhedoras de Grãos, pintura a óleo por Jean-François Millet)

segunda-feira, 2 de julho de 2012

| o grande enigma ~


Ao Leitor

A Justiça! 
Se há neste mundo uma necessidade imperiosa para todos os que sofrem, para quantos têm a alma dilacerada, não é essa a de crer, de saber que a justiça não é uma palavra vazia; que há, de qualquer maneira, compensações para todas as dores, sanção para todos os deveres, consolação para todos os males?

Ora, essa justiça absoluta, soberana, quaisquer que sejam nossas opiniões políticas e nossas vistas sociais, deve reconhecer perfeitamente, não é de nosso mundo. As instituições humanas não a comportam.

Embora chegássemos a corrigir, a melhorar essas instituições e, por conseguinte, a atenuar muitos males, a diminuir a soma das desigualdades e das misérias humanas, há causas de aflição, enfermidades cruéis e inatas contra as quais seremos sempre impotentes: a perda da saúde, da vista, da razão, a separação dos seres amados e todo o imenso séquito dos sofrimentos morais, tanto mais vivos quanto o homem é mais sensível e a civilização mais apurada.

Apesar de todos os melhoramentos sociais, nunca obteremos que o bem e o mal encontrem neste mundo integral sanção. Se existe essa justiça absoluta, o seu tribunal não pode estar senão no Além! Mas quem nos provará que esse Além não é um mito, uma ilusão, uma quimera? As religiões, as filosofias passaram; elas desdobraram sobre a Alma humana o manto rico de suas concepções e de suas esperanças. Entretanto, a dúvida subsistiu no fundo das consciências. Uma crítica minuciosa e sábia tem passado em estreito crivo todas as teorias de outrora. E desse conjunto maravilhoso só resultaram ruínas.

Mas, em todos os pontos do globo, fenómenos psíquicos se produziram. Variados, contínuos, inumeráveis, traziam a prova da existência de um mundo espiritual, invisível, regido por princípios rigorosos, tão imutáveis quanto os da matéria, mundo que guarda nas suas profundezas o segredo de nossas origens e de nossos destinos. Uma nova ciência nasceu baseada nas experiências, nas pesquisas e nos testemunhos de sábios eminentes; uma comunicação se estabelecera com esse mundo invisível que nos cerca e uma revelação poderosa banha a Humanidade qual uma onda pura e regeneradora.
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Léon Denis, O Grande Enigma, Ao Leitor 2 de 3.
(imagem: Salvador Dali, 1950)

domingo, 1 de julho de 2012

O Génio Céltico e o Mundo Invisível~


CAPÍTULO III

O País de Gales. 
A Escócia. 
A obra dos bardos

Os galeses, em geral, acreditavam firmemente no mundo dos espíritos e nas suas manifestações. Eles apresentam, às vezes, nomes e formas muito fantasiosas para isso. Seus relatos deixam uma grande margem para a imaginação. Entretanto, do conjunto dos factos relatados se deduz uma série de testemunhos que não saberíamos recusar.

Por exemplo, no que se refere aos “espíritos batedores da mina”, esses seres invisíveis que, por seus golpes surdos, prolongados, repetidos, encorajam os mineiros e dirigem suas pesquisas em direcção aos melhores filões; eis o relatório redigido, sobre esse assunto, pelo engenheiro Merris, homem muito estimado pelo seu saber e sua probidade, publicado na revista Gentleman’s Magazine:

“As pessoas que não conhecem as artes e as ciências ou o poder secreto da natureza zombarão de nós, mineiros de Cardigan, que acreditamos na existência dos “batedores”. Eles são uma espécie de génios bons, mas inapreensíveis, que não se vêem, mas se ouvem, e que parecem trabalhar nas minas, isto é, que o “batedor” é o representante ou o precursor do trabalho nas minas, como os sonhos o são de certos acidentes que acontecem.

Quando foi descoberta a mina de Esgair y Myn, os “batedores” nela trabalharam activamente, noite e dia, e um grande número de pessoas os ouviram. Mas, após a descoberta da grande mina, não foram mais ouvidos. Quando comecei a explorar as minas de Elwyn-Elwyd, os “batedores” agiram tão fortemente, durante um certo tempo, que assustaram os jovens operários. Quando removíamos as camadas de rochas, antes de chegar no mineral, é que os ruídos se fizeram mais fortes; eles cessaram quando nós atingimos o mineral.

Sem dúvida, nossas asserções serão discutidas. Afirmo, entretanto, que os factos são reais, mesmo que não possa nem pretenda explicá-los. Os cépticos podem sorrir; quanto a nós, mineiros, continuaremos a nos alegrar e a agradecer aos “batedores”, ou melhor, a Deus, que nos envia seus conselhos.”

Os fenómenos de assombração não são raros no País de Gales. Cita-se de bom grado tal casa ou tal castelo que os conheceram e suportaram. O Sr. Le Goffic, na sua viagem a Cardiff como delegado bretão à grande Assembleia solene de 1899, recolheu uma grande série de relatos desse género, que ele publicou no seu livro L’Âme Bretonne (A Alma Bretã).

A maioria desses relatos nos parecem muito marcados de superstição. Cremos, portanto, que devemos indicar um testemunho sério, o de Lady Herbert, ilustre patriota galesa, descendente dos antigos reis “kymris”, que recebia a delegação no seu castelo de Llanover.

O Sr. Le Goffic cita a conversa que teve sobre esse assunto com essa grande dama:

“O exemplo vem do Alto. Não se diz na Inglaterra que a própria rainha tem seu fantasma que ronda os apartamentos de Windsor? E esse fantasma, vestido de negro, não é outro senão a grande Elisabeth.

O lugar-tenente Glynn, de guarda na biblioteca, percebeu como o fantasma penetrou no quarto contíguo. Ora, esse quarto não tinha saída, mas tivera uma, outrora, durante a vida de Elisabeth, e que foi fechada depois. O lugar-tenente correu atrás do fantasma e chegou justo a tempo para vê-lo introduzir-se na parede. O facto se reproduziu diversas vezes e o temor foi tão grande, em Windsor, que foi preciso dobrar a guarda da noite.

Windsor tem sua dama negra, meu castelo de Cold Brooks tem sua dama branca. Vós perguntais qual o sentido dessas aparições? Ora, como a igreja nos explica, são almas em sofrimento que pedem piedade dos vivos esquecidos. Os outros espectros têm a função de avisadores. É o caso, creio, da dama negra de Windsor: sua presença anuncia sempre algum facto grave, uma guerra ou catástrofe próxima.

Os avisos, ou como vós dizeis na Bretanha, os “intersignos”, revestem todas as formas. Algumas vezes essas formas são especiais para certas famílias. Os Grey de Ruthwen são avisados da morte de seus membros pela aparição de uma carruagem, com quatro cavalos negros.

A família Airl, quando um dos seus membros está perto da hora da morte, ouve um rufo de tambor. Em um jantar, estando presente um desses Airl, alguém lhe perguntou como passatempo: “Qual é, então, o ‘intersigno’ de sua família?” – “O tambor”. E, como para atestar o facto, um rufo, surdo e velado, soou ao longe. Lord Airl empalideceu; algum tempo depois, um mensageiro veio anunciar que um dos membros de sua família estava morto.

Os Mac-Gwenlyne, descendentes do célebre clã desse nome, possuem há séculos, no norte da Escócia, o velho solar de Fairdhu: uma grande abóbada curvada lhe dá o acesso, e julga-se que a pedra que serve de base para essa abóbada começa a tremer quando um Mac-Gwenlyne vai morrer...” 

Os casos de castelos e lugares assombrados são tão numerosos na Escócia que deixamos de citar todos. Sabe-se que esse país é a terra clássica dos videntes, dos fantasmas e dos espíritos familiares. O aspecto melancólico de suas regiões, cobertas de neblina, e de suas ruínas presta-se às visões e às evocações.

Ainda em nossos dias, a sombra de Marie Stuart não apareceu a Lady Caithness, Duquesa de Pomar, na capela real de Holyrood, onde se alinham os túmulos dos reis da Escócia? Em sua sumptuosa casa da rua Brémontier, em Paris, em dias de reuniões psíquicas, a duquesa se comprazia em nos contar sua palestra nocturna com a infortunada rainha.
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LÉON DENIS, O Génio Céltico e o Mundo Invisível, Primeira Parte OS PAÍSES CÉLTICOS, CAPÍTULO III – O País de Gales. A Escócia. A obra dos bardos 2 de 3, 12º fragmento.
(Imagem: A Apoteose dos heróis franceses que morreram por seu país durante a guerra da Liberdade, pintura de Anne-Louis Girodet-Trioson)

sábado, 30 de junho de 2012

O peregrino sobre o mar de névoa~


Princípios da Terapêutica Espírita

Podemos enunciar o primeiro princípio da terapêutica espírita da seguinte maneira:

1) A cura das doenças depende da acção natural das energias conjugadas do homem e da terra (psicológicas e mesológicas), na reconstituição do equilíbrio das energias naturais do doente.

Os demais princípios podem ser definidos na sequência abaixo:

2) A renovação de energias depende da acção conjugada dos espíritos terapeutas com o médium curador, que se põe à disposição dos espíritos para a transmissão dos fluidos energéticos através da prece e do passe.

3) A eficácia do passe depende da boa-vontade do médium, que se entrega humildemente à acção dos espíritos, sem perturbá-la com gesticulações excessivas, limitando-se às que os espíritos lhe sugerirem no momento. Não temos nenhum conhecimento objectivo do processo de manipulação dos fluidos pelos espíritos e poderíamos perturbar-lhes a acção curadora com nossa intervenção pretensiosa. O médium é instrumento vivo e inteligente da acção espiritual, mas só deve utilizar a sua inteligência para compreender o seu papel de doador de fluidos, como se passa no caso da doação de sangue nos hospitais.

4) A acção curadora dos espíritos não é mágica nem milagrosa; está sujeita a leis naturais que regem a estrutura psicobiológica do homem. A emissão de ectoplasma do corpo do médium para o corpo do doente revela-se actualmente, nas pesquisas russas, como emissão de plasma físico acompanhado de elementos orgânicos. As famosas pesquisas da Universidade de Kirov, na URSS, comprovaram e confirmaram as pesquisas de Richet, Schrenk-Notzing, Gustave Geley e Eugéne Osty, no século XIX, sobre a acção do plasma físico (quarto estado da matéria) nos efeitos físicos da mediunidade. Na teoria do perispírito, Kardec já havia também, com grande antecedência, constatado a importância da relação espírito-matéria nesses processos.

5) Nos casos de cura à distância, sem a presença do médium, a eficácia depende das condições psicofísicas do doente, que permitem a colaboração do seu próprio organismo nas elaborações fluídicas do plasma, em conjugação com as energias espirituais dos espíritos terapeutas. Kardec considerava o perispírito como organismo semimaterial. Frederic Myers estudou a actividade da mente supraliminar (consciente) e subliminar (inconsciente) em todos esses processos então considerados como misteriosos.

6) As chamadas operações espirituais (hoje paranormais) podem realizar-se por intervenção física do médium, dominado pelo espírito que dele se serve por influenciação mediúnica no transe hipnótico. Mas a simples acção mental do médium pode produzir efeitos físicos no paciente, como Rhine provou nas suas experiências com animais. Rhine resumiu os resultados de suas pesquisas no seguinte princípio: “A mente, que não é física, age por vias não físicas sobre a matéria.” Soal, Carington e outros verificaram que as actividades internas do organismo animal e humano (funções vegetativas e correlatas) são controladas por acção mental sobre o sistema nervoso, vascular e muscular. A teoria do dinamismo psíquico inconsciente de Geley se desenvolve nesse mesmo sentido.

O mistério teológico da encarnação transformou-se actualmente numa questão científica universalmente pesquisada nos maiores centros universitários do planeta. A terapia espírita está hoje respaldada pelas mais recentes e avançadas descobertas científicas. Os que pretendem rejeitá-la com argumentos se esquecem de que os problemas da ciência só podem ser resolvidos por meio de pesquisas e provas. Maldições e anátemas desvalorizaram-se totalmente num processo inflacionário de dois milénios. Não era sem razão a luta cruenta da Igreja contra o desenvolvimento científico. Ela se defendeu ferozmente do atrevimento dos cientistas porque agia sob a compulsão violenta do instinto de conservação. Mas a favor da ciência estavam as leis irresistíveis da evolução. A era científica nasceu ensanguentada dos calabouços medievais em que os mártires do progresso sofriam nas mãos dos inquisidores, à espera das fogueiras divinas em que seriam purificados. A Ciência avançou, apesar de tudo, derrotando os terroristas da magia negra, da antiga e temível Goécia que os próprios clérigos empregavam em suas lutas de política intestina. Coube ao coronel Albert de Rochas, director do Instituto Politécnico de Paris, pesquisar em laboratório os possíveis efeitos da magia negra, demonstrando o engano dos que a consideravam dotada de poder diabólico. O desprestígio da superstição permitiu aos médiuns, hoje chamados sujeitos paranormais (nem anormais, nem patológicos, nem diabólicos), transformarem-se nos instrumentos humanos da investigação científica das potencialidades da criatura humana. Actualmente a própria Igreja dispõe de organismos de pesquisa dos fenómenos que antes considerava como estigmas infamantes da maldição divina.

Quando a Academia de França reconheceu a realidade do magnetismo e seu interesse científico, mas mudando-lhe o nome para hipnotismo, Kardec escreveu um artigo sobre o facto na Revista Espírita, lembrando que o magnetismo cansara de bater à porta da Academia, sendo sempre enxotado. Por fim resolvera mudar de nome e entrar na casa pela porta dos fundos, sendo então recebido e aclamado pelos cientistas. O mesmo acontece agora com o Espiritismo, que, sendo baptizado na universidade de Duke com o nome de Parapsicologia, teve entrada franca e entusiástica na URSS e no Vaticano. Na verdade, a Parapsicologia, com roupa nova, linguagem grega e seguindo as pegadas de Kardec, para atingir os seus mesmos objectivos, nada ofereceu de novo ao mundo actual além de sua roupagem tecnológica. Prestou, assim mesmo, um grande serviço ao mundo materialão, conseguindo despertar-lhe o interesse pelos problemas espirituais. Os materialistas e os religiosos formalistas tinham medo dos espíritos. Rhine conseguiu mostrar-lhes, por meios estatísticos, que todos somos espíritos. O medo se foi e com ele a ilusão da matéria desfeita na poeira atómica da Nova Física.
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José Herculano Pires, Ciência Espírita e suas implicações terapêuticas, 2 Princípios da Terapêutica Espírita 2 de 2, 7º fragmento.
(imagem: O peregrino sobre o mar de névoa, por Caspar David Friedrich)

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Narrações do Infinito~



LÚMEN

Segunda narrativa – I

Refluum temporis
(a
maré
vazante
do
tempo)
…/


   Quœrens – Tive também a ideia de que podia ser assim. Mas, não vos foi fácil ter a certeza do acontecimento e constatar se tratava da Terra, ou se outro astro se achava sob vossa vista, examinando a respectiva posição astronómica?

   Lúmen – Foi o que fiz sem demora, e tal exame me confirmou a minha ideia. O astro onde acabava de aperceber quatro factos análogos a outros tantos acontecimentos terrestres, porém inversos, não me pareceu estar na mesma posição primitiva. A pequena constelação do Altar não existia mais e desse lado onde vos recordais me aparecera a Terra no meu primeiro episódio havia um polígono irregular de estrelas desconhecidas. Fiquei, assim, na persuasão de que não era a nossa Terra sob o meu olhar; a dúvida não me foi mais possível e persuadi-me de haver por terreno de observação um mundo muito mais curioso, de vez que não era a Terra, e sua história parecia representar, em ordem inversa, a história do nosso mundo.

   Alguns acontecimentos, é verdade, não me pareceram ter o respectivo correspondente na Terra; mas, em geral, a coincidência foi muito notável, tanto mais quanto meu desapreço aos falsos instituidores da guerra me havia feito esperar que tal burlesca e desalmada loucura não existisse em outros mundos e que, ao contrário, a maior parte dos sucessos por mim testemunhados eram ainda combates ou preparativos.

   Depois de uma batalha que me pareceu muito semelhante à de Waterloo, vi a das Pirâmides. Um sósia de Napoleão imperador se tornara Primeiro Cônsul e vi a Revolução suceder ao Consulado. Algum tempo decorrido, notei a praça do castelo de Versalhes repleta de carruagens de luto e, em um atalho aberto de Ville-d'Avray, reconheci o lento caminhar do botânico João Jaques Rousseau, o qual, sem dúvida, nesse momento filosofava sobre a morte de Luís XV. O acontecimento que mais feriu minha atenção foi, em seguida, uma das festas de gala do começo do reino de Luís XV, dignas sucessoras das da Regência, nas quais o Erário da França escorria em pérolas de água por entre os dedos de três ou quatro cortesãs adoradas. Vi Voltaire, em gorro de algodão, em seu parque de Ferney, e mais tarde Bossuet passeando no pequeno terraço do seu palácio episcopal de Meaux, não distante da colina cortada em nossos dias pela via-férrea, mas não distingui o menor traço desta indústria. Nessa mesma sucessão de acontecimentos, via os caminhos repletos de carros-diligência, e sobre os mares vastos navios de vela. O vapor havia desaparecido, com todas as usinas que move em nossos dias. O telégrafo estava aniquilado e bem assim todas as aplicações da electricidade. Os balões, que se tinham mostrado de tempos a tempos em meu campo de observação se haviam perdido e o último que eu vira fora o globo informe aerizado em Annonay, pelos irmãos Montgolfier, em presença dos Estados-Gerais. A face do mundo estava transformada. Paris, Lião, Marselha, o Havre, Versalhes notadamente, estavam irreconhecíveis. Aquelas primeiras haviam perdido seu imenso movimento; a última tinha ganhado um brilho incomparável. Eu me havia formado uma ideia incompleta do esplendor realengo das festas de Versalhes; estava agora satisfeito por assistir a uma, e não foi sem interesse que reconheci Luís XV, em pessoa, no esplêndido terraço do Oeste, rodeado de mil senhores enfitados. Era de tarde; os derradeiros fulgores de um ardente Sol se reverberavam na fachada palaciana e casais galantes desciam gravemente os degraus da escadaria de mármore, ou se inclinavam rumo das alamedas silenciosas e sombrias. Minha vista se limitava de preferência sobre a França, ou pelo menos na região do mundo desconhecido que me representava a França, porque é agradável estar longe, bastante longe da sua pátria, e nela sonhar sempre, deixando que, a cada vez, a ela retorne o pensamento com júbilo. Não creiais que as almas desencarnadas sejam desdenhosas, indiferentes, libertas de toda recordação; teríamos assim bem triste existência. Não. Guardamos a faculdade de nos recordar, e nosso coração não se absorve na vida do Espírito. Foi, pois, com um sentimento de júbilo íntimo (do qual vos deixo a apreciação) que revi toda a História da nossa França desenrolar-se, qual se as fases se houvessem positivado em uma ordem inversa. Depois da unificação do povo, vi a soberania de um potentado. Após isso, a feudalidade dos príncipes Mazarin, Richelieu, Luís XIII e Henrique IV apareceram-me em Saint-Germain. Os Bourbons e os Guises recomeçaram para mim as suas escaramuças; acreditei distinguir a matança de São Bartolomeu.

   Alguns factos particulares da história de nossas províncias reapareceram, tal, por exemplo, uma cena de diabruras de Chaumont, que tive ocasião de observar diante da igreja de S. João, e o massacre dos Protestantes em Vassy. Comédia humana! muitas vezes tragédia! Subitamente, vi erigir-se no Espaço o cometa magnífico, em forma de sabre, de 1577. Em um plano brilhantemente adornado, divisei Francisco I e Carlos V saudando-se. Luís XI me apareceu sobre um terraço da Bastilha, acompanhado das suas duas sombras pandilheiras. Mais tarde, meus olhos, voltando-se para uma praça de Ruão, distinguiram forte fumarada e chamas; no meio delas, consumia-se o corpo de Joana d'Arc, a virgem de Orleães.

   Na persuasão de que esse mundo era a exacta contra-partida da Terra, eu adivinhava de antemão os acontecimentos que ia ver. Assim, quando, depois de haver avistado S. Luís, que morria sobre cinzas perto de Tunis, assisti à oitava cruzada, depois à terceira (onde reconheci Frederico Barbaroxa, com a sua barba), e ainda à primeira (na qual Pedro, o Eremita, e Godofredo me recordaram o Tasso), senti medíocre admiração. Desejei, em seguida, ver, sucessivamente, Hugo Capeto encabeçar uma procissão em pluvial de oficiante; o concílio de Tauriacum decidir que o julgamento de Deus vai pronunciar-se na batalha de Fontanet, e Carlos, o Calvo, fazer massacrar 100.000 homens e toda a nobreza Merovíngia; Carlos Magno coroado em Roma, a guerra contra os Saxões e Lombardos; Carlo Martel martelando os sarracenos; o rei Dagoberto fazendo edificar a abadia de Saint-Denis, de igual modo que vi o papa Alexandre III colocar a primeira pedra de Notre Dame; Brunehaut (ou Brunhilde) arrastado, nu, pelas ruas, preso a um cavalo; os Visigodos, os Vândalos, os Ostrogodos, Clóvis, Meroveu (ou Merowig), aparecer no país dos Salienos – em uma palavra, as origens mesmas da história de França, desenrolando-se em sentido retrospectivo da sua sucessão –, foi efectivamente o que ocorreu. Muitas questões históricas de grande importância, que haviam permanecido obscuras até então, foram tornadas visíveis para mim. Assim, constatei, entre outras, que os franceses são originários da margem direita do Reno e que os alemães nenhuma razão têm para disputar esse rio e principalmente a margem esquerda.

   Existia em verdade, para mim, um interesse maior – que eu não saberia expressar – em assistir às particularidades de acontecimentos dos quais possuía vaga ideia formada através dos ecos não raro enganadores da História, e de visitar países transformados desde muito tempo. A vasta e brilhante capital da civilização moderna havia rapidamente envelhecido ao nível das cidades ordinárias, embora bastilhada de torres ameadas. Admirei alternativamente a bela cidade do século XV, os tipos curiosos da sua arquitectura, a célebre torre de Nesle; os vastos mosteiros de Saint-Germain-des-Prés. Lá, onde flore agora o jardim da Torre Saint-Jacques, reconheci o pátio sombrio do alquimista Nicolau Flamel. Os telhados redondos e pontudos ofereciam o aspecto bizarro de cogumelos nas bordas de um rio. Depois, essa aparência feudal havia desaparecido, para abrir lugar a um pesado castelo erguido no meio do Sena, rodeado de algumas choupanas, e, enfim, a uma verdadeira planície onde se distinguiam apenas algumas choças de selvagens. Paris não existia mais, e o Sena rolava suas águas silenciosas por entre ervas e salgueiros. Ao mesmo tempo, salientei que dessa civilização o foco se havia deslocado e descido rumo ao Sul. Devo confessar-vos, meu amigo, em circunstância alguma experimentou minha alma um sentimento assim de tão vivo júbilo, quanto no momento em que me foi dado ver a Roma dos Césares em seu esplendor. Era um dia de triunfo e, sem dúvida, sob os principados sírios, pois, no meio das magnificências exteriores, de carros luzidos, de auriflamas de púrpura, duma assembleia de damas elegantes e de ministros de ribalta, distingui um imperador molemente estendido em amplo e dourado carro, inteiramente vestido de seda clara e coberta de pedrarias, de ornamentos de ouro e prata refulgindo sob o Sol de meio-dia. Só poderia ser Heliogábalo, o sacerdote do Sol. O Coliseu, o templo de Antino, os arcos de triunfo e a coluna Trajano estavam erguidos, e Roma se encontrava em toda a sua beleza arqueológica, derradeira beleza que era apenas uma cena de teatro para coroados. Algo mais tarde, assisti à grandiosa erupção do Vesúvio, que sepultou Herculano e Pompéia.

   Por um momento vi Roma em chamas e, embora não haja podido destacar Nero no seu terraço, persuadi-me de que tinha sob meu olhar o incêndio do ano de 64 e o sinal das perseguições cristãs. Algumas horas decorridas, minha atenção estava presa em examinar os vastos jardins de Tibério, em Capreia (hoje Capri), e acabava de ver esse imperador chegar perto do tabuleiro de rosas, rodeado de um grupo de mulheres nuas, quando, em consequência da rotação da Terra, a Judéia veio colocar-se sob minhas vistas, que adivinharam imediatamente Jerusalém. Jesus, carregando sua pesada cruz, subia custosamente a colina do Gólgota, escoltado por uma tropa de soldados e seguido pela populaça de judeus. Esse espectáculo é um daqueles que jamais esquecerei. Foi para mim bem diferente do que para os assistentes de então, pois a glória futura (e contudo passada) da Igreja cristã se desenrolava, a meu ver, no nível de uma coroação do divino sacrifício... Não insisto; compreendeis quais os diversos sentimentos que agitaram minha alma nesta observação suprema...

   Revindo mais tarde rumo a Roma, reconheci Júlio César estendido sobre a sua pira, tendo à cabeceira António, cuja mão esquerda segurava, creio, um rolo de papiro. Os conjurados desciam apressadamente às bordas do Tibre. Remontando, por legítima curiosidade, à vida de Júlio César, eu o reencontrei com Vercingétorix no meio dos Gauleses, e pude constatar que de todas as hipóteses dos nossos contemporâneos a respeito de Alésia, nenhuma acerta com o lugar verdadeiro, atendendo-se a que essa fortaleza estava situado sobre...
/…


CAMILLE FLAMMARION, Narrações do Infinito, LÚMEN Segunda narrativa – I (2 de 3) fragmento global 12º (C. Flammarion faz falar uma alma liberta dos vínculos corporais, a que ele denominou Lúmen)
(imagem: Jungle Tales_1895, pintura de James Jebusa Shannon)

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Seres Radiantes do espaço ~


Capítulo I

Vivemos numa época notável na História do mundo. O universo desconhecido e invisível levanta, lentamente, os véus que nos ocultavam os seus maiores segredos.

Forças de uma potência incalculável foram reveladas, e o homem, com sucesso crescente, trabalha para a sua aplicação.

Citemos, inicialmente, a electricidade. Há meio século, ela era ainda uma curiosidade científica, como cita o general Ferrié em artigo reproduzido em várias revistas. E, eis que ela se tornou um dos elementos essenciais do progresso e não saberíamos mais viver sem ela, sob as formas diversas que apresenta no seu uso industrial e nas mil necessidades da vida diária: corrente contínua, corrente alternada, electricidade estática, ondas hertzianas, raios catódicos, etc.

O general Ferrié enumera os diversos modos de transmissão do pensamento humano através do Espaço; a telegrafia com fio chegou, com o auxílio dos aparelhos Baudot, a transmitir 10.000 palavras em uma hora e por linha. Os cabos submarinos, que transmitem 100.000 palavras por dia, vão aumentar o seu consumo, por processos novos, de tal modo que as tarifas poderão ser bastante diminuídas.

Da telefonia com fio, que permite comunicar a 6.000 km de distância, passemos aos procedimentos sem fio. Neste campo já se pode dizer que a França é, actualmente, a maior potência do mundo dotada de postos de T.S.F. O de Croix-d’Hinx, próximo de Bordeaux, é chamado de Estação Lafayette e pode ser ouvido de todos os pontos do globo. Logo será ultrapassado pelo de Sainte-Assise em vias de acabamento.

No momento, estuda-se o meio de transmitir por T.S.F. desenhos fotografados, escritas, isto é, cartas inteiras, com os documentos anexados.

A electricidade das ondas hertzianas nos reserva outras surpresas. E, entretanto, conclui o general Ferrié, apesar de todas as pesquisas e de nossos trabalhos, ignoramos ainda a verdadeira natureza dessa força maravilhosa, facto este constatado várias vezes por homens de valor.

No decorrer de palestras espiritualistas e, sobretudo, no final de certas palestras contraditórias, várias vezes apresentaram-me essa questão: “O que é a energia nas formas diversas sobre as quais ela actua e que se nos tornaram familiares?” Graças aos ensinos de nossos guias espirituais, estamos em condição de responder: “A energia decorre dessa corrente imensa de forças que percorre o Espaço, regula a marcha dos astros e alimenta a vida de todos os seres nos planetas”.

A electricidade, as ondas hertzianas e todas as forças radiantes, cuja existência constatamos hoje, são apenas emanações derivadas, e poderíamos até dizer parcelas, dessa poderosa corrente de força e de vida que anima o Universo e cuja fonte está em Deus.

A energia ou movimento representa a acção mais sensível do ser universal, no tempo e no Espaço. Deus é a fonte da vida e a vida se manifesta pelo movimento.

Duração, Espaço e Movimento formam, na sua reunião, a unidade que se manifesta: Deus!
/…


Léon Denis, O Espiritismo e as Forças Radiantes, Capítulo I, 1 de 3, 1º fragmento da obra.
(imagem: Ascensão de Cristo, pintura de Salvador Dali, 1958)

quarta-feira, 27 de junho de 2012

O Espiritismo na Arte~


Parte III

Senso artístico
– Constituição e evolução
|Março de 1922|

Em que consiste o senso artístico?

O estudo atento da alma nos mostra que tudo na natureza – os sons, os perfumes, os raios de luz, as cores – encontra em nós suas correspondências, suas analogias, e que suas radiações se fundem e se harmonizam às profundezas do ser, na medida da nossa evolução. É isso o que constitui o senso artístico, a compreensão do belo sob todas as formas.

A evolução desse senso íntimo, a faculdade de expressá-lo, desenvolvem-se nas almas de vidas em vidas e terminam por produzir o talento, o génio. Nos aspectos superiores da arte, o artista encontra a alta concepção da beleza eterna; ele compreende que sua fonte única está em Deus. Do infinito, essa fonte se lança sobre todos os seres e os penetra de acordo com o seu grau de receptividade.

Raios de luz e cores, sons e perfumes, estão ligados por um encadeamento, uma espécie de escala da qual cada nota representa uma soma particular de vibrações e que constituem, em seu conjunto, uma unidade perfeita. Se a ela se juntam as formas e as linhas, essa unidade se tornará a lei geral do belo, e a arte, em suas múltiplas manifestações, terá por objectivo reproduzi-las.

O estudo da arte e suas realizações nos impregnam, pouco a pouco, de esplendores do Universo. Inicialmente insensível e inconsciente no homem primitivo, esse trabalho acaba consciente, acentua-se, revela-se sob formas crescentes para se tornar como que um reflexo da suprema beleza.

Porém, sobre a Terra, a arte ainda é apenas um balbucio. Nos outros mundos, e principalmente no espaço, dizem-nos os nossos guias, ela produz maravilhas perto das quais as mais belas obras humanas pareceriam bem pobres e quase infantis. Chegada a essas alturas, a arte torna-se a forma mais sublime do culto prestado à divindade.

Até aqui o artista se inspirou nas coisas do mundo visível ou tangível; dele ouviu as vozes, as harmonias; estudou-lhe as formas, as cores e com elas conseguiu impregnar suas obras. Assim, o artista criou uma comunhão mais íntima entre o homem e a natureza. Graças a ele, as coisas obscuras e mudas tomaram uma alma e suas vagas aspirações, suas queixas, suas dores encontraram expressões que, tornando-as mais vivas, as aproximavam de nós, ao mesmo tempo em que a alma humana tornava-se mais sensível ao contacto da vida exterior.

Assim, a arte entregou à vida do globo o sentido profundo que lhe faltava. Por meio da arte, as forças cegas da natureza penetraram em nós e adquiriram como que um reflexo da nossa consciência e dos nossos sentimentos. A alma humana foi em direcção às coisas e sua influência lhes deu um modo mais intenso de vida e de sensações; por intermédio dessa comunhão a alma da Terra se elevou ao conhecimento de si mesma, de seu papel e de seu grande destino.

Agora, como se pode ver pelas lições de o Esteta, é todo um outro mundo que se abre, é toda uma vida ignorada que surge, mais rica, mais abundante, mais variada do que tudo o que conhecemos até aqui, e a arte vai encontrar nesse meio desconhecido de fontes inesgotáveis de inspiração e de poesia, formas insuspeitáveis do pensamento e da vida.

Desde agora, o domínio da matéria subtil e dos fluidos foi aberto, revelando-se sob aspectos prestigiosos, oferecendo ao homem meios de estudo e de observação que estendem ao infinito o campo de suas pesquisas e de seus conhecimentos científicos. As aparições de espíritos nos acostumaram com todas essas formas de existência extraterrestre, desde as materializações mais densas e mais grosseiras, até às manifestações da mais ideal e mais radiosa vida.

Em nossas conversas regulares com os espíritos-guias, obtemos indicações sobre a vida no espaço, sobre a grandiosidade de formas e de cores, sobre suas suaves e poderosas harmonias, que abrem ao músico, ao pintor, ao escultor, caminhos múltiplos e inexplorados.

Aqueles que possuem faculdades medianímicas irão percebê-los directamente e, com eles, todos os recursos da arte serão enriquecidos. O vasto mundo dos espíritos torna-se acessível aos nossos sentidos, pelos espectáculos e ensinamentos que ele nos reserva. As forças intelectuais da humanidade serão centuplicadas, seu génio artístico criará obras que superarão tudo o que os séculos realizaram.
/…


LÉON DENIS, O Espiritismo na Arte, Parte III – Senso artístico: constituição e evolução, 10º fragmento da obra
(imagem: Mona Lisa 1503-1507 – Louvre, pintura de Leonardo da Vinci)

domingo, 24 de junho de 2012

~~~Párias em Redenção~~~


ASCENSÃO CRIMINOSA E GLÓRIA AMARGA ~

   Transcorrido um ano após o assassínio de Assunta, Dom Girólamo foi assaltado por inesperado pavor. Apareceu-lhe em palácio um irmão da jovem, que vinha em nome da família inteirar-se da vida e da razão do seu demorado silêncio…

   Receando que o visitante estivesse, por acaso, informado de qualquer dado que o pudesse conduzir à verdade, sondou-lhe com toda a habilidade o íntimo, certificando-se de que podia continuar em tranquilidade. Senhor, da situação, apresentou uma estória, que já havia engendrado desde anteriormente, pressupondo qualquer circunstância, e explicou que, na ocasião em que estivera em Florença, a jovem lhe aparecera, dizendo-se cientificada da sua presença na cidade. Informou-lhe necessitar de recursos para se evadir da Toscana. Confessou-lhe pertencer a um jovem que então se encontrava em Génova, preparando-se para seguir ao estrangeiro, e que lhe enviava um mensageiro para consultá-la e levá-la ao seu encontro… Apiedado da moça, aduziu, por quem nutria sentimentos de afeição, em homenagem à sua tia Ângela, não tergiversara em auxiliá-la devidamente, não possuindo, desde a ocasião, qualquer notícia com a qual pudesse ajudar.

   Arengou mais algumas palavras de consolação e ofereceu-lhe o palácio para o necessário repouso da viagem… O visitante, porém, humilde, agradeceu e, comovido, penalizado com a situação da irmã, informou que retornaria incontinente aos seus sítios.

   Fingindo-se sensibilizado pelo destino da moça, ofereceu-lhe pequena bolsa em moedas de prata, pedindo fosse encaminhada à sua mãe, como homenagem pessoal…

   No seu conceito, o dinheiro fora feito para subornar, apagar razões, comprar consciências e silêncios… Facilmente, as moedas mudavam qualquer panorama, segundo pensava, abrindo portas seladas e alargando estradas abruptamente interrompidas. No seu espírito mórbido, somente havia raciocínio para a dissimulação e a iniquidade.

   Evadindo-se de Florença após o assassínio, Girólamo buscara Siena para homiziar-se longe das suspeitas, como fizera antes, fugindo de Siena para Florença.

   Acreditando-se perfeito na sementeira dos delitos, supunha-se sem testemunhas. O espectáculo da paisagem, naquela manhã, brilhava na sua mente. Todavia, entre as moitas, jovem pastor, estarrecido, acompanhara a cena brutal, na qual ele abatera a amante infeliz.

   Depois de um sono hediondo, em que experimentava as Fúrias nas próprias carnes, a desditosa moça, transcorrido longo período de inconsciência – menos para as dores superlativas –, despertou agónica, irreconhecível, no Mundo Espiritual. Seu espírito, que chafurdara demoradamente nos ultrajes à matéria e às leis do equilíbrio, após a destruição dos tecidos orgânicos na vala em abandono, revolvida por chacais e aves de rapina, em que experimentava as punhaladas certeiras que lhe foram cravadas e que não cessavam de perfurar-lhe o corpo, cujas sensações estavam fortemente impressas no perispírito, acordou exangue, atordoado, só a muito custo concatenava ideias e recordando, por fim, o que lhe ocorrera. Ignorando as realidades da vida após a morte, surpreendeu-se por se  encontrar viva, não obstante tudo quanto sofrera. Desejando, porém, sair dali, sentiu-se amarrada aos despojos e constatou, a custo, horrorizada, a realidade em que se encontrava. Surpreendeu-se com a presença de outros seres que a desvencilharam dos vínculos que a retinham ao local, passando a sofrer-lhes nefasta perseguição, em cuja aflição era acometida incessantes vezes por delíquios, de que despertava mais violentada, mais sofrida…

   O tempo perdera a significação na sua desdita. Conquanto seviciada pela horda que a arrastava, impiedosa, para toda parte, sabia-se vítima do amante, por quem experimentava o ardor do ódio incessante queimando e requeimando-a por dentro. Por mais desejasse vê-lo, enfrentá-lo, desferir sua vingança, não conseguia libertar-se da chusma de sequazes do mal, iguais a ela, a que aderira por força que lhe era desconhecida.

   É que faltava um elemento preponderante para reencontrar o nefando companheiro. E esse elo foi ele próprio quem forneceu.

   Na noite de núpcias, enquanto se entregava às muitas libações, pareceu recordar as cenas acontecidas no lustro passado, naquele palácio e, automaticamente, febricitado de desejos, recordou a comparsa, lamentando ter sido obrigado a silenciá-la. Foi, então, acometido de estranha saudade…

   O pensamento em desalinho – vibração que se espraia e sintoniza onde e quando encontra equivalente de onda – foi localizar Assunta atada à turba de vândalos espirituais.

   Chamada mentalmente, sentiu-se ligar ao lúbrico dissipador e como ele prosseguisse recordando os múltiplos lances da vida que levavam, conquanto às ocultas, arrancou-a para o seu lado. Como o pensamento prosseguisse em desvairada imaginação, a infeliz, que recebia o apelo telepaticamente, descobriu-se ao lado do criminoso, violentamente convidada e aceita na primeira comunhão mental, depois da tragédia.

   Ressumando todo o ódio de que era capaz seu espírito selvagem, perfeitamente par de Girólamo, agrediu-o violentamente, descarregando nele o vírus mefítico da sua vingança. O moço, em semiletargia, inesperadamente a viu e se estarreceu ante a cena da amante sangrando, deformada, vestes rasgadas, cabelos desalinhados e colados à face suja de sangue e lama. Despertando violentamente, fugiu às pressas do local em que estava, para partilhar de novos brindes, que o inutilizariam, roubando-lhe a lucidez e deixando-o totalmente embriagado, na noite da boda, começando, inconsciente, desde logo, a afligir a esposa, que o acompanhou ao leito em lastimável estado íntimo de apreensão e desencanto…

   Hospedada pela mente de Girólamo, a vítima reencontrou o solar da sua loucura e passou e rever os sítios onde fora feliz e nos quais se desgraçara. Recordando a vida amargurada e vã, lembrou-se do duque, da Senhora Ângela, de Lúcia e das crianças que ela ajudara a matar. Acometida de remorso de fogo, pôs-se a ulular, arrependida, chorando lágrimas de fogo, que lhe pareciam ferir a face e a alma, quando, oh! desdita maior, apareceu-lhe o duque, igualmente deformado, sombrio, acusador…

   – Por que, desgraça – exprobrou-lhe o antigo amo –, te fizeste sicária dos meus amados? Retribuíste afeição com veneno e foste vítima de ti mesma. Acreditavas que o monstro não te consumiria na própria voragem em que se fará consumir logo mais? Esqueceste de tudo quanto recebeste, para somente cuidar das tuas ambições? Onde está o teu esposo, condessa Cherubini?

   A frase final, pronunciada com sarcasmo e ira, penetrou a jovem desventurada de maneira fulminante.

   O espírito da infortunada mulher estribou gargalhada infrene, saindo a correr, seguida pelo duque, que lhe gritava:

   – “Louca! Mesmo louca não me escaparás…”

   Terminadas as festas, o Palácio di Bicci, lentamente, foi retomando a normalidade, conquanto agora o luxo substituía-se a parcimónia de hábitos dos antigos senhores.

   Enquanto as emoções eram novas, no matrimónio, Girólamo desdobrava-se em cortesias e zelos com a esposa. Saía à caça, passeava no bosque, demorava-se em Siena, sempre acompanhado da bela invejada consorte. Os amigos estranhavam-lhe o comportamento, considerando o dito popular na Toscana, originado de Veneza *|, que muito bem caracterizava a dignidade da época.

   Religioso na aparência, participava das solenidades na catedral e na basílica de Provenzano e ostentava as insígnias de cavaleiro nos ofícios públicos, exibindo as honras da Terra, enquanto penetrava cada vez mais fundo nos abismos da própria insânia.
/...

*| Era, então, popular o adágio: “Pela manhã uma missazinha, à tarde uma mesinha de jogo e à noite uma mulherzinha.”



VICTOR HUGO, Espírito – PÁRIAS EM REDENÇÃO, Livro Primeiro, 5 ASCENSÃO CRIMINOSA E GLÓRIA AMARGA (fragmento 3 de 3) texto mediúnico recebido por DIVALDO PEREIRA FRANCO
(imagem: L’âme de la forêt _1898, pintura de Edgar Maxence)