Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

domingo, 18 de maio de 2014

O peregrino sobre o mar de névoa ~


Negros e Índios Terapeutas ~

As manifestações espíritas de negros e índios são comuns, não raro intervindo nos processos de cura. Isso causa espécie a pessoas ainda impregnadas de antigos preconceitos. “Como podem esses espíritos primários ainda apegados à era do barro – dizia-nos famoso jornalista – manifestarem-se como orientadores e terapeutas num meio de civilização superior?” Acontece que a população espiritual da Terra é semelhante à sua população encarnada. Não existem discriminações injustas no tocante às possibilidades de intercâmbio espiritual. O que vale no espírito não é a sua qualificação social, mas a sua condição moral. O processo da reencarnação elimina os motivos dos preconceitos terrenos. Um negro velho, que se manifesta como tal, poderia também manifestar-se apenas como espírito, ou até mesmo como espírito de uma encarnação de amarelo ou de branco por que já passara. Na Inglaterra super-civilizada do século passado o famoso escritor, médico e historiador Arthur Conan Doyle gostava de conversar mediunicamente com espíritos de negros e índios. A entidade hoje considerada, pelos espíritas ingleses, como orientadora do movimento espírita britânico é precisamente Silver Birch, um índio. A sua prudência e sabedoria tornaram-se proverbiais. No Brasil as manifestações de negros e índios são altamente consideradas no meio culto. Um episódio curioso deve ser lembrado como altamente significativo. O cirurgião-dentista católico, Dr. Urbano de Assis Xavier, começou a sofrer inesperadamente de ocorrências mediúnicas, que atribuiu a manifestações epileptóides. Um espírito de negro velho, que dava o nome de Pai Jacó, aconselhou-o a procurar em Matão (SP) o farmacêutico Cairbar Schutel, de origem alemã, director de um jornal e uma revista espíritas. Schutel resolveu submetê-lo a uma experiência mediúnica, mas disse: “Não me agrada a presença desse preto velho”. Realizada a experiência, Schutel disse a Urbano: “Nunca gostei dessas manifestações de negros e índios, mas o seu Pai Jacó encheu-me as medidas, revelando um conhecimento doutrinário que me assombrou.” Mais tarde Pai Jacó explicou a Schutel que ele havia sido um médico holandês em encarnação anterior, mas na última viera como negro. E como nela aprendera e desenvolvera a virtude da humildade, preferia manifestar-se como preto velho.

A famosa médium Yvonne Pereira relata o caso de um índio brasileiro que a auxiliava nos seus desprendimentos mediúnicos, salvando-a de dificuldades diversas. Um ilustre magistrado da Justiça Paulista recebia, ele mesmo, como médium nos seus trabalhos regulares de Espiritismo, o espírito de um índio. São muitos os casos dessa natureza, e as explicações a respeito, dadas pelos próprios espíritos manifestantes, reportam-se sempre às aquisições de virtudes morais que fizeram em encarnações humildes. Parece haver também, nessas manifestações, por sua constância e regularidade, uma acção programada no sentido de mostrar a iniquidade das discriminações raciais. O espírito moralmente elevado não se prende aos tolos condicionamentos e preconceitos dos homens. No Brasil e em toda a América a influência das religiões primitivas de negros e índios são bem marcantes. A terapêutica ingénua dos rituais negros e das beberagens indígenas domina praticamente toda a medicina popular. As crendices mais primitivas gozam de enorme prestígio. As manifestações de espíritos de negros e índios têm contribuído, de maneira ambivalente, para o repúdio e a procura das organizações espíritas. A peneira doutrinária, usada sempre por pessoas de nível cultural acima do vulgar, vai aos poucos corrigindo os excessos do sincretismo religioso, já bastante pesquisado e estudado pelos nossos sociólogos. A mentalidade espírita, já desenvolvida em extensas camadas da população, vai demarcando as linhas evolutivas do processo de depuração. Cabe aos líderes espíritas acelerarem esse processo, com uma difusão mais acentuada e segura dos princípios doutrinários, através das obras fundamentais de Allan Kardec. Negros e índios têm o mesmo direito de colaborar nesta hora de transição, como brancos e amarelos. Mas sem a orientação segura do pensamento doutrinário, nas bases sólidas, lógicas e altamente culturais de Kardec, estaremos ameaçados de cair nos barrancos do caminho pelas mãos pretensiosas de cegos condutores de cegos.

Essa exigência de Kardec nas actividades espíritas é tão natural como a de Cristo no desenvolvimento do Cristianismo. Porque ambos encarnaram, em suas manifestações ônticas e existenciais, cada qual a seu tempo, os princípios fundamentais da revolução conceptual cristã-espírita que ora se realiza de maneira decisiva na preparação da Era Cósmica. Esta não é uma afirmação gratuita, pois visível no processo histórico, nas revelações da pesquisa espírita mundial, nas manifestações de entidades espirituais superiores e na constatação dos examinadores conscientes cultural e espiritualmente capacitados das coordenadas cristãs e espíritas no mundo. Kardec não é dogma, é razão. Temos de nos orientar pela sua obra, porque não existe outra que coloque os problemas cristãos e espíritas com tanta clareza e segurança, sem mistificações e alucinações, impondo-se a todas as mentes racionais e clarividentes que tomaram contacto, em todo o mundo, com a obra kardeciana. É ingénuo ou pretensioso, louco ou megalómano todo aquele que se atreve a tocar na obra de Kardec com a intenção estúpida de adaptá-la aos tempos actuais, para os quais ela foi especialmente elaborada. Essas criaturas insensatas e auto-convencidas de uma lucidez que não possuem, da qual jamais deram a mínima prova, só fizeram até hoje confundir as mentes submissas, acostumadas ao pastoreio clerical. Viciadas a submeter-se aos reformadores providenciais que ensanguentaram a Terra, essas criaturas desviam-se do roteiro cristão e espírita.

A história recente das loucuras de reformadores insensatos está diante de nós no panorama actual do mundo. Os que rejeitam Kardec para aceitar renovadores grotescos de sua obra fazem o papel dos porcos do Evangelho, que refugam as pérolas da verdade porque só desejam o milho da vaidade. Não podem provar os seus dons de profecia, porque só possuem as alucinações de uma vaidade desmedida. As teclas falsas de suas pianolas grotescas só não ferem os ouvidos entorpecidos pela ignorância.

Negros e índios dotados de humildade, não apegados às suas religiões de origem selvagem, formam na linha humilde dos voluntários de boa-vontade que nada querem para si mesmos e tudo almejam de verdadeiro e bom, de legítimo e puro para toda a Humanidade. Igualam-se na simplicidade natural dos povos primitivos. Levados à lei de adoração, deslumbram-se com as manifestações dos espíritos superiores e mostram-se sensíveis à doutrinação espírita. A bondade natural do homem antes da queda social da teoria de Rousseau renasce nesses espíritos que aprenderam a solidariedade tribal na selva. Aprenderam na educação tribal, que as pesquisas antropológicas e pedagógicas revelaram ser sempre tocada de bondade e paciência, o respeito pelos companheiros e aliados, só considerando como maldosas as criaturas inimigas. Essa ingenuidade selvagem, desenvolvida no contacto com a natureza, como observou Ernesto Bozzano em Popoli Primitive e Manifestazzioni Supernormale, permite as relações paranormais entre homens e espíritos, numa cosmossociologia semelhante à que Durkhaem assinalou na condição natural das cidades gregas antigas, em que deuses e homens conviviam em plena Natureza. Dessa maneira, os espíritos de negros e índios utilizam-se também, quando permitido pelos espíritos superiores, de sua terapêutica primitiva e natural, misturando práticas das selvas da América e da África. É a contribuição paranormal ou espírita à medicina folclórica ou popular.

Essa miscigenação cultural, amplamente difundida em toda a América, não corre por conta dos negros e índios, mas dos brancos que, por interesses subalternos e de maneira cruel os arrancaram de suas nações para submetê-los à escravidão. Espíritos europeus arrogantes, que se encharcaram de orgulho nas civilizações de guerras de conquistas, reencarnam-se nas selvas para obterem a cura de suas deformações morais e preferem, nas suas relações de pós-morte com os brancos, apresentar-se como negros ou índios, pois, como disse um deles a Yvonne Pereira, “não gostaria de apresentar-se como bandoleiro, assaltante e assassino que foi nas civilizações ditas refinadas”.

O Espiritismo explica a complexidade desse problema e revela a sua grandeza moral no desenvolvimento espiritual da humanidade. É precisamente no plano social terreno, onde a dispersão da unidade humana gera as discriminações, que a reintegração na unidade se vai processar no difícil aprendizado do princípio do amor ao próximo. Negros, amarelos, vermelhos, pardos e brancos desenvolvem as suas aptidões humanas de maneira progressiva, em comum no processo existencial, tendendo sempre para o restabelecimento da unidade. Todas as características do homem, desde a sua constituição física, o desenvolvimento corporal, os desejos, a vontade e as aspirações, até a estrutura da consciência, são do mesmo padrão em todas as raças e sub-raças de cada era do mundo. Cassirer podia acrescentar à sua teoria da noite e do dia, dos homens nocturnos e dos homens diurnos, a teoria da miscigenação universal para a restauração da unidade espiritual e material das espécies num futuro já hoje perceptível. A fragmentação platónica dos arquétipos na matéria se apresenta, à luz do Espiritismo, como um processo de dinamização das potencialidades arquetípicas dos seres na multiplicidade, para uma volta enriquecida à unidade dinâmica visualizada da teoria de Geley. Por isso Léon Denis considerou, em seu livro O Génio Céltico e o Mundo Invisível, o Espiritismo, na sua expressão teórica, como doutrina, e na sua realidade prática, como uma síntese factual do Todo Universal. E isso muito antes de A Grande Síntese de Ubaldi e da obra de Teilhard de Chardin sobre o processo da evolução humana. A visão do Druida de Lorena, como Conan Doyle chamava a Denis, foi uma precognição espantosa, como as que ocorriam no mundo celta.

O homem, com todo o seu orgulho, não passa de um fragmento de ser. A lenda socrática dos andróginos, que Zeus cortou em duas metades, equivale à lenda bíblica de Adão e Eva, criados separadamente para se ligarem na parelha humana. A grandeza do homem não está no seu físico, que não passa de uma metade biológica, necessitando da outra metade para reproduzir-se. Toda a grandeza do homem está no seu espírito, que cria por si mesmo, acima e além das exigências materiais. É no espírito que as unidades perdidas se reencontram e se refundem, como na lenda balzaquiana de Seraphite, o ser total.

/…



José Herculano Pires, Ciência Espírita e suas implicações terapêuticas, Negros e Índios Terapeutas, 17º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: O peregrino sobre o mar de névoa, pintura de Caspar David Friedrich)

sexta-feira, 9 de maio de 2014

o grande desconhecido ~

O GRANDE DESCONHECIDO |

Todos falam de Espiritismo, bem ou mal. Mas poucos o conhecem. Geralmente o consideram como uma seita religiosa comum, carregada de superstições. Muitos o vêem como uma tentativa de sistematização de crendices populares, onde todos os absurdos podem ser encontrados. Há os que o aceitam como nova Goécia, magia negra da Antiguidade disfarçada de Cristianismo milagreiro. Grandes cientistas se deixaram envolver nos seus problemas e se desmoralizaram. Outros entendem que podem encontrar nele a solução para todos os seus problemas, conseguir filtros de amor e os 13 pontos da Lotaria Desportiva. E na verdade os seus próprios adeptos não o conhecem. Quem se diz espírita arrisca-se a ser procurado para fazer macumba, despachos contra inimigos ou curas milagrosas de doenças incuráveis. Grandes instituições espíritas, geralmente fundadas por pessoas sérias, tornam-se às vezes verdadeiras fontes de confusão a respeito do sentido e da natureza da doutrina. O Espiritismo, nascido ontem, nos meados do século passado, é hoje o Grande Desconhecido dos que o aprovam e o louvam e dos que o atacam e criticam.

Durante muito tempo ele foi encarado com pavor pelos religiosos, que viam nele uma criação diabólica para a perdição das almas. Falar em fenómenos espíritas era provocar votos de esconjuro. Ler um livro espírita era pecado mortal, comprar passagem directa para o Caldeirão de Belzebu. Médicos ilustres chegaram a classificar o Espiritismo como fábrica de loucos. Quando começaram a surgir os hospitais espíritas para doenças mentais, alegaram que os espíritas procuravam curar loucos que eles mesmos faziam para aliviar as suas consciências pesadas. E quando viram que o Espiritismo realmente curava loucos incuráveis, diziam que os demónios se entendiam entre si para lograr o povo.

Hoje a situação mudou. Existem sociedades de médicos espíritas e as pesquisas de fenómenos mediúnicos invadiu as maiores Universidades do Mundo. Não se pode negar que a coisa é séria, mas definir o Espiritismo não é fácil. Porque ninguém o conhece, ninguém acredita que se precisa estudá-lo, pensam quase todos que se aprende a doutrina ouvindo espíritos. Os intelectuais espíritas são confundidos com médiuns. Quem escreve sobre Espiritismo não escreve, faz psicografia. Acham que para estudar a doutrina é preciso desenvolver a mediunidade e receber maravilhosas lições de Espíritos Superiores.

Não obstante, o Espiritismo é uma doutrina moderna, perfeitamente estruturada por um grande pensador, escritor e pedagogo francês, homem de letras e ciências, famoso por sua cultura e seus trabalhos científicos e que assinou as suas obras espíritas com o pseudónimo de Allan Kardec. Saber isso já é saber alguma coisa a respeito, mas está muito longe de ser tudo Doutrina complexa, que abrange todo o campo do Conhecimento, apresenta-se enquadrada na sequência epistemológica de:

a) Ciência – como pesquisa dos chamados fenómenos paranormais, dotada de métodos próprios, específicos e adequados ao objecto que investiga, tendo dado origem a todas as ciências do paranormal, até à Parapsicologia actual e ao seu ramo romeno, que se disfarça sob o nome pouco conhecido de Psicotrónica, para não assustar os materialistas.

b) Filosofia – como interpretação da natureza dos fenómenos e reformulação da concepção do mundo e de toda a realidade segundo as novas descobertas científicas; aceita Oficialmente no plano filosófico, consta do Dicionário Filosófico do Instituto de França; no Brasil, reconhecida pelo Instituto Brasileiro de Filosofia, constando do volume Panorama da Filosofia em São Pauto, edição conjunta do Instituto e da Universidade de São Paulo, coordenação do Prof. Luiz Washington Vitta.

c) Religião – como consequência das conclusões filosóficas, baseadas nas provas da sobrevivência humana após a morte e nas ligações históricas e genésicas do Cristianismo com o Espiritismo; considerado como a Religião em Espírito e Verdade, anunciada por Jesus, segundo os Evangelhos; religião espiritual, sem aparatos formais, dogmas de fé ou instituição igrejeira, sem sacramentos.

d) Essa sequência – obedece as leis da Gnosiologia, pelas quais o conhecimento começa nas experiências do homem com o mundo e se desenvolve nas ilações do pensamento, na cogitação filosófica e determina o comportamento humano dentro do quadro da realidade conhecida; como no Espiritismo essa realidade supera os limites da vida física, a moral se projecta no plano das relações do homem com a Divindade, adquirindo sentido religioso.

Colocado assim o problema, a complexidade do Espiritismo se torna facilmente compreensível. Tudo no Universo se processa mediante a acção e o controle de leis naturais, que correspondem à imanência de Deus no Mundo através de suas leis. Toda a realidade verificável é natural, de maneira que os espíritos e as suas manifestações não são sobrenaturais, mas factos naturais explicáveis, resultantes de leis que a pesquisa científica esclarece. O Sobrenatural só se refere a Deus, cuja natureza não é acessível ao homem neste estágio de sua evolução, mas o será possivelmente, quando o homem atingir os graus superiores de sua evolução. Todas as possibilidades estão abertas e franqueadas ao homem em todo o Universo, desde que ele avance no desenvolvimento de suas potencialidades espirituais, segundo as leis da transcendência.

Este volume procura dar uma visão geral do Espiritismo em forma de exposição livre, sem um esquematismo didáctico, mostrando as conotações da Doutrina com as posições culturais da actualidade. Não se trata da suposta actualização tentada por autores que desconhecem as dimensões do Espiritismo e não podem relacioná-la com os avanços científicos, tecnológicos, filosóficos e religiosos da actualidade. A actualização, no caso, é do método expositivo, que revela a plena actualidade da Doutrina e desenvolve alguns temas kardecianos em forma de exposição mais minuciosa, para melhor compreensão dos leitores. A actualização da linguagem e da terminologia doutrinárias nas obras de Kardec é uma pretensão descabida. Cada doutrina, científica ou filosófica, tem a sua própria terminologia, que só se transforma diante de novos factos ocorridos na pesquisa. Por outro lado, essas actualizações, como sabem os especialistas, geralmente se transformam em atentados à doutrina, pela falta de conhecimento dos que pretendem fazê-las. Uma doutrina actualiza-se na proporção em que evolui, com acréscimos reais de conhecimentos no desenvolvimento de seus princípios. Não existe, no mundo actual nenhum centro de pesquisas e estudos espíritas que tenha avançado legalmente além de Kardec, através da descoberta de novas leis da realidade espírita. O Espiritismo avança, pelos seus princípios e os seus conceitos, muito além da realidade actual. E mesmo que não avançasse, ninguém teria o direito de interferir na obra de Kardec, como na obra de qualquer outro cientista. É livre o direito de contestar através de outras obras, mas não há direito nenhum que permita a um pintamonos desfigurar as obras clássicas da cultura mundial.

Os capítulos deste livro correspondem a exposições doutrinárias feitas pelo autor em várias ocasiões, em palestras feitas com debates, até mesmo em numerosas Faculdades de Teologia católicas e protestantes, bem como em debates de televisão. Por isso, são capítulos escritos em linguagem livre, dando ao leitor a possibilidade de discutir os problemas consigo mesmo, tentando refutar as teses expostas. Esperamos que os meios espíritas, particularmente aproveitem estes capítulos para uma incursão mais corajosa nas possibilidades de conhecimento que o Espiritismo nos oferece em todos os campos das actividades humanas e em face dos múltiplos problemas que nos desafiam nesta hora de transição da cultura humana.

São anos de estudos, experiências, investigações e intuições espirituais que se acumulam nestas páginas, ao correr das teclas, mas sob rigoroso controlo da razão. Que no Espiritismo tudo deve ser rigorosamente submetido a apreciações e críticas racionais.

/…



José Herculano Pires, Curso Dinâmico de Espiritismo, O Grande Desconhecido 1º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Somos as aves de fogo por sobre os campos celestes, pintura em acrílico de Costa Brites)

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Deus na Natureza ~


A Força e a Matéria I Posição do Problema (V)

   Um terceiro erro, capital e imperdoável em cientistas de certa idade, é se imaginarem no direito de afirmar sem provas, a se embalarem na doce ilusão de serem os outros obrigados a acreditar em palavras. Coisas que a verdadeira Ciência profundamente silencia, afirmam-nas eles, categóricos. Afirmam, como se houvessem assistido aos concelhos da Criação, ou como se fossem os próprios autores dela.

  Eis alguns espécimes de raciocínios, cuja infalibilidade é tão ciosamente proclamada.

  Que os espíritos um tanto afeitos à prática científica se dêem ao trabalho de analisar as seguintes afirmações:

  Moleschott diz que a força não é um Deus que impele, não é um ser separado da substância material das coisas (quer dizer separado ou distinto?). É a propriedade inseparável da matéria, a ela inerente de toda a eternidade. Uma força, não ligada à matéria, seria um absurdo. O azoto, o carbono, o oxigénio, o enxofre e o fósforo têm propriedades que lhes são inerentes de toda a eternidade... Logo, a matéria governa o homem.”

  Cada uma destas afirmativas, ou negativas, é uma petição de princípios, a depender do sentido que dermos aos termos discutíveis utilizados; mas, em suma, o que elas resumem é que a força vale como propriedade da matéria. Ora, essa é, precisamente, a questão. Os campeões da Ciência, que pretendem representá-la e falar com e por ela, não se dignam de seguir o método científico, que é o de nada afirmar sem provas. Nas dobras do seu estandarte, com letras douradas, estereotiparam uma legenda fulgurante, a saber: – toda proposição não demonstrada experimentalmente só merece repúdio – e, no entanto, logo de início, esquecem a legenda. São pregadores de uma nova espécie: façam o que digo e não o que eu faço.

  Veremos, com efeito, que, quantos afirmam que a força não impulsiona a matéria, exprimem um conceito imaginativo, nada científico.

  Ouçamos, ainda, outras afirmativas gerais: “A matéria – diz Emil du Bois-Reymond – não é um veículo ao qual, à guisa de cavalos, se atrelassem ou desatrelassem alternativamente as forças. As suas propriedades são inalienáveis, intransmissíveis de toda a eternidade.”

  Quanto ao destino humano, eis como se exprime Moleschott: “Quanto mais nos convencemos de trabalhar para o mais alto desenvolvimento da Humanidade, por uma judiciosa associação de ácido carbónico, de amoníaco e de outros sais, de ácido húmico e de água, mais se nobilitam a luta e o trabalho”, etc.

  E também no nosso país: “Uma ideia – diz a Revista Médica – é uma combinação análoga à do ácido fórmico; o pensamento depende do fósforo; a virtude, o devotamento, a coragem, são correntes de electricidade orgânica”, etc.

  Quem vos disse tal coisa, senhores redactores? Olhem que os leitores hão de pensar que os vossos mestres ensinam esses gracejos, quando tal se não dá, absolutamente. Mesmo porque, do ponto de vista científico, esses raciocínios são totalmente nulos. De facto, não se sabe o que mais admirar em tais expoentes da Ciência: se a singular audácia, se a ingenuidade de suas presunções.

  Newton não se cansava de repetir: “parece-nos...”, e Képler dizia: “submeto-vos estas hipóteses...”. Aqueles outros, porém dizem: afirmo, nego, isto é, aquilo não é, a Ciência julgou, decido, condeno, posto que no que dizem não haja sombra de argumento científico.

  Um tal método pode ter o merecimento da clareza, mas ninguém o inquinará de modesto, nem de verdadeiramente científico.

  É que tais senhores têm a ousadia de imputar à Ciência a carga pesada das suas próprias heresias. Se a Ciência vos ouvisse, senhores (mas deve ouvir, porque sois seus filhos) – se a Ciência vos ouve, não pode deixar de sorrir das vossas ilusões.

  A Ciência, dizeis, afirma, nega, ordena, proíbe... Pobre Ciência, em cujos lábios pondes grandes frases, atribuindo-lhe ao coração um descomunal orgulho.

  Não, meus senhores, e vós bem o sabeis (cá entre nós) que, nestes domínios, a Ciência nada afirma, nem nega, porque apenas procura.

  Reflecti, pois, que a armadura das vossas parlandas ilude os ignorantes e pode induzir em erro quantos não tiveram a faculdade de perlustrar os vossos estudos, e considerai que, quando nos arrogamos o título de intérpretes da Ciência, ficamos na obrigação de não falsear o título, de permanecer-lhe fiel e, por consequência, modestos tradutores de uma causa que tem na modéstia o seu primacial merecimento.

  Se, da questão da força, em geral, passarmos à da alma, observaremos que, na esfera da vida animal, ou humana, os adversários não vacilam em afirmar, igualmente sem provas, que não existe personalidade no ser vivente e pensante; que o espírito, como a vida, mais não é que o resultado físico de certos agrupamentos atómicos e que a matéria governa o homem tão exclusivamente quanto, a seu ver, governa os astros e os cristais. O fenómeno mais curioso é o de imaginarem que aclaram o problema com as suas explicações obscuras:

  – “O espírito, diz o Dr. Hermann Scheffler (i), outra coisa não é senão uma força da matéria, imediatamente resultante da actividade nervosa”...

  Mas... de onde provém essa actividade nervosa?

  – Do éter (?) em movimento nos nervos. De sorte que, os actos do espírito são o produto imediato do movimento nervoso, determinado pelo éter, ou do movimento deste nos nervos – ao qual importa ajuntar uma variação mecânica, física ou química, da substância imponderável dos nervos e de outros elementos orgânicos...

  – Eis aí, suponho, bem esclarecida a questão. Virchow diz que “a vida não é mais que modalidade particular da mecânica”; e Büchner afirma que “o homem não passa de produto material; que não pode ser o que os moralistas pintam; que não tem faculdade alguma privilegiada”.

  – Que há em todos os nervos uma corrente eléctrica – predica Dubois-Reymond – e que o pensamento mais não é que movimento da matéria. Para Vogt, as faculdades da alma valem como funções da substância cerebral e estão para o cérebro como a urina para os rins (ii). E Moleschott assegura que a consciência, a noção de si mesmo, mais não é que movimentos materiais, ligada a correntes neuro-eléctricas e percebidas pelo cérebro.

  Teremos o ensejo de assinalar, mais adiante, um ditirambo deste mesmo autor sobre o fósforo, o peso do cérebro, as ervilhas e lentilhas. Por agora, limitemo-nos a estes edificantes testemunhos.

  Admiremos, sobretudo, a conclusão fundamental: “E aí temos nós porque os sábios definem a força uma simples propriedade da matéria. Qual a consequência geral e filosófica desta noção tão simples quanto natural? É que aqueles que falam de uma força criadora, tendo de si mesma originado o mundo, ignoram o primeiro e mais simples princípio do estudo da Natureza, baseados na Filosofia e no empirismo.”

  E, acrescentam – “qual o homem instruído, com um conhecimento mesmo superficial das ciências naturais, capaz de duvidar não seja o mundo governado como geralmente se afirma, e sim que os movimentos da matéria estão submetidos a uma necessidade absoluta e inerente à própria matéria?“

  Assim, pela só autoridade de alguns alemães, que vêm ingenuamente declarar não admitirem, seja como for, a existência de Deus e da alma, agarrando-se embora a uma sombra de noção científica por justificar as suas fantasias, teríamos nós, a seu ver, de abjurar a Ciência, ou deixar de crer em Deus.

  Tivessem tido apenas a precaução de aplicar as regras do silogismo ao seu método; tivessem tido o cuidado de propor, primeiramente, as premissas irrefutáveis e não tirar delas senão uma conclusão legítima, e poderíamos acompanhá-los no raciocínio e conferir-lhes um prémio de retórica. Mas, vede em que consiste o seu processo:

  Maior – A força é uma propriedade da matéria.

  Menor – Portanto, uma propriedade da matéria não pode ser considerada superior, criadora ou organizadora dessa matéria.

  Conclusão – Logo, a ideia de Deus é uma concepção absurda.

  É assim que arvoram, antes de tudo, em princípio a tese a discutir.

  Combatendo cerradamente os métodos do Cristianismo, essa gente muito se assemelha aos que, no intuito de provarem aos Romanos a divindade de Jesus, assim começavam:


  – Jesus é Deus, e desse princípio não provado extraiam todas as deduções.

  Convictos estamos de honrar grandemente esses escritores, aplicando aos seus postulados as regras do raciocínio, que eles talvez nunca sonharam seguir.

  Também poderíamos submeter-lhes as pretensões a uma outra forma mais ingénua, assim:

  Antecedente – Matéria e força encontram-se sempre associadas.

  Consequente – Logo, a força é uma qualidade da matéria.

  Aí temos, penso, um entimema de novo género e de consequências bem evidentes, pois não? Mas, é assim que os senhores Alemães raciocinam, bem como os seus clarividentes imitadores, positivistas da nossa moderna França.

  No primeiro caso, o raciocínio peca pela base; e, no segundo, nem mesmo faz jus a essa censura, porque é uma infantilidade.

  Certo, pesa dizê-lo, mas é a essa puerilidade, ou melhor – perversão da faculdade de raciocinar – a que se reduz o movimento materialista dos nossos tempos. E nunca, como aqui, vem a propósito a frase do misantropo que dizia não ser o homem um animal pensador, mas, falador.

  Todo o fundamento desta grande querela, toda a base deste edifício heterogéneo, cujo desmoronamento pode esmagar muitos cérebros sob os escombros; toda a força deste sistema que pretende dominar o mundo, presente e futuro; todo o seu valor e potência, repousam nessa assertiva fantasiosa, arbitrária e jamais demonstrada, de ser a força uma propriedade da matéria.

  E é fingindo acompanhar a rigor as demonstrações científicas e só se apoiar em verdades reconhecidas; é confugindo-se ao estandarte da Ciência, apropriando-se de suas fórmulas e atitudes; é, enfim, com ela mascarando-se, que os pontífices do ateísmo e do niilismo proclamam as suas belas e edificantes doutrinas.

  Mas a Ciência não é uma mascarada. A Ciência fala de viseira erguida, não reivindica falsas manobras, nem luzes de falso brilho. Serena e pura na sua majestade, ela se pronuncia simples, modestamente, como entidade consciente do seu valor intrínseco. Nem procura impor-se e, sobretudo, não aventa coisas de que não possa estar segura. Em vez de afirmar ou negar, investiga e prossegue, laboriosamente, no seu mister.

/…
(i) Körper und Gelst, etc.
(ii) Physiologische Briefe.




Camille Flammarion, Deus na Natureza – Primeira Parte, A Força e a Matéria I - Posição do Problema 5 de 6, 9º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Jungle Tales_1895, pintura de James Jebusa Shannon)

terça-feira, 22 de abril de 2014

Diálogos de Kardec ~


IV – A Emancipação da Alma 

  Durante o sono, apenas o corpo repousa; o Espírito, esse não dorme; aproveita-se do repouso do primeiro e dos momentos em que a sua presença não é necessária para actuar isoladamente e ir aonde quiser, no gozo então da sua liberdade e da plenitude das suas faculdades. Durante a encarnação, o Espírito jamais se acha completamente separado do corpo; qualquer que seja a distância a que se transporte, conserva-se sempre preso àquele por um laço fluídico que serve para fazê-lo voltar à prisão corpórea, logo que a sua presença ali se torne necessária. Esse laço só a morte o interrompe.

  “Durante o sono, a alma liberta-se parcialmente do corpo. Quando dormimos, ficamos, temporariamente, no estado em que nos acharemos de modo permanente após a morte. Os Espíritos que depois da morte dos seus corpos se desligaram da matéria, tem sonos inteligentes; quando dormem, juntam-se à sociedade de outros seres que lhes são superiores; viajam, conversam e se instruem com eles, trabalham mesmo em obras que, quando morrem, acham inteiramente acabadas. Isto deve ensinar-nos a não temer a morte, pois que morremos todos os dias, como disse um santo.

  “Assim é com relação aos Espíritos elevados. Quanto à generalidade dos homens que, por ocasião da morte, têm de passar por aquela perturbação, por aquela incerteza de que eles próprios nos têm falado, esses vão ou a mundos inferiores à Terra, aonde os chamam antigas afeições, ou em busca de prazeres ainda mais degradantes, talvez, do que os da sua predilecção neste mundo. Vão à procura de vivências ainda mais vis, mais ignóbeis, mais nocivas do que as que entre nós praticaram. O que gera na Terra a simpatia é apenas o facto de que o Espírito, ao despertar, se sente vinculado, pelo coração, àqueles em cuja companhia acaba de passar oito ou nove horas de ventura ou de prazer. Por outro lado, o que também explica essas invencíveis antipatias que uma criatura às vezes experimenta é que ela sente, dentro do seu coração, que os que lhe são antipáticos possuem uma consciência diversa da sua, pois que ela os conhece sem jamais os ter visto. É também o que explica a indiferença, que nasce da circunstância de não nos interessar o granjeio de novos amigos, quando sabemos que outros contamos que nos amam e nos querem. Numa palavra: o sono influi mais do que supomos na nossa vida.

  “Por meio do sono, os Espíritos encarnados estão sempre em relação com o mundo dos Espíritos e é isso o que faz que os Espíritos superiores consintam, sem grande repugnância, em encarnar entre nós. Deus quer que, enquanto se achem em contacto com o vício, eles possam ir retemperar-se na fonte do bem, para não suceder que também venham a falhar, quando o que lhes cabe é instruir os outros. O sono é a porta que Deus lhes abriu para irem ter com os seus amigos do céu; é o recreio após o trabalho, enquanto aguardam a grande libertação, a libertação final que os restituirá ao meio que lhes é próprio.

  “O sonho é a lembrança do que o Espírito viu durante o sono. Notemos, porém, que nem sempre sonhamos, pois que nem sempre nos lembramos do que vimos, ou de tudo o que vimos. É que a nossa alma não se acha em todo o desenvolvimento das suas faculdades; não é, muitas vezes, mais do que a lembrança da perturbação que experimenta à partida ou à volta, à qual se junta a do que fizemos ou do que nos preocupa no estado de vigília. Se assim não fosse, como explicávamos os sonhos absurdos, que tanto os mais sábios, como os mais simples têm? Também os maus Espíritos se servem dos sonhos para atormentar as almas fracas ou pusilânimes.

  “A incoerência dos sonhos ainda se explica pelas lacunas resultantes da recordação incompleta do que durante eles foi visto. Dá-se então o que se daria com uma narrativa da qual se truncassem frases ao acaso: reunidos, os fragmentos que restassem nenhuma significação racional apresentariam.

  “Em suma, dentro em pouco vamos ver desenvolver-se outra espécie de sonhos, tão antigos como os que conhecemos, mas que ainda ignoramos. O sonho de Joana d’Arc, o sonho de Jacob, os sonhos dos profetas judeus e de alguns adivinhos indianos são lembranças que a alma, inteiramente desprendida do corpo, conserva dessa outra vida de que eu ainda não há muito falava.” (O Livro dos Espíritos, Parte 2ª, cap. VIII.)

  A independência e a emancipação da alma se manifestam, de maneira evidente, sobretudo no fenómeno do sonambulismo natural e magnético, na catalepsia e na letargia. A lucidez sonambulica não é senão a faculdade, que a alma tem, de ver e sentir sem o concurso dos órgãos materiais. É um dos seus atributos essa faculdade e reside em todo o seu ser, não passando os órgãos do corpo de estreitos canais por onde lhe chegam certas percepções. A visão à distância, que alguns sonâmbulos possuem, provém de um deslocamento da alma, que então vê o que se passa nos lugares a que se transporta. Nas suas peregrinações, ela se acha sempre revestida do seu perispírito, agente das suas sensações, mas que nunca se desliga completamente do corpo, como já ficou dito. O afastamento da alma produz a inércia do corpo, que às vezes parece sem vida.

  Esse afastamento ou desprendimento pode também operar-se, em graus diversos, no estado de vigília. Mas, então, jamais o corpo goza inteiramente da sua actividade normal; há sempre uma certa absorção, um alheamento mais ou menos completo das coisas terrestres; O corpo não dorme, caminha, age, mas os olhos olham sem ver, dando a compreender que a alma está algures. Como no sonambulismo, ela vê as coisas distantes; tem percepções e sensações que desconhecemos; às vezes, tem a presciência de alguns acontecimentos futuros pela ligação que percebe existir entre eles e os factos presentes. Penetrando no mundo invisível, vê os Espíritos com quem lhe é possível entabular conversação e cujos pensamentos lhe é dado transmitir.

  De volta ao estado normal, de ordinário sobrevém o esquecimento do que se passou. Algumas vezes, porém, ela conserva uma lembrança mais ou menos vaga do ocorrido, como se tivesse tido um sonho.

  Não raro, a emancipação da alma amortece tanto as sensações físicas, que chega a produzir verdadeira insensibilidade que, nos momentos de exaltação, lhe possibilita suportar com indiferença as mais vivas dores. Provém essa insensibilidade do desprendimento do perispírito, agente transmissor das sensações corporais. Ausente, o Espírito não sente as feridas feitas no corpo.

  Na sua manifestação mais simples, a faculdade que a alma tem de emancipar-se produz o que se denomina o devaneio em vigília. A algumas pessoas, essa emancipação também dá a presciência, que se traduz pelos pressentimentos; em grau mais avançado de desprendimento, produz o fenómeno conhecido pelo nome de “segunda vista”, “vista dupla”, ou “sonambulismo vígil”.

  O êxtase é a emancipação da alma no grau máximo. “No sonho e no sonambulismo, a alma vagueia pelos mundos terrestres; no êxtase, penetra num mundo desconhecido, no mundo dos Espíritos etéreos, com os quais entra em comunicação, sem, todavia, poder ultrapassar certos limites, que ela não poderia transpor sem quebrar totalmente os laços que a prendem ao corpo. Cercam-na um brilho resplandecente e desusado fulgor, elevam-na harmonias que na Terra se desconhecem, invade-a indefinível bem-estar; dado lhe é gozar antecipadamente da beatitude celeste e bem se pode dizer que põe um pé no limiar da eternidade. No êxtase, é quase completo o aniquilamento do corpo; já não resta, por assim dizer, senão a vida orgânica e percebe-se que a alma lhe está presa apenas por um fio, que mais um pequeno esforço faria partir-se.” (O Livro dos Espíritos, nº 455.)

  Como em nenhum dos outros graus de emancipação da alma, o êxtase não é isento de erros, pelo que as revelações dos extáticos longe estão de exprimir sempre a verdade absoluta. A razão disso reside na imperfeição do espírito humano; somente quando ele há, chegado ao cume da escala pode julgar das coisas lucidamente; antes não lhe é dado ver tudo, nem tudo compreender. Se, após o fenómeno da morte, quando o desprendimento é completo, ele nem sempre vê com justeza; se muitos há que se conservam imbuídos dos prejuízos da vida, que não compreendem as coisas do mundo visível, onde se encontram, com mais forte razão o mesmo há de suceder com o Espírito ainda retido na carne.

  Há por vezes, nos extáticos, mais exaltação que verdadeira lucidez, ou, melhor, a exaltação lhes prejudica a lucidez, razão por que as suas revelações são com frequência mistura de verdades e erros, de coisas sublimes e outras ridículas. Também os Espíritos inferiores se aproveitam dessa exaltação, que é sempre uma causa de fraqueza quando não há quem saiba governá-la, para dominar o extático, e, para conseguirem os seus fins, assumem aos olhos deste aparências que o aferram às suas ideias e preconceitos, de modo que as suas visões e revelações não vêm a ser mais do que reflexos das suas crenças. É um escolho a que só escapam os Espíritos de ordem elevada, escolho diante do qual o observador deve manter-se em guarda.

  Pessoas há cujo perispírito se identifica de tal maneira com o corpo, que só com extrema dificuldade se opera o desprendimento da alma, mesmo por ocasião da morte; são, em geral, as que viveram mais para a matéria; são também aquelas para as quais a morte é mais penosa, mais cheia de angústias, mais longa e dolorosa a agonia. Outras há, porém, cujas almas, ao contrário, se acham presas ao corpo por liames tão frágeis, que a separação se efectua sem abalos, com a maior facilidade e frequentemente antes que se dê a morte do corpo. Ao aproximar-se-lhes o termo da vida, essas almas entrevêem o mundo onde vão penetrar e pelo qual aspiram no momento da libertação completa.

/…




ALLAN KARDEC, Obras Póstumas, Primeira Parte, Manifestações dos Espíritos IV – A EMANCIPAÇÃO DA ALMA. 8º fragmento solto da obra.
(na imagem: Dança rebelde, 1965 – Óleo sobre tela, de Noêmia Guerra)

segunda-feira, 14 de abril de 2014

~~~Párias em Redenção~~~


A ESTRANHA PERSONAGEM QUE SURGE DO PASSADO ~


  Girólamo somente dia alto recobrou a consciência. Ignorava completamente como retornara ao Palácio T. Doíam-lhe a cabeça e todo o corpo, sentindo-se amolentado, indisposto. Logo recuperou os sentidos, ocorreu-lhe procurar os sogros, a fim de narrar as alucinações de que vinha sentindo-se objecto nos últimos dias. O problema se lhe afigurava grave, por considerar que nenhum mal-estar de ordem física o afligia. Jovem e animoso, aspirava viver longos anos, no entanto… Além disso, desejava figurar no desfile do palio logo mais, e certamente seria visto pelos familiares da esposa, que lhe não compreenderiam a atitude arredia, desconcertante.

  Nesse comenos, Francesco, que já se refizera da noite gasta na insensatez, adentrou-se pela peça, saudando o amigo e fazendo-se acompanhar de servidor doméstico que trazia o desjejum.

  – Salve, Girólamo!

  – Buondi, Francesco!

  – Que farra, moço! Como consumiste tanto vinho? Trouxemos-te desacordado, graças ao nosso paggio, que nos deu as tuas notícias, informando-nos que estavas vencido

  Algo constrangido, o amigo não pôde ocultar a perturbação.

  – Que se passa, Girólamo? Estás estranho como nunca. Vejo-te empalidecer de súbito, e tremes. Estás enfermo?

  – Sim! Creio estar enfermo – assentiu o hóspede, lívio.

  – Se te sentes indisposto, chamarei o médico – redarguiu, cortês, o amigo.

  – Não, não é necessário. Antes que chegasses, eu reflectia sobre a conveniência de visitar os Castaldi. Penso em desfilar nas solenidades do palio, à tarde, e como toda a família de Beatriz estará no palanque de honra, não passarei despercebido. Justificar-me-ei da melhor forma possível, insistindo, todavia, para demorar-me contigo, a instâncias tuas.

  – Aprovado! Sabes que a nossa é também a tua casa. Após o desjejum, espero-te em baixo. Se desejares, irei contigo, em caso contrário… Coragem, homem! Hoje é o dia por que todos esperamos.

  O bom humor do anfitrião contagiou Girólamo, que se ergueu do leito para o ligeiro asseio e repasto. Não obstante as desagradáveis enxaquecas resultantes da ressaca, a juventude ajudou-o no refazimento e, pouco tempo depois, galopava na direcção do Palácio Castaldi, no outro lado da cidade.

  A construção antiga reflectia a opulência dos proprietários, através da torre alta, característica da época. Um pouco recuada da linha de construção na via de acesso, possuía belo jardim, e árvores frondosas davam-lhe agradável sombra em redor.

  Recebido com espontânea alegria, antes que lhe viessem perguntas embaraçosas esclareceu Girólamo que a ausência da esposa se devia ao inesperado da viagem.

  O Conde Lorenzo, todavia, interrogou-o com malícia e astúcia:

  – Vieste ao palio sem Beatriz?

  – Razões imperiosas fizeram-me assim proceder, – atalhou, com habilidade, o genro. – Estava em Florença, a negócios urgentes, e supunha retornar antes, de modo a trazê-la a participar dos festejos. No entanto, fui mortificado a demorar-me por mais tempo do que o previsto. De retorno a casa, aconteceram-me sucessivos mal-estares, o que motivou a minha jornada directamente a esta casa, para poupar Beatriz a preocupações desnecessárias. Logo que amanhã consulte algum esculápio e me asserene, tornarei ao lar e a trarei para um recreio no palácio dos seus pais…

  – Sim, pareces-me cansado, – alvitrou o sogro. – Onde estão a tua bagagem e compras? Vieste até aqui cavalgando?

  – Não, – respondeu com naturalidade. – A viagem foi feita em coche. Encaminhei o empregado a uma hospedaria e aceitei o convite de Francesco, meu velho amigo, para ficar em sua casa, considerando a rapidez da viagem. Atribuí que tivésseis hóspedes aqui e confesso que precisava demorar-me um pouco com o companheiro…

  – Ora, não há problemas… Gostaria que soubesses que iremos competir no palio.

  O Conde mostrava-se descontraído e alegre.

  – Que motivou a vossa atitude?

  Um moço florentino que me veio oferecer serviços. Não o conheces. E após uma pausa, com um sorriso: – Vem, Girólamo, vem comigo. Ele está aprestando-se para o desfile. Representará o nosso contrada e desfilará com as cores da nossa casa: o branco, o verde, e o vermelho. O contrada oca (*) apresentar-se-á pela primeira vez e esperamos vencer.

  Tomando o genro pelo braço, desceu às cavalariças e apresentou um robusto e belo jovem de menos de 18 anos, aprumado e queimado de sol, que parecia fogoso animal na raia da partida numa disputa hípica.

  As cavalariças estavam movimentadas e, numa baia, admirável palafrém recebia conveniente tratamento de escovas e ração, para o desfile da tarde.

  – Aproxima-te, Carlo! – O Conde Lorenzo chamou o moço, que somente possuía atenções para o animal e para si mesmo. – Este é o Conde Girólamo Cherubini, meu genro.

  Fazendo uma curvatura respeitosa, o florentino saudou-os com todo o respeito, ao amo e ao nobre visitante.

  No afã do entusiasmo, Dom Lorenzo tagarelava efusivamente:

  – Garanto-te que é o melhor ginete que já esteve por estas bandas. Experimentámo-lo muitas vezes. Apostei expressiva soma de escudos e antegozo a vitória. Não te entusiasmas?! Deves estar, mesmo, enfermo. Retornemos… Mal suporto aguardar a hora… Aprontemo-nos, a nosso turno.

  Quando o Conde Cherubini olhou, de relance, Carlo teve um lampejo desagradável, que lesto dissimulou. A sua vez, Girólamo sentiu-se desgostoso com a presença do florentino. Uma antipatia natural, recíproca, flechou-os a ambos, naquele defrontar de espíritos, em circunstância grave, embora a aparência contrária.

  Dali saindo, Girólamo, despeitado com as homenagens que o sogro demonstrava para com o estranho, bon Gré, mal gré, indagou:

  – Donde o conheceis? Trouxe-vos ele carta de recomendação? Pareceu-me vulgar e atrevido. O quanto gostei do animal, detestei o cavaleiro.

  – Não, meu caro, não é o que parece. Pelo contrário: é muito servil e bajulador. Foi-me encaminhado por Schiapparelli, o milanês. Estás cansado, enfadado. Preparemo-nos para a festa.

  – Deverei apressar-me, também, retornando ao Palácio T., para reunir-me a Francesco. Estaremos no desfile entre as autoridades senenses, disputando aplausos. (A vaidade fê-lo sorrir.) Como sabemos que estareis na praça, entre as representações mais importantes… Voltarei depois, para relatar-vos minha enfermidade e ouvir-vos.

  – Não vais saudar a Senhora Condessa?

  – Perdoai-me e pedi desculpa por mim. Logo voltarei. O tempo urge…

  Conduzido ao animal que o aguardava, logo partiu.

  Carlo, porém, não pôde refrear as lembranças. Mesmo após o afastamento do moço nobre, experimentou singular constrangimento. Tinha a impressão de conhecê-lo. Começou a sindicar entre os cavalariços e informou-se da origem do Conde Cherubini e das tragédias que aconteceram, alguns anos recuados, no Solar di Bicci.

  A tagarelice de servos e domésticos, bem como a leviandade de amos e patrões são responsáveis por muitas desgraças, em todos os tempos. A irresponsabilidade de uns e a frivolidade de outros têm veiculado muitas dores em forma de intrigas, traições, delações, calúnias… e verdades de muitos matizes, que poderiam ser evitadas.

  Dando-se conta do peso de misérias que ocorriam a personalidade do visitante, Carlo recordou-se de conhecer aquele rosto, aqueles gestos nervosos, aquele porte… O importante, porém, no momento, era o desfile e a tal entregou-se de mente e coração.

  Enquanto galopava, Girólamo padecia de um presságio desconcertante. Carlo parecia-lhe um inimigo que pela primeira vez defrontava. A ousadia com que o jovem o fitara ferira-o mortalmente. Talvez nele se defrontasse consigo mesmo: aventureiro, atrevido, pusilânime… A verdade é que se sentia perturbado. Procurou banir da mente enferma as ideias deprimentes e acelerou o passo do animal.

  As ruas regurgitavam de gentes. O sol estava a pino, e o ar parado, morno, desagradava. Havia, todavia, por toda a parte, algazarra e movimento.

  Logo chegou ao Palácio T., encontrou a vetusta construção decorada, festivamente, com as cores da família, os pavilhões novos a escorrerem das amplas janelas ogivais, e grande agitação dos visitantes e amigos, que se apresentavam para acompanhar o grupo do nobre Francesco. Apressando-se, Girólamo requisitou um servo para banhá-lo e trajou-se garboso, retirando da arca que trouxera o estandarte da família Bicci, com as borlas características, que eram herdadas da família M. Talvez a sua ousadia provocasse um atrito com os descendentes de Buonaventura, na exibição pretendida. Desejava, entretanto, firmar-se, em definitivo, no conceito geral da cidade, que esperava conquistar, malgrado a disputa que se travava em todos os recantos, pela supremacia dos novos donos do prazer…

  Tivera anteriormente o cuidado de requerer às autoridades modificação no brasão da família, visto que doravante ele se transformaria no tronco de nova árvore genealógica, e adicionara o falcão – que bem representava – aos símbolos do extinto duque. Naquela ocasião, exibiria à cidade, com garbo, as suas insígnias: Conde e cavaliere Dom Girólamo Cherubini di Bicci!

  Enquanto pensava, sentiu-se intumescer de vaidade e orgulho. Atingia, por fim, a ambicionada projecção social, pouco importando o preço que pagara para colimar os objectivos a que se propusera, desde há muito tempo. Enfrentaria a morte, os duelos e repetiria os homicídios, se necessário, para preservar o património árduo, cruamente conquistado.

  Francesco penetrou na peça do hóspede e gritou:

  – Avia-te, homem, ou perdemos o melhor…

  Era guapo o amigo, reconhecia Girólamo, que muito o estimava. Alto e airoso, tinha a cabeleira abundante e encarcolada para dentro, a cair, em tom de mel, sob o capuz de seda que ostentava. O traje colante e em escumilha brilhante tornava-o um deus grego, por momentos descido à Terra. O rosto, de zigomas salientes, e os olhos fulgurantes traíam-lhe a masculinidade. Os lábios grossos, bem desenhados, reflectiam a sensualidade e as narinas arfantes falavam das paixões dificilmente reprimíveis.

  – Estou pronto! Desçamos!

  Os amigos se apoiaram jovialmente, braço a braço, e desceram a larga escada, em ruidosa gargalhada. Em baixo, Lucrécia, cercada pelas damas de companhia, estava deslumbrante. Os moços ficaram estonteados. A jovem dama surpreendia-os, qual se fora um botão de rosa não colhido, saindo das primeiras pétalas a se entreabrirem…

/…

(*) Contrada oca: bairro do ganso.




VICTOR HUGO, Espírito “PÁRIAS EM REDENÇÃO” – LIVRO PRIMEIRO, 8. A ESTRANHA PERSONAGEM QUE SURGE DO PASSADO (1 de 3) 26º fragmento da obra. Texto mediúnico ditado a DIVALDO PEREIRA FRANCO.
(imagem de contextualização: L’âme de la forêt _1898, tempera e folha de ouro sobre painel de Edgar Maxence)

sábado, 5 de abril de 2014

O Espiritismo na Arte ~


Parte V

Participação do mundo espiritual na obra humana.
Espiritismo, novo e vigoroso impulso ao pensamento.

|Maio de 1922|

Num tópico anterior, vimos que a preponderância da literatura francesa se sustentou por muito tempo. Ela possuía tudo o que seduz e cativa. No entanto, uma evolução se impõe, e chega um momento, na história do pensamento, em que a palavra e o gesto já não são suficientes para traduzir as emoções da alma. E é nessa altura que o senso musical desperta e entra em acção na própria literatura, que deve ser como um reflexo da harmonia superior. A manifestação dessa tendência marca um grau a mais na ascensão do espírito em direcção aos níveis mais elevados, assim como acontece no espaço onde a palavra deixa de ser empregada.

Essa evolução do pensamento e das suas manifestações, sob suas inúmeras formas, arte, ciências, letras, será dirigida por uma participação cada vez mais íntima e profunda do mundo espiritual na obra humana.

A revelação espírita proporciona-nos inesgotáveis temas de inspiração e de sensação. Ela nos inicia nas condições de uma vida mais subtil, vida que é a finalidade essencial de toda a ascensão e da qual os detalhes introduzem, nos programas de estudo e pesquisa, uma variedade de elementos que estendem ao infinito os limites das nossas concepções, dos nossos conhecimentos. Daí resulta, forçosamente, uma fecundação, uma renovação completa de ideal que se desfaria e se alteraria sob o domínio das teorias materialistas ou dogmáticas, domínio que vai ter fim, apesar dos esforços desesperados dos seus partidários.

Assim, o Espiritismo dá ao pensamento um novo e vigoroso impulso. Ele traça, na história dos seres e dos mundos, um círculo imenso, que permite todos os sonhos, todos os voos da imaginação; ele abre novas saídas para tudo o que faz o poder, a grandeza, a beleza do Universo.

Até aqui, a forma literária pôde parecer suficiente para exaltar os sentimentos nacionais e tudo o que se relaciona à epopeia das raças humanas e à vida planetária em geral. Ela pôde mesmo parecer excelente e produzir obras-primas que ficarão como monumentos imperecíveis do pensamento e do sentimento. Porém, por mais excelente que ela seja, a literatura torna-se pobre quando se trata de reproduzir as formas superiores da actividade humana.

À medida que os seus horizontes se alargam e que a humanidade se comunica com a vida universal, formas mais perfeitas de expressão e de sensação se tornam necessárias, para responder ao estado vibratório, às radiações crescentes da alma. Uma intuição segura, o instinto do belo, levam o ser espiritual a substituir, na expressão do seu pensamento e no entusiasmo de sua alma, a harmonia pura pela palavra e pela letra. Porém, as revelações do invisível o estimulam a empregar, por sua vez, os procedimentos em uso na vida do espaço.


As qualidades de um belo estilo |

O verdadeiro mérito literário, as qualidades de um belo estilo, consistem em provocar o pensamento, as reflexões do leitor, em lhe criar uma atmosfera mental que contribua para desenvolver, para enriquecer as suas faculdades, as suas forças morais.

Sem dúvida, fazer pensar é nobre, mas o que é mais nobre e mais meritório é elevar a alma em direcção às alturas onde todas essas faculdades se desenvolvem na luz e no amor. É ajudá-la a atingir o grau de evolução que lhe permitirá sentir, não pelos seus órgãos materiais, mas nos seus sentidos íntimos e profundos, as alegrias, as satisfações da vida superior; sentir essa vibração suprema que enche o Universo, segundo o ilustre Esteta, e que provoca a comunhão definitiva com o pensamento divino, o êxtase na beleza compreendida e realizada.


Teatro, meio de educação intelectual e moral; sua decadência |

As obras verdadeiramente belas e importantes tornaram-se raras entre os modernos, seja nas letras ou mesmo no teatro. Este poderia ser um poderoso meio de educação intelectual e moral, pela elevação dos pensamentos, dos sentimentos, pelos nobres exemplos postos diante do público.

Porém, em lugar da sua missão grandiosa e benfazeja, o teatro tornou-se muito frequentemente um método para favorecer as paixões doentias, excitar os sentidos. Em todos esses casos, ele se torna a obra de cépticos gozadores, ignorantes ou descuidados do verdadeiro objectivo da vida; é a espuma brilhante e insalubre, o fruto mórbido de uma civilização deformada pela sedução do prazer e das riquezas.

Quantas vezes, atraído pelo título de uma nova peça, por um brilhante cartaz, fui aos maiores teatros parisienses, na esperança de ali encontrar um alimento substancial no decorrer de uma noite bem empregada. Pobre de mim! as minhas decepções não se contam mais. Em lugar da substância fecunda que eu esperava, eram cenas banais ou equívocas que se desenrolavam diante dos meus olhos. Muita engenhosidade ali se empregava, sem dúvida. As palavras espirituais brotavam em feixes cintilantes ou flutuavam, como bolhas de sabão irisadas, sob as luzes da ribalta (i), mas que o menor sopro arrasta sem deixar nenhum traço na lembrança nem na consciência do espectador, porquanto, o pensamento elevado, o exemplo encorajador, o ensinamento consolador sempre se encontravam ausentes. Além disso, a impressão que dali emanava era a de um vazio ou de impotência, quando não era ainda pior.

É preciso devolver ao teatro a sua dignidade, reconstituir o ideal da cena desonrado por autores inaptos e corrompidos.

Com o espectáculo mudando costumes e meios sociais, que constituem a trama da comédia, é preciso saber escolher o que pode elevar as inteligências e os corações. No entanto, como nos nossos autores contemporâneos o que domina é sempre o tema do amor culpado, do amor doentio, assim se aguçam os apetites carnais, se alimentam as paixões, precipita-se a decadência do teatro e trabalha-se para a corrupção geral.

Parece que a nossa época tem um gosto particular pelos tóxicos. Na ordem material, esse gosto traduz-se pelo uso imoderado do álcool e do tabaco, até mesmo do ópio, do éter e de outras drogas maléficas, de tudo o que provoca as desordens físicas, arruína a saúde, faz a raça definhar. Na classe intelectual, esse gosto manifesta-se por uma espécie de predilecção por uma literatura e espectáculos pervertidos. Aqui o mal é ainda mais grave, porque é a consciência, o senso moral, a dignidade do homem que são atingidos. E daí resulta uma expansão dos apetites sensuais, uma orientação defeituosa da vida e das faculdades.

Eis por que convém procurar todos os meios de elevar as almas, os pensamentos, em direcção a essas regiões em que as emanações do alto varrem todas as impurezas.

Desses cumes radiosos, contempla-se e penetra-se melhor a essência das coisas e de lá se desce com a soma de energia necessária para prosseguir nas lutas deste mundo e afastar de si as tentações perigosas, os prazeres aviltantes.

/…



LÉON DENIS, O Espiritismo na Arte, Parte V Participação do mundo espiritual na obra humana / Espiritismo, novo e vigoroso impulso ao pensamento  As qualidades de um belo estilo / Teatro, meio de educação intelectual e moral; sua decadência (1 de 4) 20º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Mona Lisa 1503-1507 – Louvre, pintura de Leonardo da Vinci)

quinta-feira, 27 de março de 2014

Da sombra do dogma à luz da razão ~


Natureza da Revelação Espírita (VI)

   Se Cristo não conseguiu desenvolver os seus ensinamentos de forma completa, foi porque faltavam aos homens conhecimentos que estes não podiam adquirir antes de tempo e sem os quais não o podiam compreender; havia coisas que teriam parecido um contra-senso na fase de conhecimentos de então. Completar os seus ensinamentos deve-se portanto entender no sentido de explicar e de desenvolver, muito mais que no de lhes acrescentar verdades novas, pois neles tudo se encontra em germe; simplesmente, faltava a chave para captar o sentido das palavras.

   Mas quem se atreve a interpretar as escrituras sagradas? Quem tem esse direito? Quem possui a sabedoria, a não ser os teólogos?

   Quem se atreve? Primeiro a ciência, que não pede licença a ninguém para dar a conhecer as leis da natureza e salta a pés juntos para cima dos erros e dos preconceitos. Quem tem esse direito? Neste século de emancipação intelectual e de liberdade de consciência, o direito de exame pertence a toda a gente e as Escrituras já não são a arca sagrada na qual ninguém ousava tocar nem com um dedo, por correr o risco de ficar fulminado. Quanto à sabedoria especial necessária, sem contestar a dos teólogos e, por muito esclarecidos que fossem os da Idade Média, em particular os padres da igreja, não o eram no entanto o suficiente para não condenarem como heresia o movimento da Terra e a crença nos antípodas; e, sem ir tão longe, os dos nossos dias não lançaram um anátema sobre os períodos de formação da Terra?

   Os homens só conseguiram explicar as Escrituras com a ajuda do que sabiam, das noções falsas ou incompletas que tinham sobre as leis da natureza mais tarde reveladas pela ciência; eis porque razão os próprios teólogos puderam, de muito boa-fé, equivocar-se quanto ao sentido de certas palavras e de certos factos dos Evangelhos. Querendo a qualquer custo encontrar neles a confirmação de uma ideia preconcebida, giravam sempre no mesmo círculo, sem abandonarem o seu ponto de vista, de tal maneira que só viam ali o que queriam ver. Por muito sábios que fossem, não podiam perceber as causas dependentes de leis que não conheciam.

   Mas quem será juiz das interpretações diversas e por vezes contraditórias feitas fora da teologia? O futuro, a lógica e o bom senso. Os homens, cada vez mais esclarecidos à medida que novos factos e novas leis se vão revelando, saberão separar as teorias utópicas da realidade; ora, a ciência dá a conhecer certas leis; o Espiritismo dá a conhecer outrasumas e outras são indispensáveis à inteligência dos textos sagrados de todas as religiões, desde Confúcio e Buda até ao cristianismo. Quanto à teologia, não poderia judiciosamente alegar que as contradições da ciência constituem excepções, quando nem sempre está de acordo consigo mesma.

   O ESPIRITISMO, tomando como ponto de partida as próprias palavras de Cristo, assim como Cristo foi buscar bases a Moisés, é consequência directa da doutrina.

   À ideia vaga da vida futura, acrescenta a revelação da existência do mundo invisível que nos rodeia e povoa o espaço e, com isso, dá precisão à crença; dá-lhe um corpo, uma consistência, uma realidade no pensamento.

   Define os elos que unem a alma e o corpo e levanta o véu que escondia aos homens os mistérios do nascimento e da morte.

   Pelo Espiritismo o homem sabe de onde vem, para onde vai, por que está na Terra e por que nela sofre temporariamente, vendo em tudo a justiça de Deus.

   Sabe que a alma evolui constantemente através de uma série de existências sucessivas, até ter atingido o grau de perfeição que a pode aproximar de Deus.

   Sabe que todas as almas, tendo um mesmo ponto de partida, são criadas iguais, com uma mesma aptidão para evoluir por virtude do seu livre-arbítrio; que todas são da mesma essência e que entre elas só há a diferença da evolução conseguida; que todas têm o mesmo destino e atingirão o mesmo fim, mais ou menos prontamente consoante o seu trabalho e a sua boa-vontade.

   Sabe que não existem criaturas deserdadas, nem umas que sejam mais favorecidas do que outras; que Deus não criou privilegiados, estando dispensados do trabalho imposto a outros para poderem evoluir; que não existem seres perpetuamente votados ao mal e ao sofrimento; que os designados com o nome de demónios são Espíritos ainda atrasados e imperfeitos, que praticam o mal na qualidade de Espíritos como o faziam na situação de homens, mas que evoluirão e melhorarão; que os anjos ou Espíritos puros não são entes à parte na criação, mas Espíritos que atingiram o seu objectivo depois de terem seguido as etapas do progresso; que assim não existem criações múltiplas, nem diferentes categorias entre seres inteligentes, mas que toda a Criação resulta da grande unidade que rege o Universo e que todos os seres gravitam na direcção de um objectivo comum que é a perfeição, sem que uns sejam favorecidos à custa dos outros, sendo todos filhos das suas obras.

/…


ALLAN KARDEC, A GÉNESE – Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo, Capítulo I NATUREZA DA REVELAÇÃO ESPÍRITA números de 28 a 30, 8º fragmento da obra. Tradução portuguesa de Maria Manuel Tinoco, Editores Livros de Vida.
(imagem de ilustração: Diógenes e os pássaros de pedra, pintura em acrílico de Costa Brites)

terça-feira, 18 de março de 2014

Inquietações Primaveris ~


O Acto Educativo |

Por tudo o que vimos até agora, estamos numa fase histórica em que o mistério da morte foi ampla e seguramente resolvido. Não é mais possível a menor dúvida no tocante à sobrevivência de todos os seres vivos ao fenómeno universal da morte. Nada se acaba; a duração das coisas e dos seres é infinita. Esse é um aspecto da realidade que esteve sempre exposto à observação humana, provando-se incessantemente por si mesmo, desde as selvas até às mais elevadas civilizações. Essas provas chegaram no nosso tempo a um ponto decisivo, graças ao desenvolvimento das Ciências, ao esclarecimento cultural que afastou das mentes mais desenvolvidas e capacitadas as dúvidas criadas pelas superstições e pelo comércio religioso da morte em todo o mundo. Apesar disso, a posição da Ciência a respeito da questão permaneceu invariável nos últimos séculos, particularmente nos séculos XVIII e XIX. O entusiasmo pelas conquistas técnicas, pelas vitórias na luta contra a dogmática da Igreja e a esperança ilusória de uma rápida e fácil explicação do mundo pelas teorias mecanicistas, geraram o materialismo simplório e alegre que Marx e Engels chamariam de utópico, reservando para si mesmos a classificação pomposa e temerária de materialismo científico.

Nessa mesma época surgia a Ciência Espírita e abria-se para o mundo uma visão mais séria e grave da realidade total do Universo. Como acentuou Conan Doyle, às invasões inconsequentes e dispersas dos espíritos no nosso mundo terreno, sucedia uma invasão organizada, dirigida por Espíritos Superiores, com a finalidade clara e definida de revelar a verdade cristã, até então trapaceada, na sua pureza essencial. Só então a morte começou a mostrar aos homens a sua face oculta, revelando ao mesmo tempo o sentido verdadeiro da vida e, como acentuou Léon Denis, a sua pesada responsabilidade. Às práticas misteriosas e aterradoras da preparação dos homens para a morte sucediam as primeiras tentativas, pelas mãos de Denizard Rivail, discípulo e continuador de Pestalozzi, no desenvolvimento de uma educação para a morte.

Toda a longa fase anterior, envolta em superstições mágicas e misticismo alienante, dos tempos primitivos até à primeira metade do século XIX, foi apenas de preparação dramática, sombria e trágica da criatura humana para o mistério insondável em que toda a Humanidade seria fatalmente tragada. É incrível que as igrejas cristãs se esforcem tanto, até hoje, para manter essa situação desesperante no mundo. Ainda há pouco o Papa Paulo VI, mostrando-se preocupado com a sua morte próxima, declarou que nada fala a Igreja sobre a morte, a não ser que sobrevivemos a ela numa forma de vida misteriosa. De mistério em mistério, como se vê, os problemas fundamentais da vida e da morte foram escapando das mãos dos clérigos. Hoje esses assuntos passaram para o âmbito da Ciência. Mas é à Educação e à Pedagogia que, em última instância, cabe hoje a obrigação de elaborar os programas de orientação educacional de todos nós para o acto de morrer. Na didáctica especializada dessa nova disciplina ressalta, como ponto central o novo campo educacional, o acto educativo. Nele se concentra, como no núcleo do átomo, todo o poder organizador e orientador do processo a se desenvolver. Para René Hubert e Kerchensteiner, o acto educativo é um acto de amor. Nas pesquisas sobre a Educação primitiva, entre os selvagens, evidenciou-se que a natureza da Educação é essencialmente afectiva, amorosa. Isso nos mostra que a Educação para a Morte não pode ser coercitiva, autoritária, constrangedora e muito menos aterrorizadora. As religiões da morte, portanto, se negaram a si mesmas ao optar pelo terrorismo das maldições e das ameaças para educar os homens no difícil ofício de morrer e de suportar a morte à sua volta. Simone de Beauvoir observou, em contacto com materialistas ideologicamente convictos, que morrer é uma necessidade natural do homem, que os materialistas temem, principalmente, a solidão da morte. Nada sabem, como os religiosos, sobre os segredos da morte. Deve ser por isso que sempre morrem de olhos abertos, deixando aos vivos o trabalho de fechá-los. Se os materialistas pudessem ser filósofos, não se importariam com a solidão da morte, pois se nela tudo se acaba, não pode haver solidão. E é também por isso que não pode haver uma Filosofia materialista. A essência da Filosofia é a liberdade e o seu objecto é ela mesma. A Filosofia é a captação livre da realidade que nos dá uma livre concepção do mundo. O materialista não é livre, pois está preso à ideia fixa de que tudo é matéria. Foi essa posição incomoda que levou e afastou Marx da escola hegeliana e o levou à correcção errada da dialéctica certa de Hegel, virando de cabeça para baixo o que estava evidentemente de pé. Por isso, Marx e Hegel, o profeta bíblico extemporâneo e o seu anjo anunciador, transformaram a Filosofia num jogo de xadrez cujos resultados estão marcados desde o início da partida. A concepção do mundo do Marxismo é um tabuleiro com peças fixas e invariáveis e jogadas pré-fabricadas. Daí o impasse marxista na Filosofia, rodando sempre num círculo vicioso, um labirinto em que se perdeu o fio de Ariadne. A própria Revolução Russa, que devia modificar o mundo, acabou produzindo o impasse do constante retorno às fórmulas capitalistas. Para livrar o homem da exploração capitalista, a URSS teve de capitalizar-se e recorrer, desde os primeiros momentos, à exploração horripilante do trabalho forçado. Não há uma porta de saída para a concepção solipsista do mundo no Marxismo, a não ser a do Anarquismo, que não pode ser usada porque esvairia em breve as bases filosóficas artificiais. Enquanto não devolver o Espírito à sua concepção do mundo, o Marxismo não levantará voo. Ficará rodando no chão por falta de uma asa, como explicava o Prof. Bressane de Lima nas suas palestras espíritas. O mesmo acontece com o Capitalismo, que tem as suas asas presas na torquês histórica formada pelas pinças agressivas e impiedosas da economia burguesa e das religiões da morte, com os seus aparatos e as suas encenações cerimoniais. Não é por acaso que estamos num mundo tão cheio de conflitos e angústias. Pagamos caro o mundo fantasioso que orgulhosamente construímos sobre o mundo natural da Terra. Readaptar esse mundo humano à realidade planetária é tarefa urgente, que cabe a todos e a cada um de nós.

O acto educativo, no processo da educação para a morte, revela-se ainda mais profundo e significativo do que na educação comum. Começa pelo chamado de uma consciência esclarecida e madura às consciências imaturas, para se elevarem acima dos conceitos erróneos a que se apegam. Temos de revelar e justificar para essas consciências, com dados científicos actuais, o mecanismo individual e colectivo da morte. Urge convencer o homem de que a morte não é um mal, mas um bem da natureza e uma necessidade para o homem. Temos de mostrar que o morto não é um cadáver, mas um ser imortal que, ao passar pela vida e a morte enriqueceu-se de novas experiências, adquiriu mais saber, desenvolveu as suas faculdades ou potencialidades divinas. Temos de esclarecer o sentido da palavra até hoje empregada de maneira alienante, esclarecendo que a condição divina do homem é simplesmente o produto de uma existência de trabalho, amor e abnegação, em que a criatura supera, nas vias da transcendência, o condicionamento animal do corpo material e a ilusão sensorial que o imante ao viver animal. Temos de quebrar a sistemática habitual das escolas e das igrejas, que se apegam ao pragmatismo, às subfilosofias do viver por viver, desvendando o verdadeiro significado do prazer e do amor, como elementos de sublimação da criatura humana nas funções vitais e genésicas da espécie. O mandamento do amor ao próximo deve ser colocado em plano racional, livre das ameaças opressivas e do emaranhado das conveniências imediatistas. Mostrar que o Amor a Deus, a mais elevada forma de amor existente na Terra, não é feito de medo e terror, mas de compreensão; não se dirige a um mito, mas a uma Consciência que nos impulsiona na prática da justiça e da bondade, sem discriminações de espécie alguma. Temos de esclarecer que a morte está em nós mesmos e não fora de nós, que convive com a vida em nós. Como ensinava Buda, “a morte visita-nos 75 vezes em cada uma das nossas respirações”. Temos de mostrar que, na verdade, morrer é simplesmente deixar o condicionamento animal e passar à vida espiritual.

A fase mais difícil do acto educativo é a que dá a compreensão do desapego aos bens passageiros do mundo, sem desprezá-los, como forma de preparação para as actividades de abnegação amorosa que devemos exercer depois da morte. Mas não devemos exagerar nas promessas de além-túmulo, pois não se promete o que não se pode dar, mas ensinar que só se levará, na mudança da morte, a bagagem das conquistas que se realizar aqui, na vida terrena. Não seremos premiados, mas pagos na outra vida, justamente pagos por tudo o que demos gratuitamente nesta vida. Esse ensino, acompanhado de exemplos vivos da nossa própria vivência, mostrará aos educandos que não usamos palavras de piedade, mas os convidamos a caminhar ao nosso lado, fazendo o que fazemos. Devemos substituir as ideias de recompensa pelas de consequência. Mas se fizermos tudo isso sem amor, pensando apenas em nós mesmos, os nossos actos não terão repercussão, pois nada mais fizemos do que cumprir o nosso dever, no contrato social e universal da convivência humana. Ninguém faz sem ter aprendido, mas ninguém aprende sem fazer. Assim, a reciprocidade do nosso fazer nos liga profundamente aos outros nas malhas da lei de acção e reacção, mostrando-nos de maneira objectiva e subjectiva que somos todos necessários uns aos outros. A convivência humana é entretecida de interesses, desconfianças, despeitos e aversões, sobre um pano de fundo em que o amor, a simpatia e o respeito oferecem precária base de sustentação. Grande parte dessa tessitura de malquerenças recíprocas provêm de motivos ocultos, provenientes de invejas e ciúmes. Porque uns são mais dotados do que outros e a vaidade humana não permite aos inferiorizados perdoar os mais agraciados pela natureza ou pela fortuna. O problema da reencarnação explica essas diferenças, muitas vezes chocantes, e alenta os infelizes com esperanças racionais, mostrando-lhes que cada um de nós é o responsável único pelo seu condicionamento individual. Os homens aprendem a tolerar as suas derrotas hoje para alcançar vitórias futuras, e nesse aprendizado já se superam a si mesmos, modificando o teor inferior das relações sociais. As pesquisas científicas actuais sobre a reencarnação fazem parte necessária da educação para a morte, que no caso perde a maioria de seus aspectos negativos e se transforma em promessa de recompensa possível. Ao mesmo tempo, substituindo as ameaças religiosas absurdas pelo socorro das boas acções na vida de prova, que é sempre passageira, predispõe às criaturas condições espirituais na vida presente. As provas científicas do poder do pensamento, que hoje se revela como forma de comunicação permanente na sociedade humana, mostra-nos a conveniência da conformação e da alegria íntima nas relações sociais.

O acto educativo, nessa extensão e nessa profundidade, torna-se o mais poderoso instrumento de transformação do homem, levando-o a descobrir em si mesmo as mais poderosas fontes de energia de que podemos dispor no mundo, e basta isso para nos dar a Nova Consciência que apagará em nós todos o fermento velho de que falava Jesus aos fariseus, os resíduos animais da nossa condição humana.

Não é com sermões tecidos de palavras mansas e palavrório emotivo, nem com piedade fingida, bênçãos formais do profissionalismo religioso, promessas de um céu de delícias ao lado de ameaças de condenações eternas que podemos despertar os homens para uma vida mais elevada. Temos de colocar os problemas humanos em termos racionais, sem contradições amedrontadoras. O homem reage, consciente ou inconscientemente, a todas as ameaças e condenações e a todas as injustiças da sociedade e das potências divinas. Até hoje, fomos tratados como animais em fase de domesticação e reagimos intensificando a violência e a revolta por toda a Terra. De agora em diante precisamos pensar seriamente na educação positiva do homem na vida, com vistas à sua educação para a morte. O instinto de posse e as ambições do poder desencadearam na Terra a onda de violências que hoje nos assombra. Mas o homem é racional e pode superar essa situação desastrosa ante a revelação das molas secretas do amor e da bondade. Na sua consciência está a marca divina do Criador, na ideia de Deus que Descartes descobriu nas profundezas de si mesmo. Num mundo e numa sociedade em que os estímulos são, na maioria negativos, os exemplos deploráveis, as leis injustas, as religiões mentirosas entregues ao tráfico da simonia, a moral hipócrita e assim por diante, em que os bons se afundam na miséria para que os maus vivam à tripa forra, não há condições para o desenvolvimento das virtudes do espírito, mas somente para os vícios da carne.

O acto educativo, na Educação para a Morte, constitui-se num processo complexo que deve abranger todas as faculdades humanas, para elevá-las ao plano das funções superiores do espírito. Começando no indivíduo, primeira brecha pela qual se pode injectar a ideia nova em relação constante com a morte, esse acto de amor se estende às comunidades, contagiando o mundo. É o que Jesus comparou à acção do fermento numa medida de farinha, para levedá-la. É também a pitada de sal que dá gosto à insipidez do mundo, através daqueles que se disponham a salgar-se a si mesmos para transmitir aos outros o sal estimulador. Todas essas coisas não são novas, são velhas, mas na verdade não envelhecem. Há dois mil anos Jesus de Nazaré, carpinteiro e filho de carpinteiro, ensinou ao mundo os princípios da Educação para a Morte e enriqueceu os seus ensinos com o seu exemplo pessoal. Exemplificou a própria imortalidade, ressuscitando no seu corpo espiritual – o corpo bioplásmico que os materialistas descobriram e se apressaram a esconder da Humanidade. Mas a Educação para a Morte foi logo transformada nas Religiões da Morte pelos mercadores dos templos e o mundo retornou às trevas, apegado aos mitos e enriquecendo o panteão mitológico com a imagem do carpinteiro crucificado por judeus e romanos em conluio. Cabe-nos agora, na antevéspera científica e tecnológica da Era Cósmica, dispor-nos a lutar pela reimplantação da Educação para a Morte, que ensinará aos homens a bem viver para bem morrer, ou seja, morrer conscientes de que não morrem, pois a lei do Cosmos não é a morte, mas a vida sem fim, indestrutível na realidade infinita da Criação.

A Hora da Magia esgotou-se nas selvas, nas tentativas ingénuas dos homens primitivos, de descobrir e controlar as leis naturais, dominando a natureza por meios ilusórios e grotescos. A Hora das Religiões escoou-se nas ampulhetas de areia ou nas clepsidras gotejantes. A Hora da Ciência esvaiu-se nas minúcias da técnica. Mas surgiu afinal a Hora da Verdade, em que toda a realidade se transforma em estruturas invisíveis, na poeira atómica e sub-atómica das inversões da antimatéria. É a Hora Esperada da Ressurreição do Espírito.

/…



José Herculano Pires – Educação para a Morte, O Acto Educativo, 16º fragmento da obra.
(imagem de ilustração: O caranguejo, pintura de William-Adolphe Bouguereau)