Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

sexta-feira, 21 de junho de 2013

~~~Párias em Redenção~~~


OBSESSÃO VINGADORA E PERTINAZ (II)

   No Solar di Bicci, a nobre Beatriz lamenta o consorte ausente. Da açoteia da casa vislumbra, os remotos sinais da Siena augusta e querida. Apesar do conforto que a mima, sentindo-se mais uma vez a sós, nessas constantes ausências do marido, deixa-se consumir por ignoto abatimento. Presságio mórbido atormenta-a e, sem poder disfarçar a inquietação, busca o conselho da velha aia que a acompanhou no lar e fora sua predilecta amiga no reduto paterno. Intimamente, espera que o esposo, que supõe em Florença, a negócios, esteja a salvo de qualquer mal e retorne feliz aos seus braços ansiosos.

   Ocorria, porém, infelizmente, que Assunta, nos espaços de tempo em que se via liberta momentaneamente da constrição obsidiante do duque, se refugiava no local em que se fizera comparsa dos hediondos crime, investindo, assim, contra aquela que, de certo modo, supunha ocupar o seu lugar. Sumamente infeliz, o espírito da criminosa assassinada irradiava, com sua presença nefanda, insopitável mal-estar à jovem sensível, que, desconhecendo a tecedura das questões espirituais e desarmada da prece legítima – aquela prece que dulcifica o coração e ilumina o espírito –, recebia as influências perniciosas, intoxicando-se do fluído deletério da malfadada etrusca. Acostumada a um conceito de fé religiosa inoperante, por meio da qual os deveres maiores do crente são resolvidos pelo confessor, a jovem debatia-se na angústia, sofrendo a reacção psíquica da adversária gratuita, que a sitiava inexoravelmente.

   Sem outros recursos de que se pudesse utilizar, senão o amor da velha dama de companhia que a procurava encorajar, dissipando-lhe a apreensão, permanecia aflita.

   – Nesta oportunidade, desde que o meu esposo saiu do lar – relatou a jovem, nervosa –, experimento a desagradável presença de um ser intangível que me espia, raivoso, produzindo-me indizível mal-estar. Nas última horas, venho sofrendo sufocante sensação, parecida à asfixia produzida por mãos invisíveis que me alcançassem…

   Não pôde dominar a emoção. O choro abundante aljofarou-lhe o rosto, em lágrimas quentes.

   – Deve ser o calor, senhora – retrucou a serva, apreensiva –, nestes dias do ano, muito forte. A atmosfera sobrecarregada pelo pó torna-se quase irrespirável. Tudo isso logo passará, menina. Coragem! Quem já a viu assim, em outras épocas?! Façamos juntas um terço, para acalmá-la.

   Fitando a jovem lívia, a ama, a diligente Vitória, notou-lhe o aspecto ofegante, o suor porejante, resolvendo conduzi-la à alcova. Esfregou-lhe substâncias aromáticas e chamando uma outra auxiliar puseram-se ambas a abanar a dama, quase desmaiada. O peito arfava, e, de quando em quando, crispava as mãos, traduzindo tormentoso desespero. Sem saber o que fazer, Vitória recorreu à oração. Erguendo os olhos, cravou-os no Crucifixo preso à parede do dormitório. Como de seu costume, tomou de um terço e tentou a comunhão com o Alto. A mecânica das palavras, articuladas sem qualquer vibração mental, como se valessem mais pela quantidade do que pelo estado de comunicação interior com o Pai, fazia-se uma litania.

   Entrementes, a desencarnada, presa ainda às superstições a que se fixara enquanto no corpo, observando que a oração objectivava expulsá-la, a seu turno foi possuída de pavor e desprendeu-se da vítima, partindo dos sítios, tomada de angústia incoercível.

   Beatriz, logo esteve liberta dos fluidos mefíticos que a venciam, foi acometida de constrangedor cansaço, vindo a dormir.

   O sono de refazimento é sempre uma bênção. Desprende momentaneamente o espírito que, então se renova, recompõe o equilíbrio orgânico e psíquico, estimulando as forças gastas a se refazerem.

   A trama ultriz da perseguição espiritual apertava as teias que cingiam o invigilante criminoso às suas malhas.

   No leito fofo e macio, Girólamo estremece. Parcialmente livre pelo desprendimento através do sono natural, seu espírito reencontra o duque, que o aguarda na Esfera Imortal. Vencido pelo abatimento do cansaço, a princípio não tem noção exacta do que ocorre, naquele estado. Arrastado, porém, pela vítima, tornada sobrestante ímpio, este aflige com os recursos possíveis o desafecto ignóbil. O espírito do senense somente recobra a consciência espiritual após muito esforço, pois que, intoxicado pelos vapores do álcool, ingerido na noite anterior, tem também o espírito embriagado. Vendo-se em frente ao tio, deixa-se acometer por incomparável pavor e tenta evadir-se, sem o conseguir. Fios invisíveis, poderosos, atam-no ao rival que, transformado em sicário desumano, zomba das suas aventuras e dos poucos valores de que podia dispor para a evasão. Sacudido pelo ódio que destila emanação venenosa, o duque arrasta o sobrinho inerme nas suas garras e leva-o às regiões tenebrosas do Mundo espiritual, em cujos redutos experimentava a resultante da loucura que o envilecia…

   O medo é verdugo impiedoso dos que lhe caem nas mãos. Produz vibrações especiais que geram sintonia com outras faixas na mesma dimensão de onda, produzindo o intercâmbio infeliz de forças deprimentes, congestionantes. À semelhança do ódio, aniquila os que o cultivam, desorganizando-os de dentro para fora. Alçapão traiçoeiro, abre-se, desvelando o fundo poço do desespero, que retém demoradamente as vítimas que colhe…

   Da mesma forma que na Terra enxameiam redutos de sombra e dor, vales imensos de desgraçados que se aglutinam por leis de afinidades, valhacoutos de criminosos que respiram a mesma comunidade de homizio, em vandalismo desregrado, soutos sombrios de marginalizados morais, devesas para os que se refastelam na luxúria e participam dos seus conúbios, encontram-se esparsas, pela Terra e na intimidade das suas furnas, nos lugares pantanosos e desérticos da periferia, comunidades espirituais infelizes, que se rebolcam em estertores agónicos resultantes da infelicidade que elaboraram, produzindo vibrações de peso específico, pelos crimes perpetuados, nos tecidos muito subtis da organização perispiritual. Sofrem, sem consolo; agridem-se, sem termo; esfacelam-se, sem consumar os objectivos; afogam-se em sorvedouros que não cessam de arrastar, sem colimar a inconsciência, o que seria misericordioso; ardem em rescaldos abrasadores, sem fim; ultrajam-se, em desconforto total; fogem para lugar nenhum, sem abandonarem os recintos de miserabilidade em que se entrechocam; atiram-se em despenhadeiros sem fundo, nos quais esperam ir de encontro a lajes que os despedacem, sem consegui-lo; asfixiam-se em fundos fossos de lama… e desejam morrer, morrer no sentido de apagarem a razão, destruírem a consciência, esquecerem que vivem, não logrando êxito. Nenhuma palavra descreve esses verdadeiros Infernos, que a imaginação religiosa limitou, mas que, no entanto, se multiplicam punitivos, aglutinando os acumpliciados com a impiedade e a perversão com os ali refugiados, em alongada desesperação. Quanto mais densa a carga mortífera de fluidos venenosos que hajam expedido, enquanto na Terra, mais se lhes agregam forças pesadas que os chumbam aos centros interiores do planeta, donde dificilmente se poderão libertar, senão quando soa o clarim da Divina Misericórdia e corações compadecidos, na Terra; abrem os braços da maternidade para recolherem esses náufragos das antigas excursões carnais, revestindo-os de novo corpo, onde se refugiam buscando, temporariamente, esquecimento, reconsiderando atitudes através de expiações acerbas, nas quais a doblez e a atrocidade se diluem nas células cerebrais, muitas vezes incapazes de construir o raciocínio, por limitadas, enfermas. Esses excruciados, quando podem desfrutar essa imerecida misericórdia do Pai Amantíssimo, escondem-se em corpos doentes e deformados, reaparecendo amolentados e sem meios de comunicação exterior, emparedados na concessão da matéria para fugirem dos comparsas que os tentam seguir, para darem longo curso a vindictas, vampirizações, conúbios amorosos molestos, açulamento das pungentes penas… Naquelas “trevas exteriores”, reportadas pela palavra do Mestre dos mestres, não penetra a luz da compaixão nem o alívio da caridade; não conhece a linfa que mitiga a sede, nem a côdea do pão que diminui a fome da aflição; estranha-se a piedade e não lucila a fímbria de qualquer claridade fraternal; tudo são dores que a imaginação humana não concebe e penas que nenhuma poesia trágica pode chorar… Incontáveis, são nutridos pelos pensamentos que permutam com a Terra e que de lá retornam, mantendo as fontes mentais dos homens abastecidas pela sua vazão peçonhenta. De lá, fluem subjugações espirituais, crimes que o despeito engendra, assaltos morais que a inveja articula, assacadilhas contra a honra e a esperança, vivificadas pelo egoísmo dos que se desgraçam… Chacinas são elaboradas e pavios de guerra são acesos, pois que, nesses multifários antros, os mais desnaturados e ferozes sobrepõem-se aos outros, criando governos desapiedados, hediondos, onde a justiça da força e da descompaixão aterroriza, esmaga com as patas do poder arbitrário. Dir-se-ia que os que ali se excruciam sofrem ao abandono, esquecidos das Soberanas Leis do Amor… No entanto, “cada um colherá aquilo que haja semeado” – ensinou o Cristo de Deus, o Justo e Manso Amigo dos homens. Escolhido por cada um o tipo de sementeira que melhor lhe compraz, este vê-se compulsoriamente obrigado a colher os frutos da livre eleição. Tais efúgios foram construídos pelas mentes em desalinho dos que chegavam da vida carnal, conduzidos pelo veículo da morte, e que despertavam para a realidade, buscando, então, evadir-se, esconder-se da consciência culpada e gerando vapores densos que os ocultavam, transformando-se em atmosfera própria para os engodos dos enganadores-enganados… Acumpliciados, muitos continuavam, depois da perda do organismo físico, elaborando as comunidades de aflição, por própria responsabilidade dos culpados. Mesmo assim, a vigilância do amor constantemente liberta, socorre e remove os que ali se retemperam para futuras lutas, pois que, em caso contrário, com as doses elevadas das lancinantes cruezas de que se fazem objecto, se pudessem retornar ao convívio dos homens, imediatamente, destruí-las-iam, tal a voragem primitiva de que se tornaram portadores. A Sabedoria Divina os cerceia, unindo-os pelo padrão do mesmo crime, para que entre eles, que se conhecem, praticantes das mesmas abjecções, experimentem o travo do exílio e, posteriormente, lampeje o desejo de tudo esquecer, para recomeçar, credenciando-os, assim, a novas experiências.
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VICTOR HUGO, Espírito “PÁRIAS EM REDENÇÃO” – LIVRO PRIMEIRO, 7. OBSESSÃO VINGADORA E PERTINAZ 2 de 4, 23º fragmento da obra. Texto mediúnico ditado a DIVALDO PEREIRA FRANCO.
(imagem: L’âme de la forêt _1898, tempera e folha de ouro sobre painel de Edgar Maxence)

sexta-feira, 14 de junho de 2013

O Espiritismo na Arte ~


Parte IV

(Escritores e oradores, o verdadeiro mérito; A influência da música)

|Abril de 1922|

O verdadeiro mérito, seja do escritor, seja do orador, consiste em fazer pensar, em provocar nas almas as nobres e santas exaltações, em elevá-las em direcção às alturas radiosas onde elas percebem as vibrações do pensamento divino, numa comunhão suprema.

No entanto, para que a alma se desenvolva e desabroche no êxtase das alegrias superiores é bom que a harmonia venha se juntar à palavra e ao estilo; é preciso que a música venha abrir, para a inteligência, os caminhos que levam à compreensão das leis divinas, à posse da eterna beleza.

A influência da música é imensa e, segundo os indivíduos, reveste-se das mais diferentes formas. Os sons graves e profundos agem sobre nós de tal maneira que o melhor de nós mesmos se exterioriza. A alma se desprende e sobe até às fontes vivas da inspiração.

Quando eu tinha que fazer uma conferência numa grande cidade, por mais de uma vez aconteceu dirigir-me, na véspera, à noite, a algum dos teatros líricos. Lá, escondido no fundo de um camarote, completamente isolado, eu me desinteressava de tudo o que se passava na sala ou no palco, para me deixar embalar pela obra musical. Sob a acção combinada dos instrumentos e das vozes, uma onda de ideias crescia no meu cérebro, um desabrochar de pensamentos e de imagens surgia das profundezas do meu ser. E, nesses momentos, eu determinava o meu tema com uma riqueza de matérias, uma profusão de argumentos, uma abundância de formas e de expressões que eu não poderia ter encontrado no silêncio e que nem sempre se apresentavam na minha memória no momento oportuno.

O som dos grandes órgãos e os cantos sacros produzem em mim impressões ainda mais profundas. Durante os momentos em que posso ouvir boa música, o poder da arte abre, para meu benefício, o domínio dos tesouros escondidos das mais belas faculdades psíquicas, para, em seguida, deixar-me recair pesadamente na corrente habitual do pensamento e da vida.

Na Terra, é pelo pensamento, oral ou escrito, que se comunica a fé e que se instruem os homens. Porém, no espaço, nos dizem os nossos guias, a música é a expressão sublime do pensamento divino.

Já aqui na Terra, pode observar-se que um escritor ou um orador que estude a harmonia vê crescer, em proporção, os recursos da sua imaginação, sua penetração das coisas e sua facilidade em exprimi-las. Certos homens talentosos não têm declarado que as suas mais belas obras tinham sido concebidas em horas de êxtase, provocadas pela audição de ecos longínquos de algumas notas desprendidas dos concertos celestes, quer dizer, da orquestra infinita dos mundos?
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LÉON DENIS, O Espiritismo na Arte, Parte IV – Escritores e oradores, o verdadeiro mérito; A influência da música, 17º fragmento da obra.
(imagem: Mona Lisa 1503-1507 – Louvre, pintura de Leonardo da Vinci)

domingo, 9 de junho de 2013

Da sombra do dogma à luz da razão ~


NATUREZA DA REVELAÇÃO ESPÍRITA (III)

  O Espiritismo, tendo-nos dado a conhecer o mundo invisível que nos rodeia e no meio do qual vivíamos sem o sabermos, as leis que o regem, as suas relações com o mundo visível, a natureza e o estado dos entes que o habitam e, por consequência, o destino do homem depois da morte, é uma verdadeira revelação na acepção científica do termo.

   Pela sua natureza, a revelação espírita possui um carácter duplo: respeita simultaneamente a revelação divina e a revelação científica. Está ligada à primeira no que o seu advento tem de providencial, não sendo resultado da iniciativa e de um intento premeditado do homem; por os pontos fundamentais da doutrina serem resultantes do ensinamento dado pelos Espíritos encarregados por Deus de esclarecerem os homens sobre coisas que ignoravam, que não podiam aprender sozinhos e que é importante conhecerem, hoje que estão preparados para as compreenderem. Liga-se à segunda por este ensinamento não ser privilégio de nenhum indivíduo e ser dado a toda a gente através da mesma via; por os que o transmitem e os recebem não serem de forma nenhuma seres passivos, dispensados do trabalho de observação e de pesquisa; que não abdicam da sua opinião nem do seu livre-arbítrio; que o controlo não lhes é interdito, sendo antes, pelo contrário, recomendado; enfim, porque a doutrina não foi ditada em todas as suas partes nem imposta à crença cega; que é deduzida, pelo trabalho do homem, da observação dos factos que os Espíritos lhes colocaram debaixo dos olhos e das instruções que lhe dão, instruções que estuda, comenta, compara e de que retira ele mesmo as consequências e as aplicações. Numa palavra, o que caracteriza a revelação espírita é o facto de a fonte ser divina, a iniciativa pertencer aos Espíritos a sua elaboração ser consequência do trabalho do homem.

   Como meio de elaboração, o Espiritismo procede exactamente da mesma maneira que as ciências positivas, quer dizer, aplicando o método experimental. Apresentam-se factos de uma nova ordem que não podem ser explicados pelos meios conhecidos; observa-os, compara-os, analisa-os e, remontando os efeitos às causas, chega à lei que os rege; depois, deduz daí as consequências e procura-lhes as aplicações úteis. Não estabelece nenhuma teoria preconcebida; assim, não colocou como hipóteses nem a existência e a intervenção dos Espíritos, nem o perespírito, nem a reencarnação, nem nenhum dos princípios da doutrina; concluiu que existem Espíritos quando esta existência ressaltou como evidência da observação dos factos; e também o mesmo sucedeu com os outros princípios. Não foram os factos que vieram mais tarde confirmar a teoria, mas a teoria que veio subsequentemente explicar e resumir os factos. É portanto rigorosamente exacto dizer-se que o Espiritismo é uma ciência de observação e não produto da imaginação. As ciências só registaram progressos sérios depois de o seu estudo se ter baseado no método experimental; mas, até esse dia, sempre se acreditou que este método só era aplicável à matéria, enquanto o é igualmente às coisas metafísicas.

   Citemos um exemplo. Passa-se, no mundo dos Espíritos, um caso muito singular e de que certamente ninguém teria suspeitado; é o dos Espíritos que não acreditam estar mortos. Pois bem! Os Espíritos superiores, que o sabem perfeitamente, não vieram dizer antecipadamente: «Há Espíritos que julgam estar ainda a viver a vida terrestre; que conservaram os seus gostos, os seus hábitos e os seus instintos»; mas provocaram a manifestação de Espíritos desta categoria para que os observássemos. Tendo então visto Espíritos sem terem a certeza do seu estado ou afirmando que ainda faziam parte deste mundo e julgando ocupar-se das suas tarefas habituais, do exemplo concluiu-se a regra. A multiplicidade de factos análogos provou que não se tratava de uma excepção, mas de uma fase da vida espírita; permitiu estudar todas as variedades e as causas desta singular ilusão; reconhecer que esta situação é sobretudo distintiva dos Espíritos pouco evoluídos moralmente e que é característica de certos géneros de morte; que é só temporária, mas que pode durar dias, meses, anos. foi assim que a teoria nasceu da observação. Passa-se o mesmo com todos os outros princípios da doutrina.

   Assim como a ciência propriamente dita tem como finalidade o estudo das leis do princípio material, a principal finalidade do Espiritismo é o conhecimento das leis do princípio espiritual; ora, como este princípio é uma das forças da natureza, reagindo constantemente sobre o princípio material e reciprocamente, resulta daí que o conhecimento de um não pode estar completo sem o outro. O espiritismo e a ciência completam-se um ao outro: a ciência sem o Espiritismo fica impotente para explicar certos fenómenos unicamente através das leis da matéria; o Espiritismo sem a ciência não teria apoio nem controlo. O estudo das leis da matéria deveria preceder o da espiritualidade, por ser matéria e ferir primeiro os sentidos. Se o Espiritismo tivesse surgido antes das descobertas científicas teria sido uma obra abortada, como tudo o que surge antes de tempo.
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ALLAN KARDEC, A GÉNESE – Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo, Capítulo I NATUREZA DA REVELAÇÃO ESPÍRITA números de 12 a 16, 5º fragmento da obra. Tradução portuguesa de Maria Manuel Tinoco, Editores Livros de Vida.
(imagem: Diógenes e os pássaros de pedra, pintura em acrílico de Costa Brites)

domingo, 2 de junho de 2013

Inquietações Primaveris ~


A Escada de Jacob

Nascimento e morte determinam o trânsito especial entre o Céu e a Terra. Dia e noite, sem cessar, descem e sobem os anjos pela escada simbólica da visão bíblica de Jacob. Anjos são espíritos, e o Apóstolo Paulo esclareceu que são mensageiros. Trazem e levam mensagens de um plano para o outro. São mensagens de amor, de estímulo, de orientação e encorajamento. As mensagens são dadas, na maioria, através de intuições, na Terra, aos destinatários encarnados. Mas há também as que são dadas por via mediúnica, através de um médium, ou por sonhos. Essa comunhão espiritual permanente é conhecida desde as épocas mais remotas. Mas só em 1857, com a publicação de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, em Paris, o problema foi encarado como positivo e levado à consideração dos sábios e das instituições científicas. As Igrejas Cristãs, tendo à frente a Católica Romana, levantaram-se contra essa colocação, que diziam simplória, de um grave problema teológico. Só os clérigos e os teólogos, segundo elas, tinham direito a tratar do assunto. Um século depois, a questão estava nas mãos das Ciências e a Ciência Espírita, fundada por Kardec, era colocada à margem do mundo científico, por não possuir um objecto legitimamente científico, material, ao alcance dos sentidos humanos. Richet levantara, na Metapsíquica, a tese do sexto sentido, e Kardec sustentava que os fenómenos mediúnicos, pelo facto mesmo de serem fenómenos, constituíam o objecto sensível da Ciência Espírita.

Em 1830 os professores Joseph Banques Rhine e William McDougall lançavam na Universidade de Duke, na Carolina do Sul (Estados Unidos da América) a nova Ciência da Parapsicologia, para a investigação desses mesmos fenómenos. E em 1840 ambos proclamavam, com seus colaboradores, a prova científica da Clarividência. Dali por diante cresceu rapidamente no mundo o interesse pelo assunto e surgiram pesquisas e cátedras em todas as grandes Universidades da América e da Europa. Hoje a questão é pacífica no plano científico, e mesmo no religioso, pois a Igreja aceitou a realidade dos fenómenos e interessou-se efectivamente pelas pesquisas. A Parapsicologia avançou rapidamente, seguindo a trilha da Ciência Espírita, sem nenhum desvio.

Vencida a barreira dos preconceitos e das sistemáticas a que se apegavam numerosos cientistas, a Parapsicologia definiu-se como a Ciência do Homem. Rhine, ao aposentar-se na Universidade de Duke, estabeleceu a Fundação para a Pesquisa da Natureza Humana. A Parapsicologia sustenta a natureza espiritual do homem e suas possibilidades de acção extensiva e intensiva no plano físico e mental ou espiritual. “A mente, que não é física, age sobre a matéria por vias não físicas”, declarou Rhine, apoiado por grandes nomes da Ciência em todo o mundo. Essa declaração mudou o panorama cultural do planeta. Hoje ninguém duvida, quando nasce uma criança, que se trata de um espírito humano reencarnado biologicamente na Terra. Embora ainda existam sectores científicos infensos à nova Ciência, firmou-se no mundo de maneira definitiva. Os cientistas que a negam ou rejeitam são considerados como retrógrados ou se definem a si mesmos como pertencentes a religiões que não devem aceitar os novos princípios.

A morte perdeu o sentido de negação da vida. Os fenómenos Teta, um dos últimos tipos de fenómenos paranormais pesquisados pela Parapsicologia, nada mais são do que as comunicações mediúnicas. Além do trânsito entre a Terra e o Céu – o mais movimentado do mundo – existe agora a comunicação permanente entre os homens e os espíritos. As descobertas físicas no plano das pesquisas sobre a estrutura da matéria mostraram que não vivemos num mundo tridimensional, mas multidimensional. Os que morrem na Terra passam para os planos da esfera semimaterial, de matéria rarefeita, que a circunda, e, conforme o seu grau evolutivo, para as hipóstases espirituais entrevistas por Plotino, na fase helenista da Filosofia Grega. Nas sessões espíritas, em todo o mundo, milhares de pessoas conseguem conversar com amigos e parentes mortos, que dão provas evidentes de sua sobrevivência após a morte. As restrições dos sistemáticos e preconceituosos continuam, mas a realidade se impõe de tal maneira que essas restrições já diminuíram assustadoramente. A Terra se espiritualiza, apesar do materialismo das religiões. E a morte já não amedronta milhares dos milhões de criaturas que morrem todos os dias.

Geralmente não se pensa no que isso representa para a Humanidade. Entregues às suas preocupações absorventes do seu dia a dia, homens e mulheres ainda vivem na Terra como há milhões de anos. Cuidam da vida sem se preocuparem com a morte. Essa posição anestésica é útil na Terra, mas desastrosa nos planos espirituais. Nas manifestações de espíritos (fenómenos teta) pode-se avaliar o prejuízo causado às criaturas por essa alienação à matéria. Embriagados pelos seus anseios de conquistas materiais, praticamente tragados pela vida prática, a maioria dos que morrem não têm a menor noção do que seja a morte. Entram em pânico após o trespasse, apegam-se depois a pessoas amigas de suas relações, perturbando-as sem querer ou procurando, através delas, sentirem um pouco da segurança perdida na Terra. Além desses prejuízos, a falta de educação para a morte causa o prejuízo maior dos desesperos, angústias existenciais e loucuras que hoje varrem a Terra em toda a sua extensão. Por outro lado é preciso considerar-se os prejuízos imensos produzidos pela ignorância das finalidades da vida. As próprias Ciências sofrem dessa ignorância, que lhe barra o caminho de descobertas necessárias para a melhoria das condições da vida terrena.

Por mais atilados e dedicados que sejam os cientistas, se não tiverem conhecimento das leis fundamentais que regem o planeta e condicionam a Humanidade, não podem penetrar nas causas dos males e problemas que enfrentam. É questão pacífica que a falta de conhecimento preciso e amplo do meio em que estamos nos deixa entregues a perigos que não podemos prever. É o que agora mesmo acontece, no caso da poluição perigosíssima do planeta pelas exigências do desenvolvimento industrial. A falta de interesse pela Ecologia mergulhou o mundo numa situação desastrosa, que ainda não sabemos como poderemos superar. A Ciência ateve-se aos efeitos, deixando as causas por conta da Filosofia e da Religião. Esta última fechou-se em dogmas ilusórios, mandando às calendas a questão fundamental das causas. Entregues aos conhecimentos empíricos da realidade constatada nos efeitos, os homens conseguiram realizar a façanha trágica da poluição total do planeta, com os mais graves prejuízos para a vida humana, bem como os vegetais e os animais. Descuidamos da morte e perdemos a vida. Se não mudarmos urgente de atitude, transformaremos a Terra numa Lua sem atmosfera.

A nossa insistência na consideração escatológica da morte, na sua função essencialmente destruidora – negando-lhe o papel fundamental de controladora da vida e a de renovadora das civilizações –, parece ter provocado uma reacção em nossa própria estrutura ôntica que nos transformou em nadificadores de nós mesmos e de toda a realidade. O estranho privilégio que pretendemos, de sermos os únicos seres condenados ao nada, um Universo em que tudo se renova e se eleva, constitui a mais espantosa contradição de toda a História Humana. Essa contradição monstruosa deforma a figura do homem no mundo que ao invés de imagem e semelhança de Deus, aparece como a fera mais temível do planeta, onde as feras selvagens são sistematicamente destruídas e devoradas pelo animal dotado de inteligência criadora, sentimento, moral, compreensão de sua espiritualidade e sensibilidade ética e estética. O humanismo apaixonado de Marx, que sonhava sem o saber com o Reino de Deus na Terra, negou-se a si mesmo ao formular a teoria do poder totalitário e absoluto de uma classe social contra as outras. Larissa Reissner, que lutou pelos bolchevistas de armas na mão, mostra-se desolada, nas páginas brilhantes de seu livro Homens e Máquinas, ao referir-se aos campos de trabalhos forçados da URSS, em que antigos e bravos companheiros de luta pagavam sob o poder soviético o preço de suas ilusões para o fortalecimento do Estado-Leviatã de Hobbes. A terrível dialéctica das revoluções sociais materialistas, sem Deus e sem coração, levou o Marxismo ao pelourinho da lei de negação da negação, negando-se a si mesma no processo histórico. Sem o respeito do homem por si mesmo, pela sua condição humana, todas as tentativas de melhorar o mundo acabam na asfixia da liberdade, nadificando o homem depois de transformá-lo em objecto. É essa também a contradição fundamental de Sartre em O Ser e o Nada e na Crítica da Razão Dialéctica. Mas é precisamente das contradições entre a tese e antítese que podemos obter a síntese que nos dá a verdade possível de cada problema.

Os anjos que descem pela escada de Jacob, na alegoria bíblica, representam a tese da proposição existencial – a verdade possível do Céu, ou seja, dos planos divinos, entendendo-se por divino aquilo que supera a condição material. Mas são esses mesmos anjos que voltam para o Céu representando a antítese. O trânsito espacial resulta da síntese humana em que a proposta terrena e a resposta celeste se fundem no processo existencial da transcendência. Por isso Kardec rejeitou as revelações proféticas do passado, individuais e exclusivistas, que geraram as religiões da morte, estabelecendo o princípio das revelações conjugadas, de natureza científica, em que o mundo é a tese, o homem é a antítese e a verdade é a síntese. Essa síntese, como acentuou Léon Denis, é a mundividência espírita, de difícil compreensão para os anjos que descem e ficam na rotina terrena, no círculo vicioso das reencarnações repetitivas. A verdade possível é-lhes interditada, não por condenação divina, mas por opção própria. Quando eles romperem o círculo vicioso poderão compreender essa verdade, a verdade possível, ao alcance do homem que soube transcender-se. Na dialéctica espírita o homem propõe a tese, o espírito responde com a antítese e a Razão elabora a síntese do conhecimento possível. A religião, como ensinou Kardec, é a consequência da revelação espiritual fundida com a revelação científica. A verdade possível tem a sua legitimidade e a sua validade precisamente nessa fusão. Os limites da vida terrena condicionam a realidade humana às possibilidades cognitivas da mente humana actualizada na matéria. O espírito revela um princípio espiritual e o cientista revela a lei terrena a ela correspondente. Só nesse processo de perfeito equilíbrio o homem pode evitar os perigos do misticismo alienante, para viver na Terra em marcha para a transcendência, através da Existência. É esse o processo que permite a fusão dialéctica de Ciência e Religião, como fundamento de toda a verdade possível na Era Cósmica. Por isso, não insistimos no Espiritismo por sectarismo ou proselitismo, mas pelo facto inconteste de só ele nos oferecer os instrumentos conceptuais necessários à conquista da realidade. Sem a fusão da afectividade com a razão não poderíamos atingir a síntese do conhecimento geral, na fragmentação dos efeitos sem o esclarecimento das causas. O método indutivo da Ciência permite-nos reunir os efeitos para a compreensão possível da causa única e transcendente.
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José Herculano Pires – Educação para a Morte, A Escada de Jacob, 13º fragmento da obra.
(imagem: O caranguejo, pintura de William-Adolphe Bouguereau)

sábado, 25 de maio de 2013

O Mundo Invisível e a Guerra ~

VI
O Despertar do Génio Céltico
 * (II)

   Assistimos, no presente momento, a um dos maiores dramas da História, a uma nova invasão dos bárbaros, mais terrível que as antigas, e que ameaça destruir a obra dos séculos, arrasando a civilização. Porém as qualidades heróicas de nossa raça despertam a intrepidez, o espírito de sacrifício e o destemor da morte.

   Ante o perigo, os filhos da Gália, da Grã-Bretanha, da Escócia e da Irlanda, em uma palavra, todos os celtas, reuniram-se para conter o avanço feroz dos alemães e, junto com esses celtas, o exército invisível dos seus antepassados também combate com eles, sustentando-lhes a coragem e incutindo-lhes ardor e perseverança em seus esforços. Esse auxílio do Alto é a garantia de uma vitória próxima e segura.

   Após a luta, deveremos procurar meios de levantar moralmente a pátria e dela afastar o abismo dos males em que quase caiu.

   Antes da guerra, o que constituía aos olhos do mundo nossa fraqueza e nosso descrédito era parecermos um povo sem ideal e sem religião.

   É verdade que a doutrina pura do Cristo, alterada, desfigurada e mesclada, no correr dos tempos, com elementos parasitas e estranhos, já não nos oferecia uma concepção da vida e do destino em harmonia com o conhecimento adquirido acerca do Universo e suas leis.

   A França, sem o perceber, caíra na indiferença, no cepticismo e na sensualidade, porém um terrível acontecimento nos deteve nessa descida fatal. Na hora da desgraça, todos compreendemos a necessidade de uma fé verdadeira, estribada na experiência, na razão e nos factos, uma fé que proporcione à alma a convicção de um futuro infinito e o sentimento de uma justiça superior, determinando deveres e responsabilidades.

   Talvez me perguntem de onde virá essa nova fé. Assim como as qualidades varonis de nossa raça salvarão a pátria da ruína e da destruição, também o retorno às tradições da raça restituirá a força moral, preparando a salvação e a regeneração.

   É aí que a obra de Allan Kardec se mostrará providencial, numa oportunidade incontestável, pois o Espiritismo não se constitui em outra coisa que a volta às crenças celtas, enriquecidas pelo trabalho dos séculos, os progressos da ciência e as conquistas do espírito humano.

   Não há possibilidade de ressurgimento sem uma educação nacional que transmita às gerações o real sentido da vida, de sua missão e de sua finalidade; sem um ensino que esclareça as inteligências, fortifique os caracteres e as consciências, ligando os princípios fundamentais, elementares, da Ciência, da Filosofia e da Religião.

   Tais poderes, até então antagónicos, se fundirão para maior benefício da sociedade, porém a humanidade espera por esse ensino, que proporcionará ao ser os meios de se conhecer, de medir as próprias forças e de estudar o mundo desconhecido que cada um traz dentro de si.

   Aceitando essa iniciativa, que está na sua missão e no seu génio, a França se tornaria, realmente, a grande semeadora que daria o sinal da libertação do pensamento.

   Assim, o túmulo de Allan Kardec seria o berço de uma nova ideia, mais radiante e mais pura, guiando o homem através das dificuldades de sua peregrinação terrena.

   A melhor maneira de homenagearmos a memória de nosso ilustre mestre é nos envolvermos em sua obra, comungando com o seu pensamento, tornando-nos mais unidos, mais firmes, mais decididos na vontade de trabalhar pelo seu triunfo e sua divulgação no mundo.

   O Espiritismo não poderá encontrar momento mais favorável que este para manifestar o poder de consolação, verdade e luz que nele reside.

   Em nosso redor não há inumeráveis dores? Quantas pobres criaturas choram entes queridos! Quantas outras, feridas, mutiladas ou privadas da vista para o resto da existência! Quantas famílias arruinadas, despojadas, expulsas de seus lares por um inimigo cruel!

   Para aceitar suas provações, todos precisam de nossas crenças; só a certeza de que um dia irão reunir-se com os seres amados fará menos doloroso o tempo da separação.

   O conhecimento da lei dos destinos fará compreender que os nossos sofrimentos são meios de depuração e de progresso.

   A nossa doutrina devolverá a todos a esperança, o valor e a confiança! Semeemos, pois, abundantemente, a semente fértil, não nos preocupando com as críticas e as zombarias, pois quem hoje ri de nossos princípios amanhã terá a alegria de neles encontrar a força para suportar seus males.

   Oh, Allan Kardec! Espírito do grande Codificador, no momento em que chovem sobre a nossa pátria tantas provações, quando a angústia abate tantos corações, protege-nos, ampara teus adeptos, dando-lhes fé ardente para vencer todos os obstáculos; comunica-lhes o poder de persuasão, o calor do sentimento que desfaz a frieza da incredulidade, dando a todos a confiança no futuro.

   Graças a ti, Kardec, graças à tua obra, depois de vinte séculos de silêncio e de esquecimento, a fé das antigas eras renasce na terra das Gálias como um raio luminoso que vem dissipar as sombras do materialismo e da superstição. Druida reencarnado, tu revelaste para nós esse grandioso pensamento sob uma nova forma, adaptada às circunstâncias do nosso tempo.

   Nós, filhos dos celtas e herdeiros das crenças de nossos pais, te saudamos como a um representante do passado glorioso de nossa raça, que regressou a este mundo para restabelecer a verdade, guiando o homem nas suas lutas para a vida infinita.

   E vós, irmãos, que deixastes a Terra antes de nós, incontáveis legiões dos heróis que sucumbiram em combate pela defesa da pátria, vinde pairar sobre os que lutam, não apenas pela libertação do solo pátrio, mas também pela verdade; vinde animar as energias e estimular em todos o profundo sentimento da imortalidade.

   Ainda bem mais alto, nossos pensamentos e nossas palavras sobem a ti, Pai de todas as criaturas, para te dizer: Deus, escuta o apelo, o grito de agonia e angústia; ouve o gemido doloroso, lancinante, que sobe do solo francês, dessa terra banhada de sangue e lágrimas!

   Salva a nossa pátria da ruína, da morte e do aniquilamento!

   Empresta aos nossos soldados o necessário vigor para repelirem um inimigo cruel e covarde!

   Não podes permitir o triunfo de um adversário tão implacável que, debaixo de teu nome augusto e respeitado, se manchou de crimes, mentiras e infâmia!

   Não podes deixar sem castigo o atentado de Reims! Não podes admitir que estes sagrados princípios que dimanam de ti e que foram, em todas as épocas, o apoio moral, a consolação, a esperança e o ideal supremo da humanidade, isto é, a justiça, a verdade, o direito, a bondade e a fraternidade, sejam violados impunemente, espezinhados e reduzidos a nada!

   Pelo amor a teus filhos, a nossos heróis e a nossos mártires, salva a França de Joana d’Arc, de São Luís e de Carlos Magno!
/…

* Lido no Cemitério Père-Lachaise em 31 de março de 1916, aniversário do falecimento de Allan Kardec.



LÉON DENIS, O Mundo Invisível e a Guerra, VI – O Despertar do Génio Céltico, 2 de 2, 19º fragmento da obra.
(imagem: Tanque de guerra britânico capturado pelos Alemães, durante a Primeira Guerra Mundial)

terça-feira, 21 de maio de 2013

Nas garras do pensamento crítico ~


Mais vale um pássaro na mão

   Essas fugas pela tangente representam o método mais frequente de combate ao Espiritismo, inclusive por parte dos materialistas dialécticos. Para os observadores serenos e sensatos, bastaria essa insistência na deturpação dos factos e na distorção do raciocínio, para comprovar a seriedade e a importância desses mesmos factos. Aliás, ainda com Engels, encontraremos o argumento mais apropriado: “A única questão consiste em saber se o pensamento está ou não certo, e o desprezo pela teoria é, evidentemente, a maneira mais segura de se pensar de maneira naturalista, e, consequentemente, de modo errado.”

   Engels não ficaria mal nas fileiras espíritas. De facto, ele via bem estes problemas. O desprezo pela teoria espírita, única que pode explicar os fenómenos, tem levado esses homens a trair a dialéctica a todo momento, entrando a fundo e às cegas pela Sofisticaria. A punição da dialéctica, porém, não se faz tardar. Os que pensam de maneira naturalista, voltando as costas à teoria, terminam de encontro à parede, com a espada do ridículo no peito. Porque a “maneira naturalista de pensar”, a que Engels se refere, é a do pensamento a priori, instintivo, que não provém da razão orientada pelo processo da civilização, mas da herança comum e obscura do passado biológico da espécie. Age por meio de impulsos mecânicos, é um automatismo inconsciente. Dir-se-ia, diante das suas manifestações, que o homem tem a vocação da fuga. Como a lebre, colhida de surpresa na beira da estrada, precipita-se no mato, assim o homem, colhido na sua posição materialista pela surpresa dos factos supranormais, precipita-se no matagal das lembranças ancestrais. Improvisa teorias e fabrica rótulos com a desenvoltura inconsequente da avestruz ao enterrar a cabeça na areia. Comete, com uma confiança absurda na impunidade, o crime da desfiguração da verdade, ou passa apenas a negar, indiferente a todas as provas e argumentos, como a criança teimosa que não quer ver a louça quebrada. É o outro lado da crendice, o reverso do fanatismo religioso.

   Por isso, o médico Sérgio Valle nos lembra, no livro Silva Mello e os Seus Mistérios, recentemente publicado: “Enquanto não se realize o fiat da ciência (que se mantém, teimosamente, orgulhosa e cega), para iluminar os factos que possuímos, não é justo que uma criatura sensata despreze o que se acha detido, seguramente detido nas suas mãos, por mínimo que seja, pelo que voeja no espaço do fanatismo religioso ou do fanatismo científico”.
/…


José Herculano Pires, Espiritismo Dialéctico, Mais vale um pássaro na mão, 9º fragmento da obra.
(imagem: Vi o caçador levantar o arco-íris, pintura em acrílico de Costa Brites)

quinta-feira, 16 de maio de 2013

a pedra e o joio ~


Quem não pode o menos

   Os inves-tigadores científicos dos fenómenos espíritas operam no campo da matéria. Não são espíritas, mas cientistas interessados pela fenomenologia que dá base concreta à doutrina. Por isso já dissemos, há tempos, a respeito, que a ciência espírita, no que toca às manifestações materiais do espírito, vêm sendo construída pelos adversários do Espiritismo. É este um facto único na história do conhecimento, e uma das maiores glórias da doutrina espírita. Crookes, Richet, Geley, Crawford, ao iniciarem suas pesquisas, não eram espíritas, como Price, Rhine e Bjorkhem, das Universidade de Oxford, de Duke (EE. UU.), e de Upsala (Suécia), respectivamente, não são espíritas. Mas todos contribuem para a ciência espírita.

   Não cabe a nós, espíritas, formular nenhuma teoria científica para investigação dos fenómenos supranormais ou para demonstração da realidade da sobrevivência. O Espiritismo, nos seus três aspectos, o científico, o filosófico e o religioso, possui métodos próprios de observação e investigação, e já provou há muito a realidade da sobrevivência. Os cientistas materialistas, ou pelo menos cépticos, é que devem tratar de provar, através de suas teorias e de seus métodos, que o Espiritismo se encontra em erro. Querer, pois, dotar o Espiritismo de “teorias que lhe facultem o avanço seguro na estrada da pesquisa metódica de laboratório”, como pretende o Sr. Guimarães Andrade, em sua Teoria Corpuscular do Espírito, é invadir atribuições alheias. E dizer que o Espiritismo não possui teorias orientadoras de pesquisas científicas é negar a própria doutrina e esquecer os seus efeitos no mundo científico.

   Humberto Mariotti, o conhecido escritor espírita argentino, encerra o seu livro Dialéctica e Metapsíquica, réplica a um livro materialista de Emílio Troise, com esta advertência: “A filosofia espírita, sempre pronta a renovar-se, espera, pois, para o fazer, uma prova científica de seu opositor: o materialismo. Enquanto isso, continuará forjando o aço desse novo mundo espiritual, que vem assomando por entre os factos da psicologia supranormal, até que a prova mencionada seja produzida”. A teoria espírita, como a chamaram os cientistas, não é apenas teoria, mas toda uma doutrina, solidamente construída sobre um vasto e profundo alicerce de factos, comprovados por adeptos e adversários, crentes ou descrentes. Ela se impõe por si mesma, ou “pela força mesma das coisas”, como dizia Kardec. Não espera as nossas elaborações teóricas para cumprir a sua missão.

   Grande e belo exemplo é o que nos dá Richet, na carta que dirigiu a Ernesto Bozzano, rendendo-se à evidência espírita. Construtor, ele mesmo, de uma teoria, exclama, diante dos argumentos espíritas de Bozzano: “Eles formam um estranho contraste com as nebulosas teorias que atravancam a nossa ciência”. Ao contrário disso, o Sr. Guimarães Andrade pretende que deixemos de lado, considerando-os obsoletos, os conceitos clássicos da doutrina, para construirmos mais uma teoria nebulosa, e com ela aumentarmos o atravancamento científico.

   Nós, espíritas, temos por acaso alguma dúvida a respeito da sobrevivência do espírito e da sua possibilidade de acção sobre a matéria? Precisamos de novas teorias para investigar os fenómenos impropriamente chamados de supranormais? Não. Logo, não compete a nós a formulação de teorias novas. Por outro lado, duvidamos da solidez das provas e do acervo gigantesco de factos da biblioteca espírita, sempre aberta ao possível interesse dos materialistas? Também não. Logo, a estes é que compete, e não a nós, quebrar a cabeça de encontro à rocha em que nos firmamos. Nosso papel, pelo contrário, é o de continuarmos firmes sobre a rocha, que tem resistido, até aqui, a todos os cabeçudos.

   Pergunta o confrade Guimarães: “Será que já conhecemos tudo a respeito do fascinante problema do espírito, das suas relações com o mundo físico, das suas propriedades, da sua natureza real?” Podemos responder com outra pergunta: “Conhecem os materialistas tudo o que se relaciona com o fascinante problema da matéria, das suas relações com forças desconhecidas, das suas propriedades, da sua natureza real?” Estamos, e eles também o estão, absolutamente certos de que não. Então, como pretendermos colocar, na mesma mesa da ciência materialista, servindo-nos dos seus instrumentos rudimentares, ainda em elaboração, o problema espiritual? Se ela é impotente para dizer tudo a respeito da matéria, como querermos que o diga a respeito do espírito? O mais certo, o mais prudente, é admitirmos a explicação de Kardec: “O Espiritismo não é da alçada da ciência”. Sê-lo-á mais tarde. Mas, para tanto, a ciência precisa concluir a sua tarefa no terreno material, o que ainda está longe de fazer.

   Poderão objectar-nos que as pesquisas dos sábios materialistas concorreram para a comprovação da doutrina. Mas não dizemos o contrário. O que dizemos é que isso compete a eles. Quando os sábios, operando no campo da matéria, comprovam os princípios da ciência espírita, contribuem para esta, e só temos que agradecer-lhes. Aquilo que chamamos, com Kardec, a Ciência Espírita, não é mais do que o aspecto científico da doutrina. Neste aspecto, há uma zona fronteiriça, em que a ciência material pode comprovar os factos espíritas. A da fenomenologia mediúnica. Nesta zona é que o materialismo vem construindo, sem querer, a contragosto, a ciência espírita acessível à compreensão materialista.

   O confrade Guimarães Andrade quer que ajudemos os sábios oferecendo-lhes uma teoria espírita que eles possam aceitar. A intenção é boa, mas conduz a desvios perigosos, como já vimos e ainda veremos, na análise de A Teoria Corpuscular do Espírito. Além disso, é conveniente lembrarmos o velho adágio: “Cada macaco no seu galho”. O Espiritismo, como diz Mariotti no mesmo livro acima citado, “é uma estrela de amor”. Essa estrela brilha sobre o atravancamento de hipóteses nebulosas da ciência materialista, e ainda, segundo o mesmo autor, “ilumina os caminhos de todos os peregrinos que vão em busca da verdade”. Não basta isso? Queremos também acompanhar os peregrinos, oferecendo-lhes cajados que eles não nos pedem, e até mesmo rejeitam com desprezo?

   O livro do Sr. Guimarães Andrade é simplesmente um equívoco. E como tal, só pode fazer mal à doutrina e ao movimento espírita. Pedimos perdão ao confrade, por esta rude franqueza. Mas, em questões doutrinárias, é preferível a dureza da verdade. Pensamos já haver demonstrado, até aqui, os vários enganos do autor. Mas prosseguiremos ainda, para que não digam amanhã, como disseram certa vez, a respeito de outra crítica, que passamos de leve sobre o assunto.
/…


José Herculano Pires – A Pedra e o Joio, Crítica à Teoria Corpuscular do Espírito. Quem não pode o menos, 13º fragmento da obra.
(imagem: As Colhedoras de Grãos, pintura a óleo por Jean-François Millet)

terça-feira, 7 de maio de 2013

| o grande enigma ~


Deus | e o Universo (V)

É a ti, ó Potência Suprema! Qualquer que seja o nome que te dêem e por mais imperfeitamente que sejas compreendida; é a ti, fonte eterna da vida, da beleza, da harmonia, que se elevam nossas aspirações, nossa confiança, nosso amor.

Onde estás, em que céus profundos, misteriosos, tu te escondes? Quantas Almas acreditaram que bastaria, para te encontrar, o deixar a Terra! Mas tu te conservas invisível no mundo espiritual, quanto no mundo terrestre, invisível para aqueles que não adquiriram ainda a pureza suficiente para reflectir teus divinos raios.

Tudo revela e manifesta, no entanto, tua presença. Tudo quanto na Natureza e na Humanidade canta e celebra o amor, a beleza, a perfeição, tudo que vive e respira é mensagem de Deus. As forças grandiosas que animam o Universo proclamam a realidade da Inteligência divina; ao lado delas, a majestade de Deus se manifesta na História, pela acção das grandes Almas que, semelhantes a vagas imensas, trazem às plagas terrestres todas as potências da obra de sabedoria e de amor.

E Deus está, assim, em cada um de nós, no templo vivo da consciência. É aquele o lugar sagrado, o santuário em que se encontra a divina centelha.

Homens! Aprendei a imergir em vós mesmos, a esquadrinhar os mais íntimos recônditos do vosso ser; interrogai-vos no silêncio e no retiro. E aprendereis a reconhecer-vos, a conhecer o poder escondido em vós. É ele que leva e faz resplandecer no fundo de vossas consciências as santas imagens do bem, da verdade, da justiça, e é honrando essas imagens divinas, rendendo-lhes um culto diário, que essa consciência, ainda obscura, se purifica e se ilumina.

Pouco a pouco, a luz se engrandece dentro de nós. De igual modo que gradualmente, de maneira insensível, as sombras dão lugar à luz do dia, assim a Alma se ilumina das irradiações desse foco que reside nela e faz desabrochar, em nosso pensamento e em nosso coração, formas sempre novas, sempre inesgotáveis de verdade e de beleza. E essa luz é também harmonia penetrante, voz que canta na alma do poeta, do escritor, do profeta, e os inspira e lhes dita as grandes e fortes obras, nas quais eles trabalham para elevação da Humanidade. Mas, sentem essas coisas apenas aqueles que, tendo dominado a matéria, se tornaram dignos dessa comunhão sublime, por esforços seculares, aqueles cujo senso íntimo se abriu às impressões profundas e conhece o sopro potente que atiça os clarões do génio, sopro que passa pelas frontes pensativas e faz estremecer os envoltórios humanos.
/...


Léon Denis, O Grande Enigma, Primeira parte Deus e o Universo, I O grande Enigma 5 de 5, 8º fragmento da obra.
(imagem: As majestosas e violentas palavras dos poemas, pintura em acrílico de Costa Brites)

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Victor Hugo e o invisível ~


O Exílio Luminoso

   Victor Hugo, poeta nacional da França, dedicou boa parte de sua vida literária e espiritual à Doutrina Espírita. Seu talento encontrou, nos princípios desta, fontes de inspiração que lhe permitiram escrever páginas brilhantes, as quais continuam guiando o pensamento humano sobre os grandes problemas metafísicos e religiosos.

   As Contemplações, Raios e Sombras, A Legenda dos Séculos revelam conceitos realmente comovedores. Nestes livros o poeta manifestou uma profunda sabedoria espiritual como que inspirada por grandes potências do mundo invisível. E que Hugo, sempre ao serviço da verdade, tudo escreveu interrogando o Além.

   Seu génio romântico cresceu com a visão espírita do mundo; por isso, seu romantismo foi como uma consequência desses mistérios espirituais que sempre o rodearam. Em Jersey, junto ao tripé mediúnico, o mesmo que foi usado pelas sacerdotisas de Apolo para dar oráculos em Delfos, enquanto o mar fustigava furiosamente a costa, foi que concebeu suas grandes visões poéticas e sobrenaturais. Polemizou em verso com entidades invisíveis, com o que comprovou a existência do mundo dos espíritos.

   O poeta sabia que o tripé era um instrumento mágico pelo qual a luz do mundo invisível pode vencer as trevas da terra. Sentia-se na Ilha de Jersey como João em Patmos, razão pela qual pode ser considerado como o fundador da Patmologia Espírita. Falou com o Espírito no meio do mar e escreveu um novo Apocalipse. Relacionou-se empregando a linguagem de Ronsard com Moliére e A Sombra do Sepulcro, duas elevadas personalidades mediúnicas.

   O mar e a solidão acompanharam-no sempre e foram até os seus confidentes. Não obstante, aquela Ilha de Jersey tinha a virtude de povoar-se de entidades invisíveis que lhe falaram de liberdade, amor e recordações. Sua filha Leopoldina, desaparecida num naufrágio, se lhe fez presente por meio do tripé mediúnico e falou com sua alma de modo terno.

   O poeta sabia que os mortos não são devorados pelo abismo e que as distâncias metafísicas não podem alijá-los dos homens. Por isso, dizia: ''Devemos pedir justiça à morte, mas não devemos ser ingratos com ela. A morte não é, como se diz, uma queda nem uma emboscada''.

   Proclamou, assim, que os mortos voltam. Resistia a aceitar um Além que impedia os espíritos desencarnados de comunicar-se com os homens. Aceitava, em troca, um mundo invisível comunicando-se com o visível; o invisível era para o poeta um templo repleto de presenças espirituais sempre dispostas a relacionar-se com a mente e o coração dos povos. Foi por isso que disse: "Os mortos são os invisíveis e não os ausentes".

   A propósito, sustentava a tese de Allan Kardec, seu amigo nos caminhos da verdade, referente às ciências das manifestações espirituais. Participava destas importantes reflexões do destacado filósofo espírita: "Devemos pedir que os incrédulos nos provem, não por uma simples negativa, porque suas opiniões pessoais não fazem lei, mas por razões lógicas, que isto não pode ser. Nós nos colocaremos sobre o seu terreno e, já que desejam apreciar os factos espíritas com a ajuda das leis da matéria, que tomem por conseguinte neste arsenal alguma demonstração matemática, física, química e fisiológica e provem por A mais B, partindo sempre do princípio da existência e sobrevivência da alma:

1°) Que o ser que pensa em nós durante a vida não pode pensar mais depois da morte.
2°) Que, se pensa, não deve pensar mais do que nos que amou.
3°) Que, se pensa naqueles que amou, não deve querer comunicar-se já com eles.
4°) Que, se pode estar em todas as partes, não pode estar ao nosso lado.
5°) Que, se está ao nosso lado, não pode comunicar-se connosco.
6°) Que, por seu envoltório fluídico, não pode agir sobre a matéria inerte.
7°) Que, se pode agir sobre a matéria inerte, não o pode sobre um ser animado.
8°) Que, se pode agir sobre um ser animado, não pode dirigir sua mão para fazê-lo escrever.
9°) Que, podendo fazê-lo escrever, não pode responder às suas perguntas e transmitir-lhe seu pensamento.''

   E Kardec concluiu dizendo: "Quando os adversários do Espiritismo nos demonstrarem que isto não pode ser, por razões tão patentes quanto aquelas pelas quais Galileu demonstrou que não é o Sol que gira ao redor da Terra, então poderemos dizer que as suas dúvidas são fundadas".

   Se precisássemos de uma definição para provar a qualidade de espírita de Victor Hugo, esta poderia ser: Ele foi o Isaías mediúnico maior da literatura romântica. Recorde-se que o romantismo de Hugo transcendeu às formas clássicas mediante uma transfiguração das coisas. Viu sempre em tudo um mundo invisível, quer dizer, um sustentáculo imaterial do mundo físico. Cantou a natureza com ritmos provenientes do mundo dos espíritos e pincelou poemas dedicados à alma do abismo, que falou por sua boca comovendo a literatura de seu tempo. "É necessário, mais do que nunca  dizia  ensinar aos homens o ideal, este espelho que reflecte o semblante de Deus! Poetas, filósofos, essa é a vossa obrigação''.

  Sua presença era um convite ao transcendente. Tudo nele sugeria novos horizontes espirituais. Como Pedro Leroux, Saint Simón, José Mazzini, acreditava na reencarnação; por isso, sua obra poética e filosófica está impregnada de um profundo lirismo palingenésico.

  É curioso que a crítica não tenha reparado neste aspecto de sua produção, especialmente quando completou cento e cinquenta anos de seu nascimento. Com este motivo, Les Nouvelles Littéraires, reputado periódico literário de Paris, dedicou ao grande poeta francês o seu número 1277, de 21 de Fevereiro de 1952, no qual menciona com bastante discrição o Victor Hugo espírita.

  Mas, apesar dessa reserva, a crítica reconhecerá um dia que o espírito de Victor Hugo, cósmico e profundo, se inspirou nas visões espirituais que o Espiritismo lhe sugeria. Dos poetas românticos, nenhum como ele compreendeu com tanta realidade o processo espiritual do homem e da história, chegando até Deus através de abismos e distâncias. Victor Hugo sustentava com fé poética e religiosa a palingenesia espiritual, de tudo o que existe.

  A psicografia ou mediunidade da escrita secundava notavelmente seu génio poético. Quando escrevia, dava-se conta de que sua mão não lhe pertencia e que estava sob a influência de uma entidade lírica invisível. Porém, rebelava-se quando seu génio era considerado por seus amigos exclusivamente mediúnico. Por isso, dizia: "Quando a obra parece sobre-humana, querem fazer intervir o extra-humano; antigamente era o tripé, em nossos dias a mesinha. A mesinha não é outra coisa que a reaparição do tripé". Victor Hugo aceitava o mediúnico como uma "inspiração directa" do poeta, ou seja, que prescindia do veículo transmissor.

  Todavia, Amado Nervo pensava diferente e para constatá-lo vejamos o que disse em seu poema Mediunidade:

Si mis rimas fuesen bel/as
enorgullecerme de ellas
no está bien,
pues nunca mías han sido
en realidad: ai oído
me las dieta ... ! no sei quién!
Y o no soy más que e/ acento
dei arpa que hiere el viento
veloz,
no soy más que el eco débil
de una voz ...
Quizás a través de mi
van despertando entre sí
dos almas llenas de amor,
en un misterioso estilo,
y yo no soy más que el hilo
conductor.

  A esta declaração poética, Nervo ajuntou o seguinte: ''Grande número de poetas têm confessado o carácter mediúnico de sua inspiração. Alfredo de Musset diz: "On ne travaille pas: on écoute; c'est comme un iconnu qui parle á l'oreille". E Lamartine: "Ce n'est pas moi pense, ce son mes idées qui pensent pour moi".

   E o nosso estranho Gutiérrez Nájera expressou com delicado acerto:

Y o no escriba mis versos; no los creo:
Viven dentro de mi, vienen de fuera:
A ése, travieso, lo formó e! deseo;
A aquél, lleno de luz, la primavera.

Suzanne Misset-Hopes |*, em importante estudo sobre o poeta, disse que multidões de diversas correntes e convicções sentem-se atraídas para recordar "o que se poderia chamar a mensagem de Victor Hugo, que se encontra numa obra magistral tecida de sombras e luzes, de mistérios e revelações, de inquisições e defesas". E mais: "Victor Hugo  todos sabemos  foi levado a sondar experimentalmente os grandes problemas do destino humano e a decifrar os segredos do além-túmulo e da harmonia cósmica por meio das "mesas falantes" de Jersey. Fez-se espírita e no seio de reuniões sobrenaturais tomou consciência de sua missão de profeta dos tempos que verão nascer uma nova ordem mundial, social e religiosa, baseado em leis fundamentais que regem a vida, leis que constituem os cimentos da verdadeira moral e cujo conhecimento solitário se comprova ser capaz de transformar a conduta dos homens em benefício de suas relações mútuas".

   De facto, Victor Hugo foi o profeta que anunciou o advento de um novo espírito do mundo. Teve fé na justiça e na liberdade e afirmou os seus ideais na fraternidade universal. Lembre-se que o poeta imaginava os Estados Unidos da Europa sobre a base da união divina dos espíritos.

  Vejamos como prossegue Suzanne Misset-Hopes: "Em toda sua obra, particularmente na que criou no exílio, bastante impregnada dos contactos que nessa época teve com o Além, deixa ver um ardente desejo de desprendimento das luzes espiritualistas de que se nutria a sua alma".
/…

|* Ver o artigo Victor Hugo, Precursor, em Survie, Setembro-Outubro de 1952.


Humberto MariottiVictor Hugo Espírita, O exílio luminoso, 5º fragmento da obra.
(imagem: Criança com uma boneca, pintura de Anne-Louis GIRODET-TRIOSON)

quarta-feira, 24 de abril de 2013

O Génio Céltico e o Mundo Invisível ~


Capítulo V

A Auvergne. Vercingétorix, Gergovie e Alésia 
(III)

   É no ano de 53 a.C. que, dolorosamente influenciado pela situação da Gália, Vercingétorix toma a resolução de se consagrar à salvação de sua nação. César tinha derrotado separadamente os éburons, os trévires, os sénones, depois retornou para a Itália, deixando suas dez legiões dispersas no norte e no leste. Aproveitando as circunstâncias, Vercingétorix, em pleno inverno, percorreu as tribos preparando uma sublevação geral e, por sua eloquência máscula, reanimou os ardores patrióticos e levantou as coragens abatidas.

   Uma assembleia solene, de todos os chefes gauleses, teve lugar na floresta sagrada dos carnutos. Ali, sob as bandeiras das tribos, reunidas em aglomerados, os chefes fizeram o juramento de se unirem contra os romanos e proclamaram Vercingétorix como chefe supremo. Eles sonhavam com uma pátria colectiva, com uma grande Gália livre e federada, realização dessa fraternidade céltica, concebida pelos druidas. Vercingétorix tentou introduzir mais ordem e método na organização militar e nos movimentos da armada gaulesa. Ele mostrou tanta habilidade e precisão que provocou este elogio pouco comum de seu inimigo: “Ele foi tanto activo quanto severo no seu comando.” *

   Pode-se perguntar onde o grande chefe arverno, ainda jovem, tinha obtido suas aptidões e seu conhecimento. Parece que a função que se deve atribuir ao mundo invisível na história começa a sair do domínio exclusivo das religiões para penetrar pouco a pouco na ciência. Esta função o Sr. Camille Jullian a reconhece, ou melhor, a discerne na vida de seu herói, e a relaciona a outros exemplos célebres; os de Sartório e de Mário, que tiveram suas profetisas, como Civilis teve Velléda. “Vercingétorix disse que teve ao seu redor agentes que o colocavam em relação com o céu.” **

   Mas o terrível procônsul, ao ser informado da sublevação da Gália, deixou rapidamente Ravenna e, após uma viagem rápida, realizou um acto tido como irrealizável em pleno inverno. Ele atravessou as Cévennes por veredas abruptas, com 30 centímetros de neve, e investiu com sua pequena armada sobre o país arverno, obrigando, assim, Vercingétorix a dirigir suas forças para o sul e a libertar as legiões cercadas. Após esse desvio estratégico, César desceu pelo vale do Loire e juntou, às pressas, a parte principal das legiões a fim de ser capaz de enfrentar os acontecimentos.

   Não é surpreendente achar, a dezoito séculos de distância, factos análogos nessa outra existência do mesmo homem de génio que foi sucessivamente Júlio César e Napoleão Bonaparte? A passagem de Cévennes não teria por complemento aquela do Grand Saint Bernard, e o 18 brumário *** não lembra a passagem do Rubicão?

   Alguns meses depois, o cerco de Bourges pelos romanos, heroicamente sustentado pelos seus habitantes, mostrou toda a utilidade das reformas de Vercingétorix.

   Para devastar a área da armada romana, os bitúriges põem fogo, por sua ordem, em vinte de suas vilas. César sobe de novo até a Auvergne com suas legiões e ataca a Gergovie, foco da independência gaulesa; ele é repelido, forçado a deixar seu campo e a bater em retirada durante a noite.

   O general romano, que não tinha cavalaria, não hesitou em mandar vir de além do Reno, para alistar, bandos de cavaleiros germânicos semi-selvagens. E é assim que, após ter proclamado muitas vezes, altissonante, que ele não vinha à Gália a não ser para defendê-la contra os germanos, foi ele mesmo que abriu o caminho às invasões. Na batalha de Dijon, os pesados esquadrões germânicos romperam a cavalaria gaulesa e Vercingétorix, reduzido à sua única infantaria, teve que se refugiar na Alésia.

   Finalmente, vem o cerco memorável dessa vila pelos romanos, os trabalhos gigantescos das legiões para sitiar o lugar e a chegada da armada de socorro, isto é, quase toda a Gália em armas. Esta armada foi lenta para se reunir, os chefes se ajuntaram, de início, em Bibracte, formando um conselho geral, para discutir os planos de Vercingétorix. Se havia entre eles homens devotados, sem excepção, à liberdade da Gália, havia, também os ambiciosos de duas caras, como os dois jovens eduenos Viridomar e Eporédorix, ambos decididos a favorecer, em segredo, os desígnios de César.

   Numa luta horrorosa de três dias, o impulso furioso dos arvernos desbarata as linhas romanas, mas a traição dos eduenos aniquila seus esforços e a armada gaulesa se dispersa, abandonando os defensores de Alésia à sua própria sorte.

   Vercingétorix, vencido, poderia fugir, mas preferiu se oferecer como vítima expiatória a fim de poupar a vida de seus companheiros de armas. César, estando assentado num tribunal, no meio de seus oficiais, vê as portas da Alésia se abrirem. Um cavaleiro de alta estatura, coberto de uma magnífica armadura, aparece a galope, descreve três círculos com seu cavalo ao redor do tribunal e, com ar altivo e grave, joga sua espada aos pés do procônsul. Era o chefe arverno que se entregava ao seu inimigo. Os romanos, impressionados, se afastaram com respeito, mas César, mostrando a baixeza de seu carácter, prostra-o com injúrias, acorrenta-o, manda-o para Roma e o joga na prisão mamertina, calabouço escuro, com uma única entrada, pela abóbada. Após seis anos de prisão horrenda, ele foi retirado para figurar como triunfo de César, e daí foi entregue ao carrasco (46 a.C.).

   Um dia, no correr dos tempos, esses dois homens se reencontraram servindo à mesma causa, sob o mesmo estandarte. César se chamou, então, Napoleão Bonaparte e Vercingétorix tornou-se o general Desaix. Em Marengo, quando a batalha parecia perdida para os franceses, Desaix chegou na hora exacta, com a sua divisão, para salvar seu antigo inimigo, e esta foi toda a sua vingança!

   Edouard Schuré escreveu a respeito de Desaix, **** após ter lembrado seus grandes feitos:

   “Ele foi a modéstia na força, a energia na abnegação. Procurava sempre o segundo lugar, e aí se conduzia como se fosse o primeiro. Batido mortalmente em Marengo, nesta grande batalha que ganhou para o primeiro cônsul, e temendo que sua morte desencorajasse os seus, disse simplesmente àqueles que o dominavam: “Não lhes digam nada.”

   Nesses detalhes históricos, não se encontra uma confirmação daquilo que nos têm dito nossos instrutores do espaço sobre a identidade desses dois personagens, Vercingétorix e Desaix, animados pelo mesmo espírito no correr dos séculos? Foi assim com César e Napoleão e com muitos outros casos semelhantes.

   Se o olhar do homem pudesse sondar o passado e reconstituir o elo que une suas vidas sucessivas, muitas surpresas lhe seriam reservadas, porém más lembranças e angústias também viriam se misturar às dificuldades da vida presente e agravá-las! Eis por que o esquecimento lhe é dado durante a passagem do vau, isto é, durante a estada terrestre. Mas no desprendimento corporal, nas horas de sono e, sobretudo, após a morte, o espírito evoluído retoma o encadeamento de suas existências passadas, e na lei das causas e efeitos, em vez de vidas isoladas, incoerentes, sem precedentes e sem sequência, ele contempla o conjunto lógico e harmonioso de seu destino.

   Do mesmo modo que visitei a pé, com um sentimento de respeito, o santuário céltico da Bretagne, creio dever fazer a peregrinação da Gergovie e da Alésia. Eu escalei as escarpas da Acrópole arverna e mais tarde subi a inclinação suave que, da estação de Laumes, leva à Alise. Uma neblina fria e penetrante envolvia a planície, enquanto no horizonte o disco avermelhado do Sol parecia se esforçar para furar a cerração.

   Percorrendo as ruas da vila, percebi, com surpresa, uma estátua equestre com esta inscrição: “À Jeanne d’Arc, la Bourgogne”. Este é, então, um monumento expiatório? Prosseguindo minha ascensão, atingi o planalto onde se ergue a estátua gigantesca do grande antepassado. Ali, solitário, pensei por muito tempo, meditei tristemente em tudo que é preciso – lutas, sangue e lágrimas – para assegurar a evolução humana.

   A figura grandiosa e nobre de Vercingétorix se liberta da sombra dos tempos como um exemplo sublime de sacrifício e de abnegação. Ele acreditava na pátria gaulesa, no seu futuro, na sua grandeza, e por essa pátria lutou, sofreu e morreu. Ele foi lembrado, na hora suprema, do juramento pronunciado em frente ao céu, no promontório bretão, no seio das vagas furiosas.

   Ao se oferecer em holocausto para salvar seus companheiros de armas, ele se inspirou também naquilo que lhe tinham ensinado os druidas: é pelo esquecimento de si mesmo, por imolação do “eu” em proveito dos outros, que se alcança o “Gwynfyd”.

   Para lembrança desses heróis, Gergovie e Alésia tornaram-se, para sempre, os lugares sagrados onde a alma céltica adora se recolher para meditar e orar.
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* Comentários da Guerra Gálica, César.
** Obra citada, p. 133.
*** Brumário – Segundo mês do calendário republicano francês. (N.T.)
**** Ver Les Grandes Légendes de France, p. 65



LÉON DENIS, O Génio Céltico e o Mundo Invisível, Primeira Parte OS PAÍSES CÉLTICOS, CAPÍTULO V – A Auvergne. Vercingétorix, Gergovie e Alésia 3 de 3, 18º fragmento da obra.
(imagem: A Apoteose dos heróis franceses que morreram por seu país durante a guerra da Liberdade, pintura de Anne-Louis Girodet-Trioson)