Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

terça-feira, 26 de setembro de 2017

~ em torno do mestre


– A Paciência não se perde ~

"Pela paciência possuireis as vossas almas."

É muito comum ouvirmos esta exclamação: perdi a paciência! Como sabem, porém, que perderam a paciência? Porque quando precisaram daquela virtude para se manterem calmos e serenos não a encontraram consigo, e, por isso, se exasperaram, praticaram desatinos, proferiram impropérios e blasfémias?

Só pelo facto de não encontrarem no seu património moral aquela virtude, alegam logo que a perderam. Como poderiam, porém, perder o que não possuíam?

Será melhor que os homens se convençam de que eles não têm paciência, que ainda não alcançaram essa preciosa qualidade que, no dizer do Mestre insigne, é a que nos assegura a posse de nós mesmos: Pela paciência possuireis as vossas almas. E não pode haver maior conquista que a conquista própria. Já alguém disse, com justeza, que o homem que se conquistou a si mesmo vale mais que aquele que conquistou um reino. Os reinos são usurpados mediante o esforço e o sangue alheio, enquanto que a posse de si mesmo só pode advir do esforço pessoal, da porfia enérgica e perseverante da individualidade própria, agindo sobre si mesma.

Todos esses, pois, que vivem constantemente alegando que perderam a paciência, confessam involuntariamente que jamais a tiveram. Paciência não se perde como qualquer objecto de uso ou como uma soma de dinheiro. Os que ainda não lograram alcançá-la, revelam essa falha precisamente no momento em que se exasperam, em que perdem a compostura e cometem despautérios. Quando, depois, o ânimo serena, o homem diz: perdi a paciência. Não perdeu coisa nenhuma; não tenho paciência é o que lhe compete reconhecer e confessar.

Ás virtudes, esta ou aquela, fazem parte de uma certa riqueza cujo valor imperecível Jesus encarece sobremaneira no seu Evangelho, sob estas sugestivas palavras: Granjeai aquela riqueza que o ladrão não rouba, a traça não rói, o tempo não consome e a morte não arrebata. Tais bens são, por sua natureza, inacessíveis às contingências da temporalidade, e não podem, portanto, desaparecer em hipótese alguma. Constituem propriedade inalienável e legitimamente adquirida pelo Espírito, que jamais a perderá.

Não é fácil adquirirmos certas virtudes, entre as quais se encontra a paciência. A aquisição da paciência depende da aquisição de outras virtudes que lhe são correlatas, que se encontram entrelaçadas com ela numa trama perfeita. A paciência — podemos dizer — é filha da humildade e irmã da fortaleza, do valor moral. O orgulho é o seu grande inimigo. A fraqueza de Espírito é outro obstáculo à conquista daquele precioso tesouro. Todos os movimentos intempestivos, todo o acto violento, toda a atitude colérica são oriundos da susceptibilidade do nosso amor próprio exagerado. A seu turno, os desesperos, as aflições incontidas, os estados de alucinação, os impropérios e as blasfémias são consequências da fraqueza de ânimo ou debilidade moral. A calma e a serenidade de ânimo, em todas as emergências e conjunturas difíceis da vida, só podem ser conservadas mediante a fortaleza e a humildade de Espírito. É essa condição inalterável de ânimo que se denomina paciência. Ela é incontestavelmente o atestado eloquente de alto padrão moral.

Naturalmente, em épocas de calmaria, quando tudo corre ao sabor dos nossos desejos, parece que possuímos aquele preciosíssimo bem. Os homens, quando dormem, são todos bons e inocentes. É exactamente nas horas aflitivas, nos dias de amargura, quando suportamos o baptismo de fogo, que verificamos, então, a inexistência da sublime virtude connosco.

No mundo, observou o Mestre, tereis tribulações, mas tende bom ânimo: eu venci o mundo. Como ele venceu, cumpre-nos, como discípulos, imitá-lo, vencendo também. O Cristo é o modelo sublime, é o grande paradigma. Não basta conhecer os seus ensinamentos, é preciso praticá-los. Daqui a necessidade de fortificarmos o nosso Espírito, retemperando-o nos embates quotidianos como o ferreiro que, na forja, tempera o aço até que o torna maleável e ou resistente.

A existência humana é urdida de vicissitudes e de imprevistos. Tais são as condições que havemos de suportar como consequências do nosso passado. A cada dia a sua aflição — reza o Evangelho na sua empolgante sabedoria. Portanto, cumpre nos tornemos fortes para vencermos. Fomos dotados dos predicados para isso. Tudo que eu faço, asseverou o Mestre, vós também podeis fazer. Se nos é dado realizar os feitos maravilhosos do Cristo de Deus, porque permanecemos neste estado de miserabilidade moral? Simplesmente porque temos descurado a obra da nossa educação. A educação do Espírito é o problema universal.

A obra da salvação é obra de educação, nunca será demais afirmar esta tese.

A religião que o momento actual da Humanidade reclama é aquela que apela para a educação sob todos os aspectos: educação física, educação intelectual, educação cívica, educação mental, educação moral.

A fé que há de salvar o mundo é aquela que resulta desta sentença: Sede perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito.


– A Felicidade

Existe a felicidade? Será ficção ou realidade? Se não existe, porque tem sido essa a aspiração de todas as gerações através dos séculos e dos milénios? Já não seria tempo de o homem se desiludir? Se existe, porque não a encontram os que a buscam com tanto empenho?

Que nos responda o poeta:

"A felicidade está onde nós a pomos; e nunca a pomos onde nós estamos".

Eis a questão. A felicidade é um facto desde que a procuremos onde realmente ela está, isto é, em nós mesmos.

O desapontamento de muitos com relação à felicidade, desapontamento que tem gerado incredulidade e pessimismo, origina-se de a terem procurado no exterior, onde ela não está; origina-se ainda de a suporem dependendo de condições e circunstâncias externas, quando todo o seu segredo está no nosso foro íntimo, no labirinto dos refolhos do nosso ser.

O problema da felicidade é de natureza espiritual. Circunscrito à esfera puramente material, jamais o homem o resolverá. O anseio de felicidade que todos sentimos vem do Espírito, são protestos de uma voz interior.

O erro está em querermos atender a esses apelos por meio das sensações da carne e da gratificação dos sentidos. Daí a insaciabilidade, daí a eterna ilusão! O fracasso vem da maneira como pretendemos acudir ao clamor do Espírito. Ao rufiar das asas, respondemos com o escarvar das patas.

A ideia de felicidade é tão real como a da imortalidade: aquela, porém, como esta, diz respeito à alma, não ao corpo. Ao Espírito cumpre alcançar a felicidade que está, como a imortalidade, em si mesmo, na trama da própria vida, dessa vida que não começa no berço nem termina no túmulo.

A felicidade, neste mundo onde tudo é relativo, não exclui o sofrimento. Mesmo na dor, a felicidade legítima permanece actuante como lenitivo.

De outra sorte, sofrermos durante certo tempo e vermo-nos, depois, livres do sofrimento, já não será felicidade? O doente que recupera a saúde e o prisioneiro que alcança a liberdade já não se sentem, por isso, felizes? A saudade que nos mortifica, não se transforma em gozo quando, novamente, sentimos palpitar, bem junto ao nosso, o coração amado?

Não é bom sofrer para gozar? É assim que, muitas vezes, a felicidade surge da própria dor como a aurora irrompe da noite tenebrosa.

O descanso é um prazer após o trabalho; sem este, que significação tem aquele? Assim a felicidade. Ela representa o fruto de muitos labores, de muitas porfias e de acuradas lutas. Vencer é alcançar a felicidade. Podemos, por acaso, conceber a vitória sem as refregas? Quanto mais árdua é a peleja, maior será a vitória, mais saborosos os seus frutos, mais viçosos os seus louros.

Para a felicidade fomos todos criados. "Quero que o meu gozo esteja em vós, e que o vosso gozo seja completo." As graças divinas estão em nós, mas não as percebemos. A vida animalizada que levamos ofusca o brilho da luz íntima que somos nós mesmos. Vivemos como que perdidos, insulados, ignorando-nos a nós próprios. Encontrarmo-nos e nos reconhecermos como realmente somos — eis a felicidade. Fugirmos da espiritualidade é fugirmos de nós mesmos. Querendo fruir prazeres sensuais, adulteramos a nossa natureza íntima, resvalando para o abismo da irracionalidade. Desse desvirtuamento vem a dor, dor que nos chama à realidade da vida e nos conduz à felicidade.

A alegria de viver é a consequência natural de um certo estado de alma, e significa viver profundamente.

"Eu vim para terdes vida e vida em abundância". A verdadeira vida é sempre cheia de alegria; é um dia sem declínio, um sol sem ocaso. O céu é a região da luz perpétua. A ele não iremos pela estrada ensombrada de tristezas, luto e melancolia. O caminho que conduz à felicidade, resolvendo os problemas da vida, é estreito: não é escuro, nem sombrio. Estreito, no caso, significa difícil, mas não lúgubre.

A alegria de viver nasce do optimismo, o optimismo nasce da fé. Sem fé ninguém pode ser feliz. Sem fé e sem amor não há felicidade.

As virtudes são as suas ajudas. Haverá felicidade maior que nos sentirmos viver no coração de outrem? "Pai, quero que eles (os discípulos) sejam um em mim, como eu sou um contigo." A fusão de nossa vida em outra vida é a máxima expressão da ventura. O egoísmo é o seu grande inimigo. Alijá-lo de nós é dar o primeiro passo na senda da felicidade.

Sendo a felicidade resultante de uma série de conquistas, é, por isso mesmo, obra de educação. Através da auto-educação de nosso Espírito, lograremos paulatinamente a felicidade verdadeira. O reino de Deus — que é o do amor, da justiça e da liberdade — está dentro de nós, disse Jesus com o peso de sua autoridade. Descobri-lo, torná-lo efectivo, firmar em nós o império desse reino, vencendo os obstáculos e os embaraços que se lhe opõem — tal é a felicidade.

Para finalizar, concedamos a palavra a Léon Denis, o grande apóstolo da Nova Revelação:

Como a educação da alma é o senso da vida, importa resumir os seus preceitos em palavras: Aumentar tudo quanto for intelectual e elevado. Lutar, combater, sofrer pelo bem dos homens e dos mundos. Iniciar os seus semelhantes nos esplendores do verdadeiro e do belo. Amar a verdade e a justiça praticar para com todos a caridade, a benevolência tal é o segredo da FELICIDADE, tal é o Dever, tal é a Religião que o Cristo legou à Humanidade.

/...

" Aos que comigo crêem e sentem as revelações do Céu, comprazendo-se na sua doce e encantadora magia, dedico esta obra. "
                                                                                Pedro de Camargo “Vinícius”


Pedro de Camargo “Vinícius” (i)Em torno do Mestre, Primeira Parte / Seixos e Gravetos; Paciência não se perde / Felicidade, 2º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Jesus em casa de Marta e Maria, óleo sobre tela (1654-1655), de Johannes Vermeer)

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Hippolyte Léon Denisard Rivail

~ O Espiritismo entre os Druidas ~

Há cerca de dez anos, sob o título Le vieux neuf (*), publicou o Sr. Édouard Fournier (i), no Le Siècle (i), uma série de artigos tão notáveis do ponto de vista da erudição, quanto interessantes pelas suas relações históricas. Passando em revista todas as invenções e descobertas modernas, prova o autor que se o nosso século tem o mérito da aplicação e do desenvolvimento, não tem, pelo menos para a maioria delas, o da prioridade. À época em que o Sr. Édouard Fournier escrevia estes eruditos folhetins (i) não se cogitava (i) ainda de Espíritos, sem o que não teria deixado de nos mostrar que tudo quanto se passa hoje é apenas uma repetição do que os Antigos sabiam muito bem, e talvez melhor que nós. E, o que lastimamos por nossa conta, porque as suas profundas investigações ter-lhe-iam permitido esquadrinhar a Antiguidade mística, como perscrutou a Antiguidade industrial; donde, fazemos votos para que as suas laboriosas pesquisas sejam dirigidas um dia para esse lado. Quanto a nós, não nos deixam as nossas observações pessoais nenhuma dúvida sobre a antiguidade e a universalidade da Doutrina que os Espíritos nos ensinam. Essa coincidência, entre o que nos dizem hoje e as crenças dos tempos mais remotos, é um facto significativo da mais alta importância. Faremos notar, entretanto, que, se por toda a parte encontramos traços da Doutrina Espírita, em parte nenhuma a vemos completa: tudo indica, ter sido reservado à nossa época coordenar esses fragmentos esparsos entre todos os povos, a fim de se chegar à unidade de princípio através de um conjunto mais completo e, sobretudo, mais geral de manifestações, que dariam razão ao autor do artigo que citamos acima, a propósito do período psicológico no qual a Humanidade parece estar a entrar.

Quase por toda a parte a ignorância e os preconceitos desfiguraram esta doutrina, cujos princípios fundamentais se misturam às práticas supersticiosas de todos os tempos, exploradas para abafar a razão. Todavia, sob esse amontoado de absurdos germinam as mais sublimes ideias, como sementes preciosas ocultas debaixo de silvado, não esperando senão a luz vivificante do sol para se desenvolverem. Mais universalmente esclarecida, a nossa geração afasta a moita de silvas; tal limpeza de terreno, porém, não pode ser feita sem transição. Deixemos, pois, às boas sementes o tempo de se desenvolverem e, às ervas daninhas, o de desaparecerem.

A doutrina druídica oferece-nos um curioso exemplo do que acabamos de dizer. Essa doutrina, de que não conhecemos bem senão as práticas exteriores, eleva-se, sob certos aspectos, até às mais sublimes verdades; mas essas verdades eram apenas para os iniciados: terrificado pelos sacrifícios sangrentos, o povo colhia com santo respeito o visgo sagrado do carvalho e via apenas a fantasmagoria. Poderemos julgá-lo pela citação seguinte, extraída de um documento tão precioso quão desconhecido, e que lança uma luz inteiramente nova sobre a teologia dos nossos ancestrais.

 “Entregamos à reflexão dos nossos leitores um texto céltico, há pouco tempo publicado, cujo aparecimento causou uma certa emoção no mundo culto. É impossível saber-se ao certo o seu autor, nem mesmo a que século remonta. Mas o que é incontestável é que pertence à tradição dos bardos da Gália, e essa origem é suficiente para lhe conferir um valor de primeira ordem.

“Sabe-se, com efeito, que ainda nos nossos dias a Gália se constitui no mais fiel abrigo da nacionalidade gaulesa que, entre nós, experimentou tão profundas modificações. Apenas abordada ao de leve pela dominação romana, que nela só se deteve por pouco tempo e fracamente; preservada da invasão dos bárbaros pela energia dos seus habitantes e pelas dificuldades do seu território; submetida mais tarde à dinastia normanda que, todavia, teve que lhe conceder um certo grau de independência, o nome de Galles, Gallia, que sempre ostentou, é um traço distintivo pelo qual se liga, sem descontinuidade, ao período antigo. A língua kymrique (**), outrora falada em toda a parte setentrional da Gália, nunca deixou de ser usada, e muitos costumes são igualmente gauleses. De todas as influências estranhas, a única que triunfou completamente foi o Cristianismo; mas não o conseguiu sem muitas dificuldades, relativamente à supremacia da Igreja Romana, da qual a reforma do século XVI mais não fez que determinar-lhe a queda, desde longo tempo preparada, nessas regiões cheias de um sentimento indefectível de independência.

“Pode mesmo dizer-se que os druidas, convertendo-se inteiramente ao Cristianismo, não se extinguiram totalmente na Gália, como na nossa Bretanha e em outras regiões de sangue gaulês. Como consequência imediata, tiveram uma sociedade muito solidamente constituída, dedicada em aparência sobretudo ao culto da poesia nacional, mas que, sob o manto poético, conservou com notável fidelidade a herança intelectual da antiga Gália: é a Sociedade bárdica da Gália que, após se ter mantido como sociedade secreta durante toda a Idade Média, por uma transmissão oral de seus monumentos literários e de sua doutrina, à imitação da prática dos druidas, decidiu, por volta dos séculos XVI e XVII, confiar à escrita as partes mais essenciais dessa herança. Desse fundamento, cuja autenticidade é atestada por uma cadeia tradicional ininterrupta, procede o texto de que falamos; e o seu valor, dadas essas circunstâncias, não depende, como se vê, nem da mão que teve o mérito de o escrever, nem da época em que a sua redacção pôde adquirir a sua última forma. O que nele transpira, acima de tudo, é o espírito dos bardos da Idade Média, eles mesmos os últimos discípulos dessa corporação sábia e religiosa que, sob o nome de druidas, dominou a Gália durante o primeiro período de sua história, mais ou menos do mesmo modo que o fez o clero latino na Idade Média.

“Mesmo que estivéssemos privados de toda a luz sobre a origem do texto de que se trata, estaríamos claramente no caminho certo, tendo em vista a sua concordância com os ensinamentos que os autores gregos e latinos nos deixaram, relativamente à doutrina religiosa dos druidas. Constitui-se esse acordo de pontos de solidariedade que não permitem nenhuma dúvida, porque se apoiam em razões tiradas da própria substância de tais escritos; e a solidariedade, assim demonstrada pelos escritos capitais, os únicos de que nos falaram os Antigos, estende-se naturalmente aos desenvolvimentos secundários. Com efeito, esses desenvolvimentos, penetrados do mesmo espírito, derivam necessariamente da mesma fonte; fazem corpo com o fundo e não podem explicar-se senão por ele. E, ao mesmo tempo em que remontam, por uma origem tão lógica, aos depositários primitivos da religião druídica, é impossível assinalar-lhes algum outro ponto de partida; porque, fora da influência druídica, a região de onde provêm só conheceu a influência cristã, totalmente estranha a tais doutrinas.

“Os desenvolvimentos contidos nas tríades estão de tal modo fora do Cristianismo que as raras influências cristãs, que resvalam aqui e ali no seu conjunto, se distinguem do fundo primitivo logo à primeira vista. Essas emanações, oriundas ingenuamente da consciência dos bardos cristãos, bem podiam, se assim podemos dizer, intercalar-se nos interstícios da tradição, mas nela não puderam fundir-se. A análise do texto é, pois, tão simples quanto rigorosa, visto que pode reduzir-se a pôr de lado tudo o que traz o sinete do Cristianismo e, uma vez operada a triagem, considerar como de origem druídica tudo quanto fica visivelmente caracterizado por uma religião diferente da do Evangelho e dos concílios. Assim, para citar apenas o essencial, e partindo do princípio tão conhecido de que o dogma da caridade em Deus e no homem é tão especial ao Cristianismo quanto o é o da transmigração das almas ao antigo druidismo, um certo número de tríades, nas quais respira um espírito de amor jamais conhecido na Gália primitiva, traem-se imediatamente como marcas de um carácter comparativamente moderno; enquanto que as outras, animadas por um sopro totalmente diferente, deixam ver ainda melhor a chancela da alta antiguidade que as distingue.

“Enfim, não é inútil observar que a própria forma do ensinamento contido nas tríades é de origem druídica. Sabe-se que os druidas tinham uma predilecção particular pelo número três e o empregavam de modo especial, como no-lo mostra a maioria dos monumentos gauleses, para a transmissão de suas lições que, mediante essa forma precisa, se gravavam mais facilmente na memória. Diógenes Laércio conservou-nos uma dessas tríades, que resume sucintamente o conjunto dos deveres do homem para com a Divindade, para com os seus semelhantes e para consigo mesmo: ‘Honrar os seres superiores, não cometer injustiça e cultivar em si a virtude viril.’ A literatura dos bardos propagou, até nós, uma multidão de aforismos do mesmo género, interessando a todos os ramos do saber humano: ciência, história, moral, direito, poesia. Não os há mais interessantes, nem mais próprios a inspirar grandes reflexões do que aqueles que publicamos aqui, segundo a tradução que foi feita pelo Sr. Adolphe Pictet.

“Dessa série de tríades, as onze primeiras são consagradas à exposição dos atributos característicos da Divindade.

É nessa secção que as influências cristãs, como já era de prever, tiveram mais acção. Se não se pode negar ao druidismo o conhecimento do princípio da unidade de Deus, é possível que, em consequência de sua predilecção pelo número ternário, tivesse concebido vagamente alguma coisa da divina trindade. Todavia, é incontestável que o que completa essa elevada concepção teológica, qual seja, a distinção das pessoas e particularmente da terceira, pôde permanecer perfeitamente estranho a essa antiga religião. Tudo leva a crer que os seus sectários estavam muito mais preocupados em estabelecer a liberdade do homem, do que em instituir a caridade; e foi mesmo em consequência dessa falsa posição do seu ponto de partida que ela pereceu. Também parece lógico associar a uma influência cristã, mais ou menos determinada, todo esse começo, particularmente a partir da quinta tríade.

“Em seguida aos princípios gerais relativos à natureza de Deus, passa o texto a expor a constituição do Universo. O conjunto dessa constituição é formulado superiormente em três tríades que, ao mostrarem os seres particulares em uma ordem absolutamente diferente da de Deus, completam a ideia que se deve formar do Ser único e imutável. Sob fórmulas mais explícitas, essas tríades não fazem, afinal, senão reproduzir o que já se sabia, pelo testemunho dos Antigos, da doutrina da transmigração das almas, passando alternativamente da vida à morte e da morte à vida. Pode-se considerá-las como o comentário de um célebre verso da Phrasale, no qual o poeta exclama, dirigindo-se aos sacerdotes da Gália, que, se aquilo que ensinam é verdade, a morte é apenas o meio de uma longa vida: Longae vitae mors media est.

/…
(*) N. do T.: O velho novo. (**) N. do T.: Grifo nosso.


Allan Kardec (i), aliás, Hippolyte Léon Denisard Rivail, La Revue Spirite, O Espiritismo entre os Druidas, Jornal de Estudos Psicológicos de Abril de 1858, 1º fragmento da Revista objecto do presente titulo desta publicação.
(imagem de contextualização: Dança rebelde, 1965 – Óleo sobre tela, de Noêmia Guerra)

terça-feira, 29 de agosto de 2017

O Espiritismo na Arte ~



Parte X

Quarta lição

– A música humana e as notas harmónicas
– A música celeste
– Os sons e as cores

(Novembro de 1922)

“Falaremos hoje da sonoridade, não da sonoridade pura porque não distinguimos os sons com precisão. O som resulta de uma vibração que impressiona os nossos órgãos psíquicos e produz, por consequência, um fenómeno virtual.

É preciso partir deste princípio: no espaço, o som não será a sensação de um ruído, mas a sensação que uma satisfação de bem-estar moral e espiritual produz. O prazer é mais ou menos intenso e corresponde às sensações que os instrumentos nos causam na Terra.

Vimos o ser imaterial transportado para a esfera musical, isto é, para o campo vibratório (i), animado por seres angélicos; vimos também que esse ser recebe, no seu perispírito (i), vibrações que, ao se chocarem com os seus próprios eflúvios, produzirão sensações de prazer.

Na música humana, vós tendes o como nota do diapasão (ii); não tomaremos essa nota como ponto de partida porque a sua tonalidade não corresponde à tonalidade das cores. Tomaremos o . O , aos vossos ouvidos, produz um som grave, pleno, e que exprime o regozijo, um som que representa bem o amor que devemos sentir por Deus. Esse , se fizermos uma comparação, adapta-se melhor à primeira das sensações fluídicas, que se traduz geralmente pela cor azul.

 simboliza o azul celeste, a quietude, a paz da alma proporcionada pela prece. O  é a primeira nota do acorde perfeito que deriva do azul.

mi representa a força no amor, a vontade de amar, e pode ser representado por um raio da vossa luz solar. Temos, então: mi. O  fundamental é azul; o mi, a vontade no amor, nos dará o azul celeste e o ouro.

sol, terceira nota harmónica, representa a consolidação das duas notas precedentes, ou seja, uma ligação que pontua as duas ideias precedentes emitidas, pontuação que assegura a exteriorização do sentimento dado pelo azul.

Percebemos essa nota por uma tonalidade especial, da qual eu procuro fazer-vos compreender a cor pelos vossos sentidos. Não é nem uma emanação prateada, que poderia confundir-se com o ouro, ser por ele absorvida, nem uma emanação negra, resultante de outras cores, que poderia absorver o azul. Mas é um fluido brilhante, sem cor bem definida, que pode aproximar-se da luz radiante (i) que se desprende dos mundos que vós percebeis, ou seja, cinza-azulado, cinza-prateado. O vosso Sol, visto de longe, tem esse aspecto.

A primeira tonalidade, vista por um mortal, terá esse aspecto: tónica azul. Intensidade da tónica, ouro. Pontuação ou duração: cinza-prateado, mistura de azul cercado de ouro e de cinza-prateado.

Essa primeira tonalidade representa o amor divino. As outras cores fundamentais apresentam todos os outros sentimentos, indo do amarelo-claro ao vermelho-escuro, porém essas cores são sempre acompanhadas dos seus mantos dourados e das suas vestes cinza-prateadas.

Em música humana, acorde perfeito: misol. Tornando-se o  acorde perfeito: ; com o mi, acorde perfeito: misolsi. A tónica variará de cor, passando do azul para chegar ao vermelho, mas as duas outras notas serão sempre ouro e prata; elas nunca variarão.

Segundo a qualidade do perispírito (i) e a natureza do campo vibratório, as sensações variam e aumentam de intensidade, a ponto de se tornarem maravilhosas. Certos perispíritos recebem o amarelo, outros o vermelho. Existem alguns que excluem esta última cor.

O violeta é menos suportável para os seres evoluídos. O verde claro é mais agradável que o verde escuro. Pode-se, segundo as leis do espaço, perceber uma mistura de azul e de rosa.

Os campos vibratórios variam igualmente de intensidade. Eles resultam de emanações angélicas, inspiradas pelo ser divino. Quando se retorna à Terra, ainda se está impregnado dessas vibrações; o corpo material aniquila-as, mas a consciência conserva a sua impressão.

Fora desses campos vibratórios existem esferas, e mesmo correntes, que proporcionam aos espíritos menos evoluídos prazeres harmónicos às vezes vivos e profundos, ainda que mais pessoais. Essas correntes fluídicas comunicam ao ser as alegrias íntimas do amor divino. Outras correntes dão-lhe somente a alegria de ouvir os acordes da lira celeste. Essas vibrações, não coloridas e invisíveis ao ser desencarnado (i), dão-lhe uma satisfação comparável àquela que a sensação dos perfumes lhe proporciona.

A música celeste, portanto, é o resultado de impressões causadas pelas camadas fluídicas de acordo com a elevação do ser e a pureza do meio.

No espaço não se ouve nada; sente-se a harmonia dos fluidos e não a dos sons. A propriedade essencial dos fluidos é a cor. O som é de essência terrestre, a cor é de essência celeste. A próxima lição tratará dos encantos harmónicos do espaço e da sua persistência nos sentimentos humanos.”

Espírito Massenet (i)

– Comentário

A solidariedade dos sons e das cores, da qual nos fala o Espírito Massenet, foi entrevista por todos os grandes músicos. Um deles disse: “A melodia é para a luz o que a harmonia é para as cores do prisma, isto é, uma mesma coisa sob dois aspectos diferentes: melódico e harmónico.”

Platão (iii) dizia ainda: “A música é uma lei moral. Ela dá uma alma ao Universo, asas ao pensamento, um impulso à imaginação, um encanto à tristeza, a alegria e a vida a todas as coisas. Ela é a essência da ordem e eleva em direcção a tudo o que é bom, justo e belo, de que ela é a forma invisível, porém surpreendente, apaixonada, eterna.”

De passagem, observemos que Massenet é mais melodista que sinfonista.

Para formar a luz branca, é necessário o acorde das cores complementares e esta luz torna-se mais viva e radiosa na mesma proporção em que a melodia resuma e sintetize melhor o acorde das harmonias complementares.

Parece, então, que há uma concordância perfeita entre as concepções dos génios terrestres e o ensino das entidades do Além, reconhecendo-se que estas nos fornecem detalhes, estimativas ignoradas pelos especialistas do nosso mundo.

As relações que a melodia e a harmonia têm entre si são como as que existem entre o pensamento e o gesto. Também se poderia dizer que, em música, a melodia representa a síntese, e a harmonia, a análise. Portanto, elas penetram uma na outra e não valem senão quanto mais completamente se combinem e se liguem.

Na Terra, a beleza de uma obra musical resulta ao mesmo tempo da concepção e da execução, mas na vida do Além, o pensamento iniciador e a execução se confundem porque o pensamento comunica às vibrações fluídicas as qualidades que lhe são próprias. A obra é tão mais bela e a impressão que ela produz é tão mais viva quanto mais elevada for a intenção. É isso que dá à prece ardente, o grito da alma em direcção ao seu Criador, propriedades harmónicas.

Quanto mais nos elevamos na escala das relações, mais a unidade nos aparece na sua sublime grandeza.

A lei das notações musicais rege todas as coisas e o seu ritmo embala a vida universal. É uma espécie de geometria radiante e divina. O alfabeto humano, como que uma gaguez, é uma das suas formas mais rudimentares. As suas manifestações, porém, tornam-se cada vez mais amplas e importantes em todos os graus da escala harmónica.

O espírito humano não pode elevar-se até às supremas alturas da arte cuja fonte está em Deus, mas ele pode, pelo menos, elevar as suas aspirações em direcção a elas. As concordâncias estéticas dispõem-se, em graus, ao infinito; mas acontece apenas que se, nas horas de êxtase e de enlevo, o pensamento humano entrevê alguns aspectos da lei universal da harmonia. A regra musical produz-se, no espaço, em traços de luz; o pensamento, a expressão do talento divino e os astros no seu curso, ali conformam as suas vibrações.

Se o espírito humano, nos seus arrebatamentos, se eleva um momento sobre essas alturas, ele recai impotente para descrever as suas belezas; as impressões que ele sente só podem ser traduzidas por uma muda adoração. O próprio Espírito Massenet se declara insuficientemente evoluído para se manter nessas esferas superiores.

Uma vez mais, aqui nos encontramos parados pela impossibilidade de exprimir, numa linguagem humana, ideias sobre-humanas. Ainda que se possa falar, fica-se sempre abaixo da verdade. O infinito das ideias, dos quadros, das imagens são como que um desafio dirigido aos recursos limitados do vocabulário terrestre. Efectivamente, como meter em palavras, como resumir em palavras todo o esplendor das obras que se desenvolvem nas profundezas dos céus estrelados?

/…

(ii) Diapasão: pequeno instrumento metálico que dá uma nota constante, normalmente o , e que serve para se afinarem vozes e instrumentos por ele. (N.T.)
(iii) Platão: célebre filósofo grego (Atenas, 428 ou 429 - id., 348 ou 347 a.C.), discípulo de Sócrates, mestre de Aristóteles. Autor dos diálogos: CritonFédonFedroGórgiasO BanqueteA RepúblicaAs Leis, etc, em que dá a palavra a Sócrates. (N.T., segundo o Dicionário Koogan Larousse.)



LÉON DENIS, O Espiritismo na Arte, Parte X Quarta lição do Espírito Massenet – A música humana e as notas harmónicas – A música celeste – Os sons e as cores – Comentário, 28º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: O Concerto dos Anjos (1897), óleo sobre tela de Edgard Maxence)

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Da sombra do dogma à luz da razão ~


a natureza | divina ~

   Ao homem não é dado sondar a natureza íntima de Deus. Para compreender Deus, falta-nos ainda o sentido que só se adquire através da completa depuração do Espírito. Mas se o homem não pode penetrar a sua essência, sendo a sua existência dada como premissa, ele pode pelo raciocínio chegar ao conhecimento dos seus atributos necessários; porque, ao ver o que ele não pode deixar de ser sem deixar de ser Deus, conclui daí o que ele deve ser.

   Sem o conhecimento dos atributos de Deus, seria impossível compreender a obra da criação; é o ponto de partida de todas as convicções religiosas e é por não se terem reportado a ele como a um farol que os podia orientar, que a maior parte das religiões errou nos seus dogmas. As que não atribuíram a Deus a omnipotência imaginavam vários deuses; as que não lhe atribuíram a bondade suprema, criaram um deus ciumento, colérico, parcial e vingativo.

   Deus é a suprema e soberana inteligência. A inteligência do homem é limitada, já que não consegue fazer nem compreender tudo o que existe; a de Deus, abarcando o infinito, deve ser infinita. Se a julgássemos limitada a um ponto qualquer, poderíamos conceber um ente ainda mais inteligente, capaz de entender e fazer o que outro não faria e assim seguidamente, até ao infinito.

   Deus é eterno. Isso quer dizer que não teve princípio e que não tem fim. Se tivesse havido um princípio, é porque tinha saído do nada; ora, não sendo o nada coisa nenhuma, não pode produzir nada; ou, então teria sido criado por um ser anterior e, nesse caso, esse ente é que seria Deus. Se lhe atribuíssemos um início ou um fim, poderíamos então conceber um ente que tivesse existido antes dele, ou podendo existir depois dele e assim seguidamente até ao infinito.

   Deus é imutável. Se estivesse sujeito a alterações, as leis que regem o Universo não teriam qualquer estabilidade.

   Deus é imaterial. Isso quer dizer que a sua natureza difere de tudo aquilo a que chamamos matéria; caso contrário seria matéria. Nós dizemos: a mão de Deus, o olho de Deus, a boca de Deus, porque o homem, só se conhecendo a si, toma-se como termo de comparação de tudo o que não compreende. Aquelas imagens em que representa Deus como um velho de barba comprida, coberto com um manto, são ridículas; têm o inconveniente de rebaixar o Ente supremo às mesquinhas proporções da humanidade; daí que ao atribuir-lhe as paixões da humanidade e dele fazer um Deus de cólera e ciúme não vai mais de um passo.

   Deus é todo-poderoso. Se não possuísse o supremo poder, poderíamos conceber um ente mais poderoso e assim seguidamente, até encontrarmos o ente que nenhum outro pudesse ultrapassar em poder e esse seria Deus.

   Deus é soberanamente justo e bom. A sabedoria providencial das leis divinas revela-se nas mais pequenas coisas assim como nas maiores e esta sabedoria não permite duvidar nem da sua justiça nem da sua bondade.

   O infinito de uma qualidade exclui a possibilidade da existência de uma qualidade contrária que a diminuísse ou anulasse. Um ser infinitamente bom não poderia possuir a mais pequena parcela de maldade nem o ser infinitamente mau ter a mais pequena parcela de bondade; do mesmo modo que um objecto não poderia ser de um negro absoluto com a mais leve sombra de branco, nem um branco absoluto com a mais pequena mancha de negro.

   Deus não poderia portanto ser simultaneamente bom e mau porque então, não possuindo nem uma nem outra destas qualidades a um grau supremo, não seria Deus; todas as coisas estariam submetidas ao capricho e não haveria estabilidade para nada. Só poderia portanto ser infinitamente bom ou infinitamente mau; ora como as suas obras testemunham a sua sabedoria, a sua bondade e a sua solicitude, é preciso concluir daí que, não podendo ser simultaneamente bom e mau sem deixar de ser Deus, deve ser infinitamente bom.

   A soberana bondade implica a soberana justiça; se agisse injustamente ou com parcialidade numa única circunstância, ou para com uma  das duas criaturas, não seria soberanamente justo e, portanto, não seria soberanamente bom.

   Deus é infinitamente perfeito. É impossível conceber Deus sem o infinito das perfeições, sem o que não seria Deus, pois poderíamos sempre conceber um ente possuindo o que lhe faltasse. Para que nenhum ente o possa ultrapassar é necessário que ele seja infinito em tudo.

   Os atributos de Deus, sendo infinitos, não são susceptíveis nem de aumento nem de diminuição; sem isso não seriam infinitos e Deus não seria perfeito. Se retirássemos a mais pequena parcela de um dos seus atributos, já não teríamos Deus, dado que poderia existir um ser mais perfeito.

   Deus é único. A unidade de deus é consequência do infinito absoluto das perfeições.

   Só poderia existir um outro Deus na condição de ser igualmente infinito em todas as coisas, porque se houvesse entre eles a mais ligeira diferença, um seria inferior ao outro, subordinado ao seu poder e não seria Deus. Se houvesse entre eles igualdade absoluta, seria para toda a eternidade um mesmo pensamento, uma mesma vontade, um mesmo poder; assim confundidos na sua identidade, não seriam na realidade mais que um só Deus. Se cada um deles tivesse atribuições especiais, um faria o que o outro não faria e então não haveria entre eles igualdade perfeita, dado que nem um nem o outro possuíam autoridade soberana.

   Foi a ignorância do princípio do infinito das perfeições de Deus que engendrou o Politeísmo, culto de todos os povos primitivos; atribuíram divindade a todo o poder que lhes pareceu estar acima da humanidade; mais tarde, a razão levou-os a confundir estes diversos poderes num só. Depois, à medida que os homens foram percebendo a essência dos atributos divinos, eliminaram das suas crenças os símbolos que eram delas a negação.

   Em resumo, Deus só pode ser Deus na condição de não ser ultrapassado em nada por um outro ser; porque então o outro ser que o ultrapassasse, fosse no que fosse, nem que fosse na espessura do cabelo, seria o verdadeiro Deus; por isso, é necessário que seja infinito em todas as coisas.

   É assim que, tendo a existência de Deus sido constatada pelo acto das suas obras, chegamos, por simples dedução lógica, a determinar os atributos que o caracterizam.

   Deus é, portanto, a suprema e soberana inteligência; é único, eterno, imutável, imaterial, todo-poderoso, soberanamente justo e bom, infinito em todas as perfeições e não pode ser outra coisa.

   É este o eixo sobre que assenta o edifício universal; é este o farol cujos raios se estendem sobre o Universo inteiro e que é o único a poder guiar o homem na busca da verdade; seguindo-o, nunca se transviará e, se muitas vezes se afastou do bom caminho, é por não ter seguido o caminho que lhe era indicado.

   É também este o critério infalível de todas as doutrinas filosóficas religiosas; o homem tem para as avaliar uma medida rigorosamente exacta nos atributos de Deus e pode dizer com segurança que qualquer prática que esteja em contradição com um só dos seus atributos, que tendesse não só a anulá-lo mas simplesmente a enfraquecê-lo, não pode estar dentro da verdade.

   Em filosofia, em psicologia, em moral, em religião, só há uma verdade no que não se afasta um jota das qualidades essenciais da Divindade. A religião perfeita seria aquela em que nenhum artigo de fé estivesse em oposição com estas qualidades, de que todos os dogmas pudessem passar pela prova deste controlo sem sofrer qualquer dano.

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ALLAN KARDEC, A GÉNESE – Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo, Capítulo II | Deus, A natureza divina, A Providência, A visão de Deus | – A natureza divina (de 8 a 19) 16º fragmento da obra. Tradução portuguesa de Maria Manuel Tinoco, Editores Livros de Vida.
(imagem de contextualização: Diógenes e os pássaros de pedra, pintura em acrílico de Costa Brites)

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Inquietações Primaveris ~


Os Mortos Ressuscitam |

A ressurreição dos mortos no último dia, no fim dos tempos, é uma alegoria judaica de que Jesus se serviu, como de tantos outros elementos do Judaísmo, para ensinar o sentido verdadeiro da morte como transição ou passagem de um mundo para outro, do mundo material para o espiritual. O último dia é apenas aquele em que morremos. O fim dos tempos seria o fim do mundo, mas de que mundo? A imaginação rabínica antecedeu com vantagem a dos teólogos cristãos. Mais integrada nas tradições proféticas do Fértil Crescente, a imensa região oriental descrita por John Murphy (i) na sua História das Religiões, os rabinos judeus dispunham das excitações naturais da época em que um novo mundo estava sendo construído na Terra. A era apocalíptica judaica, de que o Apocalipse de João nos dá uma imagem alucinante, foi o mundo mágico das profecias judaicas. Jesus, judeu nascido na Galiléia dos Gentios, no meio dos gregos da Decápolis, salvou-se da helenização graças à humildade e à pobreza da sua família. A profissão de carpinteiro que o pai lhe transmitia, segundo os costumes da época, livrou-o das influências herodianas que fizeram de Madalena uma cortesã grega típica. Educado na sinagoga, recebendo a bênção da virilidade aos treze anos, no Templo de Jerusalém, Jesus era um judeu entre judeus. A sua inteligência excepcional e a elevação natural do seu espírito permitiam-lhe servir-se dos elementos da cultura judaica para transmitir aos judeus as suas ideias generosas, tentando romper o terrível sociocentrismo judaico, racista e pretensioso, que até hoje perdura de maneira chocante na arrogância e na insolência do novo Estado de Israel. Esse esforço generoso de Jesus, como podemos ver hoje, não surtiu os resultados que um deus grego, por exemplo, poderia ter obtido. Os romanos, que se casavam bem com as anti-virtudes judaicas, teriam feito de Jesus o Messias esperado se a helenização herodiana o tivesse envolvido. Mas o jovem carpinteiro integrou-se de tal maneira nas aspirações grandiosas do Judaísmo e, se apegava tanto às suas ideias generosas de renovação do mundo, que o seu destino só podia ser, no covil de cobras do rabinato, a condenação à morte infamante na crucificação romana.

Essa visão racional da vida de Jesus, que não nos seria possível depois do fim do Mundo Antigo, foi de tal maneira envolvida pelas alucinações proféticas do Judaísmo, pelas fascinações mitológicas da era massivamente dominada pelos mitos e, logo mais pela efervescência das seitas judaicas, das influências filosóficas e míticas da cultura grega e pelas manobras habilíssimas da política imperial romana, que chegou até nós na forma-disforme e atormentada de um sincretismo cultural assustador. O jovem carpinteiro foi transformado em mito, em rei e, por fim, num deus grego que absorvia na sua natureza os poderes totais do Messias, de Iavé, de Zeus e de Júpiter. Roma rendeu-se a esse sincretismo por força das circunstâncias, mas com a condição de manter nas suas mãos imperiais as rédeas da nova era. A queda do Império pela invasão dos bárbaros e a subjugação posterior de Bizâncio – aumentando o sincretismo cultural, quantitativa e qualitativamente pela turbulência e a vitalidade dos povos bárbaros, completou-se na desfiguração mitológica do Cristianismo, de maneira irremediável, no trágico totalitarismo sagrado do período medieval. Por isso, quando os primeiros ventos da Renascença começaram a soprar sobre a Europa orientalizada, abalando a estrutura gigantesca e a todo poderosa Igreja, a insurreição luterana desencadeou as forças adormecidas da renovação dos tempos. E quando um jovem seminarista, Ernest Renan, resolveu passar a limpo a História Cristã, só não foi queimado na praça pública porque, como assinalou Kardec, a cauda da inquisição já se arrastava nas terras de Espanha.

Sem a compreensão rigorosamente histórica desse vastíssimo e trágico panorama, despido das fantasias mitológicas e aliviado das toneladas de quinquilharias sagradas com que Roma o asfixiara, não poderíamos compreender a formação do mundo moderno, de cujas entranhas nascemos para decifrar os enigmas atordoantes da Esfinge Romana. A Loba nos devoraria com a impiedade dos Césares.

Os mortos ressuscitam, não no fim dos tempos, no último dia, pois que iriam fazer com a sua ressurreição no vazio do mundo, sem tempo ou no tempo sem mundo? E de que lhes serviria ressuscitar, no fim dos milénios com os seus miseráveis corpos doentes e deformados, aos quais Deus, num excesso de crueldade, concederia a vida eterna com as suas doenças e aleijões?

Essa ideia espantosa, que parece derivada das tragédias gregas, saiu da cabeça de teólogos iluminados pelas fogueiras medievais, perante a lição de Jesus a Tomé, que teve de tocar com os dedos as chagas da crucificação nas mãos do mestre, para acreditar que era mesmo Jesus quem ali se apresentava, no cenáculo dos apóstolos. Apesar das muitas manifestações de mortos ressuscitados em estado de pureza e beleza etérea, que ocorriam no culto pneumático ou culto dos Espíritos, na era apostólica, os teólogos vesgos acharam que os mortos teriam de ressuscitar com as suas marcas e aleijões. E como Deus lhes conferia a vida eterna, eles continuariam assim pela eternidade. É tão obtusa essa dedução que nos custamos acreditar que tantos homens de estudo, tantos mestres do passado e do presente tenham endossado e ensinado ao povo essa burrice sumária. Untersteiner, em A Fisiologia do Mito, tentou esclarecer a função racional do mito no desenvolvimento da cultura. Onde colocarmos tudo isso: razão, fé e cultura, diante de um corcunda, como o da Catedral de Notre Dame de Paris, na ficção de Victor Hugo, ressuscitado com o seu corpo disforme para arrastá-lo pela eternidade? E que dizer do suplício dos mortos que tiveram de sofrer a decomposição dos seus corpos na terra durante milénios, à espera desse prémio terrorista de uma recomposição divina de suas mazelas e aleijões eternizados? Tudo isso não mereceria os gastos de papel e tinta que estamos a fazer, não fosse a aceitação maciça e inconsciente dessas e outras coisas semelhantes que os teólogos inventaram e os clérigos semearam no mundo. O simples facto de se tratar disso já é ridículo, mas devemos expor-nos ao ridículo quando o amor à verdade e o amor ao próximo nos exige esse sacrifício. Os novos teólogos, surgidos do inferno da II Guerra Mundial, levantaram-se contra esses absurdos, mas por sua vez propuseram o absurdo maior da Morte de Deus. O Padre Teilhard de Chardin procurou contribuir para a renovação teológica nos nossos dias, mas por pouco não foi excomungado. A Igreja Eterna não abre as suas janelas aos ventos renovadores. Não pode deixar de ser o que foi. As correntes de pensamento renovador não são aceites pela Igreja.

As lições de Jesus sobre a ressurreição dos mortos abrangem os problemas da ressurreição propriamente dita e da reencarnação. Os textos evangélicos são de absoluta clareza. No caso de João Baptista como a reencarnação de Elias, no do cego de nascença, no diálogo límpido e inalienável com Nicodemos e noutras passagens, mas particularmente na discussão com os apóstolos a respeito dele mesmo, Jesus não deixou dúvidas possíveis, mas os teólogos se incumbiram de criar as dúvidas que a Igreja semeia há quase dois milénios. Se Jesus não concordasse com o princípio, teria corrigido os discípulos, como o fez de maneira enérgica em tantas ocasiões. Jesus ouviu pacientemente o que diziam dele: antigo profeta que ressurgira dos mortos (reencarnação), o Cristo, Filho de Deus (encarnação messiânica), não havendo nesta, em virtude da sua missão, o problema das provas. Depois da crucificação, as provas individuais concretas de sua ressurreição no corpo espiritual. Os teólogos, ignorando as leis desses fenómenos e imbuídos de superstições mitológicas, não perceberam que Jesus aprovara a tese reencarnacionista, confirmando porém, como certa, a da encarnação messiânica, que era o seu caso. Mais tarde tudo se esclareceria com as provas dadas aos discípulos, a começar por Madalena, de que ressuscitara em espírito, como todos ressuscitaremos. Também não perceberam que, no caso da transfiguração no Tabor, com a prova da ressurreição de Moisés e Elias e, com a sua própria transfiguração no corpo espiritual, antecipara a demonstração prática do que teoricamente ensinava. Naquele tempo os judeus confundiam, como observa Kardec, reencarnação com ressurreição. Compreende-se que os teólogos cristãos continuavam e continuam, até hoje, jejunos no assunto, como os judeus antigos. Convém lembrarmos, também, da afirmação de Jesus de que poderia destruir e reconstruir o seu templo em apenas três dias. Tudo isso escapou aos teólogos e aos clérigos cristãos, que até hoje, com raras excepções, nada aprenderam a respeito. A resposta de Jesus a Nicodemos, advertindo-o de que, se não o entendia quando falava das coisas da Terra (reencarnação como novo nascimento na carne e no espírito), como queria entender as coisas celestes. Essa advertência continua a pesar sobre as igrejas cristãs actuais em todo o mundo.

Coube ao Apóstolo Paulo explicar, na I Epístola aos Coríntios, que temos corpo material (animal) e corpo espiritual e, que este corpo, o espiritual, é o corpo da ressurreição. Com essa explicação, Paulo, que havia reconhecido na Estrada de Damasco o Cristo no esplendor do seu corpo espiritual, ensinava aos cristãos da igreja de Corinto que Jesus havia ressuscitado ao terceiro dia no seu corpo espiritual e não no seu corpo carnal. Se os coríntios compreenderam isso não sabemos, mas sabemos com certeza absoluta que as Igrejas Cristãs dos nossos dias ainda não perceberam nada desse grave e importante problema, que é suficiente para renovar as suas Igrejas secretas. Até agora as Igrejas faziam, na Semana Santa, a Procissão do Senhor Morto, enterrando de novo, simbolicamente, o corpo de Jesus.

A Ciência Espírita provou cientificamente que os espíritos, nas suas aparições tangíveis, como agéneres, se mostram capazes de fazer todos os actos de uma pessoa viva encarnada: comem, bebem, apertam as mãos dos amigos, conversam, partem o pão e assim por diante. Porque Jesus fez tudo isso no seu corpo espiritual, teólogos e clérigos andam pregando até hoje que ele ressuscitou na carne. Entretanto, a ressurreição de entre os mortos, na carne, nada tem a ver com as aparições tangíveis, pois é a reencarnação do morto em novo nascimento carnal.

Todos morremos, mas todos ressuscitamos. Por isso não somos mortais, mas imortais. Mortal é o corpo material de que nos servimos para – segundo as Filosofias da Existência, – nos projectarmos no plano existencial. Na Terra, só existimos quando integramos a humanidade encarnada. Os filósofos existenciais, até o materialista Sartre, são obrigados a admitir uma anterioridade do nosso ser (onde e como?) para podermos projectar-nos na existência. Sartre diz apenas que, antes de existir, somos o em-si, uma coisa viscosa e fechada em si mesma, que se projecta no para-si, a existência material, para fazer o trajecto da vida em direcção à morte, buscando a síntese do em-si-para-si, que seria a nossa passagem para o plano divino. Mas Sartre acha que o homem é uma paixão inútil, pois não consegue atingir a divindade. Apesar da sua confusão, Sartre é mais coerente nessa tese do que os teólogos cristãos. Pois estes nos enterram e nos sacramentam para nos fazer dormir nas catacumbas até ao Fim dos Tempos, à espera do Juízo Final.

Mas a mais difícil tarefa da Educação para a Morte é precisamente a de quebrar esse condicionamento milenar, integrando os homens numa visão mais realista da vida. Os factos são de todos os tempos e estão ao alcance de todas as criaturas dotadas de bom senso. Hoje, graças à abertura científica produzida pelo avanço acelerado das Ciências, não se pode admitir que pessoas razoavelmente cultas continuem amarradas – como acontece na própria Parapsicologia, – ao sincretismo teológico do Tomismo de Tomás de Aquino, como acontece com Robert Amadou em França ou às teorias peremptas do velho René Sudre, que volta a tocar o seu realejo enferrujado nos nossos dias. O realejo de Sudre foi desmontado por Ernesto Bozzano no século passado e, isso de maneira irremediável, com a técnica, a lógica e a precisão matemática de Bozzano. Mas o velho teimoso ainda o põe a funcionar, para delícia dos ouvidos esclerosados que não percebem o som rasca das peças carcomidas pela ferrugem. “Morrer não é morrer, meus amigos. Morrer é mudar-se”, exclamou Victor Hugo após as experiências espíritas do seu exílio na ilha de Jersey. Lombroso, contendo a emoção, abraçou a sua mãe materializada na casa do Prof. Chiaia, em Milão. Frederico Figner, judeu ortodoxo, tornou-se espírita na sessão de Belém do Pará, em que a médium Anna Prado lhe devolveu a filha morta, a menina Rachel, que voltou a abraçá-lo e à sua esposa, sentando-se no colo de ambos e advertindo a mãe de que devia tirar o luto, pois ela, Rachel, como provava naquele momento, não morrera. Richet, o fisiologista do século, escreveu a Schutel: “A morte é a porta da vida.” Rhine, Pratt, Carington e Price, nos nossos dias, comprovaram e sustentam com provas nas mãos a sobrevivência do homem à morte do corpo material. Lord Daofinng, na batalha de Londres, da II Guerra Mundial, conversou com os seus aviadores mortos sobre o território alemão. Seriam todos alucinados, teriam perdido o senso e a capacidade de discernimento para aceitar trapaças indignas? Seremos acaso mais bem-dotados do que essas grandes figuras da nossa vida cultural? De que elementos dispomos para rejeitar a nossa própria sobrevivência? Que contra-provas podemos opor ao nosso próprio direito de superar a morte – a destruição total do ser humano –, num Universo em que nada se destrói?

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José Herculano Pires, Educação para a Morte, 19 – Os Mortos Ressuscitam, 24º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: O caranguejo, pintura de William-Adolphe Bouguereau)

segunda-feira, 17 de julho de 2017

O Mundo Invisível e a Guerra ~

Ressurreição (*)

Dia de Páscoa, 31 de março de 1918

  Anualmente, aos primeiros sorrisos da primavera, os discípulos de Allan Kardec reúnem-se em torno desta lápide sagrada, a fim de homenagearem a memória do grande Codificador.

  Parece, inicialmente, que se abriram clarões nas suas fileiras, porque todos os que são jovens estão longe, de pé, na frente de batalha, para repelir o invasor.

  Muitos tombaram na defesa da pátria e as suas almas foram juntar-se, no Espaço, às almas dos homens de ideal, de dever e de virtude que, faz 60 anos, lutaram pela divulgação do Espiritismo no nosso país, todavia essas almas, fiéis à citação, tornaram a participar desta cerimónia.

  Se conseguíssemos tirar o véu que nos oculta o mundo invisível não veríamos somente alguns grupos de adeptos, porém uma grande multidão que se apresenta espontaneamente para nos alentar e nos inspirar. O seu número cresce bastante ao somar-se com todos aqueles atingidos pela dor e que buscam na nossa doutrina o raio de esperança que esclarece e consola.

  Na luta terrível que abala o mundo, não são apenas as energias latentes que acordam, mas também todas as paixões furiosas e as ambições que jaziam no coração humano.

  Neste momento cruel, é agradável lembrarmo-nos dos grandes obreiros do pensamento pacificador e fecundo, que prepararam um futuro melhor e, dentre eles, Allan Kardec.

  Desta vez, o aniversário do mestre coincide com a festa da Ressurreição. Não é este, por acaso, um motivo de alegria, um símbolo de vida e uma promessa de imortalidade?

  A Páscoa é o despertar da natureza depois do prolongado e triste sono do inverno. Os brotos enchem-se de seiva, nascem florinhas nas moitas, recomeçam os gorjeios dos pássaros que preparam os ninhos nos ramos. Tépido perfume paira no ar.

  Ao mesmo tempo se estabelece, com maior insistência, o problema da vida renascente, que é uma questão grave do movimento progressista, através do qual são feitas ou transformadas as coisas.

  Para grande parte dos homens, esse problema ainda é obscuro, permanecendo escondida a finalidade da vida. Tudo quanto lembre o mistério dos seres e das coisas aumenta a sua inquietação e o seu anseio. Não sabem de onde vieram nem para onde vão; caminham tropeçando em todos os obstáculos da estrada. A ideia da morte assusta-os e eles a repelem horrorizados.

  Para nós, graças ao Espiritismo, o objectivo de viver se aclarou de maneira intensa. A vida é um caminho até as alturas, a rota que conduz aos grandes picos perenes. É o esforço do homem para o bem e o belo, é a ascensão para a luz, é o desenvolvimento gradual das forças e das faculdades, cujas sementes Deus colocou em cada um de nós.

  É verdade que muitas vezes, principalmente na hora actual, a subida é áspera e pontilhada de espinhos, ficando o horizonte escurecido diante de nós. Porém nas horas sombrias é que as grandes verdades se destacam com maior esplendor e se depuram as almas no cadinho do sofrimento. Pelo sacrifício e pela abnegação aumentam a sua irradiação interior. Por intermédio das nossas existências terrenas, precárias, instáveis e dolorosas, construímos o nosso espírito imortal e o grandioso edifício dos seus destinos.

  A Páscoa é também a comunhão entre dois planos: o visível e o invisível, o terreno e o espiritual. Nesse ponto de vista, é o coroamento da obra de Jesus.

  O Cristo abrira, de par em par, as amplas portas que estabelecem o intercâmbio entre esses dois mundos, permitindo que se penetrassem reciprocamente.

  Sabemos que toda a vida de Jesus foi uma obra mediúnica da maior intensidade. Se ele agrupou, à sua volta, homens simples e ignorantes para lhes entregar uma missão que exigia instrução e faculdades oratórias, foi porque descobrira neles as aptidões psíquicas que iriam convertê-los, depois que ele tivesse morrido, em intérpretes do Além, inspirados pelo próprio pensamento e pela vontade.

  A acção dos profetas hebraicos, provocada por superiores influências, prosseguia e estendia-se por toda a Igreja cristã, tornando-se ela a intermediária no mandato preparado pelas potências invisíveis. A manifestação da Páscoa e as aparições de Jesus que se seguiram são a nota importante, o centro dessa grande epopeia espiritualista.

  A Igreja primitiva apresenta notáveis semelhanças com o movimento espírita actual. Sob o nome de profetas, os médiuns nela representavam um papel importante porque nas suas inspirações e discursos havia o grande sopro do Além.

  A Igreja, durante todo o tempo em que seguiu sendo a intérprete das revelações sobre-humanas, foi assistida, protegida e, apesar dos erros e das imperfeições dos seus membros, manteve-se viva e próspera.

  Entretanto, a partir do dia em que aboliu a mediunidade, impondo o silêncio às vozes do além, nela se fez a obscuridade; pouco a pouco, os objectivos divinos foram substituídos pelos materiais e ela abandonou o seu verdadeiro papel, a missão que o seu fundador lhe conferiu.

  A violenta e pérfida campanha que a Igreja promove hoje contra o Espiritismo comprova que ela se desviou completamente do sentido de suas origens, de suas verdadeiras tradições, afastando-se, cada vez mais, dos ensinos do Cristo para se encerrar em fórmulas que os lábios repetem, mas que não trazem luz nem calor aos corações dos homens.

  Resulta daí que nos cabe, modestos discípulos e humildes herdeiros de Allan Kardec, a missão de restabelecer o laço que une o Céu à Terra, de reencontrar a fonte fecunda de onde jorram altas inspirações, de retomar essa tarefa que deve congregar os poderes invisíveis e os homens de boa vontade, a fim de se construir a nova era desejada por todas as almas inquietas e tristes...

  No meio da miséria humana, nos dias angustiados que atravessamos, a Páscoa deve ser, como um raio de luz, uma mensagem de júbilo e de esperança.

  Aí está por que, de pé em volta deste dólmen, como os antigos cristãos que celebravam a Páscoa em traje de viagem e segurando o bordão, comungamos nós, não materialmente, porém com todos os impulsos de nossa alma e todas as aspirações de nosso coração, com esse mundo invisível, cujas legiões pairam sobre nós e se associam intimamente às nossas lutas e esforços, assim como aos nossos padecimentos.

  Dessa forma, a enorme cadeia de vida que liga a Terra ao Espaço se consolida e reúne, numa só acção, as duas humanidades, solidárias no seu destino através dos séculos e dos tempos.

  Se queremos entrever pelo pensamento o porvir reservado ao Espiritismo, imaginemos, por um momento, as gerações vindouras livres de superstições clericais, de preconceitos universitários e elevadas, através do espiritualismo científico e filosófico, até à comunhão com o invisível, conversando com os habitantes do além, orientando a sua vida de acordo com os conselhos dos seus preceptores do além-túmulo e obedecendo aos impulsos superiores, como os antigos profetas de Israel.

  Semelhante sociedade não formaria o povo de eleitos aos quais Jesus veio evangelizar? A união de tal povo com a humanidade invisível seria comparável à escada de Jacob, pela qual os espíritos desceriam até nós e nós subiríamos até Deus, numa ascensão de glória, de virtude e de luz!

  A todos os que se curvam ao peso da existência e ao fardo das provações, aos que consideram com terror o flagelo, o fogo e o sangue que devastam a França, diremos: Elevai os vossos pensamentos acima das misérias humanas, elevai-os às regiões serenas, às perspectivas imensas que a doutrina de Allan Kardec nos apresenta.

  Bem mais alto que as circunstâncias terrenas, ela vos ajudará na descoberta das leis eternas que presidem à ordem, à justiça e à harmonia no Universo. Mostrar-vos-á que os males do destino são outros tantos degraus para se chegar a um nível mais elevado da vida, para alcançar sociedades melhores, humanidades mais dignas dos favores da natureza e do destino. Ela vos dirá que a catástrofe que agora se desencadeou sobre o nosso país, talvez com o fim de saneá-lo, é passageira e que melhores dias virão depois da tormenta.

  O espírita sabe que um futuro sem limites lhe está garantido e vai andando no seu caminho com mais fé e confiança.

  Suporta, resolutamente, as provações porque, de antemão, conhece as suas causas e os seus proveitos, haurindo na sua crença as consolações e a força moral tão importantes nos momentos críticos e de luto. Sabe que, apesar das vicissitudes dos tempos e dos reveses da História, a verdade, o direito e a equidade deram sempre a última palavra.

  O espírita sabe que uma poderosa protecção o envolve, que cada um de nós tem o seu guia e que seres invisíveis zelam pelos indivíduos e pelas nações.

  O estudo de nossa natureza psíquica lhe mostrou toda a extensão das nossas forças ocultas, que podemos ampliar e desenvolver pelo pensamento, pela vontade e pela oração, atraindo para nós as forças exteriores e os puros fluidos, cuja finalidade é fecundar as nossas próprias forças interiores.

  Dessa maneira, a comunhão com o invisível não é apenas um acto de fé, mas principalmente um salutar exercício que aumenta o nosso poder de irradiação e de acção.

  A fim de que possamos gozar da claridade e do calor do Sol, precisamos, em nossas casas, abrir as portas e as janelas; assim também, é preciso abrir as nossas almas e os nossos corações às divinas irradiações para sentir os seus benefícios.

  A maior parte dos homens continua refratária, resultando daí a pobreza do seu espírito e a obscuridade em suas mentes. Porém, se os nossos pensamentos e vontades vibrassem em uníssono, convergindo para um objectivo comum, essa meta seria facilmente atingida e os nossos males se reduziriam notadamente. Nas almas que se encontram mais nas sombras brotaria uma centelha que se transformaria em chama ardente.

  No meio da luta que devasta o mundo, muitas vezes nos sentimos sufocados pela tristeza. Nós que, até há pouco tempo afirmávamos a lei do progresso, com a qual sonhávamos para o melhoramento constante de todas as coisas, agora somos obrigados a reconhecer que as conquistas científicas e as mais belas descobertas da inteligência servem para intensificar a obra de destruição e de morte a que assistimos, impotentes.

  A história imparcial registará as cenas de espanto e terror que acontecem tanto no alto dos ares como na terra e até no fundo das águas; e determinará a responsabilidade dos que foram os primeiros em inaugurar processos de guerra que excedem em selvajaria e ferocidade a tudo quanto a humanidade conhecia.

  De nossa parte, diante desse desenrolar de paixões furiosas, desse transbordar de ódios, temos um dever a cumprir, uma missão a realizar: divulgar em nosso derredor o conhecimento desse além, onde a verdade e a justiça, embora muitas vezes ignoradas na Terra, ainda encontram refúgio seguro; dirigirmo-nos aos que choram os seus mortos queridos, iniciando-os nesse intercâmbio espiritual que lhes permitirá conviverem ainda com eles pelo espírito e pelo coração, proporcionando-lhes inefáveis consolações, e, finalmente, relembramos a memória do grande Codificador dessa doutrina luminosa e serena que traz alento e consolação aos aflitos.

  Nos nossos dias de sofrimento, uma das raras alegrias do pensamento é a de nos determos nas nobres figuras que muito honraram a humanidade.

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(*) Pronunciado em 31 de março de 1918, no Cemitério Père-Lachaise, junto ao túmulo de Allan Kardec.


LÉON DENIS, O Mundo Invisível e a Guerra, XIII Ressurreição (*) Dia de Páscoa, 31 de março de 1918, 30º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Tanque de guerra britânico capturado pelos Alemães, durante a Primeira Guerra Mundial)

segunda-feira, 3 de julho de 2017

o sentido da vida ~


Novo Panteísmo "Realista"

Ao procurarmos situar o Espiritismo, no terreno filosófico, acima das duas correntes clássicas de espiritualismo e materialismo, demos-lhe a designação de realista. Esse realismo, porém, nada tem a ver com o realismo medieval e a sua luta contra o nominalismo. Pode ser antes comparado ao realismo literário de Flaubert, pois o que o caracteriza é a preocupação de ver a vida e o mundo através de uma visão real, a mais real possível, sem o desprezo ou o descuido de qualquer dos aspectos da realidade objectiva e subjectiva, se é assim que podemos dividir, impunemente, a realidade.

Devemos lembrar, entretanto, nesse ponto, que a recusa sistemática em aceitar a teoria espírita e o desinteresse manifesto pela mesma, da parte da maioria dos cientistas modernos e dos modernos filósofos, que torcem o nariz diante dos livros de Kardec e os trabalhos de CrookesMyersRichetAksakof e Oliver Lodge, por sentirem o cheiro de uma grosseira superstição empalhada no museu da culturaconduziram-nos fatalmente a um renascimento forçado do realismo medieval, conjugado com o panteísmo na sua forma mais primitiva. E o dizemos primitiva porque é a forma que poderíamos chamar de panteísmo inconsciente, muito distanciada da forma superior de panteísmo de Espinoza, por exemplo, que, segundo o seu próprio autor, podia confundir-se com o pensamento de Paulo, de que tudo vive e se move em Deus.

Os novos corifeus da cultura, apegando-se a um racionalismo de superfície, que contradiz as maiores virtudes da própria razão, negam todas as possibilidades da sobrevivência individual, para aceitarem, em troca, uma visão infinitamente mais improvável e absurda, da sobrevivência de uma realidade dotada de percepção consciente. Não importa que uma cerebração como a de Oliver Lodge tenha reunido as suas experiências e as suas conclusões, ainda recentemente, em pleno mar da cultura moderna, num trabalho como a monografia Por que creio na imortalidade pessoal. Os grandes sábios da era atómica, embora um cientista de grande evidência no terreno das pesquisas atómicas, como Artur Campton, confirme, em A posição do homem no Universo, as assertivas de Lodge, preferem fugir espavoridos da superstição da imortalidade para se refugiarem no panteísmo científico, que é, na realidade, a mais anti-científica de todas as teorias.

De facto, não negam os nossos homens da ciência, e os possíveis filósofos desta era de pesquisas, a imortalidade da alma. Entretanto, envolvendo essa imortalidade no conceito de eternidade das coisas, confundem o resultado das suas observações parciais com as linhas mais amplas da realidade universal e oferecem à humanidade exausta um imenso borrão, como perspectiva do seu próprio futuro. Apegados ao método científico de indução e dedução, esquecem-se da regra fundamental da convergência das provas, para a qual Ernesto Bozzano nos chama incessantemente a atenção, nos seus trabalhos. Generalizam sobre meia dúzia de conceitos ou de casos, desprezando a maioria, por considerá-los sob o prejuízo da superstição, espécie de pecado original da teologia científica, fonte impura e sempre suspeita, que atemoriza e espanta os ortodoxos.

Não podendo negar a continuidade da vida, que se patenteia a própria continuidade do Universo, e não querendo aceitar a sobrevivência individual, que lhes quebraria o dogma científico do monismo psicofísico, levam de volta o pensamento moderno ao panteísmo primitivo. Deus, embora não o chamem por esse nome, que também cheira a superstição, é a própria natureza, de que tudo provém e a que tudo retorna. As individualidades, sejam humanas, animais, vegetais ou minerais, nada mais são do que ondas que surgem e se apagam, rápidas e efémeras, na superfície do mar infinito da matéria, sucedendo-se através dos tempos, como as próprias ondas do mar. O homem é uma crista de água espumosa que se levanta de súbito na superfície, percorre um certo espaço-tempo e desaparece de novo no líquido comum. O que sobrevive não é o homem, mas apenas os seus elementos constitutivos, a sua matéria e a sua energia. O deus-natureza, caprichoso, ilógico, absurdo, é um monstro universal, de mil tentáculos e de milhões de faces, a criar e a tragar incessantemente as próprias criaturas, a se revelar e se esconder, num torvelinho infernal e numa verdadeira autofagia, mais desoladora e mais horrenda do que tudo o que possa ter imaginado a mitologia pagã e a ingénua teologia católica, a respeito dos domínios satânicos.

Entretanto o homem existe. O homem pensa, vive, sente, pode filosofar. Gogito ergo sum da metade cartesiana. E diante disso, procuram, os sujet-pensant da moderna cultura científica, uma parte de saída através de novo retrocesso filosófico, na volta ao realismo medieval. Vejamos o que dizem H. G. WellsJulian Huxley e G. P. Wells, por exemplo, em A nossa vida mental, tradução e notas de Almir de Andrade, título inglês Science of life, volume oitavo, Man’s mind and behaviour.

Embora sejamos mortais como indivíduos, podemos ser imortais como fases e partes transitórias da evolução contínua e imorredoura de uma realidade dotada de percepção consciente. Quando filosofamos, nas horas de recolhimento e de silêncio, talvez essa filosofia não parta unicamente de nós, mas seja o próprio homem que se revela, na plenitude de si mesmo, através dos nossos pensamentos.”

Durante o século XI, como se sabe, desencadeou-se no mundo filosófico a tremenda luta entre nominalistas e realistas, os últimos afirmando a existência real, positiva, dos universais, que nada mais eram que figuras colectivas das coisas existentes de maneira separada do mundo físico, e os primeiros sustentando a existência apenas destas coisas. Assim, para os realistas, à maneira do que Sócrates e Platão afirmavam sobre os conceitos "gerais", os homens não são mais do que projecções materiais do Homem universal, a entidade colectiva existente no mundo das ideias. A esse idealismo escolástico são forçados a regressar, como vemos, os corifeus do pensamento científico moderno, quando se negam a aceitar as últimas consequências do esforço humano para o conhecimento mais amplo da vida e do mundo.

A Religião, a Filosofia e a Ciência atingiram um estágio superior, graças à contínua e irrevogável evolução da humanidade e dos seus processos mentais. Nesse estágio não é mais possível manter-se o divisionismo irracional, gerador de antagonismos irreconciliáveis, em que esses ramos do conhecimento humano têm vivido até agora. Chegamos, pois, à era da síntese, ao momento do encontro e fusão dessas partes distintas, para a formação do todo, do corpo único e vitorioso da concepção geral do Universo, por que anseiam o coração e a mente do homem. As forças que se opõem a esse avanço natural não podem fazer outra coisa senão barrar o caminho, desviando o curso normal desses ramos do conhecimento. Esse desvio, uma vez que o avanço foi sustado, não pode tomar outro rumo senão o do regresso ao passado.

O Espiritismo se afirma como a larga estrada do progresso para o pensamento humano, quando pensamos em tais coisas. Ele nos mostra a sua verdadeira natureza do ponto culminante das conquistas mentais e espirituais da humanidade, ao verificarmos que, sem interromper o avanço de nenhum dos ramos do conhecimento e sem voltar para trás, ele pode reuni-los, naquela síntese que nos leva da multiplicidade dos fenómenos ao princípio único que os rege.

Nem foi por outro motivo que sir Oliver Lodge afirmou, em Por que creio na imortalidade pessoal, ser o Espiritismo uma nova revolução copérnicaEle rompe o círculo fechado do pensamento moderno, estilhaçando as esferas de vidro dos novos céus superpostos de Ptolomeu, para colocar o homem diante do espaço infinito, em que os mundos gravitam e a humanidade se expande, para além do organocentrismo ortodoxo da biologia moderna.

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José Herculano Pires, O Sentido da Vida, Novo Panteísmo “Realista”, 8º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Platão e Aristóteles, pormenor d'A escola de Atenas de Rafael Sanzio, 1509)