Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Victor Hugo e o invisível ~


Duas Sentenças que Resumem o Sentimento Filosófico do Poeta ~

   Victor Hugo foi, não em vão, um grande propulsor do romantismo espiritualista de França. O seu génio poético só podia desenvolver-se e nutrir-se numa corrente literária transcendente e espiritual, já que através dela pôde penetrar nas chamadas ''reminiscências platónicas'' e nessas ''distâncias da alma'' em que só pode mesmo penetrar o poeta palinginésico.

   O romantismo é como uma evasão do ser deste mundo objectivado. José Ferrater Mora, autor do Dicionário de Filosofia, ao referir-se ao romantismo disse: "Por isso, no movimento romântico existe, junto a uma decidida preocupação com o oculto e o ausente, uma ressurreição do religioso, uma concepção da história com o drama do homem e do seu destino e, em última instância, como uma revelação de Deus no ser finito do mundo''.

   Victor Hugo, de facto, sentiu em toda a sua existência um como que chamamento profundo surgido do ausente, das distâncias históricas onde a alma deixou gravadas as suas pegadas. Compreende que tudo na criação fala e que o passado, o presente e o futuro se entrelaçam harmoniosamente e que em cada um dos períodos do devir do Ser a essência da alma reconstrói o passado para marcar o presente e projectar-se sobre o seu futuro existencial.

   Em uma das suas sentenças mais profundas, como já vimos, deixou expresso com nitidez o seu sentimento palingenésico: "O berço tem um ontem e o túmulo tem um amanhã"; daí serem as bases do seu romantismo nitidamente palingenésicas. No chamado "romantismo de Jena", a poesia se manifestou como uma torneira aberta cujas águas provêm de torrentes espirituais relacionadas com a reencarnação das almas. Poetas como SchellingHõlderlinNovalisTieck e outros viveram possuídos pela ideia do ausente e distante, cuja raiz se funde nos abismos espirituais do Ser, ou seja, nas distantes vidas onde os seus espíritos cantaram e choraram sem serem jamais calados pela morte.

   Victor Hugo viveu sentindo em si mesmo esse imperativo palingenésico, em que o génio poético do século passado percebeu uma nova revelação espiritual. A poesia foi, é e será sempre palingenésica; ela, ainda que a crítica se oponha a este conceito, será sempre uma chama de fogo a iluminar os longínquos dias das idades. Porque a poesia é um fluir do interno para o externo, quer dizer, dessa vida profunda e imortal que dá ser e personalidade a tudo o que existe.

   O poeta de Os Miseráveisreferindo-se ao verdadeiro homem, dizia: ''O corpo bem poderia não ser mais que uma aparência. Ele cobre a nossa realidade; ele se interpõe entre a nossa luz e a nossa sombra: a realidade da alma. Claramente falando, a nossa cara é uma máscara. O verdadeiro homem é aquele que está por trás do homem. Se se olhasse bem esse homem oculto e guarnecido por trás dessa ilusão que se chama carne, ter-se-ia mais de uma surpresa".

   O ser encarnado, melhor dizendo, reencarnado era para Hugo uma aparência existencial cuja realidade está na essência espiritual que determina os mais variados fenómenos da história. Considerava o processo visível uma trama que tem origem no invisível. A poesia de Victor Hugo foi como a entrada num novo mundo religioso onde os espíritos são as alavancas invisíveis de tudo o que se manifesta de forma visível.

   A existência espiritual desencarnada que o poeta aceitava coincidia com a ideia da pessoa no Ser, ou seja, com esse homem de carne e osso imortal de Miguel de UnamunoO Espírito, na sua condição de desencarnado, não é uma abstracção indefinida, como ainda concebe o espiritualismo clássico. A vida do Ser no eterno possui para Hugo um perispírito objectivo, sendo portanto uma realidade vivente com um eu pessoal que actua no material a partir dos planos invisíveis.

   É isso o que nos mostra na seguinte sentença: "A borboleta é o verme metamorfoseado, mas a metamorfose é tão perfeita que se acredita ver uma nova criatura. Do mesmo modo, na nossa existência do além-túmulo não seremos puros espíritos porque estas palavras são vazias de sentido, tanto para a razão como para a imaginação.

   "O que é uma vida sem os órgãos da vida? O que a define e o que a fixa? Na verdade, nós teremos outro corpo semelhante, radiante, divino e, por assim dizer, espiritual, que será a transformação do nosso corpo terrestre''.

   A realidade espiritual do homem era, para o poeta, objectivamente existencial e não uma abstracção, pois a vida do além-túmulo é para Hugo como um alto e imenso cume, onde o espírito se resume dialecticamente. Por isso, disse: "Todos os seres são, foram e serão".

   Em outra passagem, dizia o poeta: "Os mortos são os invisíveis e não os ausentes''. Com este pensamento, ele uniu as vidas passadas das almas com a imortalidade de suas eternas naturezas. Sentiu, por isso, a presença do mundo invisível como uma realidade inteligente e comunicante. E este mundo invisível era para Victor Hugo o mundo dos espíritos tal como está desenhado na obra de Allan KardecA sua vida íntima nunca esteve rodeada de solidão e de vazio. A solidão em Hugo era como um médium que lhe permitia entrar em relação com os erradamente chamados mortos, pois, como grande romântico que era não cria no silêncio aterrador dos túmulos. Ele sabia, pelo fenómeno poético que diariamente experimentava, que é no invisível onde vivem os nossos seres queridos com os seus corpos espirituais, as suas paixões e os seus amores, esperando a oportunidade para revelarem-nos as suas inegáveis identidades. Porque, se "os mortos são os invisíveis e não os ausentes", como dizia, a humanidade está entrelaçada com a vida dos mortos tal como demonstra agora a filosofia espírita.

   Nos arquivos da Revue Spirite, de Paris, encontra-se um trabalho de Léon Denis em que ele se refere a Victor Hugo e à sua compreensão do mundo invisível, como se vê a seguir: "Louis Barthon, da Academia Francesa, depois de consultar os Apontamentos inéditos do poeta, escreveu na Revue de Deux Mondes (número 15, de dezembro de 1918, páginas 751 a 757) o que vamos transcrever: ''Madame Émile de Girardin, tendo ido passar dez dias em Jersey, introduziu ali a prática das mesas girantes e falantes". Como se sabe, Victor Hugo foi o último a ceder perante este fenómeno mediúnico. Mas desde que elas (as mesas) o convenceram, as entidades comunicantes não o abandonaram jamais, exercendo sobre o seu pensamento influências espirituais revolucionárias.

   "Continua dizendo Louis Barthon que na noite de 30 de março de 1857 o poeta percebe a noção de uma nova concepção metafísica, a qual descreve com data de 24 de outubro no seu caderno de apontamentos. Vejamos como capta a presença do invisível através de sua própria relação: 'Esta noite eu não dormia. Eram  cerca das três da madrugada. Um golpe seco, muito forte, se produziu aos pés da minha cama, contra a porta da minha habitação. Pensei em minha filha morta e disse para mim: És tu? Pois eu pensava no complô bonapartista, segundo se falava, em um novo dois de dezembro possível e me perguntava: É uma advertência? E acrescentava mentalmente: Se és realmente tu que estás aí e se vens advertir-me na ocasião deste complô, dá dois golpes. E por cerca de meia hora escuto. A noite era profunda e tudo em casa silêncio. De repente se fazem ouvir dois golpes contra a porta. Desta vez eram surdos mas distintamente muito leves".

   Louis Barthon prossegue em seu relato: "Em 21 de novembro de 1874 Victor Hugo escrevia o seguinte: 'Esta noite despertei e percebi no ouvido, muito próximo de mim, na minha cabeceira, leves pancadas surdas. Eram lentas e regulares, durando um quarto de hora. Eu escutava e não cessavam. Por isso, orei; quando cessaram, disse: se és tu, minha filha, ou tu, meu filho, dá dois golpes. Ao fim de dez minutos, mais ou menos, dois golpes se deram, mas contra a parede perto da cama. Mentalmente disse: é um conselho o que tu trazes? Devo abandonar Paris? Devo permanecer? Se devo ficar, dá um golpe. Se devo partir, dá três golpes. Escuto! Nenhuma resposta ainda. Acabo dormindo. O fenómeno dura quase uma hora'.

   "No caderno de apontamentos do poeta, com data de 22 de novembro de 1874, lê-se o seguinte: 'Esta noite escutei três golpes. Será a resposta à pergunta de ontem? Seria pouco clara ao ser tão demorada'.

   Léon Denis afirma que no mesmo caderno mencionam-se apontamentos nocturnos de carácter mediúnico obstinados, surdos e ainda metálicos e doces, tão comoventes que o poeta terminou por crer na possibilidade de um pronunciamento bonapartista do qual ele seria a primeira vítima (ver La Revue Spirite, de março/abril de 1952).

   Diz ainda Denis que na página 157 do caderno se lê: "Esta noite, cerca das duas horas, senti golpes na minha porta, que estava aberta, sem que pessoa alguma houvesse ali de forma evidente. Credo in Deum eternum et in animan inmortalem".

   Como se verá, os fenómenos mediúnicos experimentados por Victor Hugo não são vãos nem intranscendentes. Têm a virtude de haver elevado a alma do poeta até Deus e de fazê-lo crer no espírito imortal. Este mesmo facto se operou no ânimo de seu compatriota Gabriel Marcel, o distinto filósofo católico, a quem os fenómenos mediúnicos influenciaram notavelmente para a elaboração do seu pensamento filosófico. Victor Hugo, pois, não se equivocou quando disse: "Evitar o fenómeno espírita é fazer bancarrota com a verdade".

/…



Humberto MariottiVictor Hugo Espírita, Duas Sentenças que Resumem o Sentimento Filosófico do Poeta, 8º fragmento da obra.
(imagem de ilustração: Criança com uma boneca, pintura de Anne-Louis GIRODET-TRIOSON)

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O Génio Céltico e o Mundo Invisível ~


Capítulo VI

A Lorraine e os Vosges. Joana d’Arc, alma céltica
(III)

   Voltemos à vertente lorena dos Vosges. É preciso ter frequentado por longo tempo essas regiões, visitado esses lagos, essas torrentes, essas cascatas, tudo quanto alegra ou varia a cada passo a paisagem, para compreender e sentir o encanto penetrante, a doce magia que se forma nessa região e predispõe a alma ao recolhimento e ao devaneio.

   Eu gostava de conversar com os lenhadores e os carvoeiros da floresta de Vosges e constatei que se reencontra entre eles tudo o que caracteriza a raça céltica, a elevada estatura, a alegria, a hospitalidade, o amor à independência.

   Bismarck dizia dos lorenos, após 1871: “Esses elementos são muito indigestos”. Isto me lembra uma discussão que tive em Schlucht, com alemães, no dia seguinte à anexação da Alsácia ao seu império. Como a disputa se inflamou e eu era o único francês, fiquei surpreso ao ver, de repente, saírem do bosque homens de alta estatura, com as faces negras. Eram os carvoeiros lorenos que tinham ouvido tudo e vinham, no momento oportuno, prestar-me ajuda.

   Mas é sobretudo o vale do Meuse que faz voltar as minhas lembranças e afectos. A minha cidade natal, o lugar do meu último nascimento, está separada de Vaucouleurs por uma floresta; as minhas excursões a Domremy e aos seus arredores são incontáveis. Uma atracção poderosa me reconduz a ela. A colina de Bermont, com os seus bosques densos, as suas fontes sagradas, a velha capela onde Joana d’Arc ia sempre orar, conservou todo o seu encanto poético. O bosque Chenu está mais devastado, mas a fonte de Groseilliers sempre faz ouvir o seu doce murmúrio. A sumptuosa basílica moderna, apesar da sua ostentação, não esconde a humilde igreja da vila onde Joana foi baptizada.

   Sobre todo o vale plana uma atmosfera de misticismo que impressiona a alma pensativa e recolhida. Os espíritos flutuam no ar, inspirando os escritores mais refractários; é assim que Maurice Barrès, que nem sempre foi delicado para os espíritas, mas tão bom loreno pelo coração, escrevia o seguinte:

   “Em Jeanne nós vemos agir, sem o seu conhecimento, as velhas fantasias célticas. O Paganismo cerca e assedia esta santa cristã. A donzela honra os santos, mas, instintivamente, prefere aqueles que abrigam, sob as suas invocações, as fontes encantadas.

   As diversas potências religiosas espalhadas nesse vale do Meuse, ao mesmo tempo céltico, latino e católico, Jeanne as acolhe e as harmoniza; deveria ela morrer por efeito de sua nobreza natural... As fontes druídicas, as ruínas latinas e as velhas igrejas romanas formam um concerto. Toda essa natureza separada desperta em nós o amor de uma causa perdida na qual Jeanne é o tipo ideal. Enquanto tivermos um coração céltico e cristão, não cessaremos de amar essa fada que transformamos em uma santa.” (i)

   Merlin, o encantador, profetizou a sua vinda, como se assegura? O caso é possível, mas foi muito contestado e não insistiremos nesse particular. O certo é que “ela foi anunciada, desejada, esperada, prevista, do âmago de uma raça que sempre pôs a sua esperança e a sua fé no olhar inspirado das virgens”. (ii)

   E Maurice Barrès chega a atribuir às influências célticas que iluminam a infância de Joana uma das causas de sua condenação.

   Como Joana, eu gostava de visitar os bosques, as fontes sagradas, as árvores seculares em volta das quais se desenvolvia o “círculo das fadas”. Mas, quem eram essas fadas de que se trata um pouco por todas as partes da Lorraine? Sem dúvida, uma vaga e longínqua lembrança das druidisas de vestidos brancos, celebrando o seu culto sob os raios prateados da Lua.

   Edouard Schuré, no seu belo livro Les Grandes Légendes de France, escreveu:

   “As druidisas eram também chamadas de fadas, isto é, seres semidivinos, capazes de revelar o futuro… (iii)

   A origem dos druidas remonta à noite dos tempos, à aurora da raça branca. As druidisas são talvez mais antigas ainda, se nos basearmos em Aristóteles, que atribui o culto de Apolo de Delos a sacerdotisas hiperboreanas. As druidisas foram em princípio as inspiradas livres, as pitonisas da floresta. Os druidas serviram-se delas, inicialmente, como pacientes sensíveis, aptas à clarividência, à adivinhação. Com o tempo elas se emanciparam, formaram colégios femininos e, ainda que submetidas hierarquicamente à autoridade dos druidas, agiam por seu próprio impulso.”

   Daí resultou certo abuso de poder, particularmente no que se refere aos sacrifícios humanos, mas Edouard Schuré considera a questão sob plano superior e acrescenta:

   “A acção é a origem de tudo. A ideia da vidente, da visão espiritual da alma que vê e possui o mundo interior, superior à realidade visível, domina toda a lenda e aí lança como que raios de luz.”

   Joana d’Arc era, então, por excelência, uma alma céltica, uma imagem desses seres predestinados, desde a aurora da história, às formas mais elevadas do sacerdócio feminino e da adivinhação. Não estava ela sob a possessão das mais altas faculdades psíquicas: visão, audição, pressentimentos, premonições? Seja nos interrogatórios dos examinadores e dos juízes, seja nas discussões dos conselhos ou mesmo no tumulto dos combates, ela sempre teve a intuição daquilo que devia dizer e fazer. (iv)

   Tudo isso numa jovem sem instrução, que não tinha sequer vinte anos. E que cena nesse terrível drama! Trata-se da salvação da França, de saber se ela será inglesa. Mas, como Joana nos vai dizer mais adiante, ela era “o modesto instrumento vibratório que recebia a inspiração do mundo invisível”.

   Sim, certamente, ela era agente do mundo invisível, missionária celeste. Quando os homens aprenderem a conhecer a vida que reina sobre as esferas superiores e nos espaços etéreos, saberão que Deus criou uma classe de espíritos angélicos e puros, a quem ele reserva missões dolorosas, missões de devotamento e sacrifício, pela salvação dos povos e reabilitação da humanidade. Cristo, Joana d’Arc e outros pertencem a esta ordem de espíritos. Quando eles descem aos mundos materiais encarnam sempre nas classes mais humildes para ali dar o exemplo da simplicidade, do trabalho e do desinteresse. Houve excepção para Buda, nascido em berço de ouro, e que mais tarde abandonou o seu palácio e a sua esposa, para penetrar na selva. Maomé também, no início, era um obscuro cameleiro.

   Todos esses missionários são fáceis de reconhecer pelos eflúvios possantes que deles emanam e que impressionam as multidões. Parece que eles têm um raio divino sobre as suas frontes e nos seus corações. Era o caso de Joana d’Arc, segundo o testemunho do cidadão de Orléans que dizia: “É uma alegria vê-la e ouvi-la.” (v)

   Ainda agora, quando lhe agrada, às vezes, nos visitar, o espírito de Joana se anuncia nas nossas reuniões por uma viva radiação luminosa. Ela aparece ao vidente, em transe, sob uma forma cujo esplendor é difícil de fitar directamente. Foi nessas condições que ela ditou, por incorporação, numa noite de Natal, a seguinte mensagem:

   “Amigos, a Lorraine vos saúda! Desejo que esta festa de Natal seja nos vossos corações o símbolo da doçura, do amor, da esperança. As minhas atribuições no espaço não me permitem descer frequentemente até vós. Eu vos devia estas poucas palavras, porque a minha afeição vos é dedicada. Vim aqui trabalhar convosco; pensei e orei convosco.

   Eu desejo que Deus abençoe a vossa obra e que ela faça o bem aos franceses e às francesas apaixonados pelo Celtismo e pela lembrança da raça. Esta raça francesa inviolável na sua essência, sempre impregnada pela centelha divina, não pode perecer! É pelos bons escritos que vós a fareis amar.

   Unamos o pensamento de Deus à França, para que ele envie as suas volutas de amor, a fim de regenerar os nossos irmãos e irmãs que tudo ignoram de Deus. Vós desejais associar a pastora de Lorraine à vossa obra. Durante toda a minha vida terrestre, fui impregnada pela centelha céltica. Ela manteve em mim a chama do ideal patriótico, como também os germes da fé transmitida pelo primeiro druida. Eu os sentia sob a forma de uma vitalidade particular, feita do culto da tradição e do reflexo das leis imutáveis, retiradas das fontes da vida universal.

   Eu fui o modesto instrumento vibratório que recebia a inspiração de Deus. Dessa terra lorena, que vós amais, eu levei, através da França, as radiações interligadas pelos séculos, e foi uma honra para mim poder unir as almas perdidas e as vontades vacilantes.

   Se o vosso coração vos impõe falar da Lorraine, de suas emanações célticas, dizei que Jeanne, a pobre pastora de Domremy, foi o dócil instrumento que ouvia as vozes dos espíritos bem-amados, prova de que o raio céltico não estava extinto sobre o solo de França.

   O amor de Deus, o do país e do próximo são as essências, as mais suaves, as mais luminosas, transmitidas pelo raio recebido, outrora, pelos druidas. Ele se estendia e se esparramava da Bretagne à Lorraine, daí se irradiando do oeste para o leste.

   Se este capítulo vos dá alegria de escrever, é que ele vos foi inspirado pelos vossos bons guias e pelo vosso coração. Jeanne vos agradece que o façam. Em troca ela pedirá a Deus que sustente, na alma daqueles que lerão a vossa obra, o culto da fé em Deus todo-poderoso e bom, o amor da pátria, do solo que recebe os eflúvios celestes, o que dá ao coração a doce alegria de amar no reconforto e na esperança.”

/…
(i) Maurice Barrès, Le Mystère en pleine Lumière, pp. 189 e 190.
(ii) Página 200 da obra acima citada.
(iii) As druidisas, segundo Dupiney de Vorepierre, predisseram o futuro de Aureliano, de Alexandre Severo e de Diocleciano.
(iv) Ver o meu livro Joana d’Arc, Médium.
(v) Crónica do Cerco de Orléans.




LÉON DENIS, O Génio Céltico e o Mundo Invisível, Primeira Parte OS PAÍSES CÉLTICOS, CAPÍTULO VI – A Lorraine e os Vosges. Joana d’Arc, alma céltica 3 de 3, 21º fragmento da obra.
(imagem de ilustração: A Apoteose dos heróis franceses que morreram pelo seu país durante a guerra da Liberdade, pintura de Anne-Louis Girodet-Trioson)

domingo, 26 de janeiro de 2014

O peregrino sobre o mar de névoa ~


Os Imponderáveis da Cura Espírita ~

Pasteur descobriu o mundo das bactérias infecciosas que ameaçam a saúde e a vida do homem no planeta e ninguém lhe dava crédito, porque esse mundo era imponderável e invisível. Allan Kardec descobriu o mundo dos espíritos, que ameaçam por toda parte o equilíbrio mental e emocional dos homens, mas a condição imponderável e invisível desse mundo levou-o ao ridículo perante as corporações científicas. Freud descobriu o mundo igualmente imponderável e invisível das instâncias da personalidade, que influem no comportamento humano, e até hoje os cientistas positivos, que só acreditam no que podem ver e pegar, não se cansam de combatê-lo e ridicularizá-lo. O conceito do positivo exclui da realidade científica as causas imponderáveis que se ocultam numa realidade subjacente do real. A rés (ou coisa) tem de se manifestar como tal na perspectiva científica, sob pena de não merecer atenção das Ciências. Mas a vida e a morte, os sonhos e as aspirações do homem são o fundamento de toda a realidade que nasce do imponderável e do invisível para constituir a realidade. O próprio método científico teve de apoiar-se na técnica do fantasma, ou seja, das aparições, pois o pesquisador científico remonta dos efeitos às causas para definir o real. O fenómeno, com a sua raiz etimológica grega, é simplesmente o fantasma. A mecânica do positivo chama-se revelação. Sem a determinação positiva do número kantiano o fenómeno não existe. Bastaria esse facto linguístico para se provar que o positivo é fecundado pelo imponderável. Sem este não temos aquele. Dessa maneira, a busca científica do real processa-se inelutavelmente subjacente ao imponderável e invisível. Hoje, com isso sobejamente provado, não há mais razão para se querer negar a positividade do imponderável. Por isso, Kant falhou ao determinar os limites dialécticos do conhecimento humano e Cassirer demonstrou, na sua Tragédia da Cultura, que a Religião e a Ciência se fundamentam igualmente no imponderável da Fé. Sem a fé na Ordem Universal, que não pode ser cientificamente provada, a Ciência seria impossível. O religioso parte da fé em Deus para conhecer a realidade universal. O cientista parte da fé na Ordem Universal para descobrir o real.

Mas o que é a fé, senão a crença transformada em verdade pela invisível e imponderável intuição do homem? Kardec afirmou: “Só podemos ter fé naquilo que conhecemos.” E ao mesmo tempo em que ele fazia essa afirmação audaciosa, provava a realidade do imponderável e inacessível através das manifestações espíritas. A mediunidade se lhe apresentava, através da pesquisa científica, como a percepção extra-sensorial, que antecipa a realidade imponderável e invisível que amadurece subjacente ao real. E Mannheim, nos nossos dias, confirmaria essa possibilidade no estudo da utopia, que se mostra, no plano sensível da realidade social, como antevisão de realidades futuras. O vidente e o profeta que anunciam realidades ainda ocultas subjacentes ao real concretizaram necessariamente o vir-a-ser das realidades ainda em gestação no futuro. E essa visão alucinatória está hoje cientificamente provada como realidade nas pesquisas parapsicológicas.

Não houve milagres nem magia nessa transposição da utopia em realidade positiva, mensurada e pesada na imponderabilidade dos métodos estatísticos que abrangem as quantidades outrora imponderáveis da realidade oculta das aparências do irreal. A Ciência Espírita se apresenta, assim, como a base irremovível de toda a revolução científica do nosso tempo. A pedra rejeitada da parábola evangélica foi necessariamente colocada no ângulo de sustentação de todo o edifício. Porque toda a solidez da matéria depende da fluídica do espírito e a matéria acaba revolvendo-se em pura dinâmica espiritual. As experiências fragmentárias da Cultura só podem ser unificadas na síntese da consciência. Por isso Alfred Russel Wallace chegou à conclusão de que toda a forma de psicologia nada mais é do que um espiritismo rudimentar. Os psicólogos tratam a psique, a alma, como caçadores de borboletas. Muitos deles se tornam coleccionadores apaixonados de borboletas mortas pregadas em cartolinas coloridas. Enganam-se com o jogo de cores dos efeitos psíquicos, elaboram teorias engenhosas sobre as várias formas do borboletear do espírito, mas não se atrevem a mergulhar no labirinto do psiquismo, única maneira de se defrontarem com o minotauro e conhecê-lo de perto.

Russel Wallace, que corrigiu o darwinismo com fortes injecções de espírito, não teve dúvidas em colocar no seu devido lugar epistemológico as tentativas periféricas do estranho e confuso mundo psicológico. Para ele, na sua visão científica dos problemas da alma, todo o psicólogo não passava de um aprendiz de feiticeiro. Os gregos temiam a Esfinge da Estrada de Tebas, porque ela devorava os que não decifravam os seus enigmas. Mas o mundo grego morreu e foi empalhado pelos teólogos. Hoje ninguém precisa passar pela Estrada de Tebas, podendo fazer o trajecto com voos de borboleta. Mas Pitágoras deixou o seu testamento aos pósteros, advertindo-os de que na matemática do Universo o número 2 é a opinião, borboleta insegura que não serve à Ciência.

No Espiritismo as opiniões não passam de palpites, mesmo quando se disfarçam em hipóteses ou teorias. Por isso a Ciência Espírita, que os inscientes confundem com magia delirante, na realidade é uma estrutura lógica de conceitos fundados na experiência e provados através de pesquisas rigorosas. Todas as Ciências evoluíram nos dois últimos séculos, na direcção exacta dos postulados espíritas. Só a leviandade humana, que Kardec denunciou nos meios académicos, pode levar um sábio de farda imponente a dar palpites sobre a Ciência Espírita, com ares de infalibilidade. A situação conflituosa dos cientistas que desejam ajustar os dogmas de seus catecismos à realidade científica actual denuncia a incapacidade desses cientistas para a livre busca da verdade. Os imponderáveis da Ciência tornam-se ponderáveis na proporção do progresso científico, mas os imponderáveis da Mística se escondem atrás das barreiras dogmáticas e pesam negativamente na balança do progresso. A incompatibilidade entre a dogmática e a pesquisa só pode ser resolvida pelo abandono dos dogmas. O credo qui absurdum dos escolásticos não pode sobreviver na era científica. Mas as religiões podem tornar-se racionais e até mesmo científicas, desde que se disponham a libertarem-se da sua paixão interesseira pelos reinos da Terra, preferindo o Reino de Deus. O Espiritismo encontrou a solução desse problema na sua estrutura de ciência livre ligada à religião livre e à moral pura de Cristo, sem concessões aos magnatas da simonia.

Kardec deu como regra única da pureza espírita o desinteresse total pelos bens materiais, a fraternidade humana incondicional, o desinteresse total pelo proselitismo, o respeito absoluto às ideias e crenças dos outros, sem a aceitação fingida e comprometedora desses erros, mas sem hostilidades à ingenuidade dos que não podem ir além dos conhecimentos primários. Deu à Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas uma estrutura puramente científica e afirmou que a única forma de fé que pode subsistir em todos os tempos é a que se baseia na razão. As Igrejas de estrutura sectária, que vivem à custa da submissão dos fiéis aos seus princípios arcaicos, estão condenadas irrevogavelmente a desaparecer. Mas isso não é uma profecia, é apenas uma dedução lógica tirada do processo histórico, das exigências da Cultura.

Os clérigos e os clericalistas gostam de confundir a sua posição perante a Ciência com a livre condição dos espíritas. Alegam que se eles não podem estudar livremente os fenómenos paranormais, também os espíritas não o podem, pois já têm os seus pontos de vista fixados pela doutrina. É essa uma alegação ignorante ou de má-fé, pois sabem que os espíritas jamais aceitaram imposições dogmáticas, gozam da mais ampla liberdade de opção e não devem nenhuma obediência a nenhuma espécie de supostas autoridades religiosas. Só devem obediência à sua própria consciência, que só se curva ante as verdades comprovadas.

Não se pode comparar a submissão do crente à insubmissão do que não busca uma forma de crença, mas o saber, provado e comprovado cientificamente. Os factos espíritas não foram provados apenas pelos espíritas, mas também e principalmente pelos adversários da doutrina. A realidade espírita não foi forjada por teóricos comprometidos com qualquer tipo de instituição religiosa ou não, mas por pesquisadores livres e altamente responsáveis. Richet, Crookes, Zöllner, Lombroso, Aksakof, Notzing e tantos outros nomes da Ciência e da Cultura Geral não fizeram pesquisas para comprovar a verdade espírita, mas para obterem provas contra a doutrina. Nenhuma outra doutrina, no mundo passou incólume por tantas investigações promovidas por grandes cientistas que a contestavam em nome da Ciência. E todos eles foram obrigados, por amor à verdade e por exigências de consciência, a proclamar a realidade dos factos que comprovavam a doutrina e a se curvarem perante ela.

Por outro lado, nenhum espírita consciente tentou jamais transformar a doutrina em meio de vida, profissionalizando a sua prática. Por tudo isso, os espíritas não podem ser considerados em paridade com os profitentes e profissionais das religiões. Pelo contrário, todo o espírita tem o direito e o dever de participar das pesquisas actuais e futuras dos fenómenos paranormais, sem que sejam apontados como parciais, pois na verdade são pioneiros dessas pesquisas e pisam no terreno que lhes pertence. Quando um espírita competente trata de Parapsicologia não a deforma, pois isso seria deformar a sua própria doutrina. As Ciências do paranormal nasceram das entranhas do Espiritismo e em vão lutaram para contradizê-lo, mas acataram todos os seus princípios científicos. Richet, numa carta histórica a Bozzano, declarou que encontrara a verdade nas monografias do grande italiano. Mais tarde escreveu a Cairbar Schutel, de Matão, no Brasil, declarando em latim “Mort janua vitae” (A morte é a porta da vida). Lombroso, inimigo acérrimo do Espiritismo e da Metapsíquica, aceitou o desafio de Chiaia para uma sessão com Eusápia Paladino e obteve a materialização da própria mãe, a quem pôde abraçar, contando o facto em artigo para a revista de Milão Luce e Ombra e indicando-o depois em estudo sobre Espiritismo e Hipnotismo. Frederico Figner obteve a materialização de sua filha Raquel, morta ainda menina, e a teve no colo. A menina passou ao colo da mãe, abraçando-a e beijando-a. A médium foi Ana Prado, em Belém do Pará. Figner e a esposa, judeus ortodoxos, tornaram-se espíritas. A Ciência Espírita foi além, no século passado, de todas as conquistas actuais da Parapsicologia. O único interesse de um espírita, ilustrado na ciência, seria o prazer de confirmar para as gerações actuais – num excesso de provas – os factos largamente obtidos no passado. Reduzido interesse, aliás, pois os factos espíritas continuam a repetir-se por todo o mundo, nos grandes centros universitários de nosso tempo. O próprio Vaticano reconheceu hoje, como o declarou recentemente Monsenhor Pisoni à revista italiana Gente, a realidade desses factos. Perdem o seu tempo e mentem às suas ovelhas os pastores que tentam tapar o sol com peneiras. Não se pode dizer que o imponderável da fé tenha a mesma importância, na cura espírita, que tem, nos demais tipos de cura paranormal, porque os elementos racionais da teoria e da prática espírita influem na própria disposição do doente para a eclosão da fé. Esta permanece controlada pela razão. O doente espírita não procura o milagre, a acção divina sobrenatural. Ele sabe que o médium é elemento de acção, não um agente. Simples instrumento de transmissão das energias fluídicas do plano espiritual, o médium não tem o poder de curar. Mas os resíduos mágicos e religiosos da tradição actuam ainda no processo de cura, predispondo o paciente a uma acção mais eficaz da intervenção fluídica. Apesar disso, a cura espírita já representa um passo decisivo para a técnica terapêutica ou operatória racionalizada. As entidades espirituais, que Geley chamou de controles, realmente controlam o processo de cura, que é geralmente progressivo, mesmo quando possa parecer instantâneo. Por outro lado, nenhum médium consciente da relatividade de sua acção pode assegurar antecipadamente a eficácia da sua intervenção. Porque em toda cura, normal ou paranormal, estão presentes os pressupostos cármicos, ou seja, as cargas negativas do passado moral do doente. Como dizem as entidades espirituais esclarecidas, não raro é a doença que cura a gente. A função educativa e reequilibradora da dor, como explicou Léon Denis, nem sempre pode ser dispensada ou atenuada. O conceito de lei, no processo evolutivo, dá um novo aspecto à cura espírita. Quem com ferro fere – disse Jesus – com ferro será ferido. Essa menção de uma lei moral irrevogável pode enfraquecer a esperança do doente, mas ao mesmo tempo o livra da preocupação aterradora das penas eternas. Essa lei moral se funda no princípio da acção e reacção, que condiz, no plano da consciência, ao subliminar do paciente, com a sua esperança de redenção e transcendência. O paciente espírita aprende a enfrentar a sua responsabilidade moral, e quanto melhor o fizer mais rapidamente obtém o seu resgate.

A natureza racional de todo esse processo abre a mente das criaturas para uma concepção mais clara e precisa da realidade da vida humana na Terra, fazendo-as superar com mais facilidade as heranças mágicas e religiosas que as prendem numa visão trágica e desoladora do mundo e da vida. O gesto simples do passe espírita, como a simples imposição das mãos, praticada e ensinada por Jesus, não se reduz apenas à transmissão de energias. Além dessa transmissão, em que as mãos funcionam como antenas captadoras e transmissoras, o passe espírita abre a mente do paciente para a percepção de um mundo de perfeito equilíbrio, tecido numa teia irredutível de leis teleológicas, ou seja, de leis que têm finalidades precisas na evolução do mundo e do homem. O passe espírita equivale a um acordar da mente para a nova era, em que o homem descobrirá as suas potencialidades divinas e a sua destinação cósmica. Por isso, os que pretendem aplicar técnicas antigas ou modernas a esse gesto de amor e esperança só conseguem complicar e envaidecer os que se entregam à missão humilde e ao mesmo tempo sublime de acordar os homens para uma visão superior da realidade.

Todas as formas rituais do passado mágico e religioso não passam de adendos pretensiosos dos homens à técnica natural e simples do Evangelho. Os imponderáveis da cura espírita, quando transformados em actos físicos, de gesticulação e dança, perdem a sua eficácia. As cerimónias sumptuosas dos egípcios, sumerianos e mesopotâmicos, nas mumificações e enterros espectaculares, de nada valeram para os mortos, que voltam ainda hoje nas sessões espíritas, necessitados de uma gota de humildade para se livrarem das suas ilusões vaidosas. De que adiantam as recomendações de cadáveres nas religiões actuais, as missas e te-déuns solenes, oficiados por hierofantes até hoje apegados à cinza dos sarcófagos? O Espiritismo é o despertar dos homens para a verdade de que eles sempre fugiram, no jogo dos seus mitos e das suas encenações teatrais. Atingimos agora o momento crucial da Era Cósmica que se avizinha. Não procuremos novas formas de prosseguir com os nossos jogos e malabarismos de esconde-esconde. Abandonemos as trapaças de Simão, o Mago, lembrando-nos da ressurreição que Cristo ensinou e demonstrou a Paulo no esplendor da sua visão na Estrada de Damasco. A Terra abre-se para o Infinito e as suas pétalas de luz nos indicam o rumo das constelações. É com humildade e não com inovações pretensiosas que podemos pisar no limiar da Nova Era.
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José Herculano Pires, Ciência Espírita e suas implicações terapêuticas, Os Imponderáveis da Cura Espírita, 16º fragmento da obra.
(imagem de ilustração: O peregrino sobre o mar de névoa, pintura de Caspar David Friedrich)

sábado, 18 de janeiro de 2014

Seres Radiantes do espaço ~


Capítulo III (IV)

Para concluir, afirmamos que é por desconhecerem o papel das forças radiantes nos fenómenos e o modo de dirigi-las que os pesquisadores oficiais registaram tamanho insucesso. Nas pesquisas psíquicas, a homogeneidade do ambiente, a harmonia dos fluidos e dos pensamentos são factores indispensáveis para o seu sucesso. Quanto mais forem empregados os procedimentos materialistas usados pela Ciência, menos a assistência do Alto será favorecida. Nos ambientes em que as entidades superiores querem intervir, se encontrarem influências contrárias, para elas, torna-se impossível agir ou mesmo transmitir os seus pensamentos; as divergências de pontos de vista formam uma barreira e os fluidos delas não podem mais penetrar o médium e, através deste, atingir o espírito e o coração dos assistentes.

É somente na homogeneidade perfeita, na fusão de fluidos e sentimentos que o espírito, ao ler os nossos pensamentos, pode responder com exactidão às perguntas íntimas e resolver os problemas mais delicados da vida e da morte.

Os nossos sábios oficiais pouco se preocupam em preencher essas condições e, por isso, ocorrem os repetidos fracassos. Eles não tratam os médiuns com a imparcialidade necessária. Esperamos encontrar médiuns muito eficientes, bem-dotados para apresentar aos sábios provas incontestáveis da sobrevivência, mas para que um médium transmita fielmente o pensamento ou reproduza a forma de um desencarnado, é preciso ter um grau adequado de sensibilidade. Ora, se tomarmos um médium muito sensível e o colocarmos num meio onde os fluidos produzidos pelos assistentes não sejam da mesma natureza e com velocidade de vibração diferente, daí resultará, então, que a sua sensibilidade será enfraquecida e, até mesmo, anulada. O seu estado mental será influenciado por alguém do ambiente e, vendo que a experiência falha, ele procurará, talvez, por meios fraudulentos, dar a impressão dos fenómenos esperados.

Citemos um exemplo: Os espíritas de Paris ainda se lembram de um médium exótico que, em 1909, após ter obtido aparições autênticas, fenómenos de real valor, abusou das suas faculdades e se abandonou à prática de repetidas fraudes, em locais heterogéneos e na presença de várias testemunhas. Foi preciso denunciá-lo publicamente, e até mesmo, incriminá-lo moralmente, denuncia publicada na Revue Spirite, (Revue Spirite, 1909, pp. 79, 217 e 222 e Annales des Sciences Psychiches de 1909) para impedir a série de fraudes e deter o seu exercício. Sem esta medida, esses nossos adversários que se comprazem em investigações falsas, em vez de procurarem, longe, temas de escândalo, não teriam deixado de explorar a lembrança dessas cenas que, mesmo em Paris, tiveram tantos espectadores e testemunhos ainda vivos.

Resumindo, os espíritas podem, com razão, pretender, não somente, ter possuído, bem antes dos sábios oficiais, o conhecimento do mundo dos fluidos e das forças radiantes – e isso é uma objecção capital para todos os que acusam o Espiritismo de nada ter fornecido à Ciência – mas também saber tomar, quando as circunstâncias o exigem, as resoluções necessárias para proteger a dignidade da sua causa.

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Léon Denis, O Espiritismo e as Forças Radiantes, Capítulo III 4 de 4, 10º fragmento da obra.
(imagem de ilustração: Anos e Anos de Viagem Sideral, pintura em acrílico de Costa Brites)

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Deus na Natureza ~


A Força e a Matéria I Posição do Problema (IV)

  A teoria mecânica, es-tabelecendo a pura necessidade matemática nas acções e reacções que formam a vida do mundo, é incompleta, por isso que suprime a causa e dissipa em névoa o mundo moral. A teoria de uma força única, universal, sempre actual e formando a variedade dos seres pelas suas metamorfoses, ajusta essa misteriosa universalidade a uma força primordial.

  Poder-se-ia, portanto, acusar simplesmente o processo geral dos nossos contraditores de um erro gramatical, atribuindo à matéria um poder só cabível à força e pretendendo não passar esta de mero adjectivo qualificativo, quando lhe cabem os mesmos direitos daquela, na classe dos substantivos.

  Examinemos agora, nesta mesma vista de conjunto, quais os grandes erros que marcham de paralelo e sustentam essa conduta e que havemos de encontrar sob várias formas, no curso das nossas contraditas.

  O primeiro erro geral de que abusam os materialistas é imaginarem que, pelo facto de existir Deus, importa atribuir-lhe uma vontade caprichosa e não constante e imutável, na sua perfeição.

  Ersted, por exemplo, sábio escrutador do mundo físico, exprimiu sensatamente as relações de Deus com a Natureza, dizendo que “o mundo é governado por uma razão eterna, cujos efeitos se manifestam nas leis da Natureza”.

  O Dr. Büchner opõe a esse conceito a seguinte especiosa objecção: – “Ninguém poderia compreender como uma razão eterna, que governa, se conforme com leis imutáveis. Ou são as leis naturais que governam, ou é a razão eterna. Que umas ao lado de outras entrariam, a cada instante, em colisão. Se a razão eterna governasse, supérfluas se tornariam as leis naturais e se, ao revés, governam as leis imutáveis da Natureza, elas excluem toda a intervenção divina.” – “Se uma personalidade governa a matéria num determinado sentido – opina Moleschott – desaparece da Natureza a lei da necessidade. Cada fenómeno se torna partilha de jogo do acaso e de uma arbitrariedade sem pelas.”

  Havemos de convir que esta grave objecção é singularíssima.

  É um raciocínio extravagante que cai pela base. A nós nos parece, pelo contrário, que a inteligência notória nas leis da Natureza demonstra, no mínimo, a inteligência da causa a que se devem essas leis, que são, elas mesmas, precisamente a expressão imutável dessa inteligência eterna.

  E não será algo ridículo pretender que essa causa deixe de existir, pelo motivo do íntimo acordo com essas mesmas leis?

  Vejamos, por exemplo, um excelente harpista: a sua virtuosidade é tão perfeita que os acordes frementes parecem-nos identificados com a poesia da sua alma! Diremos, então, que essa alma não existe, visto que para lhe admitir existência era preciso que ela estivesse eventual e arbitrariamente em desacordo com as leis da Harmonia! Essa maneira de raciocinar é tão falsa que os próprios autores que a utilizam são os primeiros a reconhecê-lo implicitamente. Assim é que Büchner, referindo-se a milagres e ao facto de haver o clero inglês solicitado a decretação de um dia de jejum e de preces para conjurar a cólera, elogia Palmaraton por haver respondido que o surto epidémico dependia mais de factores naturais, em parte conhecidos, e poderia melhor jugular-se com providências sanitárias, antes que com preces.

  Muito bem! O autor, melhor ainda, acrescenta: “Essa resposta lhe acarretou a pecha de ateísmo e o clero declarou pecado mortal não crer pudesse a Providência transgredir, a qualquer tempo, as leis da Natureza.”

  Mas, que singular ideia faz essa gente de Deus que por si criou! Um legislador supremo a deixar-se comover por preces e soluços, a subverter a ordem imutável que ele mesmo instituiu, a violar por suas próprias mãos a actividade das forças naturais! – “Todo o milagre, se existisse – diz também Cotta – provaria que a Criação não merece o respeito que lhe tributamos e os místicos deveriam deduzir, da imperfeição do criado, a imperfeição do Criador.”

  Aí temos os adversários em contradição consigo mesmos, quando, por um lado, não querem admitir uma razão eterna em concordância de leis imutáveis, e por outro pensam connosco, que a ideia de imutabilidade ou, pelo menos, a regularidade, se identifica muito melhor com a perfeição ideal do ser desconhecido que denominamos Deus, do que a ideia de mutabilidade e arbitrariedade, que umas tantas crenças pretendem impor-lhe.

  Um segundo erro geral, não menos funesto que o precedente e que por igual ilude os nossos contraditores, é o de acreditarem que, para existir Deus, importa colocá-lo fora do mundo.

  Não vemos pretexto algum racional que possa justificar uma tal necessidade. E antes do mais, que significa essa ideia de uma causa soberana extramundo? Onde os limites do mundo? Pois o mundo, isto é, o espaço no qual se movem estrelas e terras, não é infinito por sua mesma essência?

  Imaginais um limite a esse mesmo espaço e supondes que ele se não renova além? Será, então, possível traçar limites à extensão? Onde, pois, imaginar Deus fora do mundo? Será fora da matéria, o que se quer dizer? Mas, que é a matéria em si? – agrupamentos de moléculas intangíveis. Portanto, impossível determinar uma semelhante posição. Deus não pode estar fora do mundo, mas no mesmo lugar do mundo, do qual é o sustentáculo e a vida.

  Não fosse temer a pecha de panteísta e ajuntaríamos que Deus é – a alma do mundo. O Universo vive por Deus, assim como o corpo obedece à alma. Em vão pretendem os teólogos que o espaço não pode ser infinito, em vão se apegam os materialistas a um Deus fora do mundo, enquanto sustentamos que Deus, infinito, está com o mundo, em cada átomo do Universo – adoramos Deus na Natureza.

  Entretanto, os nossos adversários combatem insensatamente o seu fantasma. “Não há considerar o Universo – diz Strauss – como ordenação regrada por um Espírito fora do mundo, mas, como razão imanente às forças cósmicas e às suas relações.”

  A essa razão, chamamo-la Deus, enquanto os modernos ateístas aproveitam essa declaração para sentenciar que, em não existindo fora do mundo, é que Deus não existe.

  “Tudo, – diz H. Tuttle – desde a tinha (perdoem a expressão) que baila aos raios do Sol, à inteligência humana, que verte das massas medulosas do cérebro, está submetido a princípios fixos. Logo, não existe Deus.” Logo, existe – dizemos nós – “Livre é cada qual de franquear os limites do mundo visível – pondera Büchner – e de procurar fora dele uma razão que governa, uma potência absoluta, uma alma mundial, um Deus pessoal”, etc. Mas, que é o que vos fala disso? “Nunca, em parte alguma – diz o mesmo literato – nos mais longínquos espaços revelados pelo telescópio, pôde observar-se um facto que fizesse excepção e pudesse justificar a necessidade de uma força absoluta, operando fora das coisas.”

  “A força não impelida por um Deus, não é uma essência das coisas isoladas do princípio material” – adverte Moleschott.

  Ninguém terá visão tão limitada – afirma ele alhures – para enxergar nas acções da Natureza outras forças não ligadas a um substrato material. Uma força que planasse livremente acima da matéria seria uma concepção absolutamente balda de sentido.

  Positivamente, ainda hoje existem cavaleiros errantes, à guisa dos que outrora manobravam em torno dos castelos do Reno, e de bom grado arremetem moinhos de vento. Lídimos heróis de Cervantes, visto que, no fim de contas, qual o filósofo que hoje propugna um Deus ou forças quaisquer fora da Natureza?

  Vemos em Deus a essência virtual que sustenta o mundo em cada uma de suas partes microscópicas, daí resultando ser o mundo como que por ele banhado, embebido em todas as suas partes e que Deus está presente na mesma composição de cada corpo.

  Dessarte, a primeira trincheira cavada pelos adversários para bloquear o Espiritualismo foi por eles mesmos entulhada; e a segunda nem sequer objectiva a cidadela, e os nossos soldados alemães não fazem mais que bater o campo.

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Camille Flammarion, Deus na Natureza – Primeira Parte, A Força e a Matéria I - Posição do Problema 4 de 6, 8º fragmento da obra.
(imagem de ilustração: Jungle Tales_1895, pintura de James Jebusa Shannon)

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Diálogos de Kardec ~


A Segunda Vista – Conhecimento do Futuro. Previsões ~

   Desde que no estado sonambúlico as manifestações da alma se tornaram, de certo modo, ostensivas, fora absurdo supor que no estado normal ela se ache confinada, de modo absoluto, no seu envoltório, como o caramujo na sua concha. Não é de maneira alguma a influência magnética que a desenvolve; essa influência nada mais faz do que a tornar patente pela acção que exerce sobre os órgãos corporais. Ora, nem sempre o estado sonambúlico é condição indispensável a essa manifestação. As faculdades que se revelam nesse estado desenvolvem-se algumas vezes espontaneamente, no estado normal, em certos indivíduos. Resulta-lhes daí a faculdade de verem as coisas distantes, por onde quer que a alma estenda a sua acção; vêem, se podemos servir-nos desta expressão, através da vista ordinária; e os quadros que descrevem, os factos que narram se lhes apresentam como efeitos de uma miragem. É o fenómeno a que se dá o nome de segunda vista. No sonambulismo, a clarividência deriva da mesma causa; a diferença está em que, nesse estado, ela é isolada, independente da vista corporal, ao passo que é simultânea nos que dessa faculdade são dotados em estado de vigília.

   Quase nunca é permanente a segunda vista. Em geral, o fenómeno se produz espontaneamente, em dados momentos, sem ser por efeito da vontade, e provoca uma espécie de crise que, algumas vezes, modifica sensivelmente o estado físico. O indivíduo parece olhar sem ver; toda a sua fisionomia reflecte uma como exaltação.

   É de notar que as pessoas dotadas dessa faculdade não suspeitam possuí-la. Ela se lhes afigura natural, como a de ver com os olhos. Consideram-na um atributo do seu ser e nunca uma coisa excepcional. Cumpre acrescentar que muito amiúde o esquecimento se segue a essa lucidez passageira, cuja lembrança, cada vez mais imprecisa, acaba por desvanecer-se como a de um sonho.

   Há infinitos graus na potencialidade da segunda vista, desde a sensação confusa, até a percepção tão nítida quanto no sonambulismo. Há carência de um termo para designar-se esse estado especial e, sobretudo, os indivíduos susceptíveis de experimentá-lo. Tem-se empregado a palavra vidente, que, embora não exprima com exactidão a ideia, adoptaremos até nova ordem, à falta de outra melhor.

   Se agora confrontarmos os fenómenos de segunda vista com os da clarividência sonambúlica, compreenderemos que o vidente possa perceber coisas que lhe estejam fora do alcance da visão ordinária, do mesmo modo que o sonâmbulo vê, à distância, acompanha o curso dos acontecimentos, aprecia-lhes a tendência e, em certos casos, lhes prevê o desenlace.

   Esse dom da segunda vista é que, em estado rudimentar, dá a certas pessoas o tacto, a perspicácia, uma espécie de segurança aos actos, o que se pode com justeza denominar: golpe de vista moral. Mais desenvolvido, ele acorda os pressentimentos, ainda mais desenvolvido, faz ver acontecimentos que já se realizaram, ou que estão prestes a realizar-se; finalmente, quando chega ao apogeu, é o êxtase vígil.

   Como já dissemos, o fenómeno da segunda vista é quase sempre natural e espontâneo; parece, entretanto, que se produz com mais frequência sob o império de determinadas circunstâncias. Os tempos de crise, de calamidades, de grandes emoções, tudo, enfim, que sobreexcita o moral, que provoca o desenvolvimento. Dir-se-ia que a Providência, diante de perigos iminentes, multiplica em torno das criaturas a faculdade de prevê-los.

   Videntes sempre os houve em todos os tempos e em todas as nações, parecendo, no entanto, que alguns povos são mais naturalmente predispostos a tê-los. Dizem que na Escócia é muito comum o dom da segunda vista. Não se lhe nota a existência entre a gente do campo e os que habitam nas montanhas.

   Os videntes têm sido diversamente considerados, conforme os tempos, os costumes e o grau de civilização. Para os cépticos, eles não passam de cérebros desarranjados, de alucinados; as seitas religiosas os arvoraram em profetas, sibilas, oráculos; nos séculos de superstição e ignorância, eram feiticeiros e acabavam nas fogueiras. Para o homem sensato, que acredita no poder infinito da Natureza e na bondade inesgotável do Criador, a dupla vista é uma faculdade inerente à espécie humana, por meio da qual Deus nos revela a existência da nossa essência espiritual. Quem não reconheceria um dom dessa natureza em Joana d’Arc e em toda uma multidão de outras personagens que a história qualifica de inspiradas?

   Muito se tem falado de pessoas que, deitando as cartas, disseram coisas de surpreendente verdade. De modo nenhum pretendemos fazer-nos apologista dos ledores da “buena-dicha” que exploram a credulidade dos espíritos fracos e cuja linguagem ambígua se presta a todas as combinações de uma imaginação abalada; mas, não é de todo impossível que certas pessoas, fazendo disso um ofício, tenham o dom da segunda vista, mesmo mau grado seu. Sendo assim, as cartas, entre as suas mãos, não passam de um meio, de um pretexto, de uma base de conversação. Elas falam de acordo com o que vêem e não com o que indicam as cartas para as quais apenas olham.

   O mesmo se dá com outros meios de adivinhação, tais como as linhas da mão, a clara de ovo e outros símbolos místicos. Os sinais das mãos talvez tenham mais valor do que todos os outros meios, não por si mesmos, mas porque, tomando e palpando a mão do consultante, o pretenso adivinho, se é dotado de dupla vista, estabelece relação mais directa com aquele, como se verifica nas consultas sonambúlicas.

   Podem incluir-se os médiuns videntes na categoria das pessoas que possuem a dupla vista. Com efeito, do mesmo modo que estas últimas, aqueles julgam ver com os olhos, mas, na realidade, a alma é que vê e por essa razão é que eles vêem tão bem com os olhos abertos como com os olhos fechados. Segue-se, necessariamente, que um cego poderia ser médium vidente, tanto quanto um que tenha perfeita a vista. Constituiria estudo interessante indagar se essa faculdade é mais frequente nos cegos. Somos levado a crê-lo, dado que, como se pode verificar experimentalmente, a privação de comunicar-se com o meio exterior, por falta de certos sentidos, confere em geral poder maior à faculdade de abstracção da alma e, consequentemente, maior desenvolvimento ao sentido íntimo pelo qual ela se põe em relação com o mundo espiritual.

   Podem, pois, os médiuns videntes ser identificados às pessoas que gozam da vista espiritual; mas, seria porventura demasiado considerar essas pessoas como médiuns, porquanto a mediunidade se caracteriza unicamente pela intervenção dos Espíritos, não se podendo ter como acto mediúnico o que alguém faz por si mesmo. Aquele que possui a vista espiritual vê pelo seu próprio Espírito, não sendo de necessidade, para o surto da sua faculdade, o concurso de um Espírito estranho.

   Posto isto, examinemos até que ponto a faculdade da dupla vista pode permitir se descubram coisas ocultas e se penetre no futuro.

   Desde todos os tempos, os homens hão querido conhecer o futuro e volumes se poderiam escrever sobre os meios que a superstição inventou para erguer o véu que encobre o nosso destino. Muito sábia foi a Natureza no-lo ocultando. Cada um de nós tem a sua missão providencial na grande colmeia humana e concorre para a obra comum na sua esfera de actividade. Se soubéssemos de antemão o fim de cada coisa, é fora de dúvida que a harmonia geral ficaria perturbada. A segurança de um porvir ditoso tiraria ao homem toda a actividade, pois que nenhum esforço precisaria ele empregar para alcançar o objectivo que sempre colima: o seu bem-estar. Paralisar-se-iam todas as forças físicas e morais. As mesmas consequências produziriam a certeza da infelicidade, em virtude do desânimo que ganharia a criatura. Ninguém se disporia a lutar contra a sentença definitiva do destino. O conhecimento absoluto do futuro seria, portanto, um presente funesto, que nos conduziria ao dogma da fatalidade, o mais perigoso de todos, o mais antipático ao desenvolvimento das ideias. A incerteza quanto ao momento do nosso fim neste mundo é que nos faz trabalhar até ao último batimento do nosso coração. O viajante levado por um veículo se entrega ao movimento que o fará chegar ao ponto demandado, sem pensar em lhe impor qualquer desvio, por estar certo da sua impotência para consegui-lo. O mesmo se daria com o homem que conhecesse o seu destino irrevogável. Se os videntes pudessem infringir essa lei da Providência, igualar-se-iam à Divindade. Por isso mesmo, não é essa a missão que lhes cabe.

    No fenómeno da dupla vista, por se achar a alma parcialmente liberta do envoltório material, que lhe limita as faculdades, não há duração, nem distância; visto que lhe é dado abranger o espaço e o tempo, tudo se lhe confunde no presente. Livre dos entraves da carne, ela julga dos efeitos e das causas melhor do que nós, que não podemos fazer outro tanto; vê as consequências das coisas presentes e pode levar-nos a pressenti-las. É neste sentido que se deve entender o dom de presciência atribuído aos videntes. As suas previsões resultam de ter a alma consciência mais nítida do que existe e não de uma predição de coisas fortuitas, sem ligação com o presente. É por dedução lógica do conhecido que ela chega ao desconhecido, dependente muitas vezes da nossa maneira de proceder. Quando um perigo nos ameaça, se somos avisados, ficamos em condições de tentar tudo o que seja preciso para evitá-lo, cabendo-nos a liberdade de fazê-lo ou não.

   Em tal caso, o vidente tem diante de si um perigo que se nos acha oculto; ele o assinala, indica o meio de afastá-lo, pois de outro modo o acontecimento segue o seu curso.

   Suponhamos que uma carruagem enveredou por uma estrada que vai dar num precipício que o condutor não pode perceber. É evidente que, se nada ocorrer que a desvie, ela ali se precipitará. Suponhamos também que um homem colocado de maneira a divisar a estrada em toda a sua extensão, vendo o perigo que corre o viajante, consegue avisá-lo a tempo de ele se desviar. O perigo estará conjurado. Da sua posição, dominando o espaço, o observador vê o que o viajante, cuja visão os acidentes do terreno circunscrevem, não logra divisar. Pode ele ver se uma causa fortuita obstará à queda do outro; conhece então, previamente, o que se dará e prediz o acontecimento.

   Imaginemos que esse homem, do alto de uma montanha, divise ao longe, pela estrada, uma tropa inimiga dirigindo-se para uma aldeia a que pretende atear fogo. Fácil lhe será, levados em conta o espaço e a velocidade, prever quando a tropa chegará. Se, então, descendo à aldeia, disser apenas: A tal hora a aldeia será incendiada, caso o facto ocorrer, ele passará, aos olhos da multidão ignorante, por adivinho, feiticeiro; entretanto, apenas viu o que os outros não podiam ver e deduziu, do que vira, as consequências.

   Ora, o vidente, como esse homem, apreende e acompanha o curso dos acontecimentos; não lhes prevê o resultado porque possua o dom de adivinhar: ele o vê e, desde então, pode dizer-vos se estais no bom caminho, indicar-vos outro melhor e anunciar o que se vos deparará no extremo do que seguis. É, para vós, o fio de Ariadne, mostrando a saída do labirinto.

   Como se vê, longe está isso da predição propriamente dita, conforme a entendemos na acepção vulgar do termo. Nada foi tirado ao livre-arbítrio do homem, que conserva sempre a liberdade de agir ou não, de evitar ou deixar que os acontecimentos se dêem, por sua vontade, ou por sua inércia; indica-se-lhe um meio de chegar ao fim, cabendo-lhe utilizá-lo. Supô-lo submetido a uma fatalidade inexorável, com relação aos menores acontecimentos da vida, é despojá-lo do seu mais belo atributo: a inteligência; é assimilá-lo ao bruto. O vidente, pois, não é um adivinho; é um ser que percebe o que não vemos; é, para nós, o cão do cego. Nada nisto há, portanto, que se contraponha aos desígnios da Providência quanto ao segredo de nosso destino; é ela própria quem nos dá um guia.

   Tal o ponto de vista donde se deve considerar o conhecimento do futuro, por parte das pessoas dotadas de dupla vista. Se fosse fortuito esse futuro, se dependesse do a que se chama acaso, se nenhuma ligação tivesse com as circunstâncias presentes, nenhuma clarividência poderia penetrá-lo e nenhuma certeza, nesse caso, ofereceria qualquer previsão. O vidente (referimo-nos ao que verdadeiramente o é), o vidente sério e não o charlatão que simula sê-lo, o verdadeiro vidente, não diz o que o vulgo denomina “buena-dicha”; ele apenas prevê as consequências que decorrerão do presente; nada mais e já é muito.

   Quantos erros, quantos passos em falso, quantas tentativas inúteis não evitaríamos, se tivéssemos sempre um guia seguro a esclarecer-nos; quantos homens se acham deslocados na vida, por não se haverem lançado no caminho que a Natureza lhes traçara às faculdades! Quantos sofrem malogros por terem seguido os conselhos de uma obstinação irreflectida! Uma pessoa houvera podido dizer-lhes: “Não empreendais isso, porque as vossas faculdades intelectuais são insuficientes, porque não convém ao vosso carácter, nem à vossa constituição física, ou, ainda, porque não sereis secundados, como fora preciso; ou, então, porque vos enganais sobre o alcance do que pretendeis e topareis com este embaraço que não prevedes.” Noutras circunstâncias, ter-lhes-ia dito: “Sair-vos-eis bem de tal empreendimento, se vos conduzirdes desta ou daquela maneira; se evitardes dar tal passo que não pode comprometer-vos.” Sondando as disposições e os caracteres, poderia dizer: “Desconfiai de tal armadilha que vos querem preparar”, acrescentando, em seguida: “Estais prevenidos, fiz o que me cumpria; mostrei-vos o perigo; se sucumbirdes, não acuseis a sorte, nem a fatalidade, nem a Providência; acusai-vos unicamente a vós mesmos. Que pode fazer o médico, quando o doente não lhe dá atenção aos conselhos?”

/…


ALLAN KARDEC, Obras Póstumas, Primeira Parte, A segunda vista / Conhecimento do futuro. Previsões. 7º fragmento solto da obra.
(imagem de ilustração: Dança rebelde, 1965 – Óleo sobre tela, de Noêmia Guerra)

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

~~~Párias em Redenção~~~


OBSESSÃO VINGADORA E PERTINAZ (IV)

         A noite sobrepairou ao dia morno e quando as estrelas fulguravam no zimbório azul-escuro a cidade, ardendo em tochas resinosas e lampiões de candeeiros, fez-se deslumbrante. Luminárias especiais adornavam da Praça do Campo à fortaleza, mantendo luminosa a rota dos convidados álacres ao baile, insopitavelmente aguardado. A movimentação na via de acesso fazia-se ruidosa e gentes curiosas se amontoavam nas cercanias da estrada e no grande pátio-jardim de acesso ao palácio, em algazarra crescente.

  As carruagens brilhavam nos vernizes novos e os cocheiros, em trajes de gala, exibiam o luxo dos seus amos embriagados pela febre dos sentidos. Paggi, em veludo carmesim e verde, ostentando as insígnias da família, espalhavam-se pelas escadas da entrada que davam assomo ao amplo salão, adornado de flores e tecidos custosos que lhe escorriam pelas paredes em festoni, combinados a guirlandas aromatizadas. Músicos florentinos e senenses, especialmente contratados, enchiam o ar de melodias. Os anfitriões recebiam os convidados deslumbrando-os com o excessivo poder económico de que ainda desfrutavam. Roupas especialmente confeccionadas em Florença destacavam tecidos de fina tecedura, ajaezados de pedras preciosas, e as jóias femininas encontravam relevo nos adereços, pulseiras, argolas e colares que eram exibidos pelos famosos Duques. Meia-máscara, de veludo e aigrette, disfarçava a beleza sedutora da Duquesa. Plumas esvoaçantes, sobre o cabelo artisticamente penteado, completavam-lhe a fantasia de Manhã. O esposo, em broccatello dourado, ostentava um jaleco de musselina de seda sobre a camisa de amplas mangas “bouffants”, fazendo sobressair o colar precioso de esmeraldas adornadas de diamantes raros; tinha as costas guardadas por longa capa de seda trabalhada sobre broccatello prateado, que se erguia dos ombros em leque de pedrarias. As calças, justas e curtas, prendiam as meias longas através de uma jarretière veludosa, em laço delicado. Os sapatos de verniz, com fivela ampla, de prata, completavam-lhe a indumentária. Uma parrucca empoada dava-lhe o toque final, contrastando com a meia-máscara de couro trabalhado. Representava o Dia.

  O capitoso vinho de Chipre, os tintos e brancos, os chianti e licores, o champanhe fino, em abundância, corriam de pipas espalhadas por toda a parte, sobre o rico buffet, artisticamente decorado e ostentando jarras em prata lavrada, multiplicavam-se os tradicionais repastos: crostini, panzanella, scriccioli, castagnaccio, frittelle, peci; aqui e ali os famosos doces: panforte, ricciarelli, berricuocoli. Servos trajados em livrée desfilavam conduzindo bandejas de prata com frutos secos, aves defumadas ou com taças de cristal florentino e veneziano, de variadas cores, atendendo aos pares que voluteavam pelos salões ou que aspiravam o puro ar da noite constelada.

  As melodias embriagantes falavam de sensualidade e prazer, combinadas às emoções que davam curso a desgovernos cujas consequências, sempre imprevisíveis, arrastavam a loucuras e à insensatez de toda a espécie.

  Quando o coche em estilo rococó, pertencente a Francesco, os conduziu a ele, à esposa e Girólamo, este, dominado pelas expectativas amplas de embriagues de gozo, tinha os olhos faiscantes. Cobiçava introduzir-se naquele reduto, onde era detestado, e, espicaçado pela inveja aos poderosos, esperava ter, agora, oportunidade de dar vazão à omnímoda ganância.

  Indubitavelmente, o moço senense era garboso e possuía aplomb fascinante. Os seus olhos coruscantes, negros e grandes, faziam-se guarnecer por longos cílios escuros, com sobrancelhas espessas e bem traçadas adornando-lhe a face morena e máscula, o que lhe dava um aspecto de ser mitológico, possuidor de grande força magnética, que atraía, qual mel as formigas, os espíritos torturados pela lubricidade dos desejos carnais. No coche, forrado interiormente de cetim, cada um aspirava a maior soma de liberdade, para usufruir de gozos mais violentos e arrebatadores. Lucrécia, ferida nos sentimentos feminis, esperava espicaçar o ciúme em Girólamo, flertando com outros convivas; Francesco, igualmente ávido de efervescências emocionais, fustigava-se pensando como libertar-se da esposa, e Girólamo, desimpedido, cobiçava o mais amplo quinhão da noitada de extravagância e desregramento. Assim, logo se adentraram, justificaram-se uns aos outros, procurando cada qual a sintonia do prazer mais apetecível.

  A festa transbordava alegria e se desdobrava envolvente…

  O baile deveria ser interrompido a meio, para apresentação de um espectáculo buffo, com teatro ligeiro e de contorcionismo, facultando recreio e descanso aos convidados.

  Entre as árvores, no parque majestoso, armara-se adredemente um tablado, que, feericamente iluminado, atraía todas as atenções. Música suave, de cordas e pífaros, continuava embalando o ar ameno da noite avançada. Cantores regionais e actores contratados em Milão, Veneza e Florença se exibiam entre aplausos estridentes e gargalhadas que se misturavam às primeiras explosões de ebbrezza (i) chocante, na qual o homem desvela o íntimo primitivo, cerceado pelas convenções sociais e educacionais, desabrindo-se nesses momentos, em que se permitem cenas vandálicas e vulgares.

  Uma das surpresas era constituída pela apresentação de uma jovem cantora popular paduense, que emocionava com a doçura da voz e a fragilidade da aparência. Dizia-se, mesmo, que vários homens se lhe arrojavam aos pés, cobiçando-lhe o amor. No entanto, na sua vida nómada com os zíngaros, que a custodiavam, a ninguém permitira o licor da juventude nem o perfume estonteante do êxtase. Alguns acreditavam que os ciganos a haviam raptado na infância, vingando-se de algum nobre que lhes caíra no desagrado, culminando por amarem-na como filha predilecta da grei. Supunham outros que nascera em Pádua, e tudo eram imaginações, para aureolarem o seu nome de magia. Alguma vida já fora decepada no silêncio da noite e nas armadilhas da impiedade, para deixar livre o caminho da jovem.

  Exibia-se no colorido alegre dos seus trajos, com a cabeça resguardada por panuelo, duas longas tranças negras de cabelo, com fios de ouro, caindo-lhe sobre o colo adornado de colares e trancelim reluzente. Tomando da chitarra ornada de fitas de seda brilhante, assentou-se no centro do proscénio e, ante o natural silêncio que a sua presença modesta e romântica impôs, dedilhando o instrumento harmonioso, começou a cantar. A melodia, que lembrava um gorjeio, balada de amor e tragédia, madrigal de dor e ternura, que traduzia a crueza dos dias que se viviam, dominava em notas vibrantes, para cair de súbito em pianíssimos comovedores.

“Eu era débil rouxinol
Que a fantasia de canto embriagava!
Cantava à luz do dia, ao sol,
O festival de amor que me abrasava…

Ventura infinda me invadia a vida,
A dor em mim era desconhecida.
Sonhei voar contigo, no céu lindo;
Eras um falcão e destroçaste
Minha alegria, a vida me roubaste.

Oh! desgraça, por amar-te tanto!...”

  A melodia chorava a pulcra avezita que o desejo infrene, falcão impiedoso, destruíra. Conquanto estivesse o auditório repleto de pessoas de costumes reprocháveis, a canção da jovem parecia retratar uma visão desconhecida por aqueles seres, acostumados às paixões violentas, conseguindo, pelo inusitado, acalmar-lhes, momentaneamente, a sede da luxúria e do vinho.

  Girólamo, por circunstância óbvia, lembrou-se de Assunta. Pareceu-lhe, no momento, que, no auge da juventude, aos primeiros lances da sedução, conseguira amá-la. Era um amor selvagem, feito de ímpetos e ânsias, mas possivelmente amor. Aliás, ele não sabia o que era o amor, além do fustigar das explosões do desejo. Ignorava o sacrifício e a renúncia, desconhecia a arte de esperar e nunca se permitira ceder, senão para retomar adiante.

  Assunta reapareceu-lhe nas recordações e, por um instante, experimentou lampejos de remorso, como se lamentasse de ter feito o que fez. Como se o frescor da noite e a melodia o humanizassem, deslocou-se psiquicamente do ambiente e voltou à colina de San Miniato, onde trucidara com punhaladas contínuas a infeliz amante. Devaneava, emocionado, quando escutou a gargalhada… Arrepio violento o sacudiu. Despertou estremunhado, ergueu-se e demandou o solar, para sorver amplo bicchiere (ii) de vinho.

  A doce voz continuava modulando o estribilho da canção:

“Oh! aventura di amarti tanto
Triste manigoldo dell’alma mia
Mi rubasti il cielo e l’incanto…”

  Pávido e trémulo, arrebatou um copázio que espumava sobre uma bandeja em exposição e sorveu-o, desesperado. No íntimo, porém, sobrepondo-se ao aturdimento, continuou a escutar a gargalhada sardónica, acompanhada de objurgatórias e impropérios:

  – “Não fugirás, assassino! Assassino! Assa…ssi…no! Ladrão de vidas! FALCÃO destruidor!...”

  Sentindo o peito arfante e o espírito atroado, continuou a beber, buscando fugir da agressão mental, esquecido do baile, da vida, evadindo-se, até que o torpor alcoólico o vitimou desacordado.

  Estabelecera-se, ali, em definitivo, a obsessão.

/...

(i) Ebbrezza – embriaguez.
(ii) Bicchiere – copo próprio para vinho; caneca.



VICTOR HUGO, Espírito “PÁRIAS EM REDENÇÃO” – LIVRO PRIMEIRO, 7. OBSESSÃO VINGADORA E PERTINAZ (4 de 4) 25º fragmento da obra. Texto mediúnico ditado a DIVALDO PEREIRA FRANCO.
(imagem de ilustração: L’âme de la forêt _1898, tempera e folha de ouro sobre painel de Edgar Maxence)

domingo, 22 de dezembro de 2013

O Espiritismo na Arte ~


Oitava lição

(Transmissão da arte na Terra, Os dons inatos)

|3 de Fevereiro de 1922|

“Falaremos hoje sobre a transmissão da arte no planeta Terra, a fim de mostrarmos a participação que têm, nas composições artísticas, os espíritos que continuam uma obra cujos elementos se obtêm das fontes fluídicas e se propagam nos meios materiais. Vimos de que maneira, no espaço, um ser evoluído podia, por reflexos, reproduzir por meio de suas qualidades artísticas, temas retirados do domínio da arquitectura, da pintura, da escultura ou do pensamento.

Vós vos lembrais que é graças à faculdade que cada ser fluídico possui, de poder constituir os elementos e os quadros de suas vidas sucessivas, que ele aprende e retém todas as coisas que formam a universalidade divina. Agora eu desejo, deixando de lado o problema da intuição, falar-vos do espírito reencarnado que na Terra, por exemplo, quando o desenvolvimento corporal for suficiente, poderá sentir vibrar em si as moléculas fluídicas impregnadas de radiações resultantes de várias vidas no espaço, radiações estas que se podem traduzir, na Terra, por supostos dons inatos que levarão a criatura a uma situação de destaque na categoria dos artistas e dos pensadores.

Tomemos a arquitectura: após ter reunido os elementos do desenho que enriquecerão o seu cérebro de materiais capazes de concentrar as radiações, estas, intuitivamente, levarão o ser humano a criar formas ideais, inspirando-se, sem o saber, em imagens, em quadros, que poderão ser reconstituídos pelas radiações ligadas aos seus átomos cerebrais.

Segundo o número de vidas percorridas, segundo a vontade de estudar, de compreender, os átomos serão mais ou menos animados de uma vida própria e, também de acordo com a flexibilidade de harmonia das linhas que lhe servirão de condutor, a obra criada será mais ou menos rica e elevada.

De um lado, trabalho exterior, aquele que é ensinado durante a vida tangível do ser; de outro lado, fixação de moléculas radiantes, impregnadas das aquisições anteriores. Sobre essas linhas mais ou menos flexíveis, maleáveis, realiza-se uma produção, uma criação do objectivo. O arquitecto, na sua mesa de trabalho, de repente vê aparecerem as linhas, as abóbadas e, segundo a sua vontade, um monumento se edifica; são as moléculas que, de acordo com os conhecimentos geométricos adquiridos, agem por extensão sobre os lobos cerebrais do artista e concretizam imagens idealizadas pelo abstracto.

Servi-me do arquitecto como exemplo porque a arte arquitectural é, sob o vosso ponto de vista, a arte mais tangível. No espaço, o espírito percorre mundos infinitos; a arte da linha é para ele a primeira letra desse alfabeto grandioso que nós chamaremos gama das formas, dos sons e das cores. O ser vai obter no espaço e nos mundos essas formas necessárias, que serão reproduzidas pela escultura. Para um espírito mais subtil, que ocupa um escalão mais elevado da arte, a pintura será a preferida porque o relevo na pintura é unicamente fluídico e deve ser reproduzido pelo pincel.

O terceiro escalão será o que dará acesso aos pensadores, aos filósofos, aos escritores. Os trabalhos geométricos, dos quais falamos, ali se tornam quase fictícios; sendo a geometria do pensamento simplesmente uma análise cada vez mais subtil dos seres e das coisas.

Na nossa próxima conversa abordaremos a música e eu me esforçarei por vos demonstrar como as inflexões musicais devem e podem sintetizar todas as artes, porquanto elas são o veículo da inspiração que tudo cria e anima.

Na minha vida terrestre, sensibilizei-me por todas as artes: a pintura, a escultura, a música; agora, Deus permite que eu viva nas esferas onde tudo é vibração e eu desejo dar-vos um resumo desta vida celeste.”

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LÉON DENIS, O Espiritismo na Arte, Parte IV – Oitava lição / Transmissão da arte na Terra, Os dons inatos, 19º fragmento da obra.
(imagem de ilustração: Mona Lisa 1503-1507 – Louvre, pintura de Leonardo da Vinci)

sábado, 14 de dezembro de 2013

Da sombra do dogma à luz da razão ~


Natureza da Revelação Espírita (V)

  Sendo Deus o eixo de todas as crenças religiosas, o objectivo de todos os cultos, o carácter de todas as religiões está de acordo com a ideia que estas transmitem de Deus. As religiões que criam um Deus vingativo e cruel julgam honrá-lo com actos de crueldade, com fogueiras e torturas; as que criam um Deus parcial e ciumento são intolerantes; são mais ou menos meticulosas na forma, consoante o julguem mais ou menos maculado com as fraquezas e mesquinhez humanas.

  Toda a doutrina de Cristo se funda sobre o carácter que ele atribui à Divindade. Com um Deus imparcial, soberanamente justo, bom e misericordioso, conseguiu fazer do amor de Deus e da caridade para com o próximo a condição expressa da redenção e dizer: «Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a vós mesmos.» Sobre esta única crença, conseguiu estabelecer o princípio da igualdade dos homens perante Deus e da fraternidade universal. Mas era possível amar aquele Deus de Moisés? Não; só poderíamos temê-lo.

  Esta revelação dos verdadeiros atributos da Divindade, juntamente com a da imortalidade da alma e da vida futura, modificava profundamente as relações mútuas dos homens, impunha-lhes novas obrigações, fazia com que encarassem a vida actual sob uma nova luz; devia, por isso mesmo, actuar sobre os costumes e as relações sociais. Incontestavelmente, pelas suas consequências, este é o ponto capital da revelação de Cristo e de que não se compreendeu suficientemente a importância; é lamentável dizer que este é também o ponto de que mais nos afastamos, em que nos enganámos na interpretação dos seus ensinamentos.

  No entanto, Cristo acrescenta: «Muitas das coisas que vos digo não as podeis ainda compreender e teria muitas mais para vos dizer que não entenderíeis; é por isso que vos falo por parábolas; mas, mais tarde, enviar-vos-ei o Consolador, o Espírito da Verdade, que restabelecerá todas as coisas e vo-las explicará todas

  Se Cristo não disse tudo o que poderia ter dito, foi por ter acreditado que devia deixar certas verdades na sombra até os homens estarem em estado de as entender. Conforme declarou, o seu ensinamento estava portanto incompleto, dado que anunciou a vinda do que o iria completar; previa então que as suas palavras seriam erradamente interpretadas, que se desviariam dos seus ensinamentos; resumindo, que desfariam o que tinha feito, já que todas as coisas deviam ser restabelecidas; ora, só se restabelece o que foi desfeito.

  Por que chama ao novo Messias Consolador? Este nome, significativo e sem ambiguidades, constitui uma revelação completa. Ele previa portanto que os homens iriam precisar de consolações, o que implica a insuficiência das que iriam encontrar na crença que iriam adoptar. Talvez nunca Cristo tenha sido mais claro e mais explícito que nestas últimas palavras a que poucas pessoas prestaram atenção, talvez porque se tenha evitado dar-lhes relevo e aprofundar o seu sentido profético.

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ALLAN KARDEC, A GÉNESE – Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo, Capítulo I NATUREZA DA REVELAÇÃO ESPÍRITA números de 24 a 27, 7º fragmento da obra. Tradução portuguesa de Maria Manuel Tinoco, Editores Livros de Vida.
(imagem de ilustração: Diógenes e os pássaros de pedra, pintura em acrílico de Costa Brites)