Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

sexta-feira, 24 de abril de 2015

O Mundo Invisível e a Guerra ~


IX
O Espiritismo e as Religiões

|Março de 1917|

   A ideia de Deus, na nossa pátria obscurecida e alterada pelas religiões, apagou-se em muitas almas.

   Já há muito tempo que se formara na França uma corrente de incredulidade que tem minado, secretamente, os alicerces da religião e até de toda a ordem social.

   As horas trágicas chegaram e, sob uma devastadora tempestade de ferro e de fogo, a França conheceu a necessidade de um ideal nobre e de uma força moral que torne possível olhar a morte frente a frente, suportando, sem vacilações, todos os golpes da adversidade. A proximidade do perigo impôs, mesmo para os mais frívolos, uma gravidade concentrada e muitos pensamentos se voltaram para o Além.

   Tudo isso parecia ser outro tanto dos indícios de renovação espiritual. Do fundo do abismo de sofrimentos em que caímos, um grito de súplica se eleva para o céu; aspirações ascendem a formas religiosas mais altas e mais puras, proporcionando ao homem meios eficientes, capazes de desenvolver nele o que existe de imortal e divino.

   As ideia do passado poderão influir para essa recuperação, porém, já o afirmamos, na nova ciência, enaltecida e espiritualizada, é que se encontrará a religião do futuro, os princípios das sua crença e os elementos de convicção, porque a religião e a ciência não são antagónicas, excepto quando as consideramos nos seus aspectos inferiores. Elas se identificam e se fundem na sua directriz fundamental, no seu objectivo maior, que são o conhecimento do Universo e a comunhão íntima com a causa de todas as coisas: Deus!

   Talvez, na sua evolução, a religião enfraqueça no seu carácter colectivo, mas se fortalecerá em cada um de nós pelo desenvolvimento do conhecimento e da consciência individuais.

   É importante dirigirmos um olhar de conjunto para o Universo, para nos encontrarmos na presença de leis majestosas, que dominam os seres e as coisas sob a acção de um soberano poder. Ora, não existe lei alguma sem uma mente que a crie e sem uma vontade que zele pelo seu cumprimento.

   Nas silenciosas vastidões do abismo da vida onde gravitam os mundos uma Inteligência preside à ascensão das almas e à eterna harmonia do cosmo. (i)

   As anomalias e as contradições que muitos crêem descobrir no estudo do Universo nascem simplesmente da pobreza de suas observações. Os nossos grosseiros sentidos, mesmo ajudados pelos instrumentos que a tecnologia nos oferece, não nos podem dar senão uma pálida ideia do conjunto das coisas.

   A nossa ignorância sobre o mundo invisível mais ajuda a enfraquecer os nossos julgamentos e somente a revelação dos espíritos vem, oportunamente, preencher as principais lacunas do nosso entendimento, mostrando-nos, por exemplo, que as leis morais e as leis físicas se inter-relacionam e se fundem num todo harmónico, o mesmo ocorrendo com a ideia de Deus que se aperfeiçoa e se engrandece.

   Para o espírito que abandona as formas materiais e os limites dos cultos, Deus já não é um ser antropomórfico, isto é, o homem divinizado de que nos falam os livros sagrados e as crenças de idades antigas.

   Não! Deus é pura essência, é um princípio e uma meta, uma causa e um fim.

   Os espíritos bastante evoluídos para o poderem contemplar (e, neste caso, só conheço um), descrevem-no como um imenso foco de luz, cujo brilho e esplendor quase não se pode suportar e de onde partem as vibrações poderosas que animam o Universo inteiro. 

   Dele resulta uma impressão majestosa, mesclada por eflúvios de amor que penetram e comovem a quantos se aproximem dele.

   Com as asas do pensamento e da oração, no recolhimento dos sentidos, qualquer alma pode comunicar-se com esse foco eterno e sentir as suas irradiações. Todos os impulsos do pensamento religioso se permutam em contemplação e em êxtase, quando chegam a tais alturas.

   Realmente, no seu começo e no seu nobre fim, todas as crenças estão irmanadas e convergem para um único ponto.

   Assim como a fonte límpida e o regato murmurante, vão, finalmente, reunir-se no mar imenso, também o Bramanismo, o Budismo, o Cristianismo, o Judaísmo, o Islamismo e os seus derivados, nas suas mais nobres e puras formas, poderiam fundir-se numa vasta síntese e as suas orações, unindo-se às harmonias do mundo, se transformariam em um hino universal de adoração e de amor!

   Inspirado nesse sentimento de ecletismo espiritualista, muitas vezes me aconteceu juntar-me às orações de irmãos de outras religiões, sem me agarrar às fórmulas usadas em semelhantes meios, podendo orar com fervor, tanto nas grandes catedrais góticas, como nos templos protestantes, nas sinagogas ou mesmo nas mesquitas.

   No entanto, a minha oração consegue maior impulso e ardor à beira do mar, quando o embala o ritmo das ondas, assim como nos altos cumes, ante o panorama das planícies e dos montes, ou sob o domo imponente das florestas ou, à noite, sob a abóbada estrelada do firmamento, porque a natureza é o único templo verdadeiramente digno do Eterno.

   A necessidade, existente em cada um de nós, de criar um meio interior onde a alma possa encontrar refúgio contra as preocupações exteriores, contra os cuidados materiais, fortalecendo-se e voltando a tomar contacto com a pura essência de onde ela provém, é uma das condições indispensáveis da vida moral.

   No momento em que a idade e as doenças me privam dos grandes espectáculos da natureza, construí, por minha vontade, um templo interior onde o meu pensamento se alegra em ficar, nos momentos de calma e de isolamento, para render culto aos nobres espíritos cujo génio revelador aclarou, com a sua luz, os caminhos da humanidade.

   Nesse templo interior, por um esforço de imaginação, erigi as estátuas ideais, as imagens augustas dos messias, dos profetas e dos filósofos mais merecedores de respeito e admiração.

   No meio do santuário brilha o símbolo sagrado da Divindade, a quem, em primeiro lugar, as minhas adorações se dirigem. À sua direita, me aparece a grande figura do Cristo, meu venerável mestre, e à esquerda os mestres asiáticos: Krishna, Buda, Lao-Tse e Zoroastro, aos quais sucedem as estátuas dos filósofos gregos, desde Pitágoras a Platão. Diante deles me alegro, recitando os maravilhosos versos da sabedoria antiga.

   Por detrás do Cristo aparecem os mais autorizados representantes da doutrina cristã e, junto deles, repito para mim próprio o Sermão da Montanha, que é o resumo e a essência do próprio Cristianismo: “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados”, assim como os conceitos evangélicos reconhecidos como autênticos. Muito longe fiquei de me esquecer do grupo dos druidas e dos bardos. À frente deles se ergue a alta silhueta, a imponente figura de Taliesin e diante dele recito, com muita alegria, As Tríades, que são um maravilhoso monumento das tradições celtas, cuja ciência se iguala à profunda sabedoria do Oriente.

   Por último, depois, vem Allan Kardec, a quem considero o continuador e o renovador das grandes tradições de nossa raça.

   Peço ao leitor que me desculpe, prendendo-o com coisas tão pessoais, porém só lhe quis dar um exemplo de que pode conseguir ensinamentos úteis e inspirações salutares. Realmente, nas minhas visitas costumeiras a esses grandes espíritos, nos exercícios que a recordação deles provoca, isto é, no facto de recitar trechos de suas mais célebres obras, sempre encontrei a serenidade e o reconforto para o espírito.

   Não vejam, na diversidade das suas concepções, qualquer contradição, porque debaixo das suas formas variadas, em cada uma delas encontramos o mesmo impulso, a mesma aspiração para o bem e para a suprema beleza, que são outros tantos atributos de Deus, uma irradiação divina.

   De todo o conjunto se desprende uma síntese magnífica que resume o pensamento de todo um mundo no que ele possui de mais nobre e puro; síntese que narra, precisa e fecunda, o moderno espiritualismo, numa comunhão universal que um dia ligará todas as consciências e todos os corações.

   Lançando um olhar panorâmico sobre a história dos tempos modernos, parece que uma das missões da França é criar correntes de ideias para o mundo.

   Após dezoito séculos da vinda do Cristo, a França despertou a noção de fraternidade que dormitava no fundo das almas. Nenhuma outra nação trabalhou mais ardentemente para libertar o pensamento dos grilhões seculares e assegurar os direitos da consciência. Ela comunicou a chama de seu génio a várias teorias humanitárias e sociais.

   Na actual luta, o papel da França cresceu mais ainda, porque arrisca a sua liberdade e a sua própria existência para salvar a Europa da sua volta à barbárie. Assim obteve a simpatia e a admiração dos neutros, e até mesmo a consideração dos seus inimigos. Antes da guerra, acreditavam e afirmavam que se encontrava em franca decomposição, porém ela se sublimou, com um verdadeiro holocausto.

   Assim que acabar o sangrento drama a que assistimos, outra missão caberá à nossa pátria e essa concórdia, que une todos os seus filhos na hora do perigo, será mantida e garantida por outros meios, isto é, por novos processos de ensino e educação.

   A França deve ensinar ao mundo as regras da religião do futuro, dessa religião ampla e tolerante que terá por base a ciência dos factos e por coroamento as mais altas e mais puras aspirações do ideal espiritualista.

   Nessa religião, a fé e a ciência encontrarão um campo comum, uma possibilidade de comunhão de todos os espíritos e corações. Essa obra haverá de ser, entre todas, a mais preciosa para a humanidade, porque fará desaparecer a maior parte dos motivos de separação e de ódio, unindo os pensamentos e as vontades para esse “caminho real da alma”, do qual nos falou Platão, visando o fim elevado da alma, conforme a Doutrina dos Espíritos nos revela.

   Tal iniciativa garantiria que a França completasse a vitória das armas com uma vitória intelectual e moral mais bela e ainda mais frutífera. Dessa forma, o nosso país se elevaria à primeira classe das nações, merecendo o reconhecimento de todos os séculos futuros.

   Os tempos nunca foram mais favoráveis que agora para uma renovação religiosa, que excluiria qualquer espírito de sectarismo e de reacção. Da presente luta, assim esperamos, aparecerá uma nova sociedade, doutrinada pela provação, fortalecida pelo infortúnio e mais unida, disciplinada, consciente de seus deveres e responsabilidades.

   Parece que o progresso já se produz nos espíritos e que os homens compreenderam a natureza precária das coisas deste mundo, encarando com mais satisfação o problema dos destinos.

   Já faz três anos que a morte tem batido a tantas portas, tem visitado tantas casas que até os mais indiferentes a encararam, indagando a si mesmos, quem era esse misterioso hóspede e, pelas reflexões que a sua presença ditou, abriu-se nesses seres um caminho para o Infinito, para o Divino.

   No calor dos sofrimentos, a alma humana tornou-se mais apta a receber e compreender as verdades superiores e, de agora em diante, as futilidades e a sensualidade de outrora e as obras decadentes não poderiam mais satisfazê-la. Ela exige alimentos mais substanciais e mais fortes.

   Os estudos psíquicos, os testemunhos dos sábios com relação à sobrevivência da alma, lhe oferecerão condições mais sólidas para erguer um edifício mais digno dela e dos seus objectivos.

   A filosofia se aclarará com novas luzes, tiradas da doutrina de Allan Kardec. Em certas escolas já se compreende e se admite que a personalidade humana não se formou de um só golpe, porém lentamente e através dos séculos. A concepção apressada e insuficiente de uma única vida é trocada, paulatinamente, pela da evolução da alma através de existências sucessivas no infinito dos tempos.

   O nosso destino não é determinado por um favor particular ou pelo sacrifício de um salvador, mas por nós próprios. O ser consciente se constrói a si mesmo, tal como o escultor aperfeiçoa a sua estátua: a sua forma representativa só tem como valor a soma de seus esforços e cuidados. Ele se ilumina ou se obscurece conforme a natureza de seus pensamentos e de seus actos: a fonte das alegrias, das penas ou das recompensas reside nele, nas suas faculdades, nas suas percepções, aumentadas ou diminuídas.

   O destino não é senão o resultado das nossas obras boas ou más e recai sobre nós em forma de raios ou de chuva. Todo o sofrimento que se suporta com paciência é qual um golpe do cinzel do escultor que colabora para aperfeiçoar a sua obra.

   O resultado do nosso progresso é um desfrutar crescente de tudo que é grande, de tudo que é beleza, esplendor, luz e harmonia. É uma progressiva participação na vida universal, uma cooperação com a obra soberana, sob a forma de tarefas e missões que aumentam, gradualmente, de importância e extensão. Finalmente, é a plenitude da felicidade nas suas três formas importantes: virtude, génio e o amor...

   A nossa meta principal deve ser nos aproximarmos do foco supremo, deixando-nos penetrar pelas irradiações do pensamento divino, tornando cada vez mais estreita e mais profunda a comunhão com Deus, e, assim, atingirmos o conhecimento de todas as coisas, porque tudo se resume nele e vive nele.

   Tal é, na sua essência, o ensino que decorre da revelação dos grandes espíritos e que é bem conhecido dos que viveram na sua intimidade e deles receberam o pão da vida. Só participa desse ensino, por enquanto, um pequeno número de pessoas, mas ele deve ser estendido com profusão, para que as inteligências se aclarem, os caracteres se aperfeiçoem e as almas se elevem.

   Aí está por que, depois da guerra, os espíritas deverão divulgar essas verdades às mãos cheias, porque o terreno já estará admiravelmente bem preparado para a semeadura e eles não estarão sós no seu trabalho, porque a multidão imensa dos invisíveis os ampara e alenta.

   Sobre nós pairam, espiritualmente, os que deram a sua vida em sacrifício pela França e tombaram mortos na defesa da causa e do direito.

   Eles nos inspiram e nos exortam a não esquecermos do seu nobre exemplo e, por nossa vez, trabalharmos, de outras formas, para a salvação e fortalecimento da pátria.

   Eles se debruçam sobre os corações angustiados e as almas enlutadas, a fim de depositar nelas o bálsamo das consolações e das esperanças; asseguram-lhe que a sua afeição não se extinguiu e que a sua actividade não decresceu, mas que, pelo contrário, os seus sentimentos e a sua vida são mais intensos, mais reais e mais poderosos que os nossos.

   De toda a parte se levanta a voz dos espíritos para nos afirmar que sobre a atmosfera de ódio, vingança e pavor que pesa sobre o nosso infeliz planeta há um mundo superior onde reina a eterna justiça, onde os que lutaram e sofreram na Terra recolhem os frutos dos males que suportaram; um mundo no qual nos reuniremos algum dia para juntos comungarmos da paz serena e na divina harmonia!

/...
   Primeira Guerra Mundial 1914-1918.

   (i) Os nossos telescópios captaram mais de cem milhões de estrelas que, como sabemos, são outros tantos sóis, a maior parte dos quais superam o nosso em poder e brilho, arrastando, cada um deles, um maravilhoso cortejo de mundos.
Qual é a força que sustenta esses milhares de astros e planetas no vazio dos espaços, dirigindo a sua marcha interminável? É a mesma que regula o agrupamento dos átomos e as afinidades químicas, isto é, a lei da atracção. Pois bem, essa lei pertence ao domínio do invisível.



LÉON DENIS, O Mundo Invisível e a Guerra, IX O Espiritismo e as Religiões 2, Março de 1917 (2 de 2), 25º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Tanque de guerra britânico capturado pelos Alemães, durante a Primeira Guerra Mundial)

quarta-feira, 15 de abril de 2015

O sentido da vida ~


a formação do homem ~

O grande físico inglês, sir Oliver Lodge, escreveu uma pequena obra, sintetizando as conquistas da ciência e da filosofia, no terreno do conhecimento do homem em si mesmo, para concluir, de acordo com as novas perspectivas abertas pelo Espiritismo, em favor da tese renovadora de que o homem é ainda um processo em desenvolvimento. Essa tese contradiz os dogmas religiosos que definem o homem como obra consumada de Deus, mas não contradiz os ensinamentos mais profundos e mais antigos das escrituras sagradas, em que as religiões procuram assentar as suas bases, nem contradiz o resultado das modernas pesquisas científicas e a mais avançada concepção filosófica da origem e do destino do homem.

A teoria do transformismo, da evolução das espécies, de Charles Darwin, simultaneamente apresentada pelo grande botânico e zoólogo Alfred Russel Wallace, que mais tarde escreveu o seu famoso livro Os Milagres e o Moderno Espiritualismo, apresenta o homem como descendente directo de espécies inferiores, dos animais, e mais proximamente, do macaco.

Segundo essa teoria, o homem é um ser que vem sendo elaborado pela natureza através de longo processo, passando pelas mais variadas experiências biológicas, para chegar ao seu estado actual, e daqui avançar para a frente. Assim, a vida não é mais do que um trabalho constante de elaboração, e o homem é o mais elevado produto desse esforço multimilenar de todas as forças conhecidas e desconhecidas do universo que habitamos.

A teoria da selecção das espécies e da origem animal do homem ainda não está cientificamente comprovada, mas é geralmente aceite como a única explicação razoável do aparecimento da espécie humana na Terra, do ponto de vista científico. Os teólogos das várias religiões cristãs, e ultimamente alguns teósofos e ocultistas, levantam objecções teológicas e filosóficas a essa teoria, mas todas elas destituídas de qualquer fundamento científico. A tendência geral da ciência moderna é favorável a essa teoria e a maior parte dos biólogos a aceita e a endossa, sem qualquer restrição fundamental.

Há pessoas que entendem não ser possível tão estreito parentesco entre os homens e os animais, considerando tal facto depreciativo para a espécie humana. Puro e simples orgulho de um animal mais adiantado na escala evolutiva. E incoerência também, pois já não bastaria, para a satisfação desse orgulho, a suposição de que é o homem o máximo expoente do universo por ele habitado?

Em O Livro dos Espíritos, obra básica da doutrina, Allan Kardec deixou essa questão em aberto. Espírito cauteloso, que Flammarion chamou de bom senso encarnado, não quis o sábio professor de Lyon adiantar mais do que devia, no momento em que lançou aquele livro, já de si tão profundamente revolucionário. Deu, porém, as duas correntes de opiniões que havia encontrado no mundo dos espíritos, uma das quais favorável à origem animal do homem, e deixou a escolha ao critério dos leitores. Em A Génese - os milagres e as predições segundo o Espiritismo, Kardec define, porém, a posição do Espiritismo, no capítulo X, referente à génese orgânica, afirmando taxativamente:

“Ainda que isso lhe fira o orgulho, o homem deve resignar-se a não ver no seu corpo material senão o último anel da vida animal na Terra. O inexorável argumento dos factos aí está, contra o qual ele protestará em vão, mas, quanto mais o corpo diminui de valor aos seus olhos, mais ganha em importância o princípio espiritual. Vemos o círculo em que se fecha o animal, mas não vemos o limite a que poderá chegar o espírito do homem.”

Um dos grandes pioneiros e mestres do Espiritismo, que auxiliaram a tarefa esclarecedora de Allan Kardec, foi Gabriel Delanne. Com Léon Denis e Kardec, forma ele a trilogia dos construtores do moderno espiritualismo. Na sua obra A Evolução Anímica, dá-nos uma visão ainda mais ampla e minuciosa desse lento processo através do qual o homem vem sendo elaborado, na face da Terra. Darwin e os seus émulos e seguidores apresentaram-nos o problema do ponto de vista exclusivamente orgânico, materialista. O Espiritismo mostra-nos a outra face da questão, e por certo a mais importante, que é a espiritual, uma vez que o homem é espírito e não matéria. Kardec e Delanne colocam-nos a par dos princípios de um novo ramo da ciência biológica, a psicologia-fisiológica, que sir Oliver Lodge estuda no seu trabalho sobre a formação do homem.

Toda a natureza é um imenso e penoso trabalho de construção. A geologia nos mostra a formação da Terra, através dos séculos e dos milénios, como um lento e laborioso desenvolvimento de forças latentes. Vemos, graças aos estudos e às pesquisas científicas já agora indiscutíveis, que as várias classes de seres vivos estão todas ligadas numa ampla cadeia, descendendo umas das outras. Por que estranho motivo apenas o homem seria uma excepção à regra geral? E que estranha excepção seria essa, em detrimento de si próprio, ao invés de engrandecê-lo? Sim, pois se o homem não se enquadrasse nesse vasto panorama da evolução terrena, que hoje podemos abarcar num golpe de pensamento, qual seria a sua posição, num mundo de constante evolução? Tudo progrediria à sua volta, menos ele, o enteado da criação, abandonado às suas próprias fraquezas e encerrado no estreito limite da vida orgânica, entre o berço e o túmulo.

Vemos, assim, que o Espiritismo nos apresenta um quadro geral do Universo como um processo contínuo de evolução. Tudo flui e tudo se transforma, já dizia Heráclito, de Éfeso. Nesse imenso processo, o homem representa, segundo o Espiritismo, o ponto culminante da natureza. Poderemos dizer que ele é o momento do Universo mais próximo de Deus.

Mas Ele – Deus – não foi esquecido ou diminuído por essa nova concepção da vida e do mundo? Deus não ficou à margem, dando lugar a um simples entrechoque de forças desconhecidas, para a produção do mundo e das formas vivas, no espaço e no tempo?

/…


José Herculano Pires, O Sentido da Vida, A Formação do Homem, 3º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Platão e Aristóteles, pormenor d'A escola de Atenas de Rafael Sanzio, 1509)

domingo, 5 de abril de 2015

| o grande enigma ~


as harmonias do Espaço ~

Uma das impressões que nos causa, à noite, a observação dos céus, é a de majestoso silêncio; mas esse silêncio é apenas aparente; resulta da impotência dos nossos órgãos. Para seres mais bem aquinhoados, portadores de sentidos abertos aos ruídos subtis do Infinito, todos os mundos vibram, cantam, palpitam, e as suas vibrações, combinadas, formam um imenso concerto. Esta lei das grandes harmonias celestes podemo-la observar na nossa própria família solar.

Sabe-se que a ordem de sucessão dos planetas no Espaço é regulada por uma lei de progressão, chamada lei de Bode(') As distâncias dobram, de planeta a planeta, a partir do Sol. Cada grupo de satélites obedece à mesma lei. Ora, esse modo de progressão tem um princípio e um sentido. Esse princípio liga-se ao mesmo tempo às leis do número e da medida, às matemáticas e à harmonia. ('') 

As distâncias planetárias são reguladas segundo a ordem moral da progressão harmónica; exprimem a própria ordem das vibrações desses planetas e as harmonias planetárias; calculadas segundo estas regras, resultam em perfeito acordo. Poder-se-ia comparar o sistema solar a uma harpa imensa, da qual os planetas representam as cordas. Seria possível, diz Azbel, “reduzindo a cordas sonoras à progressão das distâncias planetárias, construir um instrumento completo e absolutamente afinado”. (i)

No fundo (e nisso reside a maravilha), a lei que rege as relações do som, da luz e do calor é a mesma que rege o movimento, a formação e o equilíbrio das esferas, de igual maneira que lhes regula as distâncias. Essa lei é, ao mesmo tempo, a dos números, das formas e das ideias. É a lei da harmonia por excelência: é o pensamento, é a acção divina vislumbrada!

A palavra humana é muito pobre, insuficiente, para exprimir os mistérios adoráveis da harmonia eterna. A escrita musical somente pode fornecer a sua síntese, comunicar a sua impressão estética. A música, idioma divino, exprime o ritmo dos números, das linhas, das formas, dos movimentos. É por ela que as profundezas se animam e vivem. Ela enche com as suas ondas o edifício colossal do Universo, templo augusto onde retine o hino da vida infinita. PitágorasPlatão acreditavam já perceber “a música das esferas”.

No Sonho de Cipião, narrado por Cícero numa das suas belas páginas, que nos legou a antiguidade, o sonhador entretém-se com a Alma de seu pai, Paulo Emílio, e a de seu avô, Cipião, o africano; contempla com elas as maravilhas celestes e o diálogo seguinte se estabelece:

– ”Que harmonia é essa, tão poderosa e tão doce que me penetra?” – pergunta Cipião. Responde-lhe o avô:

– ”É a harmonia que, formada de intervalos desiguais, mas combinados, de acordo com justa proporção, resulta do impulso e do movimento das esferas; fundidos os tons graves e os tons agudos num acorde comum, faz de todas essas notas, tão variadas, um melodioso concerto. Tão grandes movimentos não se podem executar em silêncio.”.

Quase todos os compositores de génio que ilustraram a arte musical, assim os Bach, os Beethoven, os Mozart, etc., declararam que percebiam harmonias muito superiores a tudo que se pode imaginar, harmonias impossíveis de serem descritas. Beethoven, enquanto compunha, ficava fora de si, arrebatado numa espécie de êxtase, e escrevia febrilmente, ensaiando em vão reproduzir essa música celeste que o deslumbrava.

É preciso uma faculdade psíquica notável para possuir a tal ponto o dom da receptividade. Os raros humanos que a possuem afirmam que, quantos já surpreenderam o sentido musical do Universo, encontraram a forma superior, a expressão ideal da beleza e da harmonia eternas. As mais elevadas concepções do género humano são, apenas, um eco longínquo, uma vibração enfraquecida da grande sinfonia dos mundos.

É a fonte dos mais puros gozos do Espírito, o segredo da vida superior, cuja potência e intensidade os nossos sentidos grosseiros nos impedem, ainda, de compreender e sentir.

Para aquele que os pode gozar plenamente, o tempo não tem medida e a série dos dias inumeráveis não parece mais que um dia.

Mas essas alegrias, ainda ignoradas, no-las dará a evolução, à medida que nos formos elevando na escala das existências e dos mundos.

Já conhecemos médiuns que percebem, em estado de transe, suaves melodias. As lágrimas abundantes que vertem testemunham não serem ilusórias as suas sensações.

Voltemos ao estudo dos movimentos das esferas e notemos que não há, até mesmo tratando-se das próprias excepções à regra universal de harmonia e dos desvios aparentes dos planetas, nada há que não se explique e não seja assunto de admiração. Esses movimentos constituem espécies de “diálogos de vibrações tão aproximados quanto possível do uníssono” e apresentam um encanto estético a mais nesse prodígio de beleza que é o Universo.

Um exemplo, dos mais incisivos, é o dos pequenos planetas, chamados telescópicos, que evolvem entre Marte e Júpiter, em número de cerca de 520, ocupando um espaço de oitava inteiro, dividido em outros tantos graus; de onde a probabilidade de que esse conjunto de mundículos não constitua, como se tem acreditado, um universo de destroços, mas o laboratório de muitos mundos em formação, mundos dos quais o estudo do céu nos dirá a génese futura.

As grandes relações harmónicas que regulam a situação respectiva dos planetas de nosso sistema solar são em número de quatro e encontram a sua aplicação:

Em primeiro lugar: do Sol a Mercúrio; neste ponto também as forças harmónicas estão em trabalho; planetas novos se esboçam.

Depois, de Mercúrio a Marte. É a região dos pequenos planetas, em que se move a nossa Terra, representando o papel de dominante local, com tendência a afastar-se do Sol para se aproximar das harmonias planetárias superiores. Marte, componente desse grupo e do qual podemos distinguir, ao telescópio, os continentes, os mares, os canais gigantes, todo o aparelho de uma civilização anterior à nossa, embora menor, é mais bem equilibrado que a nossa morada.

Os 500 planetas telescópicos constituem, em seguida, um intervalo de transição; formam uma espécie de colar de pérolas celestes ligando o grupo de planetas inferiores à imponente cadeia dos grandes planetas, de Júpiter a Neptuno, e além. Tal cadeia forma a quarta relação harmónica, de notas decrescentes qual o volume das esferas gigantescas que a compõem. Nesse grupo, Júpiter tem o papel de dominante; os dois mundos, maior e menor, nele se combinam.

“Semelhante à inversão harmónica do som – diz Azbel (ii) –, é por uma progressão constante que o grupo antigo de Neptuno e Júpiter afirma a formação de seus volumes. O caos de corpúsculos telescópicos que segue fez estacar bruscamente essa progressão. Júpiter lá ficou qual um segundo sol, no limiar dos dois sistemas. Dos registos de oitava e de segunda dominante, passou ao de tónica secundária e relativa, para exprimir o carácter de registo especial, evidentemente menor e relativo, em paralelo ao do Sol, que ia preencher, enquanto formações mais novas se dispunham aquém, afastando-o, pouco a pouco, e aos mundos seus tutelados, do astro de que é o mais robusto filho.”

Robusto, com efeito, e bem imponente no seu curso, esse colossal Júpiter, que gosto de contemplar na calma das noites de verão, mil e duzentas vezes maior que o nosso globo, escoltado pelos seus cinco satélites, dos quais um, Ganimedes, tem o volume de um planeta. Ereto sobre o plano de sua órbita, de maneira a gozar de igualdade perpétua de temperatura sob todas as latitudes, com dias e noites sempre uniformes na sua duração, é, além disso, composto de elementos de densidade quatro vezes menor que os da nossa maciça morada, o que permite entrever, para os seres que habitam ou terão de habitar Júpiter, facilidades de deslocamento, possibilidades de vida aérea que devem fazer dele uma vivenda de predilecção. Que teatro magnífico da vida! Que cena de encanto e de sonho esse astro gigante!

Mais estranho, mais maravilhoso ainda é Saturno, cujo aspecto se faz tão impressionante ao telescópio; Saturno é igual a oitocentos globos terrestres amontoados, com seu imenso diadema, em forma de anel, e os seus oito satélites, entre os quais Titã, igual em dimensões ao próprio Marte.

Saturno, com o cortejo rico que o acompanha em sua lenta revolução através do Espaço, constitui, por si só, um verdadeiro universo, imagem reduzida do sistema solar. É um mundo de trabalho e de pensamento, de ciência e de arte, onde as manifestações da inteligência e da vida se desenvolvem sob formas de variedade e riqueza inimagináveis. A sua estética é sábia e complicada; o sentimento do belo tornou-se ali mais subtil e mais profundo pelos movimentos alternantes, pelos eclipses dos satélites e dos anéis, por todos os jogos de sombra, de luz, de cores, em que as nuançes se fundem em gradações desconhecidas à vista dos habitantes da Terra, e também por acordes harmónicos, bem comoventes nas suas conclusões analógicas com os do universo solar por inteiro!

Vêm depois, nas fronteiras do império do Sol, Urano e Neptuno, planetas misteriosos e magníficos, cujo volume é igual a quase uma centena de globos terrestres reunidos. A nota harmónica de Neptuno seria “a culminante do acorde geral, o cimo do acorde maior de todo o sistema”. Depois, são outros planetas longínquos, sentinelas perdidas do nosso agrupamento celeste, ainda despercebidos, mas pressentidos e até calculados, segundo as influências que exercem nos confins do nosso sistema, longa cadeia que nos liga a outras famílias de mundos.

Mais longe se desenvolve o imenso oceano estelar, voragem de luz e de harmonia, cujas vagas melodiosas por toda a parte envolvem, a embalá-lo, o nosso universo solar, esse universo para nós tão vasto e tão mesquinho em relação ao Além. É a região do desconhecido, do mistério, que atrai sem cessar o nosso pensamento, sendo este impotente para medir, para definir os seus milhões de sóis de todas as grandezas, de todas as potências, os seus astros múltiplos, coloridos, focos terríficos que iluminam as profundezas, vertendo em ondas a luz, o calor, a energia, transportados na imensidão com velocidades formidáveis, com os seus cortejos de mundos, terras do céu, invisíveis, mas suspeitadas, e as famílias humanas que os habitam, os povos e as cidades, as civilizações grandiosas de que são teatro.

Por toda a parte maravilhas sucedem às maravilhas: grupos de sóis animados de colorações estranhas, arquipélagos de astros, cometas desgrenhados, errando na noite de seu afélio, focos moribundos que se acendem de repente e fulgem no fundo do abismo, pálidas nebulosas de forma fantástica, fantasmas luminosos cujas irradiações – diz Herschel – levam 20.000 séculos para chegar até à nossa Terra, formidáveis géneses de universos, berços e túmulos da vida universal, vozes do passado, promessas do futuro, esplendores do Infinito!

E todos esses mundos unem as suas vibrações numa poderosa melodia... A alma livre dos raios terrestres, chegada a essas alturas, ouve a voz profunda dos céus eternos!
/...
(') Johann Elert Bode, astrónomo alemão (1747-1826). 
('') Vide Azbel, Harmonia dos Mundos. 
(i) Vide Azbel, Harmonia dos Mundos, pág. 29. 
(ii) Azbel, Harmonia dos Mundos, pág. 13.


Léon Denis, O Grande Enigma, Primeira parte / Deus e o Universo, IV As harmonias do Espaço 1 de 2, 14º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: As majestosas e violentas palavras dos poemas, pintura em acrílico de Costa Brites)

sexta-feira, 20 de março de 2015

Victor Hugo e o invisível ~

Actualidade Ontológica das Reminiscências Platónicas |

A filosofia de Victor Hugo, assente na preexistência das almas, leva-nos a pensar em Platão, que percebeu na antiguidade, com profunda percepção espiritual, esse mundo novo que aflora na consciência do Ser. Esse mundo interior que se apresenta imperativamente, sem respeitar o conhecimento clássico do homem propõe à filosofia uma das mais intrincadas perguntas: Existe no "tempo actual" do Ser "outro tempo" existencial? 

Todo o desenvolvimento da filosofia ocidental se produziu através de um "tempo único" do Ser, ou seja, de um tempo que vai do nascimento à morte. Aceitou-se que o homem é uma personalidade, mas vazia por dentro, e esta suposição anulou o que o Ser representa como entidade profunda, fazendo dela uma peça compacta e insensível. Esta concepção mecânica do homem causou até uma negação do que o subconsciente representa como abertura do Ser para o mundo exterior. Pois o reconhecimento do subconsciente significou sempre para a nova psicologia a prova de uma dupla natureza do Ser, de um mundo desconhecido cujas raízes se encontram numa provável natureza pré-ôntica da existência.

As reminiscências experimentadas por Platão, ou pelo homem em todos os tempos, são factos que evidenciam as diversas capas psíquicas que conformam o seu mundo interior. Ter, pois, reminiscências é como se o Ser estivesse situado num poço de fundo incomensurável. As emoções, sensações e ideias espontâneas que se registam no ar constituem aflorações misteriosas que, para alcançar uma explicação possível, obrigam a pensar em "reservas" subconscientes adquiridas não se sabe por que meios.

O chamado "mistério do homem" tem a sua principal base nesses estados psíquicos inexplicáveis. De facto, o mistério do homem surge do homem mesmo e não das suas enigmáticas origens biológicas. O mistério é uma presença que se opõe ao homem considerado como pura natureza, o que indicaria que é "algo" ainda indefinido e que se revela contra toda a "naturalidade" que queiram assinalar. No Ser existe um inconsciente misterioso, que paira sobre o consciente racional com o fim de libertá-lo das trevas do não ser. Deste modo, a existência pura se rebela contra a existência impura, ou seja, contra a que se compraz em soltar-se nos abismos do nada.

O conceito de um homem-máquina é um obstáculo para penetrar na natureza supranormal do Ser. Os fenómenos psíquicos que através do Homem se registam estão indicando que a inteligência normal não é toda a inteligência, senão que possui outras dimensões ou substratos que, como misteriosos relâmpagos se apresentam à "razão actual" do Ser para ampliá-la ao aparecer inesperadamente. A intuição, a inspiração, os estados místicos, são factos que não poderiam produzir-se se o homem fosse uma máquina ou uma só peça material. A materialidade do homem se opõe a toda a supranormalidade do Ser. Um homem-corpo só vive de acordo com os seus estados fisiológicos; nele não se produziriam fenómenos psíquicos de nenhuma ordem. O psiquismo, pois, não é de ordem nervosa; o psíquico se origina nas profundidades desconhecidas da personalidade, das quais Platão extraiu as suas célebres reminiscências ontológicas.

As reminiscências platónicas, tão célebres já no campo da filosofia, acentuam-se nos tempos modernos, o que daria uma ideia acerca de uma nova evolução da sensibilidade humana, da qual Victor Hugo foi genial expoente. Ou seja, o homem tem a transbordar os seus cinco sentidos para afirmar-se a si mesmo outra forma sensível com que captar o seu mundo interior e circundante. Pois bem, isso denotaria que o Ser verdadeiro está acima do Ser físico e que existe nele um ente extra-sensorial cuja existência transborda as limitações do tempo presente.

A filosofia do Ser se veria obrigada a reconhecer no homem uma essência que se vincula com uma natureza imaterial, que estabeleceria uma relação com o tempo passado, um tempo presente e um tempo futuro, ou seja, três tipos de "tempo" que gravitariam dinamicamente nas profundidades do Ser.

Destes três tempos emergiram os imperativos espirituais que fizeram ver a Platão o verdadeiro mundo da personalidade humana. Esta concepção do tempo nos levaria a reconhecer um tempo físico e um tempo metafísico. O Ser, desde a sua verdadeira natureza essencial, resultaria um constante devir efectuado através de um tempo mortal e outro imortal, o que relacionaria um processo dialéctico infinito. O homem pensa mas supõe que é um Ser limitado ao seu tempo individual. Ignora que nele existe um tempo espiritual que o faz independente de acidentes aniquiladores. O Ser sente como que uma distância, algo que regressa de outro Ser que já foi e nesta circunstância surge com ele "outra personalidade" que trata de circunstanciar-se com o seu presente, criando no seu mundo moral estados harmónicos ou contraditórios. O Ser se desdobra ao aparecer sob a influência de um ente que regressa de alguma parte, o que determina nele essa instabilidade moral tão frequente no mundo moderno.

Victor Hugo captou o seu Ser passado mediante a sua genial criação poética, mas o que o fez compreender melhor a sua natureza imortal e palingenésica foi o fenómeno mediúnico, cuja origem noumenal surge desse mesmo mundo onde subjazem as reminiscências espirituais percebidas por Platão.

/…



Humberto MariottiVictor Hugo Espírita, Actualidade Ontológica das Reminiscências Platónicas, 11º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Criança com uma boneca, pintura de Anne-Louis GIRODET-TRIOSON)

terça-feira, 10 de março de 2015

O Génio Céltico e o Mundo Invisível ~


Capítulo VIII

Palingenesia: preexistências e vidas sucessivas. A lei das reencarnações

   No seu ensino, os druidas não separavam a noção de imortalidade da noção das vidas sucessivas da alma. Com efeito, entre as grandes leis que regulam a evolução dos seres, nenhuma é mais importante, nem mais necessária para o homem conhecer – após a da sobrevivência da alma no seu envoltório fluídico – que a lei das reencarnações.

   A claridade que ela projecta sobre a estrada da vida dissipa as sombras, as contradições aparentes e revela o sentido profundo da existência. Ela traz a ordem e a harmonia ao lugar da desordem e da confusão.

   Como se explica que essa grande lei, que na realidade deveria ser a base e o cimento de todas as doutrinas espiritualistas, seja ainda ignorada pela maioria dos homens de nosso tempo? Não é ela a essência da tradição céltica inscrita no mais profundo da alma da nossa raça e consignada nas Tríades e nos cantos bárdicos?

   O Cristo, em suas duas encarnações conhecidas, a da Índia e a da Judéia, (i) sob esses nomes quase idênticos, Krishna e Cristo, não ensinou essa mesma doutrina tanto no Evangelho como no Bagavad-Gita? (ii)

   Toda a antiguidade foi iluminada por radiações dessa mesma lei pelos ensinos de Pitágoras, de Platão e aqueles da escola de Alexandria.

   Nos primeiros tempos do Cristianismo (ver meu livro O Problema do Ser e do Destino), homens como Orígenes, São Clemente e quase todos os padres gregos a professaram muito, e no século IV, São Jerónimo, secretário do Papa Dâmaso e autor da Vulgata, na sua controvérsia com Vigilantius, o gaulês, devia ainda reconhecer que ela era a crença da maioria dos cristãos do seu tempo.

   Mas o véu lançado depois, pelas Igrejas, sobre essa grande luz tornou-se uma obscuridade para tudo o que se relaciona com o problema do destino humano. Limitando, no círculo estreito de uma vida única, a passagem da alma sobre a Terra, será que Roma desejaria somente adaptar o seu ensino à compreensão medieval, isto é, ao grau de cultura dos povos ainda bárbaros? Ou teria ela, então, sonhado em assegurar o seu império, pela concepção de uma vida que terminasse num paraíso ou inferno eternos, dos quais ela afirmava deter as chaves? Os dois pontos de vista parecem admissíveis.

   Tais concepções geraram consequências funestas tanto para o génio civilizador como para o espírito religioso dos ocidentais, que elas deformaram no seu princípio e na sua própria existência. Como o fim verdadeiro da vida, isto é, o aperfeiçoamento da alma, a sua educação, a sua preparação para os graus mais altos da escala de ascensão, tenha ficado quase nulo na maioria dos casos, o plano geral da vida tornou-se alterado.

   Entre os crentes, a preocupação constante da salvação pessoal, o temor dos castigos sem-fim, paralisaram a iniciativa, extinguiram toda a independência do espírito, enfraqueceram o seu livre-arbítrio. Entre os outros, a impossibilidade de conciliar, no círculo de uma vida única, a variedade infinita das condições, das atitudes e dos caracteres humanos com a justiça de Deus, deu origem ao cepticismo, ao materialismo e à negação de todo o ideal elevado. Desse estado de coisas nós podemos, no momento, constatar à nossa volta os frutos amargos.

   Como ficar surpreendido, após tantos séculos de erro e de esquecimento, que a noite se tenha feito nos cérebros mais dotados! Não temos visto filósofos eminentes, cujas obras, os sistemas maravilhosamente combinados, se tornaram estéreis, porque lhes faltava a noção essencial, a chave de ouro de todos os problemas: a lei da evolução pelos renascimentos?

   O ser, diziam os druidas, se eleva do abismo da vida e sobe por etapas inumeráveis para a perfeição. Ele se encarna no seio das humanidades, nos mundos da matéria, que são muitas estações de sua longa peregrinação. Essa doutrina é confirmada, em muitos pontos, por todas as grandes religiões e pelas mais importantes filosofias antigas. Lê-se nas Tríades, segundo tradução de Ed. Williams, do original gaulês:

   19 – Três condições indispensáveis para se chegar à plenitude da ciência: transmigrar no “Abred” (a Terra), transmigrar no “Gwynfyd” (o Céu) e relembrar-se de todas as coisas passadas até no “Annoufn” (o Abismo).

   25 – Por três coisas o homem cai sob a necessidade do “Abred” (ou da transmigração): por ausência do esforço em direcção ao conhecimento, pelo desinteresse do bem e pela afeição ao mal. Em consequência dessas coisas ele desce ao “Abred” até ao seu análogo e recomeça o curso de suas transmigrações.

   26 – As três forças (fundamentos) da ciência: a transmigração completa para todas as situações dos seres; a lembrança de cada transmigração e de seus incidentes; o poder de passar de novo, quando se quiser, por um estado qualquer em vista da experiência e do julgamento. E isso será obtido no círculo de “Gwynfyd”.

   Os cantos bárdicos não são menos afirmativos. Nós citaremos somente o mais célebre, o de Taliésin, que data do século IV da nossa era, segundo a tradução gaélica do Barddas, cad. Goddeu:

   “Existindo desde remota antiguidade no seio de vastos oceanos, não sou nascido de um pai e de uma mãe, mas de formas elementares da natureza, dos ramos da bétula, do fruto dos frutos, das flores da montanha. Toquei a noite, adormeci na aurora; fui peixe no lago, águia nos cumes, lince na floresta. Depois, escolhido pelo “Gwyon” (espírito divino), pelo sábio dos sábios, adquiri a imortalidade. Passou-se muito tempo desde que fui pastor. Por muito tempo andei na terra antes de ser hábil na ciência. Enfim, brilhei entre os chefes superiores; vestido de hábitos sagrados, segurei a taça dos sacrifícios. Vivi em cem mundos, agitei-me em cem círculos.”

   Sublinhamos, de passagem, a analogia notável que aparece entre esse documento vindo de priscas eras e as descobertas recentes da ciência sobre as propriedades vitais da água do mar. O texto nos diz: “Existindo no seio de vastos oceanos, nasci de formas elementares da natureza”. Deve ler-se sobre esse assunto, na Revue de Biologie Appliquée, de 1926, as experiências realizadas no laboratório do Colégio de França, pelos Drs. L. Hallion e Carrion, estabelecendo que a vida animal surgiu no mar e os seus primeiros representantes tiveram a forma de células isoladas. Consultar igualmente a recente obra do Dr. Quinton intitulada L’eau de la Mer, Milieu Organique (Água do Mar, Meio Orgânico) que diz: “O reino animal é inteiramente de origem aquática, provavelmente de origem marítima.”

   Não há, no documento acima, uma série de testemunhos que concluem em favor da alta inspiração e do valor das doutrinas célticas, já que ensinavam, há 1500 anos ou mais, o que os nossos sábios somente agora acabam de descobrir?

   A literatura céltica relata numerosos casos de reencarnação. D’Arbois de Jubainville, que por longo tempo ocupou a cadeira de Celtismo, no Colégio de França, pôde escrever a propósito das tradições irlandesas: (iii)

   “É a fé nessa metamorfose universal dos homens que inspirou a crença nas metamorfoses de Tüan Mac Cairill e de Taliésin. Estes não são os únicos personagens cuja alma tenha, na Irlanda, revestido sucessivamente dois corpos de homem e que tenham nascido muitas vezes. Mongân, o rei de Ulster, no início do século VI, era idêntico ao célebre Find, morto dois séculos antes do nascimento de Mongân: a alma do ilustre falecido tinha voltado do país dos mortos para animar, neste mundo, um novo corpo.

   Assim, a sobrevivência da alma ao corpo e a possibilidade de a alma de um morto ter, de novo, um corpo neste mundo são crenças célticas.

   Há algum tempo os espíritos dos antepassados, julgando que a hora das grandes renovações é chegada, projectam com mais intensidade radiações dos seus pensamentos para o solo da França. Eis o que nos ditou o espírito Allan Kardec, em 25 de Novembro de 1925, por incorporação:

   “Desejaríamos inspirar os nossos homens políticos com o espírito da tradição céltica, de honestidade, a fim de que os homens novos possam chegar a regenerar o nosso país. Vemos claramente os pensamentos entrelaçados, como que formando uma mescla de cores múltiplas. As paixões dificultam a formação de pensamentos elevados. O materialismo é inerente a uma geração que não gozou, na sua vida pregressa, a não ser vis prazeres e que, no astral, permaneceu nas esferas de densidade muito grosseira. Ela voltou para a vida com os apetites mal satisfeitos.

   Pensei que devia haurir, na minha consciência profunda, a centelha da fé ardente, de luz pura, que me foi legada por minha existência céltica, para tentar lançar sobre certos homens um raio de luz inspiradora.

   Como temos a facilidade, no espaço, de rememorar as nossas vidas, quando estamos numa esfera de densidade média, nos agrupamos espiritualmente, do mesmo modo que, na nossa vida terrestre, as paixões e as aspirações se agrupam conforme as suas afinidades. Os grandes filósofos da antiguidade, os iniciados das velhas religiões nos ajudam, quando estão de volta ao espaço. Os ascetas, os budistas, são agentes poderosos para auxiliar a desagregar a matéria que pesa sobre os seres carnais de vossas regiões. Vós sabeis que alguns entre eles tinham um poder de irradiação muito grande.

   Os druidas deixaram na alma das gerações primitivas, que habitaram o vosso solo, uma centelha que ficou latente no fundo de cada consciência. Isto faz com que toda a esperança não esteja perdida para reavivar uma chama que adormece entre alguns de vós.

   Temos como missão agrupar os verdadeiros celtas que são a própria essência da França. Posso falar disso, pois que vivi na Bretagne, fui druida em Huelgoat. Mais tarde, por uma graça insigne, senti as forças emanadas do círculo superior e a minha fé se tornou viva e forte, ela me seguiu nas minhas existências ulteriores, até àquela em que vós me conhecestes.

   Fui recompensado, visto que as intuições sustentaram de modo suficiente a pequena chama interior e, lembrando-me das leis da vida universal, julguei dever disseminar a Doutrina que vós conheceis e que estava inscrita no fundo do meu superespírito!”

   Essa mensagem nos demonstra que o Espiritismo moderno, na realidade, não é mais do que um despertar do génio céltico que dormitava desde séculos e que reaparece, em todo o seu esplendor, sob formas apropriadas às necessidades da evolução humana.

   Aliás, ele se mostra semelhante, em muitos pontos, ao Cristianismo esotérico, porque as grandes verdades emanam todas de uma fonte única para se difundirem em matizes diversos, conforme os tempos e os meios, como os raios de luz do prisma.

/...
(i) Na obra A Caminho da Luz, Francisco C. Xavier, FEB, o autor espiritual, Emmanuel, dá a entender que Jesus só teve uma vida na Terra (capítulo I, p. 18 e capítulo XXIV, p. 210, 9ª edição). Ver também A Génese, Allan Kardec, capítulo XVII, pp. 45 e 58. (N.T.)
(ii) Ver meus livros Cristianismo e Espiritismo e O Problema do Ser e do Destino. Segundo o Bagavad-Gita (tradução de Emile Burnouf, C. Schlegel e Wilkins, Krishna assim se exprime: “Eu e vós temos tido vários nascimentos. Os meus são conhecidos apenas por mim, mas vós não conheceis os vossos. Ainda que eu não seja mais, por minha natureza, sujeito a nascer ou a morrer, todas as vezes que a virtude declina no mundo, e que o vício e a injustiça vencem, então eu me torno visível, e assim eu me apresento, de tempo em tempo, para a salvação do justo, o castigo do mau e o restabelecimento da virtude.”
(iii) Segundo Le Cycle Mythologique Irlandais et la Mythologie Celtique. Ver também Annales de Tigernach, de Whitley Stokes, com casos de reencarnação, e o Cours de Littérature Celtique, de d’Arbois de Jubainville.



LÉON DENIS, O Génio Céltico e o Mundo Invisível, Segunda Parte – Capítulo VIII Palingenesia: preexistências e vidas sucessivas. A lei das reencarnações (1 de 5) 24º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: A Apoteose dos heróis franceses que morreram pelo seu país durante a guerra da Liberdade, pintura de Anne-Louis Girodet-Trioson)

sábado, 21 de fevereiro de 2015

O peregrino sobre o mar de névoa ~


O Perigo das Religiões Primitivas

As práticas do Sincretismo Religioso Afro-Brasileiro correspondem à mentalidade primitiva dos povos selvagens, mentalidade que Durkheim considerou como pré-lógica, anterior ao desenvolvimento da razão propriamente lógica, ou seja, não só discriminadora, mas também organizadora e classificadora da experiência natural do mundo. Essa mentalidade mítica, idólatra, nascida da experiência empírica não controlada pelos processos racionais, é determinada por impressões de uma realidade fantástica. É dela que surgem as visões deformadoras das coisas e dos seres. É dessa mentalidade que surgem as mitologias grotescas dos deuses indianos de muitos braços e pernas, a magia dos ritos e cerimónias até hoje residuais nas práticas religiosas da nossa cultura lógica. A mentalidade teológica e politeísta, que sucede à pré-lógica, é essencialmente sensorial e impressionista, gerando a concepção fantasiosa de um mundo de mistérios e superstições que caracterizam as civilizações agrárias e pastoris. Entre esse mundo e o nosso temos a distância entre a selva e a civilização, entre a imaginação e a realidade. O Sincretismo superpõe esses mundos contraditórios, misturando à força mundividências discrepantes e gerando desequilíbrios perigosos no comportamento do homem civilizado.

A convivência bastarda dessas duas mundividências ou concepções do mundo no plano sócio-cultural perturba o desenvolvimento da civilização e deforma o comportamento do homem racional. A razão é esmagada debaixo das patas do instinto, dando motivo aos surtos de bestialidade que rompem brutalmente o equilíbrio racional do homem e das colectividades, no pandemónio do arbítrio, da violência e das eclosões do sexualismo desvairado e criminoso das multidões místicas e delinquentes de Ortega y Gasset. A recente tragédia da seita Templo do Povo, de São Francisco da Califórnia, nas selvas da Guiana Inglesa, com o suicídio colectivo de mais de novecentas pessoas e a morte de mais de cem crianças, serve de exemplo recente das consequências desses desajustes. Nas vésperas do natal tivemos a repetição da matança dos inocentes em Belém de Judá, como advertência à nossa incúria. As tragédias deste século, incluindo as duas Conflagrações Mundiais, o desencadeamento do terror nazi-fascista, o domínio dos instintos selvagens nas nações africanas, a figura tragicómica de Idi Amim no Uganda, os bombardeios atómicos no Japão, a ameaça da bomba de neutrões, o impacto da pornografia europeia, a devassidão homossexual nas cúpulas governamentais de países altamente civilizados, como a Inglaterra, a explosão ridícula das teologias da Morte de Deus (imitando a Morte de Pan no mundo mitológico), a eclosão arrasadora da toxicomania e assim por diante, têm a sua origem nos desajustes de uma civilização em conflito com as suas raízes selvagens.

O Espiritismo surgiu, em meados do século passado, como um socorro espiritual a essa civilização, firmando o princípio da Razão sobre os resíduos mágicos do irracionalismo religioso dogmático, para reorientar a Civilização Cristã, mas o mundo preferiu a volta ao paganismo, na sua mais deslavada expressão. Nos países em que a mensagem espírita penetrou mais amplamente, como os latino-americanos, as raízes amargas da barbárie tentaram e tentam deformá-lo com os tóxicos do misticismo selvagem. A nossa luta tem de se desenvolver no sentido de mostrar ao povo os perigos dessa infiltração de bárbaros no Império da Cultura. Todo o espírita que se entrega às fascinações bastardas das religiões selvagens é um traidor da Civilização Cristã, desde o seu início atacada sem cessar pelos vândalos inconscientes. Não podemos combater as práticas sincréticas em si mesmas, pois elas correspondem à incultura da maioria, apegada ainda à placenta selvagem, mas podemos e temos de lutar pelo esclarecimento doutrinário, afastando dos terreiros de macumba os que julgam encontrar ali formas mais eficazes, porque mais fortes, de manifestações mediúnicas, como se o poder do espírito dependesse dos precários poderes da matéria. As criaturas arrastadas pela fascinação das práticas selvagens revelam a sua sintonia com o passado bárbaro e a sua incapacidade para ajustar-se à Civilização. Mas essa incapacidade é motivada pela incultura geral, pois todas as criaturas encarnadas nesta fase de transição evolutiva do planeta têm condições para superar a barbárie e integrar-se no meio civilizado. Todo o esforço deve ser feito pelos espíritas para manterem a integridade da Doutrina Espírita nesta fase crucial da nossa evolução. Estamos na hora da escolha: ou ficaremos no passado, apegados ao materialismo dos rituais, dos mitos e da voracidade carnal, ou buscaremos o espírito e o seu poder na espiritualidade pura que o Espiritismo nos oferece. Procuremos compreender claramente esse problema. Temos um exemplo histórico, na nossa própria história, da impossibilidade de mistura de graus evolutivos diferentes. Todo o esforço de catequese cristã dos jesuítas no nosso país fracassou por completo, ante o desnível cultural existente entre os padres, de um lado, e os indígenas e negros do outro lado. O livro do Padre Nóbrega, A Catequese do Gentio, constitui uma confissão dolorosa do fracasso dessa catequese. Nem mesmo os esforços de Anchieta, com as suas peças teatrais e a sua dedicação aos índios conseguiu superar as dificuldades do desnível cultural. Ele mesmo admitiu, com Nóbrega, que só a força e a violência poderiam sujeitar o gentio ao Cristo, o que negava a própria essência do Cristianismo.

Nos grupos sociais, que englobam clãs e famílias, as heranças individuais, as tradições, aspirações e instintos, bem como as características raciais em mistura formam o ser colectivo da visão spenceriana, com o seu psiquismo e mentalidade colectivos. Essas pequenas estruturas fundem-se no ser maior e mais complexo das sociedades, que a lei de inércia consolida. A dinâmica interna dessas estruturas gera o clima mental e emocional de um novo processo cultural, de uma nova cultura. As tendências gregárias reforçam o instinto de conservação e toda a interferência discrepante gera reacções de defesa do status quo. Numa civilização que já atingiu a sua maturidade possível e luta para superar-se, o repúdio ao retrocesso histórico-cultural torna-se uma constante irredutível, na busca da transcendência. Indivíduos e grupos que se oponham a essa tendência formam quistos negativos que resistem às forças evolutivas e desencadeiam atritos e conflitos. O isolamento desses quistos em si mesmos não os torna marginais mas transforma-os em focos de oposição interna. Esses focos tendem a negar as conquistas evolutivas da estrutura geral e levam a situações conflitivas e a explosões de desespero. Palmares, Canudos, entre nós, a minoria basca na Espanha, o IRA na Irlanda são exemplos desse processo. No desenvolvimento da Civilização Cristã temos o massacre impiedoso pela piedade cristã das seitas divergentes da estrutura geral. No processo actual do desenvolvimento da cultura espírita, que retoma os valores cristãos na sua originalidade, as forças discrepantes recorrem ao lastro do passado e reactivam o fermento velho de que trata o Evangelho, na reactivação dos processos mágicos das religiões primitivas, do paganismo mítico formalista, idólatra e supersticioso. Para superarmos essa fase perigosa temos de superar primeiro a nossa própria ignorância dessa realidade ameaçadora, firmando-nos nos princípios espíritas de rejeição ao mito, ao falso fazer da magia com os seus rituais e cerimoniais emotivos. Só a razão kardeciana, em que a verdade se comprova na investigação fenoménica, pode nos dar os elementos eficazes da libertação espiritual. Não se trata de apelo à Providência Divina, mas de tomada de consciência do momento em que vivemos. Todos os recursos igrejeiros a que se apegam os mestres improvisados de nada valem nesta fase em que só a consciência lúcida pode libertar o espírito do visco da matéria, segundo a imagem de Kardec, e do acúmulo milenar de superstições místicas e mágicas.

Dizia o Apóstolo Paulo aos seus discípulos que, em pequenos, eles se alimentavam de líquidos, mas, ao crescer, necessitavam de alimentos sólidos. A recomendação aplica-se aos espíritas actuais, que não querem largar o "mingau" da infância pelo "tutu" de feijão. O Espiritismo tem por finalidade libertar o espírito humano do visco da matéria, para que ele possa alçar o voo da transcendência. A Religião Espírita não comporta lamúrias e ladainhas, nem exige dos adeptos atitudes formais, voz modulada, gestos artificiais e estudados, olhares lânguidos e lágrimas ou carpideiras em velórios e funerais. As dores e angústias do mundo não são castigos do céu, mas provas necessárias ao desenvolvimento das potencialidades do espírito. Viver é lutar, como no verso de Gonçalves Dias. A luta da vida não se destina a angelizar as criaturas, mas a virilizar o espírito, predispondo-o para voos de águia e não para o esvoaçar das borboletas. A Angelitude, que é o quarto reino da natureza, nada tem a ver com anjinhos de procissão com asas de papel de seda. Da Humanidade temos de evoluir para a Angelitude, que é o plano imediatamente superior ao plano terreno, povoado de espíritos elevados em saber e moral, responsáveis por si mesmos e pelo desenvolvimento espiritual dos homens. O anjo espírita não tem asas. Não voa como um pássaro, pois levita no seu corpo espiritual. Os Anjos não constituem uma criação à parte na Natureza, onde tudo se encadeia. Os Anjos são homens que se tornaram mais fortes e viris, capazes de enfrentar as mais pesadas e difíceis tarefas da vida superior. Ninguém pense que chegará com rezas e humildade fingida ao plano dos Anjos. A virilidade angélica é de dignidade, coragem, moralidade e permanente disposição para o trabalho. A graça, como explicou Kardec, não é um privilégio concedido gratuitamente a alguém, em detrimento de outros. A graça, segundo Kardec, é a força que Deus concede ao homem de boa-vontade para vencer as suas imperfeições. Lutar e vencer são as duas espadas simbólicas das vitórias do espírito. O Espiritismo é o Consolador prometido por Jesus, mas o consolo espírita não é cantiga de embalar e sim conhecimento da razão e das finalidades da vida. Só o conhecimento real, o encontro com a verdade pode dar ao espírito a consolação necessária.

Na concepção espírita da vida a morte não é morte, é apenas passagem de um plano da vida para outro. A morte é a páscoa do espírito, que nela e através dela conquista a ressurreição. A palavra páscoa vem do hebraico. A Páscoa dos judeus foi a travessia do mar Vermelho, que os livrara da morte no Egipto. Jesus ressuscitou, como todos ressuscitamos, e a sua ressurreição transformou a páscoa judaica em páscoa cristã, mudando o sentido material da palavra em sentido espiritual. Não há morte para os espíritas, pois Deus não é deus de mortos, mas de vivos. Os que temem a morte não sabem que ela, como afirmou Richet, é a porta da vida.

A palavra eternidade foi substituída nos nossos dias pela palavra duração. Quem diz eternidade exprime um conceito estático, lembrando a pasmaceira de um céu de asilo para inválidos. Quem diz duração exprime um conceito dinâmico e vital. O tempo, como Galileu o definiu, pela mediunidade de Flammarion, é a sucessão das coisas no Infinito. Tudo é vida e movimento em todo o Universo. Tudo é luta e trabalho, construção incessante. Kardec lembrou que, se somos seres humanos, de natureza espiritual, temos também o ser do corpo, que mesmo na metamorfose da morte é vida e movimento. A concepção estática das coisas é uma ilusão sensorial. A Física actual abandonou a concepção material do Universo. Vivemos em espírito e pelo espírito, desde a pedra até ao anjo.

Ante essa abertura do mundo, que o Espiritismo nos apresentou muito antes da evolução da Física, o espírita é obrigado a sair da sacristia e fugir dos velórios para proclamar a continuidade da vida em todas as dimensões da realidade cósmica. Seria estranho e inexplicável se os espíritas, possuindo essa visão nova do mundo e da vida, resolvessem voltar aos terreiros de macumba. As religiões primitivas são formas superadas de interpretação do mundo. Serviram no seu tempo, conviviam com os bichos e não com as ideias. A religião verdadeira, segundo Pestalozzi, mestre de Kardec, é a Moralidade; não a moral social de regras e normas, mas a Moralidade, como processo de elevação espiritual do homem. Para evitar o religiosismo comum e banal, Kardec explicou que a Ciência e a Filosofia espíritas tinham consequências morais. Só no final de sua missão declarou que o Espiritismo é a Religião em Espírito e Verdade, anunciada pelo Cristo. Essa Religião Verdadeira não está nos templos, nas Igrejas, mas no coração do homem, na forma de uma lei fundamental da natureza humana – a Lei de Adoração –, que leva o homem a adorar a Deus no recesso de si mesmo, sem alardes nem fantasias. Se não pudermos compreender essa rotação de noventa graus no pensamento humano, o recurso é mergulharmos na leitura e estudo sistemático das obras de Kardec, meditando a sério sobre os seus ensinos. A razão kardeciana não tem a frieza do racionalismo científico, porque o Espiritismo é a síntese de todas as potencialidades ônticas do homem; Razão e Fé, intuição e pesquisa globalizante da doutrina.

A razão é considerada como um processo linear de captação da realidade sensível. Ela fragmenta e esmiúça a estrutura das coisas e dos seres, trocando em miúdos a sua inteireza global. As Ciências apegaram-se a esse processo de percepção quantitativa, considerando-o meio seguro para a obtenção da certeza. Com essa ambição de medidas exactas perderam a visão de conjunto. Era natural que assim acontecesse, em virtude da nossa confiança ingénua na percepção sensorial. Mas o reconhecimento da intuição como forma de percepção e captação imediatas da realidade, gerando o flash do insight, o processo racional da razão mostrou-se deficiente. No campo da percepção da forma na sua inteireza, descoberto pela Psicologia da Gestalt, verificou-se que a captação das estruturas globais nos oferece a totalidade do objecto, com os seus elementos de pregnância interna e de integração externa na realidade total. A nossa mundividência científica deu um salto da fragmentação para a globalização. A realidade misteriosa da forma (Gestalt em alemão) produziu a revolução copérnica da Psicologia da Percepção. Mas essa revolução já tinha os seus precedentes na pesquisa espírita da natureza humana, por Kardec, no plano da fenomenologia paranormal. Dessa maneira, as divergências entre as chamadas ciências da matéria e a ciência espírita derivavam do avanço da desprezada e malsinada ciência espírita sobre a arrogante e intransigente ciência oficial e académica. Hoje a Física atómica e nuclear está fazendo justiça a Kardec nas suas descobertas mais recentes. A visão gestáltica de toda a realidade como interacção constante de espírito e matéria, cabendo ao espírito a função essencial de aglutinação e estruturação da matéria em elementos formais, revela a necessidade de conjugação dos dois campos científicos.

Foi o que Rhine ressaltou na sua observação sobre as duas antropologias em que se dividiu a nossa concepção do homem, o que vale dizer da nossa self-conception. De um lado o conceito material do homem como animal e de outro o conceito psíquico-espiritual. A Parapsicologia e a Medicina Psicossomática eliminam actualmente essa dualidade, graças ao desenvolvimento nas ciências de uma mentalidade gestáltica. O Espiritismo resgata os seus direitos na cultura do século.

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José Herculano Pires, Ciência Espírita e as suas implicações terapêuticas, O Perigo das Religiões Primitivas, 19º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: O peregrino sobre o mar de névoa, pintura de Caspar David Friedrich)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

o grande desconhecido ~


O Espírito como Elemento da Natureza |

Os conceitos de naturalidade e normalidade decorrem das experiências da Cultura Empírica e subsistem na Cultura Científica como resíduos daquela fase primária. Esses resíduos emocionais foram alimentados ao longo de todo o processo religioso, por enquadrarem-se na concepção mágica e mística do Universo Misterioso, inacessível à compreensão humana normal. As Religiões ligaram estreitamente esses conceitos aos do sagrado e do profano e não tiveram condições para superá-los. O misticismo é uma forma de alienação, de fuga necessária do homem à dureza da realidade objectiva, onde as leis da estruturação sensorial agem de maneira inflexível. O místico é um desertor do real. O anseio de transcendência no homem, não esclarecido na sua motivação, leva-o a rejeitar o real e buscar o sucedâneo de uma suposta realidade, imaginada como refinamento do real-sensível. Surgem daí as categorias do espiritual e do material, que se mostram confusas na fase mitológica e posteriormente geram a divisão arbitrária e misteriosa das concepções teológicas. Os principais factores desse processo são:

a intuição da indestrutibilidade do ser;

o medo da morte como aniquilamento total;

o desejo de libertação do condicionamento material.

O ser é o que é e recusa-se a deixar de ser. Ele se reconhece como forma existencial subjectiva integrada na estrutura objectiva da realidade material, mas sabe por experiência empírica que esse condicionamento material é efémero e terá fatalmente de se desfazer na morte. O instinto de conservação leva-o a reagir contra essa fatalidade. As provas de sobrevivência dadas pelos fenómenos mediúnicos não o satisfazem, pois essa sobrevivência espiritual o desliga do sensível, a única que lhe parece natural. Ele se apega a essa realidade através de uma concepção mística indefinida, que lhe permite aceitar a possibilidade de uma continuidade natural após a morte. As múmias e os mausoléus egípcios, o paraíso sensorial dos árabes e os dogmas religiosos da ressurreição no próprio corpo carnal atestam essa esperança no próprio processo histórico. Há pessoas cultas, ainda hoje, que não conseguem conceber a sobrevivência humana após a morte em termos espirituais. Condicionaram a sua mente, de tal maneira, ao mundo tridimensional, assustadas com os delírios da cultura religiosa, que temem afastar-se da segurança sensorial da matéria. A concepção materialista do mundo, tão absurda como a concepção mística, nasce da frustração do ser ante o pandemónio das alucinações do fabulário religioso. Kardec teve de agir com prudência na divulgação do Espiritismo, para que a reacção violenta e fanática das religiões não asfixiasse no berço a nova mundividência que nascia das suas pesquisas mediúnicas. Mas no seu livro O Céu e o Inferno colocou o Cristianismo sincrético da igreja no banco dos réus e mostrou que a mitologia dos clérigos era mais absurda e mais cruel do que a do mundo clássico mitológico. A vida eterna oferecida pela Igreja depende de quinquilharias sagradas, de crendices simplórias, de condicionamento mental a um dogmatismo irracional, enquanto os mitos do paganismo se radicavam na realidade empírica, nas experiências naturais do homem no mundo e na lei universal da metamorfose, da incessante transformação das coisas e dos seres ao longo do tempo e do processo histórico racional. A indestrutibilidade do ser não se condicionava, no pensamento mitológico, às exigências de uma corporação religiosa artificial e autoritária, mas às condições visíveis e palpáveis da realidade natural. A simbologia mítica não criava a loja de bugigangas, não dependia de um comércio de contrabandistas nas fronteiras despoliciadas da morte, mas de representações emotivas da sensibilidade humana ante os mistérios do mundo ainda indevassável. A indestrutibilidade do ser, e portanto a sua imortalidade, decorria espontaneamente da indestrutibilidade do mundo, em que as coisas e os seres se transformam por lei natural, sem depender de bênçãos ou maldições sacramentais. Os deuses nasciam das águas e da terra, como nascem todas as coisas. Essa naturalidade do pensamento mitológico foi rejeitada pela cultura teológica, que fugiu do real para o irreal, do natural para o imaginário.

O medo da morte como destruição total do ser humano tinha no paganismo a compensação da continuidade da alma além das dimensões da matéria. Sócrates expôs bem esse problema ao defender-se no tribunal de Atenas. Segundo a apologia que Platão lhe dedicou, Sócrates considerou a morte como natural e até mesmo conveniente na idade em que se encontrava. Lembrou que os juízes que o condenaram também já estavam condenados e analisou as duas alternativas da morte: sobreviver a ela e encontrar os sábios do passado no plano espiritual, o que seria uma felicidade, ou não sobreviver e dissolver-se no todo, o que seria o descanso total. De nenhum modo a morte o preocupava. A lei humana que o condenara apenas apressava o cumprimento inevitável da lei natural a que todos estão sujeitos. Ele era médium vidente e audiente, consultava sempre o seu daimon ou espírito protector, conhecia o problema da sobrevivência espiritual, mas falava a homens que não tinham essa experiência e usava o raciocínio mais apropriado ao momento. Esse episódio nos mostra que o medo da morte não era tão angustiante entre os gregos pagãos, que encontravam no pensamento dos filósofos uma consolação racional que a Igreja Cristã jamais ofereceu aos seus adeptos, sempre aterrorizados com o julgamento final, a ira de Deus e as crueldades eternas a que estariam sujeitos se caíssem nas garras do Diabo. Entre os celtas, nas Gálias devastadas pela brutal conquista romana, os bardos cantavam nas tríades druídicas, a felicidade dos que sobreviviam após uma existência dedicada ao cumprimento dos deveres humanos. A morte não os assustava. Mas o terror cristão da morte, na era teológica de deformação do Cristianismo, revestiu a morte com todos os aparatos trágicos de uma civilização insegura e angustiada, semeando o terror na mente popular. A pressão excessiva dessa forma coercitiva de terrorismo mental. Como em todos os excessos, a pressão esmagadora gerou a revolta e a descrença, levando os cristãos a optar pela segunda alternativa de Sócrates: o materialismo inconsequente, mas pelo menos racional.

Era natural e inevitável. Só a volta à experiência empírica poderia sustar a evasão mística, reconduzir os homens ao bom-senso, às medidas controladoras do pensamento racional. O desejo de libertação do condicionamento material, provocado pelo êxtase místico, pelos delírios da imaginação excitada, tinha de chocar-se com a dúvida metódica de Descartes e logo mais com o cepticismo desolador e o materialismo árido. Era necessário esvaziar o mundo das alucinações teológicas para que o homem voltasse a pisar o chão, a apalpar a terra. Kardec assinalaria, mais tarde, que a finalidade do Espiritismo era transformar o mundo, afastando o homem do egoísmo e do materialismo. Mas isso porque, no seu tempo, a vitória da razão já se definia, através das conquistas científicas de três séculos, do XVI ao XVIII, preparando o século XIX para a Renascença Cristã através do Espiritismo. Nessa fase, tão próxima da nossa, urgia restabelecer no homem a fé em termos de razão, mostrar-lhe que a insensatez mística devia ser corrigida pela experiência não menos insensata do materialismo. Se a mística levara o homem a querer fugir das limitações corporais através de cilícios e isolamentos negativos, que o afastavam das experiências da relação humana, o materialismo o levava a agarrar-se ao corpo, perdendo a visão espiritual da sua realidade subjectiva. A grande tarefa do Espiritismo se definia com clareza: era conter a emoção e a imaginação, ligar a fé à razão, unificar o psiquismo humano nos quadros da realidade terrena.

Era o que Jesus havia feito na Palestina, combatendo os excessos do misticismo judeu e as misérias do materialismo saduceu. O Espiritismo dava continuidade, quase dois mil anos depois, ao pensamento cristão desfigurado pelo sincretismo religioso dos clérigos ambiciosos, que não vacilavam em trocar o Reino de Deus pelos reinos da Terra. Kardec podia então proclamar a verdade simples que não havia sido aceite, por falta de condições culturais válidas: o espírito não era sobrenatural, mas natural, o parceiro da matéria na constituição de uma realidade única, a realidade espiritual e material do mundo e do homem. A conclusão de Kardec é límpida e simples: os espíritos são uma das forças da Natureza. Sem compreendermos isso não poderemos compreender o Espiritismo. Espírito e matéria são os elementos constitutivos de toda a realidade. Esses elementos são dimensionais, constituem dimensões diversas da realidade única. Não podemos dividi-los em natural e sobrenatural, pois ambos se fundem na unidade real da Natureza, como a Ciência actual o demonstra, sem ainda compreender as suas conexões profundas e subtis.

Léon Denis, discípulo e continuador de Kardec, considerou o Espiritismo como a síntese conceptual de toda a realidade. O mistério da Trindade, que se manifesta em forma mitológica ou mística em todas as grandes religiões do mundo, define-se na racionalidade espírita nos termos da explicação kardeciana:

Deus
Espírito
Matéria

Deus é a Inteligência Suprema, a Consciência Cósmica de que tudo deriva e que a tudo controla. Só Ele é sobrenatural, pois sobrepõe-se a toda a Natureza. É a Unidade Solitária da concepção pitagórica, que paira no Inefável. Esse é o seu aspecto transcendente. Mas Pitágoras nos fala de um estremecimento da Unidade que desencadeou a Década, gerando o Universo. E temos, assim, o aspecto imanente de Deus, que se projecta na sua criação e a ela se liga, fazendo-se espontaneamente a sua alma e a sua lei: Dessa maneira, o próprio Sobrenatural se torna Natural. A consciência Cósmica impregna o Cosmos e imprime-lhe o esquema infinito dos seus desígnios. Leibniz desenvolveu a teoria da mónada para explicar filosoficamente o processo da criação. As mónadas seriam partículas infinitesimais do pensamento divino que, como as sementes, trazem em si mesmas o plano secreto daquilo que vai ser criado. Da dinâmica das mónadas invisíveis aos nossos olhos formam-se os reinos naturais:

Mineral
Vegetal
Animal
Hominal
Espiritual.

Esse processo criador é explicado por Kardecsob orientação do Espírito de Verdade, como um desenvolvimento incessante das potencialidades monádicas, num fluxo evolutivo que sobe sem cessar dos reinos inferiores aos reinos superiores. Léon Denis explica esse fluxo numa expressão poética: A alma dorme na pedra, sonha no vegetal, agita-se no animal e acorda no homem. Deus, a Lei Suprema, controla todo esse processo nos seus mínimos detalhes. A alma é a mónada, princípio individualizador que se caracteriza como princípio inteligente n’O Livro dos Espíritos. É assim que o espírito estrutura a matéria dispersa no espaço infinito. As hipóteses científicas do Universo Finito decorrem da incapacidade da Ciência para abranger a infinitude cósmica. Kardec adverte que, por mais que ampliemos os limites supostos do Universo, sempre haverá na nossa imaginação uma infinita continuidade do espaço cósmico. A consideração científica dos limites é puramente metodológica, determinada pela necessidade de ordenação na nossa mente. A própria Criação é infinita, incessante. Gustave Geley, metapsiquista francês, considera a mónada como um dínamo-psiquismo-inconsciente que dirige a constante metamorfose das coisas em seres, até chegar ao homem, que por sua vez, tomando consciência do seu destino, se transforma em anjo, integrando o reino espiritual da Angelitude, dos espíritos superiores.

Nessa cosmogonia dinâmica vemos que nada escapa do plano natural. Os espíritos nascem das entranhas da matéria, inseridos nela e nela se metamorfoseando. Os filósofos existenciais do nosso tempo referendam nas suas teorias essa concepção naturalista do espírito. Pois o que é o espírito senão a própria criatura humana? A morte nos mostra que o corpo perece, mas o espírito não. Ensinava o Padre Vieira: Quereis saber o que é a alma? Olhai um corpo sem alma. A Filosofia Existencial proclama: A existência é subjectividade pura. E a existência, no caso, é o espírito, que faz do homem um existente, um ser que existe, sabe que é e por que existe e busca a sua transcendência. A Vida é comum a todas as coisas e todos os seres, mas a Existência é a condição específica do homem, que não se limita a viver, mas luta por transcender-se. Nessa transcendência o homem passa da humanitude (do reino hominal) para a Angelitude (o reino espiritual). Sendo o espírito a nossa própria essência, o que somos realmente, com toda a nossa personalidade, é evidente que o espírito não é sobrenatural, mas natural, um elemento vivo e dinâmico da Natureza. Quando tomamos consciência dessa concepção espírita do mundo e do homem, a realidade se impõe à nossa mente, afugentando as confusas e incongruentes fabulações teológicas.

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José Herculano Pires, Curso Dinâmico de Espiritismo, 2 – O Espírito como Elemento da Natureza, 3º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Somos as aves de fogo por sobre os campos celestes, pintura em acrílico de Costa Brites)