Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

sábado, 17 de setembro de 2022

O Mundo Invisível e a Guerra ~


XXV 

~~ A Experimentação Espírita: Provas de Identidade 

  Já afirmámos que as provas da existência e da manifestação dos espíritos são abundantes e formam um todo que se impõe de tal forma que todas as dúvidas e vacilações desaparecem após um estudo sério e profundo. É o caso dos sábios notáveis que se preocuparam com os problemas psíquicos. Eles iniciavam o seu exame com disposições hostis, possuídos pela ideia de que ali havia erro ou fraude, mas, depois de perseverantes investigações, chegaram a afirmar, de modo formal, a realidade dos fenómenos. 

  Não há dúvida de que souberam determinar a parte referente à fraude e à impostura, inevitáveis em qualquer meio humano, porém estabeleceram que grande quantidade de factos foge a qualquer possibilidade de falsificação. Por exemplo, as moldagens de mãos e pés materializados, feitas com parafina fervente e, que, depois de resfriada, deixava os experimentadores na posse de objectos que servem de testemunhos da presença e da passagem de seres invisíveis. 

  Foi por essa razão que Flammarion escreveu: 

  “Comummente se fala de fraudes, porém, o impossível existe do ponto de vista material, por exemplo, os moldes de mãos. Até hoje, ninguém conseguiu imitar nem explicar essas impressões ou moldagens em parafina, nas quais não aparece nenhum vestígio de solda. Outro exemplo é o de certas fotografias que são o desespero dos fotógrafos... além disso, de todos os fenómenos psíquicos, que confundem e embaraçam, existe um apenas que se tenha, seriamente, conseguido imitar?” 

  Os fenómenos de moldagens precisam de algumas explicações. Em todos esses casos a parafina é derretida em certa quantidade de água fervente. Os espíritos mergulham as mãos nessa parafina e, em seguida, as introduzem em um vaso de água fria, onde os moldes ficam a flutuar. 

  Sendo a abertura do pulso de menor diâmetro do que o resto da mão, foi preciso, portanto, que a mão se dissolvesse fluidicamente para deixar o molde intacto; não haveria mão humana que se pudesse desprender do molde sem parti-lo. Também foram obtidos moldes de pés e tais factos não podem ser compreensíveis sem a acção de seres invisíveis. 

  O professor Denton conseguiu obter, na América, fenómenos desse tipo dentro de uma gaiola fechada à chave. Destaca-se, entre outros casos, o de duas mãos, uma segura na outra e completas até aos punhos. Nenhuma intervenção humana poderia ter conseguido tal resultado. 

  No Congresso Espiritualista Internacional de Paris, em 1900, do qual fui presidente, foi organizado um museu espírita, onde se viam moldagens de mãos de todos os tamanhos, algumas enormes e outras pequenas como de crianças e que nenhumas semelhanças apresentavam, garantiam os expositores, com as mãos dos médiuns ou as dos assistentes das sessões onde os fenómenos foram obtidos. 

~*~ 

  Em todos os factos de natureza psíquica vale buscarmos, antes de tudo, as provas de identidade, isto é, as particularidades e pormenores verificáveis e pelos quais se revelam o carácter e a verdadeira natureza dos seres que tomam parte nas manifestações. 

A esse propósito, convém destacar-se a vidência e a incorporação no transe ou sono magnético. Neste último caso o médium pronuncia palavras e até discursos de que não tem consciência e que, ao despertar, não lhe deixam nenhuma lembrança na memória. À medida que o transe se torna mais profundo, verifica-se que uma estranha personalidade substitui a do médium, produzindo-se uma espécie de transfiguração. 

  Por sua atitude, gestos e linguagem, o médium representa a maneira de pensar e agir de uma individualidade cuja existência geralmente ignora, mas que os assistentes reconhecem como um dos seus parentes ou amigos mortos. 

  Então se travam as conversas; as respostas do espírito às perguntas feitas, as referências, as recordações, os traços comuns de sua existência anterior, que viveu junto com as pessoas presentes, constituem por si só outros tantos elementos de certeza quanto à identidade do morto. 

  Nessa série de factos, o mais notável nos parece ser o do professor Hyslop, da Universidade de Colúmbia, em Nova Iorque. 

  Por intermédio da célebre médium Sra. Piper, fez 200 perguntas ao espírito de seu pai sobre pequenos detalhes de sua vida de família, antes do seu nascimento. Para verificar a exactidão das respostas foi necessário fazer uma viagem de muitas semanas através de vários Estados por onde se encontravam espalhados os membros da família Hyslop. Das 200 perguntas reconheceram 152 respostas como certas e as demais duvidosas, por falta de verificação. 

  Em outro livro narramos 20 casos escolhidos entre os mais comprováveis e aqui estão outros, mais recentes, cujo interesse não é menor porque se referem à Grande Guerra (1914-1918)* e se classificam entre os fenómenos de visão e de audição. 

  O primeiro é tirado dos Annales des Sciences Psychiques, número 1, p. 44, de 1918. 

  A revista inglesa London publicou, no seu número de Outubro de 1917, a narração de Richard Wilkinson, que a redacção afirma ser um agente de negócios bem conhecido em Londres e que antes era muito céptico em relação a qualquer fenómeno supranormal. 

  O desejo de Wilkinson, publicando tal artigo, foi apresentar factos que o confortaram na sua dor e podem consolar igualmente milhares de outras pessoas. 

  “O meu filho foi gravemente ferido quando se encontrava à frente de seus homens, no combate de Beaumont-Hamel e, poucos dias depois morreu, aos 19 anos de idade, em Novembro de 1916. Eu e a minha esposa pudemos assistir aos seus últimos momentos, em um hospital da França. Ele era o nosso único filho e o sentimento que o ligava a nós era de franca camaradagem e afeição filial. 

  Assim que voltamos para a Inglaterra, uma amiga de minha mulher, penalizada com a sua situação, remeteu-lhe o livro de Sir Oliver Lodge, Raymond. Eu tinha prevenções contra tais investigações e pedi à minha mulher que não o lesse, mas vendo que isso a contrariava muito, não insisti, dizendo energicamente que não me queria envolver com tamanho absurdo. 

  Ela se impressionou de tal modo com a leitura, que recorreu a todos os argumentos possíveis para combater o meu preconceito e fazer-me ler aquela obra. Acabei por ceder, mas essa leitura não foi suficiente para me convencer, embora eu admirasse a beleza da doutrina e reconhecesse a minha insensatez por tê-la condenado antecipadamente. 

  A minha mulher escreveu a Sir Lodge para se aconselhar. Ele não nos conhecia, porém, a afinidade de nosso infortúnio comum levou-o a nos apresentar uma amiga que organizou para nós uma sessão com o médium Vout Peters. 

  Na primeira tentativa disseram-nos que o nosso filho, ao passar para o Além, tinha sido recebido por João, Isabel, Guilherme e Eduardo. 

  Desses nomes, os três primeiros eram os de meu pai, minha mãe e de meu irmão, há muito tempo falecidos, porém o de Eduardo me era desconhecido. Impressionado com a exactidão dos três primeiros nomes, escrevi ao meu irmão mais velho perguntando sobre um irmãozinho que eu sabia ter morrido antes do meu nascimento e ele me respondeu que essa criança, de nome Eduardo, morrera com 12 semanas de idade. 

  Naquela mesma sessão, o meu filho, sabendo de minha incredulidade, disse que desejava vivamente provar-me a sua presença e se referiu a um acontecimento íntimo, apenas sabido por mim e a minha esposa. Era uma coisa tão secreta que não posso narrá-la aqui. 

  Outro facto: embora o nome do meu filho não fosse Roger, ele assim era chamado, menos por sua mãe que só o chamava Poger. 

  O médium começou a soletrar um nome, “Ro...” e nos afirmou, sem poder dar as letras seguintes, que a última era “R”. 

  Respondi: “É o nome de meu filho; queres dizer Roger” e o médium respondeu: “O rapaz diz que não devo dizer Roger, porém Poger”. 

  Deslumbrado com esses fenómenos, eu quis ir mais adiante e fomos a outro médium: a senhora Osborne Leonard. 

  Evitamos dizer-lhe quem éramos e o objectivo de nossa visita. 

  A primeira coisa que ela nos disse foi uma descrição exacta e minuciosa de nosso filho e bem assim o nome de Poger, acrescentando que Isabel, João e Guilherme ali se encontravam e lhe davam protecção. 

  Por outro lado, minha esposa estava preocupada com o facto de não encontrar as cartas que enviara ao filho, entre as roupas, papéis e outros objectos de uso dele, porém não me dissera qualquer palavra a esse respeito. 

  O médium afirmou que Roger lhe mostrava um saquinho com fecho, que estava entre os tais objectos e, que não fora visto na busca. “Nele – falou a senhora Leonard – a sua mãe encontrará as cartas que está à procura”. Quando regressamos a casa, verificamos que a afirmativa estava certa. 

  Na mesma reunião, o médium estendeu a mão e nos mostrou um objecto parecido com um pedaço de moeda, cuja natureza real ele ignorava. A minha esposa sugeriu que podia ser um botão militar de cobre que havia sido transformado em uma medalha, mas a médium insistiu, afirmando que encontraríamos, entre os pertences de nosso filho, um objecto de bronze. 

  Roger queria que se fizesse nele um orifício para que a sua mãe pudesse levá-lo consigo como lembrança. Na realidade, encontramos em casa, numa caixinha, uma moeda de um penny, encurvada por uma bala que a atingira. 

  Algum tempo depois, minha esposa, viu perto dela, em Brigthon, o nosso filho e nada a convenceu que se tratasse de uma auto-sugestão ou de uma alucinação. Retornando a Londres ela, a princípio, não falou disso a ninguém, porém a médium Annie Brittain logo lhe declarou: “O seu filho deseja falar-lhe, foi exactamente ele que a senhora viu; não foi sonho, permitiram que o véu por um instante se levantasse”. 

  Nessa reunião a Sra. Brittain disse-nos coisas maravilhosas. Médium nenhum jamais chamaria a atenção de minha mulher com a frase que o nosso filho usava. Ela se alegrou quando ele lhe disse: “Até mais ver, meu anjo!”, a frase com que se alegrava dirigir-lhe. 

  Se alguém, há apenas um ano, afirmasse que eu viria dizer e escrever semelhantes coisas, responderia que era impossível.” 

~*~ 

  O senhor H. Méron, cônsul-geral da França em São Francisco, actualmente em Thonon (Haute-Savoie) e cujo filho, um jovem oficial, teve, na última guerra, uma morte gloriosa, escreveu na Revue Spirite, de Outubro de 1917, os seguintes dados sobre manifestações que obteve por meio de uma faculdade que o filho morto descobriu e desenvolveu nele. 

  “No estado de vigília, na escuridão da noite, vejo de olhos fechados ou abertos, formarem-se diante de mim, com claridade e intensidade iguais, letras fluídicas de variadas cores. Essas letras se alinham e formam mensagens assinadas pelos espíritos que as produzem. 

  Essa mediunidade vidente me foi revelada por mensagens de nosso filho, cerca de quatro meses depois de sua morte, em Outubro de 1916. 

  Ele assina sempre as suas mensagens, tal como escrevia nos seus telegramas que nos mandava da linha de combate e, com o seu número de matrícula do regimento a que pertencia. 

  Todas as manhãs, com raras excepções, recebo uma mensagem, geralmente acompanhada de flores, principalmente de uma que tanto ele como nós admiramos: a papoula amarela, chamada “copa de ouro” da Califórnia. Durante o dia, também recebo mensagens que são precedidas por uma pancada no ar e que a minha companheira também ouve distintamente. Fecho os olhos e, após a assinatura e o número de matrícula, que nunca faltam, leio a mensagem. Às vezes, a minha mulher dirige, em voz alta, a palavra ao filho e logo obtenho a resposta, escrita em letras fluídicas, no fundo escuro criado ao se fechar os olhos. 

  Tive muitas outras visões, em várias ocasiões, de pessoas no momento da morte ou até de pessoas vivas. Algumas dessas visões só se explicariam por aquilo que os nossos adversários costumam chamar de alucinações. Realmente vi tais aparições em épocas ou com trajes que a minha imaginação não poderia produzir. Assim, uma jovem com quem falei apenas uma vez, seis meses antes que ela falecesse e, cuja morte deixou a sua mãe inconsolável, apareceu-me três vezes: uma, na hora da morte (que eu ignorava), ela se mostrou como eu a havia conhecido, isto é, alegre, viva e risonha. De outra vez apareceu tal como se encontrava representada num retracto, que só vim a conhecer dois ou três meses depois da aparição; nele ela estava penteada de modo especial e vestia-se de forma diferente do normal. A terceira vez, apareceu-me toda de branco. 

  Sem dúvida foi o nosso filho que provocou essas visões para o nosso bem, a fim de que, sem medo, pudéssemos declarar a nossa profunda fé, o que fazemos abertamente, pois consideramos isso o nosso dever absoluto. 

  Não vacilamos em proclamar abertamente que a nossa crença tem sido para nós um manancial de consolações.” 

  Pode ser que se coleccionem muitos factos desse tipo relativos à guerra. As provas da sobrevivência da alma, depois da morte, aumentam diariamente e já constituem um respeitável conjunto; os casos de identidade se multiplicam, abrangendo todas as espécies de fenómenos na sua enorme variedade. 

  Realmente, os mortos nos campos de batalha, nos hospitais, nas ambulâncias, enfim todas as vítimas desses acontecimentos espantosos, só desejam revelar a sua presença para aqueles a quem amaram na Terra, proporcionando-lhes consolações. 

  Podemos esperar que isso aconteça logo que se tenha passado o período de perturbação que se segue às mortes repentinas ou violentas, para as quais eles haverão de empregar todos os recursos ao seu alcance. 

  Dos malefícios ocasionados pela guerra surgirá a certeza de que a vida existe em dois aspectos, mas não termina com a morte corpórea. Um raio de luz, atravessando as nuvens negras, aclarará o caminho da humanidade, até agora incerto e obscuro. 

/… 
* Adenda desta publicação. 


Léon Denis, O Mundo Invisível e a Guerra, XXV A Experimentação Espírita: Provas de Identidade, 41º fragmento desta obra. 
(imagem: Dois soldados um alemão e o outro britânico, no dia de Natal durante a primeira guerra mundial (1914), aquando de um cessar-fogo promovido pelos próprios soldados, alemães, britânicos e também franceses, ao longo de uma semana trocaram saudações, cantaram músicas e chegaram a trocar presentes) 

sábado, 10 de setembro de 2022

Da sombra do dogma à luz da razão ~


~ Uranografia Geral (*) 
O espaço e o tempo ~ 

| Galileu, Espírito 
(Études Uranographiques) (VII) 

Os cometas 🌈 

  Astros errantes, mais ainda que os planetas que mantiveram esta denominação etimológica, os cometas serão os guias (i) que nos ajudarão a ultrapassar os limites do sistema a que a Terra pertence para nos levarem até às regiões longínquas do espaço sideral. 

  Mas antes de explorarmos com ajuda destes viajantes do Universo os domínios celestes, será bom dar a conhecer tanto quanto possível a sua natureza intrínseca e o seu papel na economia planetária. 

  Viram-se muitas vezes nestes astros cabeludos mundos a nascerem, elaborando no seu caos primitivas condições de vida e de existência que são dados em partilha às terras habitadas; outros imaginaram que estes corpos extraordinários eram mundos em fase de destruição e a sua aparência singular foi para muitos tema de apreciações erradas sobre a sua natureza; de tal modo que não foi só a astrologia judicial que fez disso presságios de desgraça enviados por decretos providenciais à Terra espantada e assustada. 

  A lei da variedade é aplicada com uma profusão tão grande nos trabalhos da natureza, que nos questionamos como é que os naturalistas, astrónomos ou filósofos construíram tantas teorias para assimilarem os cometas aos astros planetários e para não verem neles mais do que astros num grau maior ou menor de desenvolvimento ou de caducidade. No entanto, os quadros da natureza deveriam ser amplamente suficientes para afastar do observador a preocupação de procurar relações que não existem e deixar aos cometas o papel modesto mas útil, de astros errantes servindo de exploradores dos impérios solares. Pois os corpos celestes em questão são muito diferentes dos corpos planetários; não têm de maneira nenhuma, como eles, a função de servir de morada às humanidades? Vão sucessivamente de sol em sol, por vezes enriquecendo-se pelo caminho com fragmentos planetários reduzidos ao estado de vapor, colher nos seus domicílios os princípios vivificantes e renovadores que derramam sobre os mundos  terrestres. (Capítulo IX, n.º 12.) 

  Se, quando um destes astros se aproxima do nosso pequeno globo para lhe atravessar a órbita e regressar ao seu apogeu situado a uma distância incomensurável do Sol, nós o seguimos, em pensamento, para visitar com ele as regiões siderais, franquearemos essa vastidão prodigiosa da matéria etérea que separa o Sol das estrelas mais próximas e observando os movimentos combinados deste astro que julgaríamos perdido no deserto do infinito, encontraríamos aí também uma prova eloquente da universalidade das leis da natureza (i) que se exercem a distâncias que a imaginação mais fértil mal pode conceber. 

  Aí, a forma elíptica (i) toma a forma parabólica (i) e o andamento abranda ao ponto de só percorrer alguns metros no mesmo tempo em que no seu perigeu percorria vários milhares de léguas. Talvez um sol mais potente, mais importante do que aquele que acaba de abandonar usasse para com este cometa de uma atracção preponderante e o recebesse nas fileiras dos seus próprios súbditos e, então, os filhos espantados da vossa pequena Terra esperariam em vão o regresso que tinham prognosticado através de observações incompletas. Nesse caso, nós, cujo pensamento seguiu o cometa errante a essas regiões desconhecidas, encontraremos então uma nova nação impossível de encontrar pelos olhos terrestre, inimaginável para os Espíritos que habitam a Terra, inconcebível até para a sua mente, pois será teatro de maravilhas inexploradas. 

  Chegámos ao mundo astral nesse mundo deslumbrante dos vastos sóis que brilham no espaço infinito e que são as flores brilhantes do canteiro magnífico da Criação. Aí chegados, saberemos então o que é a Terra. 

                                                                                                            Espírito Galileu  

/… 

(*) Este capítulo foi textualmente extraído de uma série de comunicações ditadas à Sociedade Espírita de Paris, em 1862 e 1863, sob o título de Études Uranographiques e assinado, Galileu; médium M. C. F. (N. do A.) 


ALLAN KARDEC, A GÉNESE – Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo, Capítulo VI, Uranografia Geral, O espaço e o tempo – Os cometas (de 28 a 31), 29º fragmento desta obra. Tradução portuguesa de Maria Manuel Tinoco, Editores Livros de Vida. 
(imagem de contextualização: Diógenes e os pássaros de pedra, pintura em acrílico de Costa Brites).

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

o problema do | ser


(Quem sou... o que faço aqui... de onde vim... para onde vou...) 

O problema do Ser 

O primeiro problema que se apresenta ao pensamento é o do próprio pensamento, ou, seja, do ser pensante. É isso, para todos nós, assunto principal, que domina todos os outros e cuja solução nos reconduz às próprias origens da vida e do universo. 

Qual é a natureza da nossa personalidade? Comporta ela um elemento susceptível de sobreviver à morte? A esta questão estão afectas todas as apreensões, todas as esperanças da humanidade. 

O problema do ser e o problema da alma fundem-se num só. É a alma (ii) que fornece ao homem o seu princípio de vida e movimento. A alma humana é uma vontade livre e soberana, é a unidade consciente que domina todos os atributos, todas as funções, todos os elementos materiais do ser, como a Alma divina domina, ela coordena e liga todas as partes do universo para harmonizá-las. 

A alma é imortal, porque o nada não existe e coisa alguma pode ser aniquilada, nenhuma individualidade pode deixar de ser. A dissolução das formas materiais prova simplesmente uma coisa: que a alma ao ser separada do organismo por meio do qual comunicava com o meio terrestre. Não deixa, por esse facto, de prosseguir a sua evolução em novas condições, sob formas mais perfeitas e sem nada perder da sua identidade. De cada vez que ela abandona o corpo terrestre, encontra-se de novo na vida do espaço, unida ao seu corpo espiritual, do qual é inseparável, à forma imponderável que para si preparou com os seus pensamentos e as suas obras. 

Esse corpo subtil, essa duplicação fluídica existe em nós em estado permanente. Embora invisível, serve, entretanto, de molde ao nosso corpo material. Este não representa, no destino do ser, o papel mais importante. O corpo visível, ou corpo físico, varia. Formado de acordo com as necessidades da vida terrestre, é temporário e perecível; desagrega-se e dissolve-se quando morre. O corpo subtil permanece; preexistindo ao nascimento, sobrevive às decomposições da sepultura e acompanha a alma nas suas transmigrações. É o modelo, o tipo-original, a verdadeira forma humana, à qual vêm incorporar-se temporariamente as moléculas da carne. Essa forma subtil, que se mantém no meio de todas as variações e de todas as correntes materiais, mesmo durante a vida pode separar-se, em certas condições, do corpo carnal e, também agir, aparecer, manifestar-se à distância, como mais adiante veremos, de modo a provar de maneira incontestável a sua existência independente. (iii) 

As provas da existência da alma são de duas espécies: morais e experimentais. 

Vejamos primeiro as provas morais e as de ordem lógica; não obstante haverem servido muitas vezes, conservam toda a sua força e valor. 

Segundo as escolas Materialista e Monista, a alma não é mais do que a resultante das funções cerebrais. “As células do cérebro – disse Haeckel – são os verdadeiros órgãos da alma. Esta está-lhes ligada à integridade. Cresce, decai e desaparece com elas. O gérmen material contém o ser completo, físico e mental.” 

Responderemos em substância: A matéria não pode gerar qualidades que ela não tem. Os átomos, sejam eles triangulares, circulares ou aduncos, não podem representar a razão, o génio, o amor puro, a caridade sublime. O cérebro, dizem, cria a função. É coisa compreensível que uma função possa conhecer-se, possuir a consciência e a sensibilidade? Como explicar a consciência, a não ser pelo espírito? Vem da matéria? Quantas vezes não está a primeira em luta com a última! Vem do interesse e do instinto de conservação? Revolta-se ela contra eles e nos leva até ao sacrifício! 

O organismo material não é o princípio da vida e das faculdades; é, ao contrário, o seu limite. O cérebro é um simples instrumento que serve ao Espírito para registar as suas sensações. É comparável à execução de uma harmonia por um instrumento, em que cada tecla representaria um género especial de sensações. Quando o instrumento está perfeitamente afinado, as teclas dão, sob a acção da vontade, o som peculiar a cada uma delas e reina a harmonia nas nossas ideias e nos nossos actos; mas se as teclas estiverem estragadas, ou desfalcadas, o som produzido não será o que devia ser, a harmonia resultará incompleta. Resultará daí uma desafinação, por mais esforços que faça a inteligência do artista e, ao qual será impossível tirar do instrumento defeituoso uma combinação de manifestações regulares. Assim se explicam as doenças mentais, as neuroses, a idiotia, a perda temporária da palavra ou da memória, a loucura, etc., sem que, por isso, a existência da alma fique comprometida. Em todos esses casos o Espírito subsiste, mas as suas manifestações são contrariadas e, às vezes, até aniquiladas por falta de correlação com o seu organismo. 

Sem dúvida, o desenvolvimento do cérebro denota, de maneira geral, faculdades elevadas. Uma alma delicada e poderosa necessita de um instrumento mais perfeito, que se preste a todas as manifestações de um pensamento elevado e fecundo. As dimensões e circunvoluções do cérebro estão muitas vezes em relação directa com o grau de evolução do Espírito. (iv) Não se deve daqui deduzir que a memória seja um simples jogo das células cerebrais. Estas modificam-se e renovam-se sem cessar, diz a Ciência, a tal ponto que o cérebro e o corpo passam por uma completa mudança material em poucos anos. (v) 

Nestas condições, como explicar que nos possamos recordar dos factos que remontam a dez, vinte, trinta anos? Como relembram os velhos com surpreendente facilidade todos os pormenores da sua infância? Como podem a memória, a personalidade, o “eu” persistir e manter-se no meio das contínuas destruições e reconstruções orgânicas? Outros tantos problemas insolúveis para o materialismo! 

Os sentidos, dizem os psicólogos contemporâneos, são o único veículo da alma, a suspensão destes implica o desaparecimento daquela. Notemos, entretanto, que o estado de anestesia, isto é, a supressão momentânea da sensibilidade, não elimina, de modo nenhum, a acção da inteligência. Esta revela-se, ao contrário, em casos nos quais, segundo as doutrinas materialistas, deveria estar aniquilada. 

Buisson escrevia: “Se existe alguma coisa que possa demonstrar a independência do “eu”, é com certeza a prova que nos fornecem os pacientes submetidos à acção do éter. Neste estado as suas faculdades intelectuais resistem aos agentes anestésicos.” 

Velpeau, tratando do mesmo tema, dizia: “Que mina fecunda não são para a Fisiologia e para a Psicologia factos como estes, que separam o espírito da matéria, a inteligência do corpo!” 

Havemos de ver também por que forma, no sono comum ou no provocado, no sonambulismo (i) e na exteriorização, a alma pode viver, perceber e agir sem o auxílio dos sentidos. 

Se a alma, como diz Haeckel, fosse unicamente a soma dos elementos corporais, haveria sempre no homem, correlação entre o físico e o mental. A relação seria directa, constante e perfeito o equilíbrio entre as faculdades, as qualidades morais de um lado e, a constituição material, do outro. Os mais bem-dotados do ponto de vista físico possuiriam também as almas mais inteligentes e mais dignas. Sabemos que assim não é, porque, muitas vezes, almas de escol têm habitado corpos débeis. A saúde e a força não implicam, nos que as possuem, um espírito subtil e faculdades brilhantes. 

Mens sana in corpore sano, diz-se, é verdade; mas, há tantas excepções a esta máxima que não é possível considerá-la em regra geral. A carne cede sempre à dor; não sucede o mesmo com a alma, que, muitas vezes, resiste, exalta-se no sofrimento e triunfa dos agentes externos. 

Os exemplos de Antígono, de Jesus, de Sócrates, de Jeanne d'Arc, dos mártires cristãos, dos hussitas e de tantos outros que embelezam a História e enobrecem a raça humana aí estão para lembrar-nos que as vozes do sacrifício e do dever podem elevar-se muito acima dos instintos da matéria. Nas horas decisivas, a vontade dos heróis sabe dominar as resistências do corpo. 

Se o homem estivesse integralmente contido no gérmen físico, encontrar-se-iam nele unicamente as qualidades e os defeitos dos seus progenitores, na mesma proporção; mas, ao contrário, vêem-se por toda a parte crianças que diferem dos pais, são-lhes superiores ou inferiores. Irmãos, irmãos-gémeos, de uma semelhança física flagrante, apresentam, mental e moralmente considerados, caracteres dessemelhantes entre si e com os seus ascendentes. 

As teorias do atavismo e da hereditariedade são impotentes para explicar os casos célebres de crianças artistas ou sábias – músicos como Mozart ou Paganini, matemáticos como Mondeux e Inaudi, pintores aos dez anos como Van der Kerkhove e tantos outros meninos-prodígio, cujas aptidões não se encontram nos pais ou só se encontram em grau muito inferior, como, por exemplo, nos ascendentes de Mozart. 

As propriedades da substância material, transmitidas pelos pais, manifestam-se na criança pela semelhança física e pelos males constitucionais; mas a semelhança só persiste, quando muito, durante o primeiro período da vida. Desde que o carácter se define, desde que a criança se faz homem, vêem-se as feições modificar-se pouco a pouco, ao mesmo tempo que as tendências hereditárias vão diminuindo e dando lugar a outros elementos, que constituem uma personalidade diferente, um ser às vezes distinto, pelos gostos, pelas qualidades, pelas paixões, de tudo quanto se encontra nos ascendentes. Não é, pois, o organismo material o que constitui a personalidade, mas sim o homem interior, o ser psíquico. À medida que este se desenvolve e se afirma por sua própria acção na existência, vê-se a herança física e mental dos pais ir pouco a pouco enfraquecendo e, muitas vezes, desaparecer. 

A noção do bem, gravada no fundo das consciências, é, igualmente, prova evidente da nossa origem espiritual. Se o homem procedesse do pó ou fosse resultante das forças mecânicas do mundo, não poderíamos conhecer o bem e o mal, sentir remorso nem dor moral. 

“Essas noções – dizem-nos – provêm dos vossos antepassados, da educação, das influências sociais!” 

Mas, se essas noções são heranças exclusivas do passado, de onde foi que ele as recebeu? E por que se multiplicam em nós, não encontrando terreno favorável nem alimento? 

Se verdes o mal vos tem causado sofrimento, se tendes chorado por vós e pelos outros, haveis de ter podido entrever, nessas horas de tristeza, de dor reveladora, as secretas profundezas da alma, as suas ligações misteriosas com o Além e, deveis compreender o encanto amargo e o fim elevado da existência, de todas as existências. Esse fim é a educação dos seres pela dor; é a ascensão das coisas finitas para a vida infinita. 

Não, o pensamento e a consciência não derivam de um universo químico e mecânico. Ao contrário, dominam-no, dirigem-no e subjugam-no do Alto. Com efeito, não é o pensamento que pesa os mundos, mede a extensão e discrimina as harmonias do Cosmo? Só por um lado pertencemos ao mundo material. É por isso que tão vivamente padecemos com os seus males. Se lhe pertencêssemos completamente, sentir-nos-íamos muito mais no nosso elemento e ser-nos-iam poupados muitos sofrimentos. 

A verdade acerca da natureza humana, da vida e do destino, o bem e o mal, a liberdade e a responsabilidade não se descobrem no fundo das retortas nem na ponta os escalpelos. A ciência material não pode julgar coisas do espírito. Só o espírito pode julgar e compreender o espírito e, isso na razão do grau da sua evolução. É da consciência das almas superiores, dos seus pensamentos, dos seus trabalhos, dos seus exemplos, dos seus sacrifícios, que brotam a luz mais intensa e o mais nobre ideal que podem guiar a humanidade no seu caminho. 

O homem é, pois, ao mesmo tempo, espírito e matéria, alma e corpo; mas talvez espírito e matéria não sejam mais do que simples palavras, exprimindo de maneira imperfeita as duas formas da vida eterna, a qual dormita na matéria bruta, acorda na matéria orgânica, adquire actividade, se expande e se eleva no espírito. 

Não haverá, como admitem certos pensadores, mais do que uma essência única das coisas, forma e pensamento ao mesmo tempo, sendo a forma um pensamento materializado e o pensamento a forma do espírito? (vi) É possível. O saber humano é limitado e até os olhares do génio não são mais do que relâmpagos no domínio infinito das ideias e das leis. 

Todavia, o que caracteriza a alma e absolutamente a diferencia da matéria é a sua unidade consciente. Sob a acção da análise, a matéria dispersa-se e dissipa-se. O átomo físico divide-se em sub-átomos, que, por sua vez, se fragmentam indefinidamente. A matéria é inteiramente desprovida de unidade, como o estabeleceram as recentes descobertas de Becquerel, Marie e Pierre Curie, Le Bon. 

No universo só o espírito representa o elemento uno, simples, indivisível e, por conseguinte, logicamente indestrutível, imperecível, imortal. 

/… 
(ii) Demonstra-lo-emos mais adiante com uma série completa de factos de observação, de experiência e de provas objectivas. 
(iii) A ciência fisiológica, à qual escapa ainda a maior parte das leis da vida, entreviu, no entanto, a existência do perispírito (i) ou do corpo fluídico, que é ao mesmo tempo o molde do corpo material, o vestuário da alma e o intermediário obrigatório entre eles. Claude Bernard escreveu (Recherches sur les Problèmes de la Physiologie): “Há como um desenho preestabelecido de cada ser e de cada órgão, de modo que, se considerado isoladamente, cada fenómeno do organismo é tributário das forças gerais da Natureza; em conjunto, parecem eles revelar um laço especial, parecem dirigidos por alguma condição invisível pelo caminho que seguem, na ordem que os concatena.” 
Sem a noção do corpo fluídico, a união da alma com o corpo material torna-se incompreensível. Daí o enfraquecimento de certas teorias espiritualistas, que consideravam a alma como “Espírito puro”. Nem a razão nem a Ciência podem admitir um ser sem forma. Leibnitz, no prefácio das suas – Nouvelles Recherches sur la Raison Humaine, diz: “Creio, com a maior parte dos antigos, que todos os Espíritos, todas as almas, todas as substâncias simples, activas, estão sempre unidas a um corpo e que nunca existem almas completamente desprovidas deles.” 
Enfim, existem numerosas provas, objectivas e subjectivas, da existência do perispírito. São, em primeiro lugar, as sensações chamadas “de integridade”, que acompanham sempre a amputação de qualquer membro. Alguns magnetizadores afirmam que podem exercer influência nos seus pacientes, magnetizando o prolongamento fluídico dos membros amputados (Carl du Prel, La Doctrine Monistique de l'Ame, cap. VI). Vêm depois as aparições dos fantasmas dos vivos. Em muitos casos, o corpo fluídico, concretizado, tem impressionado placas fotográficas, deixado impressões e moldagens em substâncias moles, traços no pó e na fuligem, provocado o deslocamento de objectos, etc. (Ver: No Invisível, caps. XII e XX.) 
(iv) A regra não é absoluta. O cérebro de Gambetta, por exemplo, não pesava mais do que 1.246 gramas, ao passo que a média humana é de 1.500 a 1.800 gramas. 
(v) Claude Bernard – La Science Expérimentale, Phénomènes de la Vie. 
(vi) Entendemos aqui por espírito o princípio da inteligência. 


Léon Denis, O Problema do Ser, do Destino e da Dor, Primeira Parte O Problema do Ser, [...] III – O problema do Ser, 4º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: Sin título (detalhe), de uma pintura atribuída a Josefina Robirosa) 

terça-feira, 16 de agosto de 2022

O Homem e a Sociedade ~


O SIGNIFICADO ESPÍRITA do Materialismo Dialéctico
 
(II de III) 

  Mas, para explicar claramente essa lei dialéctica, será preciso interpretar o Ser como uma tese essencial que, segundo a filosofia espírita, contém o Universo inteiro e, que começa o seu desenvolvimento no inconsciente das coisas, até chegar, mais tarde, ao grau de consciência. Este estado alcançado pela tese do Ser se transformará mais adiante; no contrário do seu primeiro período evolutivo, isto é, negará a sua condição anterior ao penetrar na de antítese, que representa uma etapa mais desenvolvida que a primeira, até se situar na de síntese, resumo superior dos seus dois tempos primitivos e tudo isso nos dará o seguinte: O presente é o que não existia ontem, mas esse ontem é a negação da qual surgiu o hoje; logo, deste hoje resultará a negação da qual surgirá o amanhã. 

  Nisto consiste, pois, a lei chamada negação da negação ou evolução da involução, a interpretação espírita que nos mostra agora o desenvolvimento palingenésico como um processo dialéctico do Ser. Assim, vemos como o homem, ao nascer, é uma entidade espiritual de natureza dialéctica, chamada a desenvolver-se continuamente através do processo histórico. 

  Pelo exemplo seguinte, vejamos como se desenvolve a lei denominada negação da negação: 

  Tomemos um grão de trigo, o qual representa a tese. Que faremos, para que esse grão de trigo se torne o ponto de partida de um processo de desenvolvimento"? Enterramo-lo e, isso determina a etapa de antítese (ou de encarnação do Ser). Que sucederá então? Assistiremos à negação do grão de trigo, para que nasça a espiga. Primeira negação: o grão de trigo desapareceu, mas se transformou numa planta. Esta planta cresceu e produz grãos de trigo, como é natural e depois morre. Segunda negação: A planta desapareceu, depois de reproduzir o grão de trigo que a originou. Não nos esqueçamos, porém, de que não produziu um só grão de trigo, mas uma grande quantidade, que inclusive poderá suscitar novas qualidades. (*) 

  Transportada a ideia do processo dialéctico para o desenvolvimento do Ser, vemos que esta negação da negação só poderá efectuar-se pela parte psíquica de sua natureza e, que permitirá essa transformação. Estes processos dialécticos, que têm a virtude de revelar novas qualidades nas coisas de acordo com a filosofia espírita, explicam o desenvolvimento do dinamopsiquismo essencial, mediante a evolução da involução, isto é, a essência evoluída, fazendo desenvolver a essência ainda não-evoluída. 

  O estado de antítese, ou de encarnação do Ser, Gustave Geley no-lo apresentou do seguinte modo: “Tudo acontece como se cada existência terrestre, cada objectivação orgânica, ou, podemos dizer, cada encarnação, seria para a actividade do Ser uma limitação no espaço e nos meios; seria como que uma sujeição a um trabalho limitado e especializado, a um esforço quase exclusivo, em uma única direcção.” 

  Por último, a antítese, ou estado de encarnação do Ser é, como bem disse Geley, um processo de análise. É, acrescentava ele, a subdivisão da consciência em faculdades diversas e, do sentido único em sentidos múltiplos, para facilitar o seu exercício e promover o seu desenvolvimento. 

  Como se verá, nesta limitação espiritual aparece o que se chama a etapa de antítese do Ser. Esta antítese consiste em não poder ele recordar o passado nem estender a visão além do físico e, ainda mais, em não dispor das faculdades metapsíquicas que o espírito possui em forma latente. Tudo isto corresponde ao que se chama antítese do Ser, dado que o mundo físico é como uma negação do mundo espiritual, receptáculo maravilhoso onde o indivíduo guarda todos os valores de sua evolução. 

  Impulsionado o Ser pelo processo dialéctico, entrará no seu terceiro tempo: a sua existência de síntese. Esta síntese está baseada na dialéctica da desencarnação ou da morte; representa a reunião de todas as faculdades espirituais numa só; é o que se chama, na linguagem espírita, estado do Ser desencarnado. Este estado, disse Geley, constitui uma espécie de produto sintético dos elementos diversos das personalidades anteriores. Em resumo, a desencarnação é um processo de síntese, de síntese orgânica e de síntese psíquica do Ser. 

  É nesta unidade, em que a tese e a antítese do indivíduo se transformam numa síntese, – que se opera na consciência por causa da desencarnação, – que o espírito se sente em toda a sua plenitude. Porque é nesta síntese que os valores humanos se convertem em valores divinos e onde se reconhece que a raiz de todos os fenómenos sociais e morais está no mundo espiritual. 

  Nesta análise sobre os três tempos dialécticos do espírito, podemos notar a profundidade da dialéctica hegeliana, destacando-se, em compensação, à limitação ideológica do materialismo dialéctico, no que respeita ao homem, ao considerá-lo, como o faz o existencialismo ateu, um ser para a morte e para o nada eterno. Entretanto, o marxismo pretende refutar ideologicamente o pensamento existencialista, sem levar em conta que os seus princípios estão baseados, também, sobre o nada do ser. 

  Para a filosofia espírita, o processo histórico é produto da acção do espírito e não o resultado dos modos de produção; por conseguinte, ela não admite uma evolução exclusivamente material. Esta concepção é também sustentada pela lógica formal, na qual os seres e as coisas aparecem em estado imóvel e de repouso. Esta tese, porém, é inadmissível num tipo de materialismo considerado dialéctico, cuja doutrina sustenta que as coisas são e não são ao mesmo tempo, pela razão de que tudo está em perpétua transformação e que o movimento é que dá impulso aos fenómenos materiais. Sobre este ponto, convém fazer algumas reflexões. 

  Se o movimento da matéria, de acordo com Georgi Plekanov, destacado expositor do materialismo dialéctico, é a base de todos os fenómenos da natureza e, se as moléculas da matéria em movimento, ao se unirem umas às outras, formam determinadas combinações, que são os seres e as coisas; se estas combinações se distinguem por uma solidez menor ou maior e, existem durante um tempo mais ou menos longo, desaparecendo finalmente, para serem substituídas por outras e, se o que é eterno é somente o movimento da matéria e a matéria em si como substância indestrutível, podemos formular as seguintes perguntas: Que maravilhoso demiurgo é a matéria, para possuir tantas propriedades e, o que é o movimento em si mesmo? 

  Do ponto de vista espírita e metapsíquico, a matéria é uma objectivação que se traduz em movimento, mediante uma perimatéria, a qual é a força que dá conformação e existência à matéria, mas nunca a matéria em si. O materialismo dialéctico, ao conceber o movimento como qualidade da matéria, admite a possibilidade de um princípio psíquico, já que o psíquico não é mais do que movimento, como o por ele atribuído à matéria. Daí que a filosofia espírita sustente que não podemos admitir nem o materialismo nem o espiritualismo puros. 

  Foi Geley quem disse que tudo nos induz a crer que não há matéria sem inteligência, nem inteligência sem matéria. Esta é a razão pela qual o espiritismo pode oferecer um campo de reconhecimento entre o materialismo e o espiritialismo clássico. O mesmo Geley, para confirmar esta asserção, escreveu o seguinte: “Desde o momento em que, na teoria espírita, espírito, força e matéria estão sempre juntos e são inseparáveis; e que não podemos e não devemos supô-los com vida própria e isolados uns dos outros, a doutrina espírita pode ser desde logo admitida, tanto pelos que fazem da inteligência um produto da evolução avançada da matéria, como por aqueles que sustentam não ser a matéria nem mais nem menos do que uma manifestação do espírito.” A força, para Geley, nas duas hipóteses, constitui o princípio intermediário a que chamamos perimatéria. 

  Pelo exposto, se deduz que a filosofia espírita pode ser aceite, no seu aspecto palingenésico, tanto pelo pensamento materialista como pelo espiritualista, desde que o espírito fosse a causa de um movimento ascendente do Universo. Em consequência, poder-se-ia dizer que o materialismo só é admissível na sua concepção mecanicista, mas nunca do ponto de vista materialista dialéctico, o qual se baseia na lei do movimento e na dinâmica do Universo, gérmen de uma possível entidade inteligente. 

/… 
(*) A. Thalheimer, Introdução ao Materialismo Dialéctico. 


Humberto Mariotti (i), O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização, Do Materialismo Histórico a uma Dialéctica do Espírito, 1ª PARTE O NÚMENO ESPIRITUAL NOS FENÓMENOS SOCIAIS, Capítulo V – O Significado Espírita do Materialismo Dialéctico (II de III), 9º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: Alrededores de la ciudad paranóico-crítica: tarde al borde de la historia europea | 1936, Salvador Dali)

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Deus na Natureza ~


~ a vontade do homem ~
(III) 

  Buffon (i) escreveu que génio é paciência. Lembrámo-nos, então, de Keple (i) procurando durante dezassete anos as três leis imortais que o recomendam à posteridade, leis que regem o sistema universal nos latifúndios celestes, onde se embalam as estrelas duplas, tanto quanto regulam o movimento da Lua em volta da Terra. Falaremos de Newton (i), comedido, respondendo a quem lhe perguntava como descobrira a gravitação: – foi pensando sempre nela. Citaremos todos esses ilustres sábios que nas suas lutas só tiveram por arma a inteligência. Invocaremos os trabalhos solitários de Harvey (i), Carlos Bonnet, Jenner (i) (*). Recontaremos as tremendas dificuldades que tiveram de vencer, animados do fogo sagrado, esses inventores que se chamaram Watt (i), Jacquard (i), Girard (i), Fulton (i), Stephenson (i)? Diremos dos labores intelectuais que exigiram as nossas vias-férreas, a navegação a vapor, a telegrafia, magníficos inventos nos quais celebramos o espírito que não a matéria? Invocaremos os arroubos artísticos de um Miguel Ângelo (i), de um Ticiano (i), de um Cellini (i), de um Poussin (i)? Recordemos esta frase de Bayle (i), escrita de Milão, em 1820, a propósito de um artista chamado Meyerbeer: – “é homem de algum talento, mas não genial, vivendo solitariamente e trabalhando quinze horas por dia”. Contudo, se quiséssemos historiar as provas rudes que flagelaram os génios mais possantes, haveríamos de baixar aos nomes ignorados, de quantos mergulharam nessas águas revoltas, vítimas da sorte, não da descrença, como Chénier (i) decapitado, ou como Gilbert (i) lutando contra o egoísmo universal. 

  Haveríamos, também, de convocar os que sucumbiram gloriosamente. – Giordano Bruno (i) preferindo a morte a uma retratação fictícia, Campanella (i) sete vezes torturado e sucumbindo sem deixar de satirizar os seus algozes; Jeanne D'Arc (i) que salvou a França, Sócrates (i) que salvou a Filosofia e preferiu a cicuta à mentira, o velho Pedro Ramus (i) estrangulado na noite de São Bartolomeu, em que também teria perecido Ambrósio Paré (i), se Carlos IX não levasse em conta os seus préstimos pessoais e, enfim, todos os mártires da Ciência, da Religião, do progresso, inclusive os que tombaram nos circos romanos, devorados pelas feras e suplicando a Deus pelos seus irmãos. Fossem quais fossem as crenças, as ideias que essas criaturas defendiam até à morte, sem lhes apreciarmos o valor real das causas que abraçavam, a sua memória imperecível só nos merece respeitosa veneração. São vultos que nos mostram que o homem não é somente um composto de matéria orgânica e que a energia, a perseverança, a coragem, a virtude, a fé, não são atributos da composição químico-cerebral. Do fundo de seus sepulcros eles proclamam que os pretensos sábios, que ousam identificar o homem com a matéria inerte, não se rodeiam do valor humano e jazem na mais tenebrosa ignorância das verdades que fazem a glória e a felicidade do ser. 

  E supondes seja necessário interrogar a tradição histórica para responder, também com argumentos e exemplos irresistíveis, a essa pretensão cega de negar os factos de ordem puramente intelectual, conceituando tão superficialmente o Espiritualismo e a Moral? 

  Não; não é somente nas altas esferas que o observador admira esses edificantes exemplos. Em todas as camadas sociais, do prócere da Ciência ao rústico analfabeto, do trono ao grabato (i), a vida quotidiana oferece, no santuário da família, esses mesmos padrões de coragem e abnegação, de paciência e grandeza d'alma, de energia e virtude, que, por desconhecidos, não são menos meritórios no seu valor intrínseco, do que os precedentes. 

  Quantas almas padecem em segredo sem revelar os seus martírios, curvadas à injustiça, vítimas do destino, dessa fatalidade impenetrável que persegue tantas criaturas boas e justas? 

  Quantos corações magnânimos palpitam em silêncio e abafam chamas capazes de incendiar o verbo e levantar multidões, se, ao invés de definhar na sombra, se espanejassem ao sol da popularidade? Quantos génios ignorados por aí dormitam num isolamento infecundo? Quantas almas santas e puras a se consagrarem a uma vida inteira de abnegação, de amor, de caridade? E quantos, em recompensa de tamanhas virtudes, de tanta paciência e humildade, não recebem mais que ingratidão e desprezo daqueles mesmos a quem amam? 

  O último reduto dos nossos adversários assenta no sistema dos pendores naturais, como a declararem que estes factos de ordem mental não são mais que o resultado das inclinações dos espíritos credores de nossa admiração. Se Palissy se obstinou dezasseis anos à procura do esmalte, seria a isso arrastado por uma inclinação especial. Se Colombo não esmoreceu diante do cepticismo dos coevos e das revoltas de sua equipagem, é que uma tendência do seu cérebro o encaminhava irrevogavelmente para o Novo Mundo. Se Dante concluiu a Divina Comédia, ainda que posto a ferros e expatriado, é porque a lembrança de Beatriz e as guerras Civis italianas lhe espicaçavam a fibra poética. Se Galileu, septuagenário, se viu constrangido a abjurar de joelhos as suas convicções mais íntimas, assinando a sentença iníqua que proibia a Terra de girar, não pensem que houve em tudo isso humilhação, pois apenas teria experimentado uma ligeira contrariedade das suas inclinações. O facto de Carlota Corday partir de sua aldeia para apunhalar Marat em Paris não significa que tivesse a convicção íntima de salvar a pátria de um seu presumível salvador, mas, apenas, que tivesse uma exaltação cerebral. Se, durante as cenas monstruosas de terror, se viram mulheres que pediam aos carrascos a graça de morrer com os maridos, subindo firmes o patíbulo; se, em todos os tempos históricos, temos visto vítimas voluntárias oferecerem-se para salvar entes amados, ou com eles morrer, é tudo fruto de inclinação natural, ou resultado de certos movimentos cerebrais! 

  Resumindo: os actos mais sublimados de virtude, de piedade filial, devotamento, amor, grandeza d'alma, são oriundos de disposições orgânicas, ou de qualquer súbito desvio das funções normais do cérebro. Se o Cristo subiu ao Calvário, não se considere isso o sacrifício extraordinário de um ser divino, mas simples movimento revolucionário de algumas moléculas imprudentes... É, assim, a míseras escórias, que reduzem as mais ricas gemas da coroa que cinge a fronte da Humanidade. Esta, contudo, não se deixa assim degradar, não consentirá que mãos profanas lhe arrebatem a sua auréola. Para sustentar esses feitos de valor, algo mais se torna necessário do que uma agregação atómica de carbono ou de ferro. Algo mais que uma simples combinação molecular. Vade-retro, negadores insensatos, que pretendeis reduzir a fórmulas tão ocas a definição do valor e das forças intelectuais. Predisposições orgânicas, inclinações naturais, faculdades mentais, a própria educação, que representa tudo isso senão palavras, desde que nos limitemos a manifestações da matéria bruta e cega e neguemos a existência do espírito? Que representam a Química, a Física, a Mecânica, diante da vontade que dobra o mundo à sua lei e dirige a seu assentimento a matéria obediente? Ousam sustentar que o valor moral, a potência intelectual, o afecto profundo dos corações, o entusiasmo das almas fervorosas, a imensidade do olhar inteligente, as pesquisas do pensamento que sonda o espaço e faz resplandecer as leis universais, as meditações, as descobertas, as obras-primas da Ciência e da Poesia se explicam por transformações químicas – e quiméricas – da matéria em pensamento? Será que, para suportar essa energia anímica, não haja necessidade de uma força soberana, superior às alterações da substância, capaz de vencer todos os obstáculos, cuja influência se estenda muito além da vista física e seja mesmo a base desta força pensante, o seu substrato, o seu sustentáculo e a condição de sua potência? Será que a virtude resida noutro lugar que não na alma? – na alma independente, que os subterfúgios do mundo material não atingem; na alma espiritual, que ouve a voz da verdade e caminha em linha recta para o seu ideal, sejam quais forem os obstáculos que se interponham no caminho, as dificuldades que pretendam interceptar-lhe a marcha triunfal? 

  Toda a Humanidade protesta contra essas fúteis alegações e o faz já não com aquele critério baseado no testemunho dos sentidos, susceptível de enganar-se, como se dá, por exemplo, com o movimento dos astros, mas, com aquele senso íntimo que lhe vem da própria consciência. 

/… 
(*) A aceitação que teve a descoberta da vacina é um atestado típico dos obstáculos geralmente colocados a qualquer ideia nova, de maneira a desanimar inventores e sábios. Não faltou, diz Smiles, quem lhe caricaturasse a descoberta apresentando-a como susceptível de bestializar o próximo, com o introduzir no organismo matéria putrefacta, retirada das tetas de vacas doentes. Do alto das cátedras, foi a vacina denunciada como coisa “diabólica”. Chegaram a afirmar que as crianças vacinadas cresciam com “cara de boi” e que na testa lhes sobrevinham tumores, que “indicavam o lugar dos chifres e que a voz se alteraria com mugidos de touro”. 


Camille Flammarion, Deus na Natureza, Terceira Parte; (3) A Vontade do Homem (3 de 6), 29º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: Jungle Tales (Contos da Selva) 1895, pintura de James Jebusa Shannon)

domingo, 24 de julho de 2022

o grande desconhecido ~


O Problema das Mistificações
 
(II de II) 

Os adulteradores espíritas de Kardec mostraram-se de uma grande ignorância. O que fizeram com O Evangelho Segundo o Espiritismo é de estarrecer. Deformaram, cortaram, tornaram o texto lógico do mestre incongruente e contraditório. Não pouparam sequer as mais belas e poderosas frases de Jesus, como: Amai aos vossos inimigos, que reduziram a esta vergonha linguística: Amai aos que não vos amam. Das eloquentes mensagens de Lázaro extraíram as figuras expressivas e viris como: Nós vos faremos avançar com a dupla acção do freio e da espora, talvez por já estarem sentindo as esporas nas virilhas. Emacularam os textos, como se fossem eunucos destinados a servir nos haréns de velhos e trémulos sultões. 

Todas essas formas de mistificações, geralmente ao serviço de interesses humanos subalternos, estão presentes em todas as culturas e em todas as religiões, porque a mistificação é própria do homem, encarnado ou desencarnado. Na inferioridade visível e palpável do nosso mundo os mistificadores pululam no plano espiritual ligado à Terra e na crosta planetária. Nas escrituras sagradas de todas as correntes espiritualistas e de todas as religiões podemos encontrar e identificar diversos tipos de mistificação. Kardec foi o único a estabelecer um método seguro de prevenção das mistificações. Mas os mistificadores se servem da vaidade humana para se infiltrar nas instituições doutrinárias, onde sempre encontramos criaturas ansiosas por novidades que superem a obra do mestre. O Espiritismo é uma questão de bom senso, como escreveu Kardec, mas as criaturas insensatas estão por toda a parte. Precisamos manter constante vigilância nos nossos estudos para não cairmos nas mistificações que nos levam a deturpar e aviltar a doutrina. Bastaria um pouco de humildade para vermos, como ensina Kardec, a ponta de orelha do mistificador, que sempre aparece nos textos mentirosos ou ilusórios. A mistificação se alimenta de vaidade e pretensão, desse orgulho infantil a que não escapam nem mesmo pessoas ilustradas. Muitas vezes, pelo contrário, as pessoas ilustradas não passam de analfabetas ilustres, mais sujeitas, por sua vaidade pueril, à mistificação, do que as pessoas humildes, mas dotadas de bom senso. Kardec tem razão ao afirmar que o bom senso e a humildade são preservativos da mistificação. Nenhum espírito nos mistifica se nós mesmos já não estivermos mistificando-nos por vontade própria. 

Os médiuns dispõem de vários recursos para evitar as mistificações: orar e vigiar, manter a sua fé racional em Deus e nos Espíritos Superiores; confiar nos seus protectores espirituais; ler todos os dias pelo menos um trecho de O Evangelho Segundo o Espiritismo, manter a mente arejada e serena, sem temores inúteis; alimentar pensamentos altruístas, ou seja, em favor dos outros, evitando ideias de grandeza; rejeitar os Espíritos que lhes prometem revelações e os que pretendem contar-lhes o que foram em outras encarnações; afastar de sua mente qualquer ideia de maldade contra os outros; afugentar ódios e ressentimentos; não querer tornar-se anjos de um momento para o outro; viver como todas as criaturas pacíficas dignas, cumprindo os seus deveres sociais e morais, sem nunca se julgarem superiores aos outros; suportar as dificuldades da vida sem reclamações, dando mais atenção às necessidades dos outros do que às suas próprias; fazer todo o bem possível ao seu alcance, sem exageros e tendo sempre em vista que não devemos acocar-nos nem acocar os outros, pois todos temos de passar pelas experiências; evitar disputas sobre opiniões; não admitir interferências de dinheiro ou lucros de qualquer espécie nas suas actividades mediúnicas. Tudo isso se resume, como vemos, em caridade, humildade e honestidade. O médium ou espírita que seguir esses princípios estará vacinado contra a mistificação, desde que não se convença que estará livre de ser mistificado. A simples ideia de ter esse privilégio pode ser a porta que esqueceu aberta e pela qual a mistificação entrará com facilidade. 

O maior caso de mistificação, capaz de levar qualquer pessoa à fascinação, é a obra Os Quatro Evangelhos, de Jean-Baptiste Roustaing, que a Federação Espírita Brasileira tomou como fundamento da sua orientação doutrinária. A mistificação é tão evidente nessa obra que uma pessoa simples, mas de bom senso, logo se apercebe. Mas como se apoia nos resíduos mitológicos e místicos da nossa formação religiosa tradicional, continua a fazer as suas vítimas entre nós através dos anos. Nessa obra, Jesus é transformado num mistificador que fingiu nascer, mas não nasceu, fingiu mamar, mas não mamou, fingiu morrer na cruz mas não morreu; fingiu ressuscitar mas não ressuscitou, pois era um agénere, uma criatura não gerada, uma simples aparição tangível que combinou no espaço encontrar-se na Terra com Maria Madalena. E isso é apenas um pedaço mínimo do imenso ridículo em que essa obra das trevas procura mergulhar a Doutrina dos Espíritos Superiores. As obras de Ramatis constituem o segundo caso de mistificação no nosso movimento espírita, divergindo daquela em alguns pontos e apresentando outras novidades absurdas. A obra A Vida de Jesus Ditada por Ele Mesmo, recebida na Alemanha e completada na Argentina, onde existe uma instituição espírita para mantê-la, divulgá-la e defendê-la, é outro caso típico de mistificação em grande estilo, que tem iludido multidões de pessoas. Nessa obra vemos Jesus, nas suas memórias, prestar-nos um depoimento estranho sem princípio e sem fim e com a deformidade de um texto do Corto, de Maomé. Fala Jesus: “Meus irmãos, escutai o relato da minha vida terrestre como Messias.” A seguir o livro nos conta as primeiras peripécias de Jesus após a morte de José, seu pai, sua ida a Jerusalém e a entrega dos negócios da família em mãos estranhas. Jesus se diz o mais velho dos nove filhos de José e Maria. Descreve a vida tranquila que levava em Nazaré, mas lamenta que as suas ideias messiânicas o tenham levado para o caminho perigoso. Refere-se aos fundamentos da Ciência Kabalística que aprendeu, conta que após a morte do pai envolveu-se em Jerusalém com grupos subversivos e tornou-se agitador político. Nesse ritmo de estória à Jack London, o livro atinge a fase messiânica de Jesus. O auto-memorialista proclama: “A minha obra era santa, porque era a Obra do Pai; a minha missão não era de ódio, mas de amor.” Um livro mediúnico sem nenhuma base histórica, sem nada de novo quanto à interpretação da figura humana de Jesus, sem nenhuma marca da época, decalcado em situações actuais, desprovido da mínima verossimilhança e, que no entanto e apesar do seu volume de cerca de 400 páginas, não pesa em nada na balança da História. Mistificação evidente e sem defesa possível. Como podem espíritas ilustrados, inteligentes, perspicazes, aceitar esse relato de fraca imaginação como autobiografia do Cristo, do assombroso personagem histórico que transformou o mundo com as suas ideias, no vago registo das loggia, das anotações fragmentárias de seus ensinos morais, frases e expressões que balizaram o desenvolvimento humano a partir das suas prédicas? Essa é a glória da mistificação – fazer passar como verídicas as mais infundadas aberrações. Mas não se pense que o triunfo é da mistificação em si. Pelo contrário, é dos que se deixam mistificar, dos que desejam iludir-se e para isso alimentam o seu bom senso nas bancas de câmbio da imaginação. Essas criaturas ansiosas pelo maravilhoso, não encontrando o que desejam nas pesquisas e nos estudos sérios, aceitam emocionados os maiores absurdos. 

É um curioso mecanismo de compensação interior que leva os leitores dessas falsidades ingénuas a considerá-las como verídicas. O anseio de novidades maravilhosas é nelas mais poderoso do que a razão, que sabem aplicar nas coisas da vida diária, mas fracassam ao aplicá-las ao sonho, pois este exige a descoberta dos segredos a qualquer preço. É o mesmo caso das obsessões, em que o apego do obsedado ao obsessor é que dá forças a este para agir sobre aquele. O mesmo caso dos viciados, que embora conhecendo as consequências do vício, não podem abandoná-lo, pois sem ele a vida perderia em gosto e sentido. Uma face pouco ou nada conhecida dos processos esquizofrénicos. Uma área em que a Psicologia Espírita tem muito a trabalhar. 

Mas não é só no Espiritismo que isso acontece. A natureza é uma só em toda a parte. No Corão, de Maomé, a mistificação é tão transparente como no caso acima. O mistificador cobre as suas deficiências com o manto embriagador ou atordoante da fantasia. E serve-se de afirmações enfáticas, de frases altissonantes para melhor impressionar os que desejam ser enganados. Todo o génese bíblico se reveste desse mesmo aspecto. O episódio do nascimento de Jesus, no Corão, é ao mesmo tempo anedótico, pitoresco e impressionante. Maria recebe a anunciação do Anjo, que a manda fugir para o deserto. José foi inteiramente excluído dessa estória das Mil e Uma Noites em que um velho carpinteiro nada tinha a fazer. A jovem virgem foge da casa dos pais e dirige-se à tamareira solitária no meio do areal. Ali se deita e o Anjo lhe ensina como proceder. Ao mesmo tempo, faz correr um filete de água ao pé da tamareira. Quando tiver fome, basta-lhe sacudir a árvore e os frutos maduros caem. O menino nasce e o anjo a manda voltar para a casa. Lá, a família a repreende, mas ela tem o menino Jesus nos braços. Maria conta o que se passou e o menino recém-nascido o confirma. O espanto é geral e tudo se acomoda. A estória ingénua é simples ideação mistificadora, mas a palavra do Profeta é suficiente para transformá-la em realidade histórica. O Islã (Islão) nasceu do tronco bíblico, é uma espécie de sombra judaica projectada sobre a Arábia. As figuras bíblicas de Abraão, Isaac e Jacob aparecem deformadas nessa projecção. Era natural que Maria e Jesus também aparecessem assim. Mas temos nessa projecção conceptual uma espécie de intuição profética animitológica. O nascimento de Jesus sob uma tamareira no deserto devolve o acontecimento real à sua singeleza verdadeira. Resta o mito do Anjo Gabriel, mas este corresponde à realidade subjectiva da inspiração de Maomé. O facto de o menino Jesus falar precocemente não é mitológico, pois pode ser considerado na pauta da precocidade natural. É importante lembrar que o Islamismo revela maior tendência para a realidade figurada do que para o mito. A exclusão de José e os cuidados do Anjo com Maria parecem indicar o Anjo como o pai do menino, em lugar do Espírito Santo. Uma análise profunda desse episódio do Corão, que estabelece uma ligação genésica entre o Islamismo e o Cristianismo, pode revelar maiores significações na perspectiva histórica. A mistificação religiosa decorre muitas vezes de exigências lógicas num processo histórico de ocorrências complexas e cujas linhas se tornaram indefinidas no tempo. Esse é um problema de Para-história, nova área de interpretação histórica nascida das conquistas actuais da Parapsicologia e, que por isso mesmo interessa de perto aos espíritas. 

Maomé foi geralmente considerado como um mistificador, mas na verdade era um médium, um paranormal que, segundo Emmanuel, tinha a missão, em que fracassou, de forçar o retorno da Igreja de Roma à realidade histórica. O fracasso do Profeta Árabe decorreu do seu excessivo apego à matéria, em virtude de sua forte vitalidade. Por isso Dante o colocou no Inferno com o ventre rasgado e os intestinos saindo do ventre, condenação típica dos excessos de sensualidade. Todos estes elementos são importantes para uma reinterpretação do conjunto religioso-histórico formado pelo triângulo bíblico Judaísmo-Cristianismo-Islamismo. Cabe às instituições culturais espíritas, no futuro, analisar estes problemas referentes ao processo da evolução da humanidade terrena. O alfange (*) islâmico guarda ainda os segredos do Crescente Lunar, que podem ainda fazer mais luz do que o Sol sobre a condição humana. 

/… 
(*) Sabre de lâmina curta e larga, com o fio no lado convexo da curva. 


José Herculano Pires, Curso Dinâmico de Espiritismo, XVIII – O Problema das Mistificações, (II de II), 20º fragmento (II de II) desta obra. 
(imagem de contextualização: Somos as aves de fogo por sobre os campos celestes, acrílico de Costa Brites)  

terça-feira, 12 de julho de 2022

Léon Denis e o Cristianismo ~


Origem dos Evangelhos ~
 

  Há cerca de um século, consideráveis trabalhos empreendidos nos diversos países cristãos, por homens de elevada posição nas igrejas e nas universidades, permitiram reconstituir as verdadeiras origens e as fases sucessivas da tradição evangélica. 

  Foi, sobretudo, nos centros de religião protestante que se elaboraram esses trabalhos, notabilíssimos pela sua erudição e o seu carácter minucioso e, que tão vivas claridades projectaram sobre os primeiros tempos do Cristianismo, sobre o fundo, a forma, o alcance social das doutrinas do Evangelho. 

  São os resultados desses trabalhos que exporemos resumidamente aqui, sob uma forma que nos esforçaremos por tornar mais simples que a dos exegetas protestantes. 

  O Cristo nada escreveu. As suas palavras, disseminadas ao longo dos caminhos, foram transmitidas de boca em boca e, posteriormente, transcritas em diferentes épocas, muito tempo depois da sua morte. Uma tradição religiosa popular que se formou, pouco a pouco, tradição que sofreu constante evolução até ao século IV. 

  Durante esse período de trezentos anos, a tradição cristã nunca permaneceu estacionária, nem a si mesmo semelhante. Afastando-se do seu ponto de partida, através dos tempos e lugares, ela se enriqueceu e diversificou. Efectuou-se um poderoso trabalho de imaginação e; acompanhando as formas que revestiram as diversas narrativas evangélicas, segundo a sua origem, hebraica ou grega, foi possível determinar, com segurança, a ordem em que essa tradição se desenvolveu e, fixar a data e o valor dos documentos que a representam. 

  Durante perto de meio século depois da morte de Jesus, a tradição cristã, oral e viva, é qual água corrente em que qualquer um se pode saciar. A sua divulgação fez-se por meio da prédica, pelo ensino dos apóstolos, homens simples, iletrados (ii), mas iluminados pelo pensamento do Mestre. 

  Não é senão do ano 60 ao 80 que aparecem as primeiras narrações escritas, a de Marcos a princípio, que é a mais antiga, depois as primeiras narrativas atribuídas a Mateus e Lucas, todas, escritos fragmentários e que se vão acrescentar de sucessivas adições, como todas as obras populares (iii). 

  Foi somente no fim do século I, de 80 a 98, que surgiu o evangelho de Lucas, assim como o de Mateus, o primitivo, actualmente perdido; finalmente, de 98 a 110, apareceu, em Éfeso (i), o evangelho de João. 

  Ao lado desses evangelhos, únicos depois reconhecidos pela Igreja, grande número de outros vinham à luz. Desses, são conhecidos actualmente uns vinte; mas, no século III, Orígenes citava-os em maior número. Lucas faz alusão a isso no primeiro versículo da obra que traz o seu nome. 

  Por que razão foram esses numerosos documentos declarados apócrifos e rejeitados? Muito provavelmente porque se haviam constituído num embaraço aos que, nos séculos II e III, imprimiram ao Cristianismo uma direcção que o devia afastar, cada vez mais, das suas formas primitivas e, depois de haver repelido mil sistemas religiosos, qualificados de heresias, devia ter como resultado a criação de três grandes religiões, nas quais o pensamento do Cristo jaz oculto, sepultado sob os dogmas e práticas devocionistas como em um túmulo (iv). 

  Os primeiros apóstolos limitavam-se a ensinar a paternidade de Deus e a fraternidade humana. Demonstravam a necessidade da penitência, isto é, da reparação das nossas faltas. Essa purificação era simbolizada no baptismo, prática adoptada pelos essénios, dos quais os apóstolos assimilavam ainda a crença na imortalidade e na ressurreição, isto é, na volta da alma à vida espiritual, à vida do espaço. 

  Daí a moral e o ensino que atraíam numerosos prosélitos em torno dos discípulos do Cristo, porque nada continham que se não pudesse aliar a certas doutrinas pregadas no Templo e nas sinagogas. 

  Com Paulo e, depois dele, novas correntes se formam e surgem doutrinas confusas no seio das comunidades cristãs. Sucessivamente, a predestinação e a graça, a divindade do Cristo, a queda e a redenção, a crença em Satanás e no inferno, serão lançados nos espíritos e virão alterar a pureza e a simplicidade ao ensinamento do filho de Maria. 

  Esse estado de coisas vai continuar e agravar-se, ao mesmo tempo em que convulsões políticas e sociais hão de agitar a infância do mundo cristão. 

  Os primeiros Evangelhos transportam-nos à época perturbada em que a Judéia (i), sublevada contra os romanos, assiste à ruína de Jerusalém e à dispersão do povo judeu (ano 70). Foi no meio do sangue e das lágrimas que eles foram escritos e, as esperanças que traduzem parecem irromper de um abismo de dores, enquanto nas almas contristadas desperta o ideal novo; a aspiração de um mundo melhor, denominado “reino dos céus”, em que serão reparadas todas as injustiças do presente. 

  Nessa época, já todos os apóstolos haviam morrido, com excepção de João e Filipe; o vínculo que unia os cristãos era muito fraco ainda. Formavam grupos isolados, entre si e, que tomavam o nome de igrejas (ecclesia, assembleia), cada qual dirigido por um bispo ou vigilante escolhido electivamente. 

  Cada igreja estava entregue às próprias inspirações; apenas tinha para se dirigir uma tradição incerta, fixada em alguns manuscritos, que resumiam mais ou menos fielmente os actos e as palavras de Jesus e que cada bispo interpretava a seu talante. 

  Acrescentemos a estas tão grandes dificuldades as que provinham da fragilidade dos pergaminhos, numa época em que a imprensa era desconhecida; a falta de inteligência de certos copistas, todos os males que podem fazer nascer a ausência de direcção e de crítica e, facilmente compreenderemos que a unidade de crença e de doutrina não tenha podido manter-se em tempos assim tormentosos. 

  Os três Evangelhos sinópticos (v) encontram-se fortemente impregnados do pensamento judeu-cristão, dos apóstolos, mas já o evangelho de João se inspira em influência diferente. Nele se encontra um reflexo da filosofia grega, rejuvenescida pelas doutrinas da Escola de Alexandria (i). 

  Nos fins do século I, os discípulos dos grandes filósofos gregos tinham aberto escolas em todas as cidades importantes do Oriente. Os cristãos estavam em contacto com eles e frequentes discussões se travavam entre os partidários das diversas doutrinas. Os cristãos, arrebanhados nas classes inferiores da população, pouco letrados na sua maior parte, estavam mal preparados para essas lutas do pensamento. Por outro lado, os teóricos gregos sentiram-se impressionados pela grandeza e elevação moral do Cristianismo. Daí uma aproximação, uma penetração das doutrinas, que se produziu em certos pontos. O Cristianismo nascente sofria, pouco a pouco, as influências gregas, que o levava a fazer do Cristo, o verbo, o Logos (i) de Platão. 

/… 
(ii) Exceptuado Paulo, versado nas letras. 
(iii) Sabatier, director da secção dos Estudos superiores, na Sorbonne, "Os Evangelhos Canónicos", pág. 5. A Igreja sentiu a dificuldade em encontrar novamente os verdadeiros autores dos Evangelhos. Daí a fórmula por ela adoptada: vanfelho segundo... 
(iv) Ver notas complementares nºs 2, 3 e 4 (← links para aceder às notas), no fim do volume. 
(v) São assim designados os de Marcos, Lucas e Mateus. 


Léon Denis (1846-1927) (i), Cristianismo e Espiritismo, Título Original em Francês; Léon Denis - Christianisme et Spiritisme, Librairie des Sciences Psychiques, Paris (1898). – Origem dos Evangelhos, 2º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: Paraíso Perdido, estudo do Anjo, lápis e giz de Alexandre Cabanel)