Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Da sombra do dogma à luz da razão ~


Natureza da Revelação Espírita (X)

   As duas primeiras revelações só poderiam ser o resultado de um ensino directo; deveriam impor-se à fé pela autoridade da palavra do mestre, não estando os homens suficientemente evoluídos para participarem na sua elaboração.

  Notemos no entanto entre elas uma variante muito sensível que diz respeito à evolução dos costumes e das ideias, apesar de terem sido feitas no mesmo povo e no mesmo meio, mas com cerca de dezoito séculos de intervalo. A doutrina de Moisés é absoluta, despótica; não admite discussão e impõe-se a todo o povo pela força. A de Jesus é essencialmente conselheira; é livremente aceite e só se impõe pela persuasão; foi controversa mesmo em vida do seu fundador, que não desdenhou discutir com os seus adversários.

  A terceira revelação, vinda numa época de emancipação e de maturidade intelectual, em que a inteligência desenvolvida não se pode resumir a um papel passivo, em que o homem não aceita nada às cegas e quer ver para onde é conduzido, saber o porquê e o como de cada coisa, devia ser simultaneamente produto de um ensinamento e fruto do trabalho, da pesquisa e da livre observação. Os Espíritos só ensinam o estritamente necessário para se entrar no caminho da verdade, mas abstêm-se de revelar o que o homem pode encontrar por si mesmo, deixando-lhe o cuidado de discutir, de controlar e submeter o todo ao cadinho da razão, deixando-o até por vezes adquirir experiência à sua custa. Fornecem-lhe o princípio, os materiais: compete-lhe a ele retirar daí benefícios e pô-los em acção (n.º 15).

  Tendo os elementos da revelação espírita sido dados em simultâneo, numa quantidade de pontos, a homens de todas as condições sociais e com diversos graus de instrução, é bem evidente que as observações não podiam ser feitas em todo o lado com os mesmos resultados; que as consequências a retirar daí, a dedução das leis que regem esta ordem de fenómenos, numa palavra, as conclusões a consolidar as ideias, só podiam sair do conjunto e da correlação dos factos. Ora, cada centro isolado, circunscrito a um círculo restrito, não vendo frequentemente mais do que uma só ordem de factos por vezes aparentemente contraditórios, não tendo geralmente a ver com uma mesma ordem particular de Espíritos e, além disso, entravados pelas experiências locais e pelo sectarismo, encontravam-se na impossibilidade material de abarcar o conjunto e, por isso mesmo, impotente para ligar as observações isoladas a um princípio comum. Apreciando cada um os factos sob o ponto de vista das suas convicções anteriores ou da opinião particular dos Espíritos que se manifestam, em breve teria havido tantas teorias e teses como centros, das quais nenhuma teria podido ser completada por falta de elementos de comparação e de controlo. Numa palavra, cada um deles se teria imobilizado na sua revelação parcial julgando possuir toda a verdade, por não saberem que em cem outros sítios se obtinha mais ou melhor.

  Por outro lado, é de notar que em sítio nenhum o ensino espírita foi dado de forma completa; este atinge um tão grande número de observações, em temas tão diversos que exigem quer conhecimentos quer aptidões mediúnicas especiais, que teria sido impossível reunir num mesmo ponto todas as condições necessárias. Devendo o ensino ser colectivo e não individual, os Espíritos dividiram o trabalho disseminando os temas de estudo e de observação, como, em certas fábricas, a confecção de cada parte de um mesmo objecto é repartida por diversos operários.

  A revelação foi-se assim fazendo parcialmente, em diversos lugares e por uma quantidade de intermediários, e é desta maneira que ainda prossegue neste momento, pois nem tudo foi ainda revelado. Cada centro encontra, nos outros centros, o complemento do que obtém e é o conjunto, a coordenação de todos os ensinamentos parciais que constituem a doutrina espírita.

  Era então necessário agrupar os factos esparsos para verificar a sua correlação, reunir documentos diversos, as instruções dadas pelos Espíritos sobre todos os pontos e sobre todos os temas, para os comparar, os analisar, estudar-lhes as analogias e as diferenças. Sendo as comunicações feitas por Espíritos de todas as ordens, mais ou menos esclarecidos, era necessário apreciar o grau de confiança que a razão permitia conceder-lhes, distinguir as ideias sistemáticas individuais e isoladas das que tinham a sanção do ensino geral dos Espíritos, as utopias das ideias práticas; eliminar as que eram notoriamente desmentidas pelos dados da ciência positiva e da lógica sã, utilizar os erros de forma igualitária, os ensinamentos fornecidos pelos Espíritos, mesmo os de mais baixo nível, para conhecimento do mundo invisível, para formar com isso um todo homogéneo. Era preciso, numa palavra, um centro de elaboração independente de qualquer ideia preconcebida, de qualquer preconceito de seita, resolvido a aceitar a verdade tornada evidente, fosse ela ou não contrária às suas opiniões pessoais. Este centro formou-se por si, por força das coisas e sem intuito premeditado (i).

  (i) O Livro dos Espíritos, a primeira obra que fez entrar o Espiritismo na via filosófica, pela dedução das consequências morais dos factos, que abordou todas as partes da doutrina, tocando nas questões mais importantes que levanta, foi, desde a sua aparição, o ponto de encontro na direcção do qual, espontaneamente, convergiam os trabalhos individuais. É notório que a publicação deste livro data da era do Espiritismo filosófico, que permanecera até então no domínio das experiências de curiosidade. Se este livro conquistou as simpatias da maioria, foi por ser a expressão dos sentimentos dessa mesma maioria e porque correspondia às suas aspirações; foi também porque cada um podia encontrar ali a confirmação e uma explicação racional para o que obtinha em particular. Se tivesse estado em desacordo com os ensinamentos gerais dos Espíritos, não teria tido nenhum crédito e teria rapidamente caído no esquecimento. Ora, a quem se uniram? Não foi ao homem, que não é nada por si mesmo, cavilha obreira que morre e desaparece, mas sim à ideia, que não morre quando emana de uma fonte superior ao homem. Esta concentração espontânea das forças dispersas deu lugar a uma correspondência imensa, monumento único no mundo, quadro vivo da verdadeira história do Espiritismo moderno, onde se reflectem simultaneamente os trabalhos parciais, os sentimentos múltiplos que a doutrina fez nascer, os resultados morais, as dedicações e as fraquezas; arquivos preciosos para a posteridade, onde será possível julgar os homens e as coisas com base em peças autênticas. Na presença destes testemunhos irrecusáveis, que acontecerá depois a todas as falsas alegações, às difamações da inveja e do ciúme? (N. do A.)

  Deste estado de coisas resultou uma dupla corrente de ideias: umas, indo das extremidades para o centro; outras, regressando do centro para a circunferência. Foi assim que a doutrina caminhou prontamente para a unidade, apesar da diversidade de fontes de onde emanou; as teses diferentes foram caindo a pouco e pouco, devido ao seu isolamento, perante o ascendente da opinião da maioria por não encontrarem aí ecos simpatizantes. De imediato se estabeleceu uma comunhão de ideias entre os diferentes centros parciais; falando a mesma língua espiritual, entendem-se e simpatizam de uma ponta à outra do mundo.

  Os Espíritos sentiram-se fortes, lutaram com mais coragem, caminharam com passo mais seguro, quando deixaram de se sentir isolados, quando sentiram um ponto de apoio, um elo que os ligava à grande família; os fenómenos de que eram testemunhas nunca mais lhes pareceram estranhos, anormais, contraditórios, quando conseguiram liga-los a leis gerais de harmonia, abarcar com um olhar o edifício e ver em todo este conjunto um objectivo grande e humanitário (ii).

   (ii) Um testemunho significativo, tão notável como comovente, desta comunhão de ideias que se estabelece entre os Espíritos pela conformidade das convicções, são os pedidos de orações que nos chegam das regiões mais distantes, desde o Peru até aos extremos da Ásia, da parte de pessoas de religiões e de nacionalidades diversas que nunca vimos. Não será este o prelúdio de uma grande unificação em preparação? A prova das raízes sérias que o Espiritismo cria em todo o lado? É notável que, de todos os grupos que se formaram com a intenção premeditada de provocar uma cisão proclamando princípios divergentes, assim como os que, por razões de amor-próprio ou outras, não tendo o ar de estarem sujeitos à lei comum, se julgaram suficientemente fortes para caminharem sozinhos, suficientemente iluminados para não precisarem de conselhos, nenhum conseguiu constituir uma ideia preponderante e vital; todos se extinguiram ou vegetaram na sombra. Como poderia ser de outro modo, já que, para se evidenciarem, em vez de se esforçarem por dar um maior número de satisfações, rejeitaram dos princípios da doutrina precisamente o que lhe confere o maior atractivo, o que nela existe de mais consolador, de mais encorajador e de mais racional? Se tivessem compreendido o poder dos elementos morais que constituíram a unidade, não se teriam embalado numa ilusão quimérica; mas, tomando o seu pequeno círculo pelo Universo, só viram nos aderentes uma súcia que poderia facilmente ser derrubada por uma contra-súcia. Era enganar-se estranhamente sobre as características essenciais da doutrina e esse erro só poderia trazer decepções; em vez de quebrar a unidade, quebraram o único elo que lhes poderia dar força e vida. (Ver Revista Espírita, Abril 1866, pp. 106 e 111: O Espiritismo Sem os Espíritos; O Espiritismo Independente). (N. do A.)

   Mas como saber se um princípio está a ser ensinado em todo o lado ou se não passa do resultado de uma opinião individual? Não estando os grupos isolados em condições de saber o que se diz noutros sítios, era necessário que um centro reunisse todas as instruções para fazer uma espécie de despojamento das vozes e levar ao conhecimento de todos a opinião da maioria (iii).

  (iii) É este o objectivo das nossas publicações, que podem ser consideradas o resultado desse despojamento. Todas as opiniões são aí discutidas, mas as questões só são formuladas em princípios depois de terem sofrido a consagração de todos os controlos, porque só eles lhes podem conferir a força de lei e permitir que se façam afirmações. É por isso que não preconizamos com ligeireza nenhuma teoria e é nisso que a doutrina, procedendo do ensino geral, não é de modo nenhum o produto de uma tese preconcebida; é também o que lhe dá a força e garante o futuro. (N. do A.)

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ALLAN KARDEC, A GÉNESE – Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo, Capítulo I NATUREZA DA REVELAÇÃO ESPÍRITA números de 49 a 53 (X), 12º fragmento da obra. Tradução portuguesa de Maria Manuel Tinoco, Editores Livros de Vida.
(imagem de contextualização: Diógenes e os pássaros de pedra, pintura em acrílico de Costa Brites)

domingo, 4 de outubro de 2015

Inquietações Primaveris ~


Espias e Batedores

A sondagem da morte pelos vivos vem da mais remota Antiguidade.

Através das manifestações da paranormalidade espontânea ou provocada, videntes e profetas, místicos cristãos, subtis maometanos, pitonisas gregas, hebraicas e romanas, magos babilónicos, xanãs das regiões árcticas, feiticeiros africanos, pajés dos trópicos e assim por diante empenharam-se na espionagem possível da morte. Já que todos morremos, é natural o interesse dos vivos pelo que os espera no reverso da vida. Os espias da morte sempre se mostraram misteriosos e sofisticados, servindo-se de atitudes e práticas que os distinguiam do comum dos homens. E como as faculdades paranormais estão sujeitas às variações do humor orgânico, surgiram entre eles os espertalhões egípcios, sumerianos, árabes e chineses, cultivadores de malabarismos e trapaças, encantadores de serpentes e evocadores de espíritos por meios pitónicos. Toda essa farândola de escamoteadores levou os videntes e profetas autênticos ao descrédito. As Ciências em desenvolvimento repeliram em nome da razão essa turba de delirantes profissionais e as religiões amaldiçoaram os que não exerciam essas funções em recintos sagrados, onde se faziam exclusivamente os milagres dessa espécie.

Dante Alighieri reergueu o prestígio dos videntes com as revelações espantosas de sua espionagem secreta (pois poeta é profeta) e pelas mãos de Beatriz percorreu os caminhos da deusa Hécate, espécie de inspectora dos reinos celestes e infernais, e ofereceu ao mundo a versão católica medieval das regiões de luz e sombra. Aumentou nas Igrejas a espionagem do Além e Shakespeare levou para os palcos as suas geniais encenações de fantasmas vingativos. Já entre os gregos haviam ocorrido coisas semelhantes, e na Guerra de Tróia as vidências proféticas de Cassandra semearam o terror das profecias nefastas. Vem de longe o prestígio e o temor dos agouros excitando os dons paranormais legítimos e incentivando as trapaças dos aventureiros. Nessa situação multimilenar de ambivalência temos a maior prova da naturalidade e permanente ocorrência desses fenómenos, e ao mesmo tempo a prova da sua normalidade, como manifestações inerentes à própria natureza humana. A designação científica de paranormal para esse tipo de manifestações revela o excessivo escrúpulo das Ciências em relação aos problemas que ameaçam os seus esquemas rígidos de uma realidade que ainda está longe de abranger na sua totalidade. No tocante apenas ao homem, à natureza humana, os trabalhos de cientistas eminentes como Richet, Crookes, Lodge, Zöllner e tantos outros causaram estupefacção e provocaram reacções brutais no meio científico, o que mostra uma mentalidade fechada e pré-científica. O caso da Parapsicologia é outra prova, e essa recente, da aversão da maioria dos cientistas pelas novas descobertas. Mas essa mentalidade, que Remy Chauvin chamou de alergia ao futuro, já não está a poder resistir ao impacto dos tempos actuais. Não obstante o misoneísmo das academias e outras instituições do género, as Ciências avançaram com tal rapidez neste século que não se poderá mais deter a sua marcha. As exigências tecnológicas e até mesmo o aumento populacional e as exigências bélicas empurram as Ciências para além dos seus estreitos sistemas, forçando-as a perseguir objectivos reais.

No passado recente o sábio Swedenborg, médium vidente e ectoplásmico, almoçando com o filósofo Kant na Alemanha, viu e descreveu-lhe o incêndio da sua própria casa em Estocolmo. Kant duvidou da veracidade do facto, que podia ser simples produto de alucinação. A notícia probante custou a chegar à Alemanha, mas acabou por chegar com os pormenores descritos por Swedenborg. Kant estabelecia a mais rígida linha demarcatória para os limites da Ciência, afirmando o princípio da impossibilidade da Ciência além da matéria. E isso se passava com um homem como Kant. Lombroso acusava Richet, em veementes artigos na imprensa, de devolver a Ciência à superstição, com as suas pesquisas de metapsíquica, e só compreendeu o seu erro depois que a sua mãe se materializou numa sessão com Eusapia Palladino e ele pôde segurá-la nos seus braços. Rhine foi acusado de fraude no seu controle estatístico das experiências parapsicológicas e teve de recorrer a dois congressos científicos para provar, através de exames das comissões competentes, que os controles estavam certos. Para negar os trabalhos de Crookes, inventaram que ele se apaixonara pela médium Florence Cook, pois fizera um poema em louvor à beleza de Katie King, o espírito que se materializava nas suas sessões experimentais. Todos esses factos, e muitos outros, revelam o baixo nível de uma mentalidade pseudocientífica, ainda imersa em tricas e futricas das fases escolares. Por isso Kardec declarou que os homens mais eminentes do planeta revelam às vezes uma leviandade que nos espanta, no trato dos mais graves problemas. Os títulos académicos e as cátedras absolutistas fazem subir a mosca azul à cabeça dos doutores que se julgam muito seguros na sua sabedoria, como se tivessem nas mãos todos os segredos da vida e da morte. Foram homens desse tipo universitário padronizado, dominados pelo fetichismo dos sistemas e das regras inadiáveis, como os clérigos aos seus dogmas, que tentaram e tentam, até hoje, esmagar debaixo dos pés, como baratas indefesas, as mais fecundas conquistas de cientistas independentes. Felizmente a Ciência não está subordinada a essas igrejinhas obstinadas e as grandes figuras do panorama científico tiveram a coragem moral de enfrentá-los em defesa da verdade.

Os videntes e os médiuns sinceros, embora ultrajados, perseguidos, ridicularizados, muitas vezes presos e condenados, nunca se atemorizaram diante desses sabichões (como Richet os chamou) e por toda a parte antecipou as conquistas científicas com as suas previsões. Tornaram-se os espias dos reinos proibidos e foram secundados pelos batedores atrevidos que não só espiaram de longe os mistérios ocultos, mas também penetraram nesses reinos para trazer ao nosso mundo obscuro, não o fogo do Céu roubado por Prometeu, mas as luzes da vida inextinguível que continuam acesas além das lápides dos cemitérios. Esses batedores audaciosos não temeram desprender-se dos corpos mortais sem morrer, para invadir os reinos proibidos. Kardec, na sua extrema prudência de homem de ciências, não aprovou essas aventuras, mas reconheceu o valor das que eram legítimas. Preferiu os métodos frios da pesquisa objectiva, aquecendo-os com o calor do amor pela Humanidade, e criou os métodos específicos da pesquisa espírita, adequados ao objecto da nova Ciência. Através deles, antecipou as descobertas tecnológicas de hoje, como a natureza extrafísica do pensamento e da mente, a constituição plásmica do corpo espiritual, os meios de comunicação com o mundo invisível, a pluralidade dos mundos habitados, a natureza cósmica e não apenas planetária da Humanidade, a possibilidade da acção da mente sobre a matéria e da possibilidade da comunicação com os espíritos de criaturas mortas, das aparições intangíveis e também das aparições tangíveis dos espíritos, a necessidade evolutiva das reencarnações, o problema do ectoplasma, que até hoje aturde os sábios de sabedoria escassa, e assim por diante. Ainda há pouco um desses sábios declarou à imprensa que os fenómenos de materialização de espíritos é hoje teoricamente possível, mas na prática é impossível, pois, para se produzir a materialização de uma criatura humana mediana precisaríamos de duzentos anos de produção de energia. Kardec já havia respondido a essa objecção há mais de um século, quando explicou que a materialização não é um fenómeno físico, mas fisiológico. Ninguém pode produzir um fenómeno de materialização, mesmo com a produção de energia eléctrica durante um milénio, se não dispuser do plasma específico emanado do corpo espiritual de um médium. O plasma físico, quarto estado da matéria, já descoberto por Crookes como matéria radiante, foi agora redescoberto pelos cientistas materialistas da Universidade de Kirov, na URSS, e os seus efeitos demonstrados em experiências sucessivas.

Faltou às Ciências do planeta a humildade necessária para compreenderem que até agora só se haviam preocupado com o aspecto sensível da Natureza (em termos platónicos) esquecendo-se do aspecto inteligível ou espiritual. Toda a realidade se constitui de espírito e de matéria, e o espírito é o elemento estruturador da matéria. Esse o nó górdio que as Ciências do mundo não puderam desatar, preferindo cortá-lo como o fez Alexandre, sem perceberem que nesse corte confessavam a sua potência e caíam no abismo inexplicável da morte. A Ciência Espírita desatou pacientemente o nó e por isso avançou muito além da ilusória sabedoria dos sábios terrenos. Isso não quer dizer que os espíritas tenham sido mais atilados, mas apenas que a humildade e a sensatez de Kardec os livraram de cair no mesmo alçapão. Como já compreendera Bacon, a Ciência é um acto de obediência a Deus. O cientista pode não acreditar em Deus, mas se não obedecer, às suas leis – que estruturam toda a realidade – nada poderão fazer. Ele começa por estudar as leis de cada campo da natureza em que pretende agir, e se não as conhecer com precisão e não as obedecer com rigor, jamais atingirá os seus objectivos. Repelir as manifestações paranormais, que sempre, em todas as latitudes da Terra e em todos os tempos se fizeram presentes e actuantes, pelo pressuposto anticientífico de que não passam de superstições populares, é dar prova de falta de senso e de pretensão orgulhosa. Negar a existência de um poder criador e ordenador do Cosmos é negar a evidência. O pecado das Ciências materialistas não é o da desobediência, pois elas não podem desobedecer a Deus, mas o estúpido pecado do orgulho arrogante. Na hora individual da morte de cada um, todos se curvam para o chão em obediência a Deus. Não há Ciência sem obediência. Essa é a lei básica de todo o desenvolvimento cultural. Não é sensato nem científico negar a realidade na qual estamos entranhados, na qual vivemos e da qual não podemos escapar. A cultura materialista não provém do conhecimento, mas do equívoco. E a finalidade da Ciência nada mais é que desfazer os equívocos para chegar à verdade. As bravatas dos astronautas materialistas que deram voltas na órbita da Terra e, não tendo encontrado Deus, chegaram à conclusão de que ele não existe, não passam de infantilidade. Isso prova que o materialismo leva ao infantilismo cultural. De outro lado encontramos o infantilismo das religiões dogmáticas e formalistas, que aceitam a existência de Deus na forma humana, fazem da criatura humana um Capuchinho Vermelho na Estrada do Bosque e assustam-nos com a imagem do Diabo em forma de Lobo Mau.

Os espias e os batedores da morte desfizeram as lendas ingénuas que nos encantam na infância, mas ao mesmo tempo mostraram-nos que elas correspondem a símbolos oníricos de realidades que devemos identificar ao amanhecermos como homens.

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José Herculano Pires – Educação para a Morte, Espias e Batedores, 20º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: O caranguejo, pintura de William-Adolphe Bouguereau)

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

O Mundo Invisível e a Guerra ~

X
Respon-sabilidades

|Abril de 1917| 

  Estamos assistindo ao fracasso de todo um mundo, um mundo de preconceitos, de erros, de ilusões perdidas, de esperanças enganosas e de quimeras dissipadas. Porém, de tantas ruínas deve nascer uma nova ordem, pois a morte gera a vida e os túmulos, por caminho secreto, conduzem aos berços.

  A horrível tempestade que sopra sobre o globo fez incalculáveis devastações e mais de dez milhões de homens tombaram na sua juventude ou na sua virilidade. Povos inteiros foram despojados, degolados ou escravizados. Vastas regiões foram saqueadas sistematicamente, ficando os seus habitantes condenados à fome e à mais negra miséria, constrangidos a abandonarem os seus lares, vagando sem recursos nos caminhos do exílio. Milhares de navios permanecem no fundo das águas com os seus grandes carregamentos e os restos humanos que eles encerravam.

  À nossa volta só encontramos famílias de luto e a visão dos mutilados entristece as nossas cidades e os nossos campos.

  Não é menor a devastação moral experimentada. E em certas ocasiões, nos perguntamos se a justiça, a verdade, o direito, a liberdade e a fraternidade, luzes que partem do divino foco para iluminar o caminho dos homens, essas forças do Alto que nos amparam nas horas difíceis, poderiam ser espezinhadas, ultrajadas e aniquiladas.

  Poder-se-ia acreditar que a força bruta, a mentira, a hipocrisia e o ódio dominariam o mundo e que o vendaval do abismo passava sobre nós. De todos os cantos da Terra, gritos de angústia e de desespero sobem para o céu!

  Essa é a obra de Guilherme II e do seu povo!

  Se chegarmos à fonte, à causa moral, à origem de tantos males, que encontraremos? Inegavelmente, entre os alemães, um incontido orgulho, uma ânsia de dominação, um sentimento exaltado de superioridade que os leva a desconhecer e até a desprezar o real valor dos seus adversários.

  Todavia, ainda há mais, e aqui tocamos no lado fraco, no ponto mais delicado e mais sensível de nossa civilização, que a torna sempre precária e instável, pois enquanto existir tal causa, violentas correntes poderão originar-se no seio da humanidade, destruindo a laboriosa obra dos séculos.

  Queremos referir-nos à ausência de elementos reais sobre a finalidade da vida humana e da sua continuação no Além. Pensamos na ineficácia do ensino quanto às leis superiores, principalmente a lei da consequência dos actos que recai, automaticamente, sobre nós, traçando o caminho dos nossos destinos.

  Na igreja ou na escola, só encontramos hipóteses sobre esses pontos fundamentais, noções vagas e confusas, sem apoio em nenhuma demonstração real, em nenhuma prova concreta.

  Entretanto, faz mais de meio século que o espiritualismo experimental lança e proclama, para todos os quadrantes, as bases de uma doutrina clara e precisa, resultante das relações estabelecidas, em todas as partes do mundo, com os nossos parentes e amigos já mortos.

  Essa doutrina, confirmada por incontáveis provas de identidade, fornecidas pelas entidades comunicantes, proporciona ao homem o critério de certeza que até agora não o havia conseguido.

  Ora, qual foi a aceitação que essa revelação providencial e regeneradora recebeu? As igrejas fizeram tudo para abafá-la e as escolas só lhe votaram indiferença ou desprezo.

  Sem o esclarecimento necessário para iluminar a sua estrada, sem o fio de Ariadne para guiá-lo no labirinto da vida, exposto às contradições dos maus pastores, o homem deu livre expansão às paixões e aos desejos incontidos que lhe tumultuavam a alma, daí resultando os desastres e as catástrofes que se multiplicam e as espantosas revoluções que agitam fortemente o mundo.

  Envolvida pelo sombrio e grosseiro misticismo que lhe é próprio, a Alemanha se mostrou particularmente refractária à nova corrente de ideias. Ali os estudos psíquicos são muito pouco considerados e o imperador lançou suspeita sobre todos os seus funcionários que se interessavam pelo assunto.

  Caso o sinistro imperador houvesse conhecido melhor as condições da vida no Além, familiarizando-se com o mundo dos espíritos, se soubesse o que aguarda a cada um de nós e o que aguarda a ele mesmo depois da morte, teria assinado o decreto de mobilização do exército alemão, na trágica noite que iria desencadear sobre a Europa um tufão sem igual?

  Através de um bom médium, poderia ter evocado os espíritos ilustres dos génios protectores da antiga Alemanha: Goethe, Kant, Leibniz, Fichte, ou simplesmente a alma de seu pai, Frederico, o Sábio. Por certo, com os seus conselhos, esses nobres espíritos o teriam desviado do seu caminho sangrento.

  Se o Kaiser tivesse estudado, conhecido e se relacionado com o mundo invisível, teria podido ver, antecipadamente, a sorte que a inexorável lei lhe reserva, desdobrando-se-lhe perante os olhos, como em um quadro. Teria visto a sua própria alma, mergulhada no sangue derramado, transpondo os umbrais terríveis do Além e, diante dela, a imensa multidão das vítimas da guerra, acusando-a, esmagando-a, amaldiçoando-a.

  Inutilmente ela procura desviar-se e fugir. Em vão procura solitários e escuros sítios: a multidão a persegue por toda a parte, sem cessar, com as suas ameaças e os seus furores.

  Se, por excepção, o seu miserável espírito descobre algum refúgio tenebroso e desolado, ali se encontra frente a frente com a própria consciência que se tornou mais imperiosa ao desprender-se da matéria. O remorso o persegue e o despedaça! Incessantemente escuta vozes que lhe repetem: “Caim, que fizeste de teus irmãos?”

  Mais tarde haveria a perspectiva dos renascimentos, a longa série das vidas planetárias, quando o seu corpo deformado e a sua alma degradada deverão padecer todas as vergonhas, todas as humilhações, esvaziar o cálice da amargura, expiando as suas culpas com existências obscuras e atormentadas através dos séculos; o resgate do passado pelo rebaixamento, pelo sofrimento e pelas lágrimas.

  Se desse futuro aterrador ele volve os olhos para o momento actual, se pensa no apoio e no auxílio que pode esperar do mundo oculto, que verá?

  No lugar dos espíritos elevados que protegem a França, no lugar de um velho Deus imaginário, concebido pelo seu cérebro exaltado, só verá sobre os seus exércitos a legião negra dos espíritos das trevas, os espíritos atrasados da Idade Média, insuflando sobre os seus soldados o ódio e a perfídia, procurando descobrir com eles todas as possibilidades de uma química infernal e assassina. No espectáculo das atrocidades que provocam, todos esses agentes do mal encontram a satisfação dos seus instintos de violência e crueldade.

  No entanto, se ante essas visões de espanto e horror o Kaiser sentisse estremecer-lhe a carne e apertar-lhe o coração, lançaria para bem longe a sua pena, a fim de não fazer-se credor dos golpes do destino implacável, poupando a humanidade à mais terrível das catástrofes.

  A França também possui parte das responsabilidades; as nossas academias, as universidades e as igrejas não souberam valorizar as verdades e as forças morais que a Doutrina dos Espíritos lhes trazia. Recusaram a mão que, do Alto e desde há 50 anos, lhes era estendida a fim de conduzir o nosso país para uma fonte fecunda e regeneradora.

  Quais têm sido as consequências dos seus ensinos complexos e contraditórios sobre a vida actual?

  Antes da guerra, estávamos diante do espectáculo de uma sociedade sem ideal, sem elevação, sem grandeza e desprovida de beleza moral; as gerações lançavam-se ao acaso, sem finalidade, sem orientação certa e sem saber onde se fixar; pobres seres instáveis, percorrendo o desfiladeiro sombrio da vida, sem uma luz, sem paz no coração e enlameando-se cada dia mais na matéria e na sensualidade.

  O homem consumia todas as suas forças para assegurar a sua vida material e só ouvia, muito fracamente, a voz da alma, que também reclama o seu alimento.

  Diante de tantas doutrinas confusas, igualmente sem bases, sem provas e sem sanções, as grandes verdades ficaram veladas e foram lentamente desnaturadas.

  O erro e a mentira infiltraram-se aos poucos em toda a vida nacional, que se desfigurou por completo tanto na ordem política como nas relações sociais.

  As inteligências e as consciências, percebendo, por uma intuição secreta, que aqueles que tinham a missão de ensinar a verdade a estavam negando, esqueceram-se dela e como consequência lógica das coisas, modificou-se todo o nosso modo de viver, de pensar e de agir. Daí, a hipertrofia do eu, a necessidade irresistível de projectar-se, elogiar-se, de aparecer, de atribuir-se qualidades falsas e méritos fantasiosos que caracterizavam grande número dos nossos contemporâneos; tudo resultou em um transbordar dos apetites e das paixões.

  Não se podia mais, nas conversações, expressar uma opinião forte, um pensamento elevado e desinteressado, sem se ficar sujeito a sorrisos cépticos e zombadores. A virtude se tornava quase ridícula. O adultério e a libertinagem eram tolerados com indulgência.

  A exploração descarada e as trapaças financeiras, as práticas dos homens que especulam na Bolsa, a rapina, quando resultavam em fortuna, já não despertavam reprovação.

  No terreno político havia o assalto aos cargos oficiais e ao poder; a protecção e o favor substituíam as aptidões; os medíocres e os incapazes ocupavam os melhores postos. Quase sempre se confiava o governo aos menos dignos de exercê-lo. A imprevidência, a má administração dos recursos e a instabilidade ministerial anulavam as mais belas obras nacionais.

  Quando a grande lei moral – a dos deveres e das responsabilidades – cessou de brilhar aos olhos dos homens, obliteraram-se todos os princípios dela decorrentes. Fez-se noite nas consciências e o mal ampliou o seu domínio.

  Como a noção de lei é inseparável da ideia de Deus, que é o seu criador, enquanto se enfraquece o culto do poder supremo, vê-se crescer o do bezerro de ouro e se acentua a descida para o abismo da matéria!

  A borrasca veio e o seu sopro poderoso varreu muitas vaidades, valores falsos e juízos enganosos.

  A guerra descobriu todas as nossas feridas, fazendo ressaltar insuficiências e incapacidades, colocando no justo lugar os medíocres que ocupavam certas posições. Sem dúvida esses falsos valores não desapareceram completamente do nosso cenário político e do nosso país, pelos males que carrega, muito se apercebe disso. Pelo menos, já são julgados como merecem, a condenação está clara nos corações e o seu domínio está se acabando.

  Junto com os nossos vícios e defeitos, dormitam na alma francesa qualidades varonis que os acontecimentos destacaram. A nossa desmoralização era mais aparente que real, mais superficial do que profunda. O génio da raça reapareceu!

  As consciências honestas e os valores morais surgiram em quantidade, principalmente no meio das tropas, e foram elas, com a ajuda imensa do mundo invisível, que salvaram a honra da França, impedindo a sua ruína, a sua queda e o seu aniquilamento.

  Já apresentamos, em um artigo anterior, o papel importante que o mundo invisível desempenhou na actual guerra e mostramos o constante apoio que ele prestou aos nossos exércitos, mas essa exposição foi insuficiente.

  Não se saberá e não se compreenderá jamais toda a extensão dos esforços e das energias empregadas pelos espíritos protectores da França para animar e sustentar os seus soldados na terrível luta empenhada. Eles não somente lhes excitam e inflamam o vigor nos combates, como também lhes inspiram uma resignação heróica, nas longas horas de vigília e de espera na trincheira.

  A sua coragem no ataque era proverbial, mas qualidades ocultas de paciência e de perseverança se destacam agora na alma nacional.

  Indagavam se as nossas tropas ainda poderiam aguentar o rigor de um terceiro inverno, depois de dois anos de fadigas e sofrimentos. Pois bem, eles suportaram, com a mesma coragem, as rajadas de projécteis e as ondas de gases asfixiantes; em determinados dias, a fome, o frio, a humidade, causadoras de tantos males, e o contacto com insectos repugnantes.

  Em 1870-71, como soldado voluntário, pude verificar que a mentalidade das tropas era muito diferente, mas naquela ocasião o mundo invisível não nos sustentava com os seus fluidos poderosos e a França foi vencida.

  Ao rubro fulgor dos factos, como já afirmávamos, surgiram todas as nossas misérias morais, a fraqueza de carácter e das consciências, tudo quanto era vão, artificial e enganador na nossa sociedade.

  Por havermos falseado a verdade em quase todas as coisas, nos negócios, no ensino e na política, tivemos que suportar, como castigo, a mentira no que ela tem de mais odioso.

  O imperador alemão não parou de mentir, com prejuízo nosso, diante do Universo, invocando o nome de Deus. A partir de então, a verdade se mostrou como o único meio de assegurar a lealdade e a dignidade nas relações humanas. Por outro lado, os exemplos heróicos dos nossos soldados lograram imensa repercussão no país inteiro. O seu sacrifício em face do dever, a sua renúncia diante do sofrimento e da morte eram de tal monta que envergonhavam os egoístas e aqueles que só procuravam os gozos. A sua obra principal, sem qualquer dúvida, consiste em libertar o território, mas também possui uma grande lição moral que eles pensam continuar, mesmo após a guerra.

  Pelo menos é isso que se depreende das inúmeras cartas recebidas da linha de combate. Eles querem que um vento puro varra a espessa atmosfera que atrapalha o nosso olhar, ocultando-nos as realidades terríveis. Sonham com um ideal nobre e uma sociedade espiritualizada onde a vida da alma tenha livre expansão.

  Nos momentos trágicos, quais relâmpagos, ou paulatinamente na espera das trincheiras, entreviram a soberana lei que faz recair sobre cada um e sobre todos as consequências dos actos praticados.

  Entenderam que por havermos, durante muito tempo, acatado e acariciado as anti-verdades, temos agora de sofrer as mentiras do estrangeiro, bem mais pesadas e grosseiras.

  Compreenderam também que, por procurarmos demasiado a vida fácil, dourada pela fortuna e pelos prazeres, agora teremos de suportar as privações e as misérias.

  Afinal, sentiram que essa visão e compreensão das coisas superiores deve permanecer no pensamento e na consciência de todos, para amparar o nosso país na ladeira fatal por onde está resvalando.

  Essas almas generosas representam, por certo, somente pequena minoria do país, todavia podem agir como o fermento, que faz crescer a massa, pois os inimigos da espiritualidade são numerosos e desejarão manter o seu domínio de todas as maneiras.

  Após expulsarmos o invasor, deveremos ainda lutar contra as ideias perniciosas, as oposições e as rotinas do interior do nosso país. Pelo encargo de educar a infância haverá os mais sérios combates, porque quem encaminha a criança tem o futuro mais seguro.

  A educação oficial estará à altura de sua missão? É justo duvidar, mas os seus orientadores deveriam entender que não é através de negativas ou de uma moral vaga e sem sanções que se conseguirá o insucesso do obscurantismo e refazer a consciência popular.

  Aí então o Espiritismo poderá intervir e desempenhar o seu providencial papel. Ele oferece, simultaneamente, a base e o coroamento inexistentes para a educação popular, isto é, a prova em que repousa todo o edifício dos nossos conhecimentos e a doutrina moral que é o seu ápice e lhe garante a harmonia.

  Todavia, não está na sorte dos divinos enviados o facto de serem desprezados e zombados? Assim, o Espiritismo não foge a essa regra, entretanto a sucessão dos testemunhos e a adesão de eminentes homens, que lhe dão, aos poucos, um lugar na ciência inglesa, certamente terminarão impressionando o nosso país. Chegar-se-á a aceitar a sobrevivência da alma e o seu progresso pelas reencarnações, tal como se aceitam todos os axiomas científicos como, por exemplo, o movimento da Terra, sem que, entretanto, tenha havido uma verificação pessoal.

  Enquanto aguardamos essa época, cabe principalmente a nós, aos pais e aos chefes de família, velar para que a inteligência e a consciência das crianças não sejam falseadas por um mau ensino, destituído de nobres princípios.

  Terminada a guerra, as coisas permanecerão como dantes? Com o irresistível trabalho dos acontecimentos, haverá um esforço mental em muitos espíritos, varrendo-se muitos preconceitos e pontos de vista errados, sendo prudente não nos desesperarmos de nada, nem de ninguém. Na verdade quantos pensamentos estarão libertos da prepotência que até há pouco tempo suportavam!

  Quantas consciências, balançadas profundamente, abandonarão os artifícios e as convenções infantis que atrapalhavam o seu voo para uma luz mais viva!

  Parece que a vontade divina consiste em que o mundo se reforme e se regenere por meio da dor. Jamais, como agora, se oferecerá a ocasião mais propícia; aproveitemo-la, portanto, para divulgar por toda a parte a grande doutrina espiritualista que há de encorajar e pôr a humanidade de pé.

  Além do mundo invisível, na nossa árdua tarefa de divulgação da doutrina, temos dos companheiros de luta, que nos animam incessantemente e nos impulsionam para o Alto, o dever e a verdade.

  Durante 40 anos trabalhamos em conjunto com eles, seja por meio da escrita ou da palavra. Inicialmente, em particular no nosso trabalho como conferencistas, recolhemos mais zombarias do que aplausos. O Espiritismo então era tido como coisa ridícula, mas pouco a pouco a opinião pública se tornou mais favorável, concordando em nos ouvir, embora sem extrair grandes benefícios do nosso ensinamento.

  Actualmente já escutam, reflectem, estudam e compreendem, porém isso não basta: é necessário concretizar o conhecimento das leis superiores em exemplos.

  Mais tarde haverão de nos fazer inteira justiça. Entenderão que se houvessem conhecido e respeitado a lei das responsabilidades, muitos sofrimentos, desfalecimentos e fracassos teriam sido evitados.

  Chegará o tempo em que, calculando-se toda a extensão e consequência dos erros cometidos, serão aprisionados ao pelourinho da opinião pública os dirigentes de todas as espécies: os gozadores, os libertinos, os corruptos e os corruptores, cujos actos nos conduziram ao fundo do abismo.

  Os sacrifícios já realizados na luta e no alívio das misérias comuns frutificarão e do sangue que for derramado se levantará uma floração de novas virtudes.

  Vivemos num desses instantes graves, onde, no ardor dos acontecimentos, a história transforma a humanidade.

  Os aliados fazem um esforço supremo para conseguir uma vida mais nobre, mais digna da alma e dos seus destinos. Confiemos nos desígnios de Deus sobre a nossa pátria. A França purifica-se pela dor e não será inútil o sofrimento infinito que os seus filhos suportam.

/…


LÉON DENIS, O Mundo Invisível e a Guerra, X Responsabilidades, Abril de 1917, 26º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Tanque de guerra britânico capturado pelos Alemães, durante a Primeira Guerra Mundial)

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

O sentido da vida ~


Deus | e o Homem

As religiões apontam contra o Espiritismo aquilo que chamam de a palavra de Deus, citando os versículos do primeiro livro de Moisés, na Bíblia, a Génese, que afirma haver Deus criado o homem à sua imagem e semelhança. De acordo com esse princípio, aparentemente bíblico, o homem tem de ser elemento à parte na criação, porque é a própria imagem de Deus colocado dentro do Universo. O Espiritismo nos mostra, porém, que esse conceito, ao invés de elevar o homem, diminui a DeusKardec nos diz, por isso mesmo, no número 12 do capítulo XII de A Génese:

“Não rejeitemos, pois, a Génese bíblica; estudemo-la, ao contrário, como se estuda a história da infância dos povos”.

Em O Livro dos Espíritos, livro básico da doutrina, encontramos a seguinte definição de Deus: “... é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.” Vemos, portanto, que Deus não foi esquecido, nem ficou à margem, mas continua colocado, com mais justeza e maior razão, na base de tudo quanto existe.

Comentando a teoria científica de que as coisas do Universo provêm das propriedades íntimas da matéria, sem intervenção de qualquer outro princípio, Kardec diz, nesse mesmo livro:

“Atribuir a formação primordial das coisas às propriedades intrínsecas da matéria seria tomar o efeito pela causa, pois que essas propriedades são, por sua vez, efeitos que devem ter uma causa.”

Sabemos, além disso, que a natureza do efeito decorre sempre da natureza da causa. Analisando o Universo, pelo que dele podemos aprender, vemos que os seus efeitos são de natureza inteligente, e se entrosam de maneira tão harmónica, tão perfeita, que só podem decorrer de uma causa inteligente.

Vemos, nesse ponto, que o Espiritismo estabelece uma estreita relação entre a Ciência e a Religião, por meio da Filosofia. Sem negar a existência de Deus, ele contraria a concepção antropomórfica das religiões e estabelece uma teoria que, embora não tenha carácter experimental imediato, não deixa de ser tipicamente científica. Deus já não é matéria de crença, simplesmente. É objecto de dedução filosófica, mas seguindo os métodos de observação do pensamento científico.

No tocante à formação do homem à imagem e semelhança de Deus, mais uma vez não vemos razão para o escrúpulo e o espanto dos religiosos. Diz a Génese bíblica que o homem foi feito de terra, e embora não aceitando literalmente a imagem de um boneco de barro feito por alguém, que seria Deus, o Espiritismo aceita o princípio de que o homem procede do barro terreno, de que a vida orgânica teve princípio, juntamente com o desenvolvimento mental e psíquico, na argila fecunda dos primeiros tempos da formação planetária. A Bíblia nos apresenta, pois, apenas uma imagem daquilo que teria ocorrido, na distância dos milénios. Deus falou, através da Bíblia, por meio de parábolas, como tantas vezes falou Cristo, na sua passagem terrena, para os homens de seu tempo.

“Mas – dirão os religiosos apegados ao texto –, e onde ficam a imagem e semelhança de Deus, na formação do homem?”

De facto, não podemos conceber Deus como um animal vertebrado, da classe dos mamíferos, embora superior ao homem, por atributos cósmicos que esse ainda não conseguiu obter. O Espiritismo não admite que a nossa forma orgânica, material, seja a forma do próprio Deus.

À pergunta formulada por Allan Kardec, no primeiro capítulo de O Livro dos Espíritos

“Pode o homem compreender a natureza íntima de Deus?”, responderam os espíritos que o assistiam no trabalho de codificação da doutrina:

“– Não, pois lhe falta o sentido necessário.”

Mais adiante, no mesmo capítulo, o próprio Kardec esclarece:

“A inferioridade das faculdades do homem não lhe permite compreender a natureza íntima de Deus. Na infância da Humanidade o homem o confunde muitas vezes com a criatura, cujas imperfeições lhe atribui; mas, à medida que nele se desenvolve o senso moral, o seu pensamento penetra melhor no âmago das coisas; então, faz ideia mais justa da Divindade e, ainda que sempre incompleta, mais conforme à sã razão.”

Não vemos nenhum motivo para negar que o homem tenha sido feito, se assim se pode realmente dizer, à imagem e semelhança de Deusembora não concordemos que Deus tenha a forma orgânica do homem. E é o próprio O Livro dos Espíritos que nos fornece os dados necessários a uma interpretação espírita desse problema. Encontramos no número 77 do seu primeiro capítulo a seguinte pergunta de Kardec e a respectiva resposta dos espíritos:

“Os espíritos têm forma determinada, limitada e constante?”

“– Para vós, não; para nós, sim. O espírito, se o quiserdes, é uma chama, um clarão, uma centelha etérea.”

Ora, se compreendermos que o homem não é o seu corpo animal, mas o espírito que anima esse corpo e realiza através dele a sua evolução na vida terrena, veremos que as palavras da Bíblia não foram prejudicadas pela interpretação espírita de Deus; e veremos também que há uma relação mais íntima e profunda, de essência e não de forma, entre Deus e o homem, do que a relação materialista estabelecida pelos exegetas bíblicos das várias religiões.

/…


José Herculano Pires, O Sentido da Vida, Deus e o Homem, 4º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Platão e Aristóteles, pormenor d'A escola de Atenas de Rafael Sanzio, 1509)

terça-feira, 1 de setembro de 2015

| o grande enigma ~

as harmonias do Espaço (II)

As relações harmónicas que regem a situação dos planetas no Espaço representam, como o estabeleceu Azbel, (i) a extensão do nosso teclado sonoro e se encontram conforme a lei das distâncias e dos movimentos. O nosso sistema solar representa uma espécie de edifício de oito andares, isto é, oito oitavas, com uma escadaria formada de 320 degraus ou ondas harmónicas, sobre a qual os planetas estão colocados, ocupando “patamares indicados pela harmonia de um acorde perfeito e múltiplo”.

As dissonâncias são apenas aparentes ou transitórias. O acorde encontra-se no fundo de tudo. As regras da nossa harmonia musical parecem ser apenas consequência, aplicação muito imperfeita da lei da harmonia soberana que preside à marcha dos mundos. Podemos, pois, crer, logicamente, que a melodia das esferas seria inteligível para o nosso Espírito, se os nossos sentidos pudessem perceber as ondas sonoras que enchem o Espaço. (ii)

A regra geral, embora absoluta, não é, entretanto, estreita e rígida. Em certos casos, no de Neptuno, a harmonia relativa parece afastar-se do princípionunca, entretanto, de maneira a sair dele. O estudo dos movimentos planetários fornece a demonstração evidente desse facto.

Nessa ordem de estudos, mais do que em qualquer outra, vemos manifestar-se, em sua imponente grandeza, a lei do Belo que rege o Universo. Mal a nossa atenção é dirigida para as imensidades siderais, a sensação estética torna-se intensa. Essa sensação vai engrandecer-se agora e crescer, à medida que se precisarem as regras da harmonia universal, à proporção que se levantar para nós o véu que nos oculta os esplendores celestes.

Por toda a parte encontraremos essa concordância que encanta e comove; nesse domínio, nenhuma dessas discordâncias, dessas decepções, tão frequentes no seio da Humanidade.

Por toda a parte se desdobra essa potência de beleza que leva ao infinito as suas combinações, abrangendo em igual unidade todas as leis, em todos os sentidos: aritmética, geométrica, estética.

O Universo é um poema sublime do qual começamos a soletrar o primeiro canto. Apenas discernimos algumas notas, alguns murmúrios longínquos e enfraquecidos! Já essas primeiras letras do maravilhoso alfabeto musical nos enchem de entusiasmo. Que será quando, tornados mais dignos de interpretar a divina linguagem, percebermos, compreendermos as grandes harmonias do Espaço, o acorde infinito na variedade infinita, o canto modulado por esses milhões de astros que, na diversidade prodigiosa de seus volumes e dos seus movimentos, afinam as suas vibrações por uma simpatia eterna?

Perguntar-se-á, porém: Que diz essa música celeste, essa voz dos céus profundos?

Essa linguagem ritmada é o Verbo por excelência, aquele pelo qual todos os mundos e todos os seres superiores se comunicam entre si, se chamam através das distâncias; pelo qual nos comunicaremos um dia com as outras famílias humanas que povoam o Espaço estrelado.

É princípio mesmo das vibrações que servem para traduzir o pensamento, a telegrafia universal, veículo da ideia em todas as regiões do Universo, linguagem das almas elevadas, entretendo-se de um astro ao outro com as suas obras comuns, com o fim a atingir, com os progressos a realizar.

É ainda um hino que os mundos cantam a Deus, ora cântico de alegria, de adoração, ora de lamentações e de prece; é a grande voz das coisas, o grito de amor que sobe eternamente para a Inteligência ordenadora dos universos.

Quando, pois, saberemos destacar os nossos pensamentos e elevá-los para os cimos? Quando saberemos penetrar esses mistérios do céu e compreender que cada descobrimento realizado, cada conquista prosseguida nessa senda de luz e de beleza, contribui para enobrecer o nosso espírito e para engrandecer a nossa vida moral e nos proporcionar alegrias superiores a todas as da matéria?

Quando, pois, compreenderemos que é lá, nesse esplêndido Universo, que o nosso próprio destino se desenvolve, e estudá-lo é estudar o próprio meio onde somos chamados a reviver, a evolver sem cessar, penetrando-nos cada vez mais das harmonias que o enchem? Que em toda a parte a vida se expande em florescências de Almas? Que o Espaço é povoado de sociedades sem-número; às quais o ser humano está ligado pelas leis de sua natureza e de seu futuro?

Ah! Quanto são de lamentar aqueles que desviam os seus olhares desses espectáculos e o seu Espírito desses problemas! Não há estudo mais impressionante, mais comovente, revelação mais alta da ciência e da arte, mais sublime lição!

Não: o segredo da nossa felicidade, do nosso poder, do nosso futuro, não está nas coisas efémeras deste mundo; reside nos ensinamentos do Alto, do Além. E os educadores da Humanidade são muito inconscientes ou muito culpados, porque não cuidam de elevar as Almas para os cimos onde resplandece a verdadeira luz.

Se a dúvida ou a incerteza nos assediam; se a vida nos parece pesada; se tateamos na noite à procura do fim; se o pessimismo e a tristeza nos invadem; acusemos a nós próprios, porque o grande livro do Infinito está aberto aos nossos olhos, com as suas páginas magníficas, das quais cada palavra é um grupo de astros, cada letra um sol – o grande livro onde devemos aprender a ler o sublime ensinamento. A Verdade ali está escrita em letras de ouro e de fogo; chama solícita aos nossos olhos – Verdade –, realidade mais bela que todas as lendas e todas as ficções.

É ela quem nos conta a vida imperecível da Alma, as suas vidas renascentes na espiral dos mundos, as estações inumeráveis no trajecto radioso, o prosseguimento do eterno bem, a conquista da plena consciência, a alegria de sempre viver para sempre amar, sempre subir, sempre adquirir novas potências, virtudes mais altas, percepções mais vastas. E, acima da possessão da eterna Beleza, a felicidade de penetrar as leis, de associar-se mais estreitamente à obra divina e à evolução das Humanidades.

Desses magníficos estudos, a ideia de Deus se expande mais majestosa, mais serena. A ciência das harmonias celestes vale um pedestal grandioso sobre o qual se erige a augusta figura – Beleza soberana cujo brilho, muito ofuscante para os nossos fracos olhos, fica ainda velado, mas irradia docemente através da obscuridade que a envolve.

Ideia de Deus – centro inefável para onde verguem e se fundem, em síntese sem limites, todas as ciências, todas as artes, todas as verdades superiores –, tu és a primeira e a última palavra das coisas presentes ou passadas, próximas ou longínquas; tu és a própria Lei, a causa única de todas as coisas, a união absoluta, fundamental, do Bem e do Belo, que reclama o pensamento, que exige a consciência e na qual a Alma humana encontra a sua razão de ser e a fonte inesgotável de suas forças, de suas luzes, de suas inspirações.

/…

(i) Azbel, Harmonia dos Mundos, pág. 10.
(ii) “O Sr. Emílio Chizat, diz Azbel (A música no espaço), verifica que o jogo de órgão, chamado “vozes celestes”, é a aplicação musical intuitiva do papel importante das “ideias de estrela”. É provável que manifestações sinfónicas sejam feitas ulteriormente, a esse respeito, que poderão reservar ao público impressões inesperadas. Que possam elas levar os nossos músicos “terrestres”, que se extraviam, a noções um pouco mais altas e reais do sacerdócio da harmonia, que deveriam preencher entre nós.”


Léon Denis, O Grande Enigma, Primeira parte / Deus e o Universo, IV As harmonias do Espaço 2 de 2, 15º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: As majestosas e violentas palavras dos poemas, pintura em acrílico de Costa Brites)

sábado, 22 de agosto de 2015

Victor Hugo e o invisível ~


Victor Hugo e o Sentido da História |

Victor Hugo cria e sabia que a história temporal, não obstante a sua objectividade material, está destinada a voltar ao seio da história divina. Ou seja, que o efeito histórico deverá reintegrar-se no seio do divino para pôr termo a um ''tempo defeituoso'', onde o Ser se debate atacado por duas contradições existenciais.

O poeta francês compreendeu que a verdadeira poesia é uma emanação do mundo interno da natureza e que a sua essência se traduz por uma voz que sobe dos abismos da alma. Descobriu na história uma sucessão de factos cuja finalidade têm a sua raiz nos séculos palingenésicos do Ser. Viu assim que a história das existências se refunde na história dos seres espirituais, em cujo seio está a realidade divina do mundo dos espíritos.

Para Victor Hugo, o apocalipse terreno desembocava num apocalipse espiritual, dois processos que só se explicam pela lei da reencarnação. A história morre mas renasce com os espíritos; a sua objectividade está determinada pelo encarnar e desencarnar dos seres espirituais, ou seja, pela alma dos homens, antes espíritos, que encarnam e desencarnam. Kant tembém pressentiu este mesmo fenómeno ao reconhecer a realidade de um mundo invisível com a possibilidade de comunicar-se com o mundo dos homens.

A reencarnação dos espíritos é a verdadeira base da história humana, a que se mostra como processo visível na causa da história espiritual e divina que a rege. Victor Hugo acreditou nesta dualidade histórica, numa "história humana" fundada na história divina e transcendental".

A reencarnação dos espíritos é uma penetração da história divina e temporal e humana. O processo de encarnação e desencarnação a que estão submetidos os espíritos é a base real de todo o mistério histórico. E a poesia de Hugo foi como uma revelação através da qual a beleza contribuiu com o desenvolvimento da história em relação com a história espiritual e divina.

A inspiração do grande poeta francês captou nas suas bases mediúnicas que não haverá história natural e humana sem história espiritual e divina. O seu génio se transfigurou de tal modo que pôde compreender que todo o humano é um processo determinado pela reencarnação dos espíritos, ou seja, que História e Reencarnação são dois fenómenos movidos pelo mundo invisível.

Espiritismo como manifestação objectiva do Espírito de Verdade é a noção mais positiva para deixar demonstrado que o mundo dos espíritos é a base real do mundo dos homens. Opera-se assim uma transfiguração da morte pela força religiosa da mediunidade. Do contrário, o que seria a história sem a potência escatológica da mediunidade? Resultaria um fenómeno sem sentido e um processo caótico destinado à morte e ao nada.

Portanto, se a poesia de Victor Hugo foi profética é porque foi religiosa, apocalíptica porque mediúnica. Ela se uniu ao Espírito de Verdade para proclamar que Deus existe e que tudo avança progressivamente com o fim de instalar-se na Cidade dos Espíritos Puros. Os críticos esqueceram que se Hugo foi genial é porque dentro de seu ser imortal estava a luz do mundo invisível e que se a sua poesia determinou um romantismo filosófico e religioso original é porque os tripés da ilha de Jersey lhe abriram as janelas do infinito. Porque o génio de Victor Hugo sem o fenómeno mediúnico resultaria num enigma, do mesmo modo que uma nova visão histórica sem a lei da reencarnação do ser se tornaria um caos entremeado de horror e beleza.

Victor Hugo acreditava na sua espiritualidade pessoal. Achou no seu próprio ser as bases de todo um esquema metafísico e religioso do universo. Sentia-se uma força ultra-material por cujo motivo a sua carne se transfigurava. Era um vidente que via continuamente o mais além das coisas, o que o fez não se deter nos caminhos puramente materiais da vida. A existência para o poeta foi por uma senda que conduz ao conhecimento dos grandes enigmas da natureza.

O seu génio jamais repeliu o cristianismo; pelo contrário, viu na doutrina de Jesus a mais alta e acabada expressão das divinas revelações. Por isso, a sua criação poética e literária difere da dos seus colegas, que consideravam o homem somente um fenómeno fisiológico. O seu lema era: "Existir para a Verdade", mas este existir não se apoiava na efémera vida material. Ele pressentiu um existir infinito relacionado com o mistério do universo. A vida para o poeta era uma espiritualidade invencível e triunfante.

Acreditava no eterno porque via na natureza e na história um princípio imortal, o que o fez ter fé nessa verdade inalterável procedente de Deus. Acreditou nos "espíritos" da terra e do ar, da água e do vento, como os iniciados medievais. Desde a sua infância, cultivou uma filosofia espiritualista, que confirmou experimentalmente ao conhecer a mensagem que lhe ditaram os tripés na ilha de Jersey.

Auguste Vacqueire, no seu livro As migalhas da História, escreveu afirmando que Victor Hugo era Espírita, como o foram Théophile Gautier, Victorien Sardou, Giuseppe Mazzine, Camille Flammarion e outros pensadores dos fins do século XIX. Acreditou realmente na imortalidade da alma e na sua evolução palingenésica. Émile de Girardin e Eugénio Nus deram também testemunho das suas convicções espirituais, como foi confirmado na edição de 7 de Maio de 1899 do "Les Annales Politique et Litteraire".

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Humberto MariottiVictor Hugo Espírita, Victor Hugo e o Sentido da História, 12º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Criança com uma boneca, pintura de Anne-Louis GIRODET-TRIOSON)

terça-feira, 11 de agosto de 2015

O Génio Céltico e o Mundo Invisível ~


Capítulo VIII

Palingenesia: preexistências e vidas sucessivas. A lei das reencarnações (II)

   Após um tempo de permanência e repouso no Espaço, a alma, dizem os espíritos, deve renascer na condição humana. Ela leva consigo toda a herança do passado, bom ou mau, e volta para adquirir novos poderes, novos méritos que facilitarão a sua ascensão, a sua marcha para a frente. E assim, de renascimento em renascimento, o espírito progride, eleva-se, sobe na direcção desse ideal de perfeição que é o objectivo de toda evolução universal.

   A Terra é um mundo de provas e de reparação, onde as almas se preparam para uma vida mais elevada. Não há iniciação sem provas, nem reparação sem dor. Elas, sozinhas, podem purificar a alma, sagrá-la, torná-la digna de penetrar nos mundos felizes. Esses mundos, ou sistemas de mundos, são dispostos no Universo em planos ou graus sucessivos. As condições de vida nesses planos são tanto mais perfeitas e mais harmónicas quanto mais acentuada é a evolução dos seres que os povoam. Ninguém se eleva para um grau superior a não ser quando adquiriu, na fase precedente, as perfeições inerentes a esse meio.

   Ora, a variedade quase infinita e a desigualdade das condições de existência sobre a Terra não permitem crer que nela se possa adquirir as qualidades necessárias no decorrer de uma só vida. É preciso, para a grande maioria dos homens, uma sucessão de vidas, bem vividas, para realizar esse estado de subtileza fluídica e de maturidade moral que lhes permitirá penetrar nas sociedades mais avançadas.

   Daí resulta que, se todas as almas terrestres fossem indistintamente chamadas a renascer no seio das sociedades superiores, essas seriam contaminadas e o plano geral de evolução estaria alterado, inteiramente falsificado.

   Essa maneira de ver esse juízo são confirmados pelo atestado de inúmeros parentes e amigos mortos com os quais me foi possível relacionar no decorrer de minha longa vida.

   É-nos feita a objecção de que isso não acontece por toda a parte. Na Inglaterra e na América do Norte diz-se que certos espíritos ficam em dúvida e negam a necessidade de renascimentos na Terra. Essa contradição aparente é o principal argumento dos adversários do Espiritismo de Kardec.

   Se examinarmos a questão de perto, um facto aparece de início: é que todos esses espíritos, opostos à ideia da reencarnação, pertencem, no mundo, ao culto protestante. Sabe-se que essa forma de Cristianismo dá aos seus adeptos uma educação religiosa muito rigorosa e intensa, uma fé robusta cujas tendências e pontos de vista se prolongam com tenacidade na vida no Além.

   O Protestantismo ensina que a morte da alma é julgada de um modo definitivo e fixada para a eternidade no paraíso ou no inferno.

   O protestante não ora para as almas dos mortos, a sua sorte é irrevogável. Uma doutrina rígida que elimina a alma culpada de toda a possibilidade de reparação e retira de Deus o prestígio sublime da misericórdia e do perdão. Com ela, nenhum meio há para voltar à Terra.

   O Catolicismo, ao menos, pela noção de purgatório, abre uma saída à redenção possível, e certos sacerdotes vêem nessa teoria uma eventual aproximação com o Espiritismo, se a Igreja algum dia chegar a atenuar a sua intransigência e reconhecer que o purgatório, esse lugar de reparação, é a própria Terra, pelo processo dos renascimentos.

   Pode então explicar-se, pelos preconceitos dogmáticos inveterados, a oposição de certos espíritos, nos meios protestantes, à lei das reencarnações.

   Mas, dir-se-á, já que todo o passado está escrito em nós, na nossa consciência profunda, como demonstram as experiências de exteriorização – sendo a morte a exteriorização completa e persistente – como é que esses espíritos se podem enganar sobre a natureza desse passado e a forma de seu futuro?

   Sim, sem dúvida, todo o passado está escrito em nós, como num livro, nos recônditos ocultos da memória subconsciente. Mas do mesmo modo que para se ler um livro é preciso, inicialmente, abri-lo, depois querer e saber lê-lo, para explorar as profundezas do ser é necessário um acto de vontade. É por esse processo que o hipnotizador obtém do paciente a reconstituição de suas vidas passadas. Não nos ocorre, sermos obrigados a fazer um esforço mental, esforço repetido e prolongado, para voltar a fixar, na vida actual, as lembranças adormecidas?

   Muitas pessoas imaginam que a morte é como um véu que se destrói e que uma viva luz logo aparece sobre todos os problemas que lhe concernem. Erro grave, pois é lentamente, por todo um trabalho interior, por observações, por comparações repetidas que a alma do morto se liberta, pouco a pouco, das rotinas, dos preconceitos das falsas noções que a educação terrestre acumulou sobre ela. No entanto, ainda é preciso, para isso, a assistência e o concurso de espíritos mais adiantados.

   Mas, como nos diz Allan Kardec, o espírito, na sua volta ao espaço, procura os grupos de almas em vibração harmónica com os seus próprios modos de ver e com os seus sentimentos; ele se associa à vida espiritual e, desde então, confinado nesse meio ambiente particular, pode persistir, por muito tempo, nos erros e nos costumes comuns.

   Todos os espíritas conhecem esse estado de alma que se revela nas comunicações do além e desejam, às vezes, provas originais de identidade que não são sem interesse e sem lucro, sob o ponto de vista da demonstração da sobrevivência.

   Durante as minhas experiências encontrei, às vezes, espíritos dessa natureza, que não se lembravam de ter vivido muitas vezes na nossa Terra e que negavam, de bom grado, o princípio das existências sucessivas. Eu os convidei, então, a pesquisar no âmago escondido de seu subconsciente e a procurar os traços de suas vidas anteriores. Nas reuniões seguintes eles vinham declarar-me que tinham encontrado esses resquícios e podiam retomar o fio de seus últimos renascimentos. Pude observar que esses espíritos eram, geralmente, de ordem inferior. Os seus antecedentes, pouco importantes, se reuniam em várias existências de paixão, de violência, de desordem, fontes de amargos desgostos no além.

   Não está no meu pensamento comparar esses espíritos atrasados com aqueles de origem anglo-saxónica, de que falei mais acima. Aqueles possuem, talvez, as riquezas ocultas, intelectuais e morais cuja importância eles ignoram. Eu exorto os nossos amigos de ultramar para que realizem pesquisas metódicas, uma análise profunda das suas faculdades e de suas lembranças. O encadeamento de suas existências terrestres, então, se reconstituirá e nós chegaremos, assim, à unidade de pontos de vista susceptível de dar à doutrina das vidas sucessivas toda a sua autoridade, toda a sua amplitude. Para isso bastará pôr em acção esta alavanca incomparável: a vontade!

   Notemos, aliás, que, desde há cinquenta anos, a crença na pluralidade das vidas da alma na Terra não cessou de aumentar nos Estados Unidos e na Inglaterra. Ela contava, há trinta anos, com alguns representantes isolados, enquanto que hoje, com a própria advertência dos espíritas ingleses, cerca de metade entre eles admite a volta possível, às vezes necessária, da alma sobre a Terra.

   Eis, a propósito, a opinião de dois representantes, os mais autorizados e os mais ilustres, do pensamento espiritualista britânico, formulada em obras recentes.

   O prof. Sir William Barrett, da Universidade de Dublin, escreveu no seu livro No Limiar do Invisível, páginas 214 e 215:

   “Opunha-se à ideia de reencarnação o esquecimento total das nossas existências passadas, mas isso pode ser somente um eclipse temporário. É possível que a lembrança de nossas vidas anteriores nos retorne, pouco a pouco, durante os nossos progressos espirituais, à medida que atingimos uma vida mais ampla, com uma consciência mais extensa.”

   E ele acrescenta uma citação do Sr. Massey, afirmativa e explicativa, sobre a reencarnação na Terra:

   “A razão da reencarnação tem a sua fonte na atracção que o nosso mundo exerce. O que nos trouxe aqui uma vez nos reconduzirá, sem dúvida, outras vezes, enquanto a causa que nos impulsiona não tenha mudado. Só a regeneração, isto é, a renovação de nossa natureza é que nos isenta da reencarnação.”

   Nos seus estudos sobre os múltiplos aspectos da personalidade humana, Sir Barrett também dizia:

   “Os casos de invasão psíquica tornam compreensíveis as reencarnações carnais.”

   De sua parte, Oliver Lodge, reitor da Universidade de Birmingham, escreveu na sua obra Evolução Biológica e Espiritual do Homem:

   “Pode admitir-se, em certos casos, a possibilidade das encarnações, não somente de uma sucessão de indivíduos do tipo ordinário, mas também de verdadeiros grandes homens.”

   Ele acreditava na reencarnação fragmentária, que lhe parece aplicável ao caso de Cristo.

   Já Stainton Moses, com o pseudónimo de Oxon, professor da Universidade de Oxford, que foi um dos propugnadores mais estimados da ideia espírita no seu país, escrevia nos seus Ensinos Espiritualistas as seguintes linhas, obtidas pela sua própria mediunidade:

   “A criança (o ser humano) não pode obter o amor e a ciência a não ser pela educação adquirida em uma nova vida terrestre. Uma tal experiência é necessária e numerosos espíritos escolhem um retorno à Terra a fim de alcançar o que lhes falta.”

   Fredrich Myers, na sua obra magistral A Personalidade Humana, capítulo X, expressa a mesma opinião e diz:

   “A doutrina da reencarnação não contém nada que seja contrário à melhor razão e aos mais elevados instintos do homem.”

   Ele volta a tratar da evolução gradual (das almas) em numerosas etapas “a que é impossível de assinalar um limite”.

   Quanto à América do Norte, poderíamos citar várias obras editadas nesse país que demonstram que a ideia da reencarnação também segue o seu caminho e que as mensagens dos espíritos que afirmam os renascimentos terrestres são cada vez mais frequentes, como se pode observar na maioria das revistas espiritualistas de língua inglesa. O mesmo movimento de opinião ressalta do acolhimento feito à tradução do meu livro O Problema do Ser e do Destino, pela Sra. Wilcox, sob o título Life and Destiny, editado em Londres e em Nova Iorque.

   É evidente que essa grande verdade foi durante muito tempo apagada pelo trabalho lento e oculto dos séculos, porque cada vez que nós a afirmamos, nos defrontamos com objecções que denotam um esquecimento completo.

   Entretanto, não se deve perder de vista que essa doutrina permanece activa no oriente. No momento actual, das Índias ao Japão, oitocentos milhões de asiáticos conhecem e aceitam a lei dos renascimentos. Bramanistas, budistas, xintoístas, adoptam essa mesma crença, o que lhes assegura uma certa superioridade de pontos de vista. O Alcorão, nas suas primeiras “suratas”, também afirma que é possível a reencarnação, na Terra, de muitos adeptos do profeta (Maomé).

   E sem pesquisar a fundo, entre nós mesmos e nos nossos dias, longa seria a lista de homens ilustres que aceitaram essa crença, desde Victor Hugo, Charles Bonnet, Pierre Leroux, Jean Reynaud até Mazzini e Flammarion. A maioria não teve necessidade de provas experimentais. O uso de sua razão, liberta das rotinas de escola e dos sofismas, e o panorama da vida, se desenvolvendo em volta deles, lhes foram suficientes para discernir as leis. Eles foram seduzidos pela beleza e pela grandeza desta evolução que faz do homem o autor de seu próprio destino. A alma, pensavam eles, constrói o seu futuro por meio de vidas renascentes; ela desenvolve as suas faculdades e a sua consciência pelo trabalho, pela prova, pela dor, cinzel divino que lhe comunica as suas belas formas. Ela se depura, se eleva, se interpenetra dos esplendores da natureza, se inicia nas suas leis e participa, na medida de sua potência crescente, da ordem e da harmonia universal.

   Para esses precursores, como para nós, espíritas, esta revelação, seja intuitiva, seja vinda do Alto, dissipou como uma neblina as hipóteses fantasiosas e as negações estéreis. A vida e a morte mudaram de situação: esta não é mais do que a transição necessária entre as duas formas alternativas de nossa existência: visível e invisível. A vida é a conquista das riquezas imperecíveis da alma, das forças radiantes e das qualidades morais que assegurarão a sua situação no além e lhe prepararão as melhores reencarnações na Terra e em outros mundos. Assim, o pessimismo sombrio se esvai para dar lugar à confiança, à alegria de viver na tarefa bem cumprida, à satisfação do dever bem realizado, com as perspectivas de um futuro sem limites e a ascensão gradual e radiosa de círculos em círculos, de esferas em esferas, em direcção ao foco divino.

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LÉON DENIS, O Génio Céltico e o Mundo Invisível, Segunda Parte – Capítulo VIII Palingenesia: preexistências e vidas sucessivas. A lei das reencarnações (2 de 5) 25º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: A Apoteose dos heróis franceses que morreram pelo seu país durante a guerra da Liberdade, pintura de Anne-Louis Girodet-Trioson)