Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Deus na Natureza ~


A Força e a Matéria I Posição do Problema (IV)

  A teoria mecânica, es-tabelecendo a pura necessidade matemática nas acções e reacções que formam a vida do mundo, é incompleta, por isso que suprime a causa e dissipa em névoa o mundo moral. A teoria de uma força única, universal, sempre actual e formando a variedade dos seres pelas suas metamorfoses, ajusta essa misteriosa universalidade a uma força primordial.

  Poder-se-ia, portanto, acusar simplesmente o processo geral dos nossos contraditores de um erro gramatical, atribuindo à matéria um poder só cabível à força e pretendendo não passar esta de mero adjectivo qualificativo, quando lhe cabem os mesmos direitos daquela, na classe dos substantivos.

  Examinemos agora, nesta mesma vista de conjunto, quais os grandes erros que marcham de paralelo e sustentam essa conduta e que havemos de encontrar sob várias formas, no curso das nossas contraditas.

  O primeiro erro geral de que abusam os materialistas é imaginarem que, pelo facto de existir Deus, importa atribuir-lhe uma vontade caprichosa e não constante e imutável, na sua perfeição.

  Ersted, por exemplo, sábio escrutador do mundo físico, exprimiu sensatamente as relações de Deus com a Natureza, dizendo que “o mundo é governado por uma razão eterna, cujos efeitos se manifestam nas leis da Natureza”.

  O Dr. Büchner opõe a esse conceito a seguinte especiosa objecção: – “Ninguém poderia compreender como uma razão eterna, que governa, se conforme com leis imutáveis. Ou são as leis naturais que governam, ou é a razão eterna. Que umas ao lado de outras entrariam, a cada instante, em colisão. Se a razão eterna governasse, supérfluas se tornariam as leis naturais e se, ao revés, governam as leis imutáveis da Natureza, elas excluem toda a intervenção divina.” – “Se uma personalidade governa a matéria num determinado sentido – opina Moleschott – desaparece da Natureza a lei da necessidade. Cada fenómeno se torna partilha de jogo do acaso e de uma arbitrariedade sem pelas.”

  Havemos de convir que esta grave objecção é singularíssima.

  É um raciocínio extravagante que cai pela base. A nós nos parece, pelo contrário, que a inteligência notória nas leis da Natureza demonstra, no mínimo, a inteligência da causa a que se devem essas leis, que são, elas mesmas, precisamente a expressão imutável dessa inteligência eterna.

  E não será algo ridículo pretender que essa causa deixe de existir, pelo motivo do íntimo acordo com essas mesmas leis?

  Vejamos, por exemplo, um excelente harpista: a sua virtuosidade é tão perfeita que os acordes frementes parecem-nos identificados com a poesia da sua alma! Diremos, então, que essa alma não existe, visto que para lhe admitir existência era preciso que ela estivesse eventual e arbitrariamente em desacordo com as leis da Harmonia! Essa maneira de raciocinar é tão falsa que os próprios autores que a utilizam são os primeiros a reconhecê-lo implicitamente. Assim é que Büchner, referindo-se a milagres e ao facto de haver o clero inglês solicitado a decretação de um dia de jejum e de preces para conjurar a cólera, elogia Palmaraton por haver respondido que o surto epidémico dependia mais de factores naturais, em parte conhecidos, e poderia melhor jugular-se com providências sanitárias, antes que com preces.

  Muito bem! O autor, melhor ainda, acrescenta: “Essa resposta lhe acarretou a pecha de ateísmo e o clero declarou pecado mortal não crer pudesse a Providência transgredir, a qualquer tempo, as leis da Natureza.”

  Mas, que singular ideia faz essa gente de Deus que por si criou! Um legislador supremo a deixar-se comover por preces e soluços, a subverter a ordem imutável que ele mesmo instituiu, a violar por suas próprias mãos a actividade das forças naturais! – “Todo o milagre, se existisse – diz também Cotta – provaria que a Criação não merece o respeito que lhe tributamos e os místicos deveriam deduzir, da imperfeição do criado, a imperfeição do Criador.”

  Aí temos os adversários em contradição consigo mesmos, quando, por um lado, não querem admitir uma razão eterna em concordância de leis imutáveis, e por outro pensam connosco, que a ideia de imutabilidade ou, pelo menos, a regularidade, se identifica muito melhor com a perfeição ideal do ser desconhecido que denominamos Deus, do que a ideia de mutabilidade e arbitrariedade, que umas tantas crenças pretendem impor-lhe.

  Um segundo erro geral, não menos funesto que o precedente e que por igual ilude os nossos contraditores, é o de acreditarem que, para existir Deus, importa colocá-lo fora do mundo.

  Não vemos pretexto algum racional que possa justificar uma tal necessidade. E antes do mais, que significa essa ideia de uma causa soberana extramundo? Onde os limites do mundo? Pois o mundo, isto é, o espaço no qual se movem estrelas e terras, não é infinito por sua mesma essência?

  Imaginais um limite a esse mesmo espaço e supondes que ele se não renova além? Será, então, possível traçar limites à extensão? Onde, pois, imaginar Deus fora do mundo? Será fora da matéria, o que se quer dizer? Mas, que é a matéria em si? – agrupamentos de moléculas intangíveis. Portanto, impossível determinar uma semelhante posição. Deus não pode estar fora do mundo, mas no mesmo lugar do mundo, do qual é o sustentáculo e a vida.

  Não fosse temer a pecha de panteísta e ajuntaríamos que Deus é – a alma do mundo. O Universo vive por Deus, assim como o corpo obedece à alma. Em vão pretendem os teólogos que o espaço não pode ser infinito, em vão se apegam os materialistas a um Deus fora do mundo, enquanto sustentamos que Deus, infinito, está com o mundo, em cada átomo do Universo – adoramos Deus na Natureza.

  Entretanto, os nossos adversários combatem insensatamente o seu fantasma. “Não há considerar o Universo – diz Strauss – como ordenação regrada por um Espírito fora do mundo, mas, como razão imanente às forças cósmicas e às suas relações.”

  A essa razão, chamamo-la Deus, enquanto os modernos ateístas aproveitam essa declaração para sentenciar que, em não existindo fora do mundo, é que Deus não existe.

  “Tudo, – diz H. Tuttle – desde a tinha (perdoem a expressão) que baila aos raios do Sol, à inteligência humana, que verte das massas medulosas do cérebro, está submetido a princípios fixos. Logo, não existe Deus.” Logo, existe – dizemos nós – “Livre é cada qual de franquear os limites do mundo visível – pondera Büchner – e de procurar fora dele uma razão que governa, uma potência absoluta, uma alma mundial, um Deus pessoal”, etc. Mas, que é o que vos fala disso? “Nunca, em parte alguma – diz o mesmo literato – nos mais longínquos espaços revelados pelo telescópio, pôde observar-se um facto que fizesse excepção e pudesse justificar a necessidade de uma força absoluta, operando fora das coisas.”

  “A força não impelida por um Deus, não é uma essência das coisas isoladas do princípio material” – adverte Moleschott.

  Ninguém terá visão tão limitada – afirma ele alhures – para enxergar nas acções da Natureza outras forças não ligadas a um substrato material. Uma força que planasse livremente acima da matéria seria uma concepção absolutamente balda de sentido.

  Positivamente, ainda hoje existem cavaleiros errantes, à guisa dos que outrora manobravam em torno dos castelos do Reno, e de bom grado arremetem moinhos de vento. Lídimos heróis de Cervantes, visto que, no fim de contas, qual o filósofo que hoje propugna um Deus ou forças quaisquer fora da Natureza?

  Vemos em Deus a essência virtual que sustenta o mundo em cada uma de suas partes microscópicas, daí resultando ser o mundo como que por ele banhado, embebido em todas as suas partes e que Deus está presente na mesma composição de cada corpo.

  Dessarte, a primeira trincheira cavada pelos adversários para bloquear o Espiritualismo foi por eles mesmos entulhada; e a segunda nem sequer objectiva a cidadela, e os nossos soldados alemães não fazem mais que bater o campo.

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Camille Flammarion, Deus na Natureza – Primeira Parte, A Força e a Matéria I - Posição do Problema 4 de 6, 8º fragmento da obra.
(imagem de ilustração: Jungle Tales_1895, pintura de James Jebusa Shannon)

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Diálogos de Kardec ~


A Segunda Vista – Conhecimento do Futuro. Previsões ~

   Desde que no estado sonambúlico as manifestações da alma se tornaram, de certo modo, ostensivas, fora absurdo supor que no estado normal ela se ache confinada, de modo absoluto, no seu envoltório, como o caramujo na sua concha. Não é de maneira alguma a influência magnética que a desenvolve; essa influência nada mais faz do que a tornar patente pela acção que exerce sobre os órgãos corporais. Ora, nem sempre o estado sonambúlico é condição indispensável a essa manifestação. As faculdades que se revelam nesse estado desenvolvem-se algumas vezes espontaneamente, no estado normal, em certos indivíduos. Resulta-lhes daí a faculdade de verem as coisas distantes, por onde quer que a alma estenda a sua acção; vêem, se podemos servir-nos desta expressão, através da vista ordinária; e os quadros que descrevem, os factos que narram se lhes apresentam como efeitos de uma miragem. É o fenómeno a que se dá o nome de segunda vista. No sonambulismo, a clarividência deriva da mesma causa; a diferença está em que, nesse estado, ela é isolada, independente da vista corporal, ao passo que é simultânea nos que dessa faculdade são dotados em estado de vigília.

   Quase nunca é permanente a segunda vista. Em geral, o fenómeno se produz espontaneamente, em dados momentos, sem ser por efeito da vontade, e provoca uma espécie de crise que, algumas vezes, modifica sensivelmente o estado físico. O indivíduo parece olhar sem ver; toda a sua fisionomia reflecte uma como exaltação.

   É de notar que as pessoas dotadas dessa faculdade não suspeitam possuí-la. Ela se lhes afigura natural, como a de ver com os olhos. Consideram-na um atributo do seu ser e nunca uma coisa excepcional. Cumpre acrescentar que muito amiúde o esquecimento se segue a essa lucidez passageira, cuja lembrança, cada vez mais imprecisa, acaba por desvanecer-se como a de um sonho.

   Há infinitos graus na potencialidade da segunda vista, desde a sensação confusa, até a percepção tão nítida quanto no sonambulismo. Há carência de um termo para designar-se esse estado especial e, sobretudo, os indivíduos susceptíveis de experimentá-lo. Tem-se empregado a palavra vidente, que, embora não exprima com exactidão a ideia, adoptaremos até nova ordem, à falta de outra melhor.

   Se agora confrontarmos os fenómenos de segunda vista com os da clarividência sonambúlica, compreenderemos que o vidente possa perceber coisas que lhe estejam fora do alcance da visão ordinária, do mesmo modo que o sonâmbulo vê, à distância, acompanha o curso dos acontecimentos, aprecia-lhes a tendência e, em certos casos, lhes prevê o desenlace.

   Esse dom da segunda vista é que, em estado rudimentar, dá a certas pessoas o tacto, a perspicácia, uma espécie de segurança aos actos, o que se pode com justeza denominar: golpe de vista moral. Mais desenvolvido, ele acorda os pressentimentos, ainda mais desenvolvido, faz ver acontecimentos que já se realizaram, ou que estão prestes a realizar-se; finalmente, quando chega ao apogeu, é o êxtase vígil.

   Como já dissemos, o fenómeno da segunda vista é quase sempre natural e espontâneo; parece, entretanto, que se produz com mais frequência sob o império de determinadas circunstâncias. Os tempos de crise, de calamidades, de grandes emoções, tudo, enfim, que sobreexcita o moral, que provoca o desenvolvimento. Dir-se-ia que a Providência, diante de perigos iminentes, multiplica em torno das criaturas a faculdade de prevê-los.

   Videntes sempre os houve em todos os tempos e em todas as nações, parecendo, no entanto, que alguns povos são mais naturalmente predispostos a tê-los. Dizem que na Escócia é muito comum o dom da segunda vista. Não se lhe nota a existência entre a gente do campo e os que habitam nas montanhas.

   Os videntes têm sido diversamente considerados, conforme os tempos, os costumes e o grau de civilização. Para os cépticos, eles não passam de cérebros desarranjados, de alucinados; as seitas religiosas os arvoraram em profetas, sibilas, oráculos; nos séculos de superstição e ignorância, eram feiticeiros e acabavam nas fogueiras. Para o homem sensato, que acredita no poder infinito da Natureza e na bondade inesgotável do Criador, a dupla vista é uma faculdade inerente à espécie humana, por meio da qual Deus nos revela a existência da nossa essência espiritual. Quem não reconheceria um dom dessa natureza em Joana d’Arc e em toda uma multidão de outras personagens que a história qualifica de inspiradas?

   Muito se tem falado de pessoas que, deitando as cartas, disseram coisas de surpreendente verdade. De modo nenhum pretendemos fazer-nos apologista dos ledores da “buena-dicha” que exploram a credulidade dos espíritos fracos e cuja linguagem ambígua se presta a todas as combinações de uma imaginação abalada; mas, não é de todo impossível que certas pessoas, fazendo disso um ofício, tenham o dom da segunda vista, mesmo mau grado seu. Sendo assim, as cartas, entre as suas mãos, não passam de um meio, de um pretexto, de uma base de conversação. Elas falam de acordo com o que vêem e não com o que indicam as cartas para as quais apenas olham.

   O mesmo se dá com outros meios de adivinhação, tais como as linhas da mão, a clara de ovo e outros símbolos místicos. Os sinais das mãos talvez tenham mais valor do que todos os outros meios, não por si mesmos, mas porque, tomando e palpando a mão do consultante, o pretenso adivinho, se é dotado de dupla vista, estabelece relação mais directa com aquele, como se verifica nas consultas sonambúlicas.

   Podem incluir-se os médiuns videntes na categoria das pessoas que possuem a dupla vista. Com efeito, do mesmo modo que estas últimas, aqueles julgam ver com os olhos, mas, na realidade, a alma é que vê e por essa razão é que eles vêem tão bem com os olhos abertos como com os olhos fechados. Segue-se, necessariamente, que um cego poderia ser médium vidente, tanto quanto um que tenha perfeita a vista. Constituiria estudo interessante indagar se essa faculdade é mais frequente nos cegos. Somos levado a crê-lo, dado que, como se pode verificar experimentalmente, a privação de comunicar-se com o meio exterior, por falta de certos sentidos, confere em geral poder maior à faculdade de abstracção da alma e, consequentemente, maior desenvolvimento ao sentido íntimo pelo qual ela se põe em relação com o mundo espiritual.

   Podem, pois, os médiuns videntes ser identificados às pessoas que gozam da vista espiritual; mas, seria porventura demasiado considerar essas pessoas como médiuns, porquanto a mediunidade se caracteriza unicamente pela intervenção dos Espíritos, não se podendo ter como acto mediúnico o que alguém faz por si mesmo. Aquele que possui a vista espiritual vê pelo seu próprio Espírito, não sendo de necessidade, para o surto da sua faculdade, o concurso de um Espírito estranho.

   Posto isto, examinemos até que ponto a faculdade da dupla vista pode permitir se descubram coisas ocultas e se penetre no futuro.

   Desde todos os tempos, os homens hão querido conhecer o futuro e volumes se poderiam escrever sobre os meios que a superstição inventou para erguer o véu que encobre o nosso destino. Muito sábia foi a Natureza no-lo ocultando. Cada um de nós tem a sua missão providencial na grande colmeia humana e concorre para a obra comum na sua esfera de actividade. Se soubéssemos de antemão o fim de cada coisa, é fora de dúvida que a harmonia geral ficaria perturbada. A segurança de um porvir ditoso tiraria ao homem toda a actividade, pois que nenhum esforço precisaria ele empregar para alcançar o objectivo que sempre colima: o seu bem-estar. Paralisar-se-iam todas as forças físicas e morais. As mesmas consequências produziriam a certeza da infelicidade, em virtude do desânimo que ganharia a criatura. Ninguém se disporia a lutar contra a sentença definitiva do destino. O conhecimento absoluto do futuro seria, portanto, um presente funesto, que nos conduziria ao dogma da fatalidade, o mais perigoso de todos, o mais antipático ao desenvolvimento das ideias. A incerteza quanto ao momento do nosso fim neste mundo é que nos faz trabalhar até ao último batimento do nosso coração. O viajante levado por um veículo se entrega ao movimento que o fará chegar ao ponto demandado, sem pensar em lhe impor qualquer desvio, por estar certo da sua impotência para consegui-lo. O mesmo se daria com o homem que conhecesse o seu destino irrevogável. Se os videntes pudessem infringir essa lei da Providência, igualar-se-iam à Divindade. Por isso mesmo, não é essa a missão que lhes cabe.

    No fenómeno da dupla vista, por se achar a alma parcialmente liberta do envoltório material, que lhe limita as faculdades, não há duração, nem distância; visto que lhe é dado abranger o espaço e o tempo, tudo se lhe confunde no presente. Livre dos entraves da carne, ela julga dos efeitos e das causas melhor do que nós, que não podemos fazer outro tanto; vê as consequências das coisas presentes e pode levar-nos a pressenti-las. É neste sentido que se deve entender o dom de presciência atribuído aos videntes. As suas previsões resultam de ter a alma consciência mais nítida do que existe e não de uma predição de coisas fortuitas, sem ligação com o presente. É por dedução lógica do conhecido que ela chega ao desconhecido, dependente muitas vezes da nossa maneira de proceder. Quando um perigo nos ameaça, se somos avisados, ficamos em condições de tentar tudo o que seja preciso para evitá-lo, cabendo-nos a liberdade de fazê-lo ou não.

   Em tal caso, o vidente tem diante de si um perigo que se nos acha oculto; ele o assinala, indica o meio de afastá-lo, pois de outro modo o acontecimento segue o seu curso.

   Suponhamos que uma carruagem enveredou por uma estrada que vai dar num precipício que o condutor não pode perceber. É evidente que, se nada ocorrer que a desvie, ela ali se precipitará. Suponhamos também que um homem colocado de maneira a divisar a estrada em toda a sua extensão, vendo o perigo que corre o viajante, consegue avisá-lo a tempo de ele se desviar. O perigo estará conjurado. Da sua posição, dominando o espaço, o observador vê o que o viajante, cuja visão os acidentes do terreno circunscrevem, não logra divisar. Pode ele ver se uma causa fortuita obstará à queda do outro; conhece então, previamente, o que se dará e prediz o acontecimento.

   Imaginemos que esse homem, do alto de uma montanha, divise ao longe, pela estrada, uma tropa inimiga dirigindo-se para uma aldeia a que pretende atear fogo. Fácil lhe será, levados em conta o espaço e a velocidade, prever quando a tropa chegará. Se, então, descendo à aldeia, disser apenas: A tal hora a aldeia será incendiada, caso o facto ocorrer, ele passará, aos olhos da multidão ignorante, por adivinho, feiticeiro; entretanto, apenas viu o que os outros não podiam ver e deduziu, do que vira, as consequências.

   Ora, o vidente, como esse homem, apreende e acompanha o curso dos acontecimentos; não lhes prevê o resultado porque possua o dom de adivinhar: ele o vê e, desde então, pode dizer-vos se estais no bom caminho, indicar-vos outro melhor e anunciar o que se vos deparará no extremo do que seguis. É, para vós, o fio de Ariadne, mostrando a saída do labirinto.

   Como se vê, longe está isso da predição propriamente dita, conforme a entendemos na acepção vulgar do termo. Nada foi tirado ao livre-arbítrio do homem, que conserva sempre a liberdade de agir ou não, de evitar ou deixar que os acontecimentos se dêem, por sua vontade, ou por sua inércia; indica-se-lhe um meio de chegar ao fim, cabendo-lhe utilizá-lo. Supô-lo submetido a uma fatalidade inexorável, com relação aos menores acontecimentos da vida, é despojá-lo do seu mais belo atributo: a inteligência; é assimilá-lo ao bruto. O vidente, pois, não é um adivinho; é um ser que percebe o que não vemos; é, para nós, o cão do cego. Nada nisto há, portanto, que se contraponha aos desígnios da Providência quanto ao segredo de nosso destino; é ela própria quem nos dá um guia.

   Tal o ponto de vista donde se deve considerar o conhecimento do futuro, por parte das pessoas dotadas de dupla vista. Se fosse fortuito esse futuro, se dependesse do a que se chama acaso, se nenhuma ligação tivesse com as circunstâncias presentes, nenhuma clarividência poderia penetrá-lo e nenhuma certeza, nesse caso, ofereceria qualquer previsão. O vidente (referimo-nos ao que verdadeiramente o é), o vidente sério e não o charlatão que simula sê-lo, o verdadeiro vidente, não diz o que o vulgo denomina “buena-dicha”; ele apenas prevê as consequências que decorrerão do presente; nada mais e já é muito.

   Quantos erros, quantos passos em falso, quantas tentativas inúteis não evitaríamos, se tivéssemos sempre um guia seguro a esclarecer-nos; quantos homens se acham deslocados na vida, por não se haverem lançado no caminho que a Natureza lhes traçara às faculdades! Quantos sofrem malogros por terem seguido os conselhos de uma obstinação irreflectida! Uma pessoa houvera podido dizer-lhes: “Não empreendais isso, porque as vossas faculdades intelectuais são insuficientes, porque não convém ao vosso carácter, nem à vossa constituição física, ou, ainda, porque não sereis secundados, como fora preciso; ou, então, porque vos enganais sobre o alcance do que pretendeis e topareis com este embaraço que não prevedes.” Noutras circunstâncias, ter-lhes-ia dito: “Sair-vos-eis bem de tal empreendimento, se vos conduzirdes desta ou daquela maneira; se evitardes dar tal passo que não pode comprometer-vos.” Sondando as disposições e os caracteres, poderia dizer: “Desconfiai de tal armadilha que vos querem preparar”, acrescentando, em seguida: “Estais prevenidos, fiz o que me cumpria; mostrei-vos o perigo; se sucumbirdes, não acuseis a sorte, nem a fatalidade, nem a Providência; acusai-vos unicamente a vós mesmos. Que pode fazer o médico, quando o doente não lhe dá atenção aos conselhos?”

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ALLAN KARDEC, Obras Póstumas, Primeira Parte, A segunda vista / Conhecimento do futuro. Previsões. 7º fragmento solto da obra.
(imagem de ilustração: Dança rebelde, 1965 – Óleo sobre tela, de Noêmia Guerra)

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

~~~Párias em Redenção~~~


OBSESSÃO VINGADORA E PERTINAZ (IV)

         A noite sobrepairou ao dia morno e quando as estrelas fulguravam no zimbório azul-escuro a cidade, ardendo em tochas resinosas e lampiões de candeeiros, fez-se deslumbrante. Luminárias especiais adornavam da Praça do Campo à fortaleza, mantendo luminosa a rota dos convidados álacres ao baile, insopitavelmente aguardado. A movimentação na via de acesso fazia-se ruidosa e gentes curiosas se amontoavam nas cercanias da estrada e no grande pátio-jardim de acesso ao palácio, em algazarra crescente.

  As carruagens brilhavam nos vernizes novos e os cocheiros, em trajes de gala, exibiam o luxo dos seus amos embriagados pela febre dos sentidos. Paggi, em veludo carmesim e verde, ostentando as insígnias da família, espalhavam-se pelas escadas da entrada que davam assomo ao amplo salão, adornado de flores e tecidos custosos que lhe escorriam pelas paredes em festoni, combinados a guirlandas aromatizadas. Músicos florentinos e senenses, especialmente contratados, enchiam o ar de melodias. Os anfitriões recebiam os convidados deslumbrando-os com o excessivo poder económico de que ainda desfrutavam. Roupas especialmente confeccionadas em Florença destacavam tecidos de fina tecedura, ajaezados de pedras preciosas, e as jóias femininas encontravam relevo nos adereços, pulseiras, argolas e colares que eram exibidos pelos famosos Duques. Meia-máscara, de veludo e aigrette, disfarçava a beleza sedutora da Duquesa. Plumas esvoaçantes, sobre o cabelo artisticamente penteado, completavam-lhe a fantasia de Manhã. O esposo, em broccatello dourado, ostentava um jaleco de musselina de seda sobre a camisa de amplas mangas “bouffants”, fazendo sobressair o colar precioso de esmeraldas adornadas de diamantes raros; tinha as costas guardadas por longa capa de seda trabalhada sobre broccatello prateado, que se erguia dos ombros em leque de pedrarias. As calças, justas e curtas, prendiam as meias longas através de uma jarretière veludosa, em laço delicado. Os sapatos de verniz, com fivela ampla, de prata, completavam-lhe a indumentária. Uma parrucca empoada dava-lhe o toque final, contrastando com a meia-máscara de couro trabalhado. Representava o Dia.

  O capitoso vinho de Chipre, os tintos e brancos, os chianti e licores, o champanhe fino, em abundância, corriam de pipas espalhadas por toda a parte, sobre o rico buffet, artisticamente decorado e ostentando jarras em prata lavrada, multiplicavam-se os tradicionais repastos: crostini, panzanella, scriccioli, castagnaccio, frittelle, peci; aqui e ali os famosos doces: panforte, ricciarelli, berricuocoli. Servos trajados em livrée desfilavam conduzindo bandejas de prata com frutos secos, aves defumadas ou com taças de cristal florentino e veneziano, de variadas cores, atendendo aos pares que voluteavam pelos salões ou que aspiravam o puro ar da noite constelada.

  As melodias embriagantes falavam de sensualidade e prazer, combinadas às emoções que davam curso a desgovernos cujas consequências, sempre imprevisíveis, arrastavam a loucuras e à insensatez de toda a espécie.

  Quando o coche em estilo rococó, pertencente a Francesco, os conduziu a ele, à esposa e Girólamo, este, dominado pelas expectativas amplas de embriagues de gozo, tinha os olhos faiscantes. Cobiçava introduzir-se naquele reduto, onde era detestado, e, espicaçado pela inveja aos poderosos, esperava ter, agora, oportunidade de dar vazão à omnímoda ganância.

  Indubitavelmente, o moço senense era garboso e possuía aplomb fascinante. Os seus olhos coruscantes, negros e grandes, faziam-se guarnecer por longos cílios escuros, com sobrancelhas espessas e bem traçadas adornando-lhe a face morena e máscula, o que lhe dava um aspecto de ser mitológico, possuidor de grande força magnética, que atraía, qual mel as formigas, os espíritos torturados pela lubricidade dos desejos carnais. No coche, forrado interiormente de cetim, cada um aspirava a maior soma de liberdade, para usufruir de gozos mais violentos e arrebatadores. Lucrécia, ferida nos sentimentos feminis, esperava espicaçar o ciúme em Girólamo, flertando com outros convivas; Francesco, igualmente ávido de efervescências emocionais, fustigava-se pensando como libertar-se da esposa, e Girólamo, desimpedido, cobiçava o mais amplo quinhão da noitada de extravagância e desregramento. Assim, logo se adentraram, justificaram-se uns aos outros, procurando cada qual a sintonia do prazer mais apetecível.

  A festa transbordava alegria e se desdobrava envolvente…

  O baile deveria ser interrompido a meio, para apresentação de um espectáculo buffo, com teatro ligeiro e de contorcionismo, facultando recreio e descanso aos convidados.

  Entre as árvores, no parque majestoso, armara-se adredemente um tablado, que, feericamente iluminado, atraía todas as atenções. Música suave, de cordas e pífaros, continuava embalando o ar ameno da noite avançada. Cantores regionais e actores contratados em Milão, Veneza e Florença se exibiam entre aplausos estridentes e gargalhadas que se misturavam às primeiras explosões de ebbrezza (i) chocante, na qual o homem desvela o íntimo primitivo, cerceado pelas convenções sociais e educacionais, desabrindo-se nesses momentos, em que se permitem cenas vandálicas e vulgares.

  Uma das surpresas era constituída pela apresentação de uma jovem cantora popular paduense, que emocionava com a doçura da voz e a fragilidade da aparência. Dizia-se, mesmo, que vários homens se lhe arrojavam aos pés, cobiçando-lhe o amor. No entanto, na sua vida nómada com os zíngaros, que a custodiavam, a ninguém permitira o licor da juventude nem o perfume estonteante do êxtase. Alguns acreditavam que os ciganos a haviam raptado na infância, vingando-se de algum nobre que lhes caíra no desagrado, culminando por amarem-na como filha predilecta da grei. Supunham outros que nascera em Pádua, e tudo eram imaginações, para aureolarem o seu nome de magia. Alguma vida já fora decepada no silêncio da noite e nas armadilhas da impiedade, para deixar livre o caminho da jovem.

  Exibia-se no colorido alegre dos seus trajos, com a cabeça resguardada por panuelo, duas longas tranças negras de cabelo, com fios de ouro, caindo-lhe sobre o colo adornado de colares e trancelim reluzente. Tomando da chitarra ornada de fitas de seda brilhante, assentou-se no centro do proscénio e, ante o natural silêncio que a sua presença modesta e romântica impôs, dedilhando o instrumento harmonioso, começou a cantar. A melodia, que lembrava um gorjeio, balada de amor e tragédia, madrigal de dor e ternura, que traduzia a crueza dos dias que se viviam, dominava em notas vibrantes, para cair de súbito em pianíssimos comovedores.

“Eu era débil rouxinol
Que a fantasia de canto embriagava!
Cantava à luz do dia, ao sol,
O festival de amor que me abrasava…

Ventura infinda me invadia a vida,
A dor em mim era desconhecida.
Sonhei voar contigo, no céu lindo;
Eras um falcão e destroçaste
Minha alegria, a vida me roubaste.

Oh! desgraça, por amar-te tanto!...”

  A melodia chorava a pulcra avezita que o desejo infrene, falcão impiedoso, destruíra. Conquanto estivesse o auditório repleto de pessoas de costumes reprocháveis, a canção da jovem parecia retratar uma visão desconhecida por aqueles seres, acostumados às paixões violentas, conseguindo, pelo inusitado, acalmar-lhes, momentaneamente, a sede da luxúria e do vinho.

  Girólamo, por circunstância óbvia, lembrou-se de Assunta. Pareceu-lhe, no momento, que, no auge da juventude, aos primeiros lances da sedução, conseguira amá-la. Era um amor selvagem, feito de ímpetos e ânsias, mas possivelmente amor. Aliás, ele não sabia o que era o amor, além do fustigar das explosões do desejo. Ignorava o sacrifício e a renúncia, desconhecia a arte de esperar e nunca se permitira ceder, senão para retomar adiante.

  Assunta reapareceu-lhe nas recordações e, por um instante, experimentou lampejos de remorso, como se lamentasse de ter feito o que fez. Como se o frescor da noite e a melodia o humanizassem, deslocou-se psiquicamente do ambiente e voltou à colina de San Miniato, onde trucidara com punhaladas contínuas a infeliz amante. Devaneava, emocionado, quando escutou a gargalhada… Arrepio violento o sacudiu. Despertou estremunhado, ergueu-se e demandou o solar, para sorver amplo bicchiere (ii) de vinho.

  A doce voz continuava modulando o estribilho da canção:

“Oh! aventura di amarti tanto
Triste manigoldo dell’alma mia
Mi rubasti il cielo e l’incanto…”

  Pávido e trémulo, arrebatou um copázio que espumava sobre uma bandeja em exposição e sorveu-o, desesperado. No íntimo, porém, sobrepondo-se ao aturdimento, continuou a escutar a gargalhada sardónica, acompanhada de objurgatórias e impropérios:

  – “Não fugirás, assassino! Assassino! Assa…ssi…no! Ladrão de vidas! FALCÃO destruidor!...”

  Sentindo o peito arfante e o espírito atroado, continuou a beber, buscando fugir da agressão mental, esquecido do baile, da vida, evadindo-se, até que o torpor alcoólico o vitimou desacordado.

  Estabelecera-se, ali, em definitivo, a obsessão.

/...

(i) Ebbrezza – embriaguez.
(ii) Bicchiere – copo próprio para vinho; caneca.



VICTOR HUGO, Espírito “PÁRIAS EM REDENÇÃO” – LIVRO PRIMEIRO, 7. OBSESSÃO VINGADORA E PERTINAZ (4 de 4) 25º fragmento da obra. Texto mediúnico ditado a DIVALDO PEREIRA FRANCO.
(imagem de ilustração: L’âme de la forêt _1898, tempera e folha de ouro sobre painel de Edgar Maxence)

domingo, 22 de dezembro de 2013

O Espiritismo na Arte ~


Oitava lição

(Transmissão da arte na Terra, Os dons inatos)

|3 de Fevereiro de 1922|

“Falaremos hoje sobre a transmissão da arte no planeta Terra, a fim de mostrarmos a participação que têm, nas composições artísticas, os espíritos que continuam uma obra cujos elementos se obtêm das fontes fluídicas e se propagam nos meios materiais. Vimos de que maneira, no espaço, um ser evoluído podia, por reflexos, reproduzir por meio de suas qualidades artísticas, temas retirados do domínio da arquitectura, da pintura, da escultura ou do pensamento.

Vós vos lembrais que é graças à faculdade que cada ser fluídico possui, de poder constituir os elementos e os quadros de suas vidas sucessivas, que ele aprende e retém todas as coisas que formam a universalidade divina. Agora eu desejo, deixando de lado o problema da intuição, falar-vos do espírito reencarnado que na Terra, por exemplo, quando o desenvolvimento corporal for suficiente, poderá sentir vibrar em si as moléculas fluídicas impregnadas de radiações resultantes de várias vidas no espaço, radiações estas que se podem traduzir, na Terra, por supostos dons inatos que levarão a criatura a uma situação de destaque na categoria dos artistas e dos pensadores.

Tomemos a arquitectura: após ter reunido os elementos do desenho que enriquecerão o seu cérebro de materiais capazes de concentrar as radiações, estas, intuitivamente, levarão o ser humano a criar formas ideais, inspirando-se, sem o saber, em imagens, em quadros, que poderão ser reconstituídos pelas radiações ligadas aos seus átomos cerebrais.

Segundo o número de vidas percorridas, segundo a vontade de estudar, de compreender, os átomos serão mais ou menos animados de uma vida própria e, também de acordo com a flexibilidade de harmonia das linhas que lhe servirão de condutor, a obra criada será mais ou menos rica e elevada.

De um lado, trabalho exterior, aquele que é ensinado durante a vida tangível do ser; de outro lado, fixação de moléculas radiantes, impregnadas das aquisições anteriores. Sobre essas linhas mais ou menos flexíveis, maleáveis, realiza-se uma produção, uma criação do objectivo. O arquitecto, na sua mesa de trabalho, de repente vê aparecerem as linhas, as abóbadas e, segundo a sua vontade, um monumento se edifica; são as moléculas que, de acordo com os conhecimentos geométricos adquiridos, agem por extensão sobre os lobos cerebrais do artista e concretizam imagens idealizadas pelo abstracto.

Servi-me do arquitecto como exemplo porque a arte arquitectural é, sob o vosso ponto de vista, a arte mais tangível. No espaço, o espírito percorre mundos infinitos; a arte da linha é para ele a primeira letra desse alfabeto grandioso que nós chamaremos gama das formas, dos sons e das cores. O ser vai obter no espaço e nos mundos essas formas necessárias, que serão reproduzidas pela escultura. Para um espírito mais subtil, que ocupa um escalão mais elevado da arte, a pintura será a preferida porque o relevo na pintura é unicamente fluídico e deve ser reproduzido pelo pincel.

O terceiro escalão será o que dará acesso aos pensadores, aos filósofos, aos escritores. Os trabalhos geométricos, dos quais falamos, ali se tornam quase fictícios; sendo a geometria do pensamento simplesmente uma análise cada vez mais subtil dos seres e das coisas.

Na nossa próxima conversa abordaremos a música e eu me esforçarei por vos demonstrar como as inflexões musicais devem e podem sintetizar todas as artes, porquanto elas são o veículo da inspiração que tudo cria e anima.

Na minha vida terrestre, sensibilizei-me por todas as artes: a pintura, a escultura, a música; agora, Deus permite que eu viva nas esferas onde tudo é vibração e eu desejo dar-vos um resumo desta vida celeste.”

/…



LÉON DENIS, O Espiritismo na Arte, Parte IV – Oitava lição / Transmissão da arte na Terra, Os dons inatos, 19º fragmento da obra.
(imagem de ilustração: Mona Lisa 1503-1507 – Louvre, pintura de Leonardo da Vinci)

sábado, 14 de dezembro de 2013

Da sombra do dogma à luz da razão ~


Natureza da Revelação Espírita (V)

  Sendo Deus o eixo de todas as crenças religiosas, o objectivo de todos os cultos, o carácter de todas as religiões está de acordo com a ideia que estas transmitem de Deus. As religiões que criam um Deus vingativo e cruel julgam honrá-lo com actos de crueldade, com fogueiras e torturas; as que criam um Deus parcial e ciumento são intolerantes; são mais ou menos meticulosas na forma, consoante o julguem mais ou menos maculado com as fraquezas e mesquinhez humanas.

  Toda a doutrina de Cristo se funda sobre o carácter que ele atribui à Divindade. Com um Deus imparcial, soberanamente justo, bom e misericordioso, conseguiu fazer do amor de Deus e da caridade para com o próximo a condição expressa da redenção e dizer: «Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a vós mesmos.» Sobre esta única crença, conseguiu estabelecer o princípio da igualdade dos homens perante Deus e da fraternidade universal. Mas era possível amar aquele Deus de Moisés? Não; só poderíamos temê-lo.

  Esta revelação dos verdadeiros atributos da Divindade, juntamente com a da imortalidade da alma e da vida futura, modificava profundamente as relações mútuas dos homens, impunha-lhes novas obrigações, fazia com que encarassem a vida actual sob uma nova luz; devia, por isso mesmo, actuar sobre os costumes e as relações sociais. Incontestavelmente, pelas suas consequências, este é o ponto capital da revelação de Cristo e de que não se compreendeu suficientemente a importância; é lamentável dizer que este é também o ponto de que mais nos afastamos, em que nos enganámos na interpretação dos seus ensinamentos.

  No entanto, Cristo acrescenta: «Muitas das coisas que vos digo não as podeis ainda compreender e teria muitas mais para vos dizer que não entenderíeis; é por isso que vos falo por parábolas; mas, mais tarde, enviar-vos-ei o Consolador, o Espírito da Verdade, que restabelecerá todas as coisas e vo-las explicará todas

  Se Cristo não disse tudo o que poderia ter dito, foi por ter acreditado que devia deixar certas verdades na sombra até os homens estarem em estado de as entender. Conforme declarou, o seu ensinamento estava portanto incompleto, dado que anunciou a vinda do que o iria completar; previa então que as suas palavras seriam erradamente interpretadas, que se desviariam dos seus ensinamentos; resumindo, que desfariam o que tinha feito, já que todas as coisas deviam ser restabelecidas; ora, só se restabelece o que foi desfeito.

  Por que chama ao novo Messias Consolador? Este nome, significativo e sem ambiguidades, constitui uma revelação completa. Ele previa portanto que os homens iriam precisar de consolações, o que implica a insuficiência das que iriam encontrar na crença que iriam adoptar. Talvez nunca Cristo tenha sido mais claro e mais explícito que nestas últimas palavras a que poucas pessoas prestaram atenção, talvez porque se tenha evitado dar-lhes relevo e aprofundar o seu sentido profético.

/…


ALLAN KARDEC, A GÉNESE – Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo, Capítulo I NATUREZA DA REVELAÇÃO ESPÍRITA números de 24 a 27, 7º fragmento da obra. Tradução portuguesa de Maria Manuel Tinoco, Editores Livros de Vida.
(imagem de ilustração: Diógenes e os pássaros de pedra, pintura em acrílico de Costa Brites)

domingo, 8 de dezembro de 2013

Inquietações Primaveris ~


A Eterna Juventude

Nas pesquisas básicas da Ciência Espírita, fundada e desenvolvida por Allan Kardec, os fenómenos mediúnicos, hoje chamados paranormais, revelaram que os mortos rejuvenescem após a morte. As pesquisas posteriores, como as da Metapsíquica, da Física Transcendental de Zöllner, da Biopsíquica de Notzing, dos neo-metapsiquistas como Gustave Geley e Eugéne Osty, e nas pesquisas psicofísicas de William Crookes, de Sir Oliver Lodge, de Crawford (especialmente sobre a mecânica do ectoplasma) e nas pesquisas actuais da Parapsicologia moderna, esse fenómeno se confirmou plenamente. Mesmo nos fenómenos de aparições (estudados recentemente por Rhine e Louise Rhine, por Pratt e o seu Grupo Teta de pesquisas), a confirmação se repete. Nas nossas pesquisas pessoais ou de grupo, na companhia de pesquisadores experimentados como o Dr. Adalberto de Assis Nazaré, ou Dr. Urbano de Assis Xavier (médium de comunicações orais, inclusive voz directa, ectoplasmia e efeitos físicos em geral), constatámos directamente o fenómeno de rejuvenescimento. Um jornalista, homem de TV, contou-nos um facto curioso a respeito. A sua mãe reclamou-lhe ingenuamente aparições desafiantes do espírito do pai, que lhe aparecia como um velho rejuvenescido, mostrando-lhe especialmente o rosto sem rugas e dizendo-lhe: “Enquanto você continua enrugando, veja como estou cada vez mais jovem.”

Quando se tem a noção da diferença básica entre espírito e matéria é fácil compreender-se o fenómeno. O espírito, como elemento natural e básico da formação da Terra, não se desgasta no tempo, enquanto a matéria sofre desgaste violento. Livre do condicionamento humano do corpo físico, o espírito humano não sofre o envelhecimento. Quando se manifestam envelhecidos, fazem-no artificialmente, para comprovação da sua identidade humana.

Por estranho que pareça, o elixir da longa vida e da juventude perene não está nas mãos dos vivos, mas nas mãos dos mortos. Só a morte goza do privilégio de nos rejuvenescer. Na dialéctica da vida e da morte essa contradição se resolve na síntese da ressurreição, nos termos exactos do ensino do Apóstolo Paulo, na sua primeira epístola aos Coríntios. Geralmente buscamos na Terra o que só poderemos encontrar no Céu. É esse um dos melhores motivos para não querermos rejeitar ou maldizer a morte. Allan Kardec já ensinava que o mundo primitivo, o mundo matriz de que nasceu o nosso, é o espiritual. Este mundinho terreno pode desaparecer a qualquer momento, sem que isso afecte em nada a perfeição e a harmonia do Cosmos. Assim como a criatura humana, ao nascer na Terra, procede do mundo espiritual, também a Terra, ao ser formada no espaço sideral, procedia dos mundos ancestrais. Coube aos materialistas soviéticos – assustados com essa dialéctica desconhecida – provar neste século que uma simples folha de árvore tem a sua matriz espiritual intangível e indestrutível pelos nossos instrumentos materiais. Aquilo que parecia um simples sonho de Platão, o mundo-matriz das ideias, tornou-se realidade científica e tecnológica da Era Cósmica nas famosas pesquisas da Universidade de Kirov. O corpo bioplásmico de todos os seres vivos e o modelo ideal de todas as coisas existe e pode ser provado pelos que desejarem procurá-lo nas próprias coisas e nos seres. As duplicatas platónicas, vencidas há milhões de anos, podem ser pagas agora, sem juros nem correcção monetária, nos guichés da pesquisa científica mundial. O pânico ideológico desencadeado na URSS por essa temerária descoberta, com as reacções políticas inevitáveis, não empanam de maneira alguma a glória incómoda dos pesquisadores vitorianos. Sabemos todos que a pesquisa científica não depende de concessões estatais, como não dependeram, na Idade Média, de licenças religiosas. Uma pesquisa científica é soberana nos seus resultados e a validade destes depende apenas da autoridade científica dos pesquisadores e da metodologia aplicada. Se tudo se passou no plano universitário e as provas objectivas resistem às repetições experimentais, nenhum poder exterior pode invalidá-las. Se o Estado Soviético recusou os resultados contrários aos seus dogmas ideológicos, isso não invalida cientificamente os factos comprovados. No âmbito do poder estatal a recusa pode ser aceite pela violência, mas no plano puramente científico somente a contra-prova científica poderia invalidá-los. E como os dados foram divulgados e confirmados em entrevistas dos pesquisadores para a imprensa mundial e publicados pela Universidade estrangeira, sob a responsabilidade de entrevistadoras universitárias, em edição oficial universitária, o problema escapa ao poder do Estado interessado em negá-los. Aceitar-se a negação por decreto seria violentar os direitos impostergáveis da Ciência, soberana no seu âmbito inviolável.

Dentro das normas universais da Ciência não há nem pode haver outra rejeição dos resultados além da contra-prova cientificamente válida, realizada por cientistas capacitados em plano aberto, livre de injunções estranhas. Não fosse assim e a verdade científica ficaria entregue ao arbítrio dos Estados poderosos, em detrimento da verdade e da própria validade da Ciência como tal.

Por outro lado, a realidade do corpo bioplásmico já havia sido provada pelas pesquisas anteriores de cientistas consagrados da Europa e da América, que confirmaram a tradição cristã a respeito, com os mesmos resultados das pesquisas da Universidade de Kirov. Se o chamado materialismo científico fosse aceite como árbitro infalível da Ciência, no interesse exclusivo de ideologias sociais, a verdade ficaria adstrita ao pragmatismo dos Estados interessados e cairia no plano perigoso dos formalismos académicos. Voltaríamos à sujeição da Ciência, o que vale dizer da verdade, aos déspotas do poder estatal, em substituição do absolutismo medieval da Igreja, com o acréscimo moderno, mas não actual, da infalibilidade das revelações proféticas.

Certas pessoas se impressionam com pareceres e proclamações de entidades paracientíficas que, sem possuírem a contra-prova científica, se  arrogam o direito de condenar a descoberta apoiados apenas em argumentos pseudocientíficos. Temos contra isso, na própria URSS, o episódio Vassiliev contra Rhine, no qual o notável cientista soviético de Leningrado tentou desmentir a afirmação do Prof. Rhine de que o pensamento não é físico. Vassiliev confessou o fracasso das suas tentativas de contra-prova e contentou-se em afirmar que estava convencido do contrário. Uma capitulação que só serviu para fortalecer a tese do cientista norte-americano. E tudo ficou nisso, porque não havia nem há possibilidade de se transformar em matéria a natureza extra-física do pensamento e da mente.

As pesquisas sobre a natureza do pensamento mostraram que ele não está sujeito às leis físicas. Não está sujeito a condicionamentos, não se desgasta nas emissões às maiores distâncias, não sofre nenhuma influência da lei de gravidade e não é interditado por nenhuma barreira física. Um pensamento emitido aqui e agora pode ser captado no outro hemisfério, agora mesmo ou daqui a vários anos. Reconhecido como a energia mais vigorosa de que podemos dispor, é a única a servir com eficiência na comunicação astronáutica. O isolamento de uma nave espacial que passa por trás de um corpo celeste como a Lua, não podendo nesse trajecto comunicar-se com a Terra, é rompido sem dificuldades pelo pensamento. Temos assim em nós mesmos os recursos para as incursões cósmicas. Além disso o pensamento percorre as distâncias e o tempo em todas as suas dimensões, podendo invadir o futuro e mergulhar no passado, nos fenómenos de precognição (profecia) e de retrocognição (adivinhação do passado). O treino telepático (transmissão do pensamento) aperfeiçoa e desenvolve a acção do pensamento, permitindo ao homem a omnipresença dos deuses. Quando sabemos que essa energia mental é a mesma que constitui o espírito humano, compreendemos que a sobrevivência espiritual do homem é uma lei natural e que o domínio da morte se restringe apenas ao campo material. Nas fotos paranormais obtidas pelos pesquisadores de Kirov, segundo os depoimentos de Lynn Schroeder e Sheila Ostrander, pesquisadoras da Universidade americana de Prentice Hall, o corpo bioplásmico aparece irradiante, sem a opacidade do corpo material. Cientistas russos disseram que esse corpo espiritual se assemelha ao brilho de um céu intensamente estrelado. É isso o que somos, e não matéria. E nessa condição estelar gozamos da juventude eterna, pois o espírito não está sujeito a desgastes nem a envelhecimento. Jesus respondeu, certa vez, aos judeus que o interpelavam sobre a natureza humana: “Não está escrito, nas vossas escrituras, que vós sois deuses?” Os deuses não envelhecem nem morrem. Formados daquilo que podemos chamar de essência mental – nem matéria, nem antimatéria – não somos perecíveis nem estamos sujeitos a envelhecer. Educar para a morte é preparar os homens para a passagem natural do mundo material para o mundo espiritual. Essa preparação não demanda um curso especial e rápido, mas exige um progressivo esclarecimento da realidade humana através da existência. Temos de arrancar da mente humana a visão errónea da morte como escuridão, solidão e terror, substituindo esse avantesma do terrorismo religioso pela visão dos planos superiores de que a verdadeira vida flui para a Terra. O luto, os velórios sombrios, as lamentações das carpideiras antigas ou modernas, a fronte enrugada pelas preocupações pesadas e dolorosas, tudo isso deve passar no futuro para os museus de antiguidades macabras e estúpidas.

Em tudo isso nada existe de sobrenatural. Na Terra ou no Céu estamos dentro da Natureza. As leis naturais que conhecemos na matéria são as mesmas que abrangem todo o Universo, na riqueza e no esplendor da natureza. A salvação que todos os crentes desejam não vem dos formalismos religiosos de nenhuma Igreja, mas do nosso esforço quotidiano para nos transformarmos de prisioneiros da matéria e da animalidade primitiva para a espiritualidade que carregamos oculta e abafada em nós mesmos. A Filosofia Existencial do nosso século considera a existência como subjectividade pura, o que vale dizer que somos espíritos. A juventude eterna do Espírito é a herança que nos foi reservada, como filhos de Deus que somos. Porque Deus, a Suprema Consciência, não nos criou do barro da Terra, mas da luz das estrelas.

/…


José Herculano Pires – Educação para a Morte, A Eterna Juventude, 15º fragmento da obra.
(imagem de ilustração: O caranguejo, pintura de William-Adolphe Bouguereau)

domingo, 1 de dezembro de 2013

O Mundo Invisível e a Guerra ~


VII
O Dia de Finados na Trincheira
(II)

|2 de novembro de 1916|

  Entretanto, no silêncio da noite, uma voz murmura ao ouvido do jovem soldado (que é médium auditivo), palavras graves e solenes. É o Invisível que entra em cena para dizer-lhe:

  “Escuta amigo, cujo pensamento chegou até mim e me atraiu: perguntas, às vezes, a ti próprio o segredo desta terrível guerra e a tua razão se perturba com o espectáculo das desgraças que ela produz.

  Ah! para que a seara sagrada germine é preciso que se rasgue o solo inculto como arado; é necessário mordê-lo com os dentes da grade e também esmagá-lo sob o peso do rolo. Só assim o grão novo poderá arrebentar a terra.

  Se a guerra se alonga, é porque, por seu intermédio, grandes coisas necessárias se preparam e se organizam.

  Uma guerra bastante rápida teria tocado, apenas ao de leve, a humanidade. A sua longa duração, a sua crueldade e as consequências que decorrem dela, do ponto de vista social, político, religioso e económico, criarão novas rodas, meios e molas por toda parte. Dela resultará uma transformação radical da sociedade, não apenas do ponto de vista da vida material, mas também no que toca ao ideal espiritualista.

  Quantos corações esfacelados, quantas almas angustiadas nos procurarão, buscando consolo e conforto! Quantas inteligências, entregues às frívolas concepções, batidas pela dor, procurarão as grandes verdades!

  Também nós estamos impacientes e queremos que termine essa carnificina, porque o nosso coração se despedaça com o desfile de males de que conheceis apenas pequena parte, mas que nós presenciamos em toda a sua extensão!

  Como vós, também sofremos diante de tantas angústias e misérias, e mais ainda, porque as enxergamos melhor, porque temos, sobre vós, a vantagem de compreender mais claramente os objectivos divinos de tais lutas fratricidas.

  Sabemos que a humanidade não se poderá salvar de um fracasso irremediável a não ser através dessa crise, e já vislumbramos a aurora de um brilhante renascimento.

  Tende, portanto, confiança na nossa França imortal, não chorando os seus mortos, porque essa luta é dos espíritos celestes contra as potências do mal, dos espíritos de luz contra as legiões tenebrosas do abismo.

  Não; Guilherme II, o grande mago negro, o evocador de Odin, não vencerá a França que, apesar das suas faltas e erros, sempre voltou os olhos para o ideal e para a luz!

  Os vossos mortos estão vivos e ainda combatem pela pátria e pela humanidade; presentes nas trincheiras, eles animam os seus camaradas, inclinam-se sobre os feridos abandonados nos campos de batalha, para lhes diminuir os padecimentos e aliviar os horrores da agonia; consolam, com os seus fluidos reconfortantes, aqueles que ficaram neste mundo.

  A França quase sucumbiu no Marne e em Verdun, salvando-se, todavia, quando o monstro se encontrava em plena posse de todos os seus poderes e de toda a sua força. Agora, o inimigo começa a se cansar e se esgota, sendo inútil contrair todos os músculos que se afrouxam pouco a pouco, e chegará o dia em que o terrível monstro cairá sobre a areia manchada pelo seu próprio sangue, para nunca mais se levantar.

  Não podemos nem devemos fixar datas, pois se Deus pode dizer ao espírito imundo: “Basta”, deve, todavia, entregar ao livre-arbítrio das nações e dos indivíduos a possibilidade de se manifestarem.

  Quantas nações não serão julgadas e não sofrerão o peso da sua covardia, quando deviam defender a justiça violada!

  Quantos indivíduos terão que pagar caro as traições e covardias que retardaram a vitória do bem e aumentaram o número de vítimas! Tremam todos porque a mão divina cairá pesadamente sobre eles.

  Porém, que essas fraquezas e desfalecimentos não vos desesperem. A França vencerá. A vitória dos aliados, gloriosa entre todas, bela por tanto heroísmo, por tantos sacrifícios, apresentará ao mundo uma nova era de justiça, amor e beleza!”

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LÉON DENIS, O Mundo Invisível e a Guerra, VII –  O Dia de Finados na Trincheira, 2 de 2, 21º fragmento da obra.
(imagem: Tanque de guerra britânico capturado pelos Alemães, durante a Primeira Guerra Mundial)

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Nas garras do pensamento crítico ~


O velho e o novo ~

   É evidente que o conhecimento da sobrevivência alarga a concepção humana da vida e do mundo, muito além dos limites terrenos ou orgânicos da concepção materialista. Oliver Lodge classificou o Espiritismo de “nova revolução copérnica”.

   Assim como Copérnico rompeu de vez o ergástulo mental do geocentrismo, a revolução espírita desloca dos organismos materiais o conceito de vida, rompe o organocentrismo da biologia moderna e reduz a uma simples confusão do efeito pela causa o chamado “materialismo-psicológico”.

   Em consequência, leis e perspectivas novas aparecem, exigindo verdadeira revisão dos conhecimentos do homem e do seu modo de encarar a vida e o mundo. Mais uma vez nos deparamos com a luta clássica entre o velho e o novo tão bem definida no Evangelho de Cristo e nas obras de Allan Kardec.

Vagas aspirações

   Alegam os mais ferrenhos materialistas que o conhecimento da sobrevivência – se de facto ela existisse – não serviria senão para perturbar a visão presente do homem, desviando-o da execução pura e simples das tarefas imediatas. Kardec, que condenou a vida contemplativa, e pregou a necessidade da acção contínua, dando o exemplo concreto da sua própria vida de militante espírita, replica: “...a incerteza, no tocante às coisas da vida futura, faz que o homem se lance, com uma espécie de frenesi, sobre as da vida material.”

   A réplica de Kardec não exige demonstrações. A vida moderna, baseada no materialismo prático do mundo capitalista, vale por uma experiência natural, em escala de assombro. Nunca se viu tamanho frenesi na procura dos bens materiais. A advertência de Francis Bacon“Busca primeiro as boas coisas do espírito, que o resto será suprido ou não sentirás a sua falta”, com base naquela de Cristo: “Busca primeiramente o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais te será dado por acréscimo”, não soa no coração, mas apenas nos tímpanos desatentos do homem moderno. Diante disso, poderíamos esperar do materialismo teórico ou filosófico uma nova aplicação do princípio de Hahnemann, – similia similibus curantur – para curar o mundo desse delírio febril?

   Kardec diz ainda: “Esse é o inevitável efeito das épocas de transição. O edifício do passado rui, sem que o do futuro esteja construído. O homem é como um adolescente, que não tem mais a crença ingénua dos primeiros anos e não adquiriu ainda os conhecimentos da idade madura. Não possui mais do que vagas aspirações, que não sabe definir.”

   A sociedade socialista, baseada na filosofia materialista mais avançada, terminaria atormentada por essas “vagas aspirações” de que nos fala Kardec. E mais uma vez surgiria, no seu próprio seio, a luta entre o velho e o novo. A hipótese não é gratuita, pois para tal não acontecer, seria necessário que não existisse uma vida futura, que a sobrevivência não fosse uma das realidades do Universo.

/…


José Herculano Pires, Espiritismo Dialéctico, "O velho e o novo / Vagas aspirações", 11º fragmento da obra.
(imagem de ilustração: Vi o caçador levantar o arco-íris, pintura em acrílico de Costa Brites)

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

a pedra e o joio ~


O comparsa da matéria ~
   Estranharam alguns leitores a acusação de materialismo que fizemos à teoria corpuscular do espírito. Realmente, alguns trechos do livro do Sr. Guimarães Andrade parecem contradizer-nos. Assim, por exemplo, na página 110, encontramos este: “Sem atribuir aos componentes da substância viva a intervenção de um princípio extra-material, não conseguiremos levar a bom termo a compreensão do enigma da vida”. (Suprimimos os trechos intercalados, para maior clareza).

   Essa, entretanto, não é mais do que uma das muitas contradições do livro e da teoria. Enquanto o autor afirma tal coisa, através de palavras, propõe o contrário na sua elaboração teórica. Preso àquilo que chamamos de “fatalismo lógico”, o Sr. Guimarães Andrade quer seguir um caminho, mas na verdade segue outro. O princípio extra-material não tem lugar nessa teoria corpuscular, tipicamente mecanicista, irremediavelmente amarrada às ciências da matéria.

   Na página 116, por exemplo (Cap. VI), vemos o autor equiparar os bions aos electrons. As suas palavras textuais são estas: “O bion seria um correspondente tetradimensional do electron. As suas propriedades se assemelham e são homólogas. Todavia, um tem quatro e o outro tem três dimensões. Talvez somente nisso resida a diferença entre eles”. Como vemos, a diferença é apenas dimensional. Mas quando nos lembramos de que a quarta dimensão é o tempo da concepção física de Einstein, chegamos a perguntar porque o autor se refere ao espírito.

   Tudo se passa, como já demonstramos, no “continuum espaço-tempo”, que é um “continuum” material, o todo material do universo einsteiniano. O próprio autor chama o espírito de “comparsa da matéria”, chegando a falar num “conúbio entre o espírito e a matéria”. Mas por que esse conúbio, se a matéria pode explicar tudo, pois tudo se passa nela? O espírito aparece por mero engano, como “peninha para atrapalhar”, pois o que importa é a matéria. E tanto assim, que o espírito, antes de se integrar na matéria, é apenas matéria em quarta dimensão.

   Para sair da situação contraditória em que se colocou, o autor inventa um curioso processo de queda dos átomos espirituais, atraídos por um campo material. Mas nesse momento tem de reformar, não só o Espiritismo, como também a Física. A sua posição é então a de um reformador universal. De um lado, quer modificar Allan Kardec, do outro, modificar Einstein e todos os teóricos da física nuclear. A sua teoria da queda dos átomos, entretanto, não é mais do que uma imitação da teoria da inclinação dos átomos, de Epicuro. E sabemos que Epicuro foi acusado, por essa teoria da inclinação, de haver desfigurado o atomismo de Demócrito.

   Vejamos como o autor propõe essa aparente novidade: “Para explicar o fenómeno (a vivificação da matéria), precisamos transpor algumas barreiras conceptuais da própria Física, admitindo que o movimento dos electrons, quando cobrindo uma superfície fechada em torno do núcleo, possa desenvolver um momento magnético perpendicular, ao mesmo tempo, aos três eixos cartesianos que definem um espaço físico”. Mais uma vez, como assinalamos anteriormente, o autor se utiliza dos conceitos alheios em função dos seus interesses teóricos. Amolda ao seu bel-prazer as próprias teorias da ciência moderna.

   No final do volume, o Sr. Guimarães Andrade se lembra da existência de Deus e declara que o excluiu intencionalmente da teoria, para o incluir mais tarde. O leitor que acompanhou o nosso estudo há de perguntar, porém, de que maneira Deus seria incluído nesse mundo mecânico, onde o próprio Espírito da concepção kardeciana foi também posto de lado e “cientificamente” substituído por um “comparsa da matéria”, que nada mais faz do que obedecer a leis de atracção e repulsão.

   Não existe, na teoria corpuscular do espírito, uma anterioridade do espírito. “Comparsa da matéria”, ele nasce com esta e nesta se desenvolve. Na página 134, ao tratar da reencarnação, o autor reafirma a sua tese: “Como já fizemos ressaltar nos capítulos anteriores, o espírito se forma e se aperfeiçoa através das suas experiências na matéria”. E na página 184, explica que a alma é simples “duplicata biomagnética”, que surge com o corpo e com ele desaparece.

   Essa nova teoria da alma é outro ponto obscuro do livro. O Sr. Guimarães Andrade faz absoluta distinção entre espírito e alma. Afirma que esta última desaparece com a morte do corpo. Mas acrescenta que ela fica “em estado latente, aguardando novo veículo fisiológico para se manifestar”. Quer dizer que a alma desaparece, mas não desaparece. Verdadeiro jogo de esconde-esconde, perfeitamente dispensável, pois em nada influi na teoria. O autor se diverte, às vezes, jogando com a sua imaginação, na formulação de subteorias inteiramente inúteis, simples brinquedos de passa-tempo.

   E o perispírito? perguntarão os leitores. E perguntarão com razão. Mas não podemos dar-lhes nenhuma resposta positiva. O perispírito existe, porque o autor se refere a ele, mas jamais o define. Aliás, parece que a omissão é determinada pelo “fatalismo lógico” a que já aludimos. Como explicar o perispírito, depois que toda a sua possível explicação foi aplicada ao espírito? O que o Sr. Guimarães Andrade chama de espírito, desde o início do livro até ao fim, seria mais aceitável se ele o chamasse de perispírito. Mas, por outro lado, se o fizesse, onde iria parar a teoria corpuscular “do espírito”?

   Pela exposição acima, parece-nos ter ficado claro que a teoria corpuscular do espírito, como já dissemos, é simplesmente um equívoco. O Sr. Guimarães Andrade empregou mal a sua inteligência e a sua cultura, ao querer fazer tamanha revolução no Espiritismo e na Ciência, pois não conseguiu atingir a nenhum dos dois. Veremos ainda, no último artigo sobre o assunto, reproduzido logo a seguir, que as intenções do autor não se limitam a contribuir para o desenvolvimento da ciência espírita. Vão bem mais longe. A teoria corpuscular pretende substituir a doutrina espírita, deixando Allan Kardec e a codificação na retaguarda. É por isso, e não pelo gosto de divergir, que insistimos no esclarecimento do assunto.
 /…




José Herculano Pires – A Pedra e o Joio, Crítica à Teoria Corpuscular do Espírito. O comparsa da matéria, 15º fragmento da obra.
(imagem: As Colhedoras de Grãos, pintura a óleo por Jean-François Millet)

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

| o grande enigma ~


Unidade substancial do Universo (II)

A grande querela secular que dividia as escolas filosóficas reduz-se, pois, a uma questão de palavras. Nas experiências em que a William Crookes coube tomar a iniciativa, a matéria funde-se, o átomo desaparece; em seu lugar surge a energia. A substância é um Proteu que reveste mil formas inesperadas. Os gases, que se consideravam permanentes, se liquefazem; o ar se decompõe em elementos muito mais numerosos do que a ciência de ontem ensinava; a radioactividade, isto é, a aptidão dos corpos à desagregação, emitindo eflúvios análogos aos raios catódicos, revela-se qual um facto universal. Uma revolução se dá nos domínios da Física e da Química. Por toda a parte, em nosso redor, vemos expandirem-se fontes de energia, imensos reservatórios de forças, muito superiores em potência a tudo quanto até hoje se conhecia. A Ciência se encaminha, pouco a pouco, para a grande síntese unitária, que é a lei fundamental da Natureza. As suas mais recentes descobertas têm alcance incalculável, no sentido de demonstrar, experimentalmente, o grande princípio constitutivo do Universo: unidade das forças, unidade das leis. O encadeamento prodigioso das forças e dos seres – precisa-se, completa-se. Verifica-se existir continuidade absoluta, não só entre todos os estados da Matéria, mas ainda entre estes e os diferentes estados da força. (i)

(i) “Os produtos da dissociação dos átomos – diz Gustave Le Bon – constituem uma substância intermediária, pelas suas propriedades, entre os corpos ponderáveis e o éter imponderável, isto é, entre dois mundos profundamente separados até aqui.” (Revue Scientifique, 17 de outubro de 1903).
“As observações precedentes – diz ainda esse eminente químico – parecem provar que os diversos corpos simples derivam de matéria única. Essa matéria primitiva seria produzida por uma condensação do éter.” (Revue Scientifique, 24 de outubro de 1901).

A energia parece ser a substância única, universal. No estado compacto, ela reveste as aparências a que chamamos matéria sólidalíquidagasosa; sob um modo mais subtil, constitui os fenómenos de luz, calor, electricidade, magnetismo, afinidade química. Estudando a acção da vontade sobre os eflúvios e as irradiações, poderíamos, talvez, entrever o ponto, o vértice em que a força se torna inteligente, em que a Lei se manifesta, em que o Pensamento se transforma em vida. (ii)

(ii) Ver nota complementar nº 2, no fim deste volume.

E isso porque tudo se liga e encadeia no Universo. Tudo é regulado pela lei do número, da medida, da harmonia. As manifestações mais elevadas de energia confinam com a inteligência. A força se transforma em atracção; a atracção se faz amor. Tudo se resume num poder único e primordial, motor eterno e universal, ao qual se dão nomes diversos e é apenas o Pensamento, a Vontade divina. As suas vibrações animam o Infinito! Todos os seres, todos os mundos se banham no oceano das irradiações que emanam do inesgotável foco.

Consciente da sua ignorância e da sua fraqueza, o homem fica confundido diante dessa unidade formidável que abrange todas as coisas e com ela conduz a vida das Humanidades. Ao mesmo tempo, entretanto, o estudo do Universo lhe abre fontes profundas de gozos e de emoções. Apesar da nossa enfermidade intelectual, o pouco que entrevemos das leis universais nos arrebatam; na Potência ordenadora das leis e dos mundos pressentimos Deus e, por isso, adquirimos a certeza de que o Bom, o Belo, a Harmonia perfeita, reina acima de tudo.
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Léon Denis, O Grande Enigma, Primeira parte Deus e o Universo, II Unidade substancial do Universo 2 de 2, 10º fragmento da obra.
(imagem de ilustração: As majestosas e violentas palavras dos poemas, pintura em acrílico de Costa Brites)