O Despertar do Génio Céltico *
Assim como um lago que a tempestade agita vê surgir à
superfície as coisas submersas no fundo de suas águas, também o drama imenso
que perturba o mundo faz aparecer, com as forças latentes, todas as violentas
paixões, as cobiças e os ódios que dormitavam no fundo da alma humana.
Neste momento cruel, é agradável descansar o pensamento nos
grandes vultos que guiaram, iluminaram e confortaram a humanidade, estando
nesse número Allan Kardec.
Há cerca de 20 anos percorria eu as praias da Bretanha, essa
terra de granito agitada pelas tempestades e varrida pelos fortes ventos do
mar. Lá estão os colossos de pedra, os imponentes monumentos megalíticos,
erguidos por nossos antepassados, os celtas, à beira do oceano.
É verdade que Camille Jullian e outros sábios lhe dão origem
mais antiga, porém, sejam quais forem os seus autores, representam um grande
pensamento religioso e os druidas dele se utilizaram para as necessidades de
seu culto austero.
Falarei aqui dos célebres alinhamentos de Carnac, que
contavam, ainda na Idade Média, doze mil pedras do Menhir de Locmariaquer,
dividido hoje em três pedaços com 25 metros de altura!
Precisarei falar dos dolmens e das grutas funerárias que
cobrem toda a região?
Quantos viajantes passaram perto desses blocos misteriosos
sem entender o seu sentido?
De minha parte sempre me esforcei em estudar essa gigantesca
bíblia de pedra e ela me revelou a religião de nossos antepassados, tão
caluniados pelo Catolicismo idólatra: Deus é grande demais, pensavam eles, para
ser representado por imagens e só a natureza, virgem e livre, pode dar uma ideia
de seu poder e de sua grandeza.
Toda pedra talhada é pedra maculada e somente debaixo das
abóbadas sombrias das florestas seculares ou do alto das penedias, de onde o
olhar abarca os imensos horizontes do mar, podemos entrever o Ser Infinito e
Eterno!
Vós bem sabeis que eles acreditavam na pluralidade dos
mundos habitados, no progresso das almas pelo caminho das vidas sucessivas, e
mantinham o intercâmbio dos vivos com os mortos.
Nessas profundas fontes Allan Kardec ilustrou o seu espírito e
em ambientes idênticos ele outrora viveu. Talvez não na Bretanha, mas na
Escócia, conforme indicação de seus guias. A Escócia era habitada pela mesma
raça e ali os monumentos megalíticos são numerosos. Ainda hoje a tradição
céltica paira sobre os lagos e os montes, entre as neblinas melancólicas do
norte.
As faculdades psíquicas, principalmente a vidência, são
hereditárias em muitas famílias e Kardec aprendeu nessa terra a filosofia dos
druidas, preparando-se para as grandes empresas futuras, no estudo e na
meditação.
Em sua última existência, tudo nele, o carácter grave, o
ardente amor pela natureza, o nome de Allan Kardec, que ele mesmo escolheu, até
o dólmen erguido no seu túmulo em cumprimento do seu desejo, tudo nele, repito,
recorda o homem do visco ** do carvalho, que retornou a esta Gália para fazer
renascer a fé extinta, revivendo nas almas o sentido de imortalidade, a crença
nas existências sucessivas e a estreita solidariedade que liga o mundo visível
ao mundo invisível.
Kardec, meu mestre! É sob esse aspecto, bem pouco conhecido,
que desejo considerar-te! É em nome dessas lembranças comuns que te venho
dizer: inspira-nos na realização da obra começada, guiando-nos no caminho que
teus primeiros esforços abriram.
/…
* Lido no Cemitério Père-Lachaise em 31 de março de
1916, aniversário do falecimento de Allan Kardec.
** Visco:
planta parasita, originária das regiões temperadas do hemisfério norte, que
vive agarrada aos troncos e aos ramos das árvores e que se mantém sempre verde.
(N.R.)
LÉON DENIS, O Mundo
Invisível e a Guerra, VI – O
Despertar do Génio Céltico, 1 de 2, 18º fragmento da obra.
(imagem: Tanque de guerra britânico capturado pelos
Alemães, durante a Primeira Guerra
Mundial)