Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

domingo, 26 de fevereiro de 2023

Diálogos de Kardec ~


~ o caminho da vida ~ 

A questão da pluralidade das existências, tem desde há muito tempo, preocupado os filósofos e, mais de um, reconheceu; na anterioridade da alma, a única solução possível para os mais importantes problemas da psicologia. Sem esse princípio, eles se encontram presos a cada passo, encurralados num beco sem saída, donde somente poderão escapar com o auxílio da pluralidade das existências. 

A maior objecção que podem fazer a esta teoria é a da ausência da lembrança das existências anteriores. Com efeito, uma sucessão de existências inconscientes, umas das outras; deixando um corpo, para ocupar outro, sem a memória do passado, equivaleria ao nada, visto que quanto ao pensamento seria o nada; seria uma multiplicidade de novos pontos de partida, sem ligação entre si; seria a ruptura incessante de todas as afeições que fazem o encanto da vida presente, a mais doce e consoladora esperança do futuro; seria, afinal, a negação de toda a responsabilidade moral. Semelhante doutrina seria tão inadmissível e tão incompatível com a justiça divina, quanto a de uma única existência com a perspectiva de uma eternidade de penas por algumas faltas temporárias. Compreende-se então que, os que fazem semelhante ideia da reencarnação a recusem; mas, não é assim que o Espiritismo no-la apresenta. 

A existência espiritual da alma, diz ele, é a sua existência normal com a lembrança retrospectiva indefinida. As existências corpóreas são apenas intervalos, (curtas estações) na existência espiritual, sendo a soma de todas as estações, apenas uma parcela mínima da existência normal, absolutamente como se numa viagem de muitos anos, de tempos a tempos, o viajante parasse durante algumas horas. Embora pareça que, durante as existências corporais, haja solução de continuidade, por ausência de lembrança, a ligação efectivamente se estabelece no curso da vida espiritual, que não sofre interrupção. A solução de continuidade, realmente, só existe para a vida corpórea exterior e de relação e, a ausência, aí, da lembrança prova a sabedoria da Providência que assim evitou fosse o homem por demais desviado da vida real, onde ele tem deveres a cumprir; mas, quando o corpo se encontra em repouso, durante o sono, a alma levanta voo parcialmente e restabelece então a cadeia interrompida, apenas durante a vigília. 

A isto ainda se pode opor uma objecção, perguntando que proveito pode o homem tirar das suas existências anteriores, para se melhorar, dado que ele não se lembra das faltas que tenha cometido. O Espiritismo responde, primeiro, que a lembrança das existências infelizes, juntando-se às misérias da vida presente, ainda mais penosa tornaria esta última. Desse modo, poupou Deus às suas criaturas um acréscimo de sofrimentos. Se assim não fosse, qual não seria a nossa humilhação, ao pensarmos no que já fomos! Para o nosso melhoramento, aquela recordação seria inútil. Durante cada existência, damos sempre alguns passos para a frente, adquirimos algumas qualidades e nos despojamos de algumas imperfeições. Cada uma de tais existências é, portanto, um novo ponto de partida, em que somos aquilo em que nos tivermos feito, em que nos tomamos pelo que somos, sem nos preocuparmos com o que tivesse-mos sido. Se numa existência anterior, fomos antropófagos, que importa isso, uma vez que já o não somos? Se tínhamos um defeito qualquer, de que já não conservamos nenhum vestígio, aí está uma conta saldada, de que não mais nos cumpre cuidar. Suponhamos que, porém, se trate de um defeito apenas meio corrigido: o restante ficará para a vida seguinte e será nesta que dele devemos cuidar, corrigindo-o. 

Tomemos um exemplo: um homem foi assassino e ladrão e, foi punido, quer na vida corpórea, quer na vida espiritual; ele se arrepende e corrige do primeiro pendor, porém, não do segundo. Na existência seguinte, será apenas ladrão, talvez um grande ladrão, porém, não mais assassino. Mais um passo para diante e já não será mais que um ladrão vago; um pouco mais tarde já não roubará, mas poderá ter a tentação de roubar, mas que a sua consciência neutralizará. Depois, um esforço derradeiro e, tendo desaparecido todos os vestígios da enfermidade moral, será um modelo de probidade. Que lhe importa então o que ele foi? A lembrança de ter acabado no cadafalso não seria uma tortura e uma humilhação constantes? 

Aplicai este raciocínio a todos os vícios, a todos os desvios e, podereis ver como a alma se melhora, passando e voltando a passar pelos cadinhos da encarnação. Não terá sido Deus mais justo com o tornar o homem árbitro de sua própria sorte, pelos esforços que empregue para se melhorar, do que se fizesse que a sua alma nascesse ao mesmo tempo que o seu corpo e o condenasse a castigos perpétuos por erros passageiros, sem lhe conceder meios de purificar-se das suas imperfeições? Pela pluralidade das existências, o seu futuro está nas suas mãos. Se ele gasta muito tempo a melhorar-se, sofre as consequências dessa maneira de proceder: é a suprema justiça; a esperança, porém, jamais lhe é interdita. 

A seguinte comparação é de molde a tornar compreensíveis as peripécias da vida da alma: 

Suponhamos uma estrada longa, em cuja extensão se encontram – de distância em distância – mas com intervalos desiguais, florestas que se tem de atravessar e, à entrada de cada uma, a estrada larga e magnífica, se interrompe, para só continuar à saída. O viajante segue por essa estrada e penetra na primeira floresta. Aí, porém, não dá com caminho aberto; depara-se-lhe, ao contrário, um labirinto indestrinçável em que ele se perde. A claridade do Sol desapareceu sob a espessa ramagem das árvores. Ele vagueia, sem saber para onde se dirige. Afinal, depois de inauditas fadigas, chega aos confins da floresta, mas extenuado, dilacerado pelos espinhos, amachucado pelos montes de pedras. Lá, descobre de novo a estrada e prossegue a sua jornada, procurando curar-se das feridas. Mais adiante, segunda floresta se lhe afigura, onde o esperam as mesmas dificuldades. Mas, ele já possui um pouco de experiência e dela sai menos molestado. Noutra, cruza-se com um lenhador que lhe indica a direcção que deve seguir para se não transviar. A cada nova travessia, aumenta a sua sagacidade, de maneira que transpõe cada vez mais facilmente os obstáculos. Certo de que à saída encontrará de novo a boa estrada, fixa-se nessa certeza; depois, já sabe orientar-se para encontrá-la com mais facilidade. A estrada termina no cume de uma montanha elevadíssima, donde ele descortina todo o caminho que percorreu desde o ponto de partida. Vê também as diferentes florestas que atravessou e se lembra das vicissitudes por que passou, mas essa lembrança não lhe é penosa, porque chegou ao fim da caminhada. É como o velho soldado que, então na calma do lar, recorda as batalhas que vivenciou. Aquelas florestas que lhe pontilhavam a estrada, são como que pontos negros sobre uma fita branca e, ele diz a si mesmo: “Quando eu estava naquelas florestas, nas primeiras, sobretudo, como me pareciam imensas de atravessar! Afigurava-se-me que nunca chegaria ao fim; tudo à minha volta me parecia gigantesco e intransponível. E quando penso que, sem aquele bondoso lenhador que me pôs no bom caminho, talvez eu ainda lá estivesse! Agora, que contemplo essas mesmas florestas do ponto onde me encontro, como se me apresentam pequeninas! Afigura-se-me, que de um passo, teria podido transpô-las; ainda mais, a minha vista as penetra e lhes distingue os menores detalhes; percebo até os passos em falso que dei.” 

Diz-lhe então um ancião: – “Meu filho, eis-te chegado ao termo da viagem; mas, um repouso indefinido causar-te-ia tédio mortal e tu tenderias a ter saudades das vicissitudes que experimentaste e que te davam actividade ao corpo e ao Espírito. Vês daqui grande número de viajantes na estrada que percorreste e que, como tu, correm o risco de perder-se; tens agora a experiência, nada mais temas: vai-lhes no encalço e procura com os teus conselhos guiá-los, a fim de que cheguem depressa.” 

– Irei com alegria, responde o nosso homem; entretanto, pergunto: por que não há uma estrada directa desde o ponto de partida até aqui? Isso pouparia aos viajantes o terem de atravessar aquelas abomináveis florestas. 

– Meu filho, novato ou mais experiente, atenta bem e verás que muitos evitam a travessia de algumas delas: são os que, tendo adquirido mais rapidamente a experiência necessária, sabem seguir um caminho mais directo e mais curto para chegarem aqui. Essa experiência, porém, é fruto do trabalho que as primeiras travessias lhes impuseram, de sorte que eles aqui chegam em virtude do próprio mérito. Que saberias, se por lá não tivesses passado? A actividade que tiveste de desenvolver, os recursos de imaginação que precisaste empregar para abrir caminho, aumentaram os teus conhecimentos e desenvolveram a tua inteligência. Sem que tal se desse, serias tão noviço quanto o eras à partida. Ao demais, procurando livrar-te dos obstáculos, contribuíste para o melhoramento das florestas que atravessaste. O que fizeste foi pouca coisa, imperceptível mesmo; pensa, contudo, nos milhares de viajantes que fazem outro tanto e que, trabalhando para si mesmos, trabalham, sem o perceberem, para o bem comum. Não será justo que recebam o salário de suas penas no repouso de que gozam aqui? Que direito teriam a esse repouso, se nada tivessem feito? 

– Meu pai, responde o viajante, numa das florestas, encontrei um homem que me disse: “Na orla há um imenso abismo a ser transposto de um salto; mas, de mil, apenas um só o consegue; todos os outros lhe caem no fundo, numa fornalha ardente e ficam perdidos sem remissão. Esse abismo, eu não vi.” 

– Meu filho, é que ele não existe, pois, de contrário, seria uma cilada abominável, armada a todos os que para cá se dirigem. Bem sei que lhes cabe vencer dificuldades, mas igualmente sei que cedo ou tarde as vencerão. Se eu tivesse criado impossibilidades para um só que fosse, sabendo que esse sucumbiria, teria praticado uma crueldade, que dificultaria imenso, a atingissem a maioria dos viajantes. Esse abismo é uma alegoria, cuja explicação vais receber. Olha para a estrada e observa os intervalos das florestas. Entre os viajantes, alguns vês que caminham com passo lento e semblante jovial; vê aqueles amigos, que se tinham perdido de vista nos labirintos da floresta, como se sentem ditosos, por se terem de novo encontrado ao deixarem-na. Mas, a par deles, outros há que se arrastam penosamente; estão estropiados e imploram a compaixão dos que passam, pois que sofrem atrozmente das feridas de que, por culpa própria, se cobriram, atravessando os espinheiros. Curar-se-ão, no entanto e, isso lhes constituirá uma lição da qual tirarão proveito na floresta seguinte, donde sairão menos estropiados. O abismo simboliza os males que eles experimentam e, dizendo que de mil apenas um o transpõe, aquele homem teve razão, porquanto enorme é o número dos imprudentes; errou, porém, quando disse que aquele que ali cair não mais sairá. Para chegar a mim, o que tombou encontra sempre uma saída. Vai, meu filho, vai mostrar essa saída aos que estão no fundo do abismo; vai amparar os feridos que se arrastam pela estrada e mostrar o caminho aos que se embrenharam pelas florestas. 

A estrada é a imagem da vida espiritual da alma e em cujo percurso esta é mais ou menos feliz. As florestas são as existências corpóreas, em que elas trabalham pelo seu adiantamento, ao mesmo tempo que para a obra geral. O caminheiro que chega ao fim e que volta para ajudar os que vêm atrasados, representa os anjos guardiães, os missionários de Deus, que se sentem venturosos em vê-lo, como, também, no desdobrarem as suas actividades para fazer o bem e obedecer ao supremo Senhor. 

/... 


ALLAN KARDEC, Obras Póstumas, Primeira Parte – O caminho da vida, 22º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: Dança rebelde, 1965 – Óleo sobre tela, de Noêmia Guerra)

domingo, 12 de fevereiro de 2023

O Mundo Invisível e a Guerra ~


XXVI 

~~ A Alma e os Mundos: A Vida Infinita 

 Leitores, no decorrer destas páginas, seguistes o curso do meu pensamento e nelas encontrastes, certamente, alguma coisa das vossas impressões e emoções, como que o reflexo da vossa própria imagem; isso fez com que criásseis interesse por elas. 

Antes de terminar este livro, eu vos convido a abandonar, por um momento, as nossas preocupações comuns, as tristes lembranças dos quatro anos trágicos que acabamos de passar, para que elevemos os nossos olhos para a natureza infinita que para mim sempre foi uma poderosa consolação. 

 Muitas vezes, por insónia ou na angústia, eu me levanto, no meio das noites claras, para contemplar o desfile majestoso dos astros, esses mundos luminosos que me falam a mais eloquente das linguagens; que me esclarecem da sabedoria e do poder do Criador. 

 A sua visão me consola [dos horrores da Terra, desta pobre Terra ensanguentada pela guerra,] coberta de ruínas e banhada por tantas lágrimas. 

 Das profundezas do espaço, aqueles mundos me atraem, me chamam, como que me fazendo sinais inteligíveis. 

 Se os meus olhos se apagarem, se a minha cegueira vier a ser completa, será para mim uma cruel privação já não poder contemplar esses maravilhosos diamantes celestes. 

 Neste momento [em que a Terra enlutada chora os seus filhos mortos,] parece que os céus estão em festa. Será para receber os que nos deixaram momentaneamente? 

 No zénite (i), brilha Júpiter em todo o seu esplendor, repleto do Sol. A majestosa Orion se inclina para ocidente. Reconhecemos Sirius pela sua luz branca e pura, mas aqui e além, por toda a parte resplandecem outros focos: Rigel, Prócion, Aldebaran, etc. 

 A seguir aparecerão; a rica constelação do Leão, Vega e a gigante Arcturo, semelhante a oito mil sóis como o que nos ilumina. 

 A Via Láctea desdobra sobre as nossas cabeças a sua imensa faixa polvilhada de sóis, que a distância mal deixa entrever. O cortejo dos astros continuará, sempre, sem fim... As irradiações e vibrações de todos esses mundos se cruzam na imensidão. 

 A alma sensível fica deslumbrada, sentindo os eflúvios de amor e as palpitações da vida universal. Tem a sensação do intercâmbio que se opera entre o Espaço e a Terra, quando os pensamentos e as preces sobem e as forças e as inspirações nos envolvem. 

 Quantas indagações esse espectáculo nos desperta na alma! 

 Para onde irão todos esses astros na sua rápida caminhada, por exemplo, a estrela número 1830 do catálogo de Groombridge que, proveniente de um sistema desconhecido, se desloca a 300 quilómetros por segundo, atravessando o nosso Universo qual um enorme bólide? 

 E esses cometas vagabundos, estranhos mensageiros que se movem errantes de sistema em sistema, qual terá sido a sua origem e qual será o seu papel no cosmos? Além disso, as incontáveis nebulosas, espalhadas no espaço como berços de futuros universos, origens de mundos ou formigueiros de sóis e, que encontramos profusamente semeados até nos espaços infinitos! 

 Tais abismos de mistério e silêncio, de sombra e de luz, por muito tempo foram objecto de espanto e terror para o homem e era com hesitação, quase que com medo, o seu pensamento que tentava sondar-lhes as profundezas. 

 Agora, graças à revelação dos espíritos, essa imensidade, muda e melancólica na aparência, se anima e vibra. Todos esses mundos e os espaços que os separam estão povoados por legiões de almas, humanas ou etéreas. Constituem as nossas futuras moradas, estações de nossa longa peregrinação, os degraus da escada de progresso que todos temos de subir através dos tempos. 

 O nosso atrasado planeta é uma mansão de dor e de lágrimas, uma rude escola onde os espíritos novos vão adquirir as virtudes heróicas, as qualidades fundamentais que lhes darão acesso às esferas venturosas. Porém, lá do Alto, existem sociedades mais adiantadas que se desenvolvem em paz, em alegria e em harmonia. 

 Assim, fora dos limites de nossas breves e penosas existências terrenas, abrem-se diante de nós imensas perspectivas, oferecendo-se ao nosso interesse e à nossa atenção múltiplos temas de estudo e exploração, variedades e contrastes inimagináveis. 

 Diante de tantas maravilhas que o futuro nos reserva, as presentes provações perdem a sua rudeza. Crescem; a nossa confiança, a nossa esperança e a nossa fé. 

 Incapazes de medir a extensão das riquezas espirituais das quais participaremos, juntamos as nossas vozes às vozes do Infinito, ao coro universal dos seres e dos mundos, para a comemoração da vida eterna e infinita! 

~~*~ 

 O nosso destino está escrito no Céu em caracteres de fogo. Desde a origem dos mundos, Deus (*) traçou sobre as nossas cabeças, em linhas luminosas, o poema da alma e do seu futuro. E todos aqueles que souberam decifrar essas letras maravilhosas conseguiram sabedoria e força moral nesse estudo. 

 Mesmo entre os espíritos da nossa esfera, há poucos que conseguiram visitar e descrever os esplendores celestes e, se alguns, num rápido voo, puderam explorar diversos sistemas e penetrar mais além dentro do infinito, logo, devem regressar aos meios correspondentes ao seu grau de adiantamento. 

 Essas longínquas explorações são permitidas ao espírito que delas se torne digno, para lhe mostrar o seu caminho de progresso. Elas estimulam a sua vontade de adquirir os merecimentos que lhe permitirão viver na sociedade das almas unidas pelo amor dentro da felicidade. 

 Tudo está graduado no nosso progresso. Para alguns espíritos muito jovens, insuficientemente preparados, o conhecimento de certas verdades colocaria em risco todo o seu equilíbrio mental. Somente aos grandes espíritos pertence o pleno conhecimento do Universo. Deles é que nos vem, principalmente (por intuição ou mediunicamente), a revelação das leis superiores. 

 Para que consigamos alcançá-la, é preciso prepararmos a nossa alma pela meditação, pelo recolhimento e pela prece. Assim se produz em nós uma espécie de ampliação do ser, uma expansão das faculdades, que torna possível penetrarem em nós as mais altas verdades. Por seu intermédio e pela sua acção, uma transformação se opera, paulatinamente; ao mesmo tempo em que se desdobram as páginas do livro exterior e, à medida que o horizonte se aclara, o ser interior se ilumina e os ecos de dentro atendem aos apelos de fora. 

 Debaixo de uma influência espiritual, as lembranças do passado, mergulhadas no mais profundo da nossa memória (i), ressurgem. A cadeia de nossas vidas anteriores se reconstitui e voltamos a tomar consciência da nossa verdadeira natureza e da nossa pátria de origem (**). Sentimos melhor a gravidade e a solenidade das coisas da vida. As provações e os males, os trabalhos e as dores são considerados como outros tantos meios de educação e de progresso. 

 Toda a nossa história, através dos séculos, está escrita dentro de nós. As nossas vidas passadas, monótonas ou trágicas, foram se vertendo, gota a gota, no fundo da nossa alma e, como uma água profunda, em cuja superfície nos inclinamos em certas horas, podemos então ver nela reflectida, como em um espelho, as imagens do passado. 

 Já ficou assinalado que, nos fenómenos de exteriorização e mediante a visão psíquica aumentada, a criatura revê o lugar onde as suas existências aconteceram; as margens da Ática, banhadas pelo Sol, onde o mar rebenta o seu rolo de espumas debaixo dos ramos dos mirtos e da verdura prateada das oliveiras; as imensas planícies da Assíria e do Egipto e os colossos de pedra que se erguem para o céu azul as suas formas geométricas ou os seus perfis de animais. A alma reconstitui as remotas civilizações e o papel, muitas vezes obscuro, mas às vezes brilhante, que nelas desempenhava. 

 Vislumbra as brancas cidades cujos nomes harmoniosos marcam como estações a caminhada intelectual da humanidade: Atenas, a jóia da Hélade, a cidade querida dos filósofos, dos oradores e dos escultores; Crotona, onde Pitágoras ensinava a sua doutrina a um grupo de iniciados; Alexandria, onde os esplendores do génio grego se misturaram, no crisol do pensamento, com a chama ardente do Cristianismo (i) nascente. 

 Os que viveram aqueles momentos deslumbrantes da história não podem evitar um sentimento de emoção, recordando a adolescência ingénua de sua alma, embalada pelos mitos e lendas pagãs, enamorada pelas ilusões da vida oriental. 

 Poderíamos ter uma ideia de tais impressões comparando-as com as que nos proporciona, no ocaso da vida, as lembranças de nossas ricas sensações da mocidade, quando para nós tudo era sedução e encanto. 

 Aí todas as cenas da natureza provocavam em nós verdadeira embriaguez, como, por exemplo, quando entramos numa floresta espessa pela primeira vez, ouvindo o murmúrio das fontes, dos regatos ou a canção dos ventos entre os ramos; ou quando, do alto das montanhas contemplamos a extensão dos vales e das planícies, vendo, ao longe, resplandecer o mar ou desdobrar-se o panorama de uma grande cidade! 

 Quanta riqueza oculta no íntimo obscuro da alma, tesouros de pensamentos e acções, de alegrias e tormentos, acumulados pelos séculos no íntimo da criatura e que a sugestão hipnótica faz reaparecer, quais essas plantas e flores que flutuam na superfície dos lagos, com as suas raízes mergulhadas nas sombrias profundidades das águas! 

 No meio de tais quadros e recordações que brotam das sombras do passado existem alguns que proporcionam calma e alívio, porém, em compensação, quantas cenas que melhor seria não as tivéssemos revivido! Elas emergem do silêncio e da noite adquirindo poderosa importância e às vezes, ao revê-las, uma angústia nos invade. 

 Os segredos guardados no fundo de nossa memória se levantam e nos acusam. Todo o nosso passado permanece indestrutível e indelével, não há poder capaz de destruí-lo, mas nos é permitido resgatá-lo no futuro, com obras de sacrifício e tarefas bem realizadas. 

 Entendemos porquê a sabedoria eterna conservou esquecidas essas remotas lembranças, por algum tempo: foi para nos dar mais completa liberdade de acção no curso desta vida. Sem tal precaução, os fantasmas de nossas vidas passadas apareceriam diante de nós sem cessar, perturbando a quietude e a serenidade do presente. O reconhecimento das responsabilidades adquiridas e de suas consequências paralisaria o nosso voo para o alto. 

~~*~ 

 Os mais profundos mistérios da alma e do Universo continuam sendo ocultos para nós, todavia podemos comprovar que se realiza, no domínio do conhecimento, um sensível progresso. O véu do destino se levanta e a grande lei da evolução se torna exacta e clara aos nossos olhos. 

 Assistimos a uma verdadeira transformação do pensamento, sob o ponto de vista filosófico. Ele  abandona cada vez mais as posições materialistas que ocupava há tanto tempo para se tornar, agora, espiritualista e idealista, pois já passaram de moda as teorias do átomo e da célula. Além da matéria, reconhece-se a existência de uma força criadora, de um dinamismo poderoso que a penetra e a dirige. Ainda mais acima domina a ideia. 

 A inteligência e a vontade governam o mundo dos seres e das coisas. Aparece a lei e por seu intermédio se afirma a ideia de Deus, que é o pensamento e a força eterna que movem o Universo. Ele é a conciliação de todos os problemas e o objectivo supremo de todas as evoluções. Emanam dele as mais altas aspirações do génio, as intuições do artista e do sábio. Todas as criações de uma arte sublime, os espectáculos grandiosos da natureza, as harmonias do Universo, a sinfonia que os mundos compõem entre si nas profundezas do espaço, tudo isso não é mais do que um reflexo, um pálido eco do poder criador. 

 Estudar Deus na sua obra, aí reside o segredo de toda a força, de toda a verdade, de toda a sabedoria e de todo o amor. Porque Deus irradia através de sua obra assim como o Sol filtra os seus raios por entre a leve neblina que flutua sobre as florestas e os vales. 

/… 
(*) Deus / Inteligência organizadora. Adenda desta publicação. 
(**) Somos Espíritos, a viver temporariamente em corpos face ao nosso atraso evolutivo. À semelhança do mergulhador que necessita do escafandro para explorar o fundo dos mares. Nota desta publicação. 


Léon Denis, O Mundo Invisível e a Guerra, XXVI A Alma e os Mundos: A Vida Infinita, 42º fragmento desta obra. 
(imagem: Dois soldados um alemão e o outro britânico, no dia de Natal durante a primeira guerra mundial (1914), aquando de um cessar-fogo promovido pelos próprios soldados, alemães, britânicos e também franceses, ao longo de uma semana trocaram saudações, cantaram músicas e chegaram a trocar presentes)  

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Da sombra do dogma à luz da razão ~


~ Uranografia Geral (*) 
O espaço e o tempo ~ 

| Galileu, Espírito 
(Études Uranographiques) (VIII) 

A Via Láctea ~ 🌈

  Durante as belas noites estreladas e sem Lua, todos puderam notar esse clarão esbranquiçado que atravessa o céu de uma extremidade à outra, a que os antigos tinham dado o nome de Via Láctea (i) devido ao seu aspecto leitoso. Este clarão difuso foi longamente explorado pelo olho do telescópio nos tempos modernos e esse caminho de poeira de ouro ou esse ribeiro de leite da antiga mitologia transformou-se num vasto campo de maravilhas desconhecidas. As pesquisas dos observadores levaram ao conhecimento da sua natureza e mostraram, ali onde o olhar perdido só encontrava uma fraca claridade, milhões de sóis mais luminosos e mais importantes que o que nos ilumina. 

  A Via Láctea, com efeito, é um campo semeado de flores solares ou planetárias que brilham na sua extensa vastidão. O nosso Sol e todos os corpos que o acompanham fazem parte desses globos brilhantes de que a Via Láctea se compõe; mas apesar das suas dimensões gigantescas relativamente à Terra e à grandeza do seu império, só ocupa, no entanto, um lugar inapreciável nesta vasta criação. Podemos contar uns trinta milhões de sóis semelhantes que gravitam nesta imensa região, afastados uns dos outros mais de cem mil vezes o raio da órbita terrestre (**). 

  Podemos avaliar por esta aproximação da extensão desta região sideral a relação que une o nosso sistema à universalidade dos sistemas que o ocupam. Podemos igualmente avaliar a exiguidade do domínio solar e, a fortiori, o nada da nossa pequena Terra. Que seria então se considerássemos os seres que o povoam! 

  Digo do nada porque as nossas determinações aplicam-se não somente à extensão material, física, dos corpos que estudamos – seria pouco – mas também e sobretudo ao seu estado moral de habitação, ao grau que ocupam na eterna hierarquia dos seres. A Criação mostra-se aí em toda a sua majestade, criando e propagando, à volta do mundo solar e em cada um dos sistemas que o rodeiam de todos os lados, as manifestações de vida e de inteligência. 

  Conhecemos deste modo a posição ocupada pelo nosso Sol ou pela Terra no mundo das estrelas; estas considerações adquirirão um maior peso ainda se reflectirmos no próprio estado da Via Láctea que, na imensidão das criações siderais, só representa um ponto insensível e desprezível vista de longe; porque não é mais do que uma nebulosa estelar como existem milhares no espaço. Se nos parece mais vasta e mais rica do que as outras é pela única razão de nos rodear e se desenvolver em toda a sua extensão sob os nossos olhos; enquanto as outras, perdidas nas profundezas insondáveis, mal se deixam entrever. 

  Ora, se sabemos que a Terra não é nada ou quase nada no sistema solar, que este é nada ou quase nada na Via Láctea, que esta é nada ou quase nada na universalidade das nebulosas e que essa mesma universalidade é muito pouca coisa no meio do imenso infinito, começaremos a perceber o que é o globo terrestre. 

Espírito Galileu 

/… 
(*) Este capítulo foi textualmente extraído de uma série de comunicações ditadas à Sociedade Espírita de Paris, em 1862 e 1863, sob o título de Études Uranographiques e assinado, Galileu; médium M. C. F. (N. do A.) 
(**) Mais de três triliões e quatrocentos biliões de léguas. (N. do A.) 


ALLAN KARDEC, A GÉNESE – Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo, Capítulo VI, Uranografia Geral, O espaço e o tempo – A Via Láctea (de 32 a 36), 30º fragmento desta obra. Tradução portuguesa de Maria Manuel Tinoco, Editores Livros de Vida. 
(imagem de contextualização: Diógenes e os pássaros de pedra, pintura em acrílico de Costa Brites).

sábado, 14 de janeiro de 2023

o problema do | ser


(Quem sou... o que faço aqui... de onde vim... para onde vou...) 

A personalidade integral 

A consciência, o “eu”, é o centro do ser, a própria essência da personalidade. 

Ser pessoa é ter uma consciência, um “eu” que reflexiona, se examina, se recorda. Poder-se-á, porém, conhecer, analisar e descrever o “eu”, os seus mistérios recônditos, as suas forças latentes, os seus germens fecundos, as suas actividades silenciosas? As psicologias, as filosofias do passado em vão o tentaram. Os seus trabalhos não fizeram mais do que tocar ao de leve a superfície do ser consciente. As camadas internas e profundas continuaram obscuras, inacessíveis, até ao dia em que as experiências do Hipnotismo, do Espiritismo, da regressão da memória aí projectaram, afinal, alguma luz. 

Então pôde ver-se que em nós se reflecte, se repercute todo o universo na sua dupla imensidade, de espaço e de tempo. Dizemos de espaço, porque a alma, nas suas manifestações livres e plenas, não conhece as distâncias. Dizemos de tempo, porque um passado inteiro dorme nela ao lado do futuro que aí jaz em estado de embrião. 

As escolas antigas admitiam a unidade e a continuidade do “eu”, a permanência, a identidade perfeita da personalidade humana e a sua sobrevivência. Os seus estudos basearam-se no sentir íntimo, no que nos nossos dias se chama introspecção. 

A nova psicologia experimental considera a personalidade como um agregado, um composto, uma “colónia”. Para ela é apenas aparente a unidade do ser, que pode decompor-se. O “eu” é uma coordenação passageira, disse Th. Ribot. (ii) Essas afirmações baseiam-se em factos experimentais, que não se podem pôr de parte, tais como a vida intelectual inconsciente, as alterações da personalidade, a correlação entre as doenças da memória e as lesões do cérebro, etc. 

Como aproximar e conciliar teorias tão dessemelhantes e, contudo, baseadas, ambas, na ciência de observação? Da simples maneira. Pela própria observação, mais atenta, mais rigorosa. Myers disse-o nestes termos: (iii) 

“Uma investigação mais profunda, mais audaz, exactamente na direcção que os psicólogos (materialistas) a preconizam, mostra que eles se enganaram afirmando que a análise não provava a existência de nenhuma faculdade acima das que a vida terrestre, assim como eles a concebem, é capaz de produzir e o meio terrestre de utilizar. Porque, na realidade, a análise revela os vestígios de uma faculdade que a vida material ou planetária nunca poderia ter gerado e cujas manifestações implicam e fazem necessariamente supor a existência de um mundo espiritual. Por outro lado, e em favor dos partidários da unidade do “eu”, pode dizer-se que os dados novos são de natureza a fornecer às suas pretensões uma base muito mais sólida e uma prova presumível que excede em força todas as que eles poderiam ter imaginado e que, prova, especialmente, que o “eu” pode sobreviver, e sobrevive realmente, não só às desintegrações secundárias, que o afectam no curso da sua vida terrestre, mas também à desintegração derradeira que resulta da morte corporal. 

Muito falta ao “eu” consciente de cada um de nós para poder compreender a totalidade da nossa consciência e das nossas faculdades. Existem uma consciência mais vasta e faculdades mais profundas, cuja maior parte se conserva virtual em relação à vida terrestre, das quais se desprenderam, por via de selecção, a consciência e as faculdades da vida terrestre; tais, consciência mais alta e faculdades mais profundas, de novo se afirmam em toda a plenitude depois da morte. 

Tenho sido, há cerca de catorze anos, levado lentamente a essa conclusão, que revestiu para mim a sua forma actual, em consequência de uma longa série de reflexões baseadas em provas, cujo número ia aumentando progressivamente.” 

Em certos casos vê-se aparecer em nós um ser muito diferente do ser normal, possuindo não só conhecimentos e aptidões mais extensas que as da personalidade comum, mas, além disso, dotado de meios de percepção mais poderosos e variados. Às vezes, até mesmo nos fenómenos de “segunda personalidade” o carácter se modifica e difere de tal forma do carácter habitual que alguns observadores se julgaram na presença de um outro indivíduo. 

Cumpre fazer bem a distinção entre esses casos e os fenómenos de incorporações de Espíritos. Os médiuns, no estado de desdobramento, de sonambulismo, emprestam às vezes o seu organismo a entidades do Além, Espíritos desencarnados que dele se servem para comunicar com os homens; mas, então, os nomes, as particularidades, as provas de identidade fornecidas pelos manifestantes não permitem confusão alguma. A individualidade que se manifesta difere radicalmente da do paciente. Os casos de G. Pelham, (iv) de Robert Hyslop, de Fourcade, etc. demonstram-nos que as substituições de Espíritos não podem ser confundidas com os casos de personalidade dupla. 

No entanto, o erro era possível. Com efeito, do mesmo modo que as incorporações de Espíritos, a intervenção de personalidades secundárias é precedida de um sono curto. Estas surgem, a maioria das vezes, num acesso de sonambulismo ou mesmo depois de uma comoção. O período de manifestação, a princípio de breve duração, prolonga-se pouco a pouco, repete-se e vai-se destacando, cada vez com maior precisão, até adquirir e constituir uma cadeia de recordações particulares que se distinguem do conjunto das recordações registadas na consciência normal. Este fenómeno pode ser facilitado ou provocado pela sugestão hipnótica. É mesmo provável que nos casos espontâneos, em que nenhuma vontade humana intervém, o fenómeno seja devido à sugestão de agentes invisíveis, guias e protectores do sujet. Exercem eles nesses casos, como veremos, a sua acção para um fim curativo, terapêutico. 

No caso, célebre, de Félida, estudado pelo Doutor Azam, (v) os dois estados de consciência, ou variações da personalidade, são nitidamente estabelecidos: 

“Quase todos os dias, sem causa conhecida ou sob o domínio de uma comoção, ela é tomada pelo que chama ‘a sua crise’. De facto, entra no seu segundo estado. Encontra-se sentada com um trabalho de costura na mão; de repente, sem que nada o possa fazer prever e depois de uma dor nas fontes, mais violenta que de costume, a cabeça cai-lhe sobre o peito, as mãos ficam inactivas e descem inertes ao longo do corpo. Dorme ou parece dormir um sono especial, porque nenhum barulho, nenhuma excitação, beliscadura ou picada a podem acordar. Além disso, essa espécie de sono sobrevém subitamente e dura dois ou três minutos. Antes durava muito mais. 

Depois, Félida acorda: mas o seu estado intelectual não é o mesmo que era antes de adormecer. Tudo parece diferente. Ergue a cabeça e, abrindo os olhos, cumprimenta sorrindo as pessoas que a cercam, como se tivesse chegado nesse momento; a fisionomia, triste e silenciosa antes, ilumina-se e respira alegria. A sua palavra é breve. Cantarolando, continua a obra de agulha que, no estado precedente, havia começado. Levanta-se. O seu andar é ágil e quase não se queixa das mil dores que, momentos antes, a faziam sofrer. Cuida dos arranjos domésticos, anda pela rua, etc. O seu génio mudou completamente; de triste fez-se alegre. A sua imaginação está mais exaltada; o motivo mais insignificante a entristece ou alegra; de indiferente passou a uma sensibilidade excessiva. 

Neste estado, lembra-se perfeitamente de tudo o que se passou nos outros estados semelhantes anteriores e também durante a sua vida normal. Nessa vida, como na outra, as suas faculdades intelectuais e morais, ainda que diferentes, encontram-se incontestavelmente na sua integridade: nenhuma ideia delirante, nenhuma falsa apreciação, nenhuma alucinação. Félida é outra, nada mais. Pode até mesmo dizer-se que nesse segundo estado, nessa segunda condição, como lhe chama M. Azam, todas as suas faculdades parecem mais desenvolvidas e completas. 

Essa segunda vida, em que a dor física não se faz sentir, é muito superior à outra, principalmente pelo facto notável de, enquanto ela dura, Félida se lembra não só do que se passou durante os acessos precedentes, mas também de toda a sua vida normal; ao passo que, durante a vida normal, nenhuma lembrança tem do que se passou durante os acessos.” 

Vê-se que aí não estão em jogo várias personalidades, mas simplesmente vários estados da mesma consciência. A relação subsiste entre esses diversos aspectos do ser psíquico. Pelo menos, o segundo estado, o mais completo, nada ignora do que fez o primeiro; ao passo que este não conhece o outro senão por ouvir falar dele. O modo de existência n° 2 trata o n° 1 com algum desdém. Félida, no segundo estado, fala da “rapariga estúpida”, do mesmo modo que nós o faríamos falando do menino desajeitado, do bebe trapalhão, que fomos noutros tempos. 

No caso de Louis Vivet, (vi) encontramo-nos na presença de um fenómeno de “regressão da memória”. O sujet, sob a influência da sugestão hipnótica, revive todas as cenas da sua vida, como diz Myers, “com a rapidez e a facilidade de imagens cinematográficas. Não só os estados mentais passados e esquecidos voltam à memória ao mesmo tempo que as impressões físicas dessas variações, mas também quando um estado mental passado e esquecido é sugerido ao paciente, como sendo o seu estado actual, ele recebe imediatamente as impressões físicas a ele correspondentes”. 

Veremos mais adiante que, graças a experiências da mesma ordem, se tem podido reconstituir as excitações anteriores de certos pacientes com a mesma nitidez, o mesmo poder de impressões e sensações, o que nos levará a reconhecer que a ciência profunda do ser nos reserva muitas surpresas. 

Em Mary Reynolds (vii) assistimos a uma transformação completa do carácter, que apresenta três fases distintas: uma caracterizada pelo desleixo e outra com disposições para a tristeza, tendendo a fundir-se num terceiro estado superior aos dois precedentes. 

Outro caso fornecer-nos-á indicações preciosas sobre a natureza do segundo estado nas variações da personalidade. É o da Srta. R. L..., observado pelo Dr. Dufay e publicado na Revue Scientifique, de 5 de Julho de 1876. 

A Srta. R. L... – diz o Dr. Dufay – apresenta dois estados de personalidade. Tem perfeita consciência, no segundo estado, que é o estado de sonambulismo, da acuidade surpreendente que adquirem os seus sentidos. A alma é mais sensível; a inteligência e a memória recebem também um desenvolvimento considerável. Pode contar os factos mais insignificantes dos quais teve conhecimento em qualquer época, embora deles não se recorde quando volta ao estado normal. 

Não podemos passar em silêncio as observações da mesma natureza, feitas pelo Dr. Morton Prince em relação à Srta. Beauchamp. (viii) Esta apresenta muitos aspectos da mesma personalidade, que se revelaram sucessivamente e foram sendo denominados, à medida que apareciam, B1, B2, B4, B5. 

B1 é a Srta. Beauchamp em estado normal, pessoa séria, reservada, escrupulosa em excesso. B2 é a mesma em estado de hipnose, com mais desembaraço, simplicidade e memória mais extensa. B4, que se revela mais tarde, distingue-se das precedentes por um estado completo de unidade harmónica e de equilíbrio normal, mas a quem faz falta a memória dos seis últimos anos, em consequência de uma emoção violenta. Enfim, B5 que reúne, como em síntese, a memória dos estados já descritos. 

A originalidade desse caso consiste na intervenção, no meio desses diversos aspectos da personalidade da Srta. Beauchamp, de uma personalidade que lhe é completamente estranha, como nos parece. Trata-se de B3, que se diz chamar Sally, ser esperta, travessa, na verdade brincalhona, pregando-lhe partidas repetidas, uma vida bem difícil... Sally adapta-se, fisiologicamente, muito mal aos órgãos da médium. 

Essa misteriosa Sally não poderia ser, segundo pensamos, senão uma entidade do espaço, conseguindo substituir-se, no sono, à pessoa normal e dispor, por um lapso de tempo, de um organismo cujo estado de equilíbrio está momentaneamente perturbado. Esse fenómeno pertence à categoria das incorporações de Espíritos, de que tratamos especialmente em outra obra. (ix) 

Por seu turno, o Dr. Herbert Mayo aponta um fenómeno de memória quíntuplo. (x) “O estado normal do sujet era interrompido por quatro variedades de estados mórbidos, dos quais ele não se recordava ao acordar, mas cada um desses estados conservava uma forma de memória que lhe era peculiar.” 

Finalmente, F. Myers, na sua obra magistral, (xi) relata, segundo o Dr. Mason, um caso de personalidade múltipla que entendemos dever reproduzir: 

“Alma Z... era uma jovem muito sã e inteligente, de génio inalterável e insinuante, espírito de iniciativa em tudo o que empreendia, estudo, desporto, relações sociais. Em seguida a um cansaço intelectual e a uma indisposição da qual não fez caso, viu a sua saúde seriamente comprometida e, decorridos dois anos de grandes sofrimentos, fez-se uma brusca aparição, uma segunda personalidade. Numa linguagem meio infantil, meio indiana, esta personalidade anunciava-se como sendo a nº 2, que vinha para aliviar os sofrimentos da nº 1. Ora, o estado da nº 1 nesse momento era dos mais deploráveis – dores, debilidade, síncopes frequentes, insónias, estomatite mercurial, de origem medicamentosa, impossibilitando a alimentação. A nº 2 era alegre e terna, de conversa subtil e espirituosa, inteligência clara, alimentando-se bem e abundantemente, com maior proveito, dizia ela, do que a nº 1. A conversa, por mais aprimorada e interessante que fosse, nada deixava suspeitar dos conhecimentos adquiridos pela primeira personalidade. Manifestava uma inteligência supranormal relativamente ao que se passava na vizinhança. Foi nessa época que o autor começou a observar esse caso e eu não o perdi de vista durante seis anos consecutivos. Quatro anos depois de ter aparecido a segunda personalidade, manifestou-se inesperadamente uma terceira que se fez conhecer pelo nome de “moleque”. Era completamente distinta e diferente das outras duas e tomara o lugar da nº 2, que esta ocupara por quatro anos. 

Todas essas personalidades, ainda que absolutamente distintas e características, eram, cada qual no seu género, interessantes, e a nº 2, em particular, tem feito e continua a fazer a alegria dos seus amigos, todas as vezes que aparece e que lhes é dado aproximarem-se dela. Aparece sempre nos momentos de fadiga excessiva, de excitação mental, de prostração. Sobrevém, então, e persiste às vezes durante alguns dias. O “eu” original afirma sempre a sua superioridade, estando ali as outras apenas em atenção a ela e para o seu proveito. A nº 1 nenhum conhecimento pessoal tem das outras duas personalidades; contudo, conhece-as bem, principalmente a nº 2, pelas narrativas das outras e pelas cartas que muitas vezes delas recebe, e admira as mensagens subtis, espirituosas e muitas vezes instrutivas que lhe trazem essas cartas ou as narrativas dos amigos.” 

Limitar-nos-emos à citação dos factos que acabamos de transcrever para não nos alongarmos demais. Existem muitos outros da mesma natureza, cuja descrição o leitor poderá encontrar nas obras especiais. (xii) 

No seu conjunto, esses fenómenos demonstram que além do nível da consciência normal, fora da personalidade comum, existem em nós planos de consciência, camadas ou zonas dispostas de tal maneira que, em certas condições, se podem observar alternâncias nesses planos. Vê-se então emergirem e manifestarem-se, durante um certo tempo, atributos, faculdades que pertencem à consciência profunda, mas que não tardam a desaparecer para voltarem ao seu lugar e tornarem a mergulhar na sombra e na inacção. 

O nosso “eu” ordinário, superficial, limitado pelo organismo, não parece ser mais do que um fragmento do nosso “eu” profundo. Neste está registado um mundo inteiro de factos, de conhecimentos, de recordações referentes ao longo passado da alma. Durante a vida normal, todas essas reservas permanecem latentes, como que sepultadas por baixo do invólucro material; reaparecem no estado de sonambulismo. O apelo da vontade e a sugestão as mobilizam e elas entram em acção e produzem os estranhos fenómenos que a psicologia oficial comprova sem os poder explicar. 

Todos os casos de desdobramento da personalidade, todos os fenómenos de clarividência, telepatia, premonição, aparecimento de sentidos novos e de faculdades desconhecidas, todo esse conjunto de factos, cujo número aumenta e constitui já uma enormíssima amálgama, deve ser atribuído à intervenção das forças e recursos da personalidade oculta. 

O estado de sonambulismo, que permite a sua manifestação, não é um estado “regressivo” ou mórbido, como o julgaram certos observadores; é, antes, um estado superior e, segundo a expressão de Myers, “evolutivo”. É verdade que o estado de degenerescência e enfraquecimento orgânico facilita, em alguns pacientes, o afloramento das camadas profundas do “eu”, o que é designado pelo nome de histeria. Tudo o que, de um modo geral, deprime o corpo físico, favorece, convém notar, o desprendimento, a saída do Espírito. A esse respeito, muitos testemunhos nos seriam fornecidos pela lucidez dos moribundos; mas, para avaliar somente esses factos, faz-se mister considerá-los principalmente sob o ponto de vista psicológico. Aí está toda a sua importância. 

A ciência materialista viu nesses fenómenos o que ela chama “desintegrações”, isto é, alterações e dissociações da personalidade. Os diversos estados da consciência aparecem algumas vezes tão distintos e os tipos que surgem são de tal modo diferentes do tipo normal, que têm levado a crer que se está na presença de várias consciências autónomas, em alternância no mesmo paciente. Acreditamos, com Myers, que nada disso sucede. Há aí simplesmente uma variedade de estados sucessivos coincidindo com a permanência do “eu”. A consciência é uma, mas se manifesta de diversos modos: de maneira restrita, na vida normal, enquanto está limitada ao campo do corpo; mais completa, mais extensa em estados de desprendimento e, finalmente, de maneira cabal, perfeita, na ocasião da morte, depois da separação definitiva, como o demonstram as manifestações e os ensinamentos dos Espíritos. A desagregação é, pois, apenas aparente. A única diferença entre os estados variados de consciência é uma diferença de graus. Esses graus podem ser numerosos. O espaço que, por exemplo, medeia entre o estado de incorporação e a exteriorização completa parece considerável. A personalidade não deixa, por isso, de permanecer idêntica através da concatenação (i) dos factos da consciência, que um laço contínuo liga entre si, desde as modificações mais simples do estado normal até aos casos que comportam transformação da inteligência e do carácter; desde a simples ideia fixa e os sonhos até à projecção da personalidade no mundo espiritual, nesse Além onde a alma recupera a plenitude das suas percepções e dos seus poderes. 

Já no decurso da existência terrestre, da infância à velhice, vemos o “eu” modificar-se incessantemente; a alma atravessa uma série de estados, anda em mudança contínua. Não obstante, no meio dessas diversas fases, é invariável a fiscalização que exerce sobre o organismo. A Fisiologia salientou a sábia e harmoniosa coordenação de todas as partes do ser, as leis da vida orgânica e do mecanismo nervoso, que não podem ser explicadas sem a presença de uma unidade central. Essa unidade soberana é a origem e a causa conservadora da vida; relaciona-lhe todos os elementos, todos os aspectos. 

Foi por uma consequência não menos perniciosa das teorias materialistas que os “psicólogos” da escola oficial chegaram a considerar o génio como uma neurose, quando ele pode ser a utilização, em maior escala, dos poderes psíquicos ocultos no homem. 

Myers, falando da categoria dos histéricos que conduzem o mundo, emite a opinião de que “a inspiração do génio não seria mais do que a emergência, no domínio das ideias conscientes, de outras ideias em cuja elaboração a consciência não tomou parte, mas que se têm formado isoladamente, por assim dizer, independentemente da vontade, nas regiões profundas do ser”. (xiii) 

Em geral, aqueles que tão levianamente são qualificados como “degenerados” são muitas vezes “progenerados”, e nestes sensitivos, histéricos ou neuróticos, as perturbações do organismo físico e as alterações nervosas muito caracterizadas em certas inteligências geniais, como noutro lugar vimos (No Invisível, último capítulo), podem realmente ser um processo de evolução pelo qual toda a humanidade terá de passar para chegar a um grau mais intenso da vida planetária. 

O desenvolvimento do organismo humano até à sua expansão completa é sempre acompanhado de perturbações, do mesmo modo que o aparecimento de cada novo ser na Terra é delas precedido. Nos nossos esforços dolorosos para a maior soma de vida, os valores mórbidos transmutam-se em forças morais. As nossas necessidades são instintos em fusão, que se concretizam em novos sentidos para adquirir mais poder e conhecimento. 

Mesmo no estado comum, no estado de vigília, emergências, impulsos do “eu” profundo podem remontar até às camadas exteriores da personalidade, trazendo intuições, percepções, lampejos bruscos sobre o passado e o futuro do ser, os quais denotam faculdades muito extensas, que não pertencem ao “eu” normal. 

Cumpre relacionar com essa ordem de fenómenos a maior parte dos casos de escrita automática. Dizemos a maior parte, porque sabemos de outros que têm como causa agentes externos e invisíveis. 

Há em nós uma espécie de reservatório de águas subterrâneas, donde, em certas horas, rompe e sobe à superfície uma corrente rápida em ebulição. Os profetas, os mártires de todas as religiões, os missionários, os inspirados, os entusiastas de todos os géneros e de todas as escolas conheceram esses impulsos surdos e poderosos, que nos têm brindado com as maiores obras que têm revelado aos homens a existência de um mundo superior. 

/… 
(ii) Th. Ribot - Les Maladies de la Personnalité, páginas 170 e 172. 
(iii) F. Myers - La Personnalité Humaine, pág. 19. Essa obra representa o mais grandioso esforço tentado pelo pensamento para resolver os problemas do ser. O Professor Flournoy, da Universidade de Genebra, escrevia a respeito desse livro: “O nome de Myers será inscrito no livro de ouro dos grandes iniciadores, a par dos de Copérnico e Darwin, para completar a tríade dos génios que mais profundamente revolucionaram as noções científicas na ordem da Cosmologia, da Biologia e da Psicologia.” 
(iv) Ver a nossa obra No Invisível, cap. XIX (passim), e G. Delanne, A Alma é Imortal. 
(v) Dr. Binet - Altérations de la Personnalité, F. Alcan, Paris, pág. 6 e 20. 
(vi) F. Myers - La Personnalité Humaine, pág. 60. Ver também Camuset, Annales Médico-Psychologiques, 1882, página 15. 
(vii) W, James - Principies of Psychology. 
(viii) Dr. Morton Prince. Ver The Association of a Personality, bem como a obra do coronel A. de Rochas, Les Vies Successives, Chacornac, ed., Paris, 1911, págs. 398 e 402. 
(ix) Ver No Invisível, capítulo XIX. 
(x) Revue Philosophique, 1887, I, pág. 449. 
(xi) F. Myers - La Personnalité Humaine, págs. 61 e 62. 
(xii) Ver outra, as dos Drs. Bourru e Burot, Les Changements de la Personnalité; De la Suggestion Mentale, Bibl. científ. contemporânea, Paris, 1887; Binet, Les Altérations de la Personnalité; Berjon, La Grande Hystérie chez l’Homme. Dr. Osgood Mason, Double Personnalité, ses rapports avec l’Hypnotisme et la Lucidité. Ver também Proceedings S.P.R., o caso da Srta. Beauchamp, estudado por Morton, o de Annel Bourne, descrito pelo Dr. Hodgson e o de Mollie Faucher observado pelo juiz americano Cain Dailey. 
(xiii) F. Myers - La Personnalité Humaine, pág. 69. Acreditamos, todavia, que no exame desse problema de génio Myers não atendeu bastante às aquisições anteriores, fruto das existências acumuladas, tampouco à inspiração medianímica. 


Léon Denis, O Problema do Ser, do Destino e da Dor, Primeira Parte O Problema do Ser, IV – A personalidade integral, 5º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: Sin título (detalhe), de uma pintura atribuída a Josefina Robirosa)

sábado, 17 de dezembro de 2022

O Homem e a Sociedade ~


O SIGNIFICADO ESPÍRITA do Materialismo Dialéctico 
(III de III) 

  O que os materialistas dialécticos não deveriam ignorar é que o conceito de movimento traz como consequência um conceito idealista da natureza, quando se reconhece o movimento como a origem das formas. 

  O movimento levará sempre a um espiritualismo dinâmico, o que nos faz reconhecer que o materialismo histórico, para permanecer como um verdadeiro materialismo, não devia adoptar a dialéctica de Hegel, já que ela, queira-se ou não, desembocará numa concepção idealista do homem da vida. A filosofia espírita apresenta ao materialismo dialéctico uma interpretação nova do espírito, baseada na teoria do perispírito, mediante a qual demonstra a substancialidade do Ser e da Ideia, antes considerados como puras abstracções. Por isso, disse Gustave Geley: "A noção do perispírito suprime a grave objecção, feita continuamente ao espiritualismo, quanto à dificuldade de conceber a própria alma sem nenhuma forma definida.” 

  Com a teoria do perispírito, o movimento, como as formas materiais, resultam numa consequência da vida Universal. Com ela aparece uma teleologia do Ser, sendo a dialéctica a causa da expansão psíquica dos seres e, o perispírito o receptor da força e da inteligência. O materialismo dialéctico não conseguiu nunca explicar como se produz na mente do indivíduo a pantomnésia, isto é, a conservação da individualidade e das recordações. Porque, se o processo dialéctico é também mental, em virtude de que princípios a memória regista as impressões do mundo exterior e permanece inalterável à consciência do indivíduo? Além disso, que essência misteriosa protege o pensamento, se o movimento o renova totalmente e tudo é e não é ao mesmo tempo? Por que, se ninguém se banhará duas vezes no mesmo rio, a inteligência continua sendo a mesma, sem esquecer as suas aquisições e conhecimentos? Numa palavra, quem preserva a coesão individual e a memória, se tudo está exposto ao processo dialéctico? 

  Eis aqui, pois, os pontos capitais a que o materialismo histórico deverá responder. 

  O espiritismo pode solucionar o problema, dizendo que o Ser espiritual se mantém inalterável no meio do processo dialéctico, devido ao perispírito, no qual se resumem toda a sua inteligência e a sua individualidade. O Ser, com efeito, sustenta-se no perispírito, órgão que não pode ser alterado pelas leis do movimento dialéctico. Como veremos, esta interpretação do homem sobrepuja completamente a interpretação materialista da história. Assim, já não é somente o factor económico que determina as condições políticas, artísticas, religiosas e, outras da sociedade, pois nelas intervêm também os elementos espirituais. Porque, se a vida espiritual do homem dependesse exclusivamente dos modos de produção, não existiriam espíritos com sentido de justiça: a inteligência estaria ao nível das formas imperfeitas da sociedade. 

  Não obstante, as formas capitalista e socialista são a consequência de estados de consciência, respondendo a dois graus de evolução intelectual e mental do indivíduo. Estes dois graus de evolução deveriam explicar-se pelo estado moral do perispírito, base de todas as sensações do Ser e, pelo maior desenvolvimento palingenésico do homem. Se é certo que os modos de produção aperfeiçoam e ampliam a técnica, vemos, entretanto, que os referidos factores são incapazes de criar no organismo humano novos membros, que o indivíduo pudesse utilizar em seu proveito. Esta impotência dos modos de produção permite à filosofia espírita estabelecer a seguinte conclusão: 

  Se a mão foi o primeiro instrumento do qual se valeu o homem, na sua luta pela existência, este mesmo facto nos indica que é sempre a Ideia, ou o Espírito, que rege a realidade objectiva, por intermédio de um órgão material. 

  E a isto, para sermos mais explícitos, devemos acrescentar que não foram as forças produtivas da economia que desenvolveram as mãos no indivíduo, mas o próprio poder de materialização do Ser, já que os modos de produção em nada alteraram as formas anatómicas do homem. Podemos dizer que as formas orgânicas do indivíduo não foram tocadas pelo processo dialéctico da economia, o que nos mostra a existência, na natureza humana, de um princípio psíquico que não poderá ser alterado por nenhuma espécie de influência exteriores. 

  O desenvolvimento ou aparição de asas nas espécies voláteis não tem origem de carácter económico, mas corresponde apenas a uma finalidade do perispírito (i) desses seres. O aparecimento das faculdades metapsíquicas na espécie humana não se deve tampouco a qualquer tipo de determinismo económico. O seu desenvolvimento corresponde a factores espirituais que o homem traz em si mesmo, e que irão aumentando à medida que ele avance através do processo palingenésico. 

  Entretanto, os factores económicos são elementos que podem influir indirectamente sobre o desenvolvimento metapsíquico do homem. Por isso, no seu aspecto social, a filosofia espírita revela um sentido nitidamente socialista. Um povo economicamente pobre não poderá desenvolver com facilidade o sentido psíquico da vida espiritual; não terá oportunidade para isso, visto que a pobreza sempre engendra o raquitismo. O desenvolvimento de qualquer faculdade metapsíquica nos homens e nos povos requer a organização de uma sociedade próspera, no sentido económico; as nações pacíficas e felizes são as que mais prontamente se aproximam das realidades do mundo invisível. 

  O materialismo dialéctico deverá reconhecer que a vida do homem tem uma finalidade transcendental. Desse modo poderia conter, como parece desejar, os erros do existencialismo. Porque, se o homem e o cidadão, a sociedade e a história, não possuem uma suprema teleologia espiritual, de nada valerá o esforço para instituir na Terra uma sociedade sem classes. Se o homem, repetimos, é um Ser para a morte e para o nada, como o admite o existencialismo ateu, pouco importa que existam ou não classes exploradoras, pois tudo há de terminar na gélida noite do sepulcro. Em compensação, se o Ser é uma individualidade espiritual para a vida eterna, poderão justificar-se as diversas lutas em prol de uma sociedade justa e perfeita. (1) 

  A filosofia espírita, que experimentalmente pode provar a existência imortal do Espírito, é uma vigorosa ideologia que poderá inspirar todo o homem que se sacrifique pelo bem e pela igualdade. Se o materialismo dialéctico quer enveredar por este novo caminho da filosofia e da ciência, deverá espiritualizar as suas conclusões e reconhecer que, nos diversos processos da evolução, todo o princípio material tem o seu espírito e, todo o princípio espiritual tem a sua matéria. Desta aproximação entre o material e o espiritual surgirá a mais extraordinária das revoluções, que dignificará o homem, como em nenhum outro período da história. 

 /… 
(1) Os materialistas lutam estoicamente por um futuro que nega o seu objectivismo e os coloca no plano do idealismo. Mariotti acentua essa contradição, dialecticamente resolvida pelo espiritismo. (Nota de José Herculano Pires). 


Humberto Mariotti, O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização, Do Materialismo Histórico a uma Dialéctica do Espírito, 1ª PARTE O NÚMENO ESPIRITUAL NOS FENÓMENOS SOCIAIS, Capítulo V – O Significado Espírita do Materialismo Dialéctico (III de III), 10º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: Alrededores de la ciudad paranóico-crítica: tarde al borde de la historia europea | 1936, Salvador Dali)