Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

| o grande enigma ~


Solidariedade comunhão universal |||

Nas Almas evolvidas, o sentimento da solidariedade torna-se bastante intenso para se transformar em comunhão perpétua com todos os seres e com Deus.

A Alma pura comunga com a Natureza inteira; inebria-se nos esplendores da Criação infinita. Tudo – os astros do céu, as flores do prado, a canção do regato, a variedade das paisagens terrestres, os horizontes fugitivos do mar, a serenidade dos espaços – tudo lhe fala uma linguagem harmoniosa. Em todas essas coisas visíveis, a Alma atenta descobre a manifestação do pensamento invisível que cobre o Cosmos. Este reveste para ela um aspecto encantador. Torna-se o teatro da vida e da comunhão universais, comunhão dos seres uns com os outros e de todos os seres com Deus, seu pai.

Não há distância entre as Almas que se amam, porque se comunicam através da extensão.

O Universo é animado de vida potente: vibra qual uma harpa sob a acção divina. As irradiações do pensamento o percorrem em todos os sentidos e transmitem mensagens de Espírito a Espírito, através do Espaço. Esse Universo que Deus povoou de Inteligências, a fim de que o conheçam e o amem e cumpram a sua Lei, Ele o enche de sua presença, ilumina-o com a sua luz, aquece-o com o seu amor.

A prece é a expressão mais alta dessa comunhão das Almas. Considerada sob este aspecto, ela perde toda a analogia com as fórmulas banais, os recitativos monótonos em uso, para se tornar um transporte do coração, um acto da vontade, pelo qual o Espírito se desliga das servidões da Matéria, das vulgaridades terrestres, para perscrutar as leis, os mistérios do poder infinito e a ele submeter-se em todas as coisas: “Pedi e recebereis!” Tomada neste sentido, a prece é o acto mais importante da vida; é a aspiração ardente do ser humano que sente a sua pequenez e a sua miséria e procura, pelo menos por um instante, pôr as vibrações do seu pensamento em harmonia com a sinfonia eterna. É a obra da meditação que, no recolhimento e no silêncio, eleva a Alma até essas alturas celestes, onde aumenta as suas forças, onde a impregna das irradiações da luz e do amor divinos. Mas quão poucos sabem orar! As religiões nos fizeram desaprender a prece, transformando-a em exercício ocioso, às vezes ridículo.

Sob a influência do Novo Espiritualismo, a prece tornar-se-á mais nobre e mais digna; será feita com mais respeito ao Poder Supremo, com maior fé, confiança e sinceridade, em completo destaque das coisas materiais. Todas as nossas ansiedades e incertezas cessarão quando tivermos compreendido que a vida é a comunhão universal e que Deus e todos os seus filhos vivem, em conjunto, essa vida.

Então, a prece tornar-se-á a linguagem de todos, a irradiação da Alma que, nos seus transportes, agita o dinamismo espiritual e divino. Os seus benefícios se estenderão por todos os seres e particularmente por aqueles que sofrem, pelos ignorados da Terra e do Espaço.

Ela chegará àqueles em quem ninguém pensa, que jazem na sombra, na tristeza e no esquecimento, diante de um passado acusador. Ela originará neles inspirações novas, fortificar-lhes-á o coração e o pensamento – porque não tem limites a acção da prece, assim como as forças e os poderes que ela pode pôr em elaboração para o bem dos outros.

A prece, em verdade, nada pode mudar às leis imutáveis; ela não poderia, de maneira alguma, mudar os nossos destinos; o seu papel é proporcionar-nos socorros e luzes que nos tornem mais fácil o cumprimento da nossa tarefa terrestre. A prece fervente abre, de par em par, as portas da Alma e, por essas aberturas, os raios de força, as irradiações do foco eterno nos penetram e nos vivificam.

Trabalhar com sentimento elevado, visando a um fim útil e generoso, é, ainda, orar. O trabalho é a prece activa desses milhões de homens que lutam e penam na Terra, em benefício da Humanidade.

A vida do homem de bem é uma prece contínua, uma comunhão perpétua com os seus semelhantes e com Deus. Ele não tem mais necessidade de palavras, nem de formas exteriores para exprimir a sua fé: ela se exprime por todos os seus actos e por todos os seus pensamentos. Ele respira e se agita sem esforço numa atmosfera fluídica cheia de ternura pelos desgraçados, cheia de boa-vontade por toda a Humanidade. Essa comunhão constante se torna uma necessidade, uma segunda natureza. É graças a ela que todos os Espíritos de eleição se mantêm nas alturas sublimes da inspiração e do génio.

Os que vivem no organismo e na materialidade, e cuja compreensão não está aberta às influências do Alto, esses não podem saber que impressões inefáveis faculta essa comunhão da Alma com o Espírito Divino.

Todos aqueles que, vendo a espécie humana deslizar sobre os declives da decadência moral, procuram os meios de sustar a sua queda, devem esforçar-se por tornar uma realidade essa união estreita de nossas vontades com a vontade suprema! Não há ascensão possível, encaminhamento para o Bem, se, de tempos a tempos, o homem não se volta para o seu Criador e Pai, a fim de lhe expor as suas fraquezas, as suas incertezas, as suas misérias, para lhe pedir os socorros espirituais indispensáveis à sua elevação. E quanto mais essa confissão, essa comunhão íntima com Deus for frequente, sincera, profunda, mais a Alma se purifica e emenda. Sob o olhar de Deus, ela examina, expande as suas intenções, os seus sentimentos, os seus desejos; passa em revista todos os seus actos e, com essa intuição, que lhe vem do Alto, julga o que é bom ou mau, o que deve destruir ou cultivar. Ela compreende, então, que tudo quanto há de mal vem do eu e deve ser abatido para dar lugar à abnegação, ao altruísmo; que, no sacrifício de si mesmo, o ser encontra o mais poderoso meio de elevação, porque, quanto mais ele se dá, mais se engrandece. Deste sacrifício faz a lei de sua vida, lei que imprime no mais profundo do seu ser, em traços de luz, a fim de que todas as acções sejam marcadas com o seu cunho.

De pé sobre a Terra, meu sustentáculo, minha nutriz e minha mãe, elevo os meus olhares para o Infinito, sinto-me envolvido na imensa comunhão da vida; os eflúvios da Alma universal me penetram e fazem vibrar o meu pensamento e o meu coração; forças poderosas me sustentam, aviventam em mim a existência. Por toda a parte onde a minha vista se estende, por toda a parte a que a minha inteligência se transporta, vejo, discirno, contemplo a grande harmonia que rege os seres e, por vias diversas, os faz rumar para um fim único e sublime. Por toda a parte vejo irradiar a Bondade, o Amor, a Justiça!

Ó meu Deus! Ó meu Pai! Fonte de toda a sabedoria, de todo o amor, Espírito Supremo cujo nome é Luz, eu te ofereço os meus louvores e as minhas aspirações! Que elas subam a ti, qual um perfume de flores, qual sobem para o céu os odores inebriantes dos bosques. Ajuda-me a avançar na senda sagrada do conhecimento, para uma compreensão mais alta das tuas leis, a fim de que se desenvolva em mim mais simpatia, mais amor pela grande família humana; pois sei que, pelo meu aperfeiçoamento moral, pela realização, pela aplicação activa em torno de mim e em proveito de todos, da caridade e da bondade, aproximar-me-ei de ti, e merecerei conhecer-te melhor, comungar mais intimamente contigo na grande harmonia dos seres e das coisas. Ajuda-me a desprender-me da vida material, a compreender, a sentir o que é a vida superior, a vida infinita. Dissipa a obscuridade que me envolve; depõe na minha alma uma centelha desse fogo divino que aquece e abrasa os Espíritos das esferas celestes. Que a tua doce luz e, com ela, os sentimentos de concórdia e de paz se derramem sobre todos os seres!

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Léon Denis, O Grande Enigma, Primeira parte / Deus e o Universo, III Solidariedade | comunhão universal 3 de 3, 13º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: As majestosas e violentas palavras dos poemas, pintura em acrílico de Costa Brites)

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Victor Hugo e o invisível ~

Coincidências Ideológicas com José Garibaldi e José Mazzini |

Todo o vocabulário filosófico de Victor Hugo se assemelha a esse tom dramático que possuem as comunicações mediúnicas. Se se fizesse um estudo das melhores páginas que constituem a literatura mediúnica, ver-se-ia que elas possuem o mesmo estilo do grande poeta francês. O vate de Jersey parecia estar continuamente em transe mediúnico. Por isso a sua doutrina é a do infinito, onde o Ser se mostra como uma partícula divina que electriza a essência cósmica e universal. Mensagens psicografadas como as que apresenta um livro intitulado "Símbolo ou o túmulo fala" (i), corroboram o que dissemos. Há nessa obra mediúnica páginas de um dramatismo espiritual que fazem pensar no estilo victorhugueano. É que no invisível está o mundo das almas onde o grande e majestoso tem as suas raízes.

De facto, a literatura mediúnica não é convencional nem fictícia; pelo contrário, brota dos abismos profundos do invisível, das mesmas raízes do imaterial, onde o génio só pode falar a linguagem do eterno. O poeta concebia na sua cosmogonia um homem imortal e predestinado e, como ele dizia, sábio, visionário, pensador, taumaturgo, navegante, arquitecto, mago, legislador, filósofo, herói, poeta. De sua ideologia espiritual e poética se desprendia a mesma teleologia existencial da codificação de Allan Kardec. A ideia do progresso infinito habitava no pensamento de Victor Hugo, pois a alma era para ele um ser que vem ao mundo pela enésima vez e não uma entidade biológica criada no instante da concepção. Sempre pressentiu que uma misteriosa pré-existência rege o destino do espírito; por isso perguntava: "Quem tem incubada essa águia? O abismo incubando o génio? Existe maior enigma? Terão visto outros mundos as grandes almas que transitoriamente se adaptam à terra? Chegarão alguns por isso com tantas intuições?"

Assim; pois, pressentia que o mistério histórico está entretecido pelos seres espirituais que lhes dão características pessoais a seu tempo. O seu génio se atirava frente a esses seres mecânicos e vazios quando negavam a pré-existência dos espíritos. A defesa que fazia da pedra, do burro, da flor e do anjo era baseada na unidade espiritual da criação. O pensamento de Deus estava para Victor Hugo em tudo o que existe, por isso, nada e ninguém estaria excluído do grande desenvolvimento da história natural e divina. A sua cosmovisão filosófica e religiosa respondia ao que lhe transmitiram os espíritos desencarnados durante o seu desterro na ilha de Jersey, ou seja, desde que Emília de Girardin o iniciara nas revelações dos tripés mediúnicos.

O seu trabalho poético e literário deixou de ser um artifício intranscendente, como acontece quando se escreve sem uma visão espiritual da vida. A obra de Victor Hugo, por suas raízes aprofundadas no eterno, foi uma defesa do homem ao considerá-lo como um espírito reencarnado na terra. A sua criação poética se colocou ao lado da maior revelação dos tempos modernos; por isso, disse: ''O Espiritismo é o acontecimento mais notável do século XIX".Coincidiu assim com José Garibaldi, que afirmou: "Esta religião da verdade e ciência se chama Espiritismo''. O seu pensamento também se relacionou com José Mazzini, que escreveu uma página admirável para definir a missão da Doutrina Espírita. Ela segue transcrita na íntegra para conhecimento do leitor.

''O Espiritismo científico, isto é, a alma humana analisada experimentalmente nas suas propriedades e manifestações dará tão inesperados conhecimentos nos estudos, que ante eles quedarão atónitos, abismados e se derrubarão todos os humanos edifícios políticos e morais que até ao presente têm dominado.

"Pela aplicação prática da resultante do estudo do Espiritismo, uma nova ética, pura, regenerada, potente surgirá da natureza. Será o potentíssimo credo que fará morrer as mais arraigadas instituições político-religiosas que reinam sobre a terra:

"Por uma maior e mais disciplinada apreciação das leis que regem o universo, mudará completamente a orientação da ciência e o barulho inevitável que isso haverá de produzir afectará todas as manifestações da vida, que, então, se explicarão pela razão do maior, do mais santo dos conceitos: o do dever.

"É isto que suporta o Espiritismo. A luta será áspera, fatigante; mas a consequência será inevitável. De que valerá o conluio contrário de todos os animais daninhos da terra: o mais forte, indomável Vetro avança a passos largos, saturado da sabedoria e da fé dos sábios e dos heróis de todas as épocas, e com os fulgores da ciência positiva caçará as feras até nas profundezas do seu mundo interior.

''Então soprará sobre a terra as auras da paz, de gozo; do peito dos homens surgirá espontâneo um hino de louvor, de amor a Deus; a humanidade, perdendo o último vestígio animal que possui, voltará qual nascente mariposa, bela e pura, à conquista das mais excelsas regiões, das puras esferas. " (ii)

Nestes mesmos pensamentos de José Mazzini se assentava o sentir filosófico de Victor Hugo quanto ao valor histórico e social da filosofia espírita. Esse mesmo sentir fez falar também outros pensadores como Emílio Castelar,José Pi y Margall, Camille Flammarion, Abrahan Lincoln, Victorien Sardou e outros mais, que eram solidários com a missão espiritual dos fenómenos mediúnicos. Sem dúvida, fez-se silêncio sobre o sentimento espírita de Victor Hugo, mas, nessa negação, nessa oposição sistemática é que está a origem do desastre espiritual da humanidade. Se, por um lado, querem negar que a alma é imortal, por outro, os que nela crêem negam que a alma imortal possa comunicar-se com os homens por razões já insustentáveis e que não vamos considerar aqui. Mas o certo é que somente pelo fenómeno mediúnico, como manifestação do espírito imortal é que a razão humana se inclinará reverente a Deus. Por isso, Victor Hugo aceitou o Espiritismo como mensagem salvadora para o Homem, a Verdade e a Beleza.

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(i) Obra editada em Paris, em 1933.
(ii) Revista Lumen, Tarrasa, Espanha, 1905. N. do Autor.



Humberto Mariotti, Victor Hugo Espírita, COINCIDÊNCIAS IDEOLÓGICAS COM JOSÉ GARIBALDI E JOSÉ MAZZINI, 10º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Criança com uma boneca, pintura de Anne-Louis GIRODET-TRIOSON)

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O Génio Céltico e o Mundo Invisível ~


Capítulo VII Síntese dos druidas. As Tríades; objecções e comentários (II)

   Pode, desde há muito tempo, notar-se que o movimento do pensamento e da ciência, as descobertas astronómicas e tudo o que tem ligação com a física do globo terrestre vem confirmar a concepção céltica sobre o Universo e sobre Deus.

   Os cantos bárdicos de Taliésin sobre os mundos e a evolução da vida, que datam do século V, os testemunhos dos autores antigos sobre a ciência profunda dos druidas são dignos de fé. As Tríades, em tempos mais recuados, após terem anunciado e previsto as conquistas futuras da ciência, abriram-lhe outros horizontes, que a ciência apenas pressente e hesita em abordar.

   À medida que o conhecimento do Universo se estende, a ideia de Deus se engrandece e as concepções teológicas da Idade Média se sombreiam. Ao mesmo tempo, a noção da força e do pensamento soberano torna-se mais imponente e mais bela; ela aumenta ao infinito e ao absoluto.

   Aqui, aparece uma dificuldade contra a qual se chocaram todas as filosofias espiritualistas. Nós não podemos, dizem elas, conhecer o Ser em si, mas somente pelas relações que temos com ele. Ora, qual relação pode existir entre o homem finito e relativo e o Ser infinito e absoluto? Não há aí uma contradição?

   Este escolho, que nenhuma filosofia moderna pode evitar, os druidas tinham afastado desde o princípio e nós achamos, nesse facto, a manifestação de uma intervenção sobre-humana. Com efeito, a Tríade nº 46 assim se exprime:

   46 – Três necessidades de Deus, ser infinito em si mesmo, ser finito em relação aos seres finitos, estar em relação com cada estado de existências no círculo de “Gwynfyd”.

   Sobre este último ponto nós possuímos os meios de controlo suficientes.

   Todos os espíritos elevados, que se comunicaram nas nossas reuniões de estudo, afirmam que eles percebem as radiações do pensamento e da força divina.

   Os mais puros – em pequeno número – percebem a luz do foco divino e as poderosas harmonias que se formam. Eles recebem as ordens, as instruções, tendo ligações com as missões a cumprir, as tarefas a realizar. Pode mesmo ir-se mais longe e dizer que, sobre o plano terrestre, os homens mais evoluídos sentem as radiações divinas, não mais directamente, mas como um reflexo que vem esclarecer a sua consciência.

   Em resumo, Deus é a causa suprema, a fonte eterna da vida. É o seu pensamento e a sua vontade que movem o Universo; eles projectam sem cessar, através do espaço, as ondas de moléculas, os feixes de centelhas vitais que as grandes correntes de ondas transportam e distribuem sobre o mundo. Daí, essas centelhas de vida se elevam através do ciclo imenso do tempo em direcção da fonte suprema, revestindo as formas rudimentares da natureza.

   Ao chegar ao estado humano, elas deverão adquirir, pelos seus trabalhos e os seus esforços, todos os atributos divinos: consciência, sabedoria, amor, participando cada vez mais da vida, da obra eterna num crescimento gradual de irradiação, potência e felicidade.

   Para tornar a concepção druídica completa e perfeita bastaria acrescentar-lhe a noção de solidariedade dos seres pela paternidade de Deus, a comunhão universal na qual cada um trabalha pela evolução de todos na sucessão das vidas, desde o infinitamente pequeno até as alturas divinas, até a possessão dos atributos que constituem a perfeição.

   Mas é, por excelência, uma doutrina de evolução, de progresso e de liberdade. No lugar da visão de uma imobilidade beata e estéril, é uma vida de actividade, de desenvolvimento das faculdades e das qualidades morais. É a felicidade de se dar a todos e de educar os outros educando-se a si mesmo.

   O ser evoluído é mais feliz em dar do que em receber, e por aí nós podemos compreender a felicidade de Deus em espalhar a sua própria substância sobre a sua obra, em benefício das suas criaturas e na medida dos seus esforços e dos seus méritos.

   A ideia capital do Druidismo é, portanto, a ideia de Deus, único, eterno, infinito. A primeira Tríade é formal, e a noção de Deus se desenvolve nas Tríades seguintes:

   1 – Há três unidades primitivas, e de cada uma não deveria existir mais do que uma: um Deus; uma verdade e um ponto de liberdade, isto é, o ponto onde se acha o equilíbrio de toda a oposição;

   2 – Três coisas procedem de três unidades primitivas: toda a vida, todo o bem e todo o poder;

   3 – Deus é necessariamente três coisas, a saber: a maior parte da vida, a maior parte da ciência e a maior parte do poder, e não deveria ter mais de uma grande parte de cada coisa;

   4 – Três coisas que Deus não pode deixar de ser: o que deve constituir o bem perfeito, o que deve querer o bem perfeito e o que deve cumprir o bem perfeito;

   5 – Três garantias do que Deus faz e fará: o seu poder infinito, a sua sabedoria infinita e o seu amor infinito; porque não há nada que não possa ser feito, que não possa tornar-se verdade e que não possa ser querido por esses atributos;

   6 – Três fins principais da obra de Deus, como criador de todas as coisas: diminuir o mal, reforçar o bem, esclarecer toda a diferença, de tal sorte que se possa saber o que deve ser, ou ao contrário, o que não deve ser;

   7 – Três coisas que Deus não pode deixar de cumprir: o que há de mais vantajoso, o que há de mais necessário e o que há de mais belo para cada coisa;

   8 – Três poderes da vida: não poder ser melhor pela concepção divina e é nisso que está a perfeição de toda a coisa;

   9 – Três coisas prevalecerão necessariamente: o supremo poder, a suprema inteligência e o supremo amor de Deus;

   10 – As três grandezas de Deus: vida perfeita, ciência perfeita e poder perfeito;

   11 – Três causas originais dos seres vivos: o amor divino de acordo com a suprema inteligência, a sabedoria suprema pelo conhecimento perfeito de todos os meios e o poder divino de acordo com a suprema vontade, o amor e a sabedoria de Deus.

   Quando se acrescenta que os judeus foram os primeiros do mundo a afirmar a unidade de Deus, esquece-se por demais que os druidas a ensinaram bem antes deles. Mas enquanto que a Bíblia nos apresenta Deus antropomórfico, isto é, semelhante ao homem por certas imperfeições, o Deus dos druidas está no ponto alto acima das misérias humanas.

   Eis como Jean Reynaud se exprime em sua obra magistral L’Esprit de la Gaule, página 45:

   “Relativamente ao conhecimento de Deus, a Gália se ergue, na realidade, por si mesma, não tendo jamais necessidade de recorrer a outrem quanto à essência e ao fundamento da vida. Em vez de ser obrigada a vir se enxertar sobre a cepa viva, como diz S. Paulo aos Gentios, ela era igualmente uma cepa viva.

   Em resumo, dizíamos, a doutrina dos druidas se baseia em três princípios fundamentais: a eternidade de Deus, a perpetuidade do Universo e a imortalidade das almas. A seus olhos, o Universo era o campo vasto onde se desenrolava o destino dos seres. A pluralidade dos mundos era o complemento necessário da sucessão das vidas, escala da ascensão que se elevava até Deus.

   Uma das coisas que mais abalavam os autores antigos era o saber dos druidas em matéria de Astronomia. O contraste era profundo, nesse ponto, com a maioria das doutrinas do oriente. Sobre esse conhecimento há muitas testemunhas. O próprio César nos informava em seus Comentários (das guerras Gálicas) que os druidas ensinavam muito sobre as coisas relativas à forma e à dimensão da Terra, à grandeza e às disposições das diversas partes do céu e ao movimento dos astros. Hecateu, Plutarco e outros dizem que, das Ilhas Britânicas, os druidas observavam cuidadosamente as montanhas e os vulcões da Lua e todo o relevo desse pequeno globo.

   Foi na Gália, diz Jean Reynaud, que se imaginou tornar os astros a sede da ressurreição. O paraíso, em vez de se reduzir a uma concepção mística, formava uma realidade sensível, oferecida de modo contínuo como espectáculo aos olhos dos homens. (i)

   Quanto à perpetuidade do Universo, ela se deduz desta passagem de Estrabão: “Os druidas ensinavam que a alma está livre da morte como também o mundo.” A imortalidade decorria da ideia de que a grandeza inerente ao indivíduo está acima de todas as forças materiais.

   “Tudo o que depende do mundo perece: as instituições, os monumentos, os impérios, mas no meio de todos esses objectos precários acha-se um ser que não é deste mundo a não ser passageiramente e que, sendo superior por sua imortalidade às realidades perecíveis no seio das quais ele se desenvolveu, se eleva até ao céu com uma sublimidade em que a Terra, apesar de seu fausto, não se aproxima.”

   Quando se compara a tradição céltica, tal como se exprime nos cantos bárdicos, com as teorias da Idade Média, antes de Galileu, fica-se surpreso com a ciência profunda dos nossos antepassados; lembremos somente o Canto do Mundo, de Taliésin, que data do século IV da nossa era. (ii)

   “Eu perguntarei aos bardos, e por que os bardos não me responderiam? Eu lhes perguntarei o que sustenta o mundo, visto que, sem suporte, o mundo não cai. Mas o que poderia servir-lhe de suporte? Grande viajante é o mundo! Enquanto desliza, sem repouso, ele permanece sempre na sua via, e quanto admirável é a forma dessa via para que o mundo dela não saia jamais!”

   “Ainda nos nossos dias – conclui Jean Reynaud – a Astronomia clássica limita-se a estudar o mecanismo material do Universo e acha-se bem afastada ainda da verdade moral, incapaz que ela é de vivificar o movimento dos astros pela circulação das existências; ela se perde na multiplicidade das estrelas como em uma vã poeira.” (iii)

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(i) Ver em L’Esprit de la Gaule, de Jean Reynaud, pp. 96 e 100.
(ii) Segundo Barddas, cad. Goddeu, em tradução do gaélico.
(iii) Ver em L’Esprit de la Gaule, p. 61.



LÉON DENIS, O Génio Céltico e o Mundo Invisível, Segunda Parte – O Druidismo Capítulo VII – Síntese dos druidas, As Tríades; objecções e comentários (2 de 2) 23º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: A Apoteose dos heróis franceses que morreram pelo seu país durante a guerra da Liberdade, pintura de Anne-Louis Girodet-Trioson)

domingo, 21 de setembro de 2014

O peregrino sobre o mar de névoa ~


Manifestações Espirituais de Crianças ~

Nas correntes do Sincretismo Religioso Afro-Brasileiro existem, divididas em formas idealizadas de grupos espirituais, as correntes infantis, médicas, orientais, africanas, indígenas e outras, que se manifestam mediunicamente, com as características do condicionamento etário da vida terrena, das condições profissionais e raciais e assim por diante. Nas práticas africanas do Candomblé e nas práticas indígenas da Poracê manifestam-se os elementares, espíritos em transição para o plano humano. A intensa divulgação dessas práticas sincréticas – misturas de religiões primitivas dos negros africanos e dos indígenas americanos – leva muita gente a perguntar por que motivo essas manifestações não ocorrem também nas sessões espíritas, onde as manifestações são geralmente de criaturas humanas adultas. Um ilustre médico psiquiatra, dedicado a esses assuntos, chegou a declarar numa conferência em São Paulo que o Espiritismo ignorava a existência de espíritos não-humanos. Um espírita presente não se conteve e explicou-lhe em público que o Espiritismo conhece e proclama a existência de inúmeras formas de espíritos não-humanos mas não se apega ao assunto, por ser uma doutrina. As fases anteriores da evolução pertencem ao domínio das leis naturais. Todos esses espíritos em ascensão para o plano hominal não dispõem ainda de inteligência e consciência suficientemente desenvolvidas para participar do plano humano. No mundo espiritual esses espíritos são amparados e orientados por espíritos que se dedicam aos chamados espíritos da natureza.

Vale essa lição para os espíritas que hoje pregam a supressão das sessões mediúnicas, alegando que as doutrinações de espíritos humanos ignorantes e sofredores pertence ao mundo espiritual. Esse raciocínio ilógico e antinatural estabelece a dicotomia no processo de intercâmbio mediúnico, sem nenhuma prova da razão alegada. Por outro lado, nega o princípio de solidariedade humana entre os dois planos estreitamente conjugados, o carnal e o espiritual. A doutrinação mediúnica é função básica do Espiritismo, a mais bela e consoladora herança do Cristianismo do Cristo (e não dos seus vigários) como declarou o Padre Alta no seu famoso livro. Cancelar as sessões mediúnicas seria voltarmos ao marco-zero. Restabeleceríamos assim o princípio católico da inviolabilidade do mistério da morte, isolando-nos artificialmente dos espíritos amigos, nossos companheiros de evolução humana, que continuam a conviver connosco na interpenetração dos mundos material e espiritual, hoje comprovada pelas próprias Ciências materiais. Fecharíamos as portas da nossa ignorância na cara dos amigos e parentes que nos amam e nos ajudam no campo das relações mediúnicas. É isso o que desejam os inquietos e desavisados inovadores do nosso tempo?

As manifestações de espíritos de crianças são naturais, pois todos os espíritos podem manifestar-se. Mas as manifestações desses espíritos em cadeia, formando correntes para trabalhos espirituais não têm sentido. As crianças transformam os médiuns em bebês chorões, pedem chupetas e mamadeiras, querem brincar com bonecas e assim por diante. Acontece que os espíritos de crianças não são crianças, mas adultos. Deixando o corpo infantil são confiados a espíritos superiores que os orientam para que se descondicionem da situação infantil, de que somente necessitavam em função de sua rápida passagem cármica pela Terra. Quando o espírito já dispõe de conhecimentos espirituais, retorna por si mesmo e naturalmente à condição de adulto. A condição infantil corresponde às necessidades evolutivas do corpo material. Cumpridas essas exigências psicobiológicas, retornam à condição de adultos. Isso se torna evidente nas manifestações de espíritos de crianças mortas que se manifestam aos pais para identificar-se, mas em manifestações posteriores já se declaram adultas. Um menino de oito anos, no nosso grupo de trabalho, respondeu aos mimos e preocupações dos pais dizendo: “Não sou mais criança. A morte nos faz crescer depressa. Fiquei rapaz em poucos dias. Mas sou o mesmo espírito que vocês só conheceram como criança. Cumpri a minha missão e agora tenho de prosseguir na minha evolução. Estarei sempre com vocês, porque vos amo, mas não pensem em mim como morto ou como criança, pois não sou mais nenhuma dessas duas coisas”. Os espíritos de crianças, de adultos, de velhos, manifestam-se como eram na carne para se identificarem, mas não permanecem no estado em que morreram. As manifestações do sincretismo religioso são em geral condicionadas pelas crenças e tradições das religiões primitivas dos vários tipos de manifestações religiosas de que provêm. Trata-se em geral de manifestações anímicas submetidas ao processo de condicionamento à crença, pesquisado por Richet no século passado e pelos parapsicólogos actuais. Boirac deu a essas manifestações a designação de espiritóides, o que vale dizer pseudo-espíritas. O devoto de Nossa Senhora que vê um espírito radiante de mulher tende sempre a considerá-la como a santa de sua devoção. Esse é um dos capítulos mais difíceis do campo científico da mediunidade, que a maioria dos espíritas desconhece. Cada ciência tem os seus problemas melindrosos, que exigem estudo sério dos seus praticantes.

Kardec registou nas suas pesquisas várias manifestações de crianças na condição de agénere (manifestações de crianças em forma de materializações, mas que não o são). Trata-se de casos raros, provocados por excessivo apego de espíritos afins. O caso da menina Raquel, filha de Frederico Figner, foi uma materialização através de um médium. O agénere é o fenómeno produzido por alterações do perispírito ou corpo espiritual do espírito manifestante, que lhe dão a aparência de materializado. (Ver na Revista Espírita, de Kardec, a teoria dos agéneres). Sem estudo metódico e aprofundado da Doutrina, os adeptos se expõem ao perigo de erros e ilusões na apreciação dos fenómenos. E ficam geralmente em dificuldades para refutarem teorias esdrúxulas dos opositores; Ciência do imponderável e do invisível, que não raro se tornam ponderáveis e visíveis. O Espiritismo requer dos seus adeptos maior afinco nos estudos, na observação e na pesquisa. É de extrema leviandade a atitude de adeptos e contraditores do Espiritismo que pretendem explicar os fenómenos que não conhecem, julgando-se defensores únicos da verdade e detentores exclusivos do discernimento e do bom senso, dotados de dons especiais para encontrar trapaças em toda a parte. Um ilustrado e famoso professor de Medicina teve a coragem de exibir em reuniões científicas fotografias de mesas grosseiramente amarradas com tiras de pano e cordas como prova de fraudes em fenómenos de levitação. Tristes restos, destroços humilhantes de batalhas perdidas na luta contra o Espiritismo por trapaceiros, mágicos de palco e sacerdotes mais interessados na mentira do que na verdade das revelações espirituais. É inacreditável que, ainda hoje, em plena era atómica e em plena expansão mundial da Parapsicologia, reconhecida como ciência universitária, esses vergonhosos resíduos da miséria humana possam servir, embora como peças de museus arcaicos, como armas contra os resultados de pesquisas científicas.

Ao problema das manifestações de espíritos de crianças devemos juntar o das manifestações da mediunidade infantil. Campo ainda pouco explorado pelos pesquisadores, pelas dificuldades naturais que oferece e o temor de desencadear processos inesperados no psiquismo imaturo, foi pesquisado no passado e continua em pesquisas nos nossos dias. Os casos como o de Pierino Gamba e Gianela de Marco, explorados em exibições públicas mundiais, ficaram cientificamente inexplicados. Gianela, uma frágil menina italiana de seis anos, apresentou-se no Teatro Municipal de São Paulo, regendo a Orquestra Sinfónica com a perícia de um grande regente. Levada a uma exibição mais ampla no Ginásio do Pacaembu, inteiramente lotado, regeu com a mesma segurança, em promoção do Clube dos Jornalistas Espíritas, recebendo elogios crivados de espanto dos nossos críticos profissionais. Nos próprios casos de exorcismo católico, hoje amplamente divulgados, surgem crianças médiuns interpretadas como endemoniadas. Aos Centros Espíritas comparecem mães aflitas levando crianças que necessitam de tratamento para se livrarem de influências mediúnicas assustadoras. Na Parapsicologia actual as pesquisas mais interessantes referem-se a casos psiquiátricos e de manifestações telepáticas. Nessas manifestações, pesquisadores norte-americanos e ingleses provaram, sem querer e sem o saber, um dos mais surpreendentes princípios da Ciência Espírita – o de que os debilóides mentais são espiritualmente normais, decorrendo as deficiências de imperfeições e anormalidades do cérebro e não da mente. Experiências sucessivas e rigorosamente científicas, confirmando a tese de Rhine de que a mente não é física, revelaram a situação dramática dessas crianças, como decorrentes de abusos criminosos no passado. Pesquisas em presídios mostraram a mesma situação em casos de loucura. Robert Amadou, católico-tomista, relata essas pesquisas no seu livro Parapsicologia; Herenwald, Pardson-Crieg, Carington e outros fazem coro a esse testemunho.

Todos esses factos recentes, comprovados nos grandes centros universitários do mundo, abrem, segundo vários especialistas, uma nova perspectiva no campo das possibilidades de cura dessas deficiências.

No tocante às manifestações mediúnicas de crianças engajadas nas chamadas correntes das formas de sincretismo religioso, em nada as favorecem essas pesquisas. A mediunidade infantil é puramente passiva, receptiva. O espírito de criança, no seu condicionamento infantil, está submetido ao processo de reencarnação, por isso mesmo desprovido da liberdade de escolha e de acção para controle de um médium. O paralelismo psicofísico do desenvolvimento infantil exige a ligação mais íntima e efectiva do espírito com o corpo. A mente infantil, reduzida às condições primárias da imaturidade, não dispõe de meios para o raciocínio claro e as decisões voluntárias. A criança só pode dispor de recursos para manifestações independentes depois dos oito anos de idade. Uma criança que se manifesta por um médium adulto pedindo bonecas ou chupetas permanece ainda no plano da subconsciência, não podendo violentar as leis naturais do crescimento humano. A Psicologia Infantil já se encontra suficientemente desenvolvida para nos oferecer uma visão geral do processo ontogenético nas fases primárias do desenvolvimento infantil.

Por outro lado, essas manifestações, se fossem reais, revelariam falta de ordem no mundo espiritual, onde as crianças ficariam à mercê de entidades maduras e mal orientadas. As consequências morais de uma situação como essa seriam desastrosas para todas as concepções espiritualistas. A situação da criança nessa concepção primitivista superaria em desalento à do limbo católico para onde as crianças não baptizadas seriam remetidas após a morte. Na obra da Criação, que é sobretudo ordem, amor e justiça, não se pode admitir logicamente esse abandono das crianças espirituais à própria sorte. Os espíritos infantis que não retomam a sua maturidade mental logo após a morte são entregues aos espíritos maternais que, segundo técnicas especiais, tratam de protegê-los e levá-los à reintegração nas suas experiências de vidas anteriores. O Espiritismo, como dizia Kardec, é uma questão de bom-senso.

A questão dos elementares, espíritos ainda em transição para a humanidade, decorre da própria teoria espírita da evolução, que é geral, universal e sequente. Doutrinas de elevado teor cultural, como a Teosofia de Olcot e Blavatsky e religiões mágicas, primitivas, como as do sincretismo religioso afro-brasileiro, dão grande ênfase a esse campo de manifestações primárias, que só pode ser pesquisado através da vidência. Como esse meio de pesquisa é sujeito a muitas imprecisões e interpretações erróneas, o Espiritismo interessa-se mais pelas manifestações de espíritos adultos, pois nestes encontra mais segurança e possibilidades de confirmação dos factos, bem como maior proveito para a humanidade que representa uma fase decisiva da evolução dos seres. Tudo nos mostra, no mundo actual, que não podemos perder tempo com especulações secundárias. A imensa maioria humana, encarnada e desencarnada, do nosso planeta, não chegou ainda à compreensão real do sentido da vida e necessita de apoio e ajuda daqueles que se adiantaram no caminho. As doutrinas espirituais que se dizem avançadas acabam fechando-se em pequenas elites desligadas da massa mais sofredora e necessitada.

A mensagem espírita, desenvolvendo e aclarando os ensinos cristãos, vai da choupana ao palácio e pode enfrentar com segurança os embates do religiosismo dogmático e do materialismo científico em todos os seus aspectos. Ela demonstra, inclusive, que a verdadeira Ciência não pode parar nos limites da matéria, pois o ser não é matéria, mas espírito, e a finalidade da Ciência é reconhecer e revelar a realidade total em sua interacção de causa e efeito, espírito e matéria. Negar o espírito ou considerá-lo como subordinado à matéria é negar as possibilidades cognoscitivas da inteligência. O cientista que assim procede comete um suicídio cultural. Toda a cultura se nadifica nesse gesto anti-humano de se esconder na cova de uma toupeira. O Espiritismo revela-nos o homem como o conhecedor insaciável de toda a realidade. Por isso, a primazia espírita concedida ao homem é uma exigência da evolução global das coisas e dos seres. As exigências metodológicas do conhecimento ôntico são necessárias, não podem ser transformadas em hipóteses que atravanquem as rotas do saber, como reconheceu Charles Richet, tratando precisamente dos problemas espirituais na Metapsíquica.

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José Herculano Pires, Ciência Espírita e suas implicações terapêuticas, Manifestações Espirituais de Crianças, 18º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: O peregrino sobre o mar de névoa, pintura de Caspar David Friedrich)

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

o grande desconhecido ~


O PROCESSO CULTURAL

No desenvolvimento da Cultura, no nosso mundo, podemos assinalar três fases bem definidas no processo histórico:

A – Culturas Empíricas.
B – Culturas Religiosas.
C – Culturas Científicas.

As Culturas Empíricas desenvolvem-se nas relações primárias do homem com a Natureza, através das experiências naturais. Nessas experiências o homem elabora os três elementos básicos de toda a cultura:

– a linguagem.
– o rito.
– o instrumento.

Não se trata de uma elaboração sucessiva, mas sincrónica, de uma reelaboração das experiências animais.

Tudo se encadeia no Universo, diz O Livro dos Espíritos.

Nesse encadeamento as vozes animais transformam-se na linguagem humana, os ritos em rituais da sociabilidade humana e dos cerimoniais religiosos, as garras dos animais projectam-se nos instrumentos de madeira e pedra de que o homem se serve para agir sabre a Natureza e adaptá-la às suas necessidades de sobrevivência.

As experiências que desenvolvem a Cultura Empírica excitam as potencialidades do espírito, desenvolvendo-as nas tribos e nas hordas. A lei de adoração, proveniente da ideia inata de Deus no homem, gera a reverência pelos poderes misteriosos da Natureza e institui os primeiros rituais de reverência aos pagés ou xamãs e feiticeiros, bem como ao cacique e aos chefes guerreiros. O culto às divindades da selva nasce desses rituais.

A Cultura Empírica gera a Cultura Religiosa das primeiras tribos sedentárias. A ideia de Deus define-se mais nítida com o desenvolvimento da Razão, sob a influência dos ritos da Natureza, nas primeiras civilizações agrárias e pastoris. O milagre das germinações, no ritmo regular das estações, e a proliferação dos rebanhos provam a existência de inteligências controladoras dos fenómenos naturais e protectoras do homem. O animismo, projecção da alma humana nas coisas, impregna a Natureza com uma vida factícia em que a pedra, a árvore, o rio, o bosque, a montanha, o mar, tudo fala e pensa em condições humanas. As manifestações espíritas provam a realidade anímica da Natureza. A figura de Deus, Ser Superior, criador e dominador do mundo, impõe-se ao homem na forma necessariamente humana. E como Deus não pode estar sozinho, multiplica-se em mitos que simbolizam as suas várias actividades, ligadas às actividades humanas. Ao mesmo tempo, as forças destruidoras e as manifestações de espíritos malignos geram os mitos da oposição a Deus. Nasce o Diabo desse contraste, estabelecendo a luta entre o Bem e o Mal, sujeitando o homem à esperança da protecção divina e ao temor dos poderes maléficos.

A Cultura Religiosa configura-se na síntese dessa dialéctica do invisível e do visível, do sentimento e da sensação, fazendo evoluírem as civilizações agrárias e pastoris para a fase das civilizações teocráticas que se desenvolvem no Oriente, nas regiões em que brilha a luz em cada alvorecer.

Os ritmos da Terra e do Céu: Do dia e da noite, as estações do ano, o Sol e a Lua, as constelações anunciadoras de cada mudança no tempo, a chuva e as Inundações, os terramotos, as erupções vulcânicas, as pestes, as pragas, o relâmpago, o raio, as tempestades exigem a disciplinação do caos e ao mesmo tempo a complexidade dos cultos.

Os soberanos das nações são filhos de Deus e possuem poderes divinos.

A Cultura desenvolve-se na argamassa dos sentimentos e das sensações.

A Fé define-se como sentimento e sensação em misturas condicionadas pela Razão, expressa nas formulações filosóficas.

A Teologia brota desse complexo de mistérios como a Ciência Suprema dos videntes e dos profetas, dos homens mais do que homens de que falaria Descartes, homens privilegiados pela sabedoria infusa que desce do Céu para iluminar a Terra.

A Cultura Religiosa é uma oferenda celeste que os homens simplesmente homens não podem tocar com as suas mãos indignas, não podem avaliar com as suas mentes entorpecidas pelos interesses materiais e as ambições inferiores da vida perecível.

O mundo divide-se em duas partes inconciliáveis: surgem os conceitos do Sagrado e do Profano.

As Culturas Religiosas desligam-se da tradição empírica, rejeitam a experiência natural, relegando-a ao campo do profano, do pecaminoso. Entregam-se à alienação do suposto, do imaginário.

O Cristianismo envolve-se nas contradições humanas:

cai na simonia, no comércio ambicioso de sacramentos e indulgências, pregando a renúncia ao mundo e a santidade da pobreza;

proclama a humildade como virtude e investe-se do poder político;

denuncia o paganismo e o judaísmo como heréticos e assimila os seus elementos rituais e a sua política gananciosa;

prega o Reino de Deus e apossa-se dos reinos terrenos;

impugna a sabedoria grega e constrói o seu saber com decalques de Platão e Aristóteles;

ensina a fraternidade e promove as guerras fratricidas em nome de Deus;

erige-se em religião do Deus Único e divide Deus em três pessoas distintas;

institui o celibato como virtude e faz comércio ambicioso do sacramento do matrimónio;

combate a magia e reveste o seu culto de poderes mágicos;

luta contra as heresias e comete a suprema heresia de submeter Deus ao poder do sacerdócio no acto eucarístico;

profliga a idolatria e enche os seus templos com ídolos copiados da idolatria mitológica, chega ao máximo da alienação estabelecendo o sistema fechado das clausuras e dos mosteiros segregados;

prega o Evangelho e nega ao povo o acesso aos textos que considera privativos do clero;

proclama a supremacia espiritual do amor e semeia o ódio aos que não aceitam os seus
princípios.

A alienação cristã faz da cultura um sincretismo de absurdos assimilados de dogmas e rituais bastardos de igrejas e ordens ocultas da mais alta Antiguidade, transformando o conhecimento em gigantesca manta de retalhos em que as próprias vestes sacerdotais e paramentos do culto são copiados de antigas e condenadas igrejas.

A cultura cristã desenvolve-se com pressupostos falaciosos e um fabulário ridículo enxameado de superstições erigidas em verdades absolutas, provindas de revelações divinas.

A verdade artificial da sabedoria eclesiástica encobre a realidade com o espesso véu das elucubrações dos teólogos, modelos de esquizofrenia catatónica e megalomania delirante.

A cultura em evolução nas fases anteriores cai na estagnação de um charco de mentiras sagradas, pílulas doiradas de um anestésico.

Interrompe-se o processo cultural.

Não se pode conhecer mais nada. Cada Igreja tem a sua verdade própria e inverificável, sendo a Igreja Cristã a mais poderosa barreira a qualquer tentativa de investigação da realidade. A morte cruel é o prémio dos que se atreverem a rasgar o Véu de Isis para mostrar o corpo da Verdade Nua.

O desenvolvimento da imaginação criadora levara a cultura a um solipsismo devorador.

Tudo estava esclarecido, a imaginação dos poetas (considerados profetas) resolvia todos os mistérios em termos de mitologia grega ou tradição romana, os teólogos solucionavam os problemas da vida e da morte com belas frases em latim, as Igrejas detinham a Verdade Absoluta, amaldiçoando-se entre si, e velavam pela ordem cultural perseguindo e matando em nome de Deus os atrevidos que tentassem profanar a Palavra de Deus, escrita na Bíblia por velhíssimos judeus que haviam, num complô com César e o seu legado Pilatos, condenado à flagelação e à cruz um jovem carpinteiro que tivera a audácia de se apresentar como o Messias de Israel.

A Cultura Cientifica teve de romper a golpes de atrevimento a selva selvaggia dessa cultura religiosa inconsequente, contraditória e arrogante, empalhada como um pássaro morto em velhos pergaminhos de uma sabedoria feita de suposições e elucubrações pretensiosas.

O mundo dos homens desligara-se totalmente da realidade, fechando-se num casulo de formulações abstractas.

Mais bizantina que Bizâncio, Roma sofismava sobre problemas que se recusava a conhecer. Só a ignorância total e a ingenuidade das populações bárbaras poderia aceitar. Após a queda do Império do Ocidente, comprovava-se historicamente a afirmação evangélica de que o ensino de Jesus seria deturpado e necessitaria de tempo para que os homens pudessem compreendê-lo.

O milénio medieval teria a função de desenvolver a razão como guia do pensamento e freio da imaginação, ao fogo das tragédias e loucuras de um misticismo criminoso, para que, no Renascimento, os frutos de experiências dolorosas abrissem perspectivas para o desenvolvimento de uma cultura realista, apoiada em pesquisas metódicas da realidade.

Foi então que a esquizofrenia mundial se revelou em definitivo: o espírito humano estava dividido numa cultura fantasiosa, formada pela dogmática absurda das religiões, e numa cultura rebelde, atrevida e exigente, que arrancava os homens da ilusão de um saber confuso, para oferecer-lhes o saber legítimo que iniciara a fase das experiências empíricas e se negara a si mesma no desenvolvimento alucinado do fanatismo religioso.

O movimento da Reforma, desencadeado por Lutero, em consequência das lutas de Abelardo e das proposições de Erasmo de Roterdão, em conjugação aparentemente ocasional com as tentativas de pesquisas objectivas de Galileu, Copérnico, Giordano Bruno e outros mártires da Ciência nascente, marcavam os rumos de uma nova concepção do mundo e do homem.

Abelardo foi o precursor medieval de Descartes, que por sua vez foi o precursor de Kardec.

Aos fundamentos emocionais da Fé absurda e cega, os pioneiros do retomo ao real ofereciam os fundamentos da Razão esclarecida e da pesquisa científica.

A Verdade ressurgia das cinzas das fogueiras criminosas e a Fé de olhos abertos substituía a ceguinha esclerótica das sacristias.

Mas a luta pela Verdade da concepção cristã restabelecida só atingiria o seu apogeu nos meados do Século XIX, com a Codificação do Espiritismo, através das pesquisas pioneiras de Kardec sobre os fenómenos mediúnicos, hoje admitidos pela Ciência com a denominação de paranormais.

Kardec provara que os médiuns não eram anormais, como pretendiam os investigadores da Medicina e da Psicologia, nem sobrenaturais, como pretendiam os defensores de dogmas obsoletos, mas naturais e normais.

A Mediunidade impunha-se à pesquisa dos cientistas exponenciais da época, que rasgavam ao mesmo tempo o Véu do Templo, revelando os seus mistérios, os Véus de Isis, para desvendar o sentido dos símbolos mitológicos.

Os homens começaram então a aprender que não sabiam nada e tinham de lutar para descobrir a Verdade escondida atrás da aparência enganosa das coisas dos seres.

A Ciência Espírita instalou-se no mundo, com as consequências necessárias da Filosofia Espírita e da Religião em Espírito e Verdade.

O Espiritismo, nos seus três aspectos, está hoje confirmado pela Cultura Científica e o seu alcance cósmico confirma-se ao ritmo acelerado das conquistas culturais do século, restabelecendo o ensino deturpado pelas ambições humanas, que Jesus de Nazaré semeou em palavras de vida e imortalidade nas almas de todos os tempos.

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José Herculano Pires, Curso Dinâmico de Espiritismo, I – O PROCESSO CULTURAL, 2º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Somos as aves de fogo por sobre os campos celestes, pintura em acrílico de Costa Brites)

domingo, 24 de agosto de 2014

Deus na Natureza ~

A Força e a Matéria I Posição do Problema (VI)

   A exposição precedente já deixou adivinhar, sem dúvida, a táctica do ateísmo do nosso tempo.

   Ele não é fruto directo do estudo científico, mas procura insinuar-se com essa aparência. É evidente a ilusão, nesses filósofos, pois sabemos que há entre eles uns tantos conceitos sinceros. É à força de quererem conjugar à Ciência as suas teorias, que acabaram por embutir no cérebro essa união clandestina. Essas teorias não podem invocar a seu favor qualquer das grandes provas científicas da nossa época e, sem embargo, dão-se como resultantes de todo o moderno trabalho científico.

   Isso repetem, e é com essa hermenêutica que abusam dos ignorantes e da juventude desprevenida e entusiasta, tendendo a fazer-lhes crer que as ciências, à força de progredirem, acabaram por descobrir e demonstrar que não há Deus nem alma. São eles que fazem a Ciência.

   Dir-se-ia, depois de os ouvir, nada haver além deles. Os grandes homens da antiguidade e da Idade Média, tanto como os modernos, são fantasmas, e toda a Filosofia deve desaparecer diante do ateísmo pretensamente científico.

   Preciso se faz que a imaginação popular não se deixe iludir por simples jogo de palavras, que mais valem, às vezes, por verdadeira comédia. Importa que as criaturas pensem por si mesmas, julguem com conhecimento de causa e adquiram a certeza de que os factos científicos, perquiridos sem prevenção, não comportam as conclusões dogmáticas que lhes querem impor.

   Vista de perto, a pedra angular a grande custo lançada pelo materialismo contemporâneo deixa entrever que ela não passa de velho e carcomido tronco de madeira podre e, no fundo, os partidários do sistema não estão mais seguros do seu cepticismo do que o estariam os calvos discípulos de Heráclito ou de Epícuro.

   Ainda que queiram convencer-nos do contrário, todo o seu sistema não passa de hipótese, mais vazia e menos fundamentada que muitos romances científicos.

   E uma vez que são eles próprios a declarar que toda a hipótese deve ser banida da Ciência, não há como deixarmos de começar por esse banimento.

   Realmente, com que direito fazem da força atributo da matéria?

   Com que direito afirmam que a força está submetida à matéria, que lhe obedece passivamente aos caprichos, escrava absoluta de elementos inertes, mortos, indiferentes, cegos? Maior e mais fundado é o nosso direito de inverter-lhes a proposição, derrubando-lhes o edifício pela base.

   Terminemos assim esta exposição do problema, decidindo que o discrime se coloca nestes termos fundamentais: é a matéria que domina a força, ou antes esta que domina aquela?

   Trata-se de discutir e escolher uma ou a outra, ou, para falar com mais exactidão – trata-se de observar a Natureza e optar depois.

   E, pois que os honrados campeões da matéria afirmam, com tanta segurança, o primeiro enunciado, começamos revocando-o em dúvida e propondo a alegação contrária.

   No rosto desta obra inscrevemos, por conseguinte, esta pergunta:

   A força rege ou é regida pela matéria? É este o dilema que os factos de si mesmos devem resolver.

   O panorama geral do Universo vai oferecer-nos uma primeira demonstração de soberania da força e da ilusão dos materialistas.

   Da matéria, nos elevamos às forças que a dirigem; destas, às leis que as governam, e destas, ainda, ao seu misterioso autor.

   A harmonia repleta o mundo dos seus acordes e o ouvido de alguns ínfimos seres humanos se recusam a escutá-los. A mecânica celeste lança, ousadamente, no espaço, o arco das órbitas e o olho de um parasita desses orbes desdenha a grandeza da sua arquitectura.

   A luz, o calor, a electricidade, pontos invisíveis projectados de uma a outra esfera, fazem circular nos espaços infinitos o movimento, a actividade, a vida, a radiação do esplendor e da beleza, e as imbeles criaturas, apenas desabrochadas à superfície de um parasita desses orbes desdenha a grandeza a confessar a fulgurância celeste! É loucura ou é tolice? É orgulho, ou ignorância? Qual a origem e a finalidade de tão estranha aberração? Porque a força vital, álacre e fecunda, palpita no Sol como na borboleta que morre com a manhã; no carvalho anoso das florestas como na primaveril violeta? – porque a vida magnificante doura as messes de Julho e os cabelos anelados da juventude petulante e freme no seio virginal das noivas? – porque negar a beleza, mascarar a verdade e desprezar a inteligência? Porque envenenar as virtudes eternas que sustentam a estrutura do mundo e eclipsar, tristemente, a luz imaculada que desce dos céus?

   Antes de penetrar os mistérios do reino tão rico e interessante da vida, devemos considerar o esboço material do Universo, começando por demonstrar a soberania da força no tracejar desse mesmo esboço. Dividiremos esta primeira em duas partes: o Céu e a Terra, para estabelecer em primeiro lugar, por leis astronómicas e depois pelas terrestres, que, onde quer que exista a matéria, esta jamais deixou de ser escrava servil, universalmente dominada pela energia que a rege. Esta divisão não deve sugerir, de modo algum, a velha comparação do céu com a Terra, que bem sabemos serem termos incomparáveis. Considerado como valor absoluto, o céu é tudo e a Terra nada é. A Terra é átomo imperceptível, perdido no seio do infinito; o céu a envolve no ilimitado e a integra na população astral, sem excepção nem privilégio particular.

   Reunir os dois vocábulos, é como dizer: os Alpes são uma pedrinha, o Oceano é uma gota d’água e o Saará um grão de areia. É comparar o todo a um mínimo do mesmo todo.

   Importa, portanto, não interpretar literalmente a nossa divisão, que só se justifica por colimar maior clareza do assunto. Para nós, terrícolas, este globo é alguma coisa, assim como para a minúscula lagarta, que aflora numa folha, esta folha algo vale, mau grado à sua insignificância no conjunto da pradaria.

   A nossa esfera de observação divide-se também, naturalmente, em duas partes: o que pertence e o que não pertence ao nosso mundo.

   Ora, vamos estabelecer que, fora do nosso mundo, assim como nele, a matéria está em tudo e por toda a parte e não passa de coisa inerte, cega, morta, composta de elementos incapazes de se dirigirem por si mesmos; que não agem nem pensam por impulso próprios e que, nas sendas invisíveis do espaço, tanto como nos canais da seiva ou do sangue, o que aglutina em átomos, dirige as moléculas e conduz os mundos, é uma Força na qual transparece o plano, a vontade, a inteligência, a sabedoria e o poder do seu amor.

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Camille Flammarion, Deus na Natureza – Primeira Parte, A Força e a Matéria I - Posição do Problema 6 de 6, 10º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Jungle Tales_1895, pintura de James Jebusa Shannon)

sábado, 16 de agosto de 2014

Diálogos de Kardec ~

Carácter e Consequências Religiosas das Manifestações dos Espíritos ~

1. As almas ou Espíritos dos que aqui viveram constituem o mundo invisível que povoa o espaço e no meio do qual vivemos. Daí resulta que, desde que há homens, há Espíritos e que, se estes últimos têm o poder de manifestar-se, devem tê-lo tido em todas as épocas. É o que comprovam a história e as religiões de todos os povos. Entretanto, nestes últimos tempos, as manifestações dos Espíritos assumiram grande desenvolvimento e tomaram um carácter mais acentuado de autenticidade, porque estava nos desígnios da Providência pôr termo à praga da incredulidade e do materialismo, por meio de provas evidentes, permitindo que os que deixaram a Terra viessem atestar a sua existência e revelar-nos a situação ditosa ou infeliz em que se encontravam.

2. Vivendo o mundo visível no meio do mundo invisível, com o qual se acha em contacto perpétuo, segue-se que eles reagem incessantemente um sobre o outro, reacção que constitui a origem de uma imensidade de fenómenos, que foram considerados sobrenaturais, por não se lhes conhecer a causa.

A acção do mundo invisível sobre o mundo visível e reciprocamente é uma das leis, uma das forças da Natureza, tão necessária à harmonia universal, quanto a lei de atracção. Se ela cessasse, a harmonia estaria perturbada, conforme sucede num maquinismo, donde se suprima uma peça. Derivando de uma lei da natureza semelhante acção, nada têm, evidentemente, de sobrenaturais os fenómenos que ela opera. Pareciam tais, porque desconhecida era a causa que os produzia. O mesmo se deu com alguns efeitos da electricidade, da luz, etc.

3. Todas as religiões têm por base a existência de Deus e por fim o futuro do homem depois da morte. Esse futuro, que é de capital interesse para a criatura, se acha necessariamente ligado à existência do mundo invisível, pelo que o conhecimento desse mundo há constituído, desde todos os tempos, objecto das suas pesquisas e preocupações. A atenção do homem foi naturalmente atraída pelos fenómenos que tendem a provar a existência daquele mundo e nenhum houve jamais tão concludente, como os das manifestações dos Espíritos por meio das quais os próprios habitantes de tal mundo revelaram as suas existências. Por isso foi que esses fenómenos se tornaram básicos para a maior parte dos dogmas de todas as religiões.

4. Tendo instintivamente a intuição de uma potência superior, o homem foi sempre levado, em todos os tempos, a atribuir à acção directa dessa potência os fenómenos cuja causa lhe era desconhecida e que passavam, aos seus olhos, por prodígios e efeitos sobrenaturais. Os incrédulos consideram essa tendência uma consequência da predilecção que tem o homem pelo maravilhoso; não procuram, porém, a origem desse amor do maravilhoso. Ela, no entanto, reside muito simplesmente na intuição mal definida de uma ordem de coisas extracorpóreas. Com o progresso da Ciência e o conhecimento das leis da Natureza, esses fenómenos passaram pouco a pouco do domínio do maravilhoso para o dos efeitos naturais, de sorte que o que outrora parecia sobrenatural já não o é hoje e o que ainda o é hoje não mais o será amanhã.

Os fenómenos decorrentes da manifestação dos Espíritos forneceram, pela sua natureza, larga contribuição aos factos reputados maravilhosos. Tempo, contudo, viria em que, conhecida a lei que os rege, eles entrariam, como os outros, na ordem dos factos naturais. Esse tempo chegou e o Espiritismo, dando a conhecer essa lei, apresentou a chave para a interpretação da maior parte das passagens incompreendidas das Escrituras sagradas que a isso aludem e dos factos tidos por miraculosos.

5. O carácter do facto miraculoso é ser insólito e excepcional; é uma derrogação das leis da Natureza. Desde, pois, que um fenómeno se reproduz em condições idênticas, segue-se que está submetido a uma lei e, então, já não é miraculoso. Pode essa lei ser desconhecida, mas, por isso, não é menos real a sua existência. O tempo se encarregará de revelá-la.

O movimento do Sol, ou, melhor, da Terra, sustado por Josué, seria um verdadeiro milagre, porquanto implicaria a derrogação manifesta da lei que rege o movimento dos astros. Mas, se o facto pudesse reproduzir-se em dadas condições, é que estaria sujeito a uma lei e deixaria, consequentemente, de ser milagre.

6. É erróneo assustar-se a Igreja com o facto de restringir-se o círculo dos factos miraculosos, porquanto Deus prova melhor o seu poder e a sua grandeza por meio do admirável conjunto das suas leis, do que por algumas infracções dessas mesmas leis. E tanto mais erróneo é o seu temor, quanto ela atribui ao demónio o poder de operar prodígios, donde resultaria que, podendo interromper o curso das leis divinas, o demónio seria tão poderoso quanto Deus. Ousar dizer que o Espírito do mal pode suspender o curso das leis de Deus é blasfémia e sacrilégio.

Longe de perder qualquer coisa da sua autoridade por passarem os factos qualificados de milagrosos à ordem dos factos naturais, a religião somente pode ganhar com isso; primeiramente, porque, se um facto é tido falsamente por miraculoso, há aí um erro e a religião somente pode perder, se se apoiar num erro, sobretudo se se obstinasse em considerar milagre o que não o seja; em segundo lugar, porque, não admitindo a possibilidade dos milagres, muitas pessoas negam os factos qualificados de milagrosos, negando, consequentemente, a religião que em tais factos se estriba. Se, ao contrário, a possibilidade dos mesmos factos for demonstrada como efeitos das leis naturais, já não haverá cabimento para que alguém os repila, nem repila a religião que os proclame.

7. Nenhuma crença religiosa, por lhes ser contrária, pode infirmar os factos que a Ciência comprova de modo peremptório. Não pode a religião deixar de ganhar em autoridade acompanhando o progresso dos conhecimentos científicos, como não pode deixar de perder, se se conservar retardatária, ou a protestar contra esses mesmos conhecimentos em nome dos seus dogmas, visto que nenhum dogma poderá prevalecer contra as leis da Natureza, ou anulá-las. Um dogma que se funde na negação de uma lei da Natureza não pode exprimir a verdade.

O Espiritismo, que se funda no conhecimento de leis até agora incompreendidas, não vem destruir os factos religiosos, porém sancioná-los, dando-lhes uma explicação racional. Vem destruir apenas as falsas consequências que deles foram deduzidas, em virtude da ignorância daquelas leis, ou de as terem interpretado erradamente.

8. A ignorância das leis da Natureza, com o levar o homem a procurar causas fantásticas para fenómenos que ele não compreende, é a origem das ideias supersticiosas, algumas das quais são devidas aos fenómenos espíritas mal compreendidos. O conhecimento das leis que regem os fenómenos destrói essas ideias supersticiosas, encaminhando as coisas para a realidade e demonstrando, com relação a elas, o limite do possível e do impossível.

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ALLAN KARDEC, Obras Póstumas, Primeira Parte, Manifestações dos Espíritos – Carácter e Consequências Religiosas das Manifestações dos Espíritos, 9º fragmento solto da obra.
(imagem de contextualização: Dança rebelde, 1965 – Óleo sobre tela, de Noêmia Guerra)

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

O Espiritismo na Arte ~


– A poesia
– A música, o seu papel na inspiração profética e religiosa

A poesia, na realidade, é apenas uma forma de música. Ela é submetida às mesmas leis do ritmo, da vibração, que são as leis da vida nos seus estados superiores.

A Antiguidade, criadora do género, havia compreendido. O poeta antigo era, ao mesmo tempo, cantor e músico. Porém, actualmente, a poesia não é mais que uma das formas da literatura. Como todas as manifestações da arte em geral, ela perdeu o seu carácter augusto, para cair na banalidade. Somos inundados por um dilúvio de versos sem elevação e sem beleza.

Ora, o verso não suporta a mediocridade. E é por isso que, na Idade Média como nos nossos dias, escritores de grande talento, Dante (i), Lamartine, Victor Hugo e outros, puderam conservar na poesia o seu brilho, o seu carácter de grandeza e salvá-la de uma queda irremediável. Para exprimir o sublime ideal, todas as palavras são impotentes. Chegando a uma certa altura, o pensamento encontra apenas termos humanos, apropriados às exigências do nosso plano inferior, mas incapazes de traduzir as impressões da vida superior. E é isso que o Esteta lamenta. Desde que a insuficiência da linguagem humana se revela, a música, com os seus recursos infinitos, torna-se a única forma que se adapta à eterna beleza do Universo, a única forma de exprimir as sensações da alma radiosa, fundindo-se com o pensamento divino.

A palavra, quando está unida à música, pode dar ao pensador uma forma de expressão mais intensa, mais penetrante. Porém, nos nossos dias, a aplicação desse método tornou-se muitas vezes bem vulgar. A romança (ii), a canção (iii), tinham, ainda recentemente, o seu encanto, o seu sabor. Hoje, sob a influência de certos meios públicos, a canção não é mais que uma profanação, um aviltamento da ideia.

Porém, quando das cloacas impuras onde mãos sacrílegas a têm enlameado, a música eleva-se em direcção às alturas radiosas do pensamento e da poesia, ela se torna apta a traduzir os mais nobres sentimentos. Ela acha-se no seu elemento. Lá, tudo são ondas, vibrações, harmonias, luz. Eis por que a poesia, para permanecer no seu verdadeiro papel, deve inspirar-se nas leis da harmonia musical e reproduzi-las com fidelidade.

A música, nós o sabemos, desempenha um grande papel na inspiração profética e religiosa. Ela coloca ritmo na emissão fluídica e facilita a acção dos espíritos elevados. Eis por que ela tem o seu lugar nas reuniões espíritas, nas sessões em que é bom precedê-las por um hino apropriado às circunstâncias. Muitas vezes os guias dos grupos exortam os assistentes a entoar um cântico para facilitar as manifestações. Porém, até agora, é preciso confessá-lo, os espíritas se encontram muito carentes desse tipo de música e são obrigados a recorrer a cânticos vulgares, a banalidades indignas do objectivo pretendido. É com uma dolorosa impressão que temos constatado, mais de uma vez, a penúria dos recursos musicais usados nos grupos espíritas. Eis por que compomos um hino dedicado “aos invisíveis” e cuja música se deve a uma senhora que possui um certo senso estético e é plena de boa vontade. Mas eis que o senhor A.F., compositor muito conhecido, acaba de obter do Espírito Beethoven, por intermédio de um médium, um cântico espírita digno por completo do autor, e que em breve será divulgado. Os espíritas possuirão, finalmente, uma invocação musical em harmonia com as suas ideias e as suas aspirações.


– Influência da música sobre todos os seres
– A canção e o povo
– O Esteta, a sua personalidade

Em toda a obra pretendida – literatura, poesia, arte –, a escolha dos meios deve ser apropriada à grandeza do objectivo.

Na verdade, a poesia está em toda a parte onde a colocamos. Ela não se exprime somente pelo verso; ela pode impregnar todas as formas da linguagem escrita ou falada, todos os aspectos da arte. A poesia é a expressão da beleza propagada em todo o Universo. É o ardor comunicativo da alma que compreendeu, alcançado o sentido profundo das coisas, a lei das supremas harmonias e que busca penetrá-la nas outras almas, pelos meios que lhe são próprios.

Todos os seres são sensíveis à música. Até os animais recebem a sua influência. Conhece-se a lenda de Orfeu, atraindo com a sua lira e agrupando, à volta dele, as feras da floresta. Os próprios insectos sentem as vibrações. Quando me ponho ao piano, as moscas voam em torno de mim de uma forma particular.

O poder da música também se demonstra pela influência da canção sobre o povo. Ela é a companheira do trabalho, o apoio do esforço paciente e repetido, a alegria do lar, porque exalta as forças e os sentimentos do ser humano. Portanto, a canção também poderia ser um meio de elevação, porém, nós já vimos, nos nossos dias a canção arrasta-se, muito frequentemente, em terreno lamacento e perde todo o carácter regenerador.

As duas últimas lições de o Esteta, que se encontrarão mais adiante, nos levam em direcção às serenas alturas da arte. Elas terminam a série de comunicações que recebemos desse grande espírito, do qual conhecemos agora a personalidade.

Ele foi um dos mais eminentes artistas da Renascença italiana, ao mesmo tempo arquitecto, pintor e escultor. A música também não lhe foi estranha. Hoje ele vive nas esferas superiores onde o Belo e o Bem reinam sem reservas; nelas ele procura a realização das suas grandiosas concepções. Os nossos guias dizem-nos que devemos considerar como um favor único a participação de o Esteta nos nossos trabalhos, assim, queremos expressar-lhe toda a nossa gratidão, bem como ao poder soberano que permitiu tal intervenção.

Em breve, falaremos sobre música e daremos as lições do Espírito Massenet consagradas mais especialmente a essa grande arte. Graças a essas lições, um raio de luz da vida celeste penetrou na nossa obscuridade e as nossas débeis tentativas humanas adquiriram mais relevo e mais amplidão.

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(i) Dante Alighieri: poeta italiano (Florença, 1265 - Ravena, 1321). Compôs sonetos amorosos e canções que expressavam a sua paixão platónica por Beatrice Portinari. Autor da Divina Comédia, é considerado o pai da poesia italiana. (N.T., segundo o D.K.L.)
(ii) Romança: composição, em geral curta, para canto e piano, de cunho sentimental ou patético, típica do século XIX. (N.T.)
(iii) Canção: texto colocado em música, frequentemente dividido em quadras e refrão, destinado a ser cantado. (N.T.)




LÉON DENIS, O Espiritismo na Arte, Parte V – Participação do mundo espiritual na obra humana / Espiritismo, novo e vigoroso impulso ao pensamento – A poesia
/ A música, o seu papel na inspiração profética e religiosa / Influência da música sobre todos os seres / A canção e o povo / O Esteta, a sua personalidade (2 de 4) 21º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Mona Lisa 1503-1507 – Louvre, pintura de Leonardo da Vinci)