Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

segunda-feira, 20 de março de 2017

agonia das religiões ~


a experiência de | Deus

Sacerdotes e pastores, homens de fé, sinceros e bons procuraram demonstrar-me que as religiões não estão em crise. Sustentaram que a crise é do homem e não das instituições religiosas. As religiões continuam vivas e actuantes no coração dos crentes – disseram – os homens mundanos, que se entregam à loucura do século, conturbam a paisagem terrena. É necessário que os homens busquem a Deus, que tenham a experiência de Deus. E essa experiência só é possível quando o homem se desligar do mundo para ligar-se a Deus através da oração e da meditação. Falaram de milhares de pessoas que, no torvelinho da vida contemporânea, procuram todos os dias, a horas certas, o refúgio dos templos ou de um quarto solitário para tentar um encontro pessoal com Deus. Muitas dessas pessoas já conseguiram a audiência secreta com o Todo Poderoso. São criaturas felizes, iluminadas pela graça divina, que sustentam com a sua fé inabalável a continuidade das religiões e garantem a sua expansão.

É bom que existam pessoas assim, dedicadas vestais que zelam pelo fogo sagrado. São os últimos abencerrages do formalismo religioso, flores de estufa cultivadas na penumbra das naves sagradas. Cuidam da fé como jardineiros especializados que cultivam uma espécie vegetal extremamente delicada. Acreditam que os seus canteiros floridos darão sementes para semeaduras ilimitadas por toda a superfície da terra. Não percebem essas almas eleitas que cultivam exclusivamente a si mesmas, ocultam na aparência piedosa os seus conflitos profundos e nada mais fazem do que fugir da realidade escaldante da vida. Não escondem a cabeça na areia, pois mergulham de corpo inteiro no sonho egoísta da salvação pessoal.

As práticas místicas do passado provaram mal a sua eficácia. De Oriente a Ocidente, multidões de gerações de crentes desfilaram sem cessar, através dos milénios, pelos templos de todas as religiões convictas de haverem alcançado a salvação pessoal, enquanto hordas ferozes e exércitos em guerras de extermínio brutal cobriam o mundo de ruínas, cadáveres inocentes, sangue e lágrimas. Os que ouviram Deus em audiência particular não se recusaram a pegar em armas para estraçalhar os seus irmãos considerados como réprobos e infiéis. Santos Bispos e Padres, pastores calvinistas, crentes populares, fidelíssimos e humildes, não acenderam as suas lâmpadas votivas para iluminar as noites das trevas. Preferiram acender fogueiras inquisitórias e, quando o sol raiava, submeter piedosamente os hereges à morte redentora do garrote vil, réplica religiosa à guilhotina profana. 

Lembro-me do episódio histórico de Jerónimo de Praga. Depois de haver assistido, pelas grades da prisão, ao seu mestre Jan Hus ser queimado vivo em praça pública, foi também glorificado com a graça especial de uma fogueira semelhante. No momento em que as chamas começavam a iluminar a sua figura estranha, caridosamente amarrada ao palanque do suplício (para salvação de sua alma rebelde) viu uma pobre velhinha aproximar-se da fogueira com uma acha de lenha e atirá-la ao fogo. Era a sua contribuição piedosa para a salvação do ímpio. Jerónimo exclamou apenas: “Santa simplicidade.” Pouco depois estava reduzido a cinzas, para glória de Deus, e as suas cinzas foram lançadas ritualmente nas águas do Reno.

Todas as formas de culto, todos os ritos, todos os sacramentos, todas as cerimónias religiosas, todos os cilícios foram empregados nos milénios sombrios do fanatismo religioso, para a salvação da Humanidade. E eis que agora chegamos a um tempo de descrença generalizada, de materialismo e ateísmo oficializados, de hipocrisia pragmática erigida em sustentáculo das religiões fracassadas. Deus falava directamente com o seu servo Moisés no deserto, falava-lhe cara a cara, ordenando matanças colectivas, genocídios tenebrosos, destruição total dos povos que impediam o acesso dos hebreus à terra dos cananeus, que seria tomada a fio de espada. Deus continua falando em particular a seus servos nos nossos dias, para a sustentação das igrejas, enquanto o Diabo não perde tempo e alicia milhões de almas perdidas para as práticas do terrorismo, para a matança de crianças e criaturas inocentes, para assaltos e estupros em toda a face da Terra.

A experiência de Deus sustenta os crentes privilegiados e sustenta as suas igrejas salvacionistas. E enquanto não chega a salvação, católicos e protestantes matam-se gloriosamente nas lutas fratricidas da Irlanda, em plena era das mais brilhantes conquistas da inteligência humana. Que estranha experiência é esta, que não revela os seus frutos, que não prova a sua eficácia? Deus estaria, acaso, demasiado velho para não perceber a inutilidade dos seus métodos de salvação pessoal em audiências privadas? E os seus servidores, os clérigos investidos de autoridade divina para implantar na Terra o Reino do Céu, porque não avisam o velho monarca da inutilidade milenarmente provada de sua técnica de conta-gotas?

Não seria mais certo tentarmos a revisão dos conceitos religiosos que nos deram a herança de tantos fracassos e tão espantosa expansão do materialismo e do ateísmo no mundo? Todas as grandes religiões afirmam a omnipresença de Deus no Universo. Não obstante, todas consideram o mundo (criado por Deus) como profano, região em que as trevas dominam e o Diabo faz a incessante caçada das almas de Deus. É curioso lembrar que nos tempos mitológicos o mundo era considerado sagrado, a vida uma bênção, os prazeres naturais e as leis da procriação eram graças concedidas pelos deuses aos homens. O monoteísmo judaico, desenvolvido pelo Cristianismo, impregnou o mundo com a omnipresença de Deus e o mundo se tornou profano. Se Deus está presente num grão de areia, numa guia de relva, num fio dos nossos cabelos e numa pena das asas de um pássaro, como, apesar dessa impregnação divina, o homem se defronta com a impureza do mundo? Por que estranho motivo necessitamos de ritos especiais para purificar a inocência de uma criança, se Deus está presente no seu olhar puro e límpido, no seu choro, na meiguice do seu pequeno rosto ainda não marcado pelo fogo das paixões terrenas? E porque precisa o cadáver de recomendação, com aspersão de água benta, se a ressurreição dos mortos se faz, como ensina o Apóstolo Paulo na I Epistola aos Coríntios e como Jesus exemplificou na sua própria morte, no corpo espiritual e não no corpo material?

São estes e outros muitos problemas acumulados nos erros milenares dos teólogos que levam o homem contemporâneo à descrença e ao materialismo, ao ateísmo e ao niilismo. São todos estes erros que colocam as religiões em crise e as levarão à morte sem ressurreição. Considerando-se, porém, este estranho panorama religioso da Terra numa perspectiva histórica, à luz da razão, compreende-se facilmente que os erros de ontem, até hoje sustentados pelas religiões, foram úteis e necessários nos tempos de ignorância, em que os problemas espirituais não podiam ser colocados em termos racionais. Há justificativas válidas para o passado religioso, mas não justificativas possíveis para o seu presente contraditório e absurdo. A tese, mais do que absurda, do Cristianismo Ateu, com que teólogos rebeldes procuram hoje remendar as vestes esfarrapadas das igrejas, só vem acrescentar maior confusão ao momento de agonia das religiões envelhecidas.

O problema da experiência de Deus poderia ser resolvido com um mínimo de reflexão. Se Deus está em nós, e por isso somos deuses em potência, segundo a própria expressão evangélica, porque necessitamos de uma busca artificial de Deus para termos a experiência da sua realidade? Se fomos criados por Deus e se Deus pôs em nós a sua marca, como afirmou Descartes – a ideia de Deus em nós, que é inata – já não trazemos, ao nascer, a experiência de Deus? E se, no desenvolver da vida humana, o homem nada mais faz do que cumprir um desígnio de Deus, assistido pelos Anjos Guardiães, porque tem ele de buscar a Deus através de uma prática artificial e egoísta, procurando preservar-se sozinho num mundo em que a maioria se perde irremediavelmente? Moisés supunha ter ouvido o próprio Deus no Sinai, mas o Apóstolo Paulo explicou que Deus lhe falara através de mensageiros, que são anjos. As pessoas que buscam hoje a experiência de Deus em audiência privada serão mais dignas do que Moisés, não estarão sujeitas a ouvir a voz de um anjo, que tanto pode ser bom quanto mau, pois as próprias igrejas admitem que os anjos decaídos andam à solta pela Terra procurando roubar para o Inferno as almas de Deus? Quem estará livre, na sua piedosa tarefa de salvar-se a si mesmo, de ser tentado pelo Diabo, que tentou o próprio Jesus nas suas meditações solitárias no Deserto?

As práticas místicas do passado não servem para a era da razão, em que nos encontramos na antevéspera da era do espírito. Orar e meditar é evidentemente um exercício religioso respeitável e necessário em todos os tempos. A oração liga-nos aos planos superiores do espírito e a meditação sobre questões elevadas desenvolve a nossa capacidade de compreensão espiritual. Mas o dogma da experiência de Deus através de um pretensioso colóquio directo e pessoal com a Divindade é uma proposição egoísta e vaidosa. Se Deus é o Absoluto e nós somos relativos, a humildade não nos aconselha a ter mais cautela nas nossas relações pessoais com a Divindade? São muitos os casos de perturbações mentais, de obsessões perigosas, de lamentáveis desequilíbrios psíquicos decorrentes de exageradas pretensões das criaturas humanas no campo das práticas religiosas. A História das Religiões é marcada por terríveis experiências nesse sentido. Basta lembrarmos os casos de perturbações colectivas em conventos e mosteiros da Idade Média, onde os excessos de misticismo transformaram criaturas piedosas em vítimas de si mesmas, sujeitando-as não raro à própria condenação da igreja a que pertenciam e a que procuravam servir.

Os dogmas de fé, que formam a estrutura conceptual das igrejas, são as pedras de tropeço do seu caminho evolutivo. Partindo do princípio de que a Revelação Divina é a própria palavra de Deus dirigida aos homens, as igrejas se anquilosaram nos seus dogmas intocáveis, pois a exegese humana não poderia alterar as ordenações ao próprio Deus. Na verdade, a alteração se verificou em vários casos, apesar disso, mas decisões conciliares puseram a última pá de cimento nos erros cometidos. As estruturas eclesiásticas tornaram-se rígidas e as igrejas confirmaram, no seu espírito, a ossatura de pedra de suas catedrais. Vangloriam-se ainda hoje da sua imutabilidade, num mundo em que tudo evolui sem cessar. Os resultados dessa atitude ilusória e pretensiosa só poderiam ser nefastos, como vemos actualmente no lento e doloroso processo de agonia das religiões. Incidiram assim no pecado do apego, contra o qual os Evangelhos advertiam os homens. Apegaram-se de tal maneira à própria vida, que perderam a vida em abundância que Jesus prometeu aos que se desapegassem. As liberalidades actuais chegaram demasiado tarde.

A palavra dogma é grega e o seu sentido original é opinião. Adquiriu em filosofia e religião o sentido de princípio doutrinário. Nas Escrituras religiosas aparece algumas vezes com o sentido de édito ou decreto de autoridades judaicas ou romanas. Entre o dogma religioso e o filosófico há uma diferença fundamental. O dogma religioso é de fé, princípio de fé que não pode ser contraditado, pois provém da Revelação de Deus. O dogma filosófico é racional, dogma de razão, ou seja, princípio de uma doutrina racionalmente estruturada. O sentido religioso superou os demais por motivo das consequências muitas vezes desastrosas da sua rigidez e imutabilidade. Se falarmos, por exemplo, em dogmática, esse termo é geralmente entendido como designando a estrutura dos dogmas fundamentais de uma religião. Por isso, a adjectivação de dogmática, que implica também o masculino, como expressões: pessoa dogmática, posição dogmática ou homem dogmático, significa intransigência de opiniões. O mesmo acontece com o substantivo dogmatismo, que designa um sistema de opiniões intransigentes.

Estas influências religiosas na semântica revelam a intensidade da rigidez a que as igrejas se entregaram, através dos séculos e dos milénios, na defesa da suposta eternidade de seus princípios básicos. Temos, portanto, no dogma de fé, um dos motivos fundamentais da crise das religiões nos nossos dias. No Espiritismo, como em todas as doutrinas filosóficas, existem dogmas de razão, como o da existência de Deus, o da reencarnação, o da comunicabilidade dos espíritos após a morte. Muitos adeptos estranham a presença dessa palavra nos textos de uma doutrina que se afirma antidogmática, aberta ao livre exame de todos os seus princípios. São pessoas ainda apegadas ao sentido religioso da palavra. Não há nenhuma razão para essa estranheza, como já vimos, do ponto de vista cultural.

O problema da religião no Espiritismo tem provocado discussões e controvérsias infindáveis, porque essa doutrina não se apresenta como religião no sentido comum do termo. Allan Kardec, discípulo de Pestalozzi, adoptava a posição do seu mestre no tocante à classificação das religiões. Pestalozzi admitia a existência de três tipos de religião: a animal ou primitiva, a social e a espiritual. Mas recusava-se a chamar esta última de religião, dando-lhe a designação de moralidade. Isso porque a religião superior ou espiritual, segundo ele, só era professada individualmente pela criatura que superava o ser social e desenvolvia em si o ser moral. Kardec recusou-se a falar em Religião Espírita, sustentando que o Espiritismo é doutrina científica e filosófica, de consequências morais. Mas deu a essas consequências enorme importância ao considerar o Espiritismo como o desenvolvimento histórico do Cristianismo, destinado a restabelecer a verdade dos princípios cristãos, deformados pelo processo natural de sincretismo-religioso que originou as igrejas cristãs.

Essa posição espírita manteve a doutrina e o movimento doutrinário em posição marginal no campo religioso. Para os espíritas, entretanto, a posição da doutrina não é marginal, mas superior, pois o Espiritismo representaria o cumprimento da profecia evangélica da Religião em espírito e verdade, que se desenvolveria sob a égide do próprio Cristo. A religião espírita não se organizou em forma de igreja, não admite sacramentos nem admitiu nenhuma forma de autoridade religiosa de tipo sacerdotal. Não há baptismo, nem casamento religioso no Espiritismo, nem confissões ou indulgências. Todos esses formalismos são considerados como de origem pagã e judaica. Entende-se o baptismo como rito de iniciação, que Jesus substituiu pelo baptismo do espírito, sendo este considerado como a iniciação no conhecimento doutrinário, feita naturalmente pelo estudo da doutrina, sem nenhum acto ritual. Admite-se também que o baptismo do espírito, segundo o texto do Livro de Actos dos Apóstolos sobre a visita de Pedro à casa do centurião Cornélius, no porto de Jope, pode completar-se, nos médiuns, quando se verifica espontaneamente, com o desenvolvimento da mediunidade.

Essa posição espírita no campo religioso causou numerosas dificuldades aos espíritas no tocante às relações de instituições doutrinárias com os poderes oficiais, particularmente para a declaração de religião em documentos oficiais, para o resguardo dos direitos escolares em face do ensino religioso, para a declaração de religião nos recenseamentos da população, até que medidas oficiais reconheceram esses direitos. Em compensação, o Espiritismo ficou livre das consequências da crise religiosa, que não o atingiram. Demonstrarei nos capítulos seguintes a posição da Religião Espírita em face dessa crise, que é evidentemente uma posição de vanguarda. A sua contribuição para a racionalização dos princípios religiosos, para a reintegração da Religião no plano cultural, particularmente no tocante aos problemas científicos da actualidade, é realmente substancial. No campo filosófico a posição espírita é também vanguardeira, pois desde o século passado a sua filosofia se apresenta como livre dos prejuízos do espírito de sistema, conservando-se aberta a todas as renovações que decorrem de descobertas cientificamente comprovadas. Livre da dogmática religiosa e da sistemática filosófica, apoiada inteiramente na pesquisa científica, a doutrina está de facto a cavaleiro nas crises da actualidade.

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José Herculano Pires, Agonia das Religiões / Capítulo 3 – A Experiência de Deus, 4º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Paraíso Perdido, estudo do Anjo, lápis e giz de Alexandre Cabanel)

sábado, 11 de março de 2017

~ em torno do mestre


Educar

Na maneira de conduzir a obra da educação, está a chave do problema cuja solução o momento actual da Humanidade reclama.

Não há duas correntes de opinião, quanto ao valor da educação. Todos a reconhecem e a proclamam como medida salvadora. Porém, há divergência no que respeita ao modo de educar. Existem dois processos de educação: um falso, que mascara a ignorância; outro, verdadeiro, que realmente conduz ao saber. Um, que age de fora para dentro, outro que actua de dentro para fora. Um, artificial, ora maquiavelicamente (i) empregado para confundir; outro, natural, cujo alvo é esclarecer, libertar e aperfeiçoar o homem.

O ensino por autoridade, impondo princípios e doutrinas, avilta o carácter e neutraliza as melhores possibilidades individuais. Cria a domesticidade e a escravatura espiritual, regímen ignóbil onde se estiolam as mais nobres aspirações e onde se oficializam a hipocrisia, o vício e o crime.

O ensino por autoridade é a educação às avessas: oblitera a mente, ofusca a inteligência, ensombra a razão, atrofia a vontade, mecaniza e cristaliza a alma do educando.

O ensino que se funda no processo de despertar os poderes latentes do Espírito é o único que realmente encerra e resolve o problema da educação.

Baseando-se o ensino no apelo constante à razão e ao bom senso, gera-se a confiança própria, estimula-se a vontade, esclarece-se a mente — numa palavra — consegue-se que o educando faça a independência própria em todo o terreno, o que representa a verdadeira nobreza de carácter.

A educação, segundo o processo natural, conduz fatalmente o educando à liberdade, faz dele um homem que pensa, sente e age por conta própria. O educando, orientado como deve de ser, não será um repositório de conhecimentos acumulados na memória; há de ser um poder aquisitivo capaz de se enfronhar prontamente em qualquer assunto ou matéria consoante requeiram as necessidades do momento. Nada o embaraçará, nenhuma pedra de tropeço o mobilizará no carreiro da vida. Não sendo um armazém de teorias e de regras estreitas hauridas de oitiva, é uma potência dinâmica capaz de penetrar todos os meandros do saber e de solucionar os mais intrincados problemas da vida, desde que a questão o afecte e lhe desperte interesse.

A educação normal cria capacidades, enquanto que a artificial gera marionetas que vivem a repetir o que ouvem, sem consciência do que fazem. Tais indivíduos são sempre dependentes, imitadores vulgares, parasitas, estratificados.

A educação real organiza sociedades dignas, onde a ciência, a filosofia, a moral e as artes vicejam francamente sob atmosfera favorável; onde há campo vasto para todas as actividades do Espírito e onde todas as aspirações elevadas da alma encontram possibilidades de realização.

A falsa educação promove conglomerados amorfos de indivíduos incapazes, medíocres em tudo, verdadeiros rebanhos que se agitam monotonamente ao sinal do cajado que os tange segundo alheios caprichos.

A educação, tal como deve de ser, prepara o indivíduo para a vida como realmente ela é: para os destinos altaneiros que Deus concebeu e tracejou para o Espírito. A educação falsa amolda o indivíduo ao sabor de outrem, prepara-o para certas escolas político-sociais ou para servir a determinadas organizações sectárias. Em quaisquer desses meios, a liberdade é um mito em que muito se fala para iludir a boa fé alheia, e onde a escravidão é um facto com todo o seu cortejo de ignomínias.

A submissão incondicional à autoridade, como base de ensino, é ultraje à dignidade humana contra o qual se revolta o nosso século. A geração nova, que ora desponta, jamais poderá tolerá-la, em que pese aos reaccionários e ultramontanos (i) de todos os matizes e calibres.

É tempo de se estabelecer a verdade neste particular de tão subida importância. É preciso salvar o mundo, apontando os meios conducentes à realização desse ideal de amor.

A missão do Espiritismo é educar para salvar. Enquanto este facto não penetrar a mente e o coração da maioria dos espíritas, a luz não estará no velador, e o Paracleto (i) ver-se-á embaraçado na tarefa de reivindicar os direitos do divino Redentor, restaurando o Cristianismo de Jesus, desse Jesus que foi mestre, teve discípulos e proclamou a liberdade do homem mediante a educação racional do Espírito.

Educar: eis o rumo a seguir, o programa do momento.


Jesus, o Mestre

Jesus curou cegos de nascença, surdos-mudos, epilépticos, hidrópicos, doidos e lunáticos, paralíticos, reumáticos e leprosos; sarou, finalmente, enfermos de toda a casta que a ele recorreram em busca do maior bem temporal — a saúde. No entanto, jamais o Senhor pretendeu que o dissessem médico, ou clínico.

Jesus frequentava o templo e as sinagogas onde atendia aos sofredores e ensinava ao povo as verdades eternas, mas nunca se inculcou levita  ou sacerdote.

Jesus predisse com pormenores e particularidades o cerco, a queda e a ruína de Jerusalém; como essa, fez várias outras profecias de alta relevância. Penetrava o íntimo dos homens, devassando-lhes os arcanos mais secretos, porém não consta que pretendesse as prerrogativas de vidente ou de profeta.

Jesus realizou maravilhas, tais como: alimentar mais de cinco mil pessoas com três pães e dois peixes; acalmar a tempestade, impondo inconcebível autoridade às ondas revoltas do oceano. Ressuscitou a filha de Jairo, o filho da viúva de Naim e, também, Lázaro, sendo que este último já estava sepultado havia quatro dias. Transformou a água em vinho nas bodas de Cana da Galileia, e muitos outros prodígios operou não pretendendo, apesar disso que o considerassem milagreiro ou taumaturgo.

Jesus aclarava as páginas escriturísticas, fazendo realçar da letra que mata o espírito que vivifica, mas não se apresentou como exegeta ou, ministro da palavra.

O único título que Jesus reclamou para si, fizesse jus às mais excelentes denominações honoríficas que possamos imaginar, foi o de “mestre”. Esse o título por ele reivindicado, porque realmente Jesus é o Mestre excelso, o Educador incomparável.

A sua fé na obra da redenção humana, mediante o poder incoercível da educação, acordando as energias espirituais, é inabalável, é absoluta. Tão firme é a crença na regeneração dos pecadores, na renovação da nossa vida, que por esse ideal se ofereceu em holocausto.

Educar é redimir (i). O Filho de Deus deu-se em sacrifício pela causa da liberdade humana. A cruz plantada no cimo do Calvário não representa somente a sublime tragédia do amor divino: representa também o símbolo, o atestado da fé viva que Jesus tem na transformação dos corações, na conversão das nossas almas. "Quando eu for levantado no madeiro, atrairei todos a mim..." assegurou ele. Todos, notemos bem; não uma parcela mas a totalidade. Vemos por aí como é radical a sua confiança, a sua crença na reabilitação dos culpados, através da educação.

Sim da educação, dizemos bem, porque só um título Jesus reclamou, chamando-o a si, e o fez sem rodeios sem rebuços, nem perífrases, antes com a máxima franqueza e toda a ênfase: o título de mestre. Dirigindo-se aos seus discípulos, advertiu-os desta maneira: "Um só é o vosso mestre, a saber — o Cristo Portanto, a ninguém mais chameis mestre senão a mim". (Mateus, 23:8.)

Jesus rejeitou o ceptro, o trono, a realeza, alegando que o seu reino não é deste mundo. Dispensando igualmente, a glória e as honras terrenas; um só brasão fez questão de ostentar: ser mestre, ser educador. É significativo!

"Eu sou a luz do mundo, sou a verdade, sou o pão que desceu do céu" — proclamou o Senhor. Esparzir Luzes revelar a verdade, distribuir o pão do Espírito — tal a obra da educação, tal a missão do Redentor da Humanidade.

Que dúvida poderá restar a nós, neo-cristãos, sobre o rumo que deve tomar a nossa actividade, uma vez que o advento do Espiritismo é o do Consolador prometido? Que outra forma poderemos dar ao nosso trabalho, que seja tão eficaz, tão profícua e benéfica à renovação social, como aquela que se prende à educação, no seu sentido lato e amplo?

Trabalhemos, pois, com ardor e entusiasmo pela causa da educação da Humanidade, começando pela infância e pela juventude desta terra de Santa Cruz.
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"Aos que comigo crêem e sentem as revelações do Céu, comprazendo-se em sua doce e encantadora magia, dedico esta obra" Pedro de Camargo “Vinícius”


Pedro de Camargo “Vinícius” (i), Em torno do Mestre, Primeira Parte / Seixos e Gravetos, – Educar, – Jesus, o Mestre, 1º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Pedro de Camargo “Vinícius”, o homem)

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

O Espiritismo na Arte ~


Parte IX

Segunda lição de o Espírito Massenet

– Ser espiritual: meios de alcançar a esfera musical desejada

(Outubro de 1922)

“Hoje falaremos não do instrumento supra-terrestre, como o fizemos, mas da forma como o ser desencarnado (i) se pode afastar da Terra e penetrar nas esferas etéreas onde as harmonias do espaço se tornarão mais perceptíveis para ele. Tomemos, por exemplo, um ser desencarnado, de uma educação espiritual média, resultante dos seus trabalhos anteriormente realizados e do seu grau de fé.

No início da sua vida no espaço, o ser desencarnado deverá familiarizar-se com o seu novo estado, e ele chegará a despertar em si a lembrança das harmonias que percebeu nas suas existências anteriores. Ele sentirá o desejo de se retemperar nesses fluidos harmónicos; mas, sob o ponto de vista latente, ele não pode saber imediatamente quais os meios para atingir a esfera a que o seu espírito aspira subir. Os seus guias (i), mais elevados que ele, o intuirão e farão vibrar o seu perispírito (i) de uma maneira graduada, a fim de que ele não seja perturbado.

Assim se estabelecerá o que chamamos harmonia, e toda a dissonância desaparecerá entre ele e a esfera musical em que deseja penetrar. Quando, na Terra, ouvis um instrumento imperfeito, se ele não está afinado, os vossos pobres órgãos ficam aturdidos; acontece o mesmo na vida do Além. Os guias impressionam o perispírito do desencarnado, a fim de obter uma adaptação mais completa.

Eis então o nosso ser, tomado como exemplo, preparado para receber ondas musicais. À medida que as suas próprias radiações se ligam melhor às irradiações harmónicas do espaço, aumenta o seu desejo de se elevar ainda mais alto em direcção à fonte de eterna beleza. Livre de toda a influência grosseira, ele vai subir, com os seus guias, para as regiões superiores, celebrando com eles a glória do Altíssimo.

Os fluidos materiais volatilizam-se, o perispírito torna-se mais luminoso, as radiações mais intensas, mais subtis, e a sua evolução é facilitada. O espírito vai subir como sobem os balões sobre o vosso globo.

Penetrando as altas regiões do espaço, o ser espiritual experimenta inicialmente uma sensação de suavidade, uma espécie de dilatação, de arrebatamento; depois, as emanações fluídicas que se desprendem do perispírito entram em contacto com outros feixes de emanações; daí uma espécie de desligamento fluídico entre dois feixes de uma subtileza mais ou menos igual, mas de natureza diferente. Vós não podeis imaginar a impressão experimentada pelo ser fluídico: já não são sensações de bem-estar, de contentamento, mas uma espécie de acalentamento, de ondulação, acompanhados de uma sensação especial, que determina um estado emotivo, uma espécie de êxtase. As vibrações sentidas nesse estado formam o que vós chamais de tonalidades; elas são produzidas pelo atrito entre camadas fluídicas.

Mais alto do que essas esferas harmónicas, existem outras regiões que ainda não podemos atingir e onde residem seres superiores, criadores de uma música sublime, que nos é transmitida por correntes fluídicas especiais. Nós não percebemos os seres que a produzem, no entanto ela chega-nos por correntes condutoras de uma natureza subtil. Um guia esclareceu-me que os seres que produzem as ondas dessa música celeste são quase perfeitos e possuem uma parcela do talento divino.”


Terceira lição de o Espírito Massenet (i)

– As vibrações sonoras nos espaços etéreos

(Outubro de 1922)

“Vós sabeis como se formam as vibrações. O espírito, transportado na esfera vibratória, encontra-se envolvido por uma rede de ondas sonoras cujos elementos são constituídos por seres superiores. O que este sente? Sente uma impressão comparável àquela que sentis ao ouvir uma tónica (ii) em música. Quanto mais as ondas do campo vibratório são desenvolvidas em velocidade e em comprimento, mais a impressão sentida pelo perispírito é viva, penetrante e comparável, em termos humanos, à impressão que nos proporcionam os sons agudos.

Temos, então, de um lado a tónica e de outro o som agudo. Se, no campo vibratório, as ondas variam em velocidade e intensidade, a amplitude do som variará e esse som parte de um ponto inicial, comparável à tónica. Esse ponto inicial compreende uma certa onda vibratória, e eu não posso mensurá-la. Eis uma comparação: os vossos fonógrafos (iii) emitem sons onde, além da sonoridade produzida pelo instrumento, se aproximardes o ouvido do seu pavilhão, sentireis um calor mais ou menos intenso, segundo a elevação do tom. Pois bem, o ser desencarnado não sente calor, mas sensações mais ou menos deliciosas, de acordo com a maior ou menor velocidade e com a maior ou menor duração da onda.

As radiações que atingem o perispírito são coloridas de tons infinitamente variados. Cada cor tem uma propriedade particular, que dá uma sensação de bem-estar, de satisfação, que difere segundo a pureza, a homogeneidade de cada tom. É preciso, então, levar em conta, de um lado, a qualidade das ondas, isto é, da sua coloração; de outro lado, a sua velocidade, a sua duração, as diversas fases dos seus meandros. Tudo isso provoca, no ser desencarnado, fenómenos incomparáveis e infinitamente variáveis, porque, quanto mais o espírito é evoluído, mais diversas são as ondas que ele percebe, assim como as cores, que exprimem os sentimentos. Tomemos como exemplo o azul, que representa os sentimentos mais elevados sob o ponto de vista afectivo; uma onda azul nos dará vibrações que serão, para o vosso ser, como um banho de amor. O vermelho, nas mesmas condições, representa a paixão. O amarelo será intermediário. O rosa, que é uma mistura de amarelo com vermelho, vos dará um amor menos intenso, porém mais constante. Assim, com essas cores fundamentais, podeis formar uma gama de tonalidades que dão, por correspondência, vibrações de todos os sentimentos humanos e sobre-humanos.

Se o ser desencarnado ainda é pouco evoluído, mas tem o desejo de se impregnar de sentimentos belos, os seus guias o conduzirão para esferas animadas por seres angélicos. Quando o ser desencarnado é muito evoluído, ele colhe, nas mesmas esferas, satisfações em que o amor e a paixão virão impregnar o seu ser, e é por isso que, de regresso à vossa Terra, os seres que amam a música se lembram intuitivamente das estadas mais ou menos longas que fizeram no espaço, em um campo de ondas musicais.

A música celeste não é produzida por fricções de arco sobre cordas: tudo é fluídico, tudo é espiritual, tudo é inspirado pelo pensamento de Deus.”


– Comentários

Sobre a Terra, a gama de sons, tal como a concebemos, é apenas uma relação de sensibilidade que nada tem de absoluto. Compreende-se muito bem que existe uma relação entre as ondas sonoras e as ondas luminosas, mas esta relação escapa a muitos observadores e sensitivos, porque as percepções são muito diversas nos seus graus de intensidade; sendo as vibrações luminosas incomparavelmente mais rápidas que as vibrações sonoras.

No entanto, para o espírito cujas percepções são muito mais possantes e mais extensas, a relação é mais estreita do que para nós, e a sensação se unifica; temos um exemplo disso na diferença que se estabelece entre as notas baixas, que correspondem às cores mais escuras, e os sons agudos, que correspondem às intensidades mais vivas. (iv)

A inteligência, que percebe e resume todos os efeitos e todas as formas da substância eterna, abrange todas as vibrações, e ela mesma vibra sem preocupações com distâncias e ritmos através do infinito.

Também é fácil para nós compreender como, na vida espiritual, os prazeres estéticos são correlativos ao grau de evolução dos seres. Todos nós temos, na Terra, o mesmo órgão auditivo, no entanto que diferença de sensações experimentadas pelos ouvintes de uma sinfonia, conforme o seu grau de cultura ou a sua elevação psíquica!

As formas e as imagens produzidas pelas vibrações sonoras nos espaços etéreos, das quais nos fala o Espírito Massenet, também nos parecem ser manifestações do pensamento ordenador que concebeu e dirige o Universo. A música celeste poderia representar a própria vibração da alma divina. Eis por que quanto mais o espírito evolui e se depura, mais se torna apto a compreender, a sentir a beleza e a harmonia eterna do mundo.

/…
(ii) Tónica: primeira nota da gama, de um dado tom; aquela que começa um trecho de música e lhe dá o seu nome. Ex.: fá maior. (N.T., segundo o Dictionnaire Le Robert de la Langue Française.)
(iii) Fonógrafo: antigo aparelho destinado a reproduzir sons gravados em cilindros ou discos metálicos; aparelho que reproduz os sons gravados em discos sob a forma de sulcos espiralados; gramofone. (N.T., segundo o Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa.)
(iv) A esse respeito, citarei as palavras pronunciadas pelo Sr. Deslandres, director do Observatório de Meudon (i), no seu discurso na sessão anual do Instituto, no dia 25 de Outubro de 1921: “Actualmente, as vibrações e ondas do éter, bem reconhecidas e classificadas, formam cerca de 50 oitavas. O campo de estudo é muito mais extenso do que para os sons perceptíveis ao ouvido, que formam, no máximo, 10 oitavas, reduzidas a sete nos instrumentos de música. Essas 50 oitavas são repartidas em três grupos principais, que são: o grupo da radiotelegrafia, o grupo ligado à luz e o grupo dos raios X. Em geral, eles são classificados por ordem de frequência, como num grande piano. À esquerda, do lado das baixas frequências e dos sons graves, estão as ondas da telegrafia sem fio, que asseguram as comunicações terrestres a grande distância. Ao centro, tem-se a oitava luminosa e as oitavas vizinhas que transportam calor e luz, que nos fazem conhecer o horizonte do local, o Sol e as estrelas, que impressionam as placas fotográficas e servem para depurar as águas. Enfim, à direita, do lado das altas frequências e dos sons agudos, estão os raios X, que têm propriedades eléctricas notáveis, que nos fazem descortinar as partes mais escondidas dos corpos vivos e a estrutura íntima dos átomos. Deve observar-se também que sobre essas 50 oitavas, só uma, colocada próxima ao meio, é percebida directamente por um dos nossos sentidos: é a oitava que contém os raios luminosos do vermelho ao violeta.” (N.A.)


LÉON DENIS, O Espiritismo na Arte, Parte IX – Segunda lição de o Espírito Massenet: Ser espiritual: meios de alcançar a esfera musical desejada – Terceira lição de o Espírito Massenet: As vibrações sonoras nos espaços etéreos – Comentários, 27º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: O Concerto dos Anjos (1897), óleo sobre tela de Edgard Maxence)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Da sombra do dogma à luz da razão ~


Existência de Deus

  Sendo Deus a Causa primeira de todas a coisas, o ponto de partida de tudo, o eixo sobre que assenta o edifício da Criação, é o ponto que importa considerar antes de tudo.

  É um princípio elementar que se avalia uma causa pelos seus efeitos, mesmo quando não se vislumbra a causa.

  Se um pássaro cortando o ar é atingido com chumbo mortal, julgamos que um hábil atirador o feriu, apesar de não vermos o atirador. Portanto, nem sempre é necessário ter-se visto uma coisa para sabermos que existe. Em tudo, é ao observar os efeitos que chegamos ao conhecimento das causas.

  Um outro princípio igualmente elementar passou ao estado de axioma à força de verdadeiro: que qualquer efeito inteligente deve ter uma causa inteligente.

  Se perguntássemos quem é o engenheiro de um tal engenhoso mecanismo, que pensaríamos de quem respondesse que este se tinha feito sozinho? Quando vemos uma obra-prima da arte ou da indústria, dizemos que deve ser produto de um homem de génio, porque uma elevada inteligência deve ter presidido à sua concepção; calculamos todavia que deve ter sido feito por um homem, porque sabemos que a coisa não está acima da capacidade humana, mas ninguém se lembrará de dizer que saiu do cérebro de um idiota ou de um ignorante e ainda menos que se trata do trabalho de um animal ou de produto do acaso.

  Em todo o lado reconhecemos a presença do homem nas suas obras. A existência dos homens antediluvianos não seria unicamente provada pelos fósseis humanos, mas também e com a mesma certeza pela presença dos terrenos dessa época de objectos trabalhados pelos homens; um fragmento de vaso, uma pedra talhada, uma arma, um tijolo, serão suficientes para atestar a sua presença. Pela rudeza ou pela perfeição do trabalho reconhecemos o grau de inteligência e da evolução dos que o executam. Se portanto vos encontrardes num país habitado exclusivamente por indígenas e descobrirdes uma estátua de Fídias, não hesitareis em dizer que os indígenas teriam sido incapazes de a fazer, terá de ser obra de uma inteligência superior à dos indígenas.

  Pois bem. Lançando um olhar à nossa volta para as obras da natureza, observando a previsão, a sabedoria, a harmonia que presidem a todas, reconhecemos não existir uma única que não ultrapasse os limites mais elevados  da inteligência humana. Uma vez que o homem não as pode produzir, é porque são produto de uma inteligência superior à humana, a não ser que se diga que é efeito sem causa.

  A isto alguns opõem o seguinte raciocínio:

  As obras ditas da natureza são o produto de forças materiais que agem mecanicamente devido às leis de atracção e retracção; as moléculas dos corpos inertes agregam-se e desagregam-se, crescem e reproduzem-se sempre da mesma maneira, cada qual dentro da sua espécie, graças a estas mesmas leis; cada indivíduo é semelhante àquele de onde saiu; o crescimento, a floração, a frutificação, a coloração, estão subordinados às causas materiais, tais como o calor, a electricidade, a luz, a humanidade, etc. Passa-se o mesmo com os animais. Os astros formam-se pela atracção molecular e movem-se perpetuamente nas suas órbitas devido ao efeito da gravitação. Esta regularidade mecânica na aplicação das forças naturais não revela de maneira nenhuma uma inteligência livre. O homem mexe o seu braço quando quer como quer, mas quem o mexesse no mesmo sentido desde o nascimento até à sua morte, seria um autómato; ora, as forças orgânicas da natureza são puramente automáticas.

  Tudo isto é verdade; mas estas forças são efeitos que devem ter uma causa e ninguém pretende que constituam a Divindade. São materiais e mecânicas; não são de maneira nenhuma inteligentes em si mesmas e isto é ainda verdade; mas são postas em acção, distribuídas, apropriadas para as necessidades de cada coisa por uma inteligência que não é a dos homens. A útil apropriação destas forças é um efeito inteligente que revela uma causa inteligente. Um pêndulo move-se com uma regularidade automática e é esta regularidade que lhe dá o mérito. A força que a faz agir é toda material e de modo nenhum inteligente, mas que seria este pêndulo se uma inteligência não tivesse combinado, calculado o emprego desta força para fazer mover-se com precisão? Por a inteligência não estar no mecanismo do pêndulo e porque a não vemos, seria racional concluir que não existe? Julgamo-la pelos seus efeitos.

  A existência do relógio atesta a existência do relojoeiro; o engenho do mecanismo atesta a inteligência e a sabedoria do relojoeiro. Quando um relógio vos dá num determinado ponto a indicação de que necessitais, já alguma vez veio à ideia de alguém dizer: aqui está um relógio muito inteligente?

  Assim se passa com o mecanismo do Universo; Deus não se mostra, mas afirma-se pelas suas obras.

  Portanto, a existência de Deus é um facto adquirido não só através da revelação mas pela evidencia material dos factos. Os povos primitivos não tiveram revelações e, no entanto, acreditavam instintivamente na existência de um poder sobre-humano; viam coisas que estavam acima do poder humano e concluíam daí que emanavam de um ser superior à humanidade. Não serão mais lógicos que aqueles que pretendem que elas se fizeram sozinhas?

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ALLAN KARDEC, A GÉNESE – Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo, Capítulo II Deus, A natureza divina, A Providência, A visão de Deus – Existência de Deus (de 1 a 7) 15º fragmento da obra. Tradução portuguesa de Maria Manuel Tinoco, Editores Livros de Vida.
(imagem de contextualização: Diógenes e os pássaros de pedra, pintura em acrílico de Costa Brites)

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Inquietações Primaveris ~


Psicologia da Morte

Na dramática História da Psicologia, em que tantos caminhos e descaminhos foram trilhados, surgiu neste século de novidades violentas a psicologia da Morte, resultante das ressurreições clínicas produzidas nos hospitais, através das técnicas médicas de restabelecimento das pulsações cardíacas em pessoas vitimadas por morte súbita. Nos Estados Unidos, a Dra. Ross, tornou-se famosa, com as suas investigações minuciosas sobre as sensações e visões ocorridas durante o estado de quase-morte (EQM) e descritas pelos pacientes ressuscitados. A Psicologia voltou à fase da introspecção, dependendo dos relatos dos pacientes, mas agora já apoiada em longas e profundas pesquisas instrumentais. Os relatos dos pacientes podem ser comparados com as observações e as sondagens clínicas. A verdade é que estes factos sempre aconteceram, em todo o mundo, mas só agora estão a ser submetidos à pesquisa científica. A técnica da mecânica de ressurreição, com massagens e ginástica dos braços, deu tranquilidade ao materialismo científico. Mas a inquietação provocada pelos relatos orais dos pacientes criou alguns problemas, impedindo a explicação simplória da vida como efeito de mecanismos orgânicos. A morte perderia com isso o seu prestígio e a vida se transformaria numa questão de relojoaria. Bastaria accionar o pêndulo parado para se pôr o defunto a prumo e restabelecer o seu tic-tac. Mas a vida e a morte não se mostraram assim tão dóceis, não quiseram satisfazer os biólogos e os químicos empenhados em produzir vida em laboratório. Não obstante, neste caso, não apareceram as intervenções de poderes extracientíficos, à maneira do que fizeram os clérigos no passado, ao interromperem as pesquisas com anátemas e maldições. Menos felizes que os psicólogos da morte foram os pesquisadores soviéticos que, na Universidade de Kirov, conseguiram provar a existência do corpo bioplásmico dos seres vivos, o que lhes custou a excomunhão estatal, reforçada fora da URSS pelas condenações das Igrejas através de instituições científicas por elas controladas. O mesmo já havia acontecido nos Estados Unidos com o problema da reencarnação e o das pesquisas parapsicológicas. O Prof. Rhine, da Universidade de Duke, teve de reagir contra os psicólogos que o criticavam, mostrando que usavam contra as suas pesquisas métodos anti-científicos, com os simples argumentos, sem a contra-prova experimental. Mas tudo isso pertence ao processo de desenvolvimento das Ciências, que é uma luta incessante contra os preconceitos e as crendices institucionalizadas. A verdade é que, de todas estas lutas, restou o facto inegável da possibilidade de elaboração da Psicologia da Morte. A pesquisa no homem vivo reintegra a morte na sua natureza psico-biológica, tirando-lhe os aspectos misteriosos e o sentido de sobrenatural que teólogos e gurus lhe deram através dos séculos. Toda a mitologia igrejeira da morte, da ressurreição e do renascimento ou reencarnação caem por terra com os seus arranjos e adereços, para que a Morte, como a Verdade, possa sair do fundo do poço com a sua nudez clássica.

Ao mesmo tempo, no precioso filão das explorações da morte, de que tanta gente tem vivido à tripa-forra, surgiram as tentativas de manutenção da morte em conserva, com os cadáveres de milionários congelados, em catalepsia forçada, na manutenção precária de uma sub-vida sem nenhuma perspectiva. Faltam-nos os recursos básicos para uma experiência realmente científica nesse campo, que são o frio absoluto e um soro mágico que impedisse as queimaduras do gelo absoluto, que Barnayll inventou em Nas Noites dos Tempos, em termos de ficção científica. Mas como a esperança é a última a morrer e os milionários podem pagar todas as esperanças, é evidente que essas tentativas prosseguirão livremente.

As pesquisas parapsicológicas provaram a existência da percepção extra-sensorial nos animais. Nas pesquisas espíritas, mais antigas e mais profundas, as manifestações físicas de animais foram amplamente verificadas. Animais domésticos mortos foram materializados, comprovando a sua sobrevivência ao fenómeno da morte. Em São Paulo, no famoso Grupo Espírita de Odilon Negrão, deu-se a manifestação ectoplásmica inesperada de um cachorro de raça, pertencente à família de um amigo. Três médiuns de materialização participaram na reunião: a D. Hilda Negrão, o Dr. Urbano de Assis Xavier, cirurgião-dentista, e o Dr. Luis Parigote de Sousa, médico. Nenhum dos presentes pensava no cachorro, que tinha morrido na Fazenda da família, em São Manuel. Foram os espíritos controladores do trabalho que anunciaram a presença do animal, pelo fenómeno de voz-directa (a voz do espírito vibrando no ar, sem intermediário mediúnico). O Dr. António, presente, foi quem reconheceu o animal, que, materializando-se, se dirigiu a ele, festejando-o. O prof. Ernesto Bozzano, famoso cientista e pesquisador espírita de Milão (Itália), verificou e estudou vários casos desta natureza. Os anais das Sociedades de pesquisas Psíquicas de Inglaterra e dos Estados Unidos registam numerosos casos destes espontâneos. Conan Doyle, o famoso escritor e historiador inglês, médico e pesquisador psíquico, obteve fotografias de fenómenos semelhantes. Kardec foi o primeiro a constatar esta realidade, hoje na pauta das pesquisas parapsicológicas. John Gunter, famoso repórter e ensaísta alemão, no seu livro Nestes Tempos Tumultuosos, nas vésperas da II Guerra Mundial, relata uma curiosa manifestação de um cachorro de raça, de grande porte, que assombrava um Hotel de Luxo da Baviera. A manifestação deu-se à sua frente, na escadaria do Hotel. Estes factos puseram por terra as teorias cartesianas sobre os animais-máquina, movidos apenas por instintos e, as doutrinas religiosas que atribuem alma exclusivamente aos seres humanos. Esse antropocentrismo, bem ao gosto da vaidade dos homens, já foi também abalado pelas pesquisas da Psicologia Animal e pelas pesquisas parapsicológicas. Com isso, reafirma-se o princípio espírita da evolução geral dos seres através das espécies, sustentadas por Roussell Wallace, o cientista inglês que se opôs ao materialismo das teorias de Darwin. Os resultados de pesquisas e factos espontâneos demonstram que a lógica da natureza é superior à lógica pretensiosa dos homens.

A Psicologia Sem Alma, de Watson, nos Estados Unidos, negou a própria alma humana, baseando-se nas teorias do reflexo russo de Betcherev e Pavlov, mas acabou reduzida a um sistema mecanicista de interpretação do homem.

Freud não era espiritualista, mas foi obrigado a penetrar nas profundezas da alma nas suas pesquisas do inconsciente. A complexidade do dinamismo anímico por ele revelada contraditava flagrantemente com a simplicidade não raro ingénua das suas conclusões negativistas. Contrariando Descartes, que descobriu na sua própria alma a ideia de Deus e elevou esse facto à condição de lei universal, Freud perdeu-se nos subterrâneos da libido e considerou a ideia de Deus como simples introjecção do mito fálico no inconsciente. Carl Jung, seu discípulo, insurgiu-se contra o mestre, formulando a teoria dos arquétipos, em que o arquétipo Supremo é a ideia de Deus, que Kant considerou como o supremo conflito formulado pela mente humana. No seu livro O Homem Descobre a Sua Alma, Jung sustenta a impossibilidade ontológica de excluirmos a alma da realidade ôntica da pessoa humana. Nesse livro, Jung declara, em 1944, estar convencido de que “o estudo científico da alma é a Ciência do Futuro". No campo da Parapsicologia a contribuição de Jung foi a mais importante, com a sua teoria das coincidências significativas, com a qual superou as grosseiras comparações da mente com as emissões radiofónicas, demonstrando que não há emissão de energias físicas no processo telepático, mas coincidências mentais num plano de afinidade supra-sensível. Nas suas memórias, Jung relata factos paranormais de que foi participante e até mesmo produtor, certa vez quando discutia o problema com Freud, tendo este se negado a analisar a questão, que lhe parecia fora do seu campo de estudos.

Para Rhine, a Psicologia não pode desviar-se do seu objecto, que é a alma. Por isso acusou a Psicologia actual de haver perdido o seu objecto, transformando-se numa ecologia, como ciência do comportamento humano, das relações do sujeito com o meio em que vive. A Psicologia da Alma abrange necessariamente o novo ramo das Ciências Psicológicas, que revela a dinâmica essencial das relações corpo-alma durante a vida e no momento da morte, quando a alma ou espírito se liberta do seu condicionamento carnal. Já dizia o padre Vieira: “Quereis saber o que é alma? Vede um corpo sem alma.” A morte é o momento em que a alma e o seu instrumento de manifestação material, o corpo carnal, se mostram separados. Neste estado de separação o corpo material imobiliza-se e o corpo bioplásmico dos pesquisadores russos da Universidade de Kirov continua em actividade, desprendendo-se do corpo carnal. O corpo espiritual da tradição cristã, que Kardec chamou de perispírito, pois se apresenta como um envoltório semimaterial do espírito propriamente dito, foi considerado pelos russos como da vida. A designação científica de bioplásmico define-o na sua natureza e nas suas funções. Bio, porque é vida, corpo vital e, plásmico porque é constituído por um plasma físico, elemento formado de partículas atómicas livres, não ligadas a nenhuma constelação atómica, a nenhum átomo. Este corpo, que foi fotografado pelos russos, através das câmaras Kirlian de fotografias paranormais, apresenta-se brilhante e transparente como se fosse de vidro. As pesquisas com vegetais e animais, em Kirov, provaram que este corpo rege todas as funções do corpo carnal e oferece uma visão total do estado de saúde, doença ou aproximação de estados mórbidos do corpo carnal.

Tudo isto corresponde exactamente ao que a pesquisa espírita já havia revelado sobre o perispírito. O corpo carnal só se cadaveriza quando o corpo bioplásmico se desligou completamente dele. Então a morte consuma-se. É importante que esta descoberta tenha sido feita na URSS por cientistas materialistas, confirmando plenamente as conquistas da Ciência Espírita, feitas por Kardec e por cientistas do maior renome como Crookes, Richet, Crawford, Zöllner, Scherenck-Notzing, Paul Gibier, Ochorovicz e outros. Tivemos ocasião de ver esse corpo em algumas das nossas experiências mediúnicas, muito antes das pesquisas de Kirov. As pesquisadoras da Universidade de Prentice Hall, nos Estados Unidos, que foram à URSS, viram as fotografias e entrevistaram os cientistas responsáveis pelas pesquisas de Kirov, mostraram-se deslumbradas com o corpo espiritual do homem. O relato completo dessa descoberta pode ser lido no livro Experiências Psíquicas Por Trás da Cortina de Ferro, de Lynn Schroeder e Sheila Ostrander, da Editora Cultrix, São Paulo. O título inglês não se refere a experiências, mas a descobertas. A edição original americana é da própria Universidade de Prentice Hall, mas há edições posteriores da Editore Bentam Books, de Nova York.

A Psicologia da Morte não ficará, certamente, restrita aos problemas específicos da relação alma-corpo. A morte nasce das entranhas da vida; por isso, vida e morte caminham juntas, de mãos dadas, ao longo da existência. Costuma dizer-se que começamos a morrer desde que nascemos. Buda dizia que a morte nos visita 75 vezes em cada uma das nossas respirações. A Psicologia da Morte, portanto, deve começar na vida, pesquisando as diversas formas por que as criaturas em geral encaram a morte, como a sentem em relação a si mesmas e em relação aos outros, que influências a morte exerce na vida das pessoas; quais os sentimentos que determinam certas atitudes em face da morte; como se encara hoje o problema das exigências religiosas na hora da morte e nos funerais; qual o efeito do terror da morte no comportamento das criaturas em várias idades; como se poderá mudar tudo isto em favor de condições melhores e assim por diante. A observação de Heideggard sobre a nossa tendência de sempre falarmos da morte como sendo dos outros e não nossa, merece especial atenção nas pesquisas. Vivemos num mundo que só conhecemos por uma face, embora sabendo que a outra face nos espreita. Conhecemos a face da vida, sempre voltada para nós, mas nada ou quase nada sabemos da face da morte. Que efeitos terá essa situação no nosso psiquismo? Os homens matam-se por coisas mínimas. Quais os impulsos reais que levam os homens a essa situação brutal e inconsequente? Por que a morte parece não afectar a maioria das criaturas, que vivem sem preocupação com ela?

Se a Psicologia da Morte não se interessar pela vida, fracassará na sua tentativa de esclarecer os problemas da morte e de ajustar-nos conscientemente ao facto de que nascemos para morrer. Só poderemos compreender a vida depois de compreendermos a morte. Não é estranho que tenhamos feito tudo ao contrário, até agora, temendo e ao mesmo tempo desprezando a morte? A morte é certa, dizem com indiferença. Não obstante, a morte é geralmente incerta, pois não sabemos quando e de que maneira chegará. Se todos nos interessássemos mais pela morte, não poderíamos viver melhor, com menos ambições e desespero inúteis? A Psicologia da Morte não surge por acaso. Na mortalidade massiva do nosso tempo a morte adquire maior importância do que a vida; porque sabemos que estamos na vida e a conhecemos bem. Mas e a morte?

 /…
"As EQM (experiências de quase-morte), vários outros estudos (i)


José Herculano Pires, Educação para a Morte, 18 – Psicologia da Morte, 23º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: O caranguejo, pintura de William-Adolphe Bouguereau)

domingo, 15 de janeiro de 2017

O Mundo Invisível e a Guerra ~

XII 
Autoridade e Liberdade (2)

|Agosto de 1917|

  Retornemos ao problema da liberdade, cuja noção está marcada na consciência individual e, sob o nome de livre-arbítrio, designa o privilégio que o homem tem de se decidir num sentido determinado e orientar os seus actos para o bem ou para o mal, sendo que a ideia de responsabilidade é inseparável da ideia de liberdade.

  Se fôssemos apenas máquinas dirigidas por forças cegas, autómatos regidos pelo acaso, seríamos irresponsáveis, sendo impossível qualquer sanção à nossa conduta. A sociedade ficaria sujeita a todos os ventos da paixão, a todos os apetites e cobiças.

  A teoria do determinismo, que renega o livre-arbítrio e a responsabilidade, é funesta nas suas consequências, porque corrói os alicerces de toda a lei moral e destrói tudo o que constitui dignidade, altivez e nobreza do carácter humano. Ao preconizar uma indulgência mórbida para com os desequilibrados, os viciosos e os criminosos, o determinismo coloca obstáculos a qualquer tipo de repressão, favorecendo e alentando a todos os abusos e excessos. A ele se pode atribuir, em grande parte, o enfraquecimento e a decadência em que se encontrava o nosso país antes da guerra.

  Por uma estranha contradição, muitas vezes vimos homens, que na política eram adeptos das mais amplas e completas liberdades, rebater, sem embargo, o princípio de liberdade inscrito em nós. Esperamos que as duras lições da guerra lhes tenham aberto os olhos e que agora abandonem ideias perigosas, condenadas por todos os espíritos elevados.

  Não é por acaso que somos dotados do livre-arbítrio ao nascer. Não é a liberdade o que nos espera com a chegada a este mundo, porém a servidão: servidão material, servidão das necessidades, cuja lei imperiosa nos obriga ao trabalho, ao esforço, adquirindo e desenvolvendo a própria liberdade.

  Um olhar à nossa volta nos apresenta a infinita variedade das vontades e da liberdade concedidas a cada um. Somente o Espiritismo e as reencarnações podem explicar esses contrastes e anomalias aparentes.

  As almas frágeis, curvadas ao peso da matéria, sujeitas a todos os desfalecimentos, são espíritos jovens, nascidos recentemente para a vida e que ainda não souberam avaliar as forças ocultas que possuem. Ao contrário, as almas fortes, que conseguiram alto grau de progresso, possuem numerosas existências de lutas e sacrifícios, nas quais aumentaram o seu capital de energia e retemperaram a sua vontade. Entre estas e aquelas existem inumeráveis degraus que representam outras etapas a percorrer e através das quais o ser vê, paulatinamente, aumentar o seu livre-arbítrio e recuar o círculo das fatalidades.

  A diversidade das situações explica-se por si mesma, pois, em razão do seu livre-arbítrio, há almas que se adiantam mais vagarosamente e outras com mais rapidez.

  No começo de nossa trajectória a matéria nos oprime, domina e esmaga, porém, no momento em que a alma se haja elevado o suficiente, começa a dominar a natureza inferior, impondo-lhe os seus desígnios. A educação por meio do trabalho e pela dor desenvolve nela qualidades e forças que a libertam dos laços e dos atractivos materiais.

  Ela se encontra, desde então, apta a ocupar lugar nas comunidades superiores, aprendendo a conduzir-se sem o estímulo do aguilhão da necessidade. Junto com a plenitude de sua liberdade adquire a plenitude da sabedoria e da razão.

  Para que pudessem reinar, neste mundo, a paz e a justiça, seria necessário que as nossas instituições se orientassem por aquelas que regulam a vida nesse Universo invisível onde cada um está no lugar que lhe corresponde e todo o ser recebe uma função adequada ao seu valor moral e aos progressos conseguidos. No entanto, vemos que na Terra tal não acontece.

  Nela os alicerces fundamentais de toda a ordem social – a autoridade e a liberdade –, no lugar de se fundirem num todo harmonioso, se colidem e quase sempre se combatem. A autoridade torna-se perigosa se não está aliada ao mérito e ao saber. A liberdade não o é menos quando se trata de homens violentos, ignorantes e apaixonados.

  Para cada um de nós a lei divina reserva uma série de provações e de trabalhos na medida das nossas necessidades evolutivas e das reparações que as nossas vidas anteriores exigem, porém a lei humana ignora tudo isso.

  Outro erro fundamental de certos sociólogos é a preocupação de estabelecerem a igualdade entre todos os homens. Ela não existe na natureza nem na própria sociedade humana. Jamais se poderá impedir que homens activos, previdentes, económicos superem os indolentes, os imprevidentes e os pródigos.

  No fundo, a igualdade é a própria negação da liberdade e ambas se anulariam mutuamente caso a fraternidade não lhes atenuasse os efeitos antagónicos.

  É verdade que um poderoso movimento de democratização agita todos os países e os povos se voltam para a liberdade. Entretanto, já o dissemos, a liberdade política sem o valor moral, isto é, sem a sabedoria e a razão que a justificam, é uma conquista perigosa, porque o homem terreno coloca os seus direitos acima de seus deveres.

  Ele tem a liberdade de praticar o bem e pratica com maior frequência o mal, que recai sobre ele mesmo com todo o peso das suas consequências, daí as inevitáveis catástrofes, dilacerações, padecimentos e lágrimas.

  As lições da adversidade são necessárias, pois do fundo do abismo dos males a que nos arrasta a guerra vemos melhor os nossos erros e faltas. Estão ressurgindo verdades que estavam esquecidas, fazendo resplandecer entre as nossas angústias um raio do pensamento divino.

  O homem muitas vezes amaldiçoa a dor porque não lhe compreende a eficácia, mas o espírito que paira sobranceiro abençoa-a porque vê nela um instrumento do seu progresso. A dor é o único correctivo do mal que praticamos livremente.

  Se Deus houvesse eliminado o mal e a dor, como alguns filósofos propõem, a nossa liberdade ficaria diminuída na mesma proporção e a nossa personalidade se apoucaria juntamente com os nossos merecimentos. Deus nos permite desfalecimentos e quedas para que as consequências que acarretam sejam um meio de reerguimento.

  Assim, da tormenta actual o nosso país poderá sair moralmente engrandecido, mais sensato e prudente pelos efeitos da rude provação, e aureolado por uma nova glória.

  Todo o sofrimento é uma purificação e a própria guerra, apesar dos horrores que produz, está revestida de uma trágica beleza, se considerada como uma obra de sacrifício.

  O que a História mais exalta é a memória dos que souberam sofrer e morrer: os heróis e os mártires, por exemplo. Não existe nada mais sublime do que o nosso próprio sacrifício, em prol de uma causa justa e de uma nobre ideia!

  A presente guerra é, antes de tudo, um conflito de ideias e trará para o futuro consequências incalculáveis. É a luta da espiritualidade contra o materialismo mais violento, mais cruel; a revolta da consciência humana contra o autoritarismo militar e todos os seus excessos.

  Faz cinquenta anos que o seu jugo oprimia o mundo e, pelo menor motivo, a Alemanha ameaçava os seus vizinhos com o seu pesado sabre.

  Toda a Europa ressoava ao estrondo das armas; o chão estremecia com a marcha das longas colunas de tropas, ao cadente patear dos cavalos, sob o rodar dos canhões. Agora, outras perspectivas se vislumbram; depois dessa guerra devastadora, terminado o militarismo alemão, parece que uma paz definitiva poderá reinar no mundo ensanguentado.

  Espíritos tristes, considerando as devastações espantosas causadas pela guerra, ainda duvidam do futuro de uma civilização que pode produzir tais flagelos; eles não contemplam as coisas de altura suficiente. Uma atenta observação lhes mostraria que, do meio da confusão dos acontecimentos, se elaboram, vagarosamente, a consciência universal e a vontade que os povos possuem de destruir, para sempre, a causa de tantos males.

  Paulatinamente, se forma um acordo entre as nações que unem os seus esforços para eliminar o conflito latente, a “paz armada” que vem destruindo a Europa há meio século, enchendo o abismo sem fim dos gastos inúteis que absorvem a maior parte da produção do trabalho e da capacidade dos povos. Se essa guerra pode chegar a tais resultados, ninguém vacilará em reconhecer que, pelo menos, nos obrigará a dar um grande passo para um futuro melhor.

  As dolorosas lições do presente terão fornecido os seus frutos e o prestígio da glória militar se dissipará como a fumaça. Republicanos ou monárquicos, todos querem determinar as responsabilidades do grande drama, tirando delas as punições necessárias. As instituições sociais passarão por profundas modificações e as ideias democráticas parecem impor-se aos mais indiferentes.

  A política secreta já não se usa mais, os povos querem poder gerir o seu próprio destino. A Alemanha, habituada a todas as servidões, parece tremer diante de um sopro libertador.

  Ela sente em si, como todas as outras nações, uma intensa necessidade de renovação e progresso.

  Como podemos definir o progresso? Ele é o objectivo principal da actividade humana, nas suas diversas formas: material, intelectual e moral. Ele deve ser realizado nesses três aspectos, paralelamente, a fim de dar ao poder social o desenvolvimento e o equilíbrio que fazem dele um todo harmonioso.

  O conjunto dos esforços empregados e dos resultados adquiridos constitui a civilização. Porém quando a civilização se apega a uma ou a outra daquelas formas e despreza as demais, o equilíbrio se rompe e a humanidade caminha para um cataclismo. É o que está a acontecer no momento actual. A Ciência concedeu meios formidáveis de destruição ao homem e este os consagrou às obras do mal. A orgulhosa Alemanha pretendia dominar o mundo pela força e pelo terror.

  De outro lado, o sensualismo e a corrupção dos costumes haviam enfraquecido bastante a resistência dos seus adversários. As furiosas paixões desencadearam a borrasca e Deus permitiu que tudo acontecesse a fim de que, ao sinistro clarão dos acontecimentos, pudéssemos calcular toda a extensão dos nossos erros e a humanidade se regenerasse pelo sofrimento.

  Pelas mesmas razões a civilização já desapareceu várias vezes da face da Terra. Os nossos vícios e a nossa cegueira já nos conduziram à beira de um abismo, onde nos teríamos projectado, se não tivéssemos os auxílios poderosos do mundo invisível.

  Quando uma civilização chegou ao ponto de transviar o homem das leis divinas, daquilo que Platão denominava “o real caminho da alma”, quando perdeu de vista o principal objectivo da existência, que é a educação e o aperfeiçoamento moral do homem, tal civilização está condenada a desaparecer por culpa dos seus próprios excessos. Se não for inteiramente destruída ela se verá, no mínimo, abalada nas suas mais íntimas profundezas.

  Pelos ferozes caprichos das batalhas, pelas epidemias e por todos os males decorrentes da guerra, milhares de almas se libertaram, escapando assim da contaminação pelos maus exemplos, das tradições que perpetuam os erros e os abusos, para renascer depois no meio terrestre, quando purificados pela dor, ou noutros mundos melhores.

  A grande lei das reencarnações não é mais do que uma das formas da eterna lei do progresso e nada prevalece contra ela. Às vezes ela parece ter sido sustada pelos efeitos da liberdade humana, porém, mais cedo ou mais tarde, retoma o seu curso, exercendo a sua acção sob novas formas.

  Por meio dos triunfos e dos martírios das nações, através das mortes aparentes e das ressurreições, poder-se-ia seguir a marcha majestosa da humanidade para o belo e para o bem supremos, sob o olhar atento de Deus.

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LÉON DENIS, O Mundo Invisível e a Guerra, XII Autoridade e Liberdade (2) Agosto de 1917, 29º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Tanque de guerra britânico capturado pelos Alemães, durante a Primeira Guerra Mundial)