Capítulo VIII
Palingenesia: preexistências e vidas sucessivas. A lei das reencarnações
No seu ensino, os druidas não separavam a noção de
imortalidade da noção das vidas sucessivas da alma. Com efeito, entre as
grandes leis que regulam a evolução dos seres, nenhuma é mais importante, nem
mais necessária para o homem conhecer – após a da sobrevivência da alma no seu
envoltório fluídico – que a lei das
reencarnações.
A claridade que ela projecta sobre a estrada da vida dissipa
as sombras, as contradições aparentes e revela o sentido profundo da
existência. Ela traz a ordem e a harmonia ao lugar da desordem e da confusão.
Como se explica que essa grande lei, que na realidade
deveria ser a base e o cimento de todas as doutrinas espiritualistas, seja
ainda ignorada pela maioria dos homens de nosso tempo? Não é ela a essência da
tradição
céltica inscrita no mais profundo da alma da nossa raça e consignada
nas
Tríades e nos cantos bárdicos?
O
Cristo, em suas duas
encarnações conhecidas, a da Índia e
a da Judéia,
(i) sob esses nomes
quase idênticos, Krishna e Cristo, não ensinou essa mesma doutrina tanto no
Evangelho como no
Bagavad-Gita?
(ii)
Toda a antiguidade foi iluminada por radiações dessa mesma
lei pelos ensinos de
Pitágoras, de
Platão e aqueles da escola de Alexandria.
Nos primeiros tempos do Cristianismo (ver meu livro
O Problema do Ser e do Destino), homens
como
Orígenes, São Clemente e quase todos os padres gregos a professaram muito,
e no século IV,
São Jerónimo, secretário do
Papa Dâmaso e autor da
Vulgata, na sua controvérsia com
Vigilantius, o gaulês, devia ainda reconhecer que ela era a crença da maioria
dos cristãos do seu tempo.
Mas o véu lançado depois, pelas Igrejas, sobre essa grande
luz tornou-se uma obscuridade para tudo o que se relaciona com o problema do
destino humano. Limitando, no círculo estreito de uma vida única, a passagem da
alma sobre a Terra, será que Roma desejaria somente adaptar o seu ensino à
compreensão medieval, isto é, ao grau de cultura dos povos ainda bárbaros? Ou
teria ela, então, sonhado em assegurar o seu império, pela concepção de uma
vida que terminasse num paraíso ou inferno eternos, dos quais ela afirmava
deter as chaves? Os dois pontos de vista parecem admissíveis.
Tais concepções geraram consequências funestas tanto para o
génio civilizador como para o espírito religioso dos ocidentais, que elas
deformaram no seu princípio e na sua própria existência. Como o fim verdadeiro
da vida, isto é, o aperfeiçoamento da alma, a sua educação, a sua preparação
para os graus mais altos da escala de ascensão, tenha ficado quase nulo na
maioria dos casos, o plano geral da vida tornou-se alterado.
Entre os crentes, a preocupação constante da salvação
pessoal, o temor dos castigos sem-fim, paralisaram a iniciativa, extinguiram
toda a independência do espírito, enfraqueceram o seu livre-arbítrio. Entre os
outros, a impossibilidade de conciliar, no círculo de uma vida única, a
variedade infinita das condições, das atitudes e dos caracteres humanos com a
justiça de Deus, deu origem ao cepticismo, ao materialismo e à negação de todo
o ideal elevado. Desse estado de coisas nós podemos, no momento, constatar à nossa volta os frutos amargos.
Como ficar surpreendido, após tantos séculos de erro e de
esquecimento, que a noite se tenha feito nos cérebros mais dotados! Não temos
visto filósofos eminentes, cujas obras, os sistemas maravilhosamente
combinados, se tornaram estéreis, porque lhes faltava a noção essencial, a
chave de ouro de todos os problemas: a lei da evolução pelos renascimentos?
O ser, diziam os
druidas, se eleva do abismo da vida e sobe
por etapas inumeráveis para a perfeição. Ele se
encarna no seio das
humanidades, nos mundos da matéria, que são muitas estações de sua longa
peregrinação. Essa doutrina é confirmada, em muitos pontos, por todas as
grandes religiões e pelas mais importantes filosofias antigas. Lê-se nas
Tríades, segundo tradução de Ed. Williams,
do original gaulês:
19 – Três condições indispensáveis para se chegar à
plenitude da ciência: transmigrar no “Abred” (a Terra), transmigrar no
“
Gwynfyd” (o Céu) e relembrar-se de todas as coisas passadas até no “Annoufn”
(o Abismo).
25 – Por três coisas o homem cai sob a necessidade do
“Abred” (ou da transmigração): por ausência do esforço em direcção ao
conhecimento, pelo desinteresse do bem e pela afeição ao mal. Em consequência
dessas coisas ele desce ao “Abred” até ao seu análogo e recomeça o curso de
suas transmigrações.
26 – As três forças (fundamentos) da ciência: a
transmigração completa para todas as situações dos seres; a lembrança de cada
transmigração e de seus incidentes; o poder de passar de novo, quando se
quiser, por um estado qualquer em vista da experiência e do julgamento. E isso
será obtido no círculo de “
Gwynfyd”.
Os cantos bárdicos não são menos afirmativos. Nós citaremos
somente o mais célebre, o de
Taliésin, que data do século IV da nossa era,
segundo a tradução gaélica do
Barddas,
cad. Goddeu:
“Existindo desde remota antiguidade no seio de vastos
oceanos, não sou nascido de um pai e de uma mãe, mas de formas elementares da
natureza, dos ramos da bétula, do fruto dos frutos, das flores da montanha.
Toquei a noite, adormeci na aurora; fui peixe no lago, águia nos cumes, lince
na floresta. Depois, escolhido pelo “Gwyon” (espírito divino), pelo sábio dos
sábios, adquiri a imortalidade. Passou-se muito tempo desde que fui pastor. Por
muito tempo andei na terra antes de ser hábil na ciência. Enfim, brilhei entre
os chefes superiores; vestido de hábitos sagrados, segurei a taça dos
sacrifícios. Vivi em cem mundos, agitei-me em cem círculos.”
Sublinhamos, de passagem, a analogia notável que aparece
entre esse documento vindo de
priscas eras e as descobertas recentes da ciência
sobre as propriedades vitais da água do mar. O texto nos diz: “Existindo no
seio de vastos oceanos, nasci de formas elementares da natureza”. Deve ler-se sobre esse assunto, na
Revue de Biologie
Appliquée, de 1926, as experiências realizadas no laboratório do Colégio de
França, pelos Drs. L. Hallion e Carrion, estabelecendo que a vida animal surgiu
no mar e os seus primeiros representantes tiveram a forma de células isoladas.
Consultar igualmente a recente obra do Dr.
Quinton intitulada
L’eau de la Mer, Milieu Organique (
Água do Mar, Meio Orgânico) que diz: “O
reino animal é inteiramente de origem aquática, provavelmente de origem
marítima.”
Não há, no documento acima, uma série de testemunhos que
concluem em favor da alta inspiração e do valor das doutrinas
célticas, já que
ensinavam, há 1500 anos ou mais, o que os nossos sábios somente agora acabam de
descobrir?
A literatura
céltica relata numerosos casos de reencarnação.
D’Arbois de Jubainville, que por longo tempo ocupou a cadeira de
Celtismo, no
Colégio de França, pôde escrever a propósito das tradições irlandesas:
(iii)
“É a fé nessa metamorfose universal dos homens que inspirou
a crença nas metamorfoses de
Tüan Mac Cairill e de
Taliésin. Estes não são os
únicos personagens cuja alma tenha, na Irlanda, revestido sucessivamente dois
corpos de homem e que tenham nascido muitas vezes. Mongân, o rei de Ulster, no
início do século VI, era idêntico ao célebre Find, morto dois séculos antes do
nascimento de Mongân: a alma do ilustre falecido tinha voltado do país dos
mortos para animar, neste mundo, um novo corpo.
Assim, a sobrevivência da alma ao corpo e a possibilidade de
a alma de um morto ter, de novo, um corpo neste mundo são crenças
célticas.
Há algum tempo os espíritos dos antepassados, julgando que a
hora das grandes renovações é chegada, projectam com mais intensidade radiações
dos seus pensamentos para o solo da França. Eis o que nos ditou o espírito
Allan Kardec, em 25 de Novembro de 1925, por incorporação:
“Desejaríamos inspirar os nossos homens políticos com o
espírito da tradição
céltica, de honestidade, a fim de que os homens novos
possam chegar a regenerar o nosso país. Vemos claramente os pensamentos
entrelaçados, como que formando uma mescla de cores múltiplas. As paixões
dificultam a formação de pensamentos elevados. O materialismo é inerente a uma
geração que não gozou, na sua vida
pregressa, a não ser vis prazeres e que, no
astral, permaneceu nas esferas de densidade muito grosseira. Ela voltou para a
vida com os apetites mal satisfeitos.
Pensei que devia haurir, na minha consciência profunda, a
centelha da fé ardente, de luz pura, que me foi legada por minha existência
céltica, para tentar lançar sobre certos homens um raio de luz inspiradora.
Como temos a facilidade, no espaço, de rememorar as nossas
vidas, quando estamos numa esfera de densidade média, nos agrupamos espiritualmente,
do mesmo modo que, na nossa vida terrestre, as paixões e as aspirações se
agrupam conforme as suas afinidades. Os grandes filósofos da antiguidade, os
iniciados das velhas religiões nos ajudam, quando estão de volta ao espaço. Os
ascetas, os budistas, são agentes poderosos para auxiliar a desagregar a
matéria que pesa sobre os seres carnais de vossas regiões. Vós sabeis que
alguns entre eles tinham um poder de irradiação muito grande.
Os
druidas deixaram na alma das gerações primitivas, que
habitaram o vosso solo, uma centelha que ficou latente no fundo de cada
consciência. Isto faz com que toda a esperança não esteja perdida para reavivar
uma chama que adormece entre alguns de vós.
Temos como missão agrupar os verdadeiros
celtas que são a
própria essência da França. Posso falar disso, pois que vivi na Bretagne, fui
druida em
Huelgoat. Mais tarde, por uma graça insigne, senti as forças emanadas
do círculo superior e a minha fé se tornou viva e forte, ela me seguiu nas minhas
existências ulteriores, até àquela em que vós me conhecestes.
Fui recompensado, visto que as intuições sustentaram de modo
suficiente a pequena chama interior e, lembrando-me das leis da vida universal,
julguei dever disseminar a Doutrina que vós conheceis e que estava inscrita no
fundo do meu superespírito!”
Essa mensagem nos demonstra que o
Espiritismo moderno, na
realidade, não é mais do que um despertar do génio
céltico que dormitava desde
séculos e que reaparece, em todo o seu esplendor, sob formas apropriadas às
necessidades da evolução humana.
Aliás, ele se mostra semelhante, em muitos pontos, ao
Cristianismo esotérico, porque as grandes verdades emanam todas de uma fonte
única para se difundirem em matizes diversos, conforme os tempos e os meios,
como os raios de luz do prisma.
/...
(i) Na obra A Caminho
da Luz, Francisco C. Xavier, FEB, o autor espiritual, Emmanuel, dá a
entender que Jesus só teve uma vida na Terra (capítulo I, p. 18 e capítulo
XXIV, p. 210, 9ª edição). Ver também A Génese,
Allan Kardec, capítulo XVII, pp. 45 e 58. (N.T.)
(ii) Ver meus livros Cristianismo
e Espiritismo e O Problema do Ser e
do Destino. Segundo o Bagavad-Gita
(tradução de Emile Burnouf, C. Schlegel e Wilkins, Krishna assim se exprime:
“Eu e vós temos tido vários nascimentos. Os meus são conhecidos apenas por mim,
mas vós não conheceis os vossos. Ainda que eu não seja mais, por minha
natureza, sujeito a nascer ou a morrer, todas as vezes que a virtude declina no
mundo, e que o vício e a injustiça vencem, então eu me torno visível, e assim
eu me apresento, de tempo em tempo, para a salvação do justo, o castigo do mau
e o restabelecimento da virtude.”
(iii) Segundo Le Cycle
Mythologique Irlandais et la Mythologie Celtique. Ver também Annales de Tigernach, de Whitley Stokes,
com casos de reencarnação, e o Cours de
Littérature Celtique, de d’Arbois de Jubainville.
LÉON DENIS,
O Génio Céltico e o Mundo Invisível,
Segunda Parte –
Capítulo VIII
Palingenesia:
preexistências e vidas sucessivas. A lei das reencarnações
(1 de
5) 24º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: A Apoteose dos heróis franceses que
morreram pelo seu país durante a guerra da Liberdade, pintura de Anne-Louis
Girodet-Trioson)