Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

Da sombra do dogma à luz da razão ~


~ Uranografia Geral (*)
O espaço e o tempo ~

| Galileu, Espírito
(Études Uranographiques) (XI)

Sucessão eterna de mundos 🌈

  Vimos que ao Universo foi dada uma única lei primordial e geral para lhe garantir estabilidade eterna e que esta lei geral é perceptível aos nossos sentidos por várias acções particulares a que chamamos forças directivas da natureza. Vamos mostrar hoje que a harmonia do mundo inteiro, considerada sob o duplo aspecto de eternidade e de espaço, está garantida por essa lei suprema.

  Com efeito, se recuarmos até à origem primeira dos aglomerados primitivos de substância cósmica, verificaremos que já então, sob o império dessa lei, a matéria sofria as transformações necessárias que conduzem da semente ao fruto maduro e que sob a impulsão das várias forças nascidas desta lei, percorre a escala destas revoluções periódicas; primeiro centro fluídico dos movimentos, depois gerador de mundos, mais tarde núcleo central e atractivo das esferas no seu seio.

  Sabemos já que estas leis presidem à história do Cosmos; o que interessa saber agora é que presidem também à destruição dos astros, pois a morte não é só uma metamorfose do ser vivo como também uma transformação da matéria inanimada; e se é verdade dizer-se, em sentido literal, que só a vida é acessível à foice da morte, é igualmente justo acrescentar que a substância deve em qualquer circunstância sofrer as transformações inerentes à sua constituição.

  Eis um mundo que, desde o seu berço primitivo, percorreu todo o espaço dos anos que a sua organização especial lhe permitia percorrer; a fogueira interior da sua existência apagou-se, os elementos próprios perderam a sua virtude principal; os fenómenos da natureza que reclamavam para se produzirem, a presença e a acção das forças reservadas a este mundo, a partir de então deixaram de se poder produzir porque a alavanca da sua actividade já não tem o ponto de apoio que lhe conferia toda a sua força.

  Ora, poder-se-ia pensar que esta Terra extinta e sem vida iria continuar a gravitar nos espaços celestes, sem objectivo, e passar como uma cinza inútil no turbilhão dos céus? Poder-se-ia pensar que permanece inscrita no livro da vida universal, quando não passa de letra morta desprovida de sentido? Não; as mesmas leis que a elevaram acima do caos tenebroso e que a premiaram com os esplendores da vida, as mesmas forças que a governaram durante os séculos da sua adolescência, que consolidaram os seus primeiros passos na existência e que a conduziram à idade madura e à velhice, vão presidir à desagregação dos seus elementos constituintes para os levarem ao laboratório onde o poder criativo vai constantemente buscar as condições de estabilidade geral. Estes elementos vão regressar à massa comum do éter para se assimilarem a outros corpos ou para regenerar outros sóis; e esta morte não será um acontecimento inútil para esta Terra nem para as suas irmãs; irá renovar, noutras regiões, outras criações de natureza diferente e ali onde sistemas de mundos se apagaram em breve renascerá um, novo canteiro de flores mais brilhantes e mais perfumadas.

  Assim, a eternidade real e efectiva do Universo está garantida pelas mesmas leis que dirigiram as operações do tempo; assim, os mundos sucedem aos mundos, os sóis aos sóis, sem que o imenso mecanismo dos vastos céus seja alguma vez atingido nas suas gigantescas molas.

  Ali, onde os vossos olhos admiram esplêndidas estrelas sob a abóbada das noites, ali, onde o vosso espírito contempla irradiações magníficas que resplandecem em longínquos espaços, há muito que o vazio sucedeu a este deslumbramento e até recebeu novas criações ainda desconhecidas. O imenso afastamento destes astros, devido ao qual a luz que nos enviam leva milhares de anos a chegar até nós, faz com que só hoje recebamos os raios que nos enviaram muito tempo antes da criação da Terra e que ainda os vamos continuar a admirar durante milhares de anos depois do seu desaparecimento real (**).

  Portanto, aqui como nos nossos outros estudos, reconhecemos que a Terra e o homem não são nada comparados com a infinitude e que as mais colossais operações do nosso pensamento só se estendem ainda até um campo imperceptível comparado com a imensidão e a eternidade de um Universo que nunca terá fim.

  E quando esses períodos da nossa imortalidade nos tiverem passado por cima, quando a história actual da Terra nos aparecer como uma sombra esbatida ao fundo da nossa memória, depois de termos habitado durante séculos sem conta esses diversos graus da nossa hierarquia cosmográfica, depois dos longínquos domínios das eras futuras terem sido percorridos por inúmeras peregrinações, teremos à nossa frente a sucessão ilimitada de mundos e a imóvel eternidade como perspectiva.

/…
(*) Este capítulo foi textualmente extraído de uma série de comunicações ditadas à Sociedade Espírita de Paris, em 1862 e 1863, sob o título de Études Uranographiques e assinado, Galileu; médium M. C. F. (N. do A.)
(**) Trata-se de um efeito devido ao tempo que a luz leva a atravessar o espaço. Sendo a sua velocidade de setenta mil léguas por segundo, chega-nos do Sol em oito minutos e treze segundos. Daí resulta que se um fenómeno se dá na superfície do Sol, nós só nos apercebemos dele oito minutos depois e, pelo mesmo motivo, ainda o veremos oito minutos após o seu desaparecimento. Se, devido ao seu afastamento, a luz de uma estrela leva mil anos a chegar até nós, só veremos essa estrela mil anos depois da sua formação. (Ver para a explicação e descrição completas deste fenómeno, a Revista Espírita de Março e Maio de 1867, pp 93 e 151; relatório de Lúmen, por M. C. Flamarion.)
O que são os seis mil anos de humanidade histórica perante os períodos seculares? Segundos nos vossos séculos? O que são as vossas observações astronómicas perante o estado absoluto do mundo? A sombra eclipsada pelo Sol. (N. do A.)


ALLAN KARDEC, A GÉNESE – Os Milagres e as Profecias Segundo o Espiritismo, Capítulo VI, Uranografia Geral, O espaço e o tempo – Sucessão eterna de mundos (de 48 a 52), 33º fragmento desta obra. Tradução portuguesa de Maria Manuel Tinoco, Editores Livros de Vida.
(imagem de contextualização: Diógenes e os pássaros de pedra, pintura em acrílico de Costa Brites).

terça-feira, 6 de agosto de 2024

o problema do | ser


(Quem sou... o que faço aqui... de onde vim... para onde vou...)

Manifestações depois da morte ~

(por Léon Denis)

Acabámos de seguir o espírito do homem através das diferentes fases do desprendimento: o sono ordinário, o sono magnético, o sonambulismo, a transmissão do pensamento e a telepatia, em todas as suas formas. Vimos a sua sensibilidade e os seus meios de percepção aumentarem na razão do afrouxamento dos laços que o prendem ao corpo. Vamos agora vê-lo no estado de liberdade absoluta, isto é, depois da morte, manifestando-se ao mesmo tempo física e intelectualmente aos seus amigos da Terra. Não há solução de continuidade entre estes diferentes estados psíquicos. Quer estes fenómenos se dêem durante a vida material ou depois, são idênticos nas suas causas, nas suas leis e nos seus efeitos; produzem-se segundo modos constantes.

Há continuidade absoluta e graduação entre todos estes factos, desvanecendo-se assim a noção de sobrenatural, que por muito tempo os tornou suspeitos à Ciência. O antigo adágio: “A Natureza não dá saltos” verifica-se mais uma vez. A morte não é um salto: é a separação e não a dissolução dos elementos que constituem o homem terrestre; é a passagem do mundo visível ao mundo invisível, cuja delimitação é puramente arbitrária e devida simplesmente à imperfeição dos nossos sentidos. A vida de cada um de nós no Além é o prolongamento natural e lógico da vida actual, o desenvolvimento da parte invisível do nosso ser. Há concatenação no domínio psíquico, como no domínio físico.

Nas duas ordens de aparições, quer dos vivos exteriorizados, quer dos defuntos, é sempre, como vimos, a forma fluídica, o veículo da alma, a reprodução ou, antes, o esboço do corpo físico, que se concretiza e se torna perceptível para os sensitivos. A Ciência, depois dos trabalhos de Becquerel, Curie, Le Bon, etc., familiariza-se de dia para dia com os estados subtis e invisíveis da matéria, numa palavra, com os fluidos utilizados pelos Espíritos nas suas manifestações, e que os espíritas bem conhecem. Graças às descobertas recentes, a Ciência se pôs em contacto com um mundo de elementos, de forças, de potências, cuja existência nem sequer imaginava, e mostrou-se-lhe afinal a possibilidade de formas de existência durante muito tempo ignoradas.

Os sábios que estudaram o fenómeno espírita, Sir William Crookes, Russel Wallace, Robert Dale Owen, Aksakof, Oliver Lodge, Paul Gibier, Myers, etc., verificaram numerosos casos de aparições de pessoas mortas. O Espírito Katie King, que durante três anos se materializou (i) em casa de Sir W. Crookes, membro da Academia Real de Londres, foi fotografado em 26 de Março de 1874, na presença de um grupo de experimentadores. (ii)

Sucedeu o mesmo com os Espíritos Abdullah e John King, fotografados por Aksakof. O académico R. Wallace e o Dr. Thompson obtiveram a fotografia espírita de suas respectivas mães, falecidas havia muitos anos. (iii)

Myers fala de 231 casos de aparições de pessoas mortas. Cita alguns tirados dos Phantasms. (iv) Assinalemos nesse número uma aparição anunciando uma morte iminente: (v)

“Um caixeiro viajante, homem muito saudável, teve certa manhã a visão de uma sua irmã que falecera havia nove anos. Quando contou o caso à família, foi ouvido com incredulidade e cepticismo; mas, ao descrever a visão, mencionou a existência de uma arranhadura na face da irmã. Essa particularidade de tal maneira impressionou sua mãe, que ela caiu desmaiada. Depois que voltou a si, contou que fora ela que, sem querer, fizera essa arranhadura à filha, no momento em que a depunha no caixão; que, em seguida, para disfarçar, cobrira-a com pós, de modo que ninguém no mundo estava a par dessa particularidade. O sinal que o seu filho vira, pois, prova a veracidade da visão e ela viu nele ao mesmo tempo o anúncio da sua morte que, efectivamente, sobreveio algumas semanas depois.” (vi)

Devem ser citados igualmente os casos seguintes: o de um mancebo que se comprometera, se morresse primeiro, a aparecer a uma donzela, sem lhe causar grande susto. Apareceu efectivamente um ano depois à irmã dela, no momento em que ia subir para uma carruagem; (vii) o caso do Sr. Town, cuja imagem foi vista por seis pessoas; (viii) o caso da Sra. de Fréville, que gostava de frequentar o cemitério e passear em volta da campa do marido e aí foi vista, sete ou oito horas depois do seu falecimento, por um jardineiro que por ali passava; (ix) o de um pai de família, falecido em viagem e que apareceu à filha com um vestuário desconhecido que, depois de morto, uns estranhos lhe haviam vestido. Falou-lhe de uma quantia que ela ignorava estar em seu poder. A exactidão desses dois factos foi reconhecida ulteriormente; (x) o caso de Edwin Russell, que se fez visível ao seu mestre de capela com a preocupação das obrigações e compromissos contraídos durante a vida. (xi) Finalmente, o caso de Robert Mackenzie. Quando ainda o patrão ignorava a sua morte, apareceu-lhe ele para se desculpar de uma acusação de suicídio que pesava sobre a sua memória. Foi reconhecida a falsidade dessa acusação, por ter sido acidental a sua morte. (xii)

Na memória apresentada ao Congrès International de Psychologie de Paris, em 1900, o Dr. Paul Gibier, director do Instituto Pasteur de Nova Iorque, fala das “materializações de fantasmas” (xiii) obtidas por ele no seu próprio laboratório, na presença de muitas senhoras da sua família e dos preparadores que habitualmente o auxiliavam nos seus trabalhos de biologia. As ditas senhoras tinham especialmente o encargo de vigiar a médium, Sra. Salmon, despi-la antes da sessão para lhe examinarem os vestidos, sempre pretos, ao passo que os fantasmas apareciam de branco. Por excesso de precaução, metiam a médium dentro de uma gaiola metálica fechada com cadeado e, durante as sessões, o Dr. Gibier não largava a chave.

Foi nessas condições que se produziram, à meia-luz, formas numerosas, talhes diferentes, desde aparições de crianças até fantasmas de alta estatura. A formação é gradual, opera-se à vista dos assistentes. As formas falam, passam de um lado para o outro, apertam as mãos dos experimentadores. “Interrogadas – diz Paul Gibier –, declaram todas ser entidades, pessoas que viveram na Terra, Espíritos desencarnados, cuja missão é nos mostrarem a existência da outra vida.”

A identidade de um desses Espíritos foi estabelecida com precisão: a de uma entidade chamada Blanche, uma familiar falecida de duas senhoras que assistiam às sessões, as quais puderam abraçá-la repetidas vezes e conversar com ela em francês, língua ignorada da médium.

No congresso espiritualista realizado no mesmo ano em Paris, na sessão de 23 de Setembro, o Dr. Bayol, senador das Bocas do Ródano, ex-governador de Dahomey, expunha verbalmente os fenómenos de aparição dos quais foi testemunha em Arles e Eyguières. O fantasma de Acella, donzela romana, cujo túmulo está em Arles, no antigo cemitério de Aliscamps, materializou-se ao ponto de deixar uma impressão do seu rosto em parafina fervente, não em entalhe, como se produzem habitualmente as moldagens, mas em relevo, o que seria impossível a qualquer ser vivo. Essas experiências, cercadas de todas as precauções necessárias, efectuaram-se na presença de personagens tais como o prefeito das Bocas do Ródano, o poeta Mistral, um general de Divisão, médicos, advogados, etc. (xiv)

Numa acta, com a data de 11 de Fevereiro de 1904, publicada pela Revue des Études Psychiques, de Paris, (xv) o Prof. Milèsi, da Universidade de Roma, “um dos campeões mais estimados da nova escola psicológica italiana”, conhecido na França pelas suas conferências na Sorbonne sobre a obra de Auguste Comte, deu testemunho público da realidade das materializações (i) de Espíritos, entre outras a de sua própria irmã falecida em Cremona havia três anos.

Damos aqui um extracto dessa acta:

“O que de mais maravilhoso houve nessa sessão foram as aparições, que eram de natureza luminosa, posto que se produzissem na meia claridade. Foram em número de nove; todos os assistentes as viram... As três primeiras foram as que reproduziram as feições da irmã do Prof. Milèsi, falecida havia três anos em Cremona, no convento das Filhas do Sacré-Coeur, com a idade de 32 anos. Apareceu sorridente, com o esquisito sorriso que lhe era habitual. Do mesmo modo o Sr. Squanquarillo viu uma aparição, na qual reconheceu a sua mãe. Foi a quarta. As cinco restantes reproduziam as feições dos dois filhos do Sr. Castoni. Este afirma ter sido abraçado pelos filhos. Ter conversado com eles várias vezes, ter recebido respostas suas e apertos de mãos; sentiu-os, mesmo, sentarem-se nos seus joelhos.” Assinaram J. B. Milèsi, P. Cartoni, F. Simmons, J. Squanquarillo, etc.

No seu artigo do Figaro de 9 de Outubro de 1905, intitulado: Par delà la Science, Charles Richet, da Academia de Medicina de Paris, dizia, a propósito de outros fenómenos da mesma ordem: “O mundo oculto existe. Correndo embora o risco de ser tido pelos meus contemporâneos como insensato, creio que há fantasmas.”

O célebre Prof. Lombroso, da Universidade de Turim, no número de Junho de 1907 da revista italiana Arena, expõe o resultado das suas experiências com Eusápia Paladino: fenómenos de levitação, transportes de flores, etc. e acrescenta:

“O leitor vai interpelar-me com compaixão e perguntar-me: “Não se deixou simplesmente ludibriar por farsantes vulgares?” O facto indiscutível é que com Eusápia se tomaram as medidas de precaução mais absolutamente rigorosas contra a possibilidade de qualquer fraude, ligavam-se-lhe as mãos e os pés, ficando uns e os outros cercados por um fio eléctrico que, ao menor movimento, accionava uma campainha. O médium Politi foi, na Sociedade de psicologia de Milão, metido nu em pêlo, num saco, e a Sra. d’Espérance ficou imobilizada numa rede como um peixe e, não obstante, os fenómenos produziram-se.

Depois de tudo isso assisti ainda a sessões em que Eusápia Paladino em transe dava respostas exactas e muito sensatas em línguas que ela não conhecia, como, por exemplo, o inglês. Juntando a esses factos pessoais tudo o que soube das experiências de Crookes com Home e Katie King, das do médium alemão que fazia às escuras as mais curiosas pinturas, adquiri a convicção de que os fenómenos espíritas se explicam, em grande parte, por forças inerentes ao médium e também, por outro lado, pela intervenção de seres supraterrestres, que dispõem de forças das quais as propriedades do radium podem dar uma ideia, por analogia.

...Um dia, depois do transporte, sem contacto, de um objecto muito pesado, Eusápia, em estado de transe, disse-me: “Por que estás a perder o tempo com bagatelas? Sou capaz de fazer com que vejas a tua mãe; mas é necessário que penses nisso com veemência.” Impulsionado por essa promessa, ao fim de meia hora de sessão, tomou-me o desejo intenso de vê-la cumprir-se e a mesa, levantando-se com os seus movimentos habituais e sucessivos, parecia dar a sua anuência ao meu pensamento íntimo. De repente, na meia obscuridade, à luz vermelha, vi sair dentre as cortinas uma forma um tanto curvada, como era a de minha mãe, coberta com um véu. Contornou a mesa para chegar até mim, murmurando palavras que muitos ouviram, mas que a minha meia-surdez não me permitiu escutar. Como, sob a influência de uma viva emoção, eu lhe suplicava que as repetisse, ela me disse: “Cœsar, fiol mio!” o que, confesso, não era costume seu, visto que, sendo de Veneza, dizia mio fiol; depois, afastando o véu, deu-me um beijo.”

Lombroso fala, depois, das casas mal-assombradas e diz:

“Convém acrescentar que os casos de casas em que, durante anos, se reproduzem aparições ou barulhos, concordando com a narrativa de mortes trágicas e observadas sem a presença de médiuns, rivalizam contra a acção exclusiva destes em favor da acção dos mortos.” (xvi)

No Grupo de estudos que por muito tempo dirigi em Tours, os médiuns descreviam aparições de defuntos visíveis apenas a eles, é verdade, mas que nunca haviam conhecido, de quem nunca tinham visto nenhum retrato, ouvido fazer nenhuma descrição, e que os assistentes reconheciam pelas suas indicações.

Às vezes os Espíritos materializam-se ao ponto de poderem escrever, na presença de pessoas humanas e à sua vista, mensagens numerosas, que ficam como outras tantas provas da sua passagem. Foi o que se deu com a mulher do banqueiro Livermore, cuja letra foi reconhecida como idêntica à que ele tinha durante a sua existência terrestre; (xvii) mas, muito mais frequentes vezes, os Espíritos se incorporam no invólucro (corpo) de médiuns adormecidos, falam, escrevem, gesticulam, conversam com os assistentes e lhes fornecem provas certas da sua identidade.

Nesses fenómenos, o médium abandona momentaneamente o corpo; a substituição é completa. A linguagem, a atitude, a letra e o jogo de fisionomia são os de um Espírito estranho ao organismo de que dispõe por algum tempo.

Os factos de incorporação da Sra. Piper, minuciosamente observados e comprovados pelo Dr. Hodgson e pelos Profs. James Hyslop, William James, Newbold, Oliver Lodge e Myers, constituem o complexo de provas mais poderoso em favor da sobrevivência. (xviii) A personalidade de G. Pelham revelou-se, post mortem, aos seus próprios parentes, a seu pai, a sua mãe, aos seus amigos de infância, cerca de trinta vezes, a tal ponto que não deixou dúvida alguma no espírito deles acerca da causa destas manifestações.

Sucedeu o mesmo com o Prof. Hyslop, que, tendo feito ao Espírito do seu pai 205 perguntas sobre assuntos que ele mesmo ignorava, obteve 152 respostas absolutamente exactas, 16 inexactas e 37 duvidosas, por não poderem ser verificadas. Essas verificações foram feitas no decurso de numerosas viagens efectuadas através dos Estados Unidos para se chegar a conhecer minuciosamente a história da família Hyslop, antes do nascimento do professor, história a que essas perguntas se referiam.

Os Annales des Sciences Psychiques de Paris, Julho de 1907, lembram o seguinte facto, que igualmente se produziu na América no ano de 1860:

“O grande juiz Edmonds, presidente do Supremo Tribunal de Justiça do Estado de Nova Iorque, presidente do Senado dos Estados Unidos, tinha uma filha, Laura, em quem surgiu uma mediunidade com fenómenos espontâneos, que se produziram em volta dela e não tardaram a despertar a sua curiosidade, de tal modo, que começou a frequentar sessões espíritas. Foi então que ela se tornou médium-falante. Quando nela se manifestava outra personalidade, Laura falava por vezes diferentes línguas que ignorava.

Numa noite, em que uma dúzia de pessoas estavam reunidas em casa do Sr. Edmonds, em Nova Iorque, o Sr. Green, artista nova-iorquino, veio acompanhado por um homem que ele apresentou com o nome do Sr. Evangelides, da Grécia. Não tardou a manifestar-se na Senhorita Laura uma personalidade, que falava, em inglês, ao visitante e lhe comunicou grande número de factos tendentes a provar que a personalidade era a de um amigo falecido em casa dele, havia muitos anos, mas de cuja existência nenhuma das pessoas presentes tinha conhecimento. Por momentos intercalares a donzela pronunciava palavras e frases inteiras em grego, o que deu ensejo a que o Sr. Evangelides lhe perguntasse se podia falar em grego. Ele falava efectivamente com dificuldade o inglês. A conversa continuou em grego da parte de Evangelides e alternativamente em grego e inglês da parte da Srta. Laura. Momentos houve em que Evangelides parecia muito comovido. No dia seguinte renovou a sua conversa com a Srta. Laura, depois explicou aos assistentes que a personalidade invisível, que parecia manifestar-se com a intervenção da médium, era a de um dos seus amigos íntimos, falecido na Grécia, irmão do patriota grego Marc Bótzaris. Esse amigo informava-o da morte de um filho seu, também de nome Evangelides, que ficara na Grécia e passava bem no momento em que o seu pai partira para a América.

Evangelides voltou a estar com o Sr. Edmonds várias vezes ainda e, dez dias depois da sua primeira visita, informou-o de que acabava de receber uma carta participando-lhe a morte do seu filho. Essa carta devia vir a caminho quando se realizou a primeira conversa do Sr. Evangelides com a Srta. Laura.

“Estimaria – disse o juiz Edmonds a esse respeito – que me dissessem como devo encarar este facto. Negá-lo é impossível; é demasiado flagrante. Também então podia negar que o Sol nos ilumina.”

Isto passou-se na presença de oito a dez pessoas, todas instruídas, inteligentes, discretas e também todas capazes de fazerem a distinção entre uma ilusão e um facto real.” (xix)

O Sr. Edmonds informou-nos que a sua filha não tinha ouvido até então uma única palavra em grego moderno. Acrescentou que noutras ocasiões ela chegou a falar mais de treze línguas diferentes, entre as quais o polaco e o indiano, quando, no seu estado normal, apenas sabia inglês e francês, este último como se pode aprender na escola. É preciso notar que o Sr. J. W. Edmonds não é uma personalidade qualquer. Nunca lhe puseram em dúvida a perfeita integridade do seu carácter e as suas obras provam a sua luminosa inteligência.

Fenómenos da mesma ordem foram muitas vezes obtidos na Inglaterra. Citemos, neste número, uma manifestação do célebre Prof. Sidgwick pelo organismo da Sra. Thompson, adormecida. Figura nos Proceedings. O Sr. Piddington, secretário da Sociedade, testemunha do facto, redigiu um relatório que foi lido na sessão de 7 de Dezembro de 1903. Fez circular de mão em mão, entre os assistentes, diferentes escritos automáticos, nos quais os amigos e parentes de Sidgwick, o eminente psicólogo que foi o primeiro presidente da Sociedade, reconheceram a sua letra. Ao menos uma vez Sidgwick ter-se-ia esforçado por falar pela boca da Sra. Thompson. O Senhor Piddington descreveu esta cena como a experiência mais realista e impressionante que se encontra em todo o curso das suas investigações. “Não era, diz ele, como se tivesse sido Sidgwick; era ele realmente, ao que se podia julgar.” A personalidade de Sidgwick fez alusão, entre outras coisas, a um incidente que se dera numa das reuniões do Conselho de direcção da Society, “e do qual, se pode dizer com certeza quase absoluta, a Sra. Thompson não podia ter conhecimento”. Uma das pessoas que assistiam à sessão, membro do Conselho de direcção, o Sr. Arthur Smith, levantou-se para dizer que se lembrava muito bem daquela circunstância. (xx)

Relataremos ainda um fenómeno de comunicação durante o sono, obtido pelo Sr. Chedo Mijatovitch, ministro plenipotenciário da Sérvia, em Londres, e reproduzido pelos Annales des Sciences Psychiques, de 1 e 16 de Janeiro de 1910.

“A pedido de espíritas húngaros, para que se pusesse em relação com um médium, a fim de elucidar um ponto da História a respeito de um antigo soberano sérvio, morto em 1350, dirigiu-se à casa do Sr. Vango, de quem muito se falava nessa época e a quem nunca tinha visto até então. Adormecido, o médium anunciou a presença do Espírito de um jovem, ansioso por se fazer ouvir, mas de quem não compreendia a linguagem. No entanto, acabou conseguindo reproduzir algumas palavras.

Elas eram em sérvio, sendo esta a tradução: “Peço-te escrevas à minha mãe Nathalie, dizendo-lhe que imploro o seu perdão.”

O Espírito era o do rei Alexandre.

Chedo Mijatovitch não duvidou, ainda mais quando novas provas de identidade logo se juntaram à primeira: o médium fez a descrição do defunto e este mostrou o seu pesar por não ter seguido um conselho confidencial que lhe havia dado, dois anos antes de ser assassinado, o diplomata consultante.”

Na França, entre um certo número de casos, assinalaremos o do abade Grimaud, director do asilo dos surdos-mudos de Vaucluse. Por meio dos órgãos da Sra. Gallas, adormecida, recebeu, do Espírito Forcade, falecido havia oito anos, uma mensagem pelo movimento silencioso dos lábios, de acordo com um método especial para surdos-mudos, que este Espírito inventara, comunicado ao abade Grimaud, venerável eclesiástico, que era o único dos assistentes que podia conhecê-lo. Há pouco tempo que publicámos a acta dessa notável sessão com as assinaturas de doze testemunhas e o atestado do abade Grimaud. (xxi)

O Sr. Joseph Maxwell, advogado geral no Tribunal de Apelação de Bordéus e doutor em Medicina, na sua obra Phénomènes Psychiques (xxii) estuda o fenómeno das incorporações, que observou em casa da Sra. Agullana, esposa de um estucador, e assim se exprime:

“A personalidade mais curiosa é a de um médico falecido há cem anos. A sua linguagem médica é arcaica. Dá às plantas os nomes medicinais antigos. O seu diagnóstico é geralmente exacto; mas, a descrição dos sintomas internos que ele vê é bem própria a causar admiração a um médico do século XX... Há dez anos que observo o meu colega do além-túmulo. Não tem variado e apresenta uma continuidade lógica surpreendente."

Eu mesmo observei frequentes vezes este fenómeno. Pude, como noutra obra expus; (xxiii) conversar por intermédio de diversos médiuns, com muitos parentes e amigos falecidos, obter indicações que estes médiuns não conheciam e que, para mim, constituíam outras tantas provas de identidade. Se levarmos em conta as dificuldades que comportam a comunicação de um Espírito a ouvintes humanos, por meio de um organismo e, particularmente, de um cérebro que ele não apropriou, a que não deu flexibilidade mediante uma longa experiência; se considerarmos que, em razão da diferença dos planos de existência, não pode exigir-se de um desencarnado todas as provas que a um homem material se pediria, é preciso reconhecer que o fenómeno das incorporações é um dos que mais concorrem para demonstrar a espiritualidade e o princípio da sobrevivência.

Não se trata, nestes casos, de uma simples influência à distância. Há um impulso a que o sujet não pode resistir e que na maior parte das vezes se transforma na tomada de posse do organismo inteiro. Este fenómeno é análogo ao que verificamos nos casos de segunda personalidade. Neste, o “eu” profundo substitui o “eu” normal e toma a direcção do corpo físico, com um fim de fiscalização e regeneração. Mas, aqui é um Espírito estranho que desempenha esse papel e substitui a personalidade do médium adormecido.

As palavras possessão ou posse, de que acabamos de nos servir, foram muitas vezes tomadas em sentido lamentável.

Atribuía-se no passado aos factos que elas designam um carácter diabólico e terrificante, como muito bem disse Myers: (xxiv) “O diabo não é uma criatura desconhecida pela Ciência. Nestes fenómenos encontramo-nos somente na presença de Espíritos que foram outrora homens semelhantes a nós e que estão sempre animados dos mesmos motivos que nos inspiram.”

A esse propósito Myers faz uma pergunta: “É a possessão algumas vezes absoluta?”... e responde nestes termos: “A teoria que diz que nenhuma das correntes conhecidas da personalidade humana esgota toda a sua consciência e que nenhuma das suas manifestações conhecidas exprime toda a potencialidade do seu ser, pode igualmente aplicar-se aos homens desencarnados.” (xxv)

Com isso abordaríamos o ponto central do problema da vida humana, a mola secreta, a acção íntima e misteriosa do Espírito sobre um cérebro, quer sobre o seu, quer, nos casos de que nos ocupamos, sobre um cérebro estranho.

Considerada sob esse aspecto, a questão toma importância capital em Psicologia. Myers acrescenta: (xxvi)

“Com o auxilio destes estudos, as comunicações cada vez se tornarão mais fáceis, completas, coerentes, e atingirão níveis mais elevados de consciência unitária. Grandes e numerosas devem ter sido as dificuldades; mas nem de outro modo pode ser quando se trata de reconciliar o espírito com a matéria e de abrir ao homem, do planeta onde está encarcerado, uma fresta para o mundo espiritual...

Assim como, pela clarividência migratória (Myers chama assim à clarividência dos sonâmbulos), o Espírito muda de centro de percepção, no meio das cenas do mundo material, assim também há transmissões espontâneas do centro de percepção para as regiões do mundo espiritual. A concepção do êxtase, no seu sentido mais literal e sublime, resulta assim, sem esforço, quase insensivelmente, de uma série de provas modernas.

Em todas as épocas se tem concebido o Espírito como susceptível de deixar o corpo ou, se não o deixa, de estender consideravelmente o seu campo de percepção, fazendo nascer um estado que se parece com o êxtase. Todas as formas conhecidas de êxtase concordam neste ponto e se baseiam num facto real.”

Vê-se que, graças a experiências, a observações, a testemunhos mil vezes repetidos, a existência e a sobrevivência da alma saem doravante do domínio da hipótese ou da simples concepção metafísica, para se converterem em realidade viva, em facto rigorosamente averiguado. O sobrenatural tocou o fim dos seus dias; o milagre já não passa de uma palavra. Todos os terrores, todas as superstições que a ideia da morte sugeria aos homens se desfazem em fumo. Dilata-se a nossa concepção da vida universal e da obra divina e, ao mesmo tempo, a nossa confiança no futuro fortifica-se. Vemos nas formas alternadas da existência carnal e fluídica o progresso do ser, o desenvolvimento da personalidade a prosseguir e uma Lei Suprema a presidir à evolução das almas através do tempo e do espaço.

/…
(ii) Ver W. Crookes (i) – Recherches sur les Phénomènes du Spiritisme.
(iii) Aksakof (i) – Animismo e Espiritismo, págs. 620 e 621.
(iv) F. Myers (i) – La Personnalité Humaine, pág. 268.
(v) Idem, pág, 280.
(vi) Há necessidade de fazer notar que o Espírito quis aparecer com esse “arranhão” somente para dar, por esse meio, uma prova da sua identidade. O mesmo se dá em muitos dos casos que se vão seguir, em que Espíritos se mostraram com trajes ou atributos que constituíam outros tantos elementos de convicção para os percipientes.
(vii) Proceedings, X, 284.
(viii) Idem, X, 292.
(ix) Phantasms of the Living, I, 212.
(x) Proceedings, X, 283.
(xi) Proceedings, VIII, 214.
(xii) Proceedings, II, 95.
(xiii) Ver Compte rendu officiel du IV Congrès de Psychologle, Paris, F. Alcan, Fevereiro de 1901, reproduzido in extenso pelos Annales des Sciences Psychiques (i).
(xiv) Ver Compte rendu du Congrès Spiritualiste International de 1900 (i), pág. 241 e seguintes. Leymarie, editor.
(xv) Número de Março de 1904.
(xvi) Recomendamos a leitura da obra Hipnotismo e Mediunidade, de Lombroso (i). (N.E.)
(xvii) Ver Aksakof – Animismo e Espiritismo, págs. 620 e 631.
(xviii) Ver o caso de Mrs. Piper. Proceedings, XIII, 284 e 285; XIV, 6 e 49, resumidos na minha obra No Invisível, cap. XIX.
(xix) Havia, entre outras pessoas, Mr. Green, artista; o Sr. Allen, presidente do Banco de Boston; dois empreiteiros dos caminhos de ferro nos Estados do Oeste; Miss Jennie Keyer, sobrinha do juiz Edmonds, etc.
(xx) Revue des Etudes Psychiques (i), Paris, Janeiro de 1904.
(xxi) Ver No Invisível, cap. XIX.
(xxii) Phénomènes Psychiques (i), pág. 26.
(xxiii) No Invisível, caps. VIII, XIX e XX; Cristianismo e Espiritismo, cap. XI.
(xxiv) F. Myers – La Personnalité Humaine, pág. 369.
(xxv) F. Myers – La Personnalité Humaine, pág. 297.
(xxvi) Idem, ibidem.


Léon Denis, O Problema do Ser, do Destino e da Dor, Primeira Parte O Problema do Ser, VII – Manifestações depois da morte, 8º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Sin título (detalhe), de uma pintura atribuída a Josefina Robirosa)

terça-feira, 16 de julho de 2024

O Homem e a Sociedade ~


Capítulo VIII
~ Perspectivas de Um Homem Infinito ~

  O tema referente a um homem infinito é o mais apropriado para nos dar a certeza de que a humanidade, a história e o Planeta possuem em si mesmos uma finalidade que ultrapassa as aparências do existir quotidiano. Porque existir como um homem medíocre seria insuportável, do ponto de vista moral; viver como um homem impotente seria desesperador; e vegetar como um homem estúpido estaria em desacordo com a superioridade de quem conseguiu a desintegração atómica. Mas, em compensação, existir e ser um homem desconhecido já é algo e nos dá o direito espiritual e humano de ser alguma coisa, frente ao singular mistério do mundo. Antes que medíocre, impotente e estúpido, é preferível para a inteligência humana ser um homem desconhecido, (') já que dentro dessa condição há sempre a possibilidade de uma sorte ou uma descoberta nova, que faça do homem uma entidade superior, com vistas à existência do ser humano vale muito pouco, se a razão do seu existir está unicamente na sua efémera vida física e no acto mecânico de vestir-se todos os dias. Se o homem é apenas um Ser que come e faz negócios, então não haverá palavras para condenar a sua insípida natureza e a sua frágil existência.

  Mas é que existir, ser homem, ou melhor, ser humano, é pertencer a um mundo superior, onde não existam as contradições terrenas. O homem, de acordo com a realidade espírita, leva em si mesmo o poder de transformar-se em algo mais que uma pessoa de bons costumes. O seu instinto está divinizado pelo fogo criador das mais belas aspirações cósmicas, e a sua mente pode intuir, ao calor de seu próprio ser espiritual, o imenso destino que se oculta no fundo desse homem desconhecido, isto é, na sua natureza supranormal, ainda não explorada pela antropologia Filosófica. ('')

  Existir como ser humano, e no humano, é possuir um alto sentido teleológico, que sem dúvida alguma dará fim ao homem medíocre. Não esqueçamos que a vida possui particularidades que revelam a grandeza criadora do homem, mesmo que a cultura, confundida por enganosas aparências, queira ainda ignorá-lo. E é por esse engano que triunfa o inócuo saber das coisas fugazes, intranscendentes e mortais.

  A força existencial do homem radica na sua própria infinitude, pois nela se encontra a raiz de toda a sua virilidade social e espiritual, já que ser, — existir no eterno e para o eterno, — é a única maneira de existir para elaborar a mais poderosa ética criadora.

  Na ideia da sua própria finitude radica todo o pessimismo, pois ela engendra no homem uma tristeza impossível de eludir, e é com ela que se afirma o conceito materialista da vida. O triunfo do mundo material sobre o espiritual tem como causa a noção imanente da existência, a qual, por um reflexismo ideológico, absorve todo o ser vivo do indivíduo.

  A finitude da pessoa humana foi o que determinou a morte dos valores espirituais: e se coube realmente à alma humana, como quer o existencialismo, uma sorte cega, não pode haver existência infinita, eternidade, nem mundo dos espíritos. Com tal critério, Deus não seria mais que uma entidade para gerar a morte e determinar a de todo o ser existente, e não um Ser para criar a vida eterna da alma e com ela a divina verdade.

  Se o homem levasse consigo a morte como uma enfermidade, isso se deveria à inexistência de Deus e de qualquer outro poder supratemporal, que pudesse preservá-lo de tão aterrador destino, como o do nada. Daí que, se no homem desconhecido se conseguisse descobrir apenas um sinal de sua própria infinitude, o mundo adquiriria imediatamente um sentido espiritual e a existência de Deus se tornaria de fácil demonstração. Se o homem é e existe dentro do Infinito, o Criador também existirá na sua própria infinitude e, como é lógico, com maior profundidade espiritual que o ser humano.

  Desta maneira, a imagem divina que se oculta no homem desconhecido seria o factor especial que daria infinitude à pessoa humana e a força necessária para vencer os obstáculos antidivinos do mundo. O homem infinito aparece assim como um desdobramento do poder criador que emana de Deus; essa força possui em si mesma a substância do eterno; daí que poderá perdurar infinitamente, apesar de todas as catástrofes espirituais e geológicas que se sucedam na Terra. Assim, a morte se transforma num facto relativo, circunscrito ao material, e o seu aspecto negativo, tão temido em todas as idades da humanidade, se esfuma, e a sua sombria face se renova, transfigurando-se.

  A existência real de um homem infinito é a única possibilidade de um mundo do Espírito e dos valores morais, pois espírito e valor, sem a existência infinita do Ser, seriam duas irrealidades: significariam morrer ou estar morrendo a todo instante, mesmo quando se estivesse em plena euforia da vida.

  O homem comum acostumou-se, por meio de culturas niilistas, a considerar a vida como coisa limitada pela sua própria impotência e, assim, a única ética que impulsionou a natureza humana foi sempre a ideia de uma finitude fatal e aniquiladora. Este conceito do Ser alcançou grande divulgação; mas os seus corifeus se esqueceram de que ele leva dentro de si mesmo o homem desconhecido, cujo poder supranormal pode vencer, em circunstâncias especiais, as leis conhecidas da natureza. Contudo, esse homem desconhecido, em vez de ser procurado pelo moderno quefazer filosófico, foi posto à margem, para, ao revés, aprofundar-se o estudo do homem medíocre, estúpido e impotente, que já não está em concordância com as novas dimensões de um Universo cheio do espírito imortal.

  A cultura filosófica e a civilização preferiram um homem impotente; e por isso não descobriram na sua alma as origens pré-universais e preexistências, que se escondem no seu profundo mistério pessoal. Acreditou-se num tipo de indivíduo de criação espontânea, num ser originado nos abismos do nada; e assim se ignorou que o homem, esse desconhecido, vem de alguma parte e se encarna na realidade material, para transfigurar-se a si mesmo e avançar continuamente para o futuro.

  São chegados os tempos de reconhecer que o homem possui um secreto recurso, com o qual pode abrir as portas da história. Mas não para ver o seu cadáver e os de seus antepassados, nessa fúnebre sucessão que sugere, como único fim da pessoa humana, — a morte. Não; a história, ao abrir os seus misteriosos portais, mostrará ao Ser as múltiplas imagens que lhe pertenceram, ora fúlgidas, ora cambiantes, todas elas sintetizadas no seu rosto presente, divina figura de sua própria infinitude. É de supor-se, então, que o homem regresse de um remoto existir, com um espírito vigoroso e profundo, para vencer o homem-que-morre.

  Vemos, assim, que o homem se valoriza, quando se rebela contra a sua própria finitude. Nietzsche teve grandes vislumbres do homem infinito, mas aniquilou-se a si mesmo, quando pretendeu desafiar a divindade espiritual do Nazareno. Ao contrário, para o saber espírita, o homem criador e infinito se engrandece como Jesus, na sua natureza finita, para dar vida e eternidade a quem está morto de tanto pensar na sua própria finitude.

  Um conhecimento exclusivamente natural é um saber que redundará, iniludivelmente, na impotência e na finitude. Por meio de um saber terrestre, o homem só cultiva e reafirma o seu angustiado conceito niilista, isto é, alimenta a sua mente inferior com o nada, para logo aniquilar-se com ela. Mas o infinito criador que se aloja no mais profundo do homem desconhecido, se resiste a esse conhecimento natural, no seu anseio de viver no eterno, nutre-se daquilo que não vem da impotência e da morte, mas da substância divina, para ser e existir dependendo de Deus.

  Se o homem continuasse pensando na sua própria finitude, não haveria dúvida de que a civilização terminaria na mais terrível das catástrofes espirituais. Porque, se o homem-que-morre é quem deve reger o desenvolvimento humano, tudo será relativo e tenderá a malograr com a ideia do nada. Não haverá nenhum valor espiritual que se salve da morte definitiva. O homem finito, com os seus afectos e aspirações, resultará em tragédia e fatalidade.

  Se o destino do homem fosse viver somente para o Nada, isso indicaria, não a perpetuidade do homem medíocre ou impotente, mas o existir do homem estúpido, que se alucina a si mesmo por meio de algumas ilusórias comodidades materiais. Este modo social do existir representaria uma morte antecipada, ainda que o Ser não conseguisse ter consciência do facto.

  De todos os heroísmos espirituais, o mais belo é o que se opõe ao nadificar do homem. O nada é uma enfermidade contraída pela espécie e que ainda se mantém como incurável, mas já se aproxima o tempo de sua cura total: a medicação necessária já está ao alcance do Ser. Contudo, essa massa formada de medíocres, impotentes e estúpidos opõe-se à cura de tão perigoso mal: prefere ser um tipo de homem atacado de finitude e voltado para o Nada.

  Esta repulsa do eterno, tal como a apresenta a filosofia espírita, poderia explicar-se pôr um temor ao futuro. É por isso que o homem comum nos dá a impressão de carecer de forças morais para enfrentar o futuro. Vencido pela impotência psíquica, só procura aniquilar-se, mas vivendo com a maior fruição possível o seu instante presente, única vida, segundo ele crê, do seu mortal existir. (*)

/...
(') Títulos dos seguintes livros: O Homem Medíocre, José Ingenieros; O Homem Impotente e O Homem Estúpido, Charles Richet; O Homem, Esse Desconhecido, Alexis Carrel.
('') O conceito de existir, nas filosofias da existência, corresponde a um viver consciente, activo e criador. Os animais vivem, apenas, mas o homem existe. É também esse o conceito existencial na filosofia espírita. (Nota de J.H.Pires).
(*) Quando Mariotti cita o exemplo de Jesus, que, sendo “criador e infinito, se engrandece em sua natureza finita”, dá ao leitor um caso concreto, que mostra a dupla natureza humana: a infinitude do espírito na finitude da encarnação. Esses dois termos, infinitude e finitude, são de uso filosófico, mas bem compreensíveis. — O emprego que Mariotti faz do termo existir, referindo-se ao homem inferior, parece contrariar o conceito existencial desse termo, mas espiriticamente é admissível, pois o homem, na conceituação espírita, é sempre um existente, não podendo renunciar a essa condição humana. — A referência ao “temor do futuro”, no caso da “repulsa ao eterno”, lembra uma recente teoria do prof. Rémy Chauvin, da Escola de Altos Estudos de Paris, sobre a existência de uma lei de “alergia ao futuro”, no campo científico, responsável pela repulsa às novas descobertas. Veja-se o volume de L'Encyclopédie Planète intitulado Nos pouvoirs inconnus. — A palavra existente é da terminologia existencialista para designar o homem como um ser que tem consciência de existir. (Nota de J.H.Pires).


Humberto Mariotti, O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização, Do Materialismo Histórico a uma Dialéctica do Espírito, 1ª PARTE O NÚMENO ESPIRITUAL NOS FENÓMENOS SOCIAIS, Capítulo VIII PERSPECTIVAS DE UM HOMEM INFINITO, 13º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Alrededores de la ciudad paranóico-crítica: tarde al borde de la historia europea | 1936, Salvador Dali)

quinta-feira, 6 de junho de 2024

Deus na Natureza ~


~ O Destino dos Seres e das Coisas ~
~ Plano da Natureza ~ Construção dos Seres Vivos ~

  Certa altura, ao deixar uma aldeia à tardinha, vi uma dezena de meninas que corriam e brincavam debaixo da copa frondosa de velhas tílias. Qual bando tagarela de aves inquietas, corriam e gargalhavam debaixo daquelas frondes seculares, que, indubitavelmente, viram por ali passar sucessivas gerações infantis. Que pensariam a respeito, aquelas árvores imóveis? Quantos sóis teriam visto passar-lhes por sobre as copas verdes? Sonhariam, por acaso, com os esplendores da prístina vegetação que tão gloriosamente vestiu a Terra nos seus dias primaveris? Teriam elas uma vaga consciência da importância do reino vegetal e da grandeza do seu papel no sistema geral da vida terrena? Talvez... Mas, seguramente, o que não suspeitariam era da opinião que a seu respeito me manifestara uma daquelas lindas crianças, quando, metendo-me no seu brinquedo, lhe perguntei para que serviam aquelas grandes tílias...

  – Para brincar à cabra-cega quando a tarde está bonita – respondeu naquele timbre de franqueza que revela as convicções profundas.

  E logo depois, como a completar o seu pensamento de filha amorosa: – elas servem, também, para a mamã fazer chá. – E disse-o, oferecendo-me um raminho branco e cheiroso, que caíra de um galho...

  Uma noite, em Paris, um tal M. C., a quem falávamos da imensidão do céu e da infinidade dos Mundos, entre os quais a Terra vale por átomo insignificante, respondeu-nos ele com uma ingenuidade menos perdoável que a anterior, visto provir de um adulto:

  – Pregais ideias desastrosas, quando dizeis que a Terra não é privilegiada, nem pode ser superior aos astros; pois a verdade é que ela forneceu o corpo divino de Jesus-Cristo e o da Santa Virgem, e só isso bastaria para graduá-la acima de todos os astros, autorizando-nos a afirmar que todos os astros foram feitos para ela (ii).

  Simultaneamente, outra boa criatura, que é o Sr. Le Prieur, possuído das melhores intenções, presumia que as marés eram dadas ao oceano a fim de facilitar a entrada dos navios nos portos (iii).

  A isto, aditava Voltaire, que também não havia razão para duvidar fossem as pernas criadas para enfiar as botas e o nariz para sustentar os óculos; pois – discorria ainda (iv) –, para nos podermos certificar das verdadeiras causas, não há como desatender à continuidade dos seus efeitos, em todos os tempos e lugares. Igualmente inútil fora agradecer a Deus o ter feito passar os grandes rios pelas grandes cidades e encalhar os navios nas regiões polares, para assim fornecer aos Groelandeses a lenha com que se aquecessem. Sente-se quão ridículo fora presumir que a Natureza houvesse, de todos os tempos, trabalhado para ajustar-se às nossas invenções artísticas e arbitrárias, mas se evidentemente os narizes não foram feitos para os óculos, foram-no para o olfacto e isso desde que há homens.

  Assim, também, não tendo sido as mãos engendradas para gáudio dos luveiros, destinam-se, evidentemente a todos os usos que o metacarpo, as falanges digitais e os movimentos musculares do punho nos facultam.

  Teólogos há que aplicam a causalidade finalista para justificar a existência de animais nocivos, qual o fazem com as enfermidades e misérias humanas, tudo carregando em conta do pecado original.

  No parecer de Meyer e Stilling, os répteis e os insectos daninhos e venenosos são fruto da maldição que inquina a Terra com os terrícolas. As formas não raro monstruosas de tais seres devem representar a figura do pecado e da perfeição.

  O autor das Cartas a Sofia, O Sr. Aimé Martin, nos sugere a crença de que prevendo o Eterno que o homem não poderia habitar a zona tórrida, nela formou as mais altas montanhas, para aí lhe proporcionar um clima agradável. Mais adiante acrescentava que “se a chuva escasseava nas regiões arenosas, era porque aí se tornaria inútil”.

  Na baixa Normandia é usual despejar-se o cálice do conhaque no café, e eu muitas vezes tive oportunidade de conjecturar que, se ao bom Deus agradou fosse a aguardente mais leve que o café, não seria senão para que ele pudesse arder à tona e desse, assim, mais um aroma à excelente fusão colonial. Há ainda um número infinito de factos não menos importantes, que nos fazem amar as causas finais. Talvez devamos advertir que nem todos se podem atribuir a Deus, e alguns antes parecem artes do diabo, como, por exemplo, o de que nos falava um epicurista amigo, isto é – a condensação nas vidraças, da evaporação nocturna, a formar uma discreta cortina de certas carruagens fechadas.

  Segundo Bernardin de Saint-Pierre, os vulcões, localizados sempre perto dos mares, destinam-se a consumir as matérias corrompidas que carreiam e que poderiam infeccionar a atmosfera. As tempestades têm a virtude de refrescar a mesma atmosfera, etc. Pensava ele, também, que as pulgas nasciam pretas para que as pudéssemos distinguir na brancura de nossa pele e então puni-las. A plumagem retinta dos corvos, na opinião do Sr. Martin, é para que as perdizes e as lebres, de que se alimentam no Inverno, possam percebê-los, de longe, sobre a neve. O eloquente autor do Génio do Cristianismo diz que se vendo, qual pequena flama azulada, fugir a serpente ondulante, facilmente nos convencemos de que foi ela quem seduziu a primeira mulher. O autor das Cartas pré-citadas também afirma que os insectos venenosos são feitos para que o homem desconfie deles.

  É claro que o ideal religioso e a doutrina da Providência nem sempre foram bem servidos pelos seus prosélitos. Quando se apoiam tais sentimentos em motivos assim pueris, e frívolos, corre-se o risco de comprometer a causa perante os semi-sábios, o que vale dizer, a maioria dos espíritos. Tentativas que tais, não logram senão caricaturar o Ser supremo. A propósito de uns tantos filósofos do seu tempo, dizia Duclos: “Essa gente acabará levando-me à missa.” Hoje, diante da opinião de uns tantos devotos, também chegamos a imaginar que esta gente acabará fazendo-nos duvidar da Providência.

  São ideias que pecam, não apenas por falsidade, mas pelo imperdoável estigma do ridículo. Assemelham-se àqueles camponeses de que nos fala Riehl (v), incapazes de ver no mundo outras belezas além das roupas domingueiras das alentadas conterrâneas, que também vestem as imagens em certos dias festivos.

  O próprio Fénelon não se furta à censura. Assim é que nos representa o Sol como regulando expressamente o trabalho e o repouso, as necessidades e os prazeres. Graças ao seu movimento diurno e anual, um único sol basta para toda a Terra. Se fosse maior, à mesma distância, abrasaria, pulverizaria o mundo; se menor, a Terra congelaria, tornar-se-ia inabitável. Se, do mesmo tamanho, estivesse mais afastado, deixaríamos de viver, à mingua de calor. Que compasso, pois, abrangendo no seu círculo o céu e a Terra, teria assinalado medidas tão exactas? De facto, ele não beneficia menos as regiões das quais se afasta, do que o faz àquelas de que se aproxima por favorecê-las com os seus raios... Destarte, a Natureza adornada de diversas maneiras oferece simultaneamente tão variados espectáculos que não dá tempo ao homem para desgostar-se do que possui. Mas, entre os astros diviso a Lua, que parece compartilhar com o Sol o cuidado de nos aclarar. Ei-la que surge, então, com o seu cortejo estelar, no momento exacto em que o Sol vai irradiar noutro hemisfério.”

  Lícito é, certamente, pôr em dúvida o valor absoluto deste raciocínio, pois a partilha uniforme dos dias e das noites só se verifica no equador, para diminuir progressivamente e desaparecer nos pólos, com todas as suas virtudes e benefícios. Se lá, nos pólos, algum dia escreverem para glorificar a Providência, hão de ver que lhe renderão graças pelos dias e noites semestrais.

  Em Mercúrio, ou em Neptuno, hão de concluir que o Sol também está à distância conveniente à eclosão da vida ambiente. Em Júpiter, louvarão o Criador por lhes ter concedido quatro luas, tanto quanto em Saturno agradecerão a dádiva de um anel, que reúne o útil ao agradável, etc.

  Diante de tais argumentos não há que admirar tenha a causalidade final caído no mais absoluto descrédito. Eis aí, contudo – dizia J. B. Biot (vi) – a que extremos levaram a mania, hoje tão comum, de explicar o como e o porquê de todas as coisas naturais, conforme o imperfeito e vago sentimento utilitário que delas possamos ter. Cada qual, assim, regula a previdência da Natureza ao nível das suas luzes, tornando-a mais ou menos louca, na pauta da própria ignorância. Isso nada representaria, uma vez que tais sonhos fossem inculcados pelo seu justo valor e não pretendessem insinuá-los como verdades, como artigos de fé, ao ponto de considerarem os seus autores uma impiedade, quando os tachamos de absurdos.

  “É preciso – opina Montaigne – julgar com muita moderação as coisas divinas. O em que mais se acredita é justamente o que menos se conhece; nem haverá pessoas mais autorizadas do que aquelas que nos contam fábulas, como sejam os alquimistas, os adivinhos, quiromantes, médicos, id gezus omne, aos quais de bom grado eu juntaria, se mo permitissem, uma certa classe de indivíduos que se metem a interpretar e controlar os desígnios de Deus, gabando-se de encontrar as causas de cada acidente e de ver, nos segredos da vontade divina, a razão incompreensível da sua obra. Esbarrados a cada canto, atirados de um lado para o outro, mercê da variedade e discordância contínua dos episódios, nem assim deixam eles de seguir o seu painel, a pintarem com o mesmo lápis o preto e o branco.”

  Por terem sido escritas há quatrocentos anos, estas judiciosas palavras do venerando ancião não deixam de exprimir uma verdade que tem aplicação a cada momento. Elas merecem ser juntas à comparação que o mesmo autor faz do homem com o ganso, que se gloria de ser o “favorito da Natureza” – comparação já por nós desenvolvida (vii) a propósito da vaidade humana, que, sem delonga, construiu o Universo nos moldes da sua fantasia.

  Desde que o homem se deixa arrastar pelo natural pendor de tudo referir a si, torna-se capaz de reduzir o mundo inteiro, para fazê-lo entrar nos seus planos estreitos e mesquinhos.

  O Sol já não é, então, mais que um seu mísero servo; as estrelas não passam de ornamento para decoração do seu cenário e servindo-lhe de roteiro na exploração dos mares. Se a atracção luno-solar, duas vezes por dia, levanta as águas oceânicas, é apenas para facilitar a entrada no Havre dos navios que chegam de Nova-Iorque ou do Rio Amarelo. Se a casca do carvalho excreta o tanino, é para que possamos ter bons couros. Se o bicho-da-seda fia a seda no seu casulo, é para ofertar belos estojos para as mulheres elegantes. O rouxinol saúda a aurora? Então é para o encanto auditivo de quem o ouve. A Natureza inteira, enfim, foi criada visando o homem, e toda ela concorre para ajudá-lo e o fazer feliz.

  É evidente que quando se chega a tais excentricidades, a causalidade final fica singularmente prejudicada. Pretender que tudo tenha sido expressamente criado para o homem é abusar muito ingenuamente da nossa posição.

  Antes de tudo, é preciso distinguir a Natureza em duas partes bem diferentes: o Céu e a Terra.

  O Céu é o espaço infinito, a multidão incalculável de mundos, o conjunto; a Terra, uma gota d'água no oceano, um grão de areia, um átomo. Que o Céu se tenha criado para o habitante da Terra, é ideia absurda, inconcebível. O Céu não conhece a Terra e o homem, por sua vez, não conhece a mínima partícula do Céu. As estrelas são sóis, centros de sistema de outras terras habitadas. Contamo-las por milhões e certificámo-nos de que o nosso planeta lhes é absolutamente desconhecido e insignificante, em relação a elas que ocupam no espaço domínios tão vastos que a própria luz leva milhares de anos para atravessá-los. De maneira que, se o nosso globo deixasse hoje de existir, o seu desaparecimento não seria matematicamente percebido pelos mundos siderais.

  O átomo terrestre turbilhona, célere, em torno do Sol, como a docilidade da funda nas mãos de um gigante. Mil revoluções siderais se completam simultaneamente, no infinito, em todas as latitudes imagináveis e distantes deste átomo... Quando, pois, o homem pretende a imensidade opulenta dos céus desdobrada no vácuo em sua exclusiva intenção; quando fala de princípio e fim do mundo, como se se referisse à sua pessoa, equipara-se a uma formiga que julgasse o campo em que assenta o seu formigueiro, traçado para oferecer-lhe belas perspectivas. As árvores floridas foram destinadas ao prazer da vista e aquela casinha branca, lá mais longe, não foi construída senão para lhe servir de ponto de referência; e finalmente: o proprietário deste campo não cogitou senão dela – formiga inteligente – quando organizou o seu habitat com aqueles jardins, pomares, campos e florestas. Desígnio manifesto. Se, secundariamente, nos restringirmos à Terra, a ideia de uma finalidade criadora é aqui mais particularista e não haverá absurdidade em pretender o homem tenha sido ela construída e organizada para sede da vida e da inteligência. Pode mesmo acrescentar-se que, no plano terreno, o homem é o ser mais elevado. Só ele recebeu o dom da inteligência. Se desaparecesse da Terra, é de crer que esta perderia a sua razão de ser no concerto universal, a menos que não viesse outra raça intelectual suceder-lhe, o que leva a crer tenha sido mesmo destinada para ser habitada.

  Temos precisamente demonstrado, numa obra anterior, que os mundos foram construídos para morada do espírito.

  Considerando, porém, o homem como o último ser nascido entre os seres terrícolas, cujo surgimento sucessivo obedeceu à lei geral do progresso e considerando-o como o mais perfeito da escala, a pressupor-se o centro final – ou pelo menos actual – da evolução terrestre, negamos-lhe, contudo, o direito de atribuir a Deus as suas mesquinhas concepções e supor que as suas mínimas combinações domésticas participaram do plano divino e eterno. Nem é fora de si que ele deverá procurar a razão de sua grandeza: é mesmo naquilo que o distingue, isto é, no seu valor intelectual. Se, por sua inteligência, se apropriou de uns tantos serviços que lhe pode prestar a Natureza, não há confundir essa apropriação com o plano geral.

  A estrela polar não foi criada para nortear navios, mas o navegador soube utilizar-se da sua posição peculiar. O carvalho não foi feito para aproveitar aos cortumes, mas o fabricante descobriu, com a sua inteligência, as propriedades do tanino no tratamento das peles. A púrpura, molusco gastrópodo do Mediterrâneo, não nasceu para tingir o manto real dos potentados, mas a indústria teve como extrair um colorido brilhante das suas conchas. O carneiro, o bicho-da-seda, as aves de pluma, as plantas têxteis, o algodoeiro, o linho, o cânhamo, as minas de ouro, prata, chumbo e níquel, as safiras, rubis, esmeraldas, etc.; tudo enfim – seres e coisas – que a Natureza oferece ao homem, não foi criado nem posto no mundo com fins particularistas, e se o homem se tem progressivamente apropriado dos elementos, é claro que o deve às suas faculdades electivas, à sua inteligência e não a um plano primordial necessário, que se tinha de executar fatalmente e, por assim dizer, à revelia da escolha da indústria humana.

  Expõe-se o homem a cair em erro grosseiro, quando tudo refere a si, mediante um processo incompleto. Mas, negar um plano à Criação só pelo facto de esse plano não se reportar exclusivamente ao homem, é cair noutro erro. Voltaire deplora em belos versos o terremoto de Lisboa e pergunta, com azedume, onde está essa Potência amiga do homem e de que tanto se fala.

  Rousseau responde-lhe, então, que a culpa é só dos homens, pois ninguém lhes mandou edificar num solo assim. Nem um nem outro têm razão. O homem enganou-se no seu egoísmo, nisso estamos de acordo, e até nos propomos evidenciar a fantasia desse método.

  Mas, a falsidade de método não é razão bastante para concluir que o objecto desse método não exista e que o fundo da doutrina seja um erro.

  Ora, isso é justamente o que fazem os materialistas, sem perceberem que se deixam seduzir por uma estranha confusão. Certo, a causalidade final, o conhecimento do plano da Criação, não é tão simples como imaginam os espíritos superficiais. É, assim, de extrema complexidade e apresenta dificuldades quase insuperáveis, mesmo para espíritos mais clarividentes. Nós não assistimos aos desígnios de Deus e não passamos de pobres ignorantes em face de tanta grandeza. Mas, com franqueza, em que pode a nossa incapacidade afectar o princípio das causas? Em que os nossos erros diminuem a ideia da omnipotência criadora? Considerais o homem um ser tão importante para armar este dilema: – ou a Natureza gravita para o homem, ou se conserva em repouso.

  Esqueceis, assim, os vossos próprios princípios e o habitual desdém pelas aspirações humanas, para nos colocar na alternativa de crer que a destinação de tudo converge os seus raios para nós, ou que não haja nenhum desígnio na unidade universal! Mas, não... A verdade é que deixais o ser humano bastante envolto nas gangas da matéria, para o evidenciardes de um jacto no seu aspecto superior. Tendo-o eclipsado muito na sua intelectualidade para poderdes, de improviso, formular essa alternativa. Mas, como explicar a vossa absoluta negação de qualquer plano da Natureza?

  Ei-la aqui, esta grande, pretensa explicação, mediante a qual imaginam suprimir toda a ideia de finalidade geral e particular! Vamos ver que essa explicação é tão frágil quanto as alegações opostas às eternas verdades, e que esses mesmos homens que nos acusam de forjadores de hipóteses, mais não fazem, na verdade, que substituir hipóteses por hipóteses mais complicadas. A diferença principal, entre nós, está em que eles se atolam no seu labirinto escuro, enquanto nós caminhamos em linha recta para o alvo luminoso.
[...]

  Não queremos retomar neste capítulo a questão primária da origem da vida no nosso globo, bem como do seu entretenimento e progresso sob o guante de leis providenciais. Examinámos esta questão sob todos os seus aspectos num capítulo sobre a origem dos seres e chegamos à conclusão inatacável (ver Segunda Parte) de que a vida terrestre é constituída por uma força, única e central para cada ser, condicionando a matéria segundo um tipo do qual o indivíduo deve ser a expressão física. Vimos que a lei do progresso nos seres organizados, da planta ao homem, atesta a inteligência divina e evidencia a presença constante de Deus na Natureza, jamais induzindo à negação de uma potência criadora.

  No nosso caso particular (Plano da Natureza – construção de seres vivos), temos uma afirmação ainda mais directa da acção inteligente na maravilhosa organização dos corpos animados, atento a que esta acção é igualmente necessária nos casos em que as espécies se houvessem sucessivamente transformado em ascensão zoológica (hipótese que está longe de ser admitida) e, naqueles em que o primeiro casal de cada espécie fosse o produto de uma força particular, que não nos é dado apreciar. Temos, assim, o direito de fechar esta controvérsia da adaptação de cada espécie ao seu género de vida com a declaração de que, mesmo supondo uma progressão natural, instintiva, lenta e insensível; uma plasticidade normal do organismo e obediência cega de cada espécie às forças dominantes, a hipótese materialista nada adianta com isso. A apropriação da matéria organizada às causas exteriores demonstraria, simplesmente, uma grande sabedoria nos desígnios e nos feitos do Criador. Se, como acima lhes perguntávamos, os seres fossem de ferro ou de mármore, haveria críticos que com isso se contentariam. E contudo, que sucederia? Qualquer mudança de clima, de temperatura, de ambiente, de alimentação, resultaria numa paragem mortal para essas espécies inflexíveis. O junco verga, enquanto que o carvalho é fustigado pelo aquilão.

  Longe, pois, de ver ausência de pensamento e desígnio nesta flexibilidade maravilhosa do organismo vivo, nesta faculdade imperecível de tirar o melhor partido das circunstâncias mais incómodas, vencer obstáculos e plantar, a despeito de tudo, o estandarte da vida no solo mais agreste e mais ingrato, o que reconhecemos é o depoimento irrecusável da causa omnipotente, que, a partir dos primeiros tempos, houve por bem que os mundos se embalassem harmonicamente na amplidão do infinito e fossem envolvidos nas carícias da vida.

  A inteligência criadora e ordenadora, que denominamos Deus, permanece, portanto, como lei primordial e eterna, força intrínseca, universal, constituindo a unidade viva do mundo. Toda a dificuldade desaparece, substituindo-se a ideia de plano geral à de causalidade humana. Órgãos e funções, espécies e indivíduos, é tudo conduzido na mesma direcção.

  O Universo é o desdobrar de um só pensamento e a unidade de tipo é sensível sob todas as formas particulares da vida terrestre. Em que direcção nos conduz o pensamento eterno?

  É o que tentaremos entrever, ao terminar este estudo sobre a finalidade dos seres e das coisas.

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(ii) Ver Bibliographie Catholique, Mars 1866, página 225.
(iii) Spectacle de la Nature.
(iv) Dictionnaire Fhilosophique.
(v) Die Burgeliche Geseltschaft.
(vi) Mélanges Scientifiques et Litteraires.
(vii) Mundos Reais e Mundos Imaginários parte 2ª, capítulo 5º.


Camille Flammarion, Deus na Natureza, Quarta Parte (4); O Destino dos Seres e das Coisas, (1) Plano da Natureza, [...] Construção dos Seres Vivos, 33º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Jungle Tales (Contos da Selva) 1895, pintura de James Jebusa Shannon)