Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

sábado, 11 de maio de 2024

metapsíquica | humana


~~~ a propósito da mediunidade da Sra. Piper

Passando às experiências feitas com a Sra. Piper, o nosso autor em muito reduz a sua tarefa. Recorre ao sistema de citar tudo o que foi obtido de menos probante e mesmo de negativo com esta médium, principalmente no transcorrer de certos períodos da sua longa carreira profissional, em que nela se verificava uma decadência medianímica, transitória é verdade, mas pronunciada. Nesses momentos, ela não mantinha o seu papel de médium, na verdadeira acepção do termo; tornava-se antes um paciente sonambúlico, sugestionado em determinada direcção ou podendo sê-lo à vontade dos experimentadores, mormente quando estes eram pretensos homens de ciência, mas de tal modo incapazes que, longe de se conservarem passivos, a fim de não provocarem interferências desta natureza, intencionalmente, sugestionavam a médium em transe, por meio de insidiosas interrogações. Obtinham, destarte, justamente o que procuravam, como teriam conseguido com qualquer paciente hipnótico. E esse sistema é tanto mais extravagante, quanto ninguém põe em dúvida a possibilidade de, através de sugestões apropriadas, conseguir-se perturbar e mesmo suprimir as delicadas condições medianímicas, sempre oscilantes, num estado instável de equilíbrio, e transformá-las nas do sonambulismo propriamente dito. Daí a possibilidade de se poder provocar, à vontade, o fenómeno hipnótico da “objectivação dos tipos”. Ora, de uma vez, aconteceu que a Sra. Piper, insidiosamente sugestionada no sentido da “objectivação de um tipo”, o personificou, como fazem os pacientes hipnóticos, enquanto pretenso “Espírito Guia” da médium parecia levar a sério a personificação sugerida; compreende-se, entretanto, que o pretenso “Guia” não era mais do que a personificação subconsciente que, por efeito auto-sugestivo, havia tomado o nome de um “Espírito Guia” autêntico. Como era de prever em tais circunstâncias, nenhuma prova de conhecimentos supranormais de outra natureza foi obtida. Deveria o facto bastar ao experimentador para que ele compreendesse a diferença existente entre um caso de “objectivação de um tipo” e a manifestação de uma personalidade autêntica espírita. Mas o pseudo-sábio não estava à altura para poder discernir; pelo contrário, serviu-se triunfante da sua “admirável” descoberta, para os fins que tinha em vista. E esta se reduzia, evidentemente, a uma verdade elementar, dado ninguém jamais haver contestado que, em determinadas circunstâncias, um médium em transe possa ser transformado em paciente sonambúlico. Se nos quisermos lembrar que o professor Hyslop demonstrou, em polémica memorável, como esses factos devem ser interpretados, chegando a conclusões decisivas, veremos que existe, de sobra, motivo para desânimo ao constatar que, ainda hoje, haja quem persista em ressuscitar essas experiências tolas e deploráveis, como se Hyslop não as houvesse, para sempre, marcado com o ferrete da futilidade.

Enfim, por mais que desta última observação ressalte o esforço ingente de tentar fazer-se ouvir por aqueles que fecham propositadamente os ouvidos, eu venho aqui demonstrar, firmando-me nos factos, que uma série inumerável de casos de identificação de Espíritos de mortos foi conseguida com a medianimidade da Sra. Piper. Esses casos permanecem, de modo absoluto, inexplicáveis pela teoria da “prosopopese-metagnomia”, teoria que longe está de ser nova, pois sob a capa de todos esses neologismos se encontram apenas as antigas hipóteses das “personificações sonambúlicas” e da “clarividência telepática”. A hipótese mesmo da “criptestesia” aí a descobriremos. Empreendendo a tarefa que aqui me incumbe, devo lembrar a máxima, cientificamente sem possibilidade de apelo, de Sir William Crookes, segundo a qual “o valor teórico de cem experiências negativas fica literalmente anulado por uma só experiência positiva bem observada”.

Vou começar por um exemplo que Sudre transcreve no seu livro, embora o faça de modo abreviado, ao ponto de lhe tirar todo o valor teórico:

“George Pelham, incorporado na Sra. Piper, reconhece os seus amigos, dentre as pessoas que lhe são apresentadas, e lhes dirige palavras, como o teria feito quando vivo. É verdade que a prova fracassa quando chega a vez da Srta. Warner, que conhecera menina, mas os esforços que faz para se recordar o lançam sobre a pista de novas provas de identidade.”

O episódio acima parece relatado com fidelidade, mas se tivermos em conta o ponto de vista antiespírita do autor, veremos que foi resumido com “grande habilidade”. Como está, aqueles que desconhecem o texto não podem imaginar que o incidente negativo, ocorrido com a Srta. Warner, contém a prova positiva de que as hipóteses combinadas da “prosopopese-metagnomia” são impotentes para explicar o caso da identificação de George Pelham.

Vamos, por isso, reproduzir o incidente em apreço, relatando integralmente a parte que se prende ao caso.

Como se sabe, à personalidade medianímica de George Pelham foram apresentados, cada um de per si, trinta dos seus antigos amigos, que foram imediatamente por ela reconhecidos, sem que uma só pessoa haja sido com eles confundida. E não só Pelham chamou cada um desses pelos próprios nomes, mas ainda a todos dirigiu a palavra, em tons diferentes, como fazia em vida. (Nós não falamos, aqui na Terra, do mesmo modo com todos os nossos amigos; o carácter da nossa conversa varia de acordo com a categoria das pessoas, com a sua idade, com a intimidade que com elas temos e com a estima ou afeição que a cada uma nos prende.)

Chega, enfim, a vez da Srta. Warner, rapariga que Pelham conhecera pequenina, quando contava apenas 8 anos. Pelham não a reconheceu, perguntando ao Dr. Hodgson quem podia ela ser. Hodgson respondeu que a mãe da jovem era amiga da Sra. Howard, que Pelham havia, com alguma familiaridade, conhecido. Reproduzo o diálogo que, em seguida, se travou entre Pelham e a Srta. Warner:

“G. P. – Não creio ter-vos conhecido muito.

Srta. W. – Muito pouco, com efeito; vínheis algumas vezes visitar a mamã.

G. P. – Devo, portanto, também ter-vos visto.

Srta. W. – Sim, algumas vezes. Vínheis acompanhado do Sr. Rogers.

G. P. – Interessante! Noutro dia, quando pela primeira vez vos notei a presença, pensei, não sei porque, em Rogers.

Srta. W. – Compreendo, mas não falastes.

G. P. – Não obstante isso, não chego a reconhecer-vos e desejava muito reconhecer todos os meus amigos, o que consegui até agora... Talvez me encontre já muito afastado da esfera terrestre. Em suma, não me posso recordar da vossa fisionomia... Deveis estar muito mudada, não é?

Nesse momento interveio o Dr. Hodgson: – “Vejamos, não te lembras, por acaso, da Sra. Warner?”

A mão da médium traduziu uma forte excitação:

G. P. – Sim, sim, de facto dela me lembro; porventura será a sua filhinha?

Srta. W. – Sim, sou eu mesma.

G. P. – Meu Deus, como crescestes!... Oh, eu conheci muito bem a vossa mãe.

Srta. W. – Realmente, ela apreciava muito a vossa conversa.

G. P. – Tínhamos as mesmas aspirações.

Srta. W. – Como escritores?

G. P. – Sim, precisamente. Mas então conhecestes o Sr. Marte?

Srta. W. – Encontrei-me, de facto, algumas vezes com ele.

G. P. – A vossa mãe compreenderá o motivo por que a ele me refiro. Perguntai-lhe se ainda se lembra do livro que lhe emprestei.

Srta. W. – Perguntar-lhe-ei, podeis estar certo.

G. P. – Perguntai-lhe ainda se ela se recorda das nossas longas palestras, à noite, em sua casa.

Srta. W. – Não sei se delas se lembra, mas perguntarei.

G. P. – Quisera ter-vos reconhecido melhor; não podeis imaginar como é agradável voltar ao passado em companhia dos amigos da Terra!

Srta. W. – Eu era ainda muito criança e não seria de esperar que melhor me houvésseis reconhecido.”

Tal foi o interessante episódio do não reconhecimento, por parte de George Pelham, de uma pessoa que conhecera, quando vivo. O Dr. Hodgson faz a seguinte observação:

“Esta sessão, cumpre não esquecer, realizou-se cinco anos depois da morte de Pelham, e este, ao morrer, havia já três ou quatro anos não via a Srta. Warner. Além disso, convém repetir que a Srta. Warner era apenas uma menina quando, pela última vez, Pelham a vira, de quem não podia, portanto, ser o que se chama um amigo particular, devendo ao mesmo tempo ter sensivelmente mudado depois dos 8 anos. Esse episódio interessante, de não reconhecimento por parte de George Pelham, torna-se, portanto, inteiramente natural. O facto, porém, de estar eu perfeitamente informado do nome e do prenome da Srta. Warner e de sabê-la conhecida de Pelham, dá, ao do não reconhecimento, valor do melhor argumento possível, em favor da tese da existência independente de George Pelham, visto contrapor-se à hipótese de uma personalidade secundária, dependente, para as suas informações, da consciência e da subconsciência de pessoas vivas.”

A ninguém escapará que as considerações do Dr. Hodgson encerram, implicitamente, a refutação da hipótese da “prosopopese-metagnomia”, hipótese que é apenas a reprodução, sob denominação nova, das antigas hipóteses a que Hodgson se refere na sua crítica. Repito, portanto, que, se se tratasse de uma “personificação subconsciente”, assistida pelas faculdades clarividentes da médium, a personalidade de que se trata poderia ter colhido das subconsciências dos assistentes as informações necessárias para uma mistificação, ou, por outra, deveria ter reconhecido imediatamente, na moça que tinha diante de si, a menina que Pelham havia conhecido, quando vivo. Por que não o conseguiu, quando lhe foi possível fazê-lo em relação a todos os demais amigos? Que consequências teóricas daí se devem tirar? Se fosse o caso de uma “personificação subconsciente”, esta, em tais circunstâncias, deveria reconhecer a Srta. Warner, sem hesitar. Se, pelo contrário, se tratasse da presença real do Espírito de George Pelham, este não a deveria reconhecer, dado que ele só a havia visto algumas vezes na primeira infância, sendo ela agora uma mulher. Noutros termos: no caso da interpretação espírita dos factos, observa-se uma concordância admirável entre o que se devia passar e o que, de facto, se passou; enquanto que na hipótese oposta se verifica uma discordância desastrosa, que se manifesta precisamente no momento crítico da “corroboração” experimental da hipótese em apreço. Somos, portanto, obrigados a optar pela hipótese que explica realmente os factos e que não pode ser senão a espírita, pois outra não existe, nem pode existir, capaz de explicar casos análogos. Ora, os casos dessa natureza se contam por centenas nas experiências com a Sra.Piper.

Ainda assim, como a fertilidade sofística dos nossos antagonistas não conhece limites, não deixaria de ser útil acautelar-nos, desde já, imaginando as objecções de que poderiam lançar mão. E não descubro mais que duas.

Vejamos a primeira. Poderiam objectar que as investigações metapsíquicas têm demonstrado que o médium ou o sensitivo não percebe senão com grande dificuldade uma coisa pensada, em dado momento, pelo consultante, enquanto que facilmente a apreende desde que este dela tire o sentido; quer isto dizer que os sensitivos lêem, em geral, facilmente no subconsciente dos indivíduos e só com grande dificuldade na sua mentalidade consciente. Poder-se-ia, pois, presumir que, no caso ora examinado, a personalidade sonambúlica não tivesse apreendido as informações pedidas, pelo facto de nelas estar pensando o consultante. A esta objecção especiosa respondo que, se assim fosse, não haveria como explicar os trinta casos dos amigos, anteriormente reconhecidos, não obstante ter cada um deles em mente os seus próprios nomes, prenomes, parentesco e 16 qualidades, exactamente como se dava com a Srta. Warner e com o Dr. Hodgson. A objecção assim formulada não se mantém de pé; tem contra si os factos, que a deitam por terra.

Abordando a segunda das duas objecções presumíveis, percebo bem que poderiam lembrar que, se a “metagnomia” existe, ninguém afirma deva ela exercer-se permanentemente, donde a possibilidade de não haver ela funcionado no caso em litígio. Que seja. Admitamo-lo, embora aquele diálogo medianímico contenha outras coisas, que merecem ser esclarecidas, além do detalhe que nos prende; mas admitamo-lo, por um momento, ao menos para vermos surgir, formidável, a outra ponta do dilema. De facto, se para o caso que agora nos interessa a metagnomia não funcionava, qual a origem dos detalhes verídicos dados, de conta própria, pelo comunicante? Não; não há fugir: ou admitimos que a metagnomia funcionou e então prova decisiva nos é dada da sua impotência para explicar os casos de identificação espírita, análogos ao citado, ou sustentamos que a metagnomia não funcionou e evidente se torna que as provas de identificação pessoal, fornecidas pelo comunicante, provinham do Espírito do morto que, ali, se declarava presente. Para este dilema outra solução não existe.

Tendo, de modo completo e decisivo, elucidado este primeiro caso contrário à tese “prosopopese-metagnomia” e a todas as outras hipóteses naturalistas forjadas até hoje para explicar os casos de identificação espírita, venho trazer outros exemplos do mesmo género, tirados todos das experiências feitas com a Sra. Piper, limitando-me a fazê-los acompanhar apenas de certos esclarecimentos, por isso que a todos se adaptam aos comentários de ordem geral, que acabo de fazer.

No caso que se segue, a circunstância inconciliável com a hipótese da “prosopopese-metagnomia” consiste em que a personalidade comunicante se equivoca sobre a significação de uma pergunta a ela feita pelo experimentador e responde, citando factos que, embora exactos e apropriados, não correspondem à pergunta; entretanto, rectifica o erro, logo que o percebe.

No decorrer de uma sessão, a que assistia o professor James Hyslop, manifestou-se uma entidade que dizia ser Carruthers, tio do professor. Pergunta-lhe este:

“– Poderás dizer-me algo sobre um passeio de carro que ambos fizemos, pouco tempo depois da morte de meu pai?

– Lembras-te, James, da epígrafe colocada...

– Colocada... onde?

– Sobre o túmulo.

– Sim, meu tio, mas sobre que túmulo?

– Sobre o túmulo de teu pai.

– Sim, lembro-me perfeitamente.

– É a esse passeio de carro que te queres referir?

– Não.

– Aludes, então, à visita que juntos fizemos a Nannie?

– Também não. Diz-nos o que se passou connosco durante um passeio.

– Ah! Julgava que aludias ao dia em que colocamos a epígrafe sobre o túmulo... mas vejo que estamos a pensar em duas coisas diferentes... Deixa-me reflectir. Queres falar da tarde de um domingo...

– Sim, meu tio, é isso mesmo.

– Recordo-me agora; e tu... lembras-te do acidente...

(Esta palavra está em lugar de ruptura; assim explicou o “Espírito-guia” Rector, que, como se sabe, prestava-me a servir de intermediário, com o fim de facilitar as comunicações.)

– Ruptura está muito bem; continua.

– Espera um pouco, James, eu disse que tinha havido uma ruptura e eu a liguei com a... Peguei uma faca e fiz um furo, depois, como nos foi possível, consertamos as rédeas com um cordel...

(Aqui Rector intervém novamente, dizendo: “Ele experimenta tão grande emoção que eu não consigo apanhar-lhe todas as palavras.”) E logo depois a entidade Carruthers recomeçou a expor, em frases entrecortadas, mas de modo claro e minucioso, o incidente em todos os seus detalhes.”

O Prof. Hyslop comenta:

“O incidente do nosso passeio ao cemitério, para ver o epitáfio que havia mandado colocar no túmulo de meu pai, é verdadeiro e verificou-se um ano depois da morte deste. Mas eu o tinha completamente esquecido e dele só me lembrei depois que o Espírito de meu tio a ele se referiu. É claro, pois, que absolutamente eu não pensava nele, quando fiz a pergunta. Uma circunstância interessante do diálogo está no facto de a entidade perceber em determinado momento que nós estávamos a pensar em duas coisas diferentes e de assinalá-lo imediatamente...” (American Proceedings, vol. IV, págs. 536-537.)

Trata-se, é certo, de um detalhe teoricamente importante, na sua espontaneidade sugestiva. Dá ele impressão do fragmento de uma conversa entre duas pessoas vivas, que se não houvessem, desde logo, bem compreendido. Esses incidentes parecem de pouca monta, mas sob o ponto de vista teórico têm alta significação em favor da existência real de duas mentalidades independentes, enquanto que se não poderiam de modo algum enquadrar dentro da hipótese da “prosopopese-metagnomia”. Acresce que eles correspondem exactamente aos incidentes não menos insignificantes que, nos tribunais de justiça humana, servem para esclarecer os juízes e o fazem ao ponto de determinar a condenação ou a absolvição do réu.

Neste outro episódio análogo, a personalidade medianímica, dizendo-se o Dr. Hodgson, engana-se sobre o sentido de uma pergunta que lhe é feita pela Sra. William James, esposa do célebre psicólogo.

A Sra. James nunca havia estado em casa do Dr. Hodgson, enquanto ele vivo, e apenas uma vez, depois dele morto. Pensando nessa visita, perguntou-lhe ela:

“– Podeis dizer-me quando estive em vossa casa?  

– Vós, em minha casa! Para tomar chá?

– Não.

– Para consultar documentos, talvez?

– Também não.

– Quem sabe, então, se depois de minha morte?

– Sim, para buscar objectos que vos tinham pertencido...

– Muito bem; eis uma boa prova. Lodge e Piddington ligam grande importância aos incidentes em que me não posso lembrar das coisas que não aconteceram...”

(Proceedings, vol. XXII, pág. 103.)

Esta última reflexão do Dr. Hodgson constitui um traço bem característico do experimentado psiquista, quando vivo. Com efeito, sob o ponto de vista teórico, deve ligar-se importância máxima aos casos em que a entidade comunicante não se deixa sugestionar pelas perguntas, declarando não se lembrar, sempre que tal acontece. E quando se trata, como no caso supra, de um falso indício, que tende insinuar a ideia de incidentes pessoais precisos, esquecidos pelo comunicante, mas que, na realidade, nunca aconteceram, a coisa reveste-se ainda de maior importância, diante da sugestão, nesses casos, forte bastante para ser acolhida até mesmo por pessoas vivas e normais. O facto, em tal circunstância, de não se lembrar de coisas que não se deram, demonstra a presença de uma individualidade independente que, naturalmente, não deve ser outra senão a do defunto, que se diz presente.

Há ainda a observar a natural espontaneidade do diálogo. Já pela primeira exclamação: “Vós, em minha casa!”, Hodgson mostra claramente não se recordar que a Sra. James tenha ido vê-lo; já porque, não confiando demasiadamente na sua memória de Espírito comunicante, ele continua a questionar com certa perplexidade, como o teria feito, com a maior simplicidade, qualquer mortal. Sob o nosso ponto de vista, é evidente que, se se tratasse de “prosopopese-metagnomia”, a personalidade, neste caso mistificadora, teria imediatamente discernido a intenção da Sra. James, ao invés de procurar alcançá-la por meio do critério eliminatório.

Seguem-se dois incidentes análogos e interessantes que, pela preocupação de ser breve, exporei, aproveitando-me do excelente resumo feito por M. Sage, no trabalho por ele consagrado às experiências da Sra. Piper:

“Quando vivia no Estado de Ohio, o Sr. Robert Hyslop, pai do Prof. Hyslop, tinha por vizinho um certo Samuel Cooper. Os cães deste último mataram, certo dia, alguns carneiros de Robert Hyslop, o que provocou, entre ambos, uma desavença, que durou anos. Numa sessão, onde se manifestava uma entidade que dizia ser a de Robert Hyslop, o Dr. Hodgson, que substituía o Prof. Hyslop, fez àquele uma pergunta, que este último lhe havia enviado por escrito, pretendendo, por ela, chamar a atenção do pai sobre os incidentes da sua vida em Ohio. A pergunta era assim concebida: “Lembras-te de Samuel Cooper e a respeito poderias dizer-nos alguma coisa?” O comunicante respondeu: “James quer referir-se ao velho amigo que eu tive no Oeste. Recordo-me perfeitamente das visitas que mutuamente nos fazíamos, e das longas palestras em que nos entretínhamos sobre assuntos filosóficos.” Noutra sessão, onde o Dr. Hodgson ainda estava só, ele voltou ao assunto: “Eu tive um amigo chamado Cooper, cujo espírito apresentava uma feição muito filosófica; nutria por ele um grande respeito. Tivemos oportunidade de muitas vezes, como amigos, discutir; trocamos mesmo muitas cartas, algumas das quais guardei, que talvez possam ser ainda encontradas.” Noutro dia, estando então presente o Prof. Hyslop, o comunicante disse ainda: “Procurei lembrar-me da escola de Cooper.” E no dia imediato, mais uma vez tornou: “Tu me perguntaste, James, o que eu sabia de Cooper: pensaste, por acaso, que ele tivesse deixado de ser meu amigo? Havia guardado algumas das suas cartas, que julgava estivessem contigo.”

Em tudo isso o Prof. Hyslop não encontrava qualquer sinal de Samuel Cooper. Não sabia mesmo que pensar a respeito, quando, por uma pergunta directa, procurou conduzir o pai ao assunto que ele tinha em mente:

– Queria saber – disse ele – se te lembras dos cães que mataram os nossos carneiros.

– Oh, lembro-me perfeitamente, mas me havia esquecido. Foi a causa da desavença entre Samuel Cooper e eu. Mas eu não pensei nele, desde logo, porque não era dos meus parentes nem dos meus amigos. Se eu tivesse compreendido que era dele que querias falar, teria feito um esforço para me recordar. Ele está aqui, mas eu o distingo apenas vagamente.

Este episódio é interessante. Tudo o que Robert Hyslop havia dito até então relativamente a Cooper, nada se referia a Samuel, mas a um velho amigo seu, o Dr. Joseph Cooper. Robert Hyslop havia tido efectivamente com ele numerosas discussões filosóficas e comummente se correspondiam. O Prof. Hyslop talvez tivesse ouvido pronunciar o nome desse homem, mas ignorava completamente houvesse sido íntimo do seu pai. Foi a sua madrasta que lhe forneceu tais pormenores no decorrer das investigações que fez, junto dos seus, com o fim de esclarecer os incidentes das sessões, para ele obscuros. Nota-se que, como nós, os desencarnados são passíveis de se enganarem.

Vou passar, agora, ao incidente certamente mais dramático do caso. O Prof. Hyslop, lembrando-se que o seu pai dava o nome de “catarro” à sua última doença, enquanto que ele, James Hyslop, pensava tratar-se de um cancro da laringe, fez-lhe calculadamente uma pergunta para trazer à baila a palavra “catarro”. Para isso, serviu-se de um termo de que não temos o equivalente, tendo, ao mesmo tempo, dois sentidos, o que impede traduzir a pergunta à letra. Efectivamente a palavra trouble tanto pode significar aflição física como mal-entendido. Deu isso lugar a um curioso equívoco da parte do comunicante, equívoco que a hipótese da telepatia dificilmente poderá explicar. Este, denotando grande espanto, disse:  

– Eu não me recordo, James, de jamais haver existido, entre nós, qualquer mal-entendido; se me não falha a memória, tivemos sempre um pelo outro viva simpatia. Não me lembro de nenhum mal-entendido. Diz a que respeito se deu ele; mas deves estar enganado, deve ter sido, certamente, com outra pessoa.

– Compreendeste mal, meu pai; quero referir-me à doença.

– Ah! então bem, isso sim; eu sofria do estômago.

– Não sofrias, por acaso, de outra coisa?

– Sim, do estômago, do fígado e da cabeça. Tinha grande dificuldade de respirar; o meu coração, James, o meu coração me fazia sofrer bastante. Não te recordas com que dificuldade eu respirava? Creio, mesmo, que era o meu coração o que mais me fazia sofrer; o coração e os pulmões. Tinha a impressão de que alguma coisa me constringia o peito e me sufocava. mas, por fim... adormeci.

Um pouco depois acrescentou:

– Sabes que a última coisa de que me lembro foi de te ouvir falar: Foste o último a falar. Recordo-me perfeitamente de haver visto o teu rosto, mas estava já demasiado fraco para poder dizer alguma coisa.

Este diálogo desconcertou o Prof. Hyslop, que viu baldados todos os esforços no sentido de obter do pai o nome da doença, que este julgava ter nos últimos tempos de vida. Só um pouco mais tarde, ao redigir a acta da sessão, foi que notou haver o pai descrito, em termos muito seus, as suas últimas horas de vida. O médico havia constatado uma dor no estômago, às 7 horas da manhã; às 9:30 o bater do coração tornou-se menos sensível; pouco depois, a dificuldade de respirar era enorme e o moribundo expirava. Cerrando-lhe os olhos, o filho, James Hyslop, disse: “Tudo está acabado”. Foi o último a falar. Este incidente parece indicar que a consciência nos moribundos dura muito mais tempo do que, em geral, se pensa.” (M. Sage – Mme. Piper, etc., págs. 201-295.)

É de notar que, neste último caso, além dos episódios onde o comunicante se engana na interpretação das perguntas que lhe são feitas, respondendo de acordo – atitude inexplicável pela hipótese da “prosopopese-metagnomia” –, um se apresenta, análogo ao precedentemente citado, em que o comunicante não se deixa sugestionar pelas perguntas; levado por estas a supor que se não pode lembrar dos acontecimentos importantes de sua vida, sente-se tão senhor de si mesmo, que recusa admitir esse esquecimento. Com efeito, o comunicante Robert Hyslop, tendo-se equivocado sobre a significação de uma palavra e crendo que o seu filho fizesse alusão a um mal-entendido ocorrido entre ambos, diz com verdadeira surpresa: “Não me recordo, James, de jamais haver existido, entre nós, o menor mal-entendido. Se me não falha a memória, sempre tivemos, um pelo outro, a mais viva simpatia. Não me lembro de nenhum mal-entendido. Diz a que respeito se deu ele; mas deves estar enganado, deve ter sido certamente com outra pessoa.” A espontaneidade eloquente dessa linguagem a ninguém deixará de impressionar, assim como a importância teórica de episódios semelhantes, somente explicáveis com o auxílio da hipótese espírita.

Neste outro exemplo, de que nos vamos ocupar, a inaplicabilidade da hipótese da “prosopopese-metagnomia” ressalta do facto de a personalidade do comunicante chegar às últimas particularidades de que se lembra, sobre o leito de morte, e que coincidem com alguns dos seus movimentos, indicando a própria consciência, sem invadir o campo das recordações complementares, presentes no pensamento do interlocutor, recordações efectivamente pouco conciliáveis com as condições comatosas em que se encontrava o moribundo.

Numa sessão muito interessante, onde a entidade comunicante era a finada esposa do professor Hyslop, ela disse, dirigindo-se ao marido:

“Lembras-te da noite anterior à minha morte? Estavas sentado comigo, ou antes, perto de mim; mas, a não ser disso, de bem pouco mais me recordo.

– Lembro-me perfeitamente, Maria.

– E tu tomaste a minha mão; não foi?

– Sim, exactamente.

– E eu me recordo, ao contrário, de muito pouca coisa.

(Não tendo sido esta última frase enunciada claramente, Rector explica que ela queria dizer que se lembrava muito pouco do incidente e que ele se devia recordar melhor.)”

O Prof. Hyslop comenta:

“A minha mulher piorara na manhã de sexta-feira. Havia passado ao estado de inconsciência (dentro do que era possível presumir) na noite de quarta-feira, às 11 horas, e assim permaneceu, pelo menos aparentemente, até à morte. Na tarde de quinta-feira, se não me engano (o que não é provável, por haver de tudo tomado nota logo após o falecimento), encontrando-me à sua cabeceira, tomei-lhe a mão e fiquei surpreendido de constatar que, se eu fazia determinado sinal, ela demonstrava dele ter consciência, de modo evidente... Para não diminuir o valor de ulteriores alusões, da parte dela, e ainda possíveis, sobre esse incidente, abstenho-me de dizer como me conduzi nessa ocasião. Basta se saiba, por enquanto, que o conteúdo da mensagem é exacto, parecendo apenas, como é provável e natural, que ela se lembra de bem pouca coisa além dos pormenores comunicados... Nestas condições, como poderia a telepatia chegar a circunscrever os limites do estado de coma, em que se encontrava a suposta comunicante, ao ponto de saber distinguir os detalhes conciliáveis com as condições em que se encontrava, daqueles que só por mim podiam ter sido apreendidos? Por que não fornecer os outros pormenores complementares? Por que parar tão oportunamente?” (American Proceedings of the S.P.R.; vol. IV, pág. 545.)

De facto, se pensarmos que os detalhes complementares estavam presentes no espírito do consultante, nem mais nem menos que os outros observados, não poderíamos compreender o mistério de uma selecção tão sábia da parte da... “prosopopese-metagnomia”.

Longa já vai a lista dos exemplos que opus às malfadadas hipóteses aqui combatidas; resumirei, portanto, mais dois apenas.

Nas sessões experimentais da Srta. Macleod, uma irmã desta, de nome Etta, manifestou-se quando ainda viva e atormentada pelo mal que a devia levar ao túmulo, julgava ela sofrer de uma doença do estômago; as demais pessoas da família sabiam, entretanto, tratar-se de uma doença do coração. Ora, na mensagem medianímica, ela, entre outras, faz alusão à causa da sua morte, atribuindo-a a uma doença do estômago. (Proceedings of the s.P.R., vol. XIII, pág. 351.)

Como conciliar esse género de erros com a hipótese da “prosopopese-metagnomia”? A Srta. Macleod conhecia a verdade, os familiares ausentes também a não ignoravam; nem a metagnomia com os presentes nem com os ausentes, bastaria para elucidar o incidente.

Difícil ainda seria harmonizar a “prosopopese-metagnomia” com este outro incidente. No admirável caso de identificação dos gémeos do casal Thaw, o “Espírito-guia” Phinuit, que afirmava os estar a ver exactamente como se apresentavam em vida, equivocou-se, julgando fosse um menino a menina Ruthy; ora, enquanto eles vivos, toda a gente que via a menina Ruthy tomava-a por um menino. (Proceedings, vol. XIII, pág. 384.)

A confissão feita por Phinuit não precisa ser comentada, desde que tomemos à letra a sua própria afirmação de estar a ver os gémeos, exactamente como eram em vida; mas nada se explicaria, ao contrário, pelas hipóteses da “prosopopese-metagnomia”, se considerarmos que os pais, presentes, conheciam bem o sexo da filhinha e deveriam, por conseguinte, ter telepaticamente influído sobre Phinuit.

Antes de nos despedirmos dos casos que se relacionam com a medianimidade da Sra. Piper, convém abordar um outro facto negativo, sobrevindo nas experiências com essa médium. Sudre a ele liga grande importância, encarando-o como prova decisiva, em apoio da sua tese. Mal se concebe não tenha percebido que, embora negativo, desastroso é ele para as hipóteses da “prosopopese-metagnomia”.

A personalidade medianímica, que afirmava ser o Espírito de Myers, não conseguiu revelar o conteúdo de um invólucro lacrado, pelo eminente psiquista deixado antes de morrer, a fim de poder, depois de morto, provar, medianimicamente, a própria identidade. Daquilo que, sob o ponto de vista espírita, pode ser facilmente explicado, com o auxílio das considerações feitas pelo Prof. Hyslop, relativamente às interferências perturbadoras que se produzem no acto da comunicação, não nos ocuparemos por enquanto. O que urge deixar bem claro é que, depois de diversas tentativas, os directores da Society for Psychical Research, depositários do invólucro, decidiram abri-lo e tomar conhecimento do seu conteúdo. Se a medianimidade da Sra. Piper consistisse realmente numa forma de metagnomia combinada com a prosopopese, deveria ela ter desalojado o famoso segredo, ao menos de uma das subconsciências que então já o possuíam, e isso com tanto maior razão, quanto os detentores do segredo se encontravam habitualmente presentes nas sessões realizadas posteriormente. Não obstante, nada foi revelado.

O mesmo se pode dizer do caso do Sr. Blodgett, e este com a circunstância notável de, constatado o insucesso e aberto o invólucro, continuar ele as sessões com o fim deliberado de, ainda que demasiado tarde, obter qualquer manifestação a respeito. Renovaram-se as tentativas também da parte da personalidade comunicante, ou da médium em transe, se preferirem, para a revelação do conteúdo já conhecido do Sr. Blodgett e do Prof. W. James, mas tudo resultou também inútil.

Como vimos, mesmo nos dois últimos casos com a Sra. Piper, em que as circunstâncias eram em extremo favoráveis, não conseguiu essa médium captar telepaticamente o pensamento consciente ou subconsciente dos assistentes ou dos ausentes. Quer isto dizer que nos casos com a Sra. Piper a hipótese da “prosopopese-metagnomia” foi ainda uma vez rebatida pelos factos, que se encarregaram de demonstrar que os incidentes de identificação pessoal de defuntos, que se produziram por intermédio dessa médium, devem ser considerados como autenticamente espíritas.

Ainda uma observação. Os casos acima, que na sua totalidade representam variadas formas de manifestações inexplicáveis por qualquer uma das hipóteses naturalistas, oferecem-nos o ensejo de formular uma conclusão de ordem geral, mas de excepcional valor teórico a que cheguei, isto é, que a repulsa que se verifica no campo dos metapsiquistas puros pela explicação espírita dos casos de identificação dos mortos deve ser atribuída, principalmente, à circunstância de ali estarem sinceramente convencidos de que o simples facto da existência da metagnomia (ou clarividência ou criptestesia, se mais preferem) torna supérflua a hipótese espírita, por poderem explicar cientificamente todos os casos dessa natureza por meio das faculdades supranormais inerentes à subconsciência humana. Mas absolutamente assim não é. Aquela opinião, fruto de uma análise superficial dos factos, não passa de um preconceito deplorável, de um erro evidente, que precisa ser combatido com energia, se quisermos que as investigações metapsíquicas enveredem pela senda de uma orientação menos partidária.

Vimos, com efeito, que em todas as circunstâncias análogas às que tive ocasião de citar, de casos de identificação pessoal de mortos, os mesmos não são absolutamente explicáveis pela metagnomia. Vimos, ao mesmo tempo, que nas circunstâncias acima referidas se podem facilmente discernir os casos autenticamente espíritas dos que o não são, ou mais precisamente, dos que não apresentam suficientes garantias nesse sentido.

Longe, portanto, de concordarmos que graças a “prosopopese-metagnomia” se conseguem explicar os casos de identificação de mortos, deveremos concluir que todos os casos de identificação de mortos, com episódios análogos aos que por mim foram aqui citados, devem ser considerados autenticamente espíritas, como experimentalmente têm sido demonstrados.

Aqueles que sustentam o contrário precisam justificar as suas opiniões, refutando, com argumentos, os argumentos por nós até aqui expostos, e também os que se vão seguir.

/…
(Nesta obra, de natureza puramente científica, Bozzano faz uma minuciosa análise com o objectivo de refutar a obra anti-espírita de René Sudre, “Introdução ao Estudo da Metapsíquica". Desenvolvendo argumentação insofismável sobre aparições junto ao leito de morte, fenómenos de materialização e outros, o autor demonstra que a “prosopopese-metagnomia”, hipótese fundamental sustentada por Sudre, para explicar as manifestações metapsíquicas de efeitos inteligentes, de modo algum atinge o fim que teve em vista o autor.)


Ernesto Bozzano (1862-1943) (i), A propósito da Introdução à Metapsíquica Humana, Refutação do livro de René Sudre – Título Original em Italiano; Ernesto Bozzano - Per la difesa dello spiritismo (A proposito della "Introduction à la Métapsychique Humaine" di René Sudre) Società Editrice Partenopea, Napoli (1927); II – A propósito da mediunidade da Sra. Piper, 2º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Puro aire, uma pintura de Josefina Robirosa)

terça-feira, 23 de abril de 2024

Léon Denis e o Cristianismo ~


Relações com os Espíritos dos Mortos

(I de II)

  Os primeiros cristãos comunicavam-se com os Espíritos dos mortos e deles recebiam ensinamentos. Não há nenhuma dúvida sobre este ponto, porque são abundantes os testemunhos. Resultam dos próprios textos dos livros canónicos, textos que conseguiram escapar às vicissitudes dos tempos e cuja autenticidade é indubitável. (ii)

  O Cristianismo repousa inteiramente em factos de aparição e manifestação dos mortos e fornece inúmeras provas da existência do mundo invisível e das almas que o povoam.

  Estas provas são igualmente abundantes no Antigo e no Novo Testamento. Num, como no outro, se encontram aparições de anjos (iii) dos Espíritos dos justos, avisos e revelações feitos pelas almas dos mortos, o dom de profecias (iv) e o dom de curar. (v) No Novo Testamento são referidas as aparições do próprio Jesus, depois do seu suplício e sepultura.

  A existência do Cristo havia sido uma constante comunhão com o mundo invisível. O filho de Maria era dotado de faculdades que lhe permitiam conversar com os Espíritos. Estes, muitas vezes, se tornavam visíveis a seu lado. Os seus discípulos viram-no, assombrados, conversar um dia no Tabor com Elias e Moisés. (vi)

  Nos momentos críticos, quando uma questão o embaraça, como no caso da mulher adúltera, ele evocava as almas superiores e com o dedo traçava na areia a resposta a dar, do mesmo modo que nos nossos dias o médium, movido por força estranha, traça caracteres na ardósia.

  Estes factos são conhecidos, relatados, mas muitos outros, relacionados com esta troca assídua com o invisível, permaneceram ignorados dos homens, mesmo daqueles que o cercavam.

  As relações do Cristo com o mundo dos Espíritos afirmam-se pelo amparo constante que do Além recebia o mensageiro divino.

  Por vezes, apesar da sua coragem, da abnegação que inspiram todos os seus actos, perturbado pela grandeza da tarefa, ele eleva a alma a Deus; ora, implora novas forças e é atendido. Um grandioso sopro lhe bafeja a mente. Sob um impulso irresistível, ele reproduz os pensamentos sugeridos; sente-se reconfortado, socorrido.

  Nas horas solitárias, os seus olhos distinguem letras de fogo que exprimem as vontades do céu; (vii) soam vozes aos seus ouvidos, trazendo-lhe resposta às suas ardentes preces. São a transmissão directa dos ensinos que deve divulgar, são preceitos regeneradores para cuja propagação baixara à Terra. As vibrações do pensamento supremo que animam o Universo lhe são perceptíveis e lhe incutem esses eternos princípios que espalhará e que jamais se hão de apagar da memória dos homens. Ele percebe melodias celestes e os seus lábios repetem as palavras escutadas, sublimes revelações, mistério ainda para muitos seres humanos, mas para ele a confirmação absoluta dessa constante protecção e das intuições que lhe provêm dos mundos superiores.

  E quando essa grande vida terminou, quando se consumou o sacrifício, depois que Jesus foi pregado na cruz e baixou ao túmulo, o seu Espírito continuou a afirmar-se através de novas manifestações. Essa alma poderosa, que em nenhum túmulo poderia ser aprisionada, aparece aos que na Terra havia deixado tristes, desanimados e abatidos. Vem dizer-lhes que a morte não é nada. Com a sua presença lhes restitui a energia, a força moral necessária para cumprirem a missão que lhes foi confiada.

  As aparições do Cristo são conhecidas e tiveram numerosos testemunhos. Apresentam analogias flagrantes com as que nos nossos dias são observadas em diversos graus, desde a forma etérea, sem consistência, com que aparece a Maria Madalena e que não suportaria o mínimo contacto, até à completa materialização, tal como a pôde verificar Tomé, que tocou com a sua própria mão as chagas do Cristo. (viii) Daí esse contraste nas palavras de Jesus: “Não me toques” – diz ele a Madalena – ao passo que convida Tomé a pôr um dedo nos buracos dos cravos: “Chega também a tua mão e mete-a em mim”.

  Jesus aparece e desaparece instantaneamente. Entra numa casa com as portas fechadas. Em Emaús conversa com dois dos discípulos, que não o reconhecem e, desaparece repentinamente. Encontra-se de posse desse corpo fluídico, etéreo, que há em todos nós, corpo subtil que é o invólucro inseparável de todas as almas e que um alto Espírito como o seu soube dirigir, modificar, condensar, rarefazer à vontade. (ix) E a tal ponto o condensa, que se torna visível e tangível aos assistentes.

  As aparições de Jesus depois da morte são mesmo a base, o ponto capital da doutrina cristã e foi por isso que São Paulo disse: “Se o Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé.” O Cristianismo não é uma esperança, é um facto natural, um facto apoiado no testemunho dos sentidos. Os apóstolos não acreditavam só na ressurreição; estavam convencidos dela.

  E é por esta razão que a sua prédica adquiria aqueles tons veementes e penetrantes, que incutia uma convicção robusta. Com o suplício de Jesus o Cristianismo era ferido em pleno coração. Os discípulos, consternados, estavam prestes a se dispersarem.

  O Cristo, porém, lhes apareceu e a sua fé tornou-se tão profunda que, para a confessar, afrontaram todos os suplícios. As aparições do Cristo depois da morte asseguraram a persistência da ideia cristã, oferecendo-lhe como base todo um conjunto de factos.

  A verdade é que os homens lançaram a confusão sobre estes fenómenos, atribuindo-lhes um carácter miraculoso. O milagre é uma postergação das leis eternas fixadas por Deus, das obras que são da sua vontade e, seria pouco digno da suprema Potência exceder da sua própria natureza e variar nos seus decretos.

  Jesus, conforme a Igreja, teria ressuscitado com o seu corpo carnal. Isso é contrário ao texto primitivo do Evangelho. As aparições repentinas, com mudanças de forma, que se produzem em lugares fechados, não podem ser senão manifestações espíritas, fluídicas e naturais. Jesus ressuscitou, como ressuscitaremos todos, quando o nosso espírito abandonar a prisão de carne.

  Em Marcos e Mateus e, na descrição de Paulo (l Coríntios, XV), estas aparições são narradas do modo mais conciso. Segundo Paulo, o corpo do Cristo é incorruptível; não tem carne nem sangue. Esta opinião procede da mais antiga tradição. A materialidade só veio mais tarde, com Lucas. A narrativa complica-se então e é enfeitada com particularidades maravilhosas, no intuito evidente de impressionar o leitor. (x)

  Este modo de ver, como em geral toda a teoria do milagre, resulta de uma falsa interpretação das leis do Universo. O mesmo acontece com a ideia do sobrenatural, que corresponde a uma concepção deficiente da ordem do mundo e das normas da vida. Na realidade, nada existe fora da Natureza, que é a obra divina na sua majestosíssima expansão. O erro do homem provém da acanhada ideia que ele faz da Natureza e das formas da vida, limitadas para ele à esfera traçada pelos seus sentidos. Ora, os nossos sentidos apenas abrangem uma porção muitíssimo restrita do domínio das coisas. Além destes limites que eles nos impõem, a vida desdobra-se sob aspectos ricos e variados, sob formas subtis, quintessências, que se graduam, se multiplicam e renovam até ao infinito.

  A este domínio do invisível pertence o mundo fluídico, povoado pelos Espíritos dos homens que viveram na Terra e se despojaram do seu invólucro grosseiro. Subsistem eles sob essa forma subtil de que acabamos de falar, forma ainda material posto que etérea, porque a matéria afecta muitos estados que não nos são familiares. Essa forma é a imagem, ou antes, o esboço dos corpos carnais que estes Espíritos animaram nas suas vidas sucessivas. Eles passam, mas a forma permanece, como a alma, de que é o organismo indestrutível.

  Os Espíritos ocupam posições diferentes em harmonia com a sua elevação moral. A sua irradiação, o brilho, o poder, são tanto maiores quanto mais alto houverem subido na escala das virtudes, das perfeições e, quanto maior tiver sido a sua dedicação em servir à causa do bem e da Humanidade. São estes seres, ou Espíritos, que se manifestam em todas as épocas da História e em todos os lugares, tendo como intermediários sensitivos especialmente dotados e que, conforme os tempos, se chamaram adivinhos, sibilas, profetas ou médiuns.

  As aparições que assinalam os primeiros tempos do Cristianismo, como as épocas bíblicas mais longínquas, não são fenómenos isolados, mas a manifestação de uma lei universal, eterna, que presidiu sempre às relações entre os habitantes dos dois mundos, o mundo da matéria grosseira, a que pertencemos e, o mundo fluídico invisível, povoado pelos Espíritos dos que denominamos, tão impropriamente, de mortos. (xi)

  Foi apenas em época recente que esta ordem de manifestações pôde ser estudada pela Ciência. Graças às observações de numerosos sábios, a existência do mundo dos Espíritos foi positivamente estabelecida e as leis que o regem foram determinadas com certa precisão.

  Conseguiu reconhecer-se a presença, em cada ser humano, de um duplo fluídico que sobrevive à morte, no qual foi reconhecido o envoltório imperecível do Espírito. Este duplo, que já se desprende durante o êxtase e o sono, que se transporta e opera à distância durante a vida, torna-se, depois da separação definitiva do corpo carnal e, de um modo mais completo, o instrumento fiel e o centro das energias activas do Espírito.

  Mediante este invólucro fluídico é que o Espírito preside a tais manifestações de além-túmulo, que já não são segredo para ninguém, desde que comissões científicas lhe estudaram os múltiplos aspectos, chegando a pesar e fotografar os Espíritos, como o fizeram W. Crookes com o Espírito de Katie King, Russell Wallace e Aksakof com os de Abdullah e John King. (xii)

  É provável que o dom das línguas, conferido aos apóstolos, oferecesse analogias com o fenómeno que, sob o nome de xenoglossia, actualmente conhecemos. A força ódica de Reichenbach e a matéria radiante explicam a auréola dos santos; as chamas ou “línguas de fogo”, que apareceram no dia de Pentecostes, reproduzem-se hoje em dia nos factos comunicados ao Congresso Espiritualista de 1900 pelo Doutor Bayol, senador pelo Distrito das Bocas do Ródano, (xiii) e finalmente as visões dos mártires são fenómenos da mesma ordem que os no nosso tempo observados no momento da morte de certas pessoas. (xiv) Assim, também, o desaparecimento do corpo de Jesus do sepulcro em que fora depositado, pode explicar-se pela desagregação da matéria, observada há alguns anos em sessões de experimentação psíquica. (xv)

  Durante muito tempo os homens não viram nisso senão factos miraculosos, provocados pelo próprio Deus ou pelos seus anjos, opinião cuidadosamente alimentada pelos padres, a fim de impressionar a imaginação das massas e torná-las mais submissas ao seu poder.

  Nas Escrituras encontramos exemplos frequentes dos erros de que foram objecto esses fenómenos. Em Patmos, João vê aparecer um génio que, a princípio, ele quer adorar, mas que lhe afirma ser o Espírito de um dos profetas seu irmão. (xvi) Neste caso, foi dissipado o erro; o Espírito deu a conhecer a sua personalidade; em quantos outros casos, porém, não foi ele mantido? É o mesmo que se dá com a intervenção, tão frequente, dos anjos da Bíblia. É preciso pormo-nos em guarda contra as tendências dos judeus e dos cristãos no sentido de atribuir a Deus e aos seus anjos fenómenos produzidos pelos Espíritos dos mortos e, a cujo respeito competia à nossa época fazer luz, restabelecendo-os na sua verdadeira categoria.

  Na época de Jesus, a crença na imortalidade estava enfraquecida. Os judeus encontravam-se divididos a respeito da vida futura. Os cépticos saduceus aumentavam em número e influência. Chegado Jesus. Torna mais amplas as vias de comunicação entre o mundo terrestre e o mundo espiritual. Aproxima a tal ponto os invisíveis dos humanos, que eles se podem corresponder novamente. Com mão possante levanta o véu da morte e surgem visões do âmago da sombra; no meio do silêncio fazem-se ouvir vozes; e essas visões e essas vozes vêm afirmar ao homem a imortalidade da vida.

  O Cristianismo primitivo afecta, pois, este carácter particular de ter aproximado as duas humanidades, a terrestre e a celeste; tornou mais intensas as relações entre o mundo visível e o mundo invisível. Efectivamente, em cada grupo espírita, as pessoas se entregavam a evocações; havia médiuns falantes, inspirados, de efeitos físicos, como está escrito no capítulo XII da primeira epístola de Paulo aos Coríntios. Então, como hoje, certos sensitivos possuíam o dom da profecia, o dom de curar, o de expelir os maus Espíritos. (xvii)

  Na Epístola citada, S. Paulo fala também do corpo espiritual, imponderável, incorruptível:

  “O homem é colocado na terra como um corpo animal e, ressuscitará como um corpo espiritual; do mesmo modo que há um corpo animal, há um corpo espiritual.” (I Coríntios, XV, 44)

  Fora um fenómeno espírita, a aparição de Jesus no caminho de Damasco, o que havia feito de S. Paulo um cristão; (xviii) Paulo não conhecera o Cristo e, no momento dessa visão, que decidiu do seu destino, bem longe estava de se encontrar preparado para a sua ulterior tarefa. “Respirando sempre ameaças de morte contra os discípulos do Senhor”, munido contra eles de ordens de prisão, seguira para Damasco a fim de os perseguir. Neste caso, não cabe invocar, como a respeito dos apóstolos se poderia fazer, um fenómeno de alucinação, provocado pela constante recordação do Mestre. Esta visão, ao demais, não foi isolada; em todo o curso subsequente de sua vida, Paulo entreteve assíduas relações com o invisível, particularmente com o Cristo, de quem recebia as instruções indispensáveis à sua missão. Ele mesmo diz que haure inspirações nos colóquios secretos com o filho de Maria.

/…
(ii) Ver nota complementar nº 6 (← link para aceder à nota).
(iii) Em hebraico, o verdadeiro sentido da palavra anjo, melach, é de mensageiro.
(iv) O dom de profecia não consistia simplesmente em predizer o futuro, mas, de um modo mais extenso, em falar e transmitir ensinos sob a influência dos Espíritos.
(v) Ver, quanto ao conjunto desses fenómenos, a nota complementar n° 7 (← link para aceder à nota), sobre "Os factos espíritas na Bíblia".
(vi) Jesus tinha escolhido discípulos, não entre homens instruídos, mas entre sensitivos e videntes, dotados de faculdades mediúnicas.
(vii) Estes pormenores, que talvez surpreendam o leitor, não são o produto da nossa imaginação. Foram-nos comunicados por um alto Espírito, cuja vida esteve envolvida com a do Cristo. O mesmo se dá em muitas passagens deste livro.
(viii) João, XX, 15-17 e 24-28.
(ix) Ver a nota complementar nº 9 (← link para aceder à nota), sobre "O perispírito ou corpo fluídico".
(x) Clemente de Alexandria (i) refere uma tradição que circulava ainda no seu tempo, segundo a qual João enterrara a mão no corpo de Jesus e o atravessara sem encontrar resistência. ("Jesus de Nazareth", por Albert Réville, 2°- vol., nota à pág. 470).
(xi) Ver as minhas outras obras, especialmente, "Depois da Morte" e "No Invisível", "Espiritismo e Mediunidade".
(xii) W. Crookes, "Pesquisas sobre os fenómenos espíritas"; Russell Wallace, "O moderno espiritualismo"; Aksakof, "Animismo e Espiritismo". Relativamente a uma série de fenómenos análogos e mais recentes, ver também Léon Denis, "No Invisível", "Espiritismo e Mediunidade", cap. XX.
(xiii) Ver, "No Invisível", "Espiritismo e Mediunidade", pág. 332.
(xiv) Ver a morte de Estevão: Actos, VII, 55 e 56.
(xv) Ver, "No Invisível", pág. 346.
(xvi) Apocalipse, XIX, 10.
(xvii) Apocalipse, XIX, 10.
(xviii) Idem.


Léon Denis (1846-1927) (i), Cristianismo e Espiritismo, Título Original em Francês; Léon Denis - Christianisme et Spiritisme, Librairie des Sciences Psychiques, Paris (1898). – Relações com os Espíritos dos Mortos, 5 (I de II), 6º fragmento desta obra. 
(imagem de contextualização: Paraíso Perdido, estudo do Anjo, lápis e giz de Alexandre Cabanel)

domingo, 17 de março de 2024

Hippolyte Léon Denisard Rivail


Pneumatografia ou Escrita Directa ~

   A pneumatografia é a escrita produzida directamente pelo Espírito, sem nenhum intermediário; difere da psicografia, por ser esta a transmissão do pensamento do Espírito, mediante a escrita feita com a mão do médium. Demos estas duas palavras no Vocabulário Espírita, no início de nossa Instrução Prática, com a indicação da sua diferença etimológica. Psicografia, do grego psykê, borboleta, alma; e graphus, eu escrevo; Pneumatografia, de pneuma, ar, sopro, vento, Espírito. No médium escrevente a mão é um instrumento, mas é a sua alma, ou Espírito encarnado, o intermediário, o agente ou o intérprete do Espírito estranho que se comunica; na Pneumatografia, é o próprio Espírito estranho que escreve directamente, sem intermediário.

   O fenómeno da escrita directa é, inegavelmente, um dos mais extraordinários do Espiritismo. Por anormal que pareça à primeira vista, é hoje um facto verificado e incontestável. Se dele ainda não falámos, é porque esperávamos poder dar-lhe a explicação e já ter procedido às observações necessárias, a fim de tratar a questão com conhecimento de causa. A teoria, sempre necessária para nos inteirarmos da possibilidade dos fenómenos espíritas em geral, talvez ainda se torne mais necessária neste caso que, sem contestação, é um dos mais estranhos que se possam apresentar; deixa, porém, de parecer sobrenatural, desde que se lhe compreenda o princípio.

   Da primeira vez que este fenómeno se produziu, deixou um sentimento dominante de dúvida. Logo acudiu aos que o presenciaram a ideia de um embuste. Toda a gente, com efeito, conhece a acção das tintas chamadas simpáticas, cujos traços, a princípio completamente invisíveis, aparecem ao fim de algum tempo. Podia, pois, dar-se o caso que tivessem, por esse meio, abusado da credulidade dos assistentes, e longe nos acharmos de afirmar que nunca o tenham feito. Estamos até convencidos de que algumas pessoas, não com propósitos mercenários, mas tão-só por amor-próprio e para fazer acreditar nas suas faculdades, hão empregado subterfúgios.

   Na terceira das cartas escritas de Montaigne, J.-J. Rousseau refere o seguinte facto: “Em 1743 vi em Veneza uma nova espécie de sortilégio, mais estranho que os de Préneste; quem o quisesse consultar entrava numa câmara, ali permanecendo sozinho, caso o desejasse. De um livro de folhas brancas tirava uma de sua escolha; depois, segurando essa folha, pedia mentalmente, e não em voz alta, aquilo que desejava saber; em seguida, dobrava a folha branca, depositava-a num envelope, lacrava-o e o colocava, assim fechado, dentro de um livro. Finalmente e sem perder de vista o livro, depois de haver recitado algumas fórmulas muito extravagantes, verificava se o selo não tinha sido violado, abria o envelope, retirava a folha e encontrava nela escrita a resposta. O mágico que fazia estas sortes era o primeiro secretário da Embaixada da França e chamava-se J.-J. Rousseau.”

   Duvidamos que Rousseau tenha conhecido a escrita directa, pois, de contrário, teria sabido outras coisas relativas às manifestações espíritas e não teria tratado do assunto com tanta leviandade. Como ele próprio reconheceu quando o inquirimos (ii) sobre este facto, é provável que se utilizasse de um processo que aprendera de um charlatão italiano.

   Entretanto, pelo facto de se poder imitar uma coisa, fora absurdo concluir-se pela sua inexistência. Nestes últimos tempos, não se há encontrado meio de imitar a lucidez sonambúlica, ao ponto de causar ilusão? Mas, porque este processo de saltimbanco se tenha exibido em todas as feiras, dever-se-á concluir que não haja verdadeiros sonâmbulos? Só porque certos comerciantes vendem vinho falsificado, será razão para que não haja vinho puro? O mesmo sucede com a escrita directa. Muito simples e fáceis eram, aliás, as precauções a serem tomadas para garantir a veracidade deste facto e, graças a estas precauções, hoje ele já não pode ser objecto da mais pequena dúvida.

   Considerando-se que a possibilidade de escrever sem intermediário representa um dos atributos do Espírito; uma vez que os Espíritos sempre existiram desde todos os tempos e que desde todos os tempos se hão produzido os diversos fenómenos que conhecemos, o da escrita directa igualmente se há de ter operado na Antiguidade, tanto quanto nos dias actuais. É deste modo que se pode explicar o aparecimento das três palavras célebres, na sala do festim de Baltazar. A Idade Média, tão fecunda em prodígios ocultos, mas que eram abafados por meio das fogueiras, também deve ter conhecido a escrita directa; igualmente é possível que, na teoria das modificações por que podem os Espíritos fazer passar a matéria, teoria que desenvolvemos no nosso artigo anterior, se encontre o fundamento da crença na transmutação dos metais. É um ponto que abordaremos mais tarde.

   Um dos nossos assinantes dizia-nos ultimamente que um seu tio, cónego, que durante muitos anos havia sido missionário no Paraguai, obtinha, por volta do ano 1800, a escrita directa, juntamente com o seu amigo, o célebre Abade Faria. O seu processo, que o nosso assinante nunca chegou a conhecer bem, e que de alguma sorte surpreendera casualmente, consistia numa série de anéis pendurados, aos quais eram adaptados lápis, dispostos em posição vertical, cujas pontas se apoiavam em papel. Esse processo reflectia a infância da arte, progredimos depois.

   Todavia, quaisquer que tenham sido os resultados obtidos nas diversas épocas, só depois de vulgarizadas as manifestações espíritas é que se tomou a sério a questão da escrita directa. Ao que parece, o primeiro a torná-la conhecida, nestes últimos anos, foi o Barão de Guldenstubbé, em Paris, que publicou sobre o assunto uma obra muito interessante, com grande número de fac-símiles das escritas que obteve (iii). O fenómeno já era conhecido na América, havia algum tempo. A posição social do Sr. Guldenstubbé, a sua independência, a consideração de que goza nas mais elevadas rodas afastam incontestavelmente toda a suspeita de fraude intencional, porquanto não havia nenhum motivo de interesse a que ele obedecesse. Quanto muito, o que se poderia supor, é que fora vítima de uma ilusão; a isto, porém, um facto responde peremptoriamente: o de haverem outras pessoas obtido o mesmo fenómeno, cercadas de todas as precauções necessárias para evitar qualquer embuste e qualquer causa de erro.

   A escrita directa é obtida, como em geral a maior parte das manifestações espíritas não espontâneas, por meio da concentração, da prece e da evocação. Tem-se produzido em igrejas, sobre túmulos, no pedestal de estátuas, ou imagens de personagens evocadas. Evidentemente, o local não exerce nenhuma outra influência, além da de facultar maior recolhimento espiritual e maior concentração dos pensamentos, porquanto está provado que o fenómeno se obtém, igualmente, sem estes acessórios e nos lugares mais comuns, sobre um simples móvel caseiro, desde que os que o desejam obter se encontrem nas devidas condições morais e, entre estes, se encontre quem possua a necessária faculdade mediúnica.

   Julgou-se, a princípio, ser preciso colocar aqui ou ali um lápis com o papel. O facto então podia, até certo ponto, explicar-se. É sabido que os Espíritos produzem o movimento e a deslocação dos objectos; que, algumas vezes, os tomam e atiram longe. Bem podiam, pois, pegar também os lápis e servir-se deles para desenhar letras. Visto que o impulsionam, utilizando-se da mão do médium, de uma prancheta, etc., podiam, do mesmo modo, impulsioná-lo directamente. Porém, não tardou, que se reconhecesse que o lápis era dispensável, que bastava um pedaço de papel, dobrado ou não, para que, ao fim de alguns minutos, se encontrassem nele grafadas as letras. Aqui, o fenómeno já muda completamente de aspecto e transporta-nos a uma ordem inteiramente nova das coisas. As letras hão de ter sido traçadas com uma substância qualquer. Ora, sendo certo que ninguém forneceu ao Espírito essa substância, segue-se que a produziu ele próprio. De onde a tirou? Esse é o problema.

   O general russo, conde de B... mostrou-nos uma estrofe de dez versos alemães obtida desta maneira por intermédio da irmã do Barão de Guldenstubbé, simplesmente colocando uma folha de papel, arrancada de sua própria caderneta, debaixo do pedestal do relógio da chaminé. Tendo-a retirado, ao fim de alguns minutos, nela encontrou versos em caracteres tipográficos alemães muito finos e de perfeita pureza. Através de um médium psicógrafo o Espírito disse-lhe que queimasse esse papel; como hesitasse, lamentando sacrificar um espécimen tão precioso, o Espírito acrescentou: “Nada temais; dar-te-ei um outro”. Com essa garantia, assentiu queimar o papel, colocou depois uma segunda folha, igualmente tirada de sua carteira, sobre a qual os versos se reproduziram, exactamente da mesma maneira. E foi essa segunda edição que vimos e examinamos com o maior cuidado e, coisa bizarra, os caracteres apresentavam um relevo como se tivessem saído do prelo. Não é, pois, apenas o lápis que os Espíritos podem criar, mas também a tinta e os caracteres de imprensa.

   Um dos nossos honrados colegas da Sociedade, o Sr. Didier obteve há alguns dias os resultados seguintes, que tivemos oportunidade de constatar, e cuja autenticidade podemos garantir. Tendo ido à igreja de Nossa Senhora das Vitórias, com a Sra. Huet, que há pouco tempo teve sucesso em experiências deste género, pegou uma folha de papel de carta com o timbre de sua casa comercial, dobrou-a em quatro e a colocou sobre os degraus de um altar, rogando, em nome de Deus, que um Espírito bom se dignasse escrever alguma coisa. Ao fim de dez minutos de recolhimento encontrou no interior e numa das partes dobradas da folha a palavra fé e num dos outros campos a palavra Deus. A seguir, tendo pedido ao Espírito que dissesse quem havia escrito aquilo, recolocou o papel no mesmo lugar e, dez minutos depois, encontrou estas palavras: por Fénelon.

   Oito dias depois, a 12 de Julho, quis repetir a experiência e dirigiu-se ao Louvre, à sala Coyzevox, situada sob o pavilhão do relógio. Sobre a base do busto de Bossuet pôs uma folha de papel, dobrada como a primeira, mas nada obteve. Acompanhava-o um menino de cinco anos e o seu boné foi deixado no pedestal da estátua de Luís XIV, que se encontrava a alguns passos da primeira. Julgando que a experiência houvesse falhado, já se dispunha a sair quando, ao apanhar o boné, percebeu debaixo deste, como se fora escrito a lápis sobre o mármore, a expressão amai a Deus, seguida da letra B. O primeiro pensamento que veio à mente dos assistentes foi o de que tais palavras poderiam ter sido escritas anteriormente por mãos estranhas, que não foram percebidas. Entretanto, quiseram tentar a prova novamente, recolocando a folha dobrada em cima dessas palavras, cobrindo-as com o boné. Decorridos alguns minutos perceberam que a folha continha três letras: a i m. Repuseram o papel e pediram que fossem os escritos completados e obtiveram: Amai a Deus, isto é, aquilo que fora escrito no mármore, menos o B. Ficava assim evidente que as primeiras letras traçadas resultavam de escrita directa. Ressaltava, ainda, este facto curioso: as letras foram grafadas sucessivamente e não de uma vez; quando da primeira inspecção, não houvera tempo de concluir as palavras. Saindo do Louvre, o Sr. D... dirigiu-se à igreja de Saint-Germain l'Auxerrois onde obteve, pelo mesmo processo, as palavras: Sede humildes. Fénelon, escritas de maneira muito clara e muito legível. Estas palavras ainda podem ser vistas no mármore da estátua a que nos referimos.

   A substância de que são feitos estes caracteres tem toda a aparência da grafite do lápis e é facilmente apagada com a borracha. Examinámo-la ao microscópio e constatamos que não é incorporada no papel, mas simplesmente depositada na superfície, de maneira irregular, sobre as suas asperezas, formando arborescências muito semelhantes às de certas cristalizações. A parte apagada pela borracha deixa à mostra as camadas de matéria negra introduzida nas pequenas cavidades das rugosidades do papel. Destacadas e retiradas com cuidado, essas camadas são a própria matéria que se produz durante a operação. Lamentamos que a pequena quantidade recolhida não nos tenha permitido fazer a sua análise química; mas não perdemos a esperança de o conseguir mais tarde.

   Quem quiser reportar-se às explicações que foram dadas no nosso artigo anterior encontrará completa a teoria do fenómeno. Para escrever desta maneira, o Espírito não se serve das nossas substâncias, nem dos nossos instrumentos. Ele próprio fabrica a matéria e os instrumentos de que há mister, tirando, para isso, os materiais preciosos, do elemento primitivo universal que, pela acção de sua vontade, sofre as modificações necessárias à produção do efeito desejado. É-lhe possível, portanto, fabricar tanto o lápis vermelho, a tinta de imprimir, a tinta comum, como o lápis preto, ou, até, caracteres tipográficos bastante resistentes para darem relevo à escrita.

   Tal o resultado a que nos conduziu o fenómeno da tabaqueira, descrito no nosso número anterior, e sobre o qual nos estendemos longamente, porque nele percebermos oportunidade para perscrutarmos uma das importantes leis do Espiritismo, lei cujo conhecimento pode esclarecer mais de um mistério, mesmo do mundo visível. Assim é que, de um facto aparentemente vulgar, pode sair a luz. Tudo está em observar com cuidado e isso todos podem fazer como nós, desde que se não limitem a observar efeitos, sem lhes procurarem as causas. Se a nossa fé se fortalece dia a dia, é porque compreendemos. Tratai, pois, de compreender, se quiserdes fazer prosélitos sérios. Ainda outro resultado decorre da compreensão das causas: o de deixar traçada uma linha divisória entre a verdade e a superstição.

   Considerando a escrita directa do ponto de vista das vantagens que possa oferecer, diremos que, até ao presente, a sua principal utilidade há consistido na comprovação material de um facto sério: a intervenção de um poder oculto que, neste fenómeno, tem mais um meio de se manifestar. Todavia, raramente são extensas as comunicações que por essa forma se obtêm. Em geral espontâneas, elas se reduzem a algumas palavras ou proposições e, às vezes, a sinais ininteligíveis. Têm sido dadas em todas as línguas: em grego, em latim, em sírio, em caracteres hieroglíficos, etc., mas ainda se não prestaram às dissertações seguidas e rápidas, como permite a psicografia ou a escrita pela mão do médium (iv).


JEAN-JACQUES ROUSSEAU

(Médium: Sra. Costel / Agosto de 1861)

Nota – A médium encontrava-se ocupada com assuntos alheios ao Espiritismo; dispunha-se a escrever sobre assuntos pessoais, quando uma força invisível a compeliu a dissertar o que se segue, não obstante o seu desejo de continuar o trabalho começado. É o que explica o início da comunicação:

   “Eis-me aqui, embora não me tivesses chamado. Venho falar-te de coisas muito estranhas às tuas preocupações. Sou o Espírito de Jean-Jacques Rousseau. Há muito tempo que esperava a ocasião de me comunicar contigo. Escuta, pois.

   “Penso que o Espiritismo é um estudo puramente filosófico das causas secretas dos movimentos interiores da alma, pouco ou nada definidos até agora. Ele explica, mais ainda do que descobre, horizontes novos. A reencarnação e as provas sofridas antes de atingir o fim supremo não são revelações, mas uma confirmação importante. Estou comovido pelas verdades que este meio põe à luz. Digo meio com intenção, porque, a meu ver, o Espiritismo é uma alavanca que afasta as barreiras da cegueira. A preocupação com as questões morais está inteiramente por nascer. Discute-se a política que move os interesses morais; discutem-se os interesses privados; apaixona-se pelo ataque ou pela defesa das personalidades; os sistemas têm partidários e detractores, mas as verdades morais, que são o pão da alma, o alimento da vida, são deixadas na poeira acumulada pelos séculos. Todos os aperfeiçoamentos são úteis aos olhos da multidão, salvo os da alma. A sua educação, a sua elevação são quimeras, boas só para deleitarem os sacerdotes, os poetas, as mulheres, seja como modo, seja como ensinamento.

   “Se o Espiritismo ressuscitar o Espiritualismo, devolverá à Sociedade o impulso que a uns dá a dignidade interior, a outros resignação e a todos a necessidade de se elevarem para o Ser Supremo, esquecido e desprezado pelas suas ingratas criaturas.

                                                                                          Jean-Jacques Rousseau"

/…

(ii) Por mediunidade. Adenda desta publicação.
(iii) La realité des Esprits et de leurs manifestations, démontrée par le phenomène de l`écriture directe, pelo barão de Guldenstubbé, 1 vol. in-8o, com 15 estampas e 93 fac-símiles. Preço 8 fr. Casa Frank, rua Richelieu. Encontra-se também nas Casas Dentu e Ledoyen.
(iv) N. do T.: Vide O Livro dos Médiuns, Segunda Parte, capítulo XII.


Allan Kardec (i), aliás, Hippolyte Léon Denisard Rivail, Pneumatografia ou Escrita Directa, Revista Espírita – Jornal de Estudos Psicológicos / Agosto de 1859; – Jean-Jacques Rousseau, Dissertações e ensinos espíritas / Médium: Sra. Costel / Agosto de 1861, 19ºs fragmentos da Revista objecto do presente titulo desta publicação.
(imagem de contextualização: Dança rebelde, 1965 – Óleo sobre tela, de Noêmia Guerra)

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

metapsíquica | e depois


~~~ Prólogo ~~~

(A Crise da Morte)

Conforme já tive oportunidade de dizer muitas vezes, desde há alguns anos que me consagro ao exame dos principais apanhados de revelações transcendentais, aplicando-lhes os processos de análise comparada e obtendo resultados tão inesperados quão importantes. As pesquisas que empreendi fazem emergir a prova de que as numerosíssimas informações obtidas mediunicamente, a respeito do meio espiritual, concordam admiravelmente entre si, no que concerne às indicações de natureza geral, que, aliás, são as únicas necessárias para que se conclua a favor da origem das revelações de que se trata, origem que se manifesta estranha aos médiuns, pelos quais tais revelações se obtêm.

Com efeito, os desacordos aparentes, de natureza secundária, que se notam nessas revelações, provêm evidentemente de causas múltiplas, que são fáceis de ser apreendidas e são inteiramente justificáveis. Acrescentarei, a este propósito, que algumas categorias desses supostos desacordos contribuem eficazmente para nos dar uma visão nítida e sintética dos modos pelos quais se desenvolve a existência espiritual, pois que parecem determinados pelas condições psíquicas especiais de cada personalidade de defunto que se comunica.

Creio mesmo ser necessário insistir sobre o facto de que, se persisto em me ocupar com um tema condenado ao ostracismo pela Ciência, é que, graças às minhas laboriosas investigações, adquiri a certeza de que, em futuro não distante, a secção metapsíquica das revelações transcendentais alcançará grande valor científico e, por conseguinte, constituirá o ramo mais importante das disciplinas metapsíquicas. Que importa, pois, seja esse ramo actualmente repudiado pelos metapsiquistas de orientação rigorosamente científica e totalmente desprezado por grande parte dos próprios espíritas, entre os quais eu mesmo me encontrava, não há mais de três anos?

Reconheço que não podia ser de outra maneira, porque é conforme à evolução mental nas pesquisas metapsíquicas; que o investigador comece por se ocupar com as manifestações supranormais de natureza especialmente física, para depois cogitar das manifestações de natureza especialmente inteligente, contendo indicações verificáveis de identificação pessoal dos defuntos. Segue-se que, só quando se haja chegado à certeza científica, com relação à origem espírita da parte mais interessante dos fenómenos metapsíquicos, se compreenderá o grande valor científico, moral, social, das revelações transcendentais estudadas sistematicamente. Elas então se elevarão rapidamente ao lugar de honra, na classificação das manifestações metapsíquicas. A alvorada desse dia ainda não despontou. Mas, isso não impede que um pesquisador insulado possa adiantar-se à sua época, de maneira a formar para si uma opinião precisa a tal respeito, fundando-se nos factos coleccionados. Nestas circunstâncias, esse pesquisador está obrigado, em consciência e para o bem de toda a gente, a ter a coragem da sua opinião, embora os tempos ainda não amadurecidos o exponham a críticas mais ou menos severas. Ora, eu me sinta com essa coragem: mudei de parecer, relativamente ao valor teórico das colecções de revelações transcendentais e, não hesito um só instante em declará-lo.

A isso, aliás, me vejo animado pelo exemplo de alguns pesquisadores eminentes, que não vacilaram em publicar declarações análogas. Eis como a propósito se exprime o professor Oliver Lodge:

Estas revelações são ditas inverificáveis, por não ser possível fazerem-se pesquisas para se verificar o que elas afirmam, como se faz para a verificação das informações concernentes a negócios pessoais, ou acontecimentos mundanos... De todas as formas, sou levado a crer, da mesma maneira que outros pesquisadores cujo número é cada vez maior, que vem próximo o tempo em que se deverá recolher sistematicamente e discutir o material metapsíquico de natureza inverificável, material que se presta a ser examinado e analisado com fundamento na sua consistência intrínseca, que lhe confere um grau notável de probabilidade, da mesma forma que as narrações dos exploradores africanos se prestam a ser analisadas e verificadas, com fundamento nas suas concordâncias...

Lembrarei que, do ponto de vista filosófico, se tem notado que tudo contribui para dar a supor que, em última análise, a prova real da sobrevivência dependerá do estudo e da comparação dessas narrações de exploradores espirituais, mais do que das provas resultantes das informações pessoais fornecidas acerca de acontecimentos do passado, relativamente aos quais — enquanto não se chegar a penetrar fundo na natureza da memória — será sempre possível conjecturar que todo o passado é potencialmente acessível às faculdades supranormais da consciência humana... embora eu não considere racional a hipótese de uma memória impessoal... (Raymond, págs. 347-348)

O professor Hyslop, a propósito da publicação de duas colecções de revelações sobre o Além, ponderou, a seu turno:

Nada há de impossível nas informações que essas mensagens contêm... A maioria das pessoas ridiculariza o conceito de um meio espiritual tal como o que se desenha nas revelações; porém, esses senhores, que gastam o ridículo com tanta leviandade, não se lembram de que, assim fazendo, supõem conhecer toda a verdade a respeito do mundo espiritual... Não me pronuncio nem por um lado, nem pelo outro, mas declaro não ter objecção alguma a opor à existência de um meio espiritual, como o que se nos descreve, ainda que devesse parecer mais absurdo do que o nosso meio terrestre. Não chego a compreender por que se exige que o mundo espiritual seja mais ideal do que o nosso. Os dois mundos são obra do mesmo Autor, quer este se chame Matéria, ou Deus. Ninguém o pode afirmar ou negar a priori. O facto de negar ou de lançar no ridículo as revelações transcendentais equivale a pretender conhecer, de modo certo, o mundo espiritual, o que constitui presunção indigna de um céptico que raciocine...

Em suma, os livros desta espécie são importantes, pois que nos dão uma primeira ideia sobre o mundo espiritual, oferecendo-nos assim oportunidade de comparar os detalhes contidos nas diferentes revelações obtidas... Ora, no nosso caso, comprova-se que as informações, que nos são transmitidas nessas mensagens pelas personalidades que se comunicam, concordam com outras que nos vêm por intermédio de médiuns que não eram religiosos e não tinham a crença e a inteligência deste médium… (American Journal of the S. P. R., 1913, págs. 235-237)

Acrescentarei que há um meio de se verificarem as afirmações concernentes à existência espiritual, com exclusão da prova Indirecta fornecida pela identificação pessoal do Espírito que se comunica. Esse meio consiste em experimentar com um número suficiente de médiuns, para comparar em seguida os resultados, depois de se haverem recolhido as informações necessárias sobre a instrução especial de cada um deles a respeito. Se se chegasse a comprovar que um dos médiuns empregados ignorava absolutamente as teorias espíritas (o que excluiria a hipótese de uma colaboração subconsciente), seria conveniente experimentar com outros médiuns, para se obterem Informações sobre o mesmo assunto; e assim por diante, sem que se estabelecessem relações entre eles. É evidente que, nessas condições, uma concordância de informações fundamentais, repetindo-se com uma centena de indivíduos diferentes, teria valor bastante grande a favor da demonstração da existência real de um mundo espiritual análogo ao que fora revelado. (Ibid., 1914, págs. 462-463.)

Tal a opinião de dois sábios muito distintos, acerca do valor teórico das colecções de revelações transcendentais. Observarei que o método de pesquisa proposto pelo professor Hyslop é, em suma, o que adoptei. Ele, com efeito, propõe se experimente com grande número de médiuns, que não conheçam a doutrina espírita, a fim de se compararem em seguida os resultados. A coisa é teoricamente possível, mas de realização difícil, porque é raro que um só pesquisador chegue a encontrar numerosos médiuns, de maneira a poder levar a efeito uma empresa formidável como esta. O mais prático era, pois, aproveitar o material imenso que se acumulou nestes últimos anos, relativamente às revelações transcendentais, para empreender uma selecção severa de todas as peças, classificando-as, analisando-as, comparando-as, tendo o cuidado de colher informações sobre os conhecimentos especiais de cada médium, no tocante à doutrina espírita. Tal precisamente a tarefa a que me propus ao empreender as minhas pesquisas, às quais já consagrei dois anos de trabalho, chegando a descartar cerca de metade do material reunido. Porém, como notasse que o material classificado e comentado assumia proporções tais que impediriam a sua publicação em volume, julguei oportuno suspender temporariamente as pesquisas, para consagrar algumas monografias de ensaios aos resultados já obtidos. A que se segue é a primeira que me disponho a publicar.

Começo por inserir um número suficiente de revelações transcendentais, referentes às impressões experimentadas, no momento da entrada, no mundo espiritual, pelas personalidades dos mortos que se comunicam. Declaro desde logo que esse grupo de narrações, embora teoricamente interessante e significativo, não é o mais eficaz para a demonstração da tese que sustento.

Ele, com efeito, refere-se aos episódios iniciais da existência extraterrestre, sobre os quais se exercem plenamente as consequências da lei de afinidade, pela qual cada Espírito desencarnado é levado necessariamente a gravitar para o estado espiritual que corresponde ao grau de sua evolução psíquica, alcançado em consequência da passagem pela existência na carne, o que não pode deixar de determinar diferenças sensíveis nas descrições que nos chegam dos mortos, acerca da entrada deles no mundo espiritual. De qualquer maneira, ver-se-á que esses desacordos se dão unicamente nos detalhes secundários, quer sejam pessoais, quer dependam do meio, nunca no que concerne às condições correspondentes, de ordem geral.

Antes de entrar no assunto de que vou tratar, cumpre-me fazer uma declaração, destinada a prevenir uma pergunta que os meus leitores poderiam formular. Refere-se a esta circunstância: todos os factos, que citarei, de defuntos que narram a sua entrada no meio espiritual, são tirados de colecções de revelações transcendentais publicadas na Inglaterra e nos Estados Unidos. Porquê? — perguntar-me-ão os leitores — esse exclusivismo puramente anglo-saxónio?

Responderei que por uma só razão, absolutamente peremptória: não há na França, na Alemanha, na Itália, em Espanha, em Portugal, colecções de revelações transcendentais sob a forma de tratados, ou de narrativas continuadas, orgânicas, divididas em capítulos, ditadas por uma só personalidade mediúnica e confirmadas por provas excelentes de identidade dos defuntos que se comunicaram. Nas poucas colecções que hão aparecido nas nações acima citadas — colecções constituídas de curtas mensagens — obtidas pelo sistema dos interrogatórios dirigidos a uma multidão de Espíritos, não se encontram episódios concernentes à crise da morte, se exceptuarmos o conhecido livro de Allan Kardec: O Céu e o Inferno, em que no qual se podem ler três ou quatro episódios desta espécie. Mas, se bem se encontrem neles algumas concordâncias fundamentais com as narrações dos outros Espíritos que se comunicam, esses episódios são de natureza muito vaga e geral, para poderem ser tomados em consideração, numa obra de análise comparada.

Em tais condições, é claro que, se os povos anglo-saxónicos são os únicos que, até hoje, hão mostrado saber apreciar o grande valor teórico e prático das revelações transcendentais, como são os únicos que a isso se consagraram, empregando métodos racionais, não me restava outra coisa senão tomar o material necessário onde o encontrava. E tanto mais razão havia para assim proceder, propondo-me a escrever toda uma série de monografias relativamente às concordâncias e aos desacordos que os processos de análise comparada fazem ressaltar das colecções de revelações transcendentais, quanto é certo que não podia deixar de começar pelo princípio, isto é, pelo que os mortos têm a dizer acerca da crise da morte.

Passemos agora à exposição dos casos. Citarei, antes de tudo, alguns episódios extraídos de obras dos primeiros pesquisadores, a fim de fazer ressaltar que, desde o começo do movimento espírita, se obtiveram mensagens mediúnicas em que a existência e o meio espirituais são descritos em termos idênticos aos das que se obtêm presentemente, se bem que a mentalidade dos médiuns fosse então dominada pelas concepções tradicionais referentes ao paraíso e ao inferno e, por conseguinte, pouco preparada para receber mensagens de defuntos, afirmando que o meio espiritual é o meio terrestre espiritualizado.

Primeiro Caso

Extraio este facto de uma obra intitulada: Letters and Tracts on Spiritualism, obra que contém os artigos e as monografias publicadas pelo juiz Edmonds, de 1854 a 1874. Sabe-se que Edmonds era um notável médium psicógrafo, falante e vidente. Alguns meses depois da morte acidental do seu confrade, o juiz Peckam a quem ele muito estimava, deu-se o caso de Edmonds escrever uma longa mensagem, em que o seu amigo morto referia as circunstâncias de sua morte. As passagens seguintes são tiradas da mensagem em questão:

Se houvera podido escolher a maneira de desencarnar, certamente não teria preferido a que o destino me impôs. Todavia, presentemente não me queixo do que me aconteceu, dada a natureza maravilhosa da nova existência que se abriu subitamente diante de mim.

No momento da morte, revi, como em panorama, os acontecimentos de toda a minha existência. Todas as cenas, todas as acções que eu praticara passaram perante o meu olhar, como se se houvessem gravado na minha mentalidade, em fórmulas luminosas. Nem um só dos meus amigos, desde a minha infância até à morte, faltou à chamada. Na ocasião em que mergulhei no mar, tendo nos braços a minha mulher, me apareceram o meu pai e a minha mãe e foi esta quem me tirou da água, mostrando uma energia cuja natureza só agora compreendo. Não me lembro de ter sofrido. Quando imergi nas águas, não experimentei sensação alguma de medo, nem mesmo de frio, ou de asfixia. Não me recordo de ter ouvido o barulho das ondas a quebrarem-se sobre as nossas cabeças. Desprendi-me do corpo quase sem me aperceber disso e, abraçado sempre à minha mulher, segui a minha mãe, que viera para nos acolher e guiar.

O primeiro sentimento penoso só me assaltou quando dirigi o pensamento para o meu caro irmão; porém, a minha mãe, percebendo-me a inquietação, logo ponderou: O teu irmão também não tardará a estar connosco: A partir desse momento, todo o sentimento penoso desapareceu do meu espírito. Pensava na cena dramática que acabara de viver, unicamente com o fito de levar socorro aos meus companheiros de desgraça. Logo, entretanto, vi que estavam salvos das águas, do mesmo modo por que eu fora. Todos os objectos me pareciam tão reais à volta de mim que, se não fosse a presença de tantas pessoas que sabia mortas, teria corrido para junto dos náufragos.

Quis informar-te de tudo isso, a fim de que possas mandar uma palavra de consolação aos que imaginam que os que lhes são caros e que desapareceram comigo sofreram agonias terríveis, ao se verem presas da morte. Não há palavras que te possam descrever a felicidade que experimentei, quando vi que vinham ao meu encontro ora uma, ora outra das pessoas a quem mais amei na Terra e que todas acudiam a me dar as boas-vindas nas esferas dos imortais.

Não tendo estado doente e não tendo sofrido, fácil me foi adaptar-me imediatamente às novas condições de existência...

Com esta última observação, o Espírito alude a uma circunstância que concorda com as informações cumulativas, obtidas sobre o mesmo assunto, por grande número de outras personalidades mediúnicas, isto é, que só nos casos excepcionais de mortes imprevistas, sem sofrimentos e combinadas com estados serenos da alma, é possível ao Espírito atravessar a crise da desencarnação, sem haver necessidade de ficar submetido a um período mais ou menos longo de sono reparador. Ao contrário, nos casos de morte consecutiva a longa enfermidade, em idade avançada, ou com a inteligência absorvida por preocupações mundanas, ou oprimida pelo medo da morte, ou, ainda, apenas, mas firmemente, convencida da aniquilação final, os Espíritos estariam sujeitos a um período mais ou menos prolongado de inconsciência.

Ponderarei que estas observações já se referem a um desses detalhes secundários a que aludi no início e nos quais se notam desacordos aparentes, que, na realidade, se resumem em concordâncias reguladas por uma lei geral, que necessariamente se manifesta de maneiras muito diferentes, segundo a personalidade dos defuntos e as condições espirituais tão diversas em que se encontram no momento da desencarnação.

Cumpre-se atente, além disso, no detalhe interessante de dizer o morto ter tido, no momento da morte, a visão panorâmica de todos os acontecimentos de sua existência. Sabe-se que este fenómeno é familiar aos psicólogos; foi referido muitas vezes por pessoas salvas de naufrágios. (Publiquei a respeito uma longa monografia nesta mesma Revista, no decorrer dos anos de 1922-1923.) Ora, no caso relatado pelo juiz Edmonds, como em muitos outros casos do mesmo género, assistimos ao facto importante de um morto afirmar haver passado, a seu turno, pela experiência da visão panorâmica, de que falam os náufragos salvos da morte. Isto se torna teoricamente importante, desde que se tenha em mente que o juiz Edmonds não conhecia a existência dos fenómenos desta espécie, ignorados pelos psicólogos de sua época. Ele, pois, não podia auto-sugestionar-se nesse sentido, o que constitui boa prova a favor da origem, estranha ao médium, da mensagem de que se trata.

Notarei, finalmente, que neste episódio, ocorrido nos primeiros tempos das manifestações mediúnicas, já se observam muitos detalhes fundamentais, concernentes aos processos da desencarnação do Espírito, os quais serão depois constantemente confirmados, em todas as revelações do mesmo género. Assim, por exemplo, o detalhe de o Espírita não perceber, ou quase não perceber, que se separara do corpo e, ainda menos, que se encontra num meio espiritual. Também o outro detalhe de o Espírito se encontrar com uma forma humana e se ver cercado de um meio terrestre, ou quase terrestre, de pensar que se exprime de viva-voz como dantes e perceber, como antes, as palavras dos demais. Assinalemos ainda outro detalhe: o de encontrar o Espírito desencarnado, ao chegar ao limiar da nova existência, para o acolherem e guiarem, outros Espíritos de mortos, que são geralmente os seus parentes mais próximos, mas que também podem ser os seus mais caros amigos, ou os Espíritos-guias.

Detalhe fundamental também este que, com os outros, será confirmado por todas as revelações transcendentais sucessivas, até aos nossos dias, salvo sempre circunstâncias mais ou menos especiais de mortos moralmente inferiores e degradados, aos quais a inexorável lei de afinidade (lei físico-psíquica, irresistível no seu poder fatal de atracção dos semelhantes) prepararia condições de acolhimento espiritual muito diferentes das com que se depararam os Espíritos evolvidos.

/...


Ernesto Bozzano (1862-1943) (i), A Crise da Morte, Publicação original (1930), "La Crisi Della Morte"; Prólogo, Primeiro Caso. 1º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Puro aire, uma pintura de Josefina Robirosa)