Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

O Homem e a Sociedade

A Investigação Ontológica na Parapsicologia

(1) É Acessível o Ontológico ao Parapsicológico?

Se a parapsicologia se nos apresenta como uma nova problemática do Ser, não há dúvida de que a sua missão científica, se assim podemos dizer, se defrontará com zonas do conhecimento que se encontram em plena crise.

A actualidade, propícia à investigação ontológica, oferece à parapsicologia excelente ocasião para assinalar as formas reais do conhecer, muitas das quais ainda não são percebidas pela sensibilidade normal do indivíduo. A simples possibilidade de um acesso ontológico à parapsicologia implica a urgência de um que-fazer filosófico apoiado numa sensibilidade incomumSe é possível um conhecer extrassensorial, mesmo no seu aspecto mais limitado, o ontológico poderá ser alcançado (e essa é a nova esperança) por vias de facto que eliminem todo o obstáculo ao psicológico incomum.

A relação entre objecto e sujeito, parapsicologicamente considerada, implica a possibilidade de uma criptestesia, que permitirá a captação de valores gnosiológicos provenientes de zonas profundas do homem e do Universo. Se pudéssemos penetrar ontologicamente as camadas do parapsicológico, o ser humano, com pleno direito, poderia aspirar a um futuro que signifique o de uma verdadeira realidade metafísica.

Os actos psíquicos e os momentos extrassensoriais da parapsicologia são, por si mesmos, valores espirituais, nos quais se oculta a face de um poderoso númerocapaz de vencer a relatividade do mundo circundante, através de um novo Eu do indivíduo. Como de outras vezes, o campo do saber está a ser solicitado a ampliar-se, mas, desta vez, apoiado no númeno (*) parapsicológico. É evidente que a busca metapsíquica se aproxima, podemos dizer, de um verdadeiro desejo de encontrar para o indivíduo uma significação espiritual transcendente. Desta vez, se o factor ontológico for secundado pelo factor parapsicológico, o conhecimento está perante a possibilidade de se beneficiar grandemente. Seria deplorável se a parapsicologia se desviasse do seu campo extrassensorial, por falta de inquietude filosófica; mas a filosofia deveria amparar a parapsicologia, para que o seu real objectivo não se convertesse num intranscendente parapsicologismo.


(2) O Espiritual Como Objecto da Parapsicologia

O parapsicológico experimental já percorreu uma trajectória suficiente para advertir, à crítica filosófica, que o extrassensorial não é somente de origem natural e fisiológica, ou ainda biológica, mas que nele se apresenta, superando o fenómeno, um novo ser espiritual, a indicar-nos que o espírito, no imanente como no transcendente é, o objecto obrigatório da parapsicologia. Se um exagerado naturalismo absorvesse a sua essência psíquica, o númeno parapsicológico ficaria postergado por muito tempo.

A excessiva naturalidade, que se pretende ver nos factos psíquicos, faz o filósofo vacilar em decidir-se a interpretá-los. Por isso já se disse e, com razão, que a demasiada naturalidade de um ramo da ciência diminui as suas perspectivas metafísicas. Um naturalismo superlativo poderia desvirtuar essa intencionalidade tão promissora, que se revela na parapsicologia. Se a técnica metapsíquica se mecanizar demasiado, teremos apenas uma máquina fenoménica. Entretanto, o que agora se denomina crise do homem exige penetração da investigação ontológica nas camadas inabituais da parapsicologia. A interpretação espiritual dos seus fenómenos poderia significar uma nova colocação do sentido metafísico do Ser e, ao mesmo tempo a fundamentação de um esquema religioso digno do grau evolutivo atingido pela cultura dos tempos actuais. (**)

Se é certo que a parapsicologia não poderá deter-se numa dada interpretação do homem e da existência, isso não impede que a investigação ontológica, baseada no realismo extrassensorial, a que Eugéne Osty chamou deconhecimento supranormal, busque um tipo espiritual do Ser, baseando-se no número parapsicológico.

A antiga psicologia baseava-se num trabalho estéril, acabando por se perder num campo de imaterialidade psicofísica irreal. Para o psicólogo comum, toda a extrassensorialidade humana é uma ilusão. Continuando apoiado nos obsoletos sistemas psicofisiológicos, apavora-se com a possibilidade de um indivíduo metapsíquico. Daí o acesso do espiritual ao parapsicológico não só representar um triunfo da nova psicologia, mas também um novo sentido para o Ser, na futura investigação ontológica.

/…
(*) Númeno é a essência do fenómeno, a coisa-em-si, enquanto o fenómeno é a manifestação do númeno. (Nota de José Herculano Pires).
(**) “A religião  diz o professor – J. B. Rhine – é, sem dúvida, a área de interesse mais imediato para a parapsicologia. Definida como a investigação das funções não-físicas da natureza e dos princípios que a governam, a parapsicologia teria que reivindicar muitos dos problemas fundamentais da religião, assim como a patologia está necessariamente interessada nos problemas da medicina.” (Revista de Parapsicologia, n° 2 – Buenos Aires, 19,55).



Humberto Mariotti (i)O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização, Do Materialismo Histórico a uma Dialéctica do Espírito, 1ª PARTE, O NÚMENO ESPIRITUAL NOS FENÓMENOS SOCIAIS, Capítulo I, A INVESTIGAÇÃO ONTOLÓGICA NA PARAPSICOLOGIA, 1º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Alrededores de la ciudad paranóico-crítica: tarde al borde de la historia europea (detalhe) | 1936, Salvador Dali).

Sem comentários: