Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O Homem e a Sociedade ~


Capítulo X

Filosofia e Metapsíquica

  O fenómeno metapsíquico é uma transfiguração do fenómeno social. A metapsíquica descentralizou o aspecto natural das coisas para nos mostrar as próprias entranhas do mundo espiritual. Mas a filosofia ainda não se inclina para a metapsíquica, que se apresenta para a cultura ocidental como o único instrumento capaz de intentar uma transfiguração geral dos fenómenos históricos e sociais.

  A base material e biológica sobre a qual assentam os seus fundamentos a sociedade e o homem será superada, se a metapsíquica assumir um papel decisivo em relação ao problema da existência. Dizia Berdiaeff que “a filosofia se desdobra e já não crê nas suas próprias forças”. Esta afirmação é a pura verdade, se observamos o estado em que se encontra o quefazer filosófico, necessitado de orientações espirituais e ideológicas. Esta crise da filosofia talvez nos esteja aproximando de um novo ponto de partida do saber metafísico; a necessidade de passarmos do filosofar para o teosofar, isto é, a um conhecimento divino do homem e do espírito. (i)

  Mas devemos reconhecer, ao mesmo tempo, que o teosofar só será uma realidade social quando a metapsíquica houver transfigurado, com os seus fenómenos, o mundo material, para mostrar-nos o “outro mundo”, que se oculta atrás da realidade social. Deste modo, a crise actual da filosofia só poderia terminar quando se reconhecesse o mundo invisível que nos cerca. Do contrário, será inevitável o fracasso do quefazer filosófico, salvando-se unicamente aqueles valores metafísicos que tenham relação com as realidades metapsíquicas.

  O próprio cristianismo encontraria, na concepção de um homem metapsíquico, o seguro realizador de suas verdadeiras essências divinas. Mas o homem contemporâneo é ainda um homem mortal, considerado como um elemento físico-químico, sem nenhum futuro metafísico. Entretanto, há uma verdadeira ânsia de algo novo neste mundo, que tende para uma nova dimensão do existir. Se é certo que o existencialismo se apresenta como uma moderna reafirmação do Nada, o fenómeno metapsíquico se contrapõe às suas conclusões materialistas. De maneira que as forças que determinarão a revolução dos tempos novos não serão unicamente físicas, nem somente psíquicas, mas metapsíquicas, uma vez que o metapsíquico é um elemento vivo e real, tanto no homem como na própria natureza. (ii)

  A filosofia não intuiu este novo factor para confirmar a idealidade do mundo. O idealismo, afastado pelo materialismo, recobra-se com a realidade metapsíquica, e o próprio Hegel se firmará novamente com ela. Marx encontraria assim um magnífico contendor em Richet, o fundador da metapsíquica. Além do mais, o materialismo dialéctico seria obrigado a aceitar novos movimentos de massas, inspirados na concepção de um homem espiritual e infinito. Deste modo, o fenómeno metapsíquico nos fará compreender que a revolução dos tempos novos será operada pelo Espírito e não pelas forças cegas de um processo dialéctico sem teologia transcendente.

  O numinoso de Rudolf Otto, muito imperfeito para servir de padrão a um novo homem espiritual, seria substituído pelo metapsíquico, do qual surgirão os elementos positivos para se fundar uma antropologia espiritualista que conduzirá o novo processo histórico. Richet talvez nunca tenha pensado em se defrontar com Marx, mas a situação revolucionária do presente obriga o pensamento filosófico a fazer este confronto: ou materialismo dialéctico ou espiritualismo metapsíquico. Um dos dois deverá conduzir o desenvolvimento histórico e social; isso é indubitável. Entretanto, se o fenómeno metapsíquico, através da parapsicologia, fosse incorporado à cultura moderna, seria o espiritualismo espírita que regeria a sociedade e a história, dando à revolução dos novos tempos um sentido social e espiritual.

  A revolução socialista, sem a concepção do homem espírita, decepcionará o homem contemporâneo. Se é inegável que as formas sociais, políticas e económicas, estão destinadas a transformar-se, isso não deverá impedir que se reconheça o homem como uma entidade espiritual.

  Não se pode negar que o espiritismo aporta ao homem elementos positivos para determinar uma profunda transformação da humanidade. Ninguém que se diga evolucionista poderá admitir como bom o actual estado da sociedade, com os seus defeitos e injustiças, resultado de um tipo humano desalmado e cínico que, sob a capa de uma falsa moral, se aproveita dos débeis e necessitados. É evidente que o mais acentuado despotismo rege a ordem social materialista contemporânea; e os que o apoiam são os que levam na alma o mais perigoso de todos os vícios: a falta de amor e de fraternidade para com o próximo.

  A eliminação da ordem social materialista é um imperativo histórico e evolutivo, apoiado pelos Grandes Seres que conduzem na Terra o desenvolvimento do Plano Divino. Opor-se a isso seria negar a revolução geral que há de abalar desde os alicerces a toda a ordem constituída, desde a moral até à material. A força desta revolução emana da própria evolução dos espíritos. Todos os que se opõem a ela são almas retrógradas e partidárias do antigo sistema materialista; mas o espiritismo proclama, com o beneplácito dos espíritos livres e progressistas, o advento de uma sociedade livre do sistema de classes e baseada nos princípios do socialismo. É inegável que a evolução leva ao socialismo e todos aqueles que ignoram o advento de uma estrutura social baseada no regime socialista o fazem porque vivem alheios às grandes conquistas científicas e filosóficas alcançadas pelo espírito humano.

  O homem e a sociedade se enobrecerão com um socialismo baseado na imortalidade da alma e no processo palingenésico dos espíritos. Sem socialismo não se compreende nem se compreenderá a verdadeira essência do indivíduo, pois toda a evolução espiritual leva ao congraçamento fraternal dos espíritos. Mas a fraternidade, para ser efectiva, deverá basear-se no socialismo, visto que onde existam interesses privados e classes sociais não poderão nunca prosperar a ideia e a prática da fraternidade.

  O pior inimigo da solidariedade e da confraternização é o sistema de propriedade baseado no regime capitalista. Este sistema ou regime é completamente antiespiritual e anticristão. O espírito de posse impede o advento do cristianismo e Jesus só chegará a reinar num sistema social onde não existam classes sociais, quando a exploração capitalista tenha desaparecido para sempre.

  Consideramos que sem socialismo a humanidade é um ente que se aniquila a si mesmo. O regime social baseado no capitalismo fará que as portas dos lares, povos e cidades, permaneçam fechadas. Com esse sistema social e materialista as portas das casas jamais se abrirão fraternal e colectivamente, tal como o queria o Divino Galileu. Somente o socialismo abrirá as portas dos povos para que as almas se aproximem. Apesar disso, existem ainda espiritualistas que se inclinam em favor da propriedade privada, esquecidos de que ela é o produto do espírito de posse que domina ainda as consciências.

  Jesus e todos os Grandes Seres nunca foram partidários da propriedade individual; eles não possuíram nada como propriedade, nem se apropriaram de coisa alguma para considerá-la privativa deles. Só os doentes do espírito de posse defendem e argumentam em favor da propriedade privada; isso, porém, não faz mais do que revelar a psicologia ambiciosa e conservadora desses seres. Aqueles que não se elevaram suficientemente para limpar-se do espírito de posse são os partidários da posse particular da propriedade e inimigos declarados do socialismo. Estão ao lado das classes ricas e conservadoras e não ao lado dos miseráveis e deserdados.

  O espiritismo, revolução dinâmica na ordem espiritual e social, está, pelo contrário, sempre ao lado de JesusPorque ele, homem humano e divino, se colocou a favor do futuro humano, quer dizer, defendeu a causa dos pobres e explorados. Por isso, o seu nome vive como um foco de luz no fundo de todas as consciências emancipadas e progressistas. A sua palavra e a sua doutrina são os melhores meios para confirmar a razão moral e espiritual do socialismo.

  Temer, pois, a sociedade socialista, é temer também o futuro dos povos. Temem a sociedade sem classes os que defendem sistemas religiosos e doutrinas sociais que justificam a chamada exploração do homem pelo homem. O ideólogo espírita sustenta sempre novas concepções do mundo e da vida, porque baseia o seu pensamento na lei palingenésica. A sua filosofia é dinâmica e criadora e por isso não aceita nenhum sistema conservador, tanto espiritual como social, que se oponha à lei do progresso. O espiritismo vê em toda a transformação um renascimento e em cada renovação um estado mais propício para alcançar novos estágios sociais e espirituais.
/…
(i) O teosofar é o acto de pensar sobre o homem ou as coisas numa perspectiva deísta, considerando o mundo como a obra de Deus e a Ele unida. O autor não se refere à Sociedade Teosófica ou à sua doutrina, mas emprega a palavra no seu sentido radical. Passar do filosofar (acto de pensar num sentido humano) ao teosofar (acto de pensar num sentido divino) equivale a uma evolução do pensamento filosófico. Este é um dos belos “achados” de Mariotti neste livro. O leitor não deve esquecer que este é um ensaio filosófico espírita, a fim de não se confundir com as palavras. No plano filosófico, as palavras perdem, quase sempre, o seu sentido habitual, para adquirirem outro sentido, mais adequado ao seu conteúdo racional e aos seus componentes etimológicos. (Nota de J.H. Pires).
(ii) Como se vê, o metapsíquico não se refere à teoria científica de Richet, mas a uma realidade filosófica intuída e descoberta por aquela. (Nota de J.H. Pires).

Humberto MariottiO Homem e a Sociedade numa Nova Civilização, Do Materialismo Histórico a uma Dialéctica do Espírito, 1ª PARTE O NÚMENO ESPIRITUAL NOS FENÓMENOS SOCIAIS, Capítulo X FILOSOFIA E METAPSÍQUICA, 15º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Alrededores de la ciudad paranóico-crítica: tarde al borde de la historia europea | 1936, Salvador Dali).

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Deus na Natureza ~


~ O Destino dos Seres e das Coisas ~
~ Plano da Natureza ~ 
~ O Instinto e a Inteligência ~

(II)

Enquanto traço estas linhas, aqui, dentro de pequeno bosque cujas aves me conhecem, tenho defronte de mim um ninho de rouxinóis.

Quatro filhotes implumes, trémulos, ali se premem tão aconchegados que mal se lhes distingue as cabeças volumosas, relativamente e, os olhos negros, ainda mais. Nascidos anteontem, nada vêem, nada sabem ainda, se há arvoredos e luz.

  Se fossem abandonados, assim, não tardariam a perecer. O coração dos genitores, porém, freme por eles com anseios verdadeiramente maternos. Eles lá estão, ambos, pai e mãe, à borda do ninho e aconchegados também. Enfiam o bico nos quatro biquinhos escancarados e é de notar a força que lhes sustenta e alonga os pescocitos. Pai e mãe, trazendo-lhes no papo a provisão, ministram-lhes dessarte, durante alguns minutos, os primeiros alimentos, o mel e o leite que os há de nutrir no futuro. Que família encantadora! E como prezam a vida todos os seis! Os raios solares coam-se através dos ramos, do vale evolam-se perfumes, é a vida a espanejar-se em luz nesta temperatura tépida de Maio. Por vezes, o minúsculo casal suspende a tarefa e contempla os filhotes com ar de contentamento e movimentos de cabeça significativos. Também se fitam silenciosos, colam-se as cabeças e confundem-se os bicos, como num beijo de amor… Depois, ei-los como a se consultarem. Uma nuvem refrescou a atmosfera. O pai voou, a mãe aninhou-se, abrindo as asas de maneira a cobrir todo o ninho e, todavia, mantendo alta a cabeça, para ver o horizonte e sondar as redondezas. Mas, agora, eis que regressa o rouxinol e se coloca, tal como antes, na beira do ninho, a procurar o bico da companheira. É que chegou a hora do jantar da família e o chefe solícito lhe traz o cibo preferido. Quanto a ela, parece não lhe desprazer o regime, uma vez que aspira, como inebriada, o manjar que lhe trazem. Tremem-lhe as asas, todo o corpo lhe palpita, enquanto o marido vai e volta num afã constante, carreando-lhe no bico um repasto completo. Muito lhes cabe fazer pela prole. Agora. ei-los sérios. Há 15 dias, passavam o tempo a cantar, a saltitar de galho em galho, a brincar, a amar... Agora, já não fazem nada assim, estão casados, chefes de família, responsáveis por uma nova geração. Até que os filhotes emplumem, precisam levar-lhes à boca o que mais convém na sua idade e preocupam-se já com o seu destino. Amam-nos e talvez eles não compreendam aquela afeição maternal. É possível que voem, tão logo a mãe lhes ensine a voar; é possível que subitamente a releguem a uma solidão definitiva, sem jamais se lembrarem da infância. “A afeição é como os rios; desce e não sobe.”

  Em que pensam, hoje, esse rouxinol e a sua companheira? Certamente, ao cogitarem do futuro dos filhos, não têm em mente as profissões sociais e os princípios de honorabilidade que devem nortear todas as carreiras. Por certo que não serão atormentados por cálculos económicos, tantas vezes falaciosos para o homem. Mas aos que negam o instinto, perguntaremos: em que escola essa esposa, antes de ser mãe, aprendeu a construir o ninho que lhe havia de receber os ovos?

  Ela tem apenas um ano e ainda não havia chocado: quem lhe ensinou a fazer esse ninho, precisamente assim e não de outro modo? Quem lhe teria falado de temperatura necessária à incubação e eclosão do ovo fecundado? Quem lhe teria dito que chocando, aquecendo por 15 dias aqueles ovos, facultaria a sua geração? Posição de constrangimento, apesar do alívio que experimenta, tornar-se-ia insuportável à sua vivacidade, se um determinismo instintivo não a amparasse. E quando os ovos vingaram, quem lhe disse que precisava sair do ninho e que, vivos e precisando subsistir os pequeninos seres, importava granjear-lhes alimentação adequada? Quem a forçou a passar mais quinze noites de asas abertas sobre o ninho, na mais fatigante das posições para uma ave que deve dormir sobre as patas? A estas, poderíamos juntar mil outras advertências. Hão de responder-nos que a primeira espécie aprendeu tudo isso pelo hábito, e que as tendências se transmitem por hereditariedade; mas é recair no mistério das gerações, é não mais que recuar o problema à primeira espécie, ou melhor ainda, se o quiserem – aos primeiros tipos, supostos geradores de todas as variedades. Ora, admitindo-se mesmo, contra toda a probabilidade, que a construção dos ninhos, a incubação e os primeiros cuidados com a prole sejam mostras de inteligência, não do instinto, e que as espécies tenham, sucessivamente, aprendido a proceder dessa maneira – o que, digamo-lo ainda mais uma vez, nos parece inadmissível – como resolver as questões atinentes à formação do ser dentro do ovo? Quem construiu o ovo, berço de uma geração futura? Quem criou e colocou o germe no centro desse ovo? Mediante um poder misterioso, um ser da mesma natureza dos pais se vai mover neste fluido, o ovo incipiente vai sofrer a mais maravilhosa das metamorfoses, vai viver! Completada a transformação, surge uma ave! Assaz débil para se expor fora, não se exterioriza e, enquanto aguarda, ei-la cercada pela clara do ovo, que é precisamente o alimento que lhe convém até ao nascimento.

  Assim, pouco a pouco, se forma inteiramente, asas e patas se desligam, a cabeça sobreleva o peito, só lhe resta deixar a prisão e para isso o bico se reveste de um esmalte, que cai logo depois do nascimento. Com o bico assim aparelhado, ele se põe a quebrar a casca do ovo, até que consegue pôr de fora a cabeça. Utiliza, então, as asas e acaba por se libertar inteiramente.

  Pois bem: – que os adversários, em tudo isto se esfalfem por formular as mais vastas e intermináveis teorias, que acumulem hipóteses sobre hipóteses, que recusem chamar instinto aos actos do nascituro, como da ave que o engendrou; que embrulhem o assunto em explicações tortuosas, confusas, e nem por isso deixamos de aí ter um facto natural, eloquente na sua simplicidade e que eles, os adversários, não poderão derrocar. Aquele que criou o rouxinol e quis que nos alegrasse ele com o seu canto vespertino, criou o mundo e houve por bem dar-lhe as leis da própria conservação. Não há ideia mais simples e majestosa, nem que mais satisfaça a nossa necessidade de conhecimento. Negar as leis conservadoras da vida é negar toda a Natureza. A nós nos parece que para ir a tais extremos é preciso ser estólido ou vítima de aberração espiritual. A verdadeira Ciência está muito longe de tais negações! Seria, na verdade, uma desgraça se o fruto da sabedoria redundasse no aniquilamento das leis que regem o Universo e constituem a sua unidade viva.

  Porque, pois, em face de factos tão irresistíveis quanto os do instinto animal, não confessar uma verdade bela e tocante ao mesmo tempo? Será precisamente por ser bela e tocante que a recusam? Seríamos quase levados a supô-lo, pois nestas teorias materialistas, basta seja uma coisa agradável ao espírito para logo ser repelida. Esta, contudo, não é uma razão assaz suficiente. Para nós, ao contrário, contemplamos a Natureza em todos os seus aspectos. A verdade não pode deixar de ser bela e não é só Platão a pensar que o belo é o esplendor da verdade. A Natureza é verdadeiramente bela. Longe de desviar os olhos sempre que encontramos uma forma expressiva da beleza eterna, admiramo-la e reconhecemo-la tão sinceramente quanto o fazemos a uma verdade matemática. Não é a Natureza a nossa mãe? Onde já passamos horas mais deliciosas e instrutivas do que as vividas intimamente com ela, no seio da floresta silenciosa?

  Contemplai, na sua maravilhosa harmonia, a lei de continuidade da espécie humana, procurai aprofundar a ordem misteriosa que preside à nossa geração e crescimento. Que maior prova de habilidade pudera dar a Natureza ao envolver cada sexo nessa atracção indefinível, que o escraviza suavemente aos seus desígnios soberanos? Que sabedoria não nos testemunha ela, organizando, em bases rígidas, a vida oculta do ser em formação, que até ao dia do nascimento se beneficia de uma existência inteiramente diversa da de todos os outros seres vivos? Que previdência não demonstra ao criar, para nutrição do tesouro oculto, órgãos diferentes dos que lhe haverão de servir na vida atmosférica e ao preparar para os primeiros dias a mais pura das ambrosias? Perguntai às jovens mães quantos cuidados requerem esses recém-nascidos fragílimos e trémulos. E, contudo, a Natureza ainda será a mais vigilante das mães. Qual a afeição mais tenra, o amor mais carinhoso, o devotamento mais extremado, de mãe; qual a inteligência mais lúcida, a previdência mais sábia de um pai, que poderiam rivalizar com os cuidados incessantes e universais da Natureza, tão profusa, infatigável e prodigamente despendidos na protecção individual, activa, a cada um de seus filhos?

  Sobre a previdência da Natureza, poderíamos escrever grossos “in-fólios”. Poderíamos perguntar se é por acaso e sem objectivo que as espécies mais fracas e expostas à morte são precisamente as mais fecundas, como sejam galináceos, perdizes, etc., pondo dezenas de ovos fecundados e deixando, ao fim de um ano, centenas de rebentos, enquanto as aves de rapina, condores, águias, etc., se apresentam, comparativamente, quase estéreis. Poderíamos, também, perguntar se é às cegas que a Natureza decora de encantos particulares os pequeninos seres sem força e sem amparo, despertando-nos interesse e atenção para essas cabecitas louras, que, privadas de assistência, acabariam por dormir no seu berço um sono eterno. Poderíamos, ainda, invocar aqui o espectáculo integral da Criação vivente, mas, intimamente convencido da adesão dos leitores, neste particular, não insistiremos inutilmente.

  Parece-nos que esses eminentes trabalhadores fizeram entusiasmados a maior parte do caminho e que, não possuindo vista telescópica capaz de distinguir o fim, esquecem que o progresso das ciências tem verdadeiramente um fim e estacam, inertes, depois de provarem uma capacidade activa incontestável. Por terem verificado que as causas finais, imaginadas pela vaidade humana, só lhe têm servido, há tantos séculos, de redança por embalar-se displicentemente; – depois de se haverem certificado que os deuses-escravos do orgulho, as criações da fantasia e as ilusórias teorias de um pensamento mesquinho mais não são que simulacros sem realidade, sombras, fantasmas que um raio de luz das ciências basta para diluir – concluíram não haver directriz nem finalidade na Criação. Porque o homem se enganou na solução de um problema, decidiram eles que não há problema nem solução. Confundindo inexplicavelmente a verdade com a noção do que nos é dado saber; confundindo, igualmente, a grandeza real de uma obra com a ideia que fazemos dela, tal como os teólogos da Idade Média a confundirem a ideia religiosa, em si mesma, com a forma católica particularista, proclamam eles que a falsidade das nossas noções individuais acarretam a ruína do próprio objecto dessas noções. Na verdade, para espíritos habituados aos rigores do raciocínio; para homens sábios, que parece procurarem com absoluto desinteresse a verdade tão longamente dissimulada, dir-se-á que não provam, dessarte, excelência nem superioridade de vistas. Antes, pelo contrário, evidenciam directamente a estreiteza da esfera que habitam, dispostos a recusar-lhe qualquer ampliação, obstinados em lhe vedar toda e qualquer luz, como se temessem que essa luz viesse espalhar reveladoras claridades no horizonte e recuar, para muito além dos seus recursos, os limites do Universo.

  Os nossos opugnadores pretendem fazer ciência quando declaram que a organização dos seres não justifica o ascendente de um desígnio na Natureza. Em lugar de ciência, o que eles fazem é puro sistematismo, arbitrário, nisto como em tudo o mais.

  De facto: em que consista o método científico? Que será uma teoria em Astronomia, em Física, em Química? Observamos os factos e quando possuímos um conjunto de observações suficientes procuramos religá-los mutuamente entre si, mediante uma lei. Vemos essa lei? Nunca, jamais. Adivinhamo-la pela discussão dos factos e talvez a denominação que lhe damos não seja a que melhor convenha.

  Esta teoria, pela qual o nosso espírito insaciável sente a necessidade de explicar todas as coisas, não é, antes de tudo, senão uma hipótese cujo valor consiste, principalmente, na satisfação que nos proporciona a explicação natural dos factos estudados.

  Por muito tempo ela não passa de hipótese, inconsistente e frágil, que o mais leve sopro pode derrubar, para só elevar-se à verdadeira teoria quando suficientemente examinada, experimentada e sancionada pelo estudo. De outra forma, resvala para o campo das erronias imaginárias.

  Vejamos, por exemplo, os movimentos dos corpos celestes.

  Notamos que eles descrevem elipses de que o Sol se constitui um dos focos; notamos que as superfícies percorridas são proporcionais aos tempos, e notamos que estes tempos de revolução, multiplicados por si mesmos, estão entre si como os grandes eixos multiplicados três vezes por si mesmos. Para explicar os movimentos da mecânica celeste, emite-se a hipótese de que os corpos se atraem na razão directa das massas e inversa do quadrado das distâncias. Enunciar esta hipótese, vale simplesmente por dizer que as coisas se passam como se os astros se atraíssem. Depois, explicando essa hipótese, perfeitamente, todos os factos observados e dando conta de todas as circunstâncias do problema, se torna ela uma teoria.

  Enfim, achando-se esta lei universalmente demonstrada, tanto pelo balanço das estrelas gémeas, na profundeza dos céus, como pela queda de uma maçã na superfície da Terra, afirma-se que a lei chamada gravitação (i) representa, de facto, a força reguladora dos mundos.

  Idêntico é o processo que empregamos ao declarar que os organismos vivos são construídos como se a causa, fosse ela qual fosse, que as condicionou teria tido em vista uma destinação dos órgãos em relação à vida peculiar de cada ser, tanto quanto à existência global de todos os seres em conjunto.

  As verdadeiras causas finais são, portanto, um resultado da observação científica, O método é o mesmo e, como bem o disse Flourens, é preciso partir não das causas finais para os factos, mas destes para aquelas. Induzir do conhecido para o desconhecido, eis o único método positivo. Ora, o resultado deste método, seja ele qual for, merece ser proclamado como científico. Pode suceder que a revelação de um plano e de uma finalidade na Natureza não agrade a Fulano ou Beltrano, mas isso pouco importa. Fulano e Beltrano estão no mais falso dos erros quando nos acusam de não proceder de acordo com a Ciência experimental e incidem na mais fatal das ilusões quando imaginam proceder de acordo com essa ciência. Trocam, assim, os papéis pró-domo sua, como frequentemente acontece.

  A verdade, porém, despreza-lhes as tendências e fica inalteravelmente idêntica, sem se preocupar com os prismas através dos quais a encaram olhos interessados em vê-la abaixo da sua posição real.

  Esquisitice inexplicável em homens judiciosos, pretenderem que, admitindo a existência de Deus, sejamos obrigados a admitir o arbítrio na Natureza, como se a vontade suprema não fosse necessária, infinitamente sábia e, por consequência, universalmente regular. “Os que só vêem em todos os movimentos da Natureza os meios de atingir um fim – diz Moleschott – chegam muito logicamente à noção de uma personalidade que, num tal propósito, confere à matéria as suas propriedades. Esta personalidade também designará o fim.

  “Se assim é, se uma personalidade designa os fins e escolhe os meios, a lei de necessidade desaparece da Natureza. Cada fenómeno se torna partilha de um jogo do acaso e de um arbítrio sem finalidade.”

  J. B. Biot afigura-se-nos mais bem inspirado quando assim conclui o exame da Natureza: (*) “Por mim, quanto mais considero a harmonia, a imensidade do Universo e as maravilhas da Criação, tanto mais admiro esse concerto maravilhoso e menos apto me julgo para explicá-lo. Ousarei dizer, mesmo por havê-lo experimentado, que essas explicações imperfeitas, esses vagos ou falsos relatórios, que alguns modernos escritores querem inculcar como harmonias sublimes, nunca nos pareceram mais temerários e fúteis do que quando defrontamos a Natureza. Quando se há tido a ventura de conhecer e sentir as verdadeiras belezas que ela ostenta, somos tentados a conceituar, como profanadores e ímpios, quantos a desfiguram com indignos disfarces. Assim é que todos os seres organizados tiveram os seus meios próprios de vida, tão numerosos e tão multiplicados na variação do mecanismo, quanto as estrelas do céu.

  “E note-se que isto é o que percebemos exteriormente, pois o mais maravilhoso nos fica oculto. Quem, jamais, pôde compreender a acção química das membranas vivas, a causa dos movimentos voluntários e involuntários – que digo eu? – o voo da mosca, os torneios da borboleta? Quando a nossa inteligência mal pode atingir o conhecimento das disposições exteriores do organismo e mal pode apreender as relações entre si de alguma das peças que o compõem, seria, parece-nos, ilógico não ver no âmago desse conjunto o princípio inteligente, como o ordenador e regulador de tudo. Por mim quero, ao menos, possuir a filosofia da minha ignorância.”

  A ordem verificada nos factos não produzidos pelo homem – advertiremos ainda com o ilustre escritor (**) – mostra-nos que as correlações apresentadas pelo mundo material resultam de acções e reacções que, combinadas, se regem por leis. Pela experiência contínua da vida, sabemos que sempre as correlações, as harmonias, as leis, são obra de uma inteligência cujo poder é proporcionado à extensão dos fastos e das harmonias coordenadas. Temos assim, por evidente, que o Universo é governado por uma inteligência. Estas correlações e estas harmonias estão em correspondência com as propriedades intrínsecas da matéria e a elas se ligam de tal sorte que deixariam de existir se essas propriedades substanciais fossem outras. Daí concluímos que a matéria com as suas propriedades intrínsecas é também obra da Inteligência, que lhe estabeleceu as leis. O bom senso decreta, imperiosamente, e no que pesem às alegações contrárias, que não podemos atribuir a uma circunstância molecular, fortuita, a atracção, a electricidade, o calor, a composição do ar, factos cósmicos perfeitamente apropriados à vegetação das plantas, à vida animal, pela mesma razão que ninguém admitiria pudessem milhares de tipos de impressão, espalhados ao acaso, produzir a Ilíada ou a Jerusalém Libertada. Se, para fugir a conclusões lógicas, nos dissessem que essas qualidades são efeitos inerentes, nem por isso elidiriam a necessidade lógica de uma intervenção suprema e inteligente.

  Juntemos a esta imagem um aforismo pouco discutível: todo o fim supõe uma intenção, toda a intenção uma consciência e toda a consciência uma personalidade.

  O problema das causas finais, repitamo-lo, é de solução mais difícil e complicada do que se prefigura a muitos imaginativos apressados. Ele se traduz, como diriam os antepassados, antes em potencial do que em acto. Os factos gerais o decidem e os particulares o dificultam. Para bem o apreender, importa ao espírito adstringir-se a um exame severo e, de um golpe de vista, abranger, senão a totalidade, pelo menos a maioria das coisas conhecidas, sob o duplo aspecto do tempo e do espaço.

  O primeiro efeito desse rigoroso estudo crítico é, precisamente, afastá-lo de toda a crença e resguardá-lo dessas mesquinhas interpretações humanas, que levam a criatura a referir tudo a si mesma, como eixo central da Criação.

  Assim procedendo, poderemos, então, rir das ilusões, vaidades e tentativas insensatas do orgulho humano. Esse, o primeiro resultado do estudo geral dos seres.
/…

(*) Mélanges Scientifiques et Litteraires (i), t. 2º.
(**) J. M. de la Codre – Les Dessems de Dieu. Este ensaio de filosofia religiosa e prática caracteriza uma das felizes tendências contemporâneas contra a invasão do ateísmo. Os argumentos, aí desenvolvidos, resumem-se no seguinte: Não existe o impossível; no Universo há ordem e a ordem só pode emanar de uma inteligência. O Universo é, portanto, obra de uma inteligência. Essa ordem resulta da execução de uma lei, ou do concerto de várias leis e, as leis são sempre e, necessariamente, obra de uma vontade inteligente. O autor do Universo, Deus, sendo uma Inteligência, teve indubitavelmente um fim, criando o Universo. Esse fim seria fazer-nos felizes, como no-lo atestam as nossas aspirações e faculdades, no que possuem de mais elevado. Todos os seres dotados de sensibilidade são, por conseguinte, convocados à felicidade. E nós vemos, de facto, que eles são até certo ponto felizes, por isso que todos vivem e amam a vida, assegurando-a e defendendo-a até aos limites extremos. A felicidade, porém, não é igual para todos os seres: Há, notadamente, uma diferença marcante entre a felicidade dos animais e a presumida felicidade humana. Aquela se adstringe a estreitos limites, é uma felicidade simplesmente “dada”, enquanto que esta toma vastas proporções e reveste outro carácter; é uma felicidade merecida”.
Compreender-se-á facilmente esta distinção – diz o Autor – observando os factos e comparando os raros e incompletos prazeres de que compartilham os seres puramente sensitivos, com os gozos serenos, infinitos, que a alma humana encontra no cumprimento do dever, na piedade, nos doces afectos da família. A maior parte dos sofrimentos nos sobrevêm quando, por ignorância ou rebeldia, contravimos às leis do criador.
Da perpetuidade dessa aspiração a uma felicidade completa e indefinida, e da faculdade de aperfeiçoamento moral, bem como de conhecimento progressivo; – uma vez que essa felicidade não pode existir na Terra – devemos concluir que o homem não perecerá neste mundo com o seu invólucro corporal. A esta hermenêutica podemos ajuntar o seguinte, que o autor nos expôs em carta particular:
“A Natureza é ao mesmo tempo o laboratório e o operário de Deus, assim como a oficina provida de um preparador é o laboratório do físico ou do químico. Tanto mais superiores são os produtos brotados da Natureza, em relação aos de nossas oficinas, quanto mais exaltam e atestam o poder e a inteligência divinos, em relação aos de nossos sábios. Estes, com os materiais que lhes oferece a Natureza, não conseguem fazer o que faz “o operário de Deus” sob a sua direcção. D:H::N:O “Deus está para o homem como os produtos da Natureza estão para os da oficina.” D:N::H:B Deus “actua” sobre a Natureza como a vontade do homem, guiada pela sua inteligência, “actua” sobre os seus olhos e braços. Num capítulo de Os Desígnios de Deus, consagrado à Pluralidade dos Mundos habitados, o Autor contradita a nossa opinião sobre a variedade dos organismos no Universo e a ideia de uma semelhança entre todas as humanidades. Baseia-se ele no seguinte raciocínio: se os habitantes doutros mundos não têm a forma terrestre e se estamos destinados a viver também nesses mundos, não poderemos lá reconhecer os amigos caros... A objecção é mais sentimental que científica e não cabe discuti-la aqui. Podemos, não obstante, repetir que, em virtude da diversidade de acção das forças naturais, noutros planetas, é quase certo que a série zoológica lá se tenha construído sobre um tipo análogo ao da série terrestre.

(Referências: – Leis que presidem à conservação das espécies. – Faculdades instintivas especiais. – Não se explica o instinto pela suposição de hábitos hereditários. – Distinção fundamental entre os factos instintivos e os racionais. – Desígnio nas obras da Natureza. – Ordem geral e as harmonias universais. – Qual a distinção geral do mundo? – Magnitude do problema. – Insuficiência da razão humana.)

Camille FlammarionDeus na Natureza, Quarta Parte (4); O Destino dos Seres e das Coisas, (2) Plano da Natureza, Instinto e Inteligência (2 de 3), 35º fragmento desta obra.
(imagem de contextualização: Jungle Tales (Contos da Selva) 1895, pintura de James Jebusa Shannon)