Da arte com que trabalharmos o nosso pensamento dependem as nossas misérias ou as nossas glórias...

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

O Mundo Invisível e a Guerra ~

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Respon-sabilidades

|Abril de 1917| 

  Estamos assistindo ao fracasso de todo um mundo, um mundo de preconceitos, de erros, de ilusões perdidas, de esperanças enganosas e de quimeras dissipadas. Porém, de tantas ruínas deve nascer uma nova ordem, pois a morte gera a vida e os túmulos, por caminho secreto, conduzem aos berços.

  A horrível tempestade que sopra sobre o globo fez incalculáveis devastações e mais de dez milhões de homens tombaram na sua juventude ou na sua virilidade. Povos inteiros foram despojados, degolados ou escravizados. Vastas regiões foram saqueadas sistematicamente, ficando os seus habitantes condenados à fome e à mais negra miséria, constrangidos a abandonarem os seus lares, vagando sem recursos nos caminhos do exílio. Milhares de navios permanecem no fundo das águas com os seus grandes carregamentos e os restos humanos que eles encerravam.

  À nossa volta só encontramos famílias de luto e a visão dos mutilados entristece as nossas cidades e os nossos campos.

  Não é menor a devastação moral experimentada. E em certas ocasiões, nos perguntamos se a justiça, a verdade, o direito, a liberdade e a fraternidade, luzes que partem do divino foco para iluminar o caminho dos homens, essas forças do Alto que nos amparam nas horas difíceis, poderiam ser espezinhadas, ultrajadas e aniquiladas.

  Poder-se-ia acreditar que a força bruta, a mentira, a hipocrisia e o ódio dominariam o mundo e que o vendaval do abismo passava sobre nós. De todos os cantos da Terra, gritos de angústia e de desespero sobem para o céu!

  Essa é a obra de Guilherme II e do seu povo!

  Se chegarmos à fonte, à causa moral, à origem de tantos males, que encontraremos? Inegavelmente, entre os alemães, um incontido orgulho, uma ânsia de dominação, um sentimento exaltado de superioridade que os leva a desconhecer e até a desprezar o real valor dos seus adversários.

  Todavia, ainda há mais, e aqui tocamos no lado fraco, no ponto mais delicado e mais sensível de nossa civilização, que a torna sempre precária e instável, pois enquanto existir tal causa, violentas correntes poderão originar-se no seio da humanidade, destruindo a laboriosa obra dos séculos.

  Queremos referir-nos à ausência de elementos reais sobre a finalidade da vida humana e da sua continuação no Além. Pensamos na ineficácia do ensino quanto às leis superiores, principalmente a lei da consequência dos actos que recai, automaticamente, sobre nós, traçando o caminho dos nossos destinos.

  Na igreja ou na escola, só encontramos hipóteses sobre esses pontos fundamentais, noções vagas e confusas, sem apoio em nenhuma demonstração real, em nenhuma prova concreta.

  Entretanto, faz mais de meio século que o espiritualismo experimental lança e proclama, para todos os quadrantes, as bases de uma doutrina clara e precisa, resultante das relações estabelecidas, em todas as partes do mundo, com os nossos parentes e amigos já mortos.

  Essa doutrina, confirmada por incontáveis provas de identidade, fornecidas pelas entidades comunicantes, proporciona ao homem o critério de certeza que até agora não o havia conseguido.

  Ora, qual foi a aceitação que essa revelação providencial e regeneradora recebeu? As igrejas fizeram tudo para abafá-la e as escolas só lhe votaram indiferença ou desprezo.

  Sem o esclarecimento necessário para iluminar a sua estrada, sem o fio de Ariadne para guiá-lo no labirinto da vida, exposto às contradições dos maus pastores, o homem deu livre expansão às paixões e aos desejos incontidos que lhe tumultuavam a alma, daí resultando os desastres e as catástrofes que se multiplicam e as espantosas revoluções que agitam fortemente o mundo.

  Envolvida pelo sombrio e grosseiro misticismo que lhe é próprio, a Alemanha se mostrou particularmente refractária à nova corrente de ideias. Ali os estudos psíquicos são muito pouco considerados e o imperador lançou suspeita sobre todos os seus funcionários que se interessavam pelo assunto.

  Caso o sinistro imperador houvesse conhecido melhor as condições da vida no Além, familiarizando-se com o mundo dos espíritos, se soubesse o que aguarda a cada um de nós e o que aguarda a ele mesmo depois da morte, teria assinado o decreto de mobilização do exército alemão, na trágica noite que iria desencadear sobre a Europa um tufão sem igual?

  Através de um bom médium, poderia ter evocado os espíritos ilustres dos génios protectores da antiga Alemanha: Goethe, Kant, Leibniz, Fichte, ou simplesmente a alma de seu pai, Frederico, o Sábio. Por certo, com os seus conselhos, esses nobres espíritos o teriam desviado do seu caminho sangrento.

  Se o Kaiser tivesse estudado, conhecido e se relacionado com o mundo invisível, teria podido ver, antecipadamente, a sorte que a inexorável lei lhe reserva, desdobrando-se-lhe perante os olhos, como em um quadro. Teria visto a sua própria alma, mergulhada no sangue derramado, transpondo os umbrais terríveis do Além e, diante dela, a imensa multidão das vítimas da guerra, acusando-a, esmagando-a, amaldiçoando-a.

  Inutilmente ela procura desviar-se e fugir. Em vão procura solitários e escuros sítios: a multidão a persegue por toda a parte, sem cessar, com as suas ameaças e os seus furores.

  Se, por excepção, o seu miserável espírito descobre algum refúgio tenebroso e desolado, ali se encontra frente a frente com a própria consciência que se tornou mais imperiosa ao desprender-se da matéria. O remorso o persegue e o despedaça! Incessantemente escuta vozes que lhe repetem: “Caim, que fizeste de teus irmãos?”

  Mais tarde haveria a perspectiva dos renascimentos, a longa série das vidas planetárias, quando o seu corpo deformado e a sua alma degradada deverão padecer todas as vergonhas, todas as humilhações, esvaziar o cálice da amargura, expiando as suas culpas com existências obscuras e atormentadas através dos séculos; o resgate do passado pelo rebaixamento, pelo sofrimento e pelas lágrimas.

  Se desse futuro aterrador ele volve os olhos para o momento actual, se pensa no apoio e no auxílio que pode esperar do mundo oculto, que verá?

  No lugar dos espíritos elevados que protegem a França, no lugar de um velho Deus imaginário, concebido pelo seu cérebro exaltado, só verá sobre os seus exércitos a legião negra dos espíritos das trevas, os espíritos atrasados da Idade Média, insuflando sobre os seus soldados o ódio e a perfídia, procurando descobrir com eles todas as possibilidades de uma química infernal e assassina. No espectáculo das atrocidades que provocam, todos esses agentes do mal encontram a satisfação dos seus instintos de violência e crueldade.

  No entanto, se ante essas visões de espanto e horror o Kaiser sentisse estremecer-lhe a carne e apertar-lhe o coração, lançaria para bem longe a sua pena, a fim de não fazer-se credor dos golpes do destino implacável, poupando a humanidade à mais terrível das catástrofes.

  A França também possui parte das responsabilidades; as nossas academias, as universidades e as igrejas não souberam valorizar as verdades e as forças morais que a Doutrina dos Espíritos lhes trazia. Recusaram a mão que, do Alto e desde há 50 anos, lhes era estendida a fim de conduzir o nosso país para uma fonte fecunda e regeneradora.

  Quais têm sido as consequências dos seus ensinos complexos e contraditórios sobre a vida actual?

  Antes da guerra, estávamos diante do espectáculo de uma sociedade sem ideal, sem elevação, sem grandeza e desprovida de beleza moral; as gerações lançavam-se ao acaso, sem finalidade, sem orientação certa e sem saber onde se fixar; pobres seres instáveis, percorrendo o desfiladeiro sombrio da vida, sem uma luz, sem paz no coração e enlameando-se cada dia mais na matéria e na sensualidade.

  O homem consumia todas as suas forças para assegurar a sua vida material e só ouvia, muito fracamente, a voz da alma, que também reclama o seu alimento.

  Diante de tantas doutrinas confusas, igualmente sem bases, sem provas e sem sanções, as grandes verdades ficaram veladas e foram lentamente desnaturadas.

  O erro e a mentira infiltraram-se aos poucos em toda a vida nacional, que se desfigurou por completo tanto na ordem política como nas relações sociais.

  As inteligências e as consciências, percebendo, por uma intuição secreta, que aqueles que tinham a missão de ensinar a verdade a estavam negando, esqueceram-se dela e como consequência lógica das coisas, modificou-se todo o nosso modo de viver, de pensar e de agir. Daí, a hipertrofia do eu, a necessidade irresistível de projectar-se, elogiar-se, de aparecer, de atribuir-se qualidades falsas e méritos fantasiosos que caracterizavam grande número dos nossos contemporâneos; tudo resultou em um transbordar dos apetites e das paixões.

  Não se podia mais, nas conversações, expressar uma opinião forte, um pensamento elevado e desinteressado, sem se ficar sujeito a sorrisos cépticos e zombadores. A virtude se tornava quase ridícula. O adultério e a libertinagem eram tolerados com indulgência.

  A exploração descarada e as trapaças financeiras, as práticas dos homens que especulam na Bolsa, a rapina, quando resultavam em fortuna, já não despertavam reprovação.

  No terreno político havia o assalto aos cargos oficiais e ao poder; a protecção e o favor substituíam as aptidões; os medíocres e os incapazes ocupavam os melhores postos. Quase sempre se confiava o governo aos menos dignos de exercê-lo. A imprevidência, a má administração dos recursos e a instabilidade ministerial anulavam as mais belas obras nacionais.

  Quando a grande lei moral – a dos deveres e das responsabilidades – cessou de brilhar aos olhos dos homens, obliteraram-se todos os princípios dela decorrentes. Fez-se noite nas consciências e o mal ampliou o seu domínio.

  Como a noção de lei é inseparável da ideia de Deus, que é o seu criador, enquanto se enfraquece o culto do poder supremo, vê-se crescer o do bezerro de ouro e se acentua a descida para o abismo da matéria!

  A borrasca veio e o seu sopro poderoso varreu muitas vaidades, valores falsos e juízos enganosos.

  A guerra descobriu todas as nossas feridas, fazendo ressaltar insuficiências e incapacidades, colocando no justo lugar os medíocres que ocupavam certas posições. Sem dúvida esses falsos valores não desapareceram completamente do nosso cenário político e do nosso país, pelos males que carrega, muito se apercebe disso. Pelo menos, já são julgados como merecem, a condenação está clara nos corações e o seu domínio está se acabando.

  Junto com os nossos vícios e defeitos, dormitam na alma francesa qualidades varonis que os acontecimentos destacaram. A nossa desmoralização era mais aparente que real, mais superficial do que profunda. O génio da raça reapareceu!

  As consciências honestas e os valores morais surgiram em quantidade, principalmente no meio das tropas, e foram elas, com a ajuda imensa do mundo invisível, que salvaram a honra da França, impedindo a sua ruína, a sua queda e o seu aniquilamento.

  Já apresentamos, em um artigo anterior, o papel importante que o mundo invisível desempenhou na actual guerra e mostramos o constante apoio que ele prestou aos nossos exércitos, mas essa exposição foi insuficiente.

  Não se saberá e não se compreenderá jamais toda a extensão dos esforços e das energias empregadas pelos espíritos protectores da França para animar e sustentar os seus soldados na terrível luta empenhada. Eles não somente lhes excitam e inflamam o vigor nos combates, como também lhes inspiram uma resignação heróica, nas longas horas de vigília e de espera na trincheira.

  A sua coragem no ataque era proverbial, mas qualidades ocultas de paciência e de perseverança se destacam agora na alma nacional.

  Indagavam se as nossas tropas ainda poderiam aguentar o rigor de um terceiro inverno, depois de dois anos de fadigas e sofrimentos. Pois bem, eles suportaram, com a mesma coragem, as rajadas de projécteis e as ondas de gases asfixiantes; em determinados dias, a fome, o frio, a humidade, causadoras de tantos males, e o contacto com insectos repugnantes.

  Em 1870-71, como soldado voluntário, pude verificar que a mentalidade das tropas era muito diferente, mas naquela ocasião o mundo invisível não nos sustentava com os seus fluidos poderosos e a França foi vencida.

  Ao rubro fulgor dos factos, como já afirmávamos, surgiram todas as nossas misérias morais, a fraqueza de carácter e das consciências, tudo quanto era vão, artificial e enganador na nossa sociedade.

  Por havermos falseado a verdade em quase todas as coisas, nos negócios, no ensino e na política, tivemos que suportar, como castigo, a mentira no que ela tem de mais odioso.

  O imperador alemão não parou de mentir, com prejuízo nosso, diante do Universo, invocando o nome de Deus. A partir de então, a verdade se mostrou como o único meio de assegurar a lealdade e a dignidade nas relações humanas. Por outro lado, os exemplos heróicos dos nossos soldados lograram imensa repercussão no país inteiro. O seu sacrifício em face do dever, a sua renúncia diante do sofrimento e da morte eram de tal monta que envergonhavam os egoístas e aqueles que só procuravam os gozos. A sua obra principal, sem qualquer dúvida, consiste em libertar o território, mas também possui uma grande lição moral que eles pensam continuar, mesmo após a guerra.

  Pelo menos é isso que se depreende das inúmeras cartas recebidas da linha de combate. Eles querem que um vento puro varra a espessa atmosfera que atrapalha o nosso olhar, ocultando-nos as realidades terríveis. Sonham com um ideal nobre e uma sociedade espiritualizada onde a vida da alma tenha livre expansão.

  Nos momentos trágicos, quais relâmpagos, ou paulatinamente na espera das trincheiras, entreviram a soberana lei que faz recair sobre cada um e sobre todos as consequências dos actos praticados.

  Entenderam que por havermos, durante muito tempo, acatado e acariciado as anti-verdades, temos agora de sofrer as mentiras do estrangeiro, bem mais pesadas e grosseiras.

  Compreenderam também que, por procurarmos demasiado a vida fácil, dourada pela fortuna e pelos prazeres, agora teremos de suportar as privações e as misérias.

  Afinal, sentiram que essa visão e compreensão das coisas superiores deve permanecer no pensamento e na consciência de todos, para amparar o nosso país na ladeira fatal por onde está resvalando.

  Essas almas generosas representam, por certo, somente pequena minoria do país, todavia podem agir como o fermento, que faz crescer a massa, pois os inimigos da espiritualidade são numerosos e desejarão manter o seu domínio de todas as maneiras.

  Após expulsarmos o invasor, deveremos ainda lutar contra as ideias perniciosas, as oposições e as rotinas do interior do nosso país. Pelo encargo de educar a infância haverá os mais sérios combates, porque quem encaminha a criança tem o futuro mais seguro.

  A educação oficial estará à altura de sua missão? É justo duvidar, mas os seus orientadores deveriam entender que não é através de negativas ou de uma moral vaga e sem sanções que se conseguirá o insucesso do obscurantismo e refazer a consciência popular.

  Aí então o Espiritismo poderá intervir e desempenhar o seu providencial papel. Ele oferece, simultaneamente, a base e o coroamento inexistentes para a educação popular, isto é, a prova em que repousa todo o edifício dos nossos conhecimentos e a doutrina moral que é o seu ápice e lhe garante a harmonia.

  Todavia, não está na sorte dos divinos enviados o facto de serem desprezados e zombados? Assim, o Espiritismo não foge a essa regra, entretanto a sucessão dos testemunhos e a adesão de eminentes homens, que lhe dão, aos poucos, um lugar na ciência inglesa, certamente terminarão impressionando o nosso país. Chegar-se-á a aceitar a sobrevivência da alma e o seu progresso pelas reencarnações, tal como se aceitam todos os axiomas científicos como, por exemplo, o movimento da Terra, sem que, entretanto, tenha havido uma verificação pessoal.

  Enquanto aguardamos essa época, cabe principalmente a nós, aos pais e aos chefes de família, velar para que a inteligência e a consciência das crianças não sejam falseadas por um mau ensino, destituído de nobres princípios.

  Terminada a guerra, as coisas permanecerão como dantes? Com o irresistível trabalho dos acontecimentos, haverá um esforço mental em muitos espíritos, varrendo-se muitos preconceitos e pontos de vista errados, sendo prudente não nos desesperarmos de nada, nem de ninguém. Na verdade quantos pensamentos estarão libertos da prepotência que até há pouco tempo suportavam!

  Quantas consciências, balançadas profundamente, abandonarão os artifícios e as convenções infantis que atrapalhavam o seu voo para uma luz mais viva!

  Parece que a vontade divina consiste em que o mundo se reforme e se regenere por meio da dor. Jamais, como agora, se oferecerá a ocasião mais propícia; aproveitemo-la, portanto, para divulgar por toda a parte a grande doutrina espiritualista que há de encorajar e pôr a humanidade de pé.

  Além do mundo invisível, na nossa árdua tarefa de divulgação da doutrina, temos dos companheiros de luta, que nos animam incessantemente e nos impulsionam para o Alto, o dever e a verdade.

  Durante 40 anos trabalhamos em conjunto com eles, seja por meio da escrita ou da palavra. Inicialmente, em particular no nosso trabalho como conferencistas, recolhemos mais zombarias do que aplausos. O Espiritismo então era tido como coisa ridícula, mas pouco a pouco a opinião pública se tornou mais favorável, concordando em nos ouvir, embora sem extrair grandes benefícios do nosso ensinamento.

  Actualmente já escutam, reflectem, estudam e compreendem, porém isso não basta: é necessário concretizar o conhecimento das leis superiores em exemplos.

  Mais tarde haverão de nos fazer inteira justiça. Entenderão que se houvessem conhecido e respeitado a lei das responsabilidades, muitos sofrimentos, desfalecimentos e fracassos teriam sido evitados.

  Chegará o tempo em que, calculando-se toda a extensão e consequência dos erros cometidos, serão aprisionados ao pelourinho da opinião pública os dirigentes de todas as espécies: os gozadores, os libertinos, os corruptos e os corruptores, cujos actos nos conduziram ao fundo do abismo.

  Os sacrifícios já realizados na luta e no alívio das misérias comuns frutificarão e do sangue que for derramado se levantará uma floração de novas virtudes.

  Vivemos num desses instantes graves, onde, no ardor dos acontecimentos, a história transforma a humanidade.

  Os aliados fazem um esforço supremo para conseguir uma vida mais nobre, mais digna da alma e dos seus destinos. Confiemos nos desígnios de Deus sobre a nossa pátria. A França purifica-se pela dor e não será inútil o sofrimento infinito que os seus filhos suportam.

/…


LÉON DENIS, O Mundo Invisível e a Guerra, X Responsabilidades, Abril de 1917, 26º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Tanque de guerra britânico capturado pelos Alemães, durante a Primeira Guerra Mundial)

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

O sentido da vida ~


Deus | e o Homem

As religiões apontam contra o Espiritismo aquilo que chamam de a palavra de Deus, citando os versículos do primeiro livro de Moisés, na Bíblia, a Génese, que afirma haver Deus criado o homem à sua imagem e semelhança. De acordo com esse princípio, aparentemente bíblico, o homem tem de ser elemento à parte na criação, porque é a própria imagem de Deus colocado dentro do Universo. O Espiritismo nos mostra, porém, que esse conceito, ao invés de elevar o homem, diminui a DeusKardec nos diz, por isso mesmo, no número 12 do capítulo XII de A Génese:

“Não rejeitemos, pois, a Génese bíblica; estudemo-la, ao contrário, como se estuda a história da infância dos povos”.

Em O Livro dos Espíritos, livro básico da doutrina, encontramos a seguinte definição de Deus: “... é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.” Vemos, portanto, que Deus não foi esquecido, nem ficou à margem, mas continua colocado, com mais justeza e maior razão, na base de tudo quanto existe.

Comentando a teoria científica de que as coisas do Universo provêm das propriedades íntimas da matéria, sem intervenção de qualquer outro princípio, Kardec diz, nesse mesmo livro:

“Atribuir a formação primordial das coisas às propriedades intrínsecas da matéria seria tomar o efeito pela causa, pois que essas propriedades são, por sua vez, efeitos que devem ter uma causa.”

Sabemos, além disso, que a natureza do efeito decorre sempre da natureza da causa. Analisando o Universo, pelo que dele podemos aprender, vemos que os seus efeitos são de natureza inteligente, e se entrosam de maneira tão harmónica, tão perfeita, que só podem decorrer de uma causa inteligente.

Vemos, nesse ponto, que o Espiritismo estabelece uma estreita relação entre a Ciência e a Religião, por meio da Filosofia. Sem negar a existência de Deus, ele contraria a concepção antropomórfica das religiões e estabelece uma teoria que, embora não tenha carácter experimental imediato, não deixa de ser tipicamente científica. Deus já não é matéria de crença, simplesmente. É objecto de dedução filosófica, mas seguindo os métodos de observação do pensamento científico.

No tocante à formação do homem à imagem e semelhança de Deus, mais uma vez não vemos razão para o escrúpulo e o espanto dos religiosos. Diz a Génese bíblica que o homem foi feito de terra, e embora não aceitando literalmente a imagem de um boneco de barro feito por alguém, que seria Deus, o Espiritismo aceita o princípio de que o homem procede do barro terreno, de que a vida orgânica teve princípio, juntamente com o desenvolvimento mental e psíquico, na argila fecunda dos primeiros tempos da formação planetária. A Bíblia nos apresenta, pois, apenas uma imagem daquilo que teria ocorrido, na distância dos milénios. Deus falou, através da Bíblia, por meio de parábolas, como tantas vezes falou Cristo, na sua passagem terrena, para os homens de seu tempo.

“Mas – dirão os religiosos apegados ao texto –, e onde ficam a imagem e semelhança de Deus, na formação do homem?”

De facto, não podemos conceber Deus como um animal vertebrado, da classe dos mamíferos, embora superior ao homem, por atributos cósmicos que esse ainda não conseguiu obter. O Espiritismo não admite que a nossa forma orgânica, material, seja a forma do próprio Deus.

À pergunta formulada por Allan Kardec, no primeiro capítulo de O Livro dos Espíritos

“Pode o homem compreender a natureza íntima de Deus?”, responderam os espíritos que o assistiam no trabalho de codificação da doutrina:

“– Não, pois lhe falta o sentido necessário.”

Mais adiante, no mesmo capítulo, o próprio Kardec esclarece:

“A inferioridade das faculdades do homem não lhe permite compreender a natureza íntima de Deus. Na infância da Humanidade o homem o confunde muitas vezes com a criatura, cujas imperfeições lhe atribui; mas, à medida que nele se desenvolve o senso moral, o seu pensamento penetra melhor no âmago das coisas; então, faz ideia mais justa da Divindade e, ainda que sempre incompleta, mais conforme à sã razão.”

Não vemos nenhum motivo para negar que o homem tenha sido feito, se assim se pode realmente dizer, à imagem e semelhança de Deusembora não concordemos que Deus tenha a forma orgânica do homem. E é o próprio O Livro dos Espíritos que nos fornece os dados necessários a uma interpretação espírita desse problema. Encontramos no número 77 do seu primeiro capítulo a seguinte pergunta de Kardec e a respectiva resposta dos espíritos:

“Os espíritos têm forma determinada, limitada e constante?”

“– Para vós, não; para nós, sim. O espírito, se o quiserdes, é uma chama, um clarão, uma centelha etérea.”

Ora, se compreendermos que o homem não é o seu corpo animal, mas o espírito que anima esse corpo e realiza através dele a sua evolução na vida terrena, veremos que as palavras da Bíblia não foram prejudicadas pela interpretação espírita de Deus; e veremos também que há uma relação mais íntima e profunda, de essência e não de forma, entre Deus e o homem, do que a relação materialista estabelecida pelos exegetas bíblicos das várias religiões.

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José Herculano Pires, O Sentido da Vida, Deus e o Homem, 4º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Platão e Aristóteles, pormenor d'A escola de Atenas de Rafael Sanzio, 1509)

terça-feira, 1 de setembro de 2015

| o grande enigma ~

as harmonias do Espaço (II)

As relações harmónicas que regem a situação dos planetas no Espaço representam, como o estabeleceu Azbel, (i) a extensão do nosso teclado sonoro e se encontram conforme a lei das distâncias e dos movimentos. O nosso sistema solar representa uma espécie de edifício de oito andares, isto é, oito oitavas, com uma escadaria formada de 320 degraus ou ondas harmónicas, sobre a qual os planetas estão colocados, ocupando “patamares indicados pela harmonia de um acorde perfeito e múltiplo”.

As dissonâncias são apenas aparentes ou transitórias. O acorde encontra-se no fundo de tudo. As regras da nossa harmonia musical parecem ser apenas consequência, aplicação muito imperfeita da lei da harmonia soberana que preside à marcha dos mundos. Podemos, pois, crer, logicamente, que a melodia das esferas seria inteligível para o nosso Espírito, se os nossos sentidos pudessem perceber as ondas sonoras que enchem o Espaço. (ii)

A regra geral, embora absoluta, não é, entretanto, estreita e rígida. Em certos casos, no de Neptuno, a harmonia relativa parece afastar-se do princípionunca, entretanto, de maneira a sair dele. O estudo dos movimentos planetários fornece a demonstração evidente desse facto.

Nessa ordem de estudos, mais do que em qualquer outra, vemos manifestar-se, em sua imponente grandeza, a lei do Belo que rege o Universo. Mal a nossa atenção é dirigida para as imensidades siderais, a sensação estética torna-se intensa. Essa sensação vai engrandecer-se agora e crescer, à medida que se precisarem as regras da harmonia universal, à proporção que se levantar para nós o véu que nos oculta os esplendores celestes.

Por toda a parte encontraremos essa concordância que encanta e comove; nesse domínio, nenhuma dessas discordâncias, dessas decepções, tão frequentes no seio da Humanidade.

Por toda a parte se desdobra essa potência de beleza que leva ao infinito as suas combinações, abrangendo em igual unidade todas as leis, em todos os sentidos: aritmética, geométrica, estética.

O Universo é um poema sublime do qual começamos a soletrar o primeiro canto. Apenas discernimos algumas notas, alguns murmúrios longínquos e enfraquecidos! Já essas primeiras letras do maravilhoso alfabeto musical nos enchem de entusiasmo. Que será quando, tornados mais dignos de interpretar a divina linguagem, percebermos, compreendermos as grandes harmonias do Espaço, o acorde infinito na variedade infinita, o canto modulado por esses milhões de astros que, na diversidade prodigiosa de seus volumes e dos seus movimentos, afinam as suas vibrações por uma simpatia eterna?

Perguntar-se-á, porém: Que diz essa música celeste, essa voz dos céus profundos?

Essa linguagem ritmada é o Verbo por excelência, aquele pelo qual todos os mundos e todos os seres superiores se comunicam entre si, se chamam através das distâncias; pelo qual nos comunicaremos um dia com as outras famílias humanas que povoam o Espaço estrelado.

É princípio mesmo das vibrações que servem para traduzir o pensamento, a telegrafia universal, veículo da ideia em todas as regiões do Universo, linguagem das almas elevadas, entretendo-se de um astro ao outro com as suas obras comuns, com o fim a atingir, com os progressos a realizar.

É ainda um hino que os mundos cantam a Deus, ora cântico de alegria, de adoração, ora de lamentações e de prece; é a grande voz das coisas, o grito de amor que sobe eternamente para a Inteligência ordenadora dos universos.

Quando, pois, saberemos destacar os nossos pensamentos e elevá-los para os cimos? Quando saberemos penetrar esses mistérios do céu e compreender que cada descobrimento realizado, cada conquista prosseguida nessa senda de luz e de beleza, contribui para enobrecer o nosso espírito e para engrandecer a nossa vida moral e nos proporcionar alegrias superiores a todas as da matéria?

Quando, pois, compreenderemos que é lá, nesse esplêndido Universo, que o nosso próprio destino se desenvolve, e estudá-lo é estudar o próprio meio onde somos chamados a reviver, a evolver sem cessar, penetrando-nos cada vez mais das harmonias que o enchem? Que em toda a parte a vida se expande em florescências de Almas? Que o Espaço é povoado de sociedades sem-número; às quais o ser humano está ligado pelas leis de sua natureza e de seu futuro?

Ah! Quanto são de lamentar aqueles que desviam os seus olhares desses espectáculos e o seu Espírito desses problemas! Não há estudo mais impressionante, mais comovente, revelação mais alta da ciência e da arte, mais sublime lição!

Não: o segredo da nossa felicidade, do nosso poder, do nosso futuro, não está nas coisas efémeras deste mundo; reside nos ensinamentos do Alto, do Além. E os educadores da Humanidade são muito inconscientes ou muito culpados, porque não cuidam de elevar as Almas para os cimos onde resplandece a verdadeira luz.

Se a dúvida ou a incerteza nos assediam; se a vida nos parece pesada; se tateamos na noite à procura do fim; se o pessimismo e a tristeza nos invadem; acusemos a nós próprios, porque o grande livro do Infinito está aberto aos nossos olhos, com as suas páginas magníficas, das quais cada palavra é um grupo de astros, cada letra um sol – o grande livro onde devemos aprender a ler o sublime ensinamento. A Verdade ali está escrita em letras de ouro e de fogo; chama solícita aos nossos olhos – Verdade –, realidade mais bela que todas as lendas e todas as ficções.

É ela quem nos conta a vida imperecível da Alma, as suas vidas renascentes na espiral dos mundos, as estações inumeráveis no trajecto radioso, o prosseguimento do eterno bem, a conquista da plena consciência, a alegria de sempre viver para sempre amar, sempre subir, sempre adquirir novas potências, virtudes mais altas, percepções mais vastas. E, acima da possessão da eterna Beleza, a felicidade de penetrar as leis, de associar-se mais estreitamente à obra divina e à evolução das Humanidades.

Desses magníficos estudos, a ideia de Deus se expande mais majestosa, mais serena. A ciência das harmonias celestes vale um pedestal grandioso sobre o qual se erige a augusta figura – Beleza soberana cujo brilho, muito ofuscante para os nossos fracos olhos, fica ainda velado, mas irradia docemente através da obscuridade que a envolve.

Ideia de Deus – centro inefável para onde verguem e se fundem, em síntese sem limites, todas as ciências, todas as artes, todas as verdades superiores –, tu és a primeira e a última palavra das coisas presentes ou passadas, próximas ou longínquas; tu és a própria Lei, a causa única de todas as coisas, a união absoluta, fundamental, do Bem e do Belo, que reclama o pensamento, que exige a consciência e na qual a Alma humana encontra a sua razão de ser e a fonte inesgotável de suas forças, de suas luzes, de suas inspirações.

/…

(i) Azbel, Harmonia dos Mundos, pág. 10.
(ii) “O Sr. Emílio Chizat, diz Azbel (A música no espaço), verifica que o jogo de órgão, chamado “vozes celestes”, é a aplicação musical intuitiva do papel importante das “ideias de estrela”. É provável que manifestações sinfónicas sejam feitas ulteriormente, a esse respeito, que poderão reservar ao público impressões inesperadas. Que possam elas levar os nossos músicos “terrestres”, que se extraviam, a noções um pouco mais altas e reais do sacerdócio da harmonia, que deveriam preencher entre nós.”


Léon Denis, O Grande Enigma, Primeira parte / Deus e o Universo, IV As harmonias do Espaço 2 de 2, 15º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: As majestosas e violentas palavras dos poemas, pintura em acrílico de Costa Brites)

sábado, 22 de agosto de 2015

Victor Hugo e o invisível ~


Victor Hugo e o Sentido da História |

Victor Hugo cria e sabia que a história temporal, não obstante a sua objectividade material, está destinada a voltar ao seio da história divina. Ou seja, que o efeito histórico deverá reintegrar-se no seio do divino para pôr termo a um ''tempo defeituoso'', onde o Ser se debate atacado por duas contradições existenciais.

O poeta francês compreendeu que a verdadeira poesia é uma emanação do mundo interno da natureza e que a sua essência se traduz por uma voz que sobe dos abismos da alma. Descobriu na história uma sucessão de factos cuja finalidade têm a sua raiz nos séculos palingenésicos do Ser. Viu assim que a história das existências se refunde na história dos seres espirituais, em cujo seio está a realidade divina do mundo dos espíritos.

Para Victor Hugo, o apocalipse terreno desembocava num apocalipse espiritual, dois processos que só se explicam pela lei da reencarnação. A história morre mas renasce com os espíritos; a sua objectividade está determinada pelo encarnar e desencarnar dos seres espirituais, ou seja, pela alma dos homens, antes espíritos, que encarnam e desencarnam. Kant tembém pressentiu este mesmo fenómeno ao reconhecer a realidade de um mundo invisível com a possibilidade de comunicar-se com o mundo dos homens.

A reencarnação dos espíritos é a verdadeira base da história humana, a que se mostra como processo visível na causa da história espiritual e divina que a rege. Victor Hugo acreditou nesta dualidade histórica, numa "história humana" fundada na história divina e transcendental".

A reencarnação dos espíritos é uma penetração da história divina e temporal e humana. O processo de encarnação e desencarnação a que estão submetidos os espíritos é a base real de todo o mistério histórico. E a poesia de Hugo foi como uma revelação através da qual a beleza contribuiu com o desenvolvimento da história em relação com a história espiritual e divina.

A inspiração do grande poeta francês captou nas suas bases mediúnicas que não haverá história natural e humana sem história espiritual e divina. O seu génio se transfigurou de tal modo que pôde compreender que todo o humano é um processo determinado pela reencarnação dos espíritos, ou seja, que História e Reencarnação são dois fenómenos movidos pelo mundo invisível.

Espiritismo como manifestação objectiva do Espírito de Verdade é a noção mais positiva para deixar demonstrado que o mundo dos espíritos é a base real do mundo dos homens. Opera-se assim uma transfiguração da morte pela força religiosa da mediunidade. Do contrário, o que seria a história sem a potência escatológica da mediunidade? Resultaria um fenómeno sem sentido e um processo caótico destinado à morte e ao nada.

Portanto, se a poesia de Victor Hugo foi profética é porque foi religiosa, apocalíptica porque mediúnica. Ela se uniu ao Espírito de Verdade para proclamar que Deus existe e que tudo avança progressivamente com o fim de instalar-se na Cidade dos Espíritos Puros. Os críticos esqueceram que se Hugo foi genial é porque dentro de seu ser imortal estava a luz do mundo invisível e que se a sua poesia determinou um romantismo filosófico e religioso original é porque os tripés da ilha de Jersey lhe abriram as janelas do infinito. Porque o génio de Victor Hugo sem o fenómeno mediúnico resultaria num enigma, do mesmo modo que uma nova visão histórica sem a lei da reencarnação do ser se tornaria um caos entremeado de horror e beleza.

Victor Hugo acreditava na sua espiritualidade pessoal. Achou no seu próprio ser as bases de todo um esquema metafísico e religioso do universo. Sentia-se uma força ultra-material por cujo motivo a sua carne se transfigurava. Era um vidente que via continuamente o mais além das coisas, o que o fez não se deter nos caminhos puramente materiais da vida. A existência para o poeta foi por uma senda que conduz ao conhecimento dos grandes enigmas da natureza.

O seu génio jamais repeliu o cristianismo; pelo contrário, viu na doutrina de Jesus a mais alta e acabada expressão das divinas revelações. Por isso, a sua criação poética e literária difere da dos seus colegas, que consideravam o homem somente um fenómeno fisiológico. O seu lema era: "Existir para a Verdade", mas este existir não se apoiava na efémera vida material. Ele pressentiu um existir infinito relacionado com o mistério do universo. A vida para o poeta era uma espiritualidade invencível e triunfante.

Acreditava no eterno porque via na natureza e na história um princípio imortal, o que o fez ter fé nessa verdade inalterável procedente de Deus. Acreditou nos "espíritos" da terra e do ar, da água e do vento, como os iniciados medievais. Desde a sua infância, cultivou uma filosofia espiritualista, que confirmou experimentalmente ao conhecer a mensagem que lhe ditaram os tripés na ilha de Jersey.

Auguste Vacqueire, no seu livro As migalhas da História, escreveu afirmando que Victor Hugo era Espírita, como o foram Théophile Gautier, Victorien Sardou, Giuseppe Mazzine, Camille Flammarion e outros pensadores dos fins do século XIX. Acreditou realmente na imortalidade da alma e na sua evolução palingenésica. Émile de Girardin e Eugénio Nus deram também testemunho das suas convicções espirituais, como foi confirmado na edição de 7 de Maio de 1899 do "Les Annales Politique et Litteraire".

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Humberto MariottiVictor Hugo Espírita, Victor Hugo e o Sentido da História, 12º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: Criança com uma boneca, pintura de Anne-Louis GIRODET-TRIOSON)

terça-feira, 11 de agosto de 2015

O Génio Céltico e o Mundo Invisível ~


Capítulo VIII

Palingenesia: preexistências e vidas sucessivas. A lei das reencarnações (II)

   Após um tempo de permanência e repouso no Espaço, a alma, dizem os espíritos, deve renascer na condição humana. Ela leva consigo toda a herança do passado, bom ou mau, e volta para adquirir novos poderes, novos méritos que facilitarão a sua ascensão, a sua marcha para a frente. E assim, de renascimento em renascimento, o espírito progride, eleva-se, sobe na direcção desse ideal de perfeição que é o objectivo de toda evolução universal.

   A Terra é um mundo de provas e de reparação, onde as almas se preparam para uma vida mais elevada. Não há iniciação sem provas, nem reparação sem dor. Elas, sozinhas, podem purificar a alma, sagrá-la, torná-la digna de penetrar nos mundos felizes. Esses mundos, ou sistemas de mundos, são dispostos no Universo em planos ou graus sucessivos. As condições de vida nesses planos são tanto mais perfeitas e mais harmónicas quanto mais acentuada é a evolução dos seres que os povoam. Ninguém se eleva para um grau superior a não ser quando adquiriu, na fase precedente, as perfeições inerentes a esse meio.

   Ora, a variedade quase infinita e a desigualdade das condições de existência sobre a Terra não permitem crer que nela se possa adquirir as qualidades necessárias no decorrer de uma só vida. É preciso, para a grande maioria dos homens, uma sucessão de vidas, bem vividas, para realizar esse estado de subtileza fluídica e de maturidade moral que lhes permitirá penetrar nas sociedades mais avançadas.

   Daí resulta que, se todas as almas terrestres fossem indistintamente chamadas a renascer no seio das sociedades superiores, essas seriam contaminadas e o plano geral de evolução estaria alterado, inteiramente falsificado.

   Essa maneira de ver esse juízo são confirmados pelo atestado de inúmeros parentes e amigos mortos com os quais me foi possível relacionar no decorrer de minha longa vida.

   É-nos feita a objecção de que isso não acontece por toda a parte. Na Inglaterra e na América do Norte diz-se que certos espíritos ficam em dúvida e negam a necessidade de renascimentos na Terra. Essa contradição aparente é o principal argumento dos adversários do Espiritismo de Kardec.

   Se examinarmos a questão de perto, um facto aparece de início: é que todos esses espíritos, opostos à ideia da reencarnação, pertencem, no mundo, ao culto protestante. Sabe-se que essa forma de Cristianismo dá aos seus adeptos uma educação religiosa muito rigorosa e intensa, uma fé robusta cujas tendências e pontos de vista se prolongam com tenacidade na vida no Além.

   O Protestantismo ensina que a morte da alma é julgada de um modo definitivo e fixada para a eternidade no paraíso ou no inferno.

   O protestante não ora para as almas dos mortos, a sua sorte é irrevogável. Uma doutrina rígida que elimina a alma culpada de toda a possibilidade de reparação e retira de Deus o prestígio sublime da misericórdia e do perdão. Com ela, nenhum meio há para voltar à Terra.

   O Catolicismo, ao menos, pela noção de purgatório, abre uma saída à redenção possível, e certos sacerdotes vêem nessa teoria uma eventual aproximação com o Espiritismo, se a Igreja algum dia chegar a atenuar a sua intransigência e reconhecer que o purgatório, esse lugar de reparação, é a própria Terra, pelo processo dos renascimentos.

   Pode então explicar-se, pelos preconceitos dogmáticos inveterados, a oposição de certos espíritos, nos meios protestantes, à lei das reencarnações.

   Mas, dir-se-á, já que todo o passado está escrito em nós, na nossa consciência profunda, como demonstram as experiências de exteriorização – sendo a morte a exteriorização completa e persistente – como é que esses espíritos se podem enganar sobre a natureza desse passado e a forma de seu futuro?

   Sim, sem dúvida, todo o passado está escrito em nós, como num livro, nos recônditos ocultos da memória subconsciente. Mas do mesmo modo que para se ler um livro é preciso, inicialmente, abri-lo, depois querer e saber lê-lo, para explorar as profundezas do ser é necessário um acto de vontade. É por esse processo que o hipnotizador obtém do paciente a reconstituição de suas vidas passadas. Não nos ocorre, sermos obrigados a fazer um esforço mental, esforço repetido e prolongado, para voltar a fixar, na vida actual, as lembranças adormecidas?

   Muitas pessoas imaginam que a morte é como um véu que se destrói e que uma viva luz logo aparece sobre todos os problemas que lhe concernem. Erro grave, pois é lentamente, por todo um trabalho interior, por observações, por comparações repetidas que a alma do morto se liberta, pouco a pouco, das rotinas, dos preconceitos das falsas noções que a educação terrestre acumulou sobre ela. No entanto, ainda é preciso, para isso, a assistência e o concurso de espíritos mais adiantados.

   Mas, como nos diz Allan Kardec, o espírito, na sua volta ao espaço, procura os grupos de almas em vibração harmónica com os seus próprios modos de ver e com os seus sentimentos; ele se associa à vida espiritual e, desde então, confinado nesse meio ambiente particular, pode persistir, por muito tempo, nos erros e nos costumes comuns.

   Todos os espíritas conhecem esse estado de alma que se revela nas comunicações do além e desejam, às vezes, provas originais de identidade que não são sem interesse e sem lucro, sob o ponto de vista da demonstração da sobrevivência.

   Durante as minhas experiências encontrei, às vezes, espíritos dessa natureza, que não se lembravam de ter vivido muitas vezes na nossa Terra e que negavam, de bom grado, o princípio das existências sucessivas. Eu os convidei, então, a pesquisar no âmago escondido de seu subconsciente e a procurar os traços de suas vidas anteriores. Nas reuniões seguintes eles vinham declarar-me que tinham encontrado esses resquícios e podiam retomar o fio de seus últimos renascimentos. Pude observar que esses espíritos eram, geralmente, de ordem inferior. Os seus antecedentes, pouco importantes, se reuniam em várias existências de paixão, de violência, de desordem, fontes de amargos desgostos no além.

   Não está no meu pensamento comparar esses espíritos atrasados com aqueles de origem anglo-saxónica, de que falei mais acima. Aqueles possuem, talvez, as riquezas ocultas, intelectuais e morais cuja importância eles ignoram. Eu exorto os nossos amigos de ultramar para que realizem pesquisas metódicas, uma análise profunda das suas faculdades e de suas lembranças. O encadeamento de suas existências terrestres, então, se reconstituirá e nós chegaremos, assim, à unidade de pontos de vista susceptível de dar à doutrina das vidas sucessivas toda a sua autoridade, toda a sua amplitude. Para isso bastará pôr em acção esta alavanca incomparável: a vontade!

   Notemos, aliás, que, desde há cinquenta anos, a crença na pluralidade das vidas da alma na Terra não cessou de aumentar nos Estados Unidos e na Inglaterra. Ela contava, há trinta anos, com alguns representantes isolados, enquanto que hoje, com a própria advertência dos espíritas ingleses, cerca de metade entre eles admite a volta possível, às vezes necessária, da alma sobre a Terra.

   Eis, a propósito, a opinião de dois representantes, os mais autorizados e os mais ilustres, do pensamento espiritualista britânico, formulada em obras recentes.

   O prof. Sir William Barrett, da Universidade de Dublin, escreveu no seu livro No Limiar do Invisível, páginas 214 e 215:

   “Opunha-se à ideia de reencarnação o esquecimento total das nossas existências passadas, mas isso pode ser somente um eclipse temporário. É possível que a lembrança de nossas vidas anteriores nos retorne, pouco a pouco, durante os nossos progressos espirituais, à medida que atingimos uma vida mais ampla, com uma consciência mais extensa.”

   E ele acrescenta uma citação do Sr. Massey, afirmativa e explicativa, sobre a reencarnação na Terra:

   “A razão da reencarnação tem a sua fonte na atracção que o nosso mundo exerce. O que nos trouxe aqui uma vez nos reconduzirá, sem dúvida, outras vezes, enquanto a causa que nos impulsiona não tenha mudado. Só a regeneração, isto é, a renovação de nossa natureza é que nos isenta da reencarnação.”

   Nos seus estudos sobre os múltiplos aspectos da personalidade humana, Sir Barrett também dizia:

   “Os casos de invasão psíquica tornam compreensíveis as reencarnações carnais.”

   De sua parte, Oliver Lodge, reitor da Universidade de Birmingham, escreveu na sua obra Evolução Biológica e Espiritual do Homem:

   “Pode admitir-se, em certos casos, a possibilidade das encarnações, não somente de uma sucessão de indivíduos do tipo ordinário, mas também de verdadeiros grandes homens.”

   Ele acreditava na reencarnação fragmentária, que lhe parece aplicável ao caso de Cristo.

   Já Stainton Moses, com o pseudónimo de Oxon, professor da Universidade de Oxford, que foi um dos propugnadores mais estimados da ideia espírita no seu país, escrevia nos seus Ensinos Espiritualistas as seguintes linhas, obtidas pela sua própria mediunidade:

   “A criança (o ser humano) não pode obter o amor e a ciência a não ser pela educação adquirida em uma nova vida terrestre. Uma tal experiência é necessária e numerosos espíritos escolhem um retorno à Terra a fim de alcançar o que lhes falta.”

   Fredrich Myers, na sua obra magistral A Personalidade Humana, capítulo X, expressa a mesma opinião e diz:

   “A doutrina da reencarnação não contém nada que seja contrário à melhor razão e aos mais elevados instintos do homem.”

   Ele volta a tratar da evolução gradual (das almas) em numerosas etapas “a que é impossível de assinalar um limite”.

   Quanto à América do Norte, poderíamos citar várias obras editadas nesse país que demonstram que a ideia da reencarnação também segue o seu caminho e que as mensagens dos espíritos que afirmam os renascimentos terrestres são cada vez mais frequentes, como se pode observar na maioria das revistas espiritualistas de língua inglesa. O mesmo movimento de opinião ressalta do acolhimento feito à tradução do meu livro O Problema do Ser e do Destino, pela Sra. Wilcox, sob o título Life and Destiny, editado em Londres e em Nova Iorque.

   É evidente que essa grande verdade foi durante muito tempo apagada pelo trabalho lento e oculto dos séculos, porque cada vez que nós a afirmamos, nos defrontamos com objecções que denotam um esquecimento completo.

   Entretanto, não se deve perder de vista que essa doutrina permanece activa no oriente. No momento actual, das Índias ao Japão, oitocentos milhões de asiáticos conhecem e aceitam a lei dos renascimentos. Bramanistas, budistas, xintoístas, adoptam essa mesma crença, o que lhes assegura uma certa superioridade de pontos de vista. O Alcorão, nas suas primeiras “suratas”, também afirma que é possível a reencarnação, na Terra, de muitos adeptos do profeta (Maomé).

   E sem pesquisar a fundo, entre nós mesmos e nos nossos dias, longa seria a lista de homens ilustres que aceitaram essa crença, desde Victor Hugo, Charles Bonnet, Pierre Leroux, Jean Reynaud até Mazzini e Flammarion. A maioria não teve necessidade de provas experimentais. O uso de sua razão, liberta das rotinas de escola e dos sofismas, e o panorama da vida, se desenvolvendo em volta deles, lhes foram suficientes para discernir as leis. Eles foram seduzidos pela beleza e pela grandeza desta evolução que faz do homem o autor de seu próprio destino. A alma, pensavam eles, constrói o seu futuro por meio de vidas renascentes; ela desenvolve as suas faculdades e a sua consciência pelo trabalho, pela prova, pela dor, cinzel divino que lhe comunica as suas belas formas. Ela se depura, se eleva, se interpenetra dos esplendores da natureza, se inicia nas suas leis e participa, na medida de sua potência crescente, da ordem e da harmonia universal.

   Para esses precursores, como para nós, espíritas, esta revelação, seja intuitiva, seja vinda do Alto, dissipou como uma neblina as hipóteses fantasiosas e as negações estéreis. A vida e a morte mudaram de situação: esta não é mais do que a transição necessária entre as duas formas alternativas de nossa existência: visível e invisível. A vida é a conquista das riquezas imperecíveis da alma, das forças radiantes e das qualidades morais que assegurarão a sua situação no além e lhe prepararão as melhores reencarnações na Terra e em outros mundos. Assim, o pessimismo sombrio se esvai para dar lugar à confiança, à alegria de viver na tarefa bem cumprida, à satisfação do dever bem realizado, com as perspectivas de um futuro sem limites e a ascensão gradual e radiosa de círculos em círculos, de esferas em esferas, em direcção ao foco divino.

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LÉON DENIS, O Génio Céltico e o Mundo Invisível, Segunda Parte – Capítulo VIII Palingenesia: preexistências e vidas sucessivas. A lei das reencarnações (2 de 5) 25º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: A Apoteose dos heróis franceses que morreram pelo seu país durante a guerra da Liberdade, pintura de Anne-Louis Girodet-Trioson)

sábado, 1 de agosto de 2015

O peregrino sobre o mar de névoa ~


Situação perigosa dos médiuns de cura |

A rejeição pura e simples do meio científico ao facto inegável das curas mediúnicas cria para os médiuns de cura uma situação perigosa, que geralmente os afecta perturbando-lhes o necessário equilíbrio psíquico, deformando-lhes o comportamento social e prejudicando-lhes a própria faculdade curadora. No nosso livro Arigó, Vida, Mediunidade e Martírio, sobre o médium Arigó, de Congonhas do Campo, Minas Gerais, tivemos a oportunidade de examinar este assunto de perto, em todas as suas minúcias, por antecipação e, depois, acompanhando as pesquisas realizadas no local pela equipa de cientistas norte americanos de várias Universidades, incluindo elementos da NASA, como Andrija Puharich e John Laurence, o primeiro médico e engenheiro electrónico, e o segundo, biofísico e manager da secção de satélites artificiais da NASA, que, cumulativamente, nos informaram da existência do caso similar de Agpoa nas Filipinas.

Nestes dois casos, justamente famosos, os dois médiuns, sofreram debaixo da pressão constante de elementos exploradores e com as campanhas difamatórias do clero católico, a perseguição por várias instituições médicas, não obstante numerosos médicos brasileiros e estrangeiros tenham comprovado a realidade das curas.

Com médiuns de cura das zonas rurais, como no caso da médium Bernarda Torrúbio, em Garça, na Alta Paulista, os factos não tiveram grande divulgação, o que os preservou e geralmente os preserva das perturbações, de campanhas e de perseguições. Congonhas é uma cidade modesta, mas a sua proximidade com Belo Horizonte, capital do Estado de Minas Gerais, expunha demasiadamente Arigó a pressões insuportáveis. Quando Arigó morreu, num trágico acidente de automóvel na estrada entre Congonhas e Conselheiro Lafaiete, o bispo D. Vicente Scherer, de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, descarregou sobre o seu cadáver uma série de acusações caluniosas, sem um pingo de piedade cristã. Nem a morte livrou o médium e a sua família das consequências da sua actividade curadora.

A primeira cura feita por um médium, não raro de maneira inesperada, lança-o na senda das fascinações perigosas. Ele se sente escolhido por Deus, colocado acima do comum da humanidade, detentor de dons divinos. O fermento velho das religiões salvacionistas cresce no seu inconsciente, levedando-lhe a vaidade natural do homem. Pouco a pouco os necessitados aglomeram-se à sua volta. O atendimento torna-se difícil, em virtude do aumento sempre crescente dos necessitados. Amigos da onça o adulam, propagam os seus feitos, exaltam os seus dons. E, para facilitar a consulta de amigos e parentes, começam a levar-lhe presentes. O médium, que já se considera agraciado por Deus, não estranha que todos queiram agraciá-lo também. Se ele receita, os propagandistas de laboratórios levam-lhe as suas amostras, tratam-no como se ele fosse um médico na sua clínica e acabam oferecendo-lhe comissões, o que ele geralmente rejeita. Mas os amigos e os parentes o incitam a não ser tolo, a aproveitar enquanto é tempo, pois a mediunidade pode enfraquecer-se ou esgotar-se amanhã. Ele deve cuidar do seu futuro, pois os seus protectores espirituais não podem querer o seu desastre e ele mesmo não tem o direito de rejeitar as oportunidades de progresso. No torvelinho de súplicas, elogios, favores e atenções que o envolvem, o médium acaba aceitando as sugestões inferiores e escorrega na beira do abismo. As injustiças dos adversários o irritam, as perseguições o aturdem. Ele acaba por se entregar às fascinações e perverter as suas faculdades. Foge das pessoas que o auxiliaram nos primeiros tempos, considera-as suspeitas. Os políticos o assediam, tratando-o com deferências especiais que lhe estimulam a vaidade. Os seus dons se enfraquecem pelo próprio desgaste físico a que tem de se entregar para atender a todos. Para suprir as deficiências que nota nas suas próprias funções mediúnicas, inventa ou aceita expedientes escusos. Consuma-se, assim, o desvirtuamento do médium, que daí por diante fica entregue às feras que o irão devorar.

Isso acontece também com os sacerdotes terapeutas de todas as seitas e religiões milagreiras. Não se trata de um problema de ordem divina, sobrenatural, mas de um problema puramente humano. O médium não é um santo. É simplesmente um paranormal, uma criatura em que as funções terapêuticas da natureza humana, conhecidas e aceites no meio científico, se exteriorizam, exercendo influências nas pessoas em que essas funções defensivas do organismo se encontram em estado latente. Reduzida a apenas esses aspectos psicofisiológicos, a cura espírita não seria condenada, mas quando os espíritas afirmam, baseados em pesquisas e experiências científicas, mesmo que realizadas por cientistas eminentes, que a extroversão das forças curadoras é provocada por acção de entidades espirituais, o pavor dos fantasmas faz os homens mais graves perderem a cabeça. O médium transforma-se em bruxo ou lobisomem e as superstições da selva invadem os laboratórios. É o terror-pânico da sobrevivência humana que se manifesta, exigindo a acção das autoridades policiais contra os médiuns, já que não pode ser contra os espíritos. Num episódio curioso, o Dr. Silva Mello, confessando-se materialista congénito, classificou os médiuns como alienados mentais. Mas, inadvertidamente, contou que ele mesmo tinha medo de dormir no escuro. O Dr. Sérgio Valle, espírita, devolveu o diagnóstico ao autor, provando por esse e outros motivos que ele também era médium e temia a aproximação dos espíritos. Alienação por alienação, ficaram ela por ela. O saudoso e famoso Dr. Henrique Roxo, glória da psiquiatria nacional, considerou os médiuns como delirantes, sujeitos ao delírio espírita episódico. O seu discípulo mais dedicado e fiel, Dr. Lauro Gallwes, tornou-se espírita e contou num dos seus livros que o Dr. Roxo chegou ao fim de sua vida aceitando a realidade espírita. O mesmo já acontecera com Lombroso, RichetWilliam CrookesPaul GibierGustave Geley e tantos outros, pelo mundo inteiro, provando a fragilidade das construções científicas aparentemente inabaláveis. Hoje, Remy Chauvin denuncia a existência de uma doença típica do meio científico, a alergia ao futuro. Os cientistas alérgicos ao futuro sofrem também de autofobia, como observou Denis Bradley, pois temendo o espírito temem a si mesmos. Uma tragicómica situação que o avanço das ciências vai desmanchando na esteira do tempo.

Os cientistas que se apegam freneticamente aos métodos sensoriais da ciência académica revelam falta de percepção extra-sensorial, o que vale dizer falta de agudeza mental. A função da inteligência não é arrastar-se como insectos na casca da laranja, mas perfurá-la e descobrir o que existe no seu interior. Esses cientistas sistemáticos assemelham-se aos clérigos dogmáticos que não buscam a verdade, mas apenas a confirmação de princípios estabelecidos. Por isso a Ciência se volta muitas vezes contra si mesma, empregando anátemas e excomunhão contra os que rejeitam o credo fideísta. Há uma simbiose cultural dos opostos que gera a dialéctica do absurdo no campo cultural. A Ciência fixou-se, para desenvolver-se com segurança, no conceito do concreto. A fé científica repousa na realidade material. A Religião firmou a sua fé no conceito do abstracto. Da luta entre ambas resultou a assimilação recíproca de atitudes intransigentes. Essa barreira artificial contra a busca isenta e pura da verdade gerou um clero científico que se compraz com a condenação dos que se atrevem a mostrar-se criativos e não apenas repetitivos. A História das Ciências tem episódios medievais, como nos casos de Pasteur e Kardec, os dois atrevidos descobridores de mundos invisíveis e imponderáveis. O medievalismo, com o seu ideal totalitário de homogeneização do pensamento, pesa ainda na nossa consciência e prejudica o avanço científico de alguns sectores culturais onde sobrevivem os antigos carrascos da fogueira e do garrote vil. É inacreditável a certeza com que certos cientistas negam a existência do espírito baseados apenas em pressupostos doutorais. Quando o bispo de Barcelona queimou as obras de Kardec em praça pública (por não poder queimar o próprio), este declarou que a cauda da Inquisição ainda se arrastava pela Espanha. Historicamente essa cauda de sáurio enraivecido continuou a arrastar-se pelo mundo e esfacelou a Europa nos horrores do fascismo nazi.

O médium Arigó, preso na cadeia de Conselheiro Lafaiete, chamava os demais presos de colegas. Ao ser libertado, levou outros libertos para as suas terras em Congonhas e os manteve ali como colegas de trabalho na roça. Dizia sempre aos que o condenavam por isso: “São meus colegas, gente boa que só ficou ruim por causa da miséria.”

Essa atitude do médium roceiro e semi-alfabetizado devia servir de exemplo aos cientistas ilustres que hoje condenam os seus colegas corajosos que rasgam as perspectivas do futuro. É recente o episódio dos psicólogos norte-americanos que condenaram as pesquisas parapsicológicas, confessando não terem lido um só livro sobre o assunto. Rhine declarou apenas isto: “Esses cientistas descobriram um meio anticientífico de tratar de Ciência.”

Os homens vangloriam-se de arrancar os segredos da natureza, de a fazerem falar através dos seus métodos de pesquisa. Mas a verdade é outra. A Natureza não nos esconde nada. Hegel viu isso com clareza ao tratar do reino vegetal, definindo a árvore como um acto permanente de doação. Os demais reinos também se abrem para o homem, revelam-lhe as suas entranhas, convidando-os a aprender no livro aberto do mundo, de que falou Descartes ao sair do Colégio Jesuíta de La Fleche. O próprio Céu está hoje aberto ao homem, revelando-lhe os seus mistérios e oferecendo-lhe as rotas estelares. Bacon compreendeu com ajuda da intuição e reconheceu que toda a Ciência Humana não é mais do que um acto de obediência. O homem só não aprende, como aconteceu com os escolásticos, quando rejeita a liberalidade da natureza e se engolfa orgulhosamente em si mesmo, forjando sistemazinhos absurdos, estreitos leitos de Procusto, como observou Cassirer, nos quais espreme ou espicha, corta ou arrebenta os factos empíricos que não se sujeitam aos seus caprichos. Essa é a Tragédia da Cultura, não produzida pelo acúmulo de conhecimentos, como quer o filósofo, mas por desobedecer à natureza e torcê-la de acordo com as suas ideias e suposições geralmente ridículas.

No seu próprio caso o homem mostra-se rebelde. A natureza Humana não é menos pródiga do que a Natureza Geral. Desde que o mundo é mundo a natureza humana se abre ao homem revelando-lhe a sua essência espiritual, tão perene e imortal como a de todas as coisas e seres. Mas o homenzinho rebelde prefere considerar-se uma excepção orgulhosa. Se tudo é indestrutível, ele prefere considerar-se mortal,  que volta ao pó, luminescência esquiva e passageira no esplendor do Universo. A morte destrói as gerações, mas os homens voltam através de aparições, manifestações sensíveis, materializações, ressurreições tangíveis, como a de Jesus, mas os homens preferem a morte à ressurreição, fazem-se agéneres (seres não-gerados), que eles incluem nos seus fabulários ingénuos.

De onde vem essa relutância do homem ante os fenómenos naturais, mil vezes provados, comprovados e repetidos nas observações naturais e nas pesquisas de laboratórios? Da vaidade. Único ser pensante e racional no nosso mundinho sublunar, miserável subúrbio do cosmos, o homem se envaidece da sua capacidade de pesar e medir as coisas, como se isso bastasse para lhe dar a supremacia absoluta no Universo.

Os médiuns de cura sabem muito bem que nada podem fazer se não tiverem a assistência dos espíritos terapeutas que os envolvem no seu magnetismo perispirítico, descarregando energias espirituais e físicas nos organismos doentes e perturbados para restabelecer-lhes o equilíbrio abalado. Não obstante, julgam-se senhores do poder curador. Esse desequilíbrio mental, provocado pelo orgulho – engorgitamento mórbido do eu inferior –, anula os efeitos curativos no choque fatal das vibrações doentias em conflito. As ambições do poder, a ganância e a superioridade confundem-lhe a mente, levando-o ao fracasso e às tentativas inúteis de socorro e ajuda. Ele se transforma em explorador das esperanças e da fé dos doentes, emparelhando-se com estes no desequilíbrio inevitável. Essa queda do médium, que os espíritos benevolentes não podem impedir, para não anular a experiência necessária, reflecte-se negativamente no plano moral e social, invertendo os efeitos intencionais da sua prática terapêutica, em prejuízo moral e social do despertamento espiritual. Essa é a queda do médium, mais grave que a queda de Adão e a queda social de Rousseau. O fracasso do médium representa, por sua vez, a queda dos que depositavam nele as suas esperanças. É dever dos estudiosos aprofundar essas questões doutrinárias, colocando o problema em termos racionais, sem a precipitação nas ameaças de um misticismo alienante e ingénuo. O Espiritismo exige a verdade nua e crua. Os que temem expor a verdade não podem servir à Ciência Espírita. A verdade é o objecto imediato da Ciência. Sem ela, a Ciência é impossível. Não podemos ter nenhuma certeza no campo do saber se não dispusermos de provas daquilo que afirmamos. Mas há vários tipos de verdade, o que permitiu aos sofistas gregos jogar com as palavras a respeito do problema, até que Sócrates descobriu a maiêutica e aplicou esse método aos faladores perguntando-lhes sempre: “O que é isso?” Obrigados a definir os seus conceitos, os sofistas tiveram de calar ou fugir da sua presença. Como Jesus tratasse da Verdade, Pilatos lhe perguntou o que era a verdade e Jesus não lhe respondeu. Diante disso, muita gente entendeu que a verdade é inexplicável. Ora, uma verdade inexplicável jamais seria verídica. Jesus não respondeu porque Pilatos, envolvido na mentira do complô romano-judaico contra a sua pessoa, não estava em condições de compreender a verdade. O poeta Cleómenes Campos, num pequeno poema sobre esse episódio, escreveu:

Jesus não respondeu.
Foi como se dissesse: “A verdade sou eu.”

Jesus pregava aos homens a verdade da vida humana e os seus objectivos, que decorriam da Verdade Suprema de Deus. Como explicar isso a um romano que ia entregá-lo à crucificação para defender a mentira?

A verdade é uma questão de relação do pensamento com a realidade. Se essa relação é pura, directa, sem deformações interesseiras, ela é a verdade. Por exemplo: se vemos uma pedra e a reconhecemos como pedra, dizendo “vejo uma pedra”, essas palavras são a verdade da nossa percepção e podemos prová-lo facilmente. Mas se vemos uma nuvem e dizemos que se trata da deusa Juno, enganamo-nos, mentimos e não temos nenhuma possibilidade de provar o que afirmamos. Todas as civilizações, desde as mais primitivas às mais adiantadas, foram entretecidas de mentiras e verdades, de ilusões e realidades. Segundo Toynbee, cada civilização se apoia numa grande religião, herdando os seus vícios e virtudes. A corrida para o materialismo, nos últimos séculos do nosso desenvolvimento científico, foi impulsionada pela necessidade de separar o joio do trigo, as mentiras e ilusões da realidade e da verdade. As religiões apoiaram-se no pressuposto da fé, fundada nas revelações espirituais de profetas e messias. Criaram assim, sobre o mundo real, um mundo fictício de pseudo-verdades, toda uma imensa rede de símbolos pré-lógicos, por isso mesmo contraditórios entre si. Nem mesmo o desenvolvimento da lógica escolástica, na Idade Média, conseguiu sanar essa situação cultural alienante. Os pressupostos da fé pela fé, amparados no princípio teológico do credo quia absurdum (creio, mesmo que absurdo) fortaleceram a rede fantasiosa de crenças, mitos e ritos sagrados. O conceito do sagrado impediu, com as condenações violentas, a busca da verdade e qualquer possibilidade de esclarecimento total desse mundo de fascinações.

Surgindo na era científica, em meados do século XIX, o Espiritismo se opôs, ao mesmo tempo, ao religiosismo alienante e ao materialismo exclusivista. Kardec abriu a brecha espírita nesses maciços milenares, estabelecendo o critério da razão na busca da verdade. Sustentou o princípio dialéctico da constituição do mundo por dois elementos fundamentais: espírito e matéria. Dessa colocação, válida e confirmada nos nossos dias, nasceu a Ciência Espírita, armada com os métodos da pesquisa científica dos fenómenos e com os processos da cogitação filosófica livre de pressupostos e preconceitos. A Ciência académica rejeitou a dualidade espírito-matéria, sustentando o monismo materialista, mas o avanço das pesquisas no nosso século acabaram por dar razão à Ciência Espírita. A concepção monista permanece válida, mas em termos de estrutura orgânica da realidade; Espírito e matéria preenchem o cosmos, sendo o espírito o elemento estruturador da matéria. A verdade brota naturalmente das pesquisas científicas da realidade objectiva. O sonho dos fisiólogos gregos realiza-se hoje, plenamente, no desenvolvimento das pesquisas fenoménicas da Ciência Espírita. A Parapsicologia actual é simplesmente o elo de ligação da Ciência Académica com a Ciência Espírita. Sem esse elo, os dois campos científicos permaneceriam separados, impedindo a visão global da realidade, necessária à compreensão verdadeira do mundo, do homem e da vida.

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José Herculano Pires, Ciência Espírita e suas implicações terapêuticas, Situação Perigosa dos Médiuns de Cura, 20º fragmento da obra.
(imagem de contextualização: O peregrino sobre o mar de névoa, pintura de Caspar David Friedrich)